Resumo

O trabalho do filológo centra-se, principalmente, na edição de textos. Ao realizar esta atividade, são levados em consideração os aspectos extrínsecos e intrínsecos ao corpus, o que permite que o conhecimento acerca do estado de conservação e das características inerentes ao documento sejam conhecidas pelo público interessado. Pensando nisso, apresentamos, neste artigo, uma breve descrição codicológica de uma ação de desquite lavrada entre 1919 a 1922 em Feira de Santana - Ba, bem como o levantamento e análise das abreviaturas constantes no referido documento. Assim, após o levantamento dos aspectos codicológicos do documento, analisamos 99 abreviaturas. Destas, 18 foram classificadas por siglas, 29 por apócope, 9 por síncope, 31 por letras sobrepostas e 12 por letras numerais. Para a realização das análises codicológicas e das abreviaturas, utilizamos como aporte teórico CAMBRAIA (2005), COSTA (2007) e SPINA (1994).

Introdução

É árduo o trabalho do filólogo, por se tratar de uma tarefa em que sejam necessários conhecimentos de áreas diversas quando se tem um texto em mãos “aguardando” edição. Editar filologicamente já foi uma atividade feita sem muito rigor científico, entretanto desde que a Filologia adquiriu o status de ciência, no século XIX, isso mudou, pois atualmente as edições, consideradas fidedignas e aceitas para pesquisas científicas, só são creditadas se possuírem critérios bem elaborados e apresentados claramente.

Ao se falar em Filologia - ciência muito antiga, mas pouco conhecida pelo público em geral – tem-se em mente a assertiva de que o labor filológico abrange muito mais do que, simplesmente, transcrever quaisquer textos. A referida ciência abarca desde conhecimentos paleográficos à linguísticos, codicológicos, históricos, culturais etc. Assim, dentre esses saberes, quando tratamos especificamente daqueles concernentes ao labor filológico, deparamo-nos com, por exemplo, a codicologia que trata da descrição do estado de conservação de determinado documento, o que nos leva a conhecer melhor o suporte físico, sua origem, sua datação, seu conteúdo, sua composição etc. Dito isto, neste trabalho, apresentamos a descrição, o levantamento e uma breve análise de abreviaturas constantes em uma ação de desquite lavrada entre a primeira e a segunda décadas do século XX.

1. Da descrição às abreviaturas: analisando uma ação de desquite do século XX

Segundo CAMBRAIA (2005, p. 26, grifo do autor), a “[...] codicologia consiste basicamente no estudo da técnica do livro manuscrito”. Sendo assim,

[...] Além de permitir uma compreensão mais profunda do processo de transmissão dos textos, os conhecimentos codicológicos tmabém são utilizados mais pragmaticamente na descrição de códices, a qual deve constar na edição de textos preservados em manuscritos [...] (CAMBRAIA, 2005, p. 27).

Dito isto, eis algumas ponderações codicológicas: o processo judicial de desquite solicitado por Dona Albertina da Motta Barretto, autora, encontra-se sob a guarda do acervo do Centro de Documentação e Pesquisa, doravante CEDOC, órgão pertencente à Universidade Estadual de Feira de Santana, sob a classificação: Estante 03, Caixa 65 e Documento 753.

O documento encontra-se em razoável estado de conservação, não possui capa nem contracapa, mas há uma ficha catalográfica anexada ao primeiro fólio, que foi colocada pelos estagiários do CEDOC como forma de identificação do referido documento. Há também algumas manchas e borrões causados pela tinta utilizada no texto, sendo que existe variação de, pelo menos, três tipos delas: uma mais forte, outra mais clara, ambas pretas; e tinta de cor azul nos fólios datilografados.

Notamos, também, a presença de alguns selos estaduais, um carimbo com o nome de um dos escrivães, rubricas de dois escrivães e numeração (1 a 97) em todos os fólios rectos e um carimbo em alto relevo, nos fólios datilografados, com a inscrição “Dr. José Maria Neves”, que foi advogado do réu. Existe também um barbante na cor vermelha que, através de uma costura, prendia todos os fólios, mas, atualmente, a maioria dos fólios se encontra solta e poucos deles permanecem presos a esse cordão.

