Resumo




Neste artigo, questiona-se a existência ou não de gêneros discursivos na web. Parte-se do princípio de que uma reflexão sobre a questão dos gêneros da web implica que ela seja confrontada à concepção em algum tipo “clássico” de gênero, que prevalece em um universo ou domínio de leitura, para ver em qual medida ele pertence à web e, se não for o caso, em qual sentido é preciso modificá-lo. O autor propõe, então, considerar a cenografia digital, com base em uma textualidade navegante, correlata a novos modos de leitura. 




Introdução

A categoria do gênero do discurso é o coração da Análise do Discurso, que por natureza se focaliza sobre os dispositivos de enunciação, a articulação entre os lugares sociais e os modos de organização textual. Mas não se pode refletir sobre a questão dos gêneros [ou a generacidade] de maneira a-histórica, sem levar em conta os mundos dos quais participam as práticas verbais. É evidente, em particular, que a aparição da Internet1, como foi no passado a escrita, em seguida o impresso, teve um impacto profundo não somente sobre as práticas (de novos gêneros que surgem, de outros que desaparecem), mas sobre a maneira mesma na qual se pode conceber a questão dos gêneros. Atualmente, com o desenvolvimento de novas tecnologias, noções como as de “texto” ou de “leitura” perdem sua evidência, e com elas toda a configuração com as quais são solidárias.

Entre os “cibergêneros”, faz-se habitualmente uma distinção (ver, por exemplo, Sheperd e Watters, 1998) entre aqueles que retomam os gêneros que já existem nas outras mídias (manuscrito, impresso ou vídeo) e aqueles que emergiram na web (como os fóruns ou os blogs). Mas esta diferença não deve mascarar uma descontinuidade profunda: mesmo quando parece que se retoma um gênero já existente, pode-se duvidar de que se trata do “mesmo” gênero sobre o papel e sobre a web.

Os analistas de discurso não são os únicos a recortar as atividades de fala em gêneros. Os usuários, em função das práticas nas quais estão engajados, o fazem também quando produzem e consomem os enunciados: os livreiros distribuem os livros em diversas classes (“livros políticos”; “história”, “vida prática”...) para colocá-los em prateleiras/ setores, as revistas de televisão caracterizam os filmes (“comédia sentimental”, “peplum”2...) para os telespectadores. Seus critérios de classificação são diferentes daqueles dos pesquisadores, mas também, frequentemente, daqueles dos consumidores não especializados. Para os profissionais da web, a questão do gênero é igualmente importante, não apenas porque sua expansão vertiginosa os obriga a desenvolver técnicas mais e mais sofisticadas para categorizar a informação, condição sine qua non de toda coleta de dados. Desenvolvem-se assim as técnicas de “Gêneros de Identificação automática na web” (ver, por exemplo, Sheperd, Watters, Kennedy, 2004; Mehler, Sharoff, Santini eds., 2011). Mas trata-se aqui de gênero de discurso? Encontra-se, com efeito, uma dificuldade familiar a essa que se reflete sobre tais questões: a polivalência da noção de gênero, que é dividida entre uma concepção “realista” e uma concepção “convencionalista”. Para a concepção “convencionalista”, há um gênero do qual se classifica em uma mesma classe de textos sobre a base de uma ou várias propriedades comuns, escolhidas em função dos objetivos daquele que opera a classificação: pode-se decidir, por exemplo, que todos os sites que contém vídeos ou que possuem a palavra “saúde” em sua URL, pertencem a um mesmo gênero. Para a concepção “realista”, ao contrário, o gênero designa uma atividade comunicacional socialmente identificável, digitado na globalidade, quer dizer, um gênero de discurso; é sobre essa concepção que nos apoiamos.

