Resumo

Este artigo funda-se em princípios da História das ideias linguísticas e trata da descrição e análise dos fatos linguísticos nas duas edições (1721, 1725) da gramática Regras da lingua Portugueza, espelho da lingua Latina. Para isso, investigamos o horizonte de retrospecção a fim de entender como Contador de Argote desenvolveu seu trabalho. Enquanto na primeira edição Argote trata brevemente dos fatos linguísticos, na segunda edição, o gramático amplia-os consideravelmente, principalmente pelo desenvolvimento das características da língua portuguesa.

Introdução1

As duas edições (1721, 1725) da gramática de D. Jeronymo Contador de Argote intitulada “Regras da lingua Portugueza, espelho da lingua Latina, ou disposiçaõ para facilitar o ensino da lingua Latina pelas regras da Portugueza” trazem expressos no subtítulo seu objetivo: auxiliar no ensino e na aprendizagem do latim, utilizando as regras e a metalinguagem do português.

Apesar de o objetivo ter permanecido o mesmo, a segunda edição da gramática traz conhecimentos novos acerca da língua portuguesa, o que é justificado por Argote pela experiência, ou seja, pelo conhecimento adquirido com o uso.

Assim, partindo do pressuposto de que a análise das diferentes edições de uma obra nos permite observar as continuidades, ou descontinuidades manifestadas pelo autor diante de um fato linguístico, examinamos as duas edições da gramática tendo por base o conceito de horizonte de retrospecção (AUROUX, 2008, 2009), ou seja, os conhecimentos antecedentes que nortearam o autor e sua obra, a fim de explicar a continuidade dos saberes sobre a língua portuguesa ao longo do tempo, bem como a progressão desses conhecimentos.

1. A concepção da gramática

As Regras foram concebidas com o intuito didático de servir às aulas de gramática nas Casas de Nossa Senhora da Divina Providência, da ordem religiosa dos Teatinos.

Argote baseou suas regras no uso. Os exemplos, forjados pelo autor, tem por função validar as regras, já que o discípulo primeiro as expõe e só depois as exemplifica.

A primeira edição da gramática, de 1721, é publicada sob o pseudônimo de Padre Caetano Maldonado da Gama, tem 228 páginas e é organizada em três partes: a primeira, com onze capítulos, trata das classes de palavras, as quais ele denomina “castas”. Esse termo usado por Argote é utilizado para distinguir e hierarquizar as classes de palavras, bem como para especificar os fenômenos linguísticos dentro da gramática. A segunda parte, com oito capítulos, trata da sintaxe simples e a terceira, com cinco capítulos, trata da sintaxe figurada.2 A essas introduz-se uma folha de rosto, uma página em branco, prólogo, licenças do santo ofício (do ordinário, do paço), despacho final de impressão, outra página em branco e uma introdução ou “Instrucc,am a grammatica”.

Sobre o pseudônimo utilizado, como era uma constante entre os religiosos teatinos, Contador de Argote escolheu o pseudônimo “Caetano” como forma de identificar-se e o sobrenome “Maldonado da Gama” tomou-os de sua mãe, D. Maria Josefa Lobo da Gama Maldonado (KEMMLER, 2012: 82-83).

A segunda edição veio a lume em 1725, com 360 páginas, “muyto accrecentada, e correcta” como informa o próprio autor no frontispício da gramática e consta de folha de rosto, uma página em branco, uma carta dedicada a D. José I, príncipe de Portugal, prólogo, licença da ordem, licenças do santo ofício (do ordinário, do paço), despachos finais de impressão e uma “Introducçam a’ presente grammatica”.

Diferentemente da edição anterior, na qual Argote utiliza apenas um pseudônimo para apresentar-se, nessa edição, o gramático teatino assume a autoria e identifica-se como “Clérigo Regular, e Academico da Academia Real de Historia Portugueza”.

