Resumo

Esta resenha destaca os principais tópicos apresentados na mesa redonda A pesquisa toponímica no Brasil: estudos contemporâneos, que compôs a programação de conferências remotas Abralin Ao Vivo, durante o período de pandemia pela Covid-19. Com a finalidade de “fornecer à comunidade acadêmica na área de Linguística e demais interessados um panorama do estado de arte da pesquisa toponímica no Brasil”, os/as debatedores/as proporcionaram o conhecimento e a discussão de relevantes aspectos teórico-metodológicos e aplicados em relação aos nomes geográficos do país, especialmente nas últimas décadas, contribuindo para a divulgação científica e para a interlocução entre pares e constatando que os projetos de pesquisa na área têm se expandido.

Texto

A mesa redonda A pesquisa toponímica no Brasil: estudos contemporâneos[1] compôs a programação de conferências remotas Abralin Ao Vivo, durante o período de pandemia pela Covid-19. Ocorrida em 23 de julho de 2020, foi moderada pela prof.ª Dr.ª Karylleila dos Santos Andrade (UFT), e teve como objetivo “fornecer à comunidade acadêmica na área de Linguística e demais interessados um panorama do estado de arte da pesquisa toponímica no Brasil” (A PESQUISA, 2020[1]). Para essa tarefa, a prof.ª Dr.ª Aparecida Negri Isquerdo (UFMS/CNPq), a prof.ª Dr.ª Maria Cândida Trindade Costa de Seabra (UFMG) e o prof. Dr. Alexandre Melo de Sousa (UFAC), nessa ordem, durante duas horas e trinta minutos, com tradução simultânea para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), apresentaram aspectos teórico-metodológicos e aplicados em relação a pesquisas tradicionais e inovadoras de nomes geográficos do país, especialmente nas últimas décadas.

Como destaca o texto de chamada do evento, os estudos toponímicos configuram-se área de pesquisa consolidada no Brasil, especialmente vinculados a cursos de graduação e de pós-graduação em Letras e Linguística em todas as regiões do país (A PESQUISA, 2020[1]). Com mérito, os/as debatedores/as destacaram essa atividade como uma celebração ao legado da professora Dr.ª Maria Vicentina de Paula do Amaral Dick (USP), responsável pela delimitação e pelo status da Toponímia nacionalmente, constituindo referência obrigatória para pesquisadores/as que se dedicam ao estudo dos nomes de lugares.

Em fala intitulada A Toponímia como área de investigação linguística no Brasil: um panorama, a professora Isquerdo enfatizou a filiação da toponímia à ciência linguística e apresentou um esclarecedor estado da arte das pesquisas toponímicas, destacando a tradição teórico-metodológica galo-ibérica da toponímia brasileira, a exemplo de autores como Albert Dauzat, Leite de Vasconcellos, Joseph Piel, dentre outros. Ao constatar o crescimento exponencial de pesquisas regionais produzidas em forma de Dissertações e de Teses na última década, Isquerdo apresentou uma periodização em quatro fases para os estudos toponímicos brasileiros (1901-1979; 1980-1989; 1990-2009; e 2010-presente), atualizando sua proposta tripartite anterior (ISQUERDO, 2012[2]).

Ao destacar objetivos e escopo do que se convencionou atlas toponímicos, Isquerdo lista os principais projetos de abrangência estadual, a exemplo do Atlas Toponímico do Mato Grosso do Sul (ATEMS), sob sua coordenação, informando alguns produtos bibliográficos desse grupo. Esta pesquisadora ainda assinala a importância de abordagens teórico-metodológicas seguras, por exemplo, em relação à coleta de topônimos em bases cartográficas e à codificação, que, no Brasil, tem sido norteada por fichas lexicográficas, como proposto por Dick (2004[3]). Também reitera a importância do desenvolvimento de pesquisadores com sólida formação teórico-metodológica em Linguística, bem como a formação de bancos de dados em equipe, ao justificar que futuros financiamentos devem ser destinados a pesquisas dessa natureza. Enfatiza, ainda, a relação entre Toponímia e áreas afins, tais como Dialetologia, Etnolinguística, Cartografia, Geografia e História.

