O messias que não faz milagre: notas sobre a ideologia da destruição
Resumo
O presente estudo, fundamentado nos pressupostos teórico-analíticos da Análise de Discurso Materialista, tem o objetivo de compreender o funcionamento discursivo de dois enunciados formulados por Jair Messias Bolsonaro quando se refere a duas tragédias nacionais: em setembro de 2018, com o incêndio do Museu Nacional, e em abril de 2020, com o crescente número de mortos pela Covid-19 no Brasil. A análise é justificada por se observar uma mesma estrutura sintático-semântico nas formulações, que são organizadas, segundo nosso gesto interpretativo, em quatro posições. Com a descrição e a interpretação das duas sequências, é possível afirmar que, a partir dos enunciados, há a reprodução de saberes organizados por uma formação discursiva neoliberal, que reproduz, pela posição-sujeito com a qual o sujeito-enunciador se identifica, o que estamos designando como ideologia da destruição. Para o desenvolvimento da análise, considerando a emergência do significante “messias” nas duas sequências, ditas em momentos diferentes, mobilizamos a noção de pré-construído e, também, partimos de uma teorização de Mariani (2014) sobre o nome próprio.
Referências
BENVENISTE, E. O aparelho formal da enunciação. In: BENVENISTE, E. Problemas de Linguística Geral II. Campinas: Pontes, 1989, p. 81-90.
BENVENISTE, E. Da subjetividade na linguagem. In: BENVENISTE, E. Problemas de Linguística Geral I. 3.ed. Campinas: Pontes, 1991, p. 284-293.
CALGARO, F. ‘Já está feito, já pegou fogo, que que faça o quê?’, diz Bolsonaro sobre incêndio no Museu Nacional. G1, 4 setembro 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2018/noticia/2018/09/04/ja-esta-feito-ja-pegou-fogo-quer-que-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-incendio-no-museu-nacional.ghtml. Acesso em 22 outubro 2020.
COURTINE, J.-J. Análise do discurso político: o discurso comunista endereçado aos cristãos. São Carlos: EdUFSCar, 2009.
GARCIA, G.; GOMES, P. H.; VIANA, H. ‘E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?’, diz Bolsonaro sobre mortes por coronavírus; ‘Sou Messias, mas não faço milagre’. G1, 28 abril 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/04/28/e-dai-lamento-quer-que-eu-faca-o-que-diz-bolsonaro-sobre-mortes-por-coronavirus-no-brasil.ghtml>. Acesso em 22 outubro 2020.
GRIGOLETTO, Evandra. Do lugar social ao lugar discursivo: o imbricamento de diferentes posições-sujeito. In: INDURSKY, Freda; LEANDRO-FERREIRA, Maria Cristina. (Orgs.) Análise do discurso no Brasil: mapeando conceitos, confrontando limites. São Carlos: Claraluz, 2007, p. 123-134.
G1 RIO. PF conclui inquérito no Museu Nacional e descarta ‘conduta omissa’ e incêndio criminoso. G1 RIO, 6 julho 2020. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/07/06/pf-conclui-investigacao-sobre-o-incendio-que-destruiu-o-museu-nacional.ghtml. Acesso em: 28 setembro 2020.
G1. Brasil tem 5,3 milhões de casos confirmados de Covid, com médias de casos e mortes em estabilidade. G1, 21 outubro 2020. Disponível em: <https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/10/21/casos-e-mortes-por-coronavirus-no-brasil-em-21-de-outubro-segundo-consorcio-de-veiculos-de-imprensa.ghtml. Acesso em 22 outubro 2020.
LAGAZZI, S. O desafio de dizer não. Campinas: Pontes, 1988.
MAGALHÃES, B; MARIANI, B. S. C. Processos de subjetivação e identificação: ideologia e inconsciente. Linguagem em (Dis)curso, Palhoça, SC, v. 10, n. 2, p. 291-408, maio/ago. 2010.
MARIANI, B. S. C. Nome próprio e constituição do sujeito. Letras, Santa Maria, v. 24, n. 48, p. 131-141, jan./jun. 2014.
MBEMBE, A. Políticas da inimizade. Lisboa: Antígona, 2017.
MBEMBE, A. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. São Paulo: n-1 edições, 2018.
ORLANDI, E. Discurso e texto: formulação e circulação dos sentidos. 2.ed. Campinas: Pontes, 2005.
ORLANDI, E. Terra à vista - Discurso do confronto: Velho e Novo Mundo. 2.ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 2008.
PÊCHEUX, M. O discurso: estrutura ou acontecimento. 4.ed. Campinas: Pontes, [1983] 2006.
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Tradução de Eni Orlandi [et al.] 4.ed. Campinas: Editora da UNICAMP, [1975] 2009.
PÊCHEUX, M. Ousar pensar e ousar se revoltar: ideologia, marxismo, luta de classes. Décalages, vol. 1, n. 4, p. 01-22, [1978] 2014.
PÊCHEUX, M. Análise automática do discurso. Tradução de Eni Orlandi e Greciely Costa. Campinas: Pontes, [1969] 2019.
PIRES, Carol. Retrato narrado: Bolsonaro. Revista Piauí, 2020. Disponível em: <https://piaui.folha.uol.com.br/retrato-narrado/>. Acesso em 21 novembro 2020.
TEIXEIRA, M. O “sujeito” é o “outro”? Uma reflexão sobre o apelo de Pêcheux à psicanálise. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 32, n. 1, p. 61-88, março de 1997.
WIKIPEDIA, Jair Messias Bolsonaro. WIKIPEDIA, 2020. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jair_Bolsonaro#:~:text=Jair%20Messias%20Bolsonaro%20(Glic%C3%A9rio%2C%2021,ao%20longo%20de%20sua%20carreira.&text=Em%201990%2C%20candidatou%2Dse%20a,estado%20do%20Rio%20de%20Janeiro. Acesso em 30 outubro 2020.
ZOPPI-FONTANA, M. G. Lugares de enunciação e discurso. Leitura, Maceió, n. 23, p. 15-24, jan./jun. 1999.