Resumo

A mesa das professoras-pesquisadoras Célia Lopes, Rosane Berlinck e Huda Santiago, intitulada Sociolinguística histórica no Brasil: caminhos e desafios, foi apresentada de forma online à Abralin no dia 18 de julho de 2020. A conferência focou nos desafios e nas propostas do trabalho com a Sociolinguística Histórica. Cada uma das professoras apresentou sua visão sobre o tema, destacando alguns aspectos, como o trabalho com os gêneros mais próximos ao vernáculo, seus ganhos, além dos trabalhos filológicos e metodológicos com os corpora e com os dados. Desde cartas pessoais, passando por peças de teatro, e chegando aos perfis sócio-históricos e estilísticos dos escreventes, as conferencistas mostram na prática não só como é esse trabalho, mas também resultados de pesquisas, com dados reais de uso. Além disso, mostram de que forma tais estudos contribuem para um estudo variacionista histórico do Português Brasileiro.

Texto

A mesa intitulada Sociolinguística histórica no Brasil: caminhos e desafios[1] contou com três conferencistas: Célia Lopes, Rosane Berlinck e Huda Santiago. Ela foi apresentada online no canal do YouTube da Abralin. O objetivo principal foi provocar algumas reflexões sobre as contribuições da Sociolinguística Histórica nos estudos brasileiros. A apresentação foi dividida em quatro partes: a fala das três professoras (respectivamente, Célia Lopes, Rosane Berlinck e Huda Santiago), além de uma parte dedicada às perguntas dos ouvintes.

Rosane Berlinck, moderadora/mediadora e palestrante, introduz a mesa, apresentando as outras conferencistas, além de tecer algumas considerações sobre o tema, abordando a história e o início dos estudos sócio-históricos. A proposta, então, é discutir alguns desafios enfrentados pelos pesquisadores para alcançarem os objetivos em Sociolinguística Histórica, além de sugerir caminhos e soluções para cumprirem tais objetivos.

Lopes estrutura sua apresentação em cinco tópicos, que serão desenvolvidos durante sua fala. São eles: I - Linguística Histórica e Sociolinguística Histórica; II – Sociolinguística Sincrônica e Sociolinguística Histórica; III – autonomia da Sociolinguística Histórica; IV – caminhos e desafios: materiais escritos; e V – os sete desafios da disciplina.

Com isso, ela explica cada um dos tópicos, revelando a sua importância para a delimitação da disciplina, para o estabelecimento dos seus limites, problemas e desafios. Como a professora trabalha com cartas – sobretudo as pessoais – no estudo sócio-histórico, ela tende a utilizar exemplos e aplicações retirados desse tipo de corpus para ilustrar tais tópicos. Em relação a esses tópicos, Lopes explica que a Sociolinguística Histórica surge a partir da Linguística Histórica, com os princípios e pressupostos da Sociolinguística Variacionista (ou sincrônica, ou laboviana) no estudo e na interpretação dos materiais-fonte para a mudança linguística. Dessa forma, a disciplina explica os processos de mudança linguística com base nas correlações entre fatos sociais e linguísticos. Tanto a Sociolinguística Histórica quanto a Sincrônica compartilham pressupostos, como a heterogeneidade ordenada, a variação por condicionamentos linguísticos e sociais, a mudança advinda da variação, e o uso de dados reais de interação.

Entretanto, sendo um ramo independente, ela possui algumas diferenças em relação à Sociolinguística Sincrônica. Por exemplo, sobre o material usado, esta trabalha com dados de fala, enquanto aquela trabalha com dados da escrita, que são poucos, irregulares e fragmentários. Então, lembra Lopes, a Histórica recupera os dados – escassos – a partir de textos sobreviventes. Além disso, sobre a amplitude dos resultados, para a Sincrônica, essa amplitude é desconhecida, limitada, visto que não há como prever o “alcance” da mudança; para a Histórica, como já se sabe o resultado de uma mudança, pode-se fazer o caminho inverso e retornar às suas causas.

