Os dados linguísticos “naturais” e “elicitados”: por que não precisamos desses termos
Resumo
O discurso da documentação linguística comumente divide os dados linguísticos em dois grandes tipos: naturais (ou naturalísticos) vs. elicitados. O objetivo deste artigo é pôr essa dicotomia sob escrutínio crítico. Ao examinar publicações importantes sobre trabalho de campo linguístico, demonstro que os dois termos raramente recebem uma definição clara e são frequentemente usados de forma inconsistente, dando origem a contradições evidentes. A análise revela que os termos são tipicamente distinguidos por dois parâmetros – unidade linguística (textos vs. não textos) e método de obtenção de dados (controlado vs. não controlado) – mas a distinção quase nunca é rigorosamente mantida. Argumento que a dicotomia natural (ou naturalístico) vs. elicitado é insuficiente para capturar a complexidade dos possíveis cenários e formas sob os quais a linguagem é produzida. Com base na literatura prévia, proponho uma classificação mais detalhada dos dados linguísticos, que abandona por completo a noção de ‘natural (ou naturalístico)’ e ‘elicitado’. O artigo conclui discutindo os ganhos de uma reflexão mais cuidadosa sobre os tipos de dados linguísticos.
Referências
AIKHENVALD, Alexandra Y. Linguistic fieldwork: setting the scene. Language Typology and Universals, v. 60, n. 1, p. 3-11, 2007.
BOWERN, Claire. Linguistic fieldwork: A practical guide. New York: Palgrave Macmillan, 2008.
CHELLIAH, Shobhana L. The role of text collection and elicitation in linguistic fieldwork. In: NEWMAN, Paul; RATLIFF, Martha. Linguistic fieldwork. Cambridge: Cambridge University Press, 2001, p. 152-165.
CHELLIAH, Shobhana L.; DE REUSE, Willem J. Handbook of descriptive linguistic fieldwork. Dordrecht: Springer Science & Business Me-dia, 2011.
CROWLEY, Terry. Field Linguistics: A Beginner’s Guide. New York: Oxford University Press, 2007.
DIMMENDAAL, Gerrit J. Places and people: field sites and informants. In: NEWMAN, Paul; RATLIFF, Martha. Linguistic fieldwork. Cam-bridge: Cambridge University Press, 2001, p. 55-75.
DIXON, R. M. W. Field linguistics: a minor manual. Language Typology and Universals, v. 60, n. 1, p. 12-31, 2007.
EVERETT, Daniel L. Monolingual field research. In: NEWMAN, Paul; RATLIFF, Martha. Linguistic fieldwork. Cambridge: Cambridge Uni-versity Press, 2001, p. 166-188.
HATTON, John; HOLTON, Gary; SEYFEDDINIPUR, Mandana; THIEBERGER, Nick. 2021. Lameta [soft-ware] https://github.com/onset/laMETA/releases
HIMMELMANN, Nikolaus P. Documentary and descriptive linguistics. Linguistics, v. 36, n. 1, p. 161-196, 1998.
HIMMELMANN, Nikolaus P. Linguistic data types and the interface between language documentation and description. Language Docu-mentation & Conservation, v. 6, p. 187-207, 2012.
HYMAN, Larry M. Fieldwork as a state of mind. In: NEWMAN, Paul; RATLIFF, Martha. Linguistic fieldwork. Cambridge: Cambridge Uni-versity Press, 2001, p. 15-33.
MANNHEIM, Bruce; VAN VLEET, Krista. The Dialogics of Southern Quechua Narrative. American Anthropologist, v. 100, n. 2, p. 326-346, 1998.
MEAKINS, Felicity; GREEN, Jennifer; TURPIN, Myfany. Understanding linguistic fieldwork. New York: Routledge, 2018.
MITHUN, Marianne. Who shapes the record: The speaker and the linguist. In: NEWMAN, Paul; RATLIFF, Martha. Linguistic fieldwork. Cambridge: Cambridge University Press, 2001, p. 34-54