Contador de Argote começa a ampliar, concretamente, a gramática na terceira parte, acrescentando, na segunda edição, mais dois capítulos em que trata das figuras de palavras e das palavras enclíticas. Segue- se uma quarta parte, com dois capítulos, em que trata dos dialetos e da construção da língua portuguesa e que, segundo Leite (2011a:667), é “a primeira sistematização, embora ainda imperfeita, dos dialetos portugueses”. Argote também apresenta uma carta do Pe. Antonio Vieira ao Arcebispo de Braga, o Cardeal Veríssimo de Lencastre, acompanhada de uma análise, para a prática da regência da língua portuguesa. Ao final, há um tratado de ortografia, com três capítulos em que expõe regras de ortografia e de pontuação, e o índice com a matéria da gramática.

Outra observação acerca dessa obra diz respeito à sua estrutura. As duas edições das Regras foram publicadas utilizando como recurso o discurso direto, por meio de um diálogo conduzido entre o Mestre (M.) e seu Discípulo (D.).

2. O plano da obra

A estrutura da gramática de Argote segue o modelo repetido nas gramáticas dos vernáculos europeus, ou seja, o modelo greco-latino, tratando das classes de palavras, de sintaxe e de ortografia. Conforme explica Hackerott (1994:117), Argote “manteve a mesma ordenação dos capítulos da gramática alvarista”, a fim de que o discípulo “conseguisse acompanhar as aulas de Gramática Latina”. Contador de Argote não trata, todavia, de prosódia, como o fez Manuel Álvares, porque o objetivo de sua gramática era mostrar que as regras do português eram semelhantes as do latim e como ambas as prosódias são diferentes, o gramático não poderia ocupar-se dela.

A primeira parte da gramática nas duas edições, como já mencionado, é dedicada ao tratamento das classes de palavras. Diferentemente dos gramáticos portugueses anteriores - Fernão de Oliveira (1536), João de Barros (1540) e Amaro de Roboredo (1619)-, e seguindo a lição de Donato (século IV d.C.), Argote não considera o artigo e reconhece oito classes de palavras. Vejamos os dois excertos nos quais as classes de palavras são apresentadas:

As partes da oração são quantas? Oito. Quais? Nome, pronome, verbo, advérbio, particípio, conjunção, preposição e interjeição (DONATO, Arte menor apud DEZOTTI, 2007:181).

M. E quantas castas de palavras tem a lingua Portugueza, e as suas oraçoens?

D. Oyto.

M. Quaes saõ?

D. Nome, Pronome, Verbo, Participio, Adverbio, Preposiçaõ, Conjunçaõ, e Interjeyçaõ (ARGOTE, 1721:8/1725:2).

Donato não considera o artigo uma das classes de palavras, porque o latim não o tem como classe, mas como partícula para especificar os seres, e, Argote, tentando regular o português pelo latim, também não o considera, ainda que o artigo seja recorrente na língua portuguesa.

É fato que as definições das classes de palavras mantiveram-se quase inalteráveis desde a sua concepção, no mundo grego, entretanto, como explica Leite (2014:116) “no decurso da história, a apresentação e descrição das categorias linguísticas foram modificadas” seja na forma, seja na ordem de exposição, ou ainda, na descrição, tendo em vista a mudança de perspectiva, de teoria para interpretá-las. No caso de Argote, observamos que as definições apresentadas são um decalque da Ars Minor, de Donato.