Ainda na descrição intrínseca, notamos a existência de algumas expressões escritas em latim; alguns trechos do documento grifados pelos escrivães, os quais buscavam, através da sublinha, destacar fatos/ acontecimentos considerados importantes por eles; além do próprio documento, que é um rico manancial de informações da época vigente. Outra característica que merece ser pontuada é a presença de abreviaturas ao longo do texto. Abreviar palavras é uma atividade que remonta desde a época romana, quando os escribas redigiam todo o discurso falado em praça pública. Entretanto, na Idade Média, houve uma tentativa de impedir o uso frequente de abreviaturas, mas essa medida não obteve o sucesso esperado pelo fato de que essa prática recorrente proporcionava a economia do suporte material em função de sua escassez e preço. Ademais, durante o período renascentista essa atividade continuou com mais força, tornando-se, portanto, necessária a publicação de tábuas que continham os significados das siglas a fim de facilitar a leitura (SPINA, 1994).

Sob tal entendimento, de acordo com SPINA (1994), as abreviaturas podem ser classificadas em seis tipos, a saber: abreviaturas por siglas; abreviaturas por apócope; abreviaturas por síncope; abreviaturas por letras sobrepostas; abreviaturas por signos especiais de abreviação; e letras numerais.

A abreviatura por sigla é pautada na representação da palavra pela sua letra inicial; a abreviatura por apócope consiste na supressão de elementos finais do vocábulo; a abreviatura por síncope apresenta-se mediante a supressão de elementos gráficos do meio do vocábulo; a abreviatura por letras sobrepostas consiste na sopreposição da última ou últimas letras da palavra; a abreviatura por sinais especiais constitui- se na presença de um sinal colocado no início, meio ou fim da palavra, a fim de indicar os elementos ausentes; e as letras numerais designam quantidades e marcos cronológicos (SPINA, 1994; COSTA, 2007).

Partindo de tal classificação, os tipos de abreviaturas encontrados no documento estudado foram:

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Conclusão

O labor filológico é uma atividade que envolve dedicação e atenção em todos os detalhes, sejam históricos, linguísticos, codicológicos ou paleográficos concernentes ao texto. Assim, antes de fazer a edição de quaisquer documentos, o filólogo precisa observar, descrever e sistematizar todas as características intrínsecas e extrínsecas, a fim de deixar claro para o leitor qual o estado de conservação do documento antes de ser editado, isso inclui a existência de carimbos, selos, emblemas, assinaturas, tipos de letra, manchas, borrões, rasuras, perfurações, intervenção ou não de terceiros, existência e classificação de abreviaturas, etc., constantes no texto, descrição esta que garante mais credibilidade ao trabalho desenvolvido filologicamente.

Assim, ao descrever extrínseca e intrinsecamente a ação ordinária de desquite de dona Albertina da Motta Barretto, foi necessário o registro dos fac-símiles, através de fotografias digitais, de todo o texto, o que garante, para a posteridade, a manutenção da originalidade de todo o documento. Ao levantar as abreviaturas constantes no texto, foi necessário classificá-las e desdobrá-las, a fim de facilitar a leitura das informações presentes no documento, já que toda leitura paleográfica faz-se a partir do conhecimento preciso do sistema abreviativo de determinada época/ documento, o que é imprescindível ao trabalho do filólogo. Assim, das 99 abreviaturas encontradas, 18 foram classificadas por siglas, 29 por apócope, 9 por síncope, 31 por letras sobrepostas e 12 por letras numerais, o que evidencia uma necessidade do escrivão de escrever rápido, economizar suporte físico e de conhecimento do sistema abreviativo vigente.

Portanto, a partir das análises codicológicas e paleográficas (neste caso das abreviaturas) realizadas, a leitura do texto poderá ser facilitada para que pesquisadores de outras áreas do conhecimento como, por exemplo, a História, a Linguística, a Sociologia, o Direito, enfim, possam trabalhar em cima do documento aqui analisado. Dessa forma, o labor filológico vem permitindo que outros saberes sejam trazidos à tona, a saber: a cultura e as estórias circunscritas em tais documentos, o que corrobora a cientificidade da Filologia no que concerne ao conhecimento da língua, da cultura e das sociedades que produziram tais textos em épocas pretéritas.

Referências

CAMBRAIA, César Nardelli. Crítica textual. Introdução à crítica textual. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

COSTA, Renata Ferreira. Edição semidiplomática de Memória Histórica da Capitania de São Paulo, Códice E11571 do Arquivo do Estado de São Paulo. 2007. 558f. Dissertação (Mestrado em Filologia e Língua Portuguesa) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. Disponível em: < http:// www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8142/tde-10012008-112512/pt- br.php>. Acesso em: 15 jul. 2016.

SPINA, Segismundo. Introdução à edótica: Crítica textual. 2. ed. São Paulo: Ars Poetica/ Editora da Universidade de São Paulo, 1994.

Recebido em 30/09/2016 e aceito em 06/12/2016