Resumo

Neste artigo, falaremos sobre a importância da Crítica Textual para o estudo da Literatura a partir de algumas de suas contribuições para o ensino, a pesquisa, a preservação e a divulgação de textos literários. Serão dados exemplos retirados do corpus de preparação da edição crítica de Papéis Avulsos, coletânea de contos de Machado de Assis, e do corpus de preparação da edição crítica com viés genético das narrativas de viagens de Eça de Queirós.

Introdução

[...] não há um campo sério das Humanidades que se entregue ao imediato e atual apenas. É parte de sua natureza o interesse por fenômenos de longa duração, senão eternos, como almejam as grandes obras de arte. [...] Alcir Pécora, Letras e Humanidades depois da crise

A Crítica Textual e, para o seu exercício, o necessário estudo da transmissão de textos através dos tempos dialogam com o trecho retirado da brilhante e aplaudidíssima palestra proferida pelo renomado professor da UNICAMP, Alcir Pécora, em 2015, na Universidade de São Paulo, durante o XXX Encontro Nacional da ANPOLL.1 Certamente, não podemos pensar em Crítica Textual sem pensarmos em historicidade. Por meio da Crítica Textual, podemos estudar não só a transmissão de textos como também sua gênese, sua recepção, sua interpretação, seu contexto de escritura e de publicação. Os textos como nós, seres humanos, não estão inumes à ação do tempo, o famoso e terrível Cronos da mitologia grega que a tudo modifica e, por fim, a quase tudo devora. Ler e folhear as páginas de uma edição crítica é – de certa forma – viajar no tempo, mas, sobretudo, é ter acesso a um passaporte que nos dará direito a conhecer marcas de temporalidades diversas que somadas são e serão contribuições bastante significativas para o estudo de um texto ou de textos que compõem a história da transmissão e – por que não dizer? – da leitura de obras que fazem parte ou que poderão fazer parte, por meio de sua restauração e posterior divulgação, do patrimônio cultural da humanidade.

Em Fundamentos da Crítica Textual, de Barbara Spaggiari e Maurizio Perugi (2004: 176), há uma citação de Ivo Castro, professor da Universidade de Lisboa e Coordenador da prestigiosa Equipa Fernando Pessoa, que diz:

Não estamos longe, nas literaturas de língua portuguesa, da situação que desde há várias décadas é normal no mundo de língua inglesa ou em Itália: um escritor, antigo ou moderno, não é verdadeiramente respeitável enquanto não tiver a sua obra coada pelos filtros da Crítica Textual.

Apesar do que dissemos nas palavras de abertura deste artigo, tal afirmação do renomado professor Ivo Castro, num país como o nosso, em que o estudo da Crítica Textual, a despeito de sua inegável importância, ainda não foi suficientemente divulgado para fora dos muros das universidades e mesmo – devemos dizê-lo – no meio acadêmico, pode parecer um exagero. Contudo, quando nos lembramos que, nos finais dos anos 50, do hoje quase longínquo século XX, foi criada, no Brasil, pela portaria número 483, do então Ministério da Educação e da Cultura do governo Juscelino Kubitschek, a Comissão Machado de Assis com a “finalidade de elaborar o texto definitivo das Obras de Machado de Assis”, conforme podemos ler em Assis (1977: 5), passamos a compreendê-la e a aceitá-la sem maiores surpresas, resistências ou hesitações.

E por falar na saudosa Comissão Machado de Assis, lembramos aqui um trecho, o final, da criteriosa e detalhada Introdução Crítico-Filológica que abre as edições críticas por ela preparadas. A citação foi retirada de Assis (1977: 56-57):

