Resumo

Régine Kolinsky traça uma trajetória do conceito de “literacy” do século XIX, passando por evidências de mudanças da literacia nas capacidades cognitivas dos sujeitos letrados, até a descrição dos dados do pré-teste de seu projeto com adultos na EJA (Educação de Jovens e Adultos) na Bélgica. A professora contribui com reflexões importantes acerca da aquisição de leitura/escrita e correlatos cognitivos e seu impacto na sociedade. A professora cita evidências da relação entre literacia e o pensamento crítico e a desvirtualização da informação. Ela destaca a literacia para a formação do pensamento crítico dos cidadãos, cujo papel é fundamental para a dinâmica democrática de um país. No Brasil, a baixa literacia destaca-se negativamente nos índices de leitura de jovens avaliados pelo Pisa, classificando mais de 70% deles como maus leitores, tornando a situação grave e alarmante no país.

Texto

A palestra da Prof. Régine Kolinsky ocorreu em 12 de maio de 2020[1], na série de conferências on-line organizadas pela Associação Brasileira de Linguística (Abralin) durante a pandemia de coronavírus (COVID-19). A professora é Doutora em Psicologia pela Universidade Livre de Bruxelas (ULB) e atualmente pesquisa sobre alfabetização e educação formal e seu impacto no cérebro humano. Régine Kolinsky é professora e coordenadora da Unidade de Pesquisa em Neurociências Cognitivas da Universidade Livre de Bruxelas (ULB).

A exposição da professora Régine Kolinsky inicia com uma reflexão sobre o impacto da literacia nas capacidades mentais perceptivas e cognitivas. A literacia1, segundo a professora, é a utilização eficiente e frequente da leitura e da escrita. O papel da baixa literacia no pensamento crítico de sub-letrados é o tema central desta conferência. O termo utilizado pelo INAF (Indicador de Alfabetismo Funcional) é Analfabeto funcional, porém Kolinsky utiliza o termo sub-letrados a fim de enfatizar o papel da literacia, que tem, como enfatizamos, o conceito da utilização frequente e eficiente da leitura e da escrita, em oposição a alfabetismo, termo ligado à alfabetização, processo prévio ao alcance da literacia.

A professora demonstra sua preocupação com os níveis de leitura no Brasil. Dados do PISA (2018) indicaram que o percentil de adolescentes brasileiros que possui condições para realizar uma compreensão mais aprofundada de um texto não atinge 2%. Embora a perspectiva em países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) não seja mais animadora, é impactante o índice de 73% de adolescentes brasileiros que se aglomeram na classificação de maus leitores2. Esses números trazidos pela professora acentuam a urgência da discussão sobre literacia no país, uma vez que a baixa literacia pode estar associada a maiores índices de credulidade em fake news, propagandas mentirosas e em teorias da conspiração, repercutindo significativamente na democracia.

Um dos fatores que impactam a democracia, elencados pela professora, é a desvirtuação da informação, prejudicando o pensamento crítico dos cidadãos. Esse pensamento crítico de que a professora trata é um conjunto de habilidades cognitivas, composto por inferências e generalizações, por atitudes de questionamento diante de algo posto e é, sobretudo, o elemento chave para a plena funcionalidade do cidadão na sociedade. Ao utilizar eficiente e frequentemente a leitura e escrita para a aquisição, transmissão e produção de conhecimento, o pensamento crítico sustenta uma autodefesa intelectual (vigilância epistêmica), que impede o leitor de satisfazer-se apenas com a compreensão superficial de um texto. Já o subletrado apresenta dificuldades para compreender além do sentido literal do texto, para processar ideias inesperadas ou para concretizar informações, permanecendo à margem de discussões sobre as fakes news, propagandas mentirosas e teorias conspiracionistas que circulam na Internet.

Uma ilustração do impacto do pensamento crítico está na pesquisa com jovens finlandeses, trazida pela professora (AARNIO; LINDEMAN, 2005)[2]. Esse estudo compara jovens de curso técnico com universitários e conclui que os jovens com menor escolaridade são mais suscetíveis a acreditarem em fenômenos paranormais, indicando que um menor pensamento crítico pode estar associado a um menor nível educacional.