1. O Regime genérico clássico

1.1 A noção de gênero

A categoria do gênero do discurso é fundada sobre critérios de ordem situacional, uma vez que se trata de dispositivos de comunicação sócio-históricos definidos. Um gênero de discurso prescreve papéis para os participantes, uma finalidade, um midium, uma organização textual etc. Certamente, todos os pesquisadores não estão de acordo quanto à forma como se podem analisar os gêneros, mas a que eles se referem ao empregar esta noção é relativamente estável. É, aliás, uma categoria cuja significação é quase idêntica nos dois lados do Oceano Atlântico. As definições dadas nos EUA por Swales (1990) ou Bazermann (2004), por exemplo, parecem aquelas dos analistas do discurso europeus (entre os francófonos, ver, em particular, Adam (1999), Bronckart (1996), Rastier (2001), Charaudeau (1995), Maingueneau (1998).

Há algumas décadas, esta noção de gênero do discurso é utilizada para descrever em sua diversidade as práticas verbais de uma sociedade: os jornais, os talk-shows, a declaração de impostos, os tratos publicitários etc. são considerados como gêneros do discurso. Uma concepção de gênero é estreitamente ligada às ideias de M. Bakhtin (1984) e à “etnografia da comunicação” (Hymes, 1964, 1972), que utilizam os conceitos como aqueles de “evento de comunicação”, integrados em um sistema muito vasto, uma “comunidade de discurso”: os locutores de uma mesma comunidade são presumidos pelas atividades verbais em curso como sendo um certo tipo de evento e devem dar sua contribuição; apoiando- se sobre seus conhecimentos, devem supostamente saber como os constituintes (componentes) dos gêneros se associam de maneira típica, o que implica expectativas a cada vez.

De maneira muito sistemática, as práticas verbais podem se distribuir em três grandes conjuntos:

1. Os gêneros autorais: eles são impostos ao destinatário por um autor, às vezes por um editor, e são explicitados por indicações paratextuais: “ensaio”, “meditação”, “aforismo” etc. Os autores entendem assim definir parcialmente, de maneira unilateral, não negociada, o quadro comunicacional no qual inscrevem seu texto. Os gêneros autorais estão massivamente presentes em certos gêneros de discurso (literário, filosófico, religioso, político, jornalístico...).

2. Os gêneros rotineiros: são os gêneros privilegiados pelos analistas do discurso: revistas, entrevistas, charlatanice (conversa fiada) de camelô, formulários administrativos, regulamentos etc. Os papéis interpretados pelos participantes são fixados (estabelecidos) a priori e, em geral, permanecem estáveis durante o processo de comunicação. Os locutores entram em um quadro preestabelecido do qual em geral eles não modificam as normas. Os parâmetros desses gêneros rotineiros resultam da estabilização de coações ligadas a uma situação social específica. Nessas condições, não há grande sentido em se perguntar quem inventou tal ou tal gênero rotineiro: são as práticas sociais estabelecidas através da interação de múltiplas coações de diversas ordens. Esses gêneros se repartem em dois polos: de um lado, aqueles que são bem ritualizados, que deixam pouca margem de manobra aos locutores (por exemplo, um grande número de gêneros jurídicos); de outro, aqueles que deixam uma margem de variação considerável aos locutores (por exemplo, muitos gêneros políticos ou publicitários).

3. Os conversacionais, as interações orais “ordinárias”, que não são reguladas por instituições, que não fixam os papéis aos parceiros ou os scripts estabelecidos para o desenrolar da atividade, sua organização textual e seu conteúdo habitualmente vago e seu quadro evoluído sem cessar durante a interação. Enquanto que as coações dos gêneros rotineiros são, sobretudo, globais (elas carregam o conjunto de atividade) e verticais (impostas pelo sistema de lugares preexistentes), são as coações horizontais que prevalecem nos gêneros conversacionais, nos quais os participantes estão constantemente negociando seus papéis. De fato, as conversações se prestam mal a uma análise em termos de gênero, de atividades tipificadas. Isso não significa que não se pode distinguir diversos tipos de conversação, mas não se trata propriamente de falar de gêneros do discurso.