[...] Visa-se, com esse texto, a fornecer a versão mais próxima do que teria desejado e realizado o autor – com suas contradições de pessoa que, vivendo num ambiente linguístico, o assimilou em contatos culturais os mais vários, de classe, de profissões, de instruções, de idades, de sexos, de meios, ademais de tentar até certo ponto, intemporalizar-se, com encampar características linguísticas de épocas literárias pregressas, sem falar na provável eventualidade de que terá tido contato com indivíduos falantes de outras áreas dialetais da língua, e de outras línguas. Essa versão textual, se obtida – como o espera a Comissão -, é fonte sobre a qual, legitimamente, se podem exercer todas as pesquisas e estudos – linguísticos, estilísticos, estéticos, éticos, históricos, sociais, e o que mais for. Não se trata, numa edição como esta, de resolver todos os problemas que um texto, e um contexto, e uma obra encerram – coisa, aliás, que não se esgota nunca, pelas potencialidades de atualização (isto é, de eficácia para a ação presente) que se encerram em obras tais. Trata-se, isto sim, de ministrar a base mínima fundamental – mas sólida – que toda comunicação linguística exige para sobre ela poder tomar-se alguma conclusão válida: a fidedignidade e a fidelidade ao seu criador, nas condições essencialmente contraditórias de sua contingência humana.

Como podemos facilmente notar, esta última citação dialoga harmoniosamente com a afirmação de Ivo Castro, citada por Spaggiari e Perugi, como também com a referência à historicidade presente na epígrafe que abre este trabalho, retirada de uma palestra de Alcir Pécora. Contudo, em se tratando de edições críticas, tanto para a Comissão Machado de Assis como para Ivo Castro, coordenador de uma das equipes de edição crítica, em língua portuguesa, mais prestigiosas da atualidade, o texto estabelecido pelo crítico textual ou filólogo é a base mínima para que possamos ler o que os autores e/ou as autoras efetivamente escreveram, o que dizemos também tendo por base palavras de Ivo Castro, desta vez, retiradas do livro Editar Pessoa, publicado em 1990, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda de Lisboa, Portugal.

Machado de Assis, além de ser quase uma unanimidade entre o público leitor em nosso país, sendo que muitos o consideram como o maior escritor brasileiro de todos os tempos, vem ganhado terreno no mundo não falante, pelo menos nativo, de língua portuguesa e a obra de Machado de Assis, assim como a de Eça de Queirós são cada vez mais objetos de estudos, de cursos de professores brasileiros e portugueses em universidades dos Estados Unidos e da Europa, além de serem traduzidas para várias línguas. Nesse sentido, é muito importante que a obra de Machado de Assis e a de Eça de Queirós tenham passado ou passem pelos filtros da Crítica Textual.

1. Breves considerações sobre transmissão e a respeito da edição crítica de Papéis Avulsos que está sendo preparada pelo Laboratório de Ecdótica da UFF

Em relação a edições da obra de Machado de Assis, devemos destacar as da Comissão Machado de Assis, cujos integrantes tinham como projeto a publicação de 15 volumes de edições críticas, conforme podemos ler na quarta-capa das edições publicadas pelo Instituto Nacional do Livro em conjunto com a editora Civilização Brasileira, porém não concluíram a preparação de edições críticas das seguintes obras: Páginas Recolhidas, de 1899, como também de volumes da obra póstuma de Machado reunidos por Mário de Alencar e por Raimundo Magalhães Junior, assim como a coletânea de contos intitulada Papéis Avulsos, publicada em vida do autor, mais precisamente no ano de 1882.

Sobre Papéis Avulsos, estamos, no Laboratório de Ecdótica da Universidade Federal Fluminense, o LABEC-UFF, com alunos e ex- alunos do Instituto de Letras daquela instituição, preparando uma edição crítica dessa importante obra machadiana.

Papéis Avulsos traz doze contos, todos eles anteriormente publicados em periódicos, e reunidos pelo autor, em livro, informação esta que podemos depreender da leitura da Advertência em Assis (1882: I), assinada pelo próprio Machado de Assis, que abre o volume de contos, em que lemos:

Este título de Papéis avulsos parece negar ao livro uma certa unidade; faz crer que o autor coligiu vários escritos de ordem diversa para o fim de os não perder. A verdade é essa, sem ser bem essa. Avulsos são eles, mas não vie- ram para aqui como passageiros, que acertam de entrar na mesma hospedaria. São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai fez sentar à mesma mesa.[...]2

Contudo tal versão não foi passada dessa maneira às edições publicadas na década de 20 pela Garnier e à edição publicada em 1937 pela Jackson.

