Resumo

Nesta conferência, o professo Rajagopalan, por meio de um acontecimento atual: a pandemia do Covid-19 e o isolamento social, reflete sobre a relação indivíduo/ sociedade. Essa reflexão perpassa o pensamento do bom selvagem de Rousseau – o homem, inicialmente, é puro, a sociedade que o corrompe, em outras palavras, a sociedade seria um organismo pernicioso que afeta/ infecta o ser humano; puro por natureza, saudável e são. Essa reflexão serve de ponte para o conceito de umbigofilia – preocupação demasiada do eu e a indiferença, ou até mesmo repudio, ao coletivo/ social. Além disso, o professor questiona o papel da sociedade nos estudos da linguagem: as pesquisas sobre linguagem devem partir do exterior (sociedade) para o interior (indivíduo) ou o movimento deve ser o oposto? Por fim, o professor nos lembra que “não existe sujeito sem sociedade e ele não pode viver preso numa teia”.

Texto

O professor Rajagopalan dá início a sua palestra[1] fazendo referência ao pensamento do bom selvagem de Rousseau – o homem, inicialmente, é puro, a sociedade que o corrompe. Ele utiliza-se desse pensamento para refletir sobre a interferência da sociedade no indivíduo. A sociedade seria um organismo pernicioso que afeta/ infecta o ser humano – puro por natureza, saudável e são. Em outro momento, Rajagopalan (1998) faz referência também ao pensamento do bom selvagem, mas o aplica em relação à interferência do linguista, durante o auge da linguística estrutural americana, sobre o nativo ainda não corrompido pela civilização ocidental; também, usa o mesmo pensamento para esclarecer a visão de Chomsky sobre o falante – um indivíduo ideal, isto é, incapaz de cometer erros na própria língua; “uma espécie de “bom selvagem” linguístico” (RAJAGOPALAN, 1998: p.28)1. O pensamento sobre o bom selvagem serve de ponte para pensar a sociedade como agente responsável pela atual pandemia. Mas, o que deve ser evitado: a sociedade ou aglomerações? O termo isolamento social pode ser enganoso, pode nos levar a crer na perniciosidade do organismo social.

A doença que se alastra pelo mundo traz à tona a preocupação do bem estar apenas individual: o importante é que eu estou bem – no máximo, a preocupação estende-se à família –, o bem estar dos demais pouco me interessa. O professor Rajagopalan cunha um termo que resume a preocupação demasiada do eu e a indiferença, ou até mesmo repudio, ao coletivo/ social: umbigofilia.

As reflexões sobre a indiferença em relação ao corpo social e o interesse excessivo no eu individual é exemplificado pelo professor Rajagopalan por meio de clássicos da literatura: Dom Quixote; Dom Juan e Fausto. O que esses três têm em comum? Os heróis dos romances padecem de umbigofilia, todos eles interessam-se apenas consigo e sofrem consequências por isso. A literatura do século XIX é marcada pela criação e exaltação do herói individual. Esse pensamento também está presente, com outra roupagem, em Rajagopalan (1998, p. 30)[2]:

Em seguida, Rajagopalan provoca: que postura ideológica estamos (re)construindo ao pensar sobre o termo isolamento social? O pensamento conservador estimula a indiferença à sociedade, mas qual o papel do sujeito dentro do corpo social?

Poderíamos, de maneira inocente, acreditar que as palavras do professor se distanciam do pensamento sobre linguagem e da própria linguística. Rajagopalan arremata seu pensamento ao suscitar a questão do papel da sociedade na linguagem e como a própria linguística pode lucrar com as abordagens “que consideram os falantes nativos não como “mônadas” isoladas, mas como participantes numa rede socialmente definida de relacionamentos, que são reais pelo fato de os laços socais que os mantêm unidos serem concretos” (RAJAGOPALAN, 1998: p.34). Sua fala é circular: inicialmente, reflete sobre as possíveis consequências do termo isolamento social – será a sociedade ou as multidões que devem ser evitadas? –, isso retoma a concepção do indivíduo como elemento central, a umbigofilia – interesse exacerbado do indivíduo apenas nele mesmo. E Rajagopalan questiona, por fim, levando em consideração o que foi refletido sobre indivíduo e sociedade, se os estudos sobre a linguagem devem partir do exterior para o interior ou o movimento deve ser o oposto? A postura do pesquisador sobre o ponto de partida (sociedade ou indivíduo) em relação aos estudos sobre a linguagem, segundo Rajagopalan, é uma marca de posição ideológica assumida.

“Não existe sujeito sem sociedade e ele não pode viver preso numa teia”, até mesmo para que haja interação é necessário pelo menos dois sujeitos – e aqui o professor faz uma remissão à clássica figura de Saussure –, em outras palavras, a própria interação só se concretiza com o indivíduo, enquanto agente, mas em sociedade. É, por isso, fundamental que haja ambos elementos: indivíduo e sociedade.

A fala do professor, além de atender uma necessidade atual: repensar criticamente sobre o termo isolamento social, reflete também sobre o papel da sociedade na linguagem e provoca um reflexão mais profunda sobre o papel do indivíduo na (re)construção da sociedade enquanto conjunto de seres que apenas coexistem ou de indivíduos que convivem; compartilham propósitos e interagem. Independente da postura ideológica que se adote, Rajagopalan relembra: “cada macaco no seu galho e não haverá macaquinho algum para se contar história”.

Referências

  1. LINGUAGEM e sociedade em tempos de isolamento. Conferência apresentada por Kanavillil Rajagopalan [s.l., s.n], 2020. 1 vídeo (1h 17min 59s). Publicado pelo canal da Associação Brasileira de Linguística hhttps://www.youtube.com/watch?v=g-vEw5u4V3M.2020.
  2. O conceito de identidade em linguística: é chegada a hora para uma reconsideração radical? Rajagopalan, K. In: Signorini I, ed. Língua(gem) e Identidade: elementos para uma discussão no campo aplicado. Campinas: Mercado das Letras; 1998 .