Podemos simplificar a tripartição entre os gêneros autorais, rotineiros e conversacionais, distinguindo dois grandes registros de atividade verbal: de um lado, aquelas conversacionais, de outro, aquelas atividades verbais que se podem dizer institucionais (gêneros autorais e rotineiros) para as quais a categoria de gênero é plenamente pertinente. Pode-se, entretanto, encontrar casos de práticas que pertencem a dois registros: por exemplo, conversações que sejam fortemente ritualizadas. Além disso, na realidade, pode-se passar constantemente de um regime a outro: uma consulta médica pode se tornar uma conversação.

Se aceitarmos a ideia de que gênero de discurso é um dispositivo de comunicação sócio-historicamente definido, pode-se notar que categorias como “diálogo”, “carta”, “jornal” etc. colocam um problema, porque elas parecem independentes de uma época ou um lugar precisos. No meu entendimento, é preferível caracterizá-los como hypergêneros (Maingueneau, 1998b). Esses últimos impõem coações muito pobres, uma simples formatação; para caracterizar um texto como diálogo, por exemplo, basta pôr em cena ao menos dois locutores. No século XVI, na Europa, o diálogo foi a forma dominante quando se queria expor ideias sobre não importa qual assunto. No século XVII, foi a carta que interpretou esse papel. A escolha de um hypergênero não é feita sem consequências: o diálogo, por exemplo, permite captar certas propriedades do teatro, ele é adaptado aos objetivos didáticos, dá ao autor a possibilidade de exprimir pontos de vista heterodoxos sem assumir a responsabilidade etc. Veremos que esta noção de hypergênero é de grande interesse para abordar a web.

1.2 A Cena da Enunciação

A comunicação verbal não faz mais que transmitir mensagens: a enunciação deve assim construir a situação que dá sentido a essas mensagens.

Falar de “cena de enunciação” (Maingueneau, 1993, 1998a) permite evitar noções como aquelas de “situação de enunciação”, que é utilizada em Linguística, ou de “situação de comunicação”, que considera a atividade de fala em qualquer tipo de exterior. O termo “cena” apresenta também o interesse de referir ao mesmo tempo a um quadro (“a cena representa...”) e a um processo (“ao longo da cena”, “uma cena da vida doméstica”...). Enfim, ela permite sublinhar a importância do trabalho de encenação daqueles que se consagram em permanência como participantes de um gênero de discurso.

Minha própria análise de cena da enunciação distingue três componentes:

- a cena englobante, que corresponde, grosso modo, ao que chamamos de tipo de discurso (político, jornalístico, literário...), uma esfera de atividade social;

- a cena genérica que determina uma finalidade à atividade de fala, papéis a seus autores, prescreve circunstâncias (lugar, momento...) legítimas, sua extensão, seu midium etc.

- a cenografia, pela qual o enunciador instala através de sua enunciação mesma a situação a partir da qual ele pretende enunciar. A cenografia não é, portanto, um quadro, um cenário, como se o discurso sobreviesse do interior de um espaço já construído e independente desse discurso: é a enunciação que, ao se desenvolver, esforça-se por colocar progressivamente em lugar seu próprio dispositivo. É, portanto, um processo recíproco: de sua emergência, a palavra supõe certa cenografia, a qual deve se validar através da enunciação mesma. A cenografia é, ao mesmo tempo, de onde vem o discurso e o que engendra o discurso; ela legitima um enunciador que, em retorno, deve legitimá-la, deve estabelecer que esta cenografia da qual vem a palavra é precisamente a cenografia requisitada para enunciar como se convém nessas circunstâncias.

Vamos ilustrar essa noção de cenografia comparando dois textos políticos nos quais a responsabilidade é atribuída aos candidatos à eleição presidencial francesa: de uma parte, o programa de F. Mitterrand de 1988 (a “Carta a todos os Franceses”), de outra parte, a profissão de fé de José Bové para a eleição de 2007.