Para explicarmos melhor o que estamos dizendo, como exemplo, reproduzimos aqui a página inicial do que recebeu o nome de PREFÁCIO – na edição de 1882, era ADVERTENCIA - na edição sem data, mas possivelmente publicada em 1920 pela Garnier. O exemplar que deu origem a essa imagem faz parte da biblioteca do Laboratório de Ecdótica da Universidade Federal Fluminense, o Labec-UFF.

Figure 1.

Como podemos verificar da comparação do trecho citado da edição de 1882 (com a grafia atualizada) com a imagem da página que abre o PREFACIO na edição sem data da Garnier, a palavra pai (na edição de 1882, pae) passou à pão na edição sem data da Garnier. E o pior: tal lição foi passada também à edição de 1937 da Jackson.

Essa mudança, a de pai a pão, altera substancialmente o sentido presente no texto machadiano.

Na edição de 1882, a figura do autor, que reune os textos dos contos no volume intitulado Papéis Avulsos, é comparada a do pai, enquanto que, na edição sem data da Garnier, os contos foram reunidos por necessidade de ganhar o pão e a imagem do autor como pai não está mais presente no texto. Ou seja: os contos não foram reunidos pela autoridade da figura paterna e sim por uma questão econômica. Em resumo: para ganhar dinheiro. Machado dificilmente aprovaria tal mudança, mas ele não estava mais por aqui para dar sua opinião a respeito. No caso, o texto deveria ter sido respeitado pelo editor. Contudo, não foi o que ocorreu. Porém, felizmente, hoje encontramos muitas edições que recuperam a ADVERTENCIA que abre a edição de 1882.

Lembramos aqui que a primeira e única edição de Papéis Avulsos, saída em vida do autor, foi publicada pela Lombaerts, como já dissemos, em 1882. É essa a edição que utilizamos como base da edição crítica que estamos preparando que, além do texto crítico com a grafia atualizada, trará: uma introdução crítico-filológica; um aparato crítico de variantes extraídas do cotejo com os periódicos que publicaram os doze contos em vida de Machado de Assis. Além disso, também fizemos o cotejo, do qual estamos fazendo a revisão, do texto crítico (baseado na edição de 1882) com a edição sem data da Garnier, como também com a edição saída em 1937, pela Jackson. Não encontramos a edição da Garnier com data expressa de 1920, mas, segundo informação lida em cópia de apontamentos redigidos por Adriano da Gama Kury - que nos foi gentilmente enviada por John Gledson, professor aposentado da Universidade de Liverpoll, Inglaterra, e um dos mais prestigiosos estudiosos da obra de Machado de Assis -, a edição da Garnier sem data deve ser uma reimpressão da edição com data de 1920, publicada por aquela mesma casa editorial. Tal trabalho que nos foi remetido pelo renomado estudioso da obra de Machado de Assis são anotações do saudoso filólogo da Casa de Rui Barbosa para a realização de uma edição crítica de Papéis Avulsos que ele, Adriano da Gama Cury, não chegou a concluir. Nós, a partir do momento que tomamos contato com esse trabalho, também o estamos utilizando, além de publicações da Comissão Machado de Assis, da Equipe Eça de Queirós e da Equipe Pessoa, como bases teóricas e metodológicas para a edição que estamos preparando que também terá um aparato crítico de comentários, assim como um índice remissivo. Fechará a edição um conjunto sucinto de dados sobre os que participaram de sua preparação, além da listagem da bibliografia que foi consultada para a realização da edição crítica.

