Resumo

O presente trabalho propõe uma edição semidiplomática e estudo crítico de “Contos e Novelas Sergipenses”, livro parcialmente publicado do intelectual sergipano Manuel dos Passos de Oliveira Telles (1859-1935). A base do trabalho de edição é o exemplar manuscrito sob a guarda do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, série livros, caixa 186, documento 001, elaborado entre 1911 e 1912 e que contém uma compilação de doze textos sobre os múltiplos aspectos da cultura sergipana, oito dos quais comprovadamente éditos. 

Introdução

Oitenta e um anos depois da morte de Manuel dos Passos de Oliveira Telles, considerado um dos maiores difusores da história cultural sergipana, o encontro com seus escritos, salvaguardados no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, abre caminho para a leitura e publicação de sua obra inédita.

Homem de elevada cultura, viveu em Sergipe, sua terra natal, a maior parte da vida, enquanto seus companheiros emigraram, em busca de melhores condições para o seu desenvolvimento intelectual e a divulgação de seus estudos. Nem por isso pode ser considerado um escritor menor, muito pelo contrário, já que a peculiaridade de sua obra reside justamente na observação atenta da gente e das coisas próprias da terra sergipana, que certamente a distância pudesse ter tornado menos expressivas.

Sua obra mais representativa, Sergipenses, foi publicada pela primeira vez em 1903, constituindo-se como fonte de pesquisas a respeito de fatos da história de Sergipe. Essa obra acabou por consagrá-lo como historiador, apesar de ter se dedicado também à poesia, à prosa, à crítica literária e à linguística.

De sua produção ficcional, especialmente em prosa, pouco se fala, visto que, como afirma BITENCOURT (1912: 187), encontra-se “em grande parte inédita ou espalhada pelas colunas dos jornais sergipanos”. A esse respeito, é interessante citar o próprio Oliveira Telles, que reconhecia o exercício de paciência que teria que fazer quem se detivesse no estudo de seus textos:

Estudar um poeta cujas producções ainda não foram postas em volume, de quem se pode dizer com razão que seus membros andam esparsos (dijecto membra poeta), se não é incumbencia difficil, todavia é compromisso de muita paciencia. (TELLES, 1903: 143)

Desta forma, considerando o valor documental, literário e linguístico que alberga a obra não publicada de Manuel dos Passos de Oliveira Telles, este trabalho propõe discutir, à luz dos procedimentos metodológicos da filologia, em sua dimensão de crítica textual, o estabelecimento do texto de “Contos e Novelas Sergipenses”, um livro manuscrito que reúne doze textos escritos entre 1895 e 1911 e publicados, a maioria, de maneira esparsa em jornais locais.

A obra, no seu conjunto, é inédita, de modo que se pretende preparar uma edição semidiplomática, justalinear ao fac-símile do original, que se faça acompanhar por uma análise crítica interna e externa do texto, fornecendo ao leitor o conhecimento sobre o seu autor, o contexto de sua produção textual e as práticas culturais de escrita à época.

1. Notas sobre Manuel dos Passos de Oliveira Telles

“Sou um obscuro”. Assim se definia Manuel dos Passos de Oliveira Telles, escritor sergipano nascido em 29 de agosto de 1859, na Vila de Nossa Senhora do Socorro do Tomar da Cotinguiba, hoje Município de Nossa Senhora do Socorro.

Passou a infância e a adolescência em Aracaju, capital da pequena Província, tendo estudado, entre 1873 e 1877, no colégio Atheneu Sergipense, primeiro estabelecimento de Instrução Pública da então Província de Sergipe. Em seguida, deu início aos estudos na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, que abandonou por problemas de saúde. Em 1881, ingressou na Faculdade de Direito do Recife, pela qual recebeu o título de bacharel bacharel em ciências jurídicas e sociais em 1885.

Sua passagem por Recife foi bastante expressiva, visto que, desde o primeiro ano, participou ativamente da vida acadêmica, proferindo discursos, escrevendo artigos e organizando eventos. Nesse período, foi ainda redator da revista acadêmica de crítica literária “Microscópio” (1882), juntamente com Faelante da Câmara.

Na Escola de Direito do Recife havia um professor sergipano consagrado – Tobias Barreto, de quem foram discípulos diversos jovens, conhecidos como “bacharéis do Recife”, dentre os quais figurava o nome Oliveira Telles.