Em sua fala intitulada Toponímia Histórica, a professora Maria Cândida Seabra, coordenadora do projeto Atlas Toponímico de Minas Gerais (ATEMIG), enfatiza o caráter interdisciplinar dos nomes de lugares, especialmente a interface com a Linguística Histórica. Seabra também caracteriza aspectos inerentes aos nomes próprios, especialmente aos nomes de lugares, como a motivação, a identificação e a referencialidade, bem como destacando memória e identidade toponímicas como parte de investigações linguísticas e culturais.

Ratificando o argumento de Isquerdo, Seabra destaca algumas diretrizes teórico-metodológicas, como as do método de áreas de Albert Dauzat (1926[4]), que podem ser sumarizadas como o estabelecimento das camadas dialetais; a pesquisa das raízes formadoras dos topônimos; a reconstituição etimológica das formas antigas de nomeação, oriundas de substratos e adstratos linguísticos; e pesquisa em documentos históricos, segundo Dick (2000, p. 231[5]). Essa professora também descreve e analisa processos de variação toponímica, especialmente diatópicos e diacrônicos, com exemplos de corpora coletados em documentos textuais – oficiais e não oficiais – e cartográficos históricos.

Tomando o corpus constituído no Projeto ATEMIG, bem como baseado em dados de estados vizinhos, sua exposição expõe bons exemplos de tratamento sócio-histórico e dialetal com dados toponímicos. Por exemplo, Seabra destaca resultados de estudos interinstitucionais, como a identificação de um continuum toponímico do item botânico buriti em Minas Gerais e em Mato Grosso do Sul. Outro resultado de ação interinstitucional constituiu um conjunto de atividades de patrimonialização toponímica, por meio da preservação, da catalogação e da exposição digital e/ou museológica de dados. Por fim, ao citar Martínez Lema (2018, p. 9[6]), reforça a retroalimentação entre as disciplinas Toponímia e Linguística Histórica.

Um aspecto inovador da mesa se deu pela temática abordada pelo professor Alexandre Melo de Sousa, que descreveu e analisou a Toponímia em Libras – Língua Brasileira de Sinais –, idioma cooficial do Brasil desde 2002. O professor afirma que topônimos em língua oralizada e na Libras, língua visual-espacial amplamente usada pela comunidade surda brasileira, coexistem socialmente, não sendo os sinais-nomes, necessariamente, transliterações de signos linguísticos em língua portuguesa. Dada a natureza desse corpus, Sousa didaticamente apresenta especificidades daquele sistema linguístico, como a adoção do signwriting como sistema de escrita dos sinais-nome; o destaque da iconicidade como relevante propriedade do léxico toponímico em Libras, bem como descreve e analisa, nos níveis gramatical e semântico-referencial, sinais-nomes do estado do Acre. Ao destrinchar alguns procedimentos metodológicos, notadamente se percebe a adaptação do modelo de ficha lexicográfico-toponímica de Dick (2004[3]), bem como uma coerente estratificação dos sujeitos da comunidade surda acreana para validação de dados.

Ao argumentar particularidades semântico-referenciais no cotejo de topônimos em Libras e em português brasileiro, ainda apresenta o Toponímia em Libras (SOUSA; QUADROS, 2019[7]), web software autoral de acesso livre, um dos produtos de seu estágio de pós-doutoramento. Esse software tem funcionado como repositório dos sinais toponímicos acreanos e, segundo esse pesquisador, pode servir como um banco de dados mais abrangente, com a possibilidade de replicação junto a corpora de outros estados. Por fim, apresenta um estado da arte de pesquisas e de projetos brasileiros que envolvem topônimos em Libras, bem como parabeniza os intérpretes de Libras pelo auxílio na acessibilidade, destacando a oportunidade e a necessidade de dar visibilidade a estudos produzidos em regiões não hegemônicas do país, como é o caso do Acre.