Um dos maiores desafios para a realização da edição crítica de Papéis Avulsos é a construção do aparato de comentários exegéticos dada a amplitude das citações contidas nos doze contos, além do caráter ora conservador ora inovador de sua linguagem. Também a preparação do texto crítico, apesar de contarmos com o original impresso machadiano, não foi nada tranquila, pois, muitas vezes, há vários erros tipográficos e, além disso, há contos propositadamente passados numa época em que o autor não viveu e, se não bastasse isso, são escritos numa sintaxe e com palavras em língua portuguesa de épocas diferentes da que o autor viveu. Ou seja: os filtros da crítica textual realçam a informação de que Machado de Assis era um exímio conhecer da língua portuguesa não só de seu tempo como de outras épocas também. É o que podemos depreender da leitura, por exemplo, de “O Segredo do Bonzo” que tem como subtítulo, “capítulo inédito de Fernão Mendes Pinto”, como também da leitura de um dos mais famosos contos machadianos que é “O Alienista”, que não só integra como abre Papéis Avulsos.

O “Segredo do Bonzo” se passa no século XVI e “O Alienista” muito provavelmente no século XVIII. Tanto um quanto o outro não se contentam em estampar referências a palavras, expressões, alusões a dados da história e a formas de escrita ligadas aos séculos em que passam as suas narrativas. Neles, o escritor também se utiliza de recursos sintáticos que remontam ou se assemelham aos utilizados em tais períodos históricos da língua portuguesa. É o que podemos perceber da leitura do trecho retirado da página 4 do texto crítico de “O Alienista” que tem por base a edição de 1882 com a grafia atualizada por nós. É preciso dizer que respeitamos também a divisão por linhas presente em Assis (1882: p 4).

A vereança de Itaguaí, entre outros pecados de que é arguida pelos cronistas, tinha o de não fazer caso dos dementes. Assim é que cada louco furioso era trancado em uma alcova, na própria casa, e, não curado, mas descurado, até que a morte o vinha defraudar do benefício da vida; os mansos andavam à solta pela rua. Simão Bacamarte enten- deu desde logo reformar tão ruim costume; pediu licença à câmara para agasalhar e tratar no edifício que ia construir todos os loucos de Itaguaí e das demais vilas e cidades, mediante um estipêndio, que a câmara lhe daria quando a família do enfermo o não pudesse fazer. A proposta excitou a curiosidade de toda a vila, e encontrou grande resistência, tão certo é que dificilmente se desarraigam hábitos absurdos, ou ainda maus. A ideia de meter os loucos na mesma casa, vivendo em comum, pareceu em si mesma um sintoma de demência, e não faltou quem o insinuasse à própria mulher do médico. [...]

De “O Segredo do Bonzo”, podemos citar uma passagem da página inicial do conto conforme Assis (1882: 179), em que também encontramos o efeito de imitar a linguagem da época em que se passa a narrativa, o século XVI, além de referências a personalidades da referida época:

Atrás deixei narrado o que se passou nesta cidade Fucheo, capital do reino de Bungo, com o padre mestre Francisco, e de como el-rei se houve com o Fucarandono e outros bonzos, que tiveram por acerta- do disputar ao padre as primazias da nossa santa religião. Agora direi de uma doutrina não menos curiosa que saudável ao espírito, e digna de ser divulgada a todas as repúblicas da cristandade. Um dia, andando a passeio com Diogo Meirelles, nesta mesma cidade Fucheo, naquele ano de 1552, sucedeu deparar-se-nos um ajuntamento de povo, à esquina de uma rua, em torno a um homem da terra, que discorria com grande abundância de gestos e vozes. O povo, segundo o esmo mais baixo, seria passante de cem pessoas, varões somente [...]3

Além disso, algumas vezes, as citações de outras obras presentes nos contos trazem algumas modificações realizadas pelo próprio Machado de Assis. A tendência então é corrigi-las ou emendá-las, mas, não podemos fazê-lo porque vemos que o possível “erro” autoral tem uma função de produção de sentido no texto desse competentíssimo escritor que é Machado de Assis. Tudo isto dificulta a preparação do texto crítico, assim como a de comentários, mas também o seu conhecimento, por meio de sua transmissão, contribui para que o trabalho do autor seja ainda mais valorizado pelos críticos literários e pelo público leitor, além de abrir novas perspectivas para escritores e escritoras que deles tomarem ciência, como também podem servir de base para trabalhos linguísticos.

