Resumo

Na presente conferência, a professora e pesquisadora Régine Kolinsky dedicou-se a apresentação de seu atual projeto de pesquisa, cujo objetivo principal é promover o pensamento crítico em sujeitos subletrados por meio das práticas que contribuem para o estabelecimento do status de literacia. Para tal, a pesquisadora revisita a noção literacia, aponta as influências desse aprendizado sobre as mais variadas cognições humanas e explicita a necessidade de uma educação comprometida com o desenvolvimento do pensamento crítico dos indivíduos, como uma forma de resistência às fake news e às falsas crenças. Aqui, a proposta de pesquisa de Kolinsky foi criticamente avaliada em relação à metodologia, à recepção pelos participantes, e sua relevância para a realidade brasileira.

Texto

Em sua conferência[1] na Abralin ao Vivo, Régine Kolinsky, professora e pesquisadora da Universidade Livre de Bruxelas, relata as linhas gerais de seu projeto de pesquisa interdisciplinar, cujo cerne sobre educação básica é de extrema relevância para o mundo atual, em que o exercício da cidadania está intimamente relacionado com a capacidade de análise crítica dos textos, notícias e informações que se consome. A professora aborda temas como a importância da educação e da leitura e os aspectos cognitivos e psicológicos que permeiam a formação do pensamento crítico. Esse texto descreve e discute essas bases teóricas, inserindo o assunto como visceral na realidade brasileira.

Em uma das suas mais célebres obras, “Pedagogia do Oprimido (1968)”[2], o ilustre educador Paulo Freire, refletindo sobre o função da educação na formação do aluno, aponta para necessidade da educação como um ato político, capaz de desenvolver no indivíduo “consciência crítica, transformadora e diferencial, que emerge da educação como uma prática de liberdade’’. Assim, por meio dessa afirmação, Freire sinaliza, dentre outras coisas, o papel de uma educação libertadora, que vise o desenvolvimento do pensamento crítico do educando, uma ferramenta potente para o combate às mazelas sociais e para a construção da cidadania do indivíduo.

Para ganhar maior profundidade sobre o papel da educação na formação da consciência crítica do aluno, Kolinsky introduz o termo literacia como ferramenta importante de metalinguagem (MORAIS, 2014)[3]. Esse conceito, que está intimamente relacionado às atividades de leitura e escrita, apresenta dupla face: por um lado, assume que a leitura e a escrita devem ser reconhecidas como habilidades, pressupondo, portanto, o exercício automático e eficiente dessas capacidades. Por outro lado, pode ser interpretado como prática produtiva, que se refere ao uso pleno e crítico das habilidade de leitura e escrita, abrangendo ações de aquisição, produção e transmissão de conhecimento. Assim, a concepção de literacia se distingue das noções de alfabetização, que caracteriza um processo cujo objetivo é o domínio básico da leitura e escrita num sistema alfabético; e letramento, como o movimento de inserção da cultura escrita no desenvolvimento da criança (MORAIS, 2014).

No entanto, o estado de literacia, decorrente de processos bem-sucedidos de alfabetização e letramento, pode se constituir como um desafio, especialmente para sistemas de educação precários, que refletem as diversas desigualdades sociais do país. De acordo com dados da Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) divulgados pelo Inep (2016)[4], apenas 14,1% das crianças pertencentes ao grupo de nível socioeconômico (NSE) muito baixo apresentam uma taxa satisfatória de alfabetização, no que diz respeito às habilidades de leitura. Em contrapartida, crianças com alto NSE alcançaram um desempenho de 83,5%. Os dados também revelam que em 2016 menos da metade dos alunos de todo Brasil concluintes do 3º ano do Ensino Fundamental atingiram os níveis consideráveis de proficiência em leitura, cerca de 45,3%. Somadas a essas questões, o baixo investimento em educação, a carência de infraestrutura adequada ao aprendizado e a falta de valorização da carreira docente completam o conjunto dificuldades que comprometem profundamente a ascensão dos alunos à condição de literacia.

A literacia é, por sua vez, um fator condicionante para a capacidade do indivíduo de integrar-se à vida política e cívica da sua comunidade, e, consequentemente, um fator básico para o exercício pleno da democracia (MORAIS, 2014)[3]. Essa relação se dá na medida em que as habilidades de leitura influenciam não apenas no acesso à informação em si (apesar de esse ser um aspecto fundamental), mas também na capacidade do indivíduo de internalizar essa informação, analisá-la, averiguar seus vieses e intenções, julgar sua confiabilidade e traçar correlações com os conhecimentos que já possui. Em suma, a literacia pode possibilitar o fortalecimento do pensamento crítico, que leva o indivíduo a formar, de modo independente e livre, conclusões bem argumentadas e coerentes - que, por sua vez, condicionarão sua visão de mundo e participação na sociedade.