Para resolver os problemas dos dados e sua relação com a produção vernacular, dos falantes, Lopes propõe buscar gêneros textuais mais espontâneos, como cartas, diários e peças teatrais, controlar as Tradições Discursivas (KOCH, 2008[2]), investigar o perfil sociocultural e estilístico do autor, reconstruir o contexto social da época e usar ferramentas computacionais no corpus. A partir disso, ela defende o uso de cartas pessoais como forma de recuperação do vernáculo do missivista. Sua justificativa relaciona o tema íntimo ou espontâneo das cartas com suas informações externas, como local, data, dentre outras, além do trabalho com as Tradições Discursivas.

Finalizando, Lopes elenca e discute os sete desafios da Sociolinguística Histórica. O primeiro, representatividade, lida com os dados irregulares por conta da preservação dos textos. O segundo, validade empírica, refere-se aos textos cujas dimensões são limitadas inevitavelmente, o que deixa limitações nos resultados de análise quantitativa. Com invariação, o pesquisador lida com textos escritos, mais conservadores e formais do que o registro oral, o que, em princípio, restringe a probabilidade de variação. No quarto, autenticidade, questiona-se a autenticidade dos dados linguísticos, visto que as comunidades de fala estão sujeitas à mistura de dialetos, hipercorreções, dentre outras. Sobre autoria, o pesquisador deve avaliar se as cartas, por exemplo, são autógrafas ou apógrafas (copiadas ou ditadas). Como pouco se sabe, muitas vezes, sobre a posição social do escritor e da estrutura da sociedade, validade histórica e social refere-se à recuperação das informações sociais para as interpretações dos padrões de variação de escrita. Sobre ideologia padrão, o pesquisador deve conhecer a forma padronizada de dada língua, assim como saber da interferência dos dialetos não padrão, que podem aparecer na escrita. Lopes, então, diz que a experiência filológica é importante para a disciplina, assim como se deve observar o gênero textual mais propício ao aparecimento de dado fenômeno, além de verificar o material disponível. Após, Rosane Berlinck inicia sua fala.

Berlinck, diferentemente de Lopes, utiliza como corpus peças teatrais na busca pelo vernáculo. Defende que peças de caráter popular, como as comédias, dão ao autor mais liberdade para retratar a língua da época, para trazer uma reprodução da língua falada, oral, menos formal. Berlinck defende que elas podem ser usadas, porque representam padrões de uso e valores associados com a ideia de representação da fala, além de que língua/linguagem literária e não literária são ambas “manifestações da língua corporificadas no mesmo meio”.

Ademais, continua, deve-se olhar para a constituição do gênero, como a construção composicional, o conteúdo temático e o estilo verbal. No caso do texto dramático, tem-se o diálogo entre os personagens, as rubricas e a organização das cenas, além de como interpretar as falas. Dessa forma, é possível obter o background sócio-histórico dos variados personagens em relação às situações narradas. Por fim, ainda é necessário um olhar para o período histórico em que a peça foi escrita.

Para exemplificar a importância dessas informações intra e extratextuais, Berlinck faz uma reanálise de dados do objeto direto, de Cyrino (1997[3]); trabalho esse que aborda sobretudo o fenômeno do objeto direto nulo no Português Brasileiro, com dados retirados de peças. Os dados de pronome tônico como retomada anafórica de terceira pessoa em O demônio familiar (1857[4]) são todos de um menino negro, escravo. Já em O Tribofe (1892[5]), os dados de pronome tônico aparecem na fala de membros de uma família do interior que vai para o Rio de Janeiro. Considerando que esses dados representam a fala, quem os produzia era um tipo específico de personagem: popular ou pertencente a estratos sociais de menor ou nenhum prestígio. Isso sugere a avaliação social que incidia sobre essas formas. Esse fato é uma constatação importante para entender o percurso das formas em variação que só se pode apreender olhando para o perfil social dos personagens.