De acordo com SILVA (2013: 24), esses “participantes de uma esclarecida geração de pesquisadores regionais”, de volta a sua terra natal, procuraram, “no labor intelectual, realçar a pátria pequenina, vendo, no estudo da terra e da gente, um modo eficaz de cumprir a missão”.

Antes que terminasse o curso de Direito, foi nomeado Promotor Público de Mossoró, no Rio Grande do Norte. No ano seguinte, em 1886, ocupou o mesmo cargo em Itabaiana/SE.

Mais tarde, passou a ocupar cargos públicos, como juiz municipal e de órfãos, professor de grego, diretor da Instrução Pública e da Escola Normal e juiz de Direito.

Figure 1.

FIGURA 1: Fotografia de Manuel dos Passos de Oliveira Telles (Aracaju, 1910)

Fonte: Arquivo Iconográfico do IHGSE – PS-252

Depois de sua formação acadêmica, Oliveira Telles volta a se estabelecer em Sergipe e, embora desejasse migrar, por considerar o Estado ainda muito “provinciano”, isolado dos grandes centros e distante, portanto, das discussões intelectuais, vê todas as suas tentativas frustradas.

Esse é um dado importante para se entender sua autodenominação como “obscuro”, uma vez que, por ter que viver do funcionalismo público, em um lugar pequeno, não poderia progredir intelectualmente, estando sempre na sombra, na obscuridade: “Vivo longe dos centros de atividade literária e sou como uma sombra de outr’ora em face dos intelectuais que sabem progredir. Eu não sei: sou um obscuro.” (TELLES, “Cartas Íntimas e Literárias”, fol. 128 apud CHIZOLINI, 2005: 24-25).

Sua frustração pessoal e intelectual impactou diretamente na difusão de sua obra, visto que, por considerar-se um escritor menor diante de seus pares, não teve a preocupação de publicação em larga escala de seus textos.

Entretanto, ter permanecido em Sergipe, consoante às circunstâncias materiais e intelectuais que o cercavam, permitiu que pudesse observar atentamente a história e os costumes de sua terra, o que resultou na produção de uma série de textos, a maioria dos quais publicados na imprensa, de reconhecida relevância na historiografia sergipana, inclusive por ter sido um dos pioneiros do que se convencionou chamar “sergipanidade”1.

Desta forma, a temática central dos textos de Manuel dos Passos de Oliveira Telles é sua terra natal, explorada das mais diferentes formas e em seus mais variados aspectos.

O conjunto de sua obra revela aspectos históricos, geográficos, filosóficos, religiosos, culturais e linguísticos sobre Sergipe, explorados em discursos, conferências, artigos, contos, novelas, romances, poesias e críticas literárias. Pode-se dizer, então, que foi um intelectual de seu tempo, um autor polígrafo, para quem não havia limites à produção do conhecimento, a quem tudo parecia interessar.

Como homem de letras, estabeleceu contato com centros de produção e difusão de conhecimento do seu entorno, como o Grêmio Literário da Bahia, o Instituto Histórico e Geográfico do Ceará e o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

De acordo com GUARANÁ (1925: 216), encontram-se colaborações de Oliveira Telles em variados periódicos, a exemplo de “O Porvir”, “Gazeta de Sergipe”, “Folha de Sergipe” e “O Estado de Sergipe”, nos quais, inclusive, chegou a usar os pseudônimos “Garcia Moreno” e “Garcia Moniz”.

Destaca-se em sua produção a obra Sergipenses (Escriptos Diversos) (1903), “uma coletânea de trabalhos publicados em jornais [...] que tratam de diversos locais em que esteve e de pessoas com quem conviveu”, conforme CHIZOLINI (2005:. 23).

O legado de um dos maiores estudiosos de Sergipe compõe-se, ademais de diversos textos publicados em jornais e revistas sergipanos e alguns livros, de trabalhos inéditos, atualmente sob a guarda do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE).

O fundo Oliveira Telles do IHGSE foi doado, após sua morte, em 1935, por um de seus filhos, em data incógnita. São seis caixas devidamente acondicionadas que arquivam documentos datados de 1885 a 1930, sistematizados em “livros (livros manuscritos e livro epistolar, traduções), cadernetas, artigos, recortes de jornal, discursos, correspondência, palestras, poemas e manuscritos” (FREITAS et al., 2009: 33).