2. Breves considerações sobre transmissão e a respeito da edição crítica com viés genético que estamos preparando das narrativas de viagens de Eça de Queirós:

Outra edição que estamos realizando, desta vez com a ajuda de uma ex-orientanda de doutorado, hoje doutora em Literatura Comparada, Viviane Arena, autora de uma edição crítica de uma reunião de contos de Júlia Lopes de Almeida, intitulado Ânsia eterna, além de contarmos também com a colaboração de duas alunas da Especialização do curso de Leitura e Produção de Textos do Instituto de Letras da UFF, Nathally Regina Monteiro e Luciene Rocha, e de Cristiane Tolomei, professora da Universidade Federal do Maranhão, é a das narrativas de viagens de Eça de Queirós que sairá com o título de O Egito e outros relatos. Ela fará parte da Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, coordenada pelo Carlos Reis, professor catedrático da Universidade de Coimbra e uma das maiores autoridades sobre a obra do autor de Os Maias na atualidade. Tal edição tem como base manuscritos autógrafos de Eça de Queirós que hoje fazem parte do acervo do Arquivo de Literatura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal.

Estamos trabalhando com uma cópia digitalizado dos manuscritos, cópia essa que nos foi cedida por Carlos Reis, porém, para os términos dos trabalhos de edição, iremos consultar os manuscritos em presença, para tirarmos dúvidas de leitura que o trato com cópias digitalizadas não nos permitem sanar.

A edição também trará o texto crítico, ainda não inteiramente preparado, com a grafia atualizada para a do último acordo ortográfico da língua portuguesa e trará os seguintes capítulos: introdução crítico- filológica; texto crítico – baseado nos manuscritos autógrafos - com um resumido aparato crítico de comentários em rodapé. Trará também um aparato genético, ainda em preparação; um outro capítulo, também em preparação, com o texto, com a grafia atualizada, das publicações das narrativas saídas no Diário de Notícias em 1870 e 1871, como também o texto das edições saídas em 1926 e em 1966, de responsabilidade, a primeira, de José Maria, e, a segunda, de Maria, os dois, filhos do autor de A Cidade e as Serras. Mas, talvez os leitores e as leitoras deste artigo estejam se perguntando por que há necessidade de publicarmos integralmente textos de edições que não costumam figurar de forma integral em edições críticas? É que a edição que estamos preparando dialoga com o que consideramos essencial numa edição crítica: que é ser um testemunho da história ou de parte da história da transmissão da obra e – por que não? – de sua tradição e já que as narrativas de viagens foram primeiramente conhecidas do grande público por meio das edições de 1926 e de 1966 – a primeira, conhecida por O Egito: Notas de viagem foi preparada pelo filho mais velho do escritor e a segunda foi preparada pela filha de Eça de Queirós, Maria, e recebeu o nome de Folhas Soltas, edição que, inclusive, também contém textos que não pertencem ao gênero narrativas de viagens. Contudo, tanto O Egito como Folhas Soltas chegaram a influenciar estudiosos de literatura e mesmo escritores. Esse foi também um os motivos que nos levaram a abrir um espaço para esses textos na edição crítica até mesmo para que o público leitor tenha conhecimentos acerca do que foi alterado, modificado, suprimido e acrescentado pelos editores tanto da publicação saída em 26 como na de 66. Quando às narrativas saídas no Diário de Notícias, em 1870 e 1871, elas são contemporâneas dos manuscritos, mas diferem muito deles quanto a forma. São muito provavelmente etapas posteriores da redação daqueles relatos e o seu entendimento como texto-base para algumas das passagens dos manuscritos, iriam nos facultar um texto crítico compósito e construído – o que acho mais grave - com etapas de redação que dificilmente coincidem com a das cadernetas de viagens e dos chamados linguados que acompanham as já citadas cadernetas e se o intuito é, também, trazer a público o que está nos manuscritos autógrafos, vamos fazê-lo, mas sem esquecermos das marcas da transmissão das narrativas ou do que se entendeu por elas e que se encontram muito diferentes tanto nas versões autorais como nas chamadas versões semi-apócrifas.