A segunda parte das duas edições das Regras é dedicada à sintaxe simples. Vale notar que foi Apolônio Díscolo, no século II d.C., o responsável pela “consideração da sintaxe como ponto central da análise linguística”, a partir do estabelecimento de um estudo sistemático e completo da língua grega (NEVES, 2002:69). A preocupação deixa de ser, então, a palavra isolada e passa a ser a sintaxe, ou seja, a ordem e disposição das palavras na oração. No mundo latino, é Prisciano, no século VI d.C., que inicia o estudo de sintaxe traduzindo o termo grego sintaxe para o latim, como “constructione”, desenvolvido nos livros 17 e 18 de sua Arte “l’Ars Prisciani” (GROUPE ARS GRAMMATICA, 2010:11). De acordo com o mesmo grupo (2010:11, tradução nossa), “a Arte de Prisciano é a primeira obra latina em que a análise da combinação dos constituintes do enunciado aparece como uma parte integrante de uma apresentação global e sistemática da gramática”.3 Entretanto, apesar do trabalho realizado, notadamente, por Apolônio e Prisciano, o estudo da sintaxe permaneceu submerso durante muito tempo, tendo reaparecido paulatinamente nas gramáticas renascentistas.

Fernão de Oliveira (1536:73) dedica um capítulo de sua obra à “construição”, definindo-a como “composição ou concerto que as partes ou dições da nossa lingua têm antre si, como em qualquer outra lingua”, mas não a desenvolve. João de Barros (1540, apud BUESCU, 1971:349) também dedica um capítulo à “construçám das pártes”, definindo-a como a “conveniênçia antre pártes postas em seus naturáes lugares” e vai além, pois trata de concordância e regência a qual chama “regimento”. Amaro de Roboredo (1619:47) trata da sintaxe, dedicando um capítulo à “composição Portuguesa, & Latina correspondentes, em que se encerra a syntaxe das outras artes”. O gramático apresenta a sintaxe de concordância, denominando-a “concordia”, e a sintaxe de regência, além de apresentar advertências quanto à regência de algumas preposições e ao uso da partícula que.

Contador de Argote, por sua vez, afirma ser a sintaxe “a boa ordem, e disposiçaõ das palavras”, sendo para isso necessário estarem “no numero, caso, e no lugar, que lhes pertence” (1721:161/1725:184). O gramático divide a sintaxe em simples e figurada. Enquanto a primeira “ensina as regras de ordenar bem as palavras na ordem natural”, qual seja, o artigo antes do nome, o nome antes do verbo, o caso depois do verbo, e o adjetivo acompanhando um substantivo; a segunda “ensina quando estaõ bem ordenadas as palavras, ainda que estejaõ fóra da ordem natural” (1721:162-163/1725:185-186).

Na sintaxe simples, Contador de Argote distingue, assim como João de Barros e Roboredo, a sintaxe de concordância e a sintaxe de regência. De acordo com Argote, a sintaxe de concordância ensina as regras de concordar os verbos com os nomes, ou pronomes, em número e pessoa; e a concordar os nomes adjetivos com os substantivos em gênero, número e caso (1721:163/1725:186). Enquanto a sintaxe de regência “ensina em que caso haõ de estar na Oraçaõ os nomes, e em que modos, e tempos haõ de estar os Verbos” (1721:165/1725:188). Entretanto, diferentemente dos gramáticos portugueses anteriores, Argote apresenta regras que dizem respeito à sintaxe da língua portuguesa. Por isso Argote destaca-se como o primeiro gramático português a desenvolver significativamente a sintaxe do português, porque além de apresentar as regras fixas latinas comuns à sintaxe portuguesa e à latina, também descreve a sintaxe da língua portuguesa, gramatizando, assim, esse nível linguístico.

Na “sintaxe de concordar”, por exemplo, há regras sobre a relação do adjetivo com o substantivo, do verbo com o nominativo, e dos pronomes relativos com o seu antecedente. Essas regras, como afirma o próprio autor, encontram-se também no latim. Por outro lado, Contador de Argote destaca uma regra que não concorda com a sintaxe latina e que diz respeito ao uso de particípios “quando vem nos tempos compostos, com o Verbo Ter” (1721:166/1725:189-190). Assim, na oração “Nós temos comprado a louça”, Argote analisa a não concordância do particípio “comprado” em número com o pronome “nós” e em gênero com o substantivo feminino “louça”, a fim de descrever um fato específico do português.