Uma série de fatores podem demonstrar o impacto da baixa literacia no pensamento crítico, sabendo-se que nível educacional e literacia provavelmente estão associados positivamente. São eles: 1) Pessoas com maior nível educacional leem mais e possuem mais acesso à informação; 2) Pessoas com maior nível educacional também apresentam maior tendência a utilizar processos de raciocínio analítico e têm menos tendência a usufruir de soluções simples e intuitivas para entender e resolver problemas complexos; 3) Pessoas com maior nível educacional têm menos tendência a atribuir intencionalidade e a agência a objetos inanimados e, por fim, 4) Pessoas com maior nível educacional apresentam maior motivação para formar crenças baseadas em pensamento lógico e em evidências. Por isso, indivíduos que leem em menor quantidade e qualidade podem confundir-se com a desvirtuação de informações de um texto e optar por um caminho de compreensão em que haja menos hipóteses para avaliação crítica.

A professora Kolinsky exemplifica o impacto da literacia nas capacidades mentais perceptivas e cognitivas. Um exemplo trazido por ela é a memória verbal auditiva, que é menor em adultos iletrados se comparados a adultos letrados. Os iletrados3 demoram mais em tarefas de repetição imediata de pseudopalavras ou recordação serial imediata de listas de palavras (CASTRO-CALDAS et al., 1998[3]; MORAIS et al., 1979[4]; REIS; CASTRO-CALDAS, 1997[5]). Isso ocorre, segundo a professora, porque nos letrados, a memória verbal auditiva se beneficia do suporte das representações mentais da ortografia das palavras e das representações metafonológicas aprendidas com a literacia. Esses resultados foram replicados no estudo atual de Kolinsky (não publicado). A professora ressalta que seus dados são ainda preliminares. Os dados do pré-teste da pesquisa atual de seu laboratório de neurociências feita com adultos da EJA da parte francófona de Bruxelas, uma região menos favorecida, mostram que os subletrados tiveram um desempenho inferior a crianças letradas da segunda série em tarefas de consciência e memória fonológica. As tarefas aplicadas foram de repetição de pseudopalavras e de supressão de fonemas de palavras.

Aqueles que aprendem o alfabeto e o utilizam constroem novas estratégias para lidar com a língua oral: processamento fonológico consciente, representação visual forma da palavra, e todas as associações que essas estratégias permitem (como o acesso lexical e também o processamento semântico, por exemplo). Os iletrados, por outro lado, não desenvolvem essas estratégias e dependem mais do processamento semântico da linguagem, provavelmente por isso, os iletrados tendem a transformar as pseudopalavras em palavras reais do léxico da língua, dando significado a elas, como no estudo seminal de Castro-Caldas et al. (1998)[3].

Evidências científicas mostram que o cérebro passa por um processo de adaptação neuronal à leitura. Aprender a ler modifica as redes neurais do aprendiz (DEHAENE, 2012)[6]. Assim, as capacidades linguísticas mentais relacionadas à literacia desenvolvidas por sujeitos letrados citadas por Kolinsky - memória verbal, consciência fonológica/metafonologia, representação mental ortográfica das palavras - têm consequências nas redes neurais do cérebro daquele que aprende a ler (DEHAENE, COHEN, MORAIS, KOLINSKY, 2015).

Outro exemplo trazido por Kolinsky do impacto da literacia nas capacidades mentais cognitivas é o uso de estruturas sintáticas. Letrados e iletrados utilizam estruturas sintáticas diferentes. A língua oral e a língua escrita são diferentes. A língua oral é mais adjetiva, e a língua escrita tem mais processos de subordinação e estruturas conectivas. A professora cita o estudo de Shallice e Wills (apud KOLINSKY, 2020)[1] que demonstra que iletrados apresentam maior dificuldade na compreensão de frases faladas. Aproximadamente um terço dos iletrados baseiam sua compreensão na ordem e contiguidade dos termos salientes, apresentando dificuldades para resolver ambiguidades, por exemplo. A falta de repertório faz-se evidente nessa situação. A aprendizagem da leitura aumenta e diversifica o banco de dados de conhecimento do indivíduo, sendo uma fonte importante de enriquecimento de vocabulário, especialmente de termos enciclopédicos ou relacionados ao conhecimento acadêmico. De acordo com Lieury e Lorant (2013)[7], entre 6ª e 9ª séries, a aquisição de vocabulário varia com o acréscimo de quase quinze mil palavras.