Após as três falas, Karylleila Andrade, coordenadora do projeto Atlas Toponímico de Origem Indígena do Estado do Tocantins (ATITO), na função de moderadora, salienta a ativa interação nos chats, cujo público se constitui maciçamente de professores e de pesquisadores de universidade públicas do país, mas também de estudantes e de interessados na temática. Pela limitação do tempo, Andrade procedeu à seleção de alguns questionamentos, o que produziu um debate sobre os desafios teórico-metodológicos e analíticos e prospecções das pesquisas toponímicas no Brasil, especialmente no contexto atual de parcos financiamentos; tendência de aumento de projetos de pesquisa regionais autônomos, com aplicações em corpora toponímicos diversificados, algo já previsto pela própria professora Dick; considerações sobre manutenção/mudança toponímica com referentes de caráter ditatorial-totalitário; funções e limitações de órgãos oficiais, como o IBGE, quanto ao georreferenciamento, à reambulação e à cartografação de dados toponímicos, considerando as especificidades geográficas, político-econômicas e sócio-históricas de um país com dimensão continental. Na fala final dos/das debatedores/as e da moderadora, o agradecimento à audiência e à Associação Brasileira de Linguística pela promoção do evento e pelo convite foi uníssono.

Quanto aos estudos contemporâneos no âmbito da Toponímia, podemos adicionar outras questões que têm ampliado esse quadro. Especialmente a partir da década de 1990, a interface com áreas como Sociolinguística, Estudos Culturais, Contato Linguístico e Cognição tem sido caracterizada como Sociotoponímia (HOUGH, 2016[8]), valendo-se de corpora toponímicos não prototípicos e ampliando conceitual e metodologicamente o que se entende por nomes de lugares. Também destacamos a importância tanto da internacionalização de pesquisas toponímicas brasileiras, uma ação tímida, mas em desenvolvimento, quanto do conhecimento de estudos contemporâneos promovidos internacionalmente.

Como adendo às reflexões acerca da temática e das discussões pertinentemente apresentadas, podemos destacar que atividades desse quilate se mostram necessárias, dentre outros motivos, para apresentar a leigos e a cientistas da língua(gem) de outras áreas que a toponímia não se resume a “[...] um rol de vocábulos quase exclusivamente de origem tupi, seguido de uma provável etimologia, esgotando-se aí, nesse procedimento, os objetivos e as pretensões da matéria”, como bem assinalou o professor Carlos Drumond (cf. DICK, 1990, p. II[9]). Cremos que esse objetivo foi claramente atingido pelos/as debatedores/as e que atividades online como essa contribuem para a divulgação científica e para a interlocução entre pares sobre aspectos próprios ou lacunares dos estudos toponímicos nacionais. Assim, recomendamos a professores/as, pesquisadores/as e entusiastas se apropriem dessas discussões como um panorama de abordagens científicas em relação aos nomes de lugares no Brasil.

Referências

  1. A PESQUISA Toponímica no Brasil: estudos contemporâneos. Mesa Redonda debatida por Aparecida Negri Isquerdo, Maria Candida Trindade da Costa Seabra e Alexandre Melo de Sousa [s.l., s..n.], 2020. 1 vídeo (2h 37 min 10s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=8YcU-obkeuc.2020.
  2. Les noms de lieux: origine et evolution Dauzat A. Paris: Delagrave; 1926.
  3. Rede de conhecimento e campo lexical: hidrônimos e hidrotopônimos na onomástica brasileira Dick M. V. P. A. In: Isqueiro A. N, Krieger M. G, eds. As ciências do léxico. v. II. Campo Grande: EdUFMS; 2004 .
  4. A Investigação Lingüística na Onomástica Brasileira Dick M. V. P. A.. In: Estudos de Gramática Portuguesa III. Frankfurt am Main 2000 .
  5. Prefácio Dick M. V. P. A. In: Dick M. V. P. A, ed. Toponímia e antroponímia do Brasil. Coletânea de Estudos. São Paulo: Serviço de Artes Gráficas da FFLCH/USP; 1990 .
  6. The Oxford Handbook of Names and Naming Oxford: Oxford University Press; 2016.
  7. La recherche toponymique au Brésil: une perspective historiographique Isqueiro A. N. Cahiers de lexicologie: Revue internationale de lexicologie et lexicographie.2012;(101).
  8. Toponímia e Fonética Histórica no domínio galego-português: notas para uma linha de trabalho Martinez Lema P. Estudis Romànics [Institut d’Estudis Catalans].2018;40.
  9. O web software Toponímia em Libras: pesquisa e ensino Sousa A. M, Quadros R. M. In: Sousa A. M. S, Garcia R, Santos T. C, eds. Perspectivas para o ensino de línguas. v. 3. São Paulo: Pedro & João Editores; 2019 .
  10. A Classification of Place Names Stewart George R.. Names.1954;2(1). CrossRef