Nesse contexto, é fundamental a promoção de ações direcionadas, que visem identificar as fragilidades relativas aos processos de aprendizagem e intervir diretamente sobre essas demandas, de modo a solucioná-las. É neste âmbito que se insere a instigante proposta de pesquisa liderada pela professora e pesquisadora Régine Kolinsky. Com a finalidade de examinar e incentivar o pensamento crítico e perceber suas relações com outras capacidades (cf. habilidades de leitura e escrita, raciocínio lógico, habilidades linguísticas, funções executivas e Teoria da Mente) e, por meio de treinamentos, estimulá-las, Kolinsky e sua equipe conduzirão uma série de testagens iniciais (Pré-treinamento) e finais (Pós-treinamento) a um grupo de adolescentes que frequentam o ensino profissional e adultos “subletrados’’ estudantes na modalidade EJA (Educação para Jovens e Adultos).

A proposta de um estudo interdisciplinar que busca conhecer a natureza das correlações entre a literacia, pensamento crítico e capacidades cognitivas distintas é realmente relevante e original. No entanto, é preciso reconhecer que tais habilidades são atravessadas, em maior ou menor grau, por aspectos culturais que podem exercer um forte efeito não apenas sobre o pensamento crítico em si, como também sobre o teste criado para avaliá-lo. Intuitivamente, habilidades metafonológicas ou de memória parecem ser menos influenciadas por fatores socioculturais do que aspectos do pensamento crítico, como autoavaliação social e adesão aos valores convencionais medido pelo teste F-scale. Por essa razão, faz-se necessária a utilização de uma metodologia que seja capaz de reduzir esses efeitos externos às relações que se pretende verificar.

Nesse sentido, outro ponto que merece atenção é o perfil dos participantes. O presente estudo contou com a participação de indivíduos de diferentes faixas etárias (19 a 55 anos). Diferenças substanciais em relação à idade dos participantes podem apresentar vieses sobre o desempenho médio. Assim, também é importante o controle do perfil dos participantes a fim de evitar, mais uma vez, a interferência de outras variáveis. Há ainda outras maneiras em que o perfil dos participantes pode influenciar nos resultados obtidos, em especial se comparados às habilidades semelhantes em crianças: alunos da EJA comumente exibem atitudes mais hesitantes em relação à sala de aula e ao ambiente de testes. Seus sentimentos de inadequação, insegurança ou menor autoestima em relação à leitura, gerados pela ideia de que estariam “atrasados” ou que “lhes faltariam conhecimentos intelectuais”, frequentemente diminuem seu engajamento e atenção nos testes, o que naturalmente se reflete nos resultados.

Neste trabalho, a avaliação das relações entre literacia e pensamento crítico será realizada por meio de questionários e testes padrão. Esse tipo mais simples de aferição é interessante porque é acessível e descomplicado, facilitando a realização dessas atividades diretamente em escolas, viabilizando o elo tão rico e necessário entre escola e universidade. Entretanto, por vezes, testes padronizados são excessivamente simplórios e completamente baseados em perspectivas descoladas da realidade dos participantes, exigindo conhecimentos enciclopédicos arbitrários que não correspondem àqueles com que o indivíduo lida no seu cotidiano.

Assim, é importante que os resultados obtidos sejam analisados com cautela e não sejam tomados de forma categórica, uma vez que podem não estar refletindo necessariamente correlações verdadeiras - um exemplo é a observação preliminar de múltiplas correlações entre a fluência de leitura e diferentes aspectos do pensamento crítico e raciocínio lógico. Conclusões mais confiáveis só poderão ser tiradas uma vez conduzido o treinamento e repetidos os testes, o que permitirá à professora analisar os aspectos influenciados ou não por suas estratégias. Uma vez concluído, o trabalho fornecerá informações valiosas a respeito das possíveis relações de causalidade desse aspecto tão multifacetado da cognição.

O projeto de pesquisa coordenado pela pesquisadora Régine Kolinsky e aqui discutido é de extrema relevância para a atualidade: para além dos índices preocupantes do Brasil em relação à literacia, é cada vez mais prevalente o contato com propaganda enganosa, fake news, e informações ideologicamente enviesadas. Nesse contexto, é de suma importância o desenvolvimento da habilidade plena da leitura para a análise dos textos e, ainda mais, a consciência crítica do seu conteúdo, sua argumentação, e sua validade. Essa capacidade de autodefesa intelectual, ou autovigilância epistêmica, é o que permitiria à população brasileira descartar as deturpações dos fatos e formar opiniões bem embasadas para o exercício integral de sua cidadania. Assim, como bem nos ensinou Freire e como Kolinsky pretende demonstrar, somente através de uma educação de qualidade, acessível e libertadora, será possível a construção de uma sociedade crítica e autônoma, capaz de se detectar e rejeitar discursos falaciosos e superar as profundas amarras provocadas pelas desigualdades.

Referências

  1. A literacia e seus desafios: promover o pensamento crítico em pessoas subletradas. Conferência apresentada por Régine Kolinsky [s.l., s.n.], 2020. 1 vídeo (1h 31min 0s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=VQ4iEkGG3-4.2020.
  2. Dados da Avaliação Nacional da Alfabetização ANUÁRIO BRASILEIRO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA . http://portal.mec.gov.br/docman/outubro-2017-pdf/75181-resultados-ana-2016-pdf/file .2020.
  3. Pedagogia do oprimido Freire P. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1968.
  4. Alfabetizar para a democracia Morais J. Porto Alegre: Penso Editora; 2014.