Kolinsky traz na explanação de dados ainda preliminares dos pré-testes aplicados na pesquisa atual de seu laboratório, a correlação entre habilidades linguísticas como consciência fonológica e compreensão do que se lê e a capacidade de pensamento crítico. O pensamento crítico foi medido pelo teste CCT (Cornell Critical Thinking Test), que é um teste com 71 itens que avalia a indução e dedução de informação e a credibilidade de identificação de suposições através de um texto narrativo. O escore dos adultos subletrados da EJA testados por Kolinsky foi bastante baixo. E houve correlação significativa entre o teste de pensamento crítico e medidas de hábitos de leitura investigadas, como o número de livros lidos por ano pelo participante. Dessa forma, com esses e outros dados ainda preliminares trazidos na conferência, a professor Kolinsky deixa claro a relação entre literacia e pensamento crítico.

A conferência mostrou que o privilégio da literacia caracteriza-se como um meio de transformação de consciência crítica e, acima de tudo, trata-se uma prática de liberdade (FREIRE, 1968/74)[8]. A literacia não é um fator necessário para a democracia, porém a sua efetividade oportuniza que todos tenham condições de debater e contribuir para as decisões da sociedade, como salienta Morais “democracia é debate e decisão: debate aberto a todos e decisão tomada coletivamente pela maioria” (MORAIS, 2013, p.21)[9,10]. Ler e compreender informações é cidadania; permite ao sujeito colocar-se como um ser político, dotado de opinião e isento de amarras, que são as armadilhas da desvirtualização da informação (como as fake news, por exemplo). O pensamento crítico, decorrente do aumento da literacia, rompe barreiras.

Uma ilustração, com a qual finalizamos nossa resenha, é a “grande magia da saga Harry Potter”, citada por Kolinsky. A popularização da leitura dos livros de J. K. Rowling permitiu que atitudes em direção a grupos estigmatizados fossem transformadas, isentando-os de preconceitos. É exatamente isso que desejamos para o Brasil, país com índices de leitura baixos, que pode ser transformado com seriedade, vontade política através de investimentos em educação.

Referências

  1. A literacia e seus desafios: promover o pensamento crítico em pessoas sub-letradas. Conferência apresentada por Régine Kolinsky [S.l., s.n], 2020. 1 vídeo (1h31min 00s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística https://www.youtube.com/watch?v=g-vEw5u4V3M&t=4s.2020.
  2. Paranormal beliefs, education, and thinking styles Aarnio Kia, Lindeman Marjaana. Personality and Individual Differences.2005;39(7). CrossRef
  3. The illiterate brain. Learning to read and write during childhood influences the functional organization of the adult brain Castro-Caldas et al . Brain.1998;121(6).
  4. Os neurônios da leitura: como a ciência explica a nossa capacidade de ler Dehaene S. Porto Aletre: Penso; 2012.
  5. Pedagogia do Oprimido Freire P. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1968.
  6. Encyclopedic Memory: Long­Term Memory Capacity for Knowledge Vocabulary in Middle School Lieury Alain, Lorant Sonia. International Journal of Educational Psychology.2013;(1). CrossRef
  7. Criar leitores - Para professores e educadores Morais J. Barueri: Editora Manole; 2013.
  8. Criar leitores para uma sociedade democrática Morais José. Signo.2013;38. CrossRef
  9. Does awareness of speech as a sequence of phones arise spontaneously? Morais et al . Cognition.1979;7(4).
  10. Illiteracy: A cause for biased cognitive development Reis A, Castro-Caldas A. Journal of the International Neuropsychological Society.1997;3(5).