2. Descrição de Contos e Novelas Sergipenses

Dentre os livros que constam do fundo do IHGSE, figura-se o título “Contos e Novelas Sergipenses” (série livros, caixa 186, documento 001), uma compilação de doze textos, entre contos e novelas, oito dos quais comprovadamente publicados, que trata da cultura sergipana através dos lugares e costumes de seu povo.

É um códice encadernado, composto de 180 fólios de dimensão de 21,1 x 31,7 cm, um in-fólio, portanto, e organizado em dezoito cadernos de cinco bifólios cada.

Identificam-se dois tipos diferentes de papel, todos pautados: a maioria de coloração bege média, espessura fina, sem marcas d’água, enquanto o oitavo caderno se destaca do conjunto pela coloração mais clara, mais poroso, maior espessura e marca d’água do Brasão de Armas da República do Brasil em todos os fólios.

Esse livro apresenta marcas de deterioração provocadas pelo manuseio, ação de papirófagos (insetos que comem papel) e umidade, especialmente na encadernação, que, inclusive, perdeu a lombada de couro, na folha de rosto e no corte inferior, mas sem grandes prejuízos quanto ao conteúdo textual:

Figure 2.

FIGURA 2: Fac-símiles da capa e contracapa do códice

Fonte: Fundo Oliveira Telles do IHGSE. Fotografias da autora.

Figure 3.

FIGURA 3: Fac-símile da folha de rosto do códice

Fonte: Fundo Oliveira Telles do IHGSE. Fotografia da autora.

Observa-se no primeiro fólio o timbre do Governo do Estado de Sergipe, à direita, e as inscrições “[Livro] de Direito da Capital. / Aracaju,_______ de _________de 19 ”, centralizadas.

Por conta da deterioração da lombada, os cordões que prendiam os cadernos estão soltos, o que permitiu que alguns bifólios se desmembrassem:

Figure 4.

FIGURA 4: Fac-símiles da lombada do códice

Fonte: Fundo Oliveira Telles do IHGSE. Fotografias da autora.

Quanto às suas características paleográficas, o manuscrito foi escrito com tinta ferrogálica preta, em letra humanística cursiva, com traços delgados e inclinados para a direita. O traçado é uniforme, de boa leitura e originário de uma só mão. Chama a atenção, no entanto, a grafia do “s” minúsculo, em formato longo, “d” minúsculo e “r” e “p” maiúsculos.

O texto apresenta algumas poucas emendas, com letras e palavras sobrepostas ou superpostas, assim como aspectos ortográficos típicos da época em que foi escrito, como, por exemplo, o uso de consoantes geminadas (“tt”, “cc”, “pp”, “ll”, “ff ”), o emprego de “y” por “i” (“typos”, “indionymia”, ), o uso dos grupo consonantais “ph”, “ch” e “th” (“geographico”, “charater”, “esthetico”), dentre outros fenômenos. A presença dessas características situa o texto no período etimológico ou pseudoetimológico da ortografia portuguesa (do início do século XVI até o ano de 1911).

A organização dos textos em livro teria sido feita entre os anos de 1911 e 1912, conforme indicação na folha de rosto. Entretanto, a produção intelectual e/ou gráfica dos textos não corresponde a esse período, visto que Oliveira Telles indicou a data tópica e cronológica ao final de cada um deles, com exceção do primeiro texto da compilação, uma novela intitulada “A cruz do ouvidor”, como pode ser observado a seguir:

• “A cruz do ouvidor” [novela2 – sem data];

• “Longa idade” [conto – São Cristóvão, 1908];

• “O escrivão” [conto – São Cristóvão, 23 de novembro de 1904];

• “Cobras” [conto – São Cristóvão, 12 de fevereiro de 1908];

• “O segredo oco do pau” [conto – São Cristóvão, 31 de dezembro de 1905];

• “A lenda dos três reinos” [conto – Aracaju, 1907];

• “Ab ovo” [conto – Aracaju, 1906];

• “Um milagre por motivo” [novela – São Cristóvão, junho de 1911];

• “A voz do convento” [novela – São Cristóvão, dezembro de 1905];

• “A chuva” [conto – São Cristóvão, 1905];

• “Os três irmãos da Capela” [novela – Aracaju, 1908];

• “A enchente” [conto – São Cristóvão, 1895].

A elaboração dos textos ocorreu, portanto, entre 1895 e 1911, sendo o ano de 1908 o mais produtivo, com dois contos e uma novela.

Destaca-se ainda que a ordem em que os textos aparecem no livro não segue uma cronologia, mas uma motivação desconhecida:

Figure 5.