Sobre os manuscritos autógrafos, escritos possivelmente em 1869 e 1870, quando o autor foi assistir à inauguração do Canal de Suez, juntamente com aquele que seria seu futuro cunhado, o Conde de Resende, trata-se de uma narrativa por vezes incompleta, inacabada, mas plena de poesia como a da seguinte passagem que abre o primeiro caderno, mas que não aparece dessa forma na edição publicada em 1926:

Cádis – Domingo/

Ontem dobramos o cabo de/ S. Vicente, sob um luar/ digno dos dramas de Shakes/peare. O infinito mar, sereno/ e escuro, sem trevas, mar/ belamente escuro, tremia/ sobre o grande raio lumi/noso da lua, como os antigos/ animais sob as carícias dos/ profetas. À direita do vapor, /o cabo, negro, de perfil,/ com linhas precisas, e niti/damente cortadas. A deco/ração admirável da noite/ assentava silenciosamente/ em volta. O solo final da/ Africana seria belo, como/ a sua lenta desolação aflita/ no meio desta imensa paisa/gem severa, cheia das cousas// infinitas.4

Um dos maiores desafios dessa edição é a leitura e a ordenação dos manuscritos contidos nos cadernos de viagens, como nos chamados linguados. Quanto à ordenação, já há uma proposta pelo filho do escritor, José Maria, mas estamos verificamos se concordamos com ela na sua integralidade. Em relação à leitura de José Maria, que facultou no textos da edição de 1926, temos muitas críticas, mas ressaltamos que ele foi o primeiro a decifrar algumas palavras de difícil leitura.

Em relação ao trabalho realizado por Maria, filha mais velha de Eça de Queirós e responsável pela preparação dos textos para edição contidos em Folhas Soltas, temos as mesmas críticas e a mesma observação que fizemos em relação a José Maria e não podemos deixar de observar que ambos os trabalhos estão inseridos no contexto editorial de seu tempo e têm como função de divulgação da existência de tais narrativas, além de fazerem parte da história de sua transmissão ainda que com textos alterados, mas que acabaram por formar uma fortuna crítica que a eles se remete.

Conclusão

Tanto a edição crítica de Papéis Avulsos como a das narrativas de viagens de Eça de Queirós irão contribuir para o ensino, a pesquisa, a preservação e a divulgação da obra desses grandes escritores da literatura em língua portuguesa, inclusive, construindo bases mais seguras para a sua tradução para outras línguas, pois a Crítica Textual, por meio de edições críticas, costuma levar a público um estudo da história da transmissão dos textos das obras que estão escritas em suas páginas, assim como observações sobre sua materialidade e acerca de sentidos que vão sendo transmitidos à medida que os textos que compõem a tradição daquelas obras vão sendo publicados e lidos, nos ajudando a perscrutar o passado, como também a termos condições de legarmos às gerações presentes e futuras obras que formam e podem passar a formar o patrimônio cultural constituído por textos escritos que terão o processo de sua construção, produção e recepção mais conhecido dos leitores ao longo dos tempos, pois o trabalho da Crítica Textual está sempre a inquirir o cânone literário e a desafiá-lo com o incansável estudo de sua historicidade e da transmissão de textos.

Referências

ASSIS, Machado de. Papéis Avulsos. Rio de Janeiro: Lombaerts & C., 1882.

_____ .Papéis Avulsos. Rio de Janeiro/Paris: Garnier, Irmãos, s.n.

_____. Papéis Avulsos. Rio de Janeiro: Jackson, 1937.

_____ . Memorial de Aires. Edições Críticas das Obras de Machado de Assis. Rio de Janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL, 1975.

CASTRO, Ivo. Editar Pessoa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990.

Queirós, Eça de. Cópia do Manuscrito Autógrafo do Espólio de Eça de Queirós do Acervo do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional de Portugal. Cota: E1/305.

_____. O Egypto: Notas de Viagem. 3 ed. Porto: Lello &Irmão, 1926.

_____ . Folhas Soltas. Porto: Lello & Irmão, 1966.

SPAGGIARI, Barbara/ PERUGI, Maurizio. Fundamentos da Crítica Textual. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004.

Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016