Na “syntaxe de reger”, Contador de Argote apresenta regras de regerência dos nomes, ou seja, regras que ensinem “em que casos haõ de pór na Oraçaõ os nomes” e regras de regência dos verbos, ou seja, regras que ensinem “em que modos, tempos &c. se haõ de pòr na Oraçaõ os Verbos” (1721:170-171/1725:194-195). Vale notar que Verney (1746) critica as regras da sintaxe de reger expostas por Contador de Argote. De acordo o autor,

o P. Argote dezemparou o seu mesmo metodo, por seguir os erros de Manoel Alvares, e multiplicar regras sem necessidade; asinando regencias falsas: quando tudo aquilo se reduzia, a explicar a regencia dos Cazos, polas regras fundamentais; que sam mui poucas. Isto é o que deve cuidar o Mestre: reduzindo as regras, as verdadeiras cauzas da regencia: apontando algum particular idiotismo &c. porque isto basta (...) (VERNEY, 1746, Tomo I, Carta I:13).

As falsas regências referidas por Verney são aquelas que dizem respeito à gramática da língua portuguesa, já que a proposta de Argote era dar as regras da língua portuguesa conformadas às do latim, a fim de facilitar a compreensão dessa língua clássica. No entanto, Argote apresenta dentre as regras da sintaxe de regência dos nomes, comuns ao português e ao latim, aquelas relacionadas somente ao português. Essas regras dizem respeito à sintaxe de reger o nominativo, o genitivo, o dativo, o acusativo e o ablativo (1721:185-204/1725:199-231). Quanto à sintaxe de reger os verbos, além das regras comuns ao português e ao latim, Argote apresenta uma que diz respeito apenas ao português. Nela, o gramático descreve o infinitivo sendo usado no lugar do subjuntivo: “Mandey aos soldados vigiar” em vez de “Mandey aos soldados que vigiassem” (1721:205/1725:236).

A terceira parte da gramática dedicada à sintaxe figurada dispõe, como já mencionado, de sete capítulos. Argote define a sintaxe figurada como “as regras de dispor bem as palavras fora da ordem natural, e por figuras”, ou seja, “contra as regras da Syntaxe simples, porèm admitido pelo uso” (1721: 211/1725:241).

Os cinco capítulos iniciais constam das duas edições e tratam das figuras elipse, pleonasmo, silepse, hipérbato e idiotismo, respectivamente. Vale notar que essas figuras são as mesmas apresentadas por Arnauld e Lancelot na Gramática Geral de Port-Royal (1660), com exceção dos idiotismos, o que se justifica pelo fato de essa gramática não tratar do sistema interno do francês.

No sexto capítulo, acrescentado na segunda edição, o autor aborda as “figuras de Dicção”, tratando das modificações nas formas das palavras, motivadas pela adição, subtração e comutação de alguma letra. Em estudo feito sobre “a construção da norma linguística na gramática do século XVIII”, Leite (2011a:670) explica a importância desse tema “para o conhecimento da variação linguística, porque é o uso que modifica as palavras por meio dos referidos processos de alteração fonética das palavras”.

Das figuras apresentadas, a mais recorrente no português, de acordo com o gramático, é a síncope, ou subtração de letra no meio da palavra. A recorrência da apóstrofe, na língua portuguesa também é referida por Contador de Argote. De acordo com o gramático (1725:285), a apóstrofe ocorre quando há união de duas palavras e a primeira perde um elemento, como em antontem> ante ontem, ou Pedralves> Pedro Alvares. De acordo com Leite (2011a:671) esse processo “traduz a tendência da fonética do português europeu de elidir ou reduzir as sílabas pré ou pós tônicas”.

No sétimo capítulo, também adicionado na segunda edição, Argote trata da colocação pronominal, apresentando as palavras enclíticas. Vejamos como o gramático examina a questão:

Mestre. Que cousa he palavra, ou dicção Enclitica?