FIGURA 5: Fac-símile e transcrição do último fólio

Fonte: Fundo Oliveira Telles do IHGSE. Fotografia e transcrição da autora.

Da investigação empreendida, constatou-se que, dos doze textos que compõem “Contos e Novelas Sergipenses”, oito são éditos, publicados, a maioria, em jornais sergipanos3:

• “A enchente”, em Sergipenses. Aracaju: Ed. Antônio Xavier de Assis, 1903;

• “O segredo oco do pau”, em O Estado de Sergipe, de 27 a 30 de março de 1906 (sob o pseudônimo de Garcia Moreno);

• “Ab ovo”, em O Estado de Sergipe, de 28 de junho a 6 de julho de 1906;

• “O escrivão”, em O Estado de Sergipe, de 14 a 17 de outubro de 1906;

• “Um milagre por motivo”, em Diário da Manhã, de 26 de outubro a 21 de novembro de 1912;

• “Os três irmãos da Capela”, em Diário da Manhã, de 4 a 27 de março de 1913;

• “Cobras” (?);

• “A chuva” (?).4

É importante observar que no conto “A enchente”, publicado em 1903 em Sergipenses e o último elencado no códice, Oliveira Telles traz a seguinte nota de rodapé: “(*) Figurava no volume publicado – Sergipenses. Entendi transcrevel-o para o presente livro por ter aqui uma melhor collocação. Vae com alguma correção.”5 Diante dessa declaração do autor, há que se levantar a hipótese de haver modificações autorais em outros textos publicados ou modificações não autorais, introduzidas por editores e tipógrafos, o que, atrelado ao fato de existirem textos inéditos nesse livro, indica um campo profícuo de análise filológica, servindo especialmente à Crítica Textual, por trazer as diferentes “formas” do texto em seu processo de transmissão.

3. Tipo de Edição

No âmbito da proposta de divulgação da obra inédita de Manuel dos Passos de Oliveira Telles, intitulada “Contos e Novelas Sergipenses”, pretende-se realizar uma edição de caráter conservador, que possa garantir as características de escrita dos textos, especialmente ortográficas e linguísticas.

A edição mais adequada a esses propósitos é a semidiplomática, também conhecida como diplomático-interpretativa ou paleográfica, cujo critério fundamental, segundo Megale e Toledo Neto (2005: 10), é “a preservação do estado de língua em que [os textos] foram escritos”. Esse tipo de edição apresenta uma reprodução tipográfica do texto original, com uma dose mediana de intervenções editoriais, como a modernização grafemática ou tipográfica e o desenvolvimento das abreviaturas, resultando em um texto muito pouco afastado do que se acha no original, garantindo, portanto, seu acesso e fidedignidade.

A edição semidiplomática se fará acompanhar pelos fac-símiles do manuscrito, de modo que o leitor tenha acesso também aos aspectos estruturais e paleográficos do texto original. Assim, apresenta-se na mesma página o fac-símile de cada fólio (à esquerda) e sua transcrição semidiplomática justalinear (à direita).

Depois da transcrição do documento, ou seja, de sua preparação técnica para a publicação, o que Spina (1994: 82) denomina como fase Edótica da crítica textual, torna-se imperioso proceder a uma leitura crítica interna e externa do texto, fornecendo ao leitor o conhecimento de sua “dimensão material” e de sua “dimensão abstrata”, nas palavras de Samara e Tupy (2010).

A continuidade do trabalho apresentado neste artigo, portanto, buscará propor questionamentos essenciais relativos ao texto escrito, tais como: O que é? Como classificá-lo? Em que contexto está inserido? Qual é o seu conteúdo? Quem o elaborou? Em que época? Qual a sua finalidade? Qual foi ou teria sido sua esfera de circulação? Que problemas sugere?, de modo a construir a história desse texto e das práticas culturais de escrita à época e analisar o processo criativo de seu autor.

4. Normas Adotadas para a Edição

As normas de transcrição utilizadas são baseadas, com as devidas adaptações, nas “Normas para transcrição de documentos manuscritos para a história do Português Brasileiro”, propostas por Cambraia et al. (2001: 23-26).

