Resumo

O objetivo desta resenha é apresentar a mesa redonda “Psicolinguística: da mente à escola”, transmitida no dia 01/06/2020 e organizada pelo evento Abralin Ao Vivo. Destacam-se também pontos interessantes discutidos no chat simultâneo à apresentação. A mesa reúne propostas da ciência da leitura e da ciência do bilinguismo a fim de dialogarem com a sala de aula. Dessa forma, a pesquisadora Janaina Weissheimer aborda a pesquisa translacional em neurociência da leitura e sua aplicação na escola, bem como dados sobre a importância do sono na consolidação do conhecimento. A pesquisadora Ingrid Finger, por seu turno, aborda o bilinguismo e seus impactos na sala de aula, além de discutir evidências advindas de pesquisas na área e a epidemia de escolas com currículos bilíngues no Brasil.

Texto

A pesquisadora Janaina Weissheimer (UFRN) inicia a mesa[1] relatando que tratará de pesquisas translacionais desenvolvidas por ela em neurociência da leitura e sua aplicação em sala de aula. Para que isso seja abordado, Janaina contextualiza os participantes de forma notável com os legados positivos e negativos da “década do cérebro”, período compreendido entre 1990 a 2000.

São apresentados de forma clara o surgimento da ciência da aprendizagem, questões relacionadas à retenção de memória, com seus filtros positivos e negativos, e à motivação, área muito estudada e que pode ser alimentada com dados da neurociência. Para construir a ponte entre a escola e a neurociência, Janaina argumenta que esse processo deva ser de retroalimentação, ou seja, que tanto a neurociência, quanto a escola trabalhem juntas no compartilhamento de dados e informações.

Tendo feito essa importante introdução, a pesquisadora adentra o foco de sua apresentação: a leitura. Perpassando questões de dislexia e mudanças cerebrais, ela chega à questão do sono para a aprendizagem e seu papel fundamental e indiscutível para a consolidação da memória. Através de estudos que ela própria desenvolveu com colaboradores, o sono passa a ser investigado dentro da escola com resultados muito interessantes para a fixação de conteúdos pelas memórias declarativas e pelas memórias procedimentais.

Por meio de um estudo mais recente, a pesquisadora exemplifica como a neurociência pode contribuir para o entendimento e para a abordagem de problemas de leitura na escola, em particular a relação do espelhamento de letras durante a alfabetização com a invariância visual, que, segundo a pesquisadora, também pode ser estudado a partir de exercícios motores para acelerar o processo de quebra da invariância. A explicação feita sobre como nosso sistema perceptual visual funciona, especialmente sobre o mecanismo de invariância visual, ancorado ao nosso passado pré-histórico e evolutivo, foi fundamental para o entendimento desse fenômeno de espelhamento.

Uma provocação muito importante que a professora faz é a dificuldade de se defender a importância do sono mediante uma sociedade capitalista que enxerga esse tempo adormecido como perda de dinheiro, já que não há produção. Ela almeja um futuro um tanto quanto utópico que tenha uma cultura do sono, seguindo a lógica de que, se o sono é valorizado, a aprendizagem é valorizada.

A professora Janaina Weissheimer termina sua fala dando indicações bibliográficas, apresentando projetos pessoais e sugerindo caminhos para a pesquisa translacional e defende, mais uma vez, o papel das neurociências para a tomada de decisões conscientes dentro de sala de aula. Após uma série de elogios no chat acerca da fala de Janaina, a palavra passa para a pesquisadora Ingrid Finger (UFRGS).

Ingrid inicia sua fala definindo “Psicolinguística do Bilinguismo”, na qual o processamento linguístico e o processamento cognitivo são estudados em falantes e situações bilíngues. Ela explica como essa área do conhecimento está ligada às neurociências aplicadas à educação e destaca que contribuirá nessa mesa, não só discutindo o processamento bilíngue, mas também discutindo a educação bilíngue com o viés de educação do século XXI. O conceito dessa educação atual é apresentado com atenção para o olhar que esse tipo de ensino tem, isto é, com foco na formação integral do ser humano, cujo objetivo é lidar com as situações adversas do mundo, em contraste com a decoreba de conteúdos.