D. Dicçaõ Enclitica he aquella particula, ou palavra, que perde o seu tom, e o poem na ultima syllaba da palavra antecedente, se he capaz delle.

(...)

M. Dizey exemplo.

D. Dizme nesta palavra a particula Me se pronuncia com algum geyto, ou diversidade, do que quando pomos a particula Me, antes do Verbo Diz, e pronunciamos Me diz (ARGOTE, 1725:287).

Contador de Argote explica esse fenômeno linguístico pela entonação, ou seja, pela perda da intensidade na pronúncia da partícula. Leite (2011a:671) ressalta a relevância desse capítulo para a historiografia gramatical “por ser a primeira sistematização, para o português, do fenômeno da ênclise”, além de registrar “o fato de a posição da partícula enclítica ser variável para o português europeu, até o século XVIII”.

A quarta parte da gramática é dedicada aos dialetos e a construção da língua portuguesa e conta com dois capítulos. No primeiro, Argote trata de uso linguístico e variação, voltando-se “para as diferenças que o autor observou internamente na língua portuguesa, no que diz respeito a diferenças regionais, sociais, temporais, e de profissão”4 (LEITE, 2011a:674). Sobre esse assunto, o Mestre (M.) pergunta e o Discípulo (D.) responde:

Mestre. Que quer dizer Dialecto?.

D. Quer dizer modo de falar.

M. Que cousa he Dialecto?

D. He o modo diverso de fallar a mesma lingua.

M. Dizey exemplo.

D. O modo, com que se falla a lingua Portugueza nas terras v.g. da Beyra, he diverso do com que se falla a mesma lingua Portugueza em Lisboa porque em huma parte se usa de humas palavras, e pronuncia, e em outra parte se usa de outras palavras, e outra pronuncia , naõ em todas as palavras, mas em algumas. Esta diversidade pois de fallar, que observa a gente da mesma lingua, he que se chama Dialecto.

M. E quantas castas ha de Dialectos?

D. Muytas, mas as principaes saõ tres.

M. Quaes saõ?

D. Dialectos locaes, e Dialectos de tempo, e Dialectos de profissaõ (ARGOTE, 1725:291-292).

A partir do exposto, vemos que Contador de Argote elucida claramente o que é dialeto, reconhendo que há diferentes modos de falar ou escrever a mesma língua a depender do local, do tempo, do tipo de texto escrito (prosa ou verso) e ainda de quem o incide (dialeto rústico ou dialeto verdadeiro).

Argote examina os dialetos locais que são as variações regionais ou diatópicas, ou seja, “a differença, com que se falla a mesma lingua em diversas terras da mesma naçaõ” (1725:292), elegendo o dialeto da Estremadura como o padrão em relação ao dialeto falado nas demais regiões: províncias de Entre Douro e Minho, Beira, Algarve e Trás os Montes.

O dialeto de tempo, ou variação diacrônica “he a diffẽça do fallar da mesma lingua em diversos tempos”. Esses dialetos são divididos em três: antiquíssimo, “que se usou atè o tempo de ElRey Dom Diniz o Sexto de Portugal”; antigo, “que se usou quasi atè a perda de ElRey D. Sebastiaõ; moderno, “o que actualmente se usa da perda de ElRey D. Sebastiaõ para cà” (1725:296).

Os dialetos de profissão são, por sua vez, as variações diafásicas ou de estilo. Esses dialetos dizem respeito ao estilo prosaico, “modo de fallar, de que usamos quando dizemos qualquer cousa sem ser em verso, assim como quando fallamos familiarmente, &c.”, e ao estilo poético, “modo de fallar de que usamos quando contamos algum sucesso, ou quando o escrevemos em verso” (ARGOTE, 1725:297-298). O gramático também trata das variedades diastráticas, fazendo alusão “ao modo de fallar a lingua Portugueza mao, e viciado, ao qual podemos chamar Dialecto rustico, e delle usa a gente ignorante, rustica, e incivil”, em oposição ao “Dialecto Verdadeyro”, que “differe na pronuncia, nas palavras, e no modo de fallar a lingua Portugueza”. Além desses, Argote ainda menciona os “Dialectos ultramarinos, os quaes tem muytos termos das linguas barbaras, e muytos vocabulos do Portuguez antigo”, além da “Giria”, de que usam entre si “os homem de ganhar” e os “Siganos”. (1725: 299-300).