Destaca-se nessas normas o compromisso com uma transcrição conservadora, que respeite ao máximo a lição do manuscrito, inserindo o mínimo possível de intervenções:

1. A transcrição será conservadora;

2. As abreviaturas, alfabéticas ou não, serão desenvolvidas marcando-se, em itálico, as letras omitidas na abreviatura, obedecendo aos seguintes critérios:

a. Respeitar, sempre que possível, a grafia do manuscrito, ainda que manifeste idiossincrasias ortográficas do escriba;

b. No caso de variação no próprio manuscrito ou em coetâneos, a opção será para a forma atual ou mais próxima da atual;

c. A abreviatura de “etc.” será mantida.

3. Não será estabelecida fronteira de palavras que venham escritas juntas, nem se introduzirá hífen ou apóstrofo onde não houver.

4. A pontuação original será rigorosamente mantida.

5. A acentuação original será rigorosamente mantida, não se permitindo qualquer alteração.

6. Será respeitado o emprego de maiúsculas e minúsculas como se apresentam no original.

7. Eventuais erros do escriba serão remetidos para nota de rodapé, onde se deixará registrada a lição por sua respectiva correção.

8. Inserções do escriba nas margens entram entre os sinais <>; na entrelinha superior, entre <↑>, e, na entrelinha superior, entre <↓>.

9. Supressões feitas pelo escriba no original serão tachadas. No caso de repetição que o escriba não suprimiu, passa a ser suprimida pelo editor, que a coloca entre colchetes duplos [[ ]].

10. Intervenções de terceiros no documento original devem aparecer em nota de rodapé, informando-se a localização.

11. Intervenções do editor hão de ser raríssimas, permitindo-se apenas em caso de extrema necessidade, desde que elucidativas a ponto de não deixarem margem à dúvida. Quando ocorrerem, devem vir entre colchetes [ ].

12. Letra ou palavra não legível por deterioração justifica intervenção do editor na forma do item anterior, com a indicação entre colchetes: [ilegível].

13. A divisão das linhas será preservada como aparece no original. Em todo o documento a mudança de fólio receberá a marcação com respectivo número entre dois colchetes: [1r.], [1v.], [2r.], [2v.], etc.

14. Na edição, as linhas serão numeradas de cinco em cinco. Essa numeração será encontrada à margem direita da mancha, à esquerda do leitor. Será feita de maneira contínua.

5. À Guisa de Exemplo, a Edição de um Conto

Apresenta-se a seguir a edição semidiplomática, justalinear ao fac- símile, do conto “Cobras”, fólios 99v a 100v.

A escolha desse texto deve-se ao fato de ser o menor conto do livro, de modo a ser possível trazer uma edição do texto completo, atendendo à extensão deste artigo. Também por esse motivo, não figuram aqui os fac-símiles do manuscrito em um tamanho ideal.

Figure 6.

[99v.] Cobras <↑IV> <↑98>

Communicava-me um amigo o sus- to porque passara vendo mordida por u- ma cobra pessoa de sua familia.

Naõ obstante habituado aos trabalhos rusticos elle tem grande horror aos ophi- dios e outros reptis peçonhentos. Dessa vez queixava-se com amarga experiencia.

Um menino seu fôra mordido.

Discorreram provavelmente tres horas desde o instante do sinistro até ao momento em que a creança confessou a causa do seu incommodo. Tinha sido mordida na cava do pé direito, estavam bem visi- veis as cesuras, e ainda o formigamento naõ attingia duas pollegadas acima da rotula.

_ Então a cobra que o mordeu, disse uma das pessoas que acudiram ao alarma, naõ era das mais venenosas...

_ Era da côr da casda da candeia ... _ disse a creança.

_ De duas uma: o reptil ja havia derramado quantidade do liquido crotali- co, ou o menino achava-se em estado tal de agitação que seu organismo poude reagir, ou pelo menos embaraçar a acção [100r.] <↑99> do veneno.

_ Que lhe applicou? O permanganato é infallivel.

_ Mas impossivel, no logar e na occazião. Demais, continuou o amigo, occorreu-me tanta cousa que mesmo não sei que foi que o salvou. Primeiro: embebedei-o com cachaça muito forte. Unctaram-lhe as cesuras com mel de fumo e lhe chupa- ram o sangue denegrido. Dei-lhe beberagens de talos de abobora, de dentes de jaca- ré ralados, e uma xaropada de caroços de araticú.