Finalizando sua fala e dando prosseguimento à de Huda Santiago, Berlinck reafirma o uso plural das peças, destacando os conhecimentos históricos e sociais da época estudada. Santiago, complementando a mesa, faz uma reflexão sobre a inabilidade na escrita em corpora diacrônicos. Ela defende que fontes escritas que tenham traços de oralidade podem ser relacionadas à inabilidade ou desconhecimento de fórmulas textuais, seja pela relação assimétrica entre os participantes, seja pelo caráter intimista do tema.

Por isso, o pesquisador deve pesquisar o que era o informal da época, visto que só se conhece o padrão atual do que é formal. Isso requer um desafio metodológico (BARBOSA, 2006[6]), que se baseia em traçar um perfil sócio-histórico do autor, e, se possível, examinar gramáticas da época e ver filologicamente pistas de inabilidade nos níveis gramaticais que apontem usos da oralidade. Atrelado a isso, Santiago cita Marquilhas (2000[7]), que propõe a observação de “aparência física, constituída pela caligrafia da mão e por particularidades do suporte”. Tudo isso para o reconhecimento de “mãos inábeis”.

Sua proposta, então, para a identificação de marcas de inabilidade em escrita alfabética tem critérios de várias autorias. Um contínuo, por dimensões, em níveis combinados: escriptualidade e a escrita fonética; a pontuação; repetição de vocábulos; habilidade motora e a segmentação gráfica. Após isso, a docente apresenta alguns trabalhos sobre o tema.

Finalizando a conferência, as perguntas são abertas. A maioria delas versa sobre o uso de cada corpus. Em geral, os corpora são bem-vindos de acordo com os objetivos, que podem ser de transposição da fala para a escrita, implementação, dentre outros. Perguntas sobre proximidade com o vernáculo e também da interferência dos padrões do gênero e da formalidade nos dados também foram levantadas.

A mesa, de forma geral, manteve um tema coerente, de forma bem estruturada e dividida. As autoras, cada qual com seu objetivo específico, desenvolveram suas argumentações acerca de um ou de outro gênero como corpus, mas sem negar a importância e validade dos demais. Indo do geral ao mais específico, a mesa contou com a história da Sociolinguística Histórica até os procedimentos metodológicos de trabalho com corpora e com os dados.

A conferência apresentou não só pressupostos teóricos, como também exemplos e trabalhos que se relacionam com o tema e com a discussão. Isso mostra que a prática do pesquisador apresenta resultados interessantes sobre o estudo linguístico, seja sobre um fenômeno seja sobre a análise com corpus.

O trabalho sócio-histórico, portanto, não se limita somente a ele mesmo, mas pode ser fonte de outros estudos, desde os mais formais até os mais funcionais. Estudar, então, o perfil sócio-histórico de autores, personagens e obras, é não só usar outras ciências, mas também contribuir para o estabelecimento de um vernáculo mais próximo ao real, usando textos sobreviventes ao tempo e ao esquecimento.

Referências

  1. SOCIOLINGUÍSTICA histórica no Brasil: caminhos e desafios. Mesa-redonda apresentada por Célia Lopes, Rosane Berlinck e Huda Santiago [s.l., s.n.], 2020. 1 vídeo (1h 49m 20s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=nE4i53QDacE.2020.
  2. O demônio familiar ALENCAR J. http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=214675.2020.
  3. O Tribofe AZEVEDO A. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ua00049a.pdf.2020.
  4. Tratamento dos Corpora de sincronias passadas da língua portuguesa no Brasil: recortes grafológicos e linguísticos BARBOSA G. In: LOBO T, et al . Para a história do português brasileiro. Salvador: EDUFBA; 2006 .
  5. O objeto nulo no português brasileiro: um estudo sintático-diacrônico CYRINO S. Londrina: Editora da UEL; 1997.
  6. As tramas do texto KOCH I. G. V. Rio de Janeiro: Lucerna; 2008.
  7. A Faculdade das Letras: Leitura e escrita em Portugal no séc. XVII MARQUILHAS R. Lisboa: IN-CM, (Filologia Portuguesa); 2000.