Conforme explica Leite (2011b:19), a variação linguística vem sendo estudada desde os gramáticos antigos, notadamente, Varrão (séc. I a.C.), que “no domínio específico dos estudos gramaticais, tratou de diferenças linguísticas devidas ao uso”. No mundo português, Fernão de Oliveira fez algumas observações sobre o uso linguístico, mas foi Argote, 189 anos depois, que apresentou uma organização do sistema variacional do português. Essa descrição feita por Contador de Argote serviu de base para que José Leite de Vasconcelos desenvolvesse seu estudo sobre a dialetologia portuguesa e publicasse, em 1901, a obra Esquisse d’une dialectologie portugaise, validando, assim, o trabalho de Contador de Argote.

No segundo capítulo, Argote desenvolve o estudo da “Construição” da língua portuguesa, ou seja, das “regras que ensinaõ a pòr em huma lingua na ordem natural as significaçoens daquillo, que em outra lingua, ou Dialecto estava na ordem perturbada, e confusa” (ARGOTE, 1725:303). Trata-se, pois, de uma tradução, seja de uma língua para outra, seja de um dialeto para outro, ou, ainda, de um estilo para outro. De acordo com Leite (2011a:680), “nessa época, considerava-se não somente a variação entre as modalidades da língua (falada e escrita), mas também aquela existente entre os gêneros de uma mesma modalidade (prosaico e poético)”.

Leite (2011a:679) também chama a atenção para a acepção do termo “construição” dada pelo gramático, diferente daquela exposta por Prisciano (séc. VI. d.C), “constructione”, no sentido de ordenação ou construção das palavras na oração. Argote expõe dez regras, a partir das quais o estudioso poderia trocar e/ou ordenar as palavras na frase, passando da ordem “confusa” para a ordem “direita”, considerando as regras da língua a ser descrita. Cada regra é seguida de um exemplo, e cada exemplo é cuidadosamente justificado pelo gramático, haja vista seu objetivo “mostrar ao principiante a conveniencia, e semelhança entre a Construiçaõ latina, e Portugueza, e lhe dar luz para a Construiçaõ Latina” (1725:309).

Seguindo a ideia de conformar as regras da língua portuguesa às regras do latim, Contador de Argote propõe um exercício para a prática da regência da língua portuguesa, a fim de facilitar a “regencia, e regras da lingua Latina”. Para esse fim, expõe uma carta do padre Antônio Vieira endereçada ao Arcebispo de Braga, D. Veríssimo de Lencastre e divide-a em quatro períodos, dos quais o primeiro, por estar minuciosamente analisado, serviria de exemplo para que os mestres vissem “como haõ de perguntar, e ensinar aos meninos”, tratando-se, pois, de um modelo a ser seguido.

Contador de Argote também traz, ao final da segunda edição de sua gramática, um tratado sobre a ortografia da língua portuguesa, composto por três capítulos, o qual denomina “breve”. De fato, D. Jeronymo Contador de Argote não poderia deixar de tratar, ainda que brevemente, da ortografia, já que, como afirma Ceia (2011:92), essa era uma das matérias estudadas na Casa da Divina Providência, de Lisboa.