_ Sobretudo, a primeira lembrança foi fe- liz, acudio outro interlocutor, e melhor a- inda se lhe désse a beber do araticú panan. É o remedio do sertão, e note que nunca se ouviu dizer que uma cobra ras- tejasse á sombra do araticú panan. Con- ta-se que um vaqueiro foi mordido pela boicininga. Escureceu-se-lhe a vista de prompto, elle mal poude alcançar a sombra de uma arvore. Como por encanto suas dores cessaram, o coração voltou á regulari- dade; mas apenas afastou-se recomeçaram as convulsões e tormentos. Comprehen- deu pois a virtude da arvore que lhe havia dado protecção, della quebrou um galho, e a elle agarrado como a um talisman vegetal conseguiu chegar á casa, e curou-se.

O araticú panan encontra-se em toda parte, continuou, e crece abundantemente [100v.] <↑100> nos brejaes. Naõ se póde dizer que é um arbusto, mas é muito enor do que uma arvore; nem se o confunda com o que é vulgarmente chamado araticu de porco, embora este tambem tenha virtudes contra o veneno de cobra.

_ O menino está restabelecido, mas ainda coxeia.

_ Este verão parece ter sido a estação das cobras. Attribuo que ellas andam ao atá fu- gindo aos fogos que propositadamente a- team nos campos, nas alturas onde vivo.

_ Tem sido assim em toda parte, inter- veio outro. Na cidade de Campos deu-se um caso nunca visto. A Lagoa da Porta, vasta depressão pouco profunda, seccou de todo, e os rapazes da terra de uma vez somente mataram na vasa do leito cento e quarenta cobras.

_ É verdade?

_ Imagine quantas as que puderam fugir ...

São Christovam, 12 – II – 1908.

Considerações Finais

O trabalho apresentado procurou destacar a importância do estabelecimento de um texto inédito de um dos maiores nomes da historiografia sergipana, visto que o resgate do acervo documental de Manuel dos Passos de Oliveira Telles, conhecido muito mais como historiador, revela outras facetas intelectuais do autor, a exemplo da qualidade de sua produção ficcional, ainda por ser analisada.

Assim, a proposta de uma edição conservadora, preparada com atenção às características da escrita do manuscrito original e pautada na crítica filológica do texto, trará contribuições significativas para o entendimento do gênio criador de Oliveira Telles, para a valoração em âmbito local e nacional da produção literária sergipana, para os estudos relativos aos aspectos filológicos e linguísticos do texto, especialmente quanto à história do português brasileiro e, em última instância, mas não menos importante, para a preservação da memória cultural de Sergipe e do Brasil.

Referências

BITENCOUR, Manoel Liberato. Homens do Brasil – Sergipe. Rio de Janeiro: Livraria Gomes Pereira, 1913.

CAMBRAIA, César Nardelli et al. Normas para transcrição de documentos manuscritos para a história do português brasileiro. In: A carta de Pero Vaz de Caminha. 2. ed. São Paulo: Humanitas/ FFLCH- USP, 2001, pp. 23-26.

CHIZOLINI, Isabela Costa. Simplesmente um Obscuro Intelectual Sergipano: Escritos sobre a vida íntima de Manuel dos Passos de Oliveira Telles (1885-1928). 2005. 130f. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso) – Departamento de História, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2005.

FREITAS, Itamar et al. Guia do Arquivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju: IHGSE, 2009.

GUARANÁ, Armindo. Manoel dos Passos de Oliveira Telles, Bacharel. Diccionario Biobibliografico Sergipano. Rio de Janeiro: Ponjeti, 1925, pp. 216-217.

LIMA, Jackson da Silva. Uma lição de sergipanidade. In: TELLES, Manoel dos Passos de Oliveira. Sergipenses (Escriptos Diversos). 2. ed. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2013, pp. 9-17.

MEGALE, Heitor; TOLEDO NETO, Sílvio de Almeida (Orgs.). Por Minha Letra e Sinal: documentos do ouro do século XVII. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005.

SAMARA, Eni de Mesquita; TUPY, Imênia S. Silveira T. História & Documento e Metodologia de Pesquisa. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.

SILVA, José Calasans. A Escola do Recife. Aracaju e outros temas sergipanos. 2. ed. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2013, pp. 24-26.

SPINA, Segismundo. Introdução à Edótica: Crítica Textual. 2. ed. rev. atual. São Paulo: Ars Poética; Edusp, 1994.

TELLES, Manoel dos Passos de Oliveira. Sergipenses (Escriptos Diversos). 2. ed. São Cristóvão: Editora UFS; Aracaju: IHGSE, 2013.

Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016