A pesquisadora propõe conectar, assim como sua colega de mesa, neurociência e educação e, para construir essa ponte, ela coloca em evidência uma pergunta fundamental: se não sabemos como o ser humano aprende, como vamos pensar em métodos de ensino? Nesse viés, ela pontua que as pesquisas em bilinguismo que desenvolve seguem esse pensamento, mas que na área de ensino de língua, seja ela estrangeira ou materna, se fala muito sobre metodologias de ensino e sobre a tentativa de se descobrir o melhor jeito de ensinar para que todos os alunos aprendam, algo milagroso e utópico. Ingrid defende que a discussão, hoje, deve seguir outra linha de raciocínio, uma linha que se pergunte e se preocupe mais em desvendar e discutir como o ser humano aprende, não só línguas, mas qualquer tipo de conteúdo. Deve-se abandonar essa ideia de padronização do ensino, já que existe uma diversidade imensurável dentro de cada indivíduo na nossa sociedade.

Ao encontro das ideias apresentadas pela pesquisadora, o chat se manifesta trazendo dados de que, até hoje, em consonância com a época de formação da professora, os cursos de licenciatura de língua estrangeira são pautados em métodos de ensino e pouco, ou nada, se fala sobre aprendizagem e dados da neurociência.

Apresentando questões e exemplos sobre globalização, acesso à informação, codeswitching, dificuldade de participação ativa de indivíduos monolíngues na sociedade e línguas de prestígio, Ingrid discorre sobre o panorama da educação bilíngue no Brasil, onde há, atualmente, uma preocupante explosão de escolas bilíngues atrelada à falta de evidências científicas para respaldar as decisões que os professores tomam em sala de aula de uma escola bilíngue.

Em seguida, a pesquisadora apresenta algumas importantes evidências advindas das pesquisas em bilinguismo, como a coativação linguística e padrões de atividade neuronal em bilíngues, enfatizando como a experiência bilíngue afeta a cognição geral, não somente domínios linguísticos, devido à plasticidade cerebral. A partir de alguns exemplos, Ingrid consolida a experiência bilíngue como única e transformadora de vida e os ouvintes confirmam esse ponto de vista pelo chat, relatando que seria realmente difícil se imaginar sem a segunda língua. Ainda no chat, há um engajamento interessante acerca da coativação linguística no âmbito de pesquisas dentro da psicolinguística, visto que é fundamental saber se os participantes de determinado experimento são bilíngues ou não, já que isso pode ser significativo para resultados de determinado experimento.

Para finalizar sua fala, Ingrid apresenta a definição das funções executivas e seus componentes e sua direta ligação com o sucesso escolar, já que muitas das habilidades requeridas da escola do século XXI fazem parte das funções executivas. Ela ainda aborda dados sobre a transferência de conhecimento, conceitos e competência entre as línguas do bilíngue, mas pontua que ainda não se sabe em que medida essa transferência se dá, ponto frutífero para novos estudos.

A mesa chega ao fim com discussões oriundas de perguntas e elogios feitos pelos participantes no chat e questões como o fato de o currículo dos cursos de licenciatura não abordarem o bilinguismo, bases neurais da aprendizagem e ciência da leitura, engajamento de professores para participarem de pesquisas na escola, efeitos do sono com crianças pequenas, entre outros assuntos. A mesa foi de extrema importância por conseguir conectar a ciência à escola e, principalmente, por entrelaçar tudo isso ao contexto atual brasileiro.

Referências

  1. PSICOLINGUÍSTICA da mente à escola. Conferência apresentada por Ingrid Finger e Janaina Weissheimer [S.I., s.n], 2020. 1 vídeo (2h 21min 01s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=3K8jvIxS7Vs&t=2643s.2020.