Na gramaticografia portuguesa, essa matéria vem sendo tomada desde Fernão de Oliveira, porém cada um dos gramáticos portugueses, a depender de seus objetivos, dedicou-se mais, ou menos a este assunto. Conforme explica Buescu,

a Ortografia constituiu sempre um dos problemas mais delicados da gramática. O ortografista encontra-se perigosamente dividido entre a tradição, a etimologia e as realidades fonéticas que se submetem à sua observação. As fontes clássicas para o problema, ou melhor, para a problemática da Ortografia foram, principalmente, Quintiliano, Escauro, Vélio Longo, Varrão e Prisciano. Contudo, os gramáticos do Renascimento depararam, evidentemente, com realidades completamente diferentes das do latim. Por consequência, o apoio dos clássicos que, nos outros capítulos da gramática, havia sido tão forte quanto útil e eficiente, revelou-se praticamente nulo neste aspecto e as principais fontes clássicas gramaticais, se dificilmente poderiam ser abandonadas, foram, contudo submetidas a uma crítica e a sua doutrina a inevitáveis adaptações (BUESCU, 1984:81-82).

Assim, era necessário adaptar as regras ortográficas defendidas pelos gramáticos antigos às realidades ortográficas dos vernáculos, visto que os fatos linguísticos em voga eram outros.

Esse tratado de ortografia é composto por três capítulos: no primeiro, Contador de Argote trata das propriedades das letras; no segundo capítulo, trata dos erros ortográficos cometidos por diminuição, aumento, mudança e/ou transposição de letras, e de como evitar tais erros; no terceiro, apresenta os sinais de pontuação.

Para Argote, ortografia “he a arte de escrever as palavras, e Oraçoens com acerto”, ou seja, “com as letras, e pontuaçaõ, com que se devem escrever” (1725:343). Argote toma a letra não apenas como um sinal gráfico, mas também como uma unidade fônica: “he uma figura, que representa o som, que devemos fazer com a boca para a pronunciar” (1725:342) e seguindo a lição de Donato, apresenta três propriedades das letras: figura, nome e poder, ou seja, representação gráfica, designação da letra e som a ela correspondente. O gramático também adverte quanto aos diversos sons que uma mesma letra pode representar.

Contador de Argote encerra as duas edições da gramática com a frase latina FINIS, LAUS DEO, Virginique Matri (Chegamos ao fim, louvemos a Deus e a Virgem Mãe), expressão de uso frequente nas obras gramaticais até aquela altura.

Conclusão

Como verificamos, o exame das duas edições mostrou que Argote preocupado com o uso da língua tratou tanto de regras gerais, ou seja, regras comuns ao português e ao latim, como de regras particulares do português, dando ênfase às regras gerais, haja vista o objetivo da obra.

Vimos também que as duas primeiras partes da gramática, que Argote dedica ao exame das classes de palavras e da sintaxe simples, respectivamente, permaneceram sem grandes alterações, no que diz respeito ao conteúdo gramatical.

Quanto à terceira parte, dedicada à sintaxe figurada, Argote acrescenta, como vimos, na segunda edição mais dois capítulos em que trata das figuras de dicção, descrevendo as alterações na estrutura das palavras e de colocação pronominal, gramatizando as palavras enclíticas.

A quarta parte da gramática, em que Contador de Argote descreve o sistema variacional do português também é acrescentada na segunda edição. Essa descrição realizada no século XVIII foi desenvolvida no século XIX-XX por José Leite de Vasconcelos na obra Esquisse d’une dialectologie portugaise, publicada em 1901, confirmando assim o trabalho de Contador de Argote.

Além disso, o gramático se ocupa da ortografia da língua portuguesa, pela importancia da matéria, apresentando fatos comuns ao português e ao latim, bem como fatos que configuram a ortografia do português.

Por fim, pela análise das duas edições da gramática foi possível constatar tanto uma continuidade, quanto uma progressão do conhecimento em relação ao conteúdo apresentado na primeira edição, evidenciando assim a influência do horizonte de retrospecção do autor e da obra na segunda edição.

Referências

ARGOTE, Jeronymo Contador de [GAMA, Pe. Caetano Maldonado da]. Regras da Lingua Portugueza, espelho da lingua latina, ou disposição para facilitar o ensino da lingua latina pelas regras da portuguesa. Lisboa: Officina de Mathias Pereira da Silva & João Antunes Pedroso, 1721.

_____. Regras da Lingua Portugueza, espelho da lingua latina, ou disposição para facilitar o ensino da lingua latina pelas regras da portuguesa. Lisboa: Officina da Musica, 1725.

BARROS, João de. [1540]. Gramática da língua portuguesa. Cartinha, Diálogo em louvor de nossa linguagem e Diálogo da viciosa vergonha. Reprodução fac. com prefácio, estudo introdutório e anotações de Maria Leonor Carvalhão Buescu. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1971.

ARNAULD, Antoine e LANCELOT, Claude. [1660]. Gramática de Port-Royal. Trad. Bruno Fregni Basseto e Henrique Graciano Muracho. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

AUROUX, Sylvain. A questão da origem das línguas, seguido de A historicidade das ciências. Trad. Mariângela Joanilho. Campinas: RG, 2008.

_____. A revolução tecnológica da gramatização. Trad. Eni Orlandi. 2ª ed. Campinas: Unicamp, 2009.

BUESCU, Maria Leonor Carvalhão. Historiografia da língua portuguesa. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1984.

CEIA, Sara Bravo. Os académicos teatinos no tempo de D. João V - construir saberes enunciando poder. Dissertação de Mestrado em História Moderna e dos Descobrimentos. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Universidade Nova de Lisboa, 2011.

DEZOTTI, Lucas. Donato, Arte menor. In: Letras clássicas, n.11. São Paulo: FFLCH/USP, 2007.

GROUPE ARS GRAMMATICA. Priscien, Grammaire, Livre XVII- Syntaxe, 1. Texte latin, traduction, introduite et annotée. Paris: Vrin, 2010.

HACKEROTT, Maria Mercedes. A passagem da Minerva para a Gramática Geral na história da gramática portuguesa. Tese de Doutorado. FFLCH/USP, São Paulo, 1994.

KEMMLER, Rolf. Caetano Maldonado da Gama, D. Jerónimo Contador de Argote e as duas edições das Regras da lingua portugueza, espelho da língua latina (1721, 1725), p.75-101. 2012. Disponível em: . Acesso em: 2016-05-10.

LEITE, Marli Quadros. A construção da norma linguística na gramática do século XVIII, Alfa. Revista de Linguística, 55/2, p. 665- 684. 2001a. Disponível em: . Acesso em: 2016-04-16.

_____ . Variação linguística: aspectos históricos. In: PRETI, Dino. Variações na fala e na escrita. São Paulo: Humanitas, 2011b.

_____. Tradição, invenção e inovação em gramáticas da língua portuguesa – séculos XX e XXI in Gramáticas contemporâneas do português: com a palavra, os autores Evanildo Bechara... [et. al.]; org. Maria Helena Moura Neves, Vânia Cristina Casseb-Galvão; Marli Quadros Leite; Francisco Roberto Platão Savioli. 1ª ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2014.

NEVES, Maria Helena de Moura. A gramática: história, teoria e análise, ensino. São Paulo: UNESP, 2002.

OLIVEIRA, Fernão de. [1536]. Gramática da linguagem portuguesa. Edição crítica, semidiplomática e anastática por Amadeu Torres e Carlos Assunção. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 2000.

ROBOREDO, Amaro de. [1619]. Methodo grammatical para todas as linguas. Ed. fac. com prefácio e estudo introdutório de Carlos Assunção e Gonçalo Fernandes. Colecção Linguística 1. Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, 2007.

VERNEY, Luis Antonio (Barbadinho). Verdadeiro metodo de estudar. Carta I. Tomo Primeiro. Valensa: Officina de Antonio Balle, 1746.

Recebido em 30/09/2016 e aceito em 06/12/2016