A “Carta a todos os Franceses” é um programa eleitoral que se apresenta como uma carta de ordem familiar, na qual F. Mitterrand assume o papel de um pai que escreve à sua família. Aqui, à cena genérica do programa sobrepõe-se uma cenografia epistolar, uma cena de fala “importada”, exógena, que destrincha com a cena genérica efetiva do texto, a saber, aquela de um programa.

Quanto à profissão de fé de José Bové, ela contém quatro páginas, das quais a primeira é dividida em duas: na parte superior, uma foto do rosto do candidato; na parte inferior, encontra-se um texto cujo começo apresentamos a seguir:

Senhora, Senhorita, Senhor

Sou um candidato diferente dos outros .

Sindicalista camponês, militante intermundial, cidadão engajado, não pertenço a nenhum partido político. Milhares de homens e mulheres, militantes ou não, de sensibilidades diversas, meu pedido é ser o seu candidato.

Peço seu voto como porta-voz de um agrupamento de milhões de cidadãos e de cidadãs que sofrem a precariedade e a insegurança social, que contestam um sistema político confiscado por alguns grandes partidos e que se inquietam por eles e pelas gerações futuras de um porvir do planeta.

Esse texto, diferentemente do de F. Mitterrand, não importa uma cena de fala de outro gênero, mas põe em foco sua cenografia sem sair do quadro imposto pela cena genérica do programa: são assim definidas pelo enunciador a identidade dos parceiros e a relação que os liga, o lugar e o momento de sua enunciação. Por exemplo, o lugar onde pretende se inscrever esta enunciação é um “espaço confiscado por alguns grandes partidos”. Quanto ao enunciador, ele se institui como “porta-voz de um conjunto...”, em homem “que não pertence a nenhum partido político” e em “sindicalista camponês, militante intermundial, cidadão engajado”. De seu lado, o destinatário, interpelado – o que não é habitual para a extrema esquerda – como “Senhora, Senhorita, Senhor”, sem dúvidas para conferir um ethos feminista ao locutor, é uma coletividade constituída de “milhões de cidadãos e de cidadãs que sofrem a precariedade e a insegurança social, que contestam um sistema político confiscado por alguns grandes partidos e que se inquietam por eles e pelas gerações futuras de um porvir do planeta...”.

Esta cenografia é endógena, ela se encontra nos limites de um contrato implicado pela cena genérica, ela segue as rotinas do gênero. Está-se longe do texto de F. Mitterrand, que se importa com uma cenografia exógena, de correspondência privada.

2. O regime genérico da Web

2.1 Uma nova generacidade

A aparição da web modifica fundamentalmente o estado de coisas? Poderíamos considerar que ela oferece somente um novo espaço de apresentação e põe em circulação gêneros de textos tradicionais: conversações (fóruns, chats...), diários de informação, dicionários, cursos, romances etc. Mas me parece mais realista sustentar que a web transforma de fato as condições de comunicação, a maneira pela qual podemos considerar o gênero e a noção mesma de textualidade.

A concepção clássica de gênero é estruturada pela hierarquia de constituintes (componentes) da cena de enunciação (Cena Englobante > Cena Genérica > Cenografia); a cena genérica serve de pivô e o hipergênero interpreta um papel marginal. Sobre a web, ao contrário, as coações da cena genérica são fracas. Os sites, quais sejam seus conteúdos, são submissos a um conjunto de coações técnicas, e esta homogeneização é reforçada pela necessidade de poder circular por hiperligações de um site a outro. Em razão dessa “ligação” de diferenças genéricas, é doravante a cenografia que interpreta um papel chave: a principal fonte é a encenação da comunicação, que mobiliza massivamente as fontes propriamente verbais, multimodais (imagem fixa, em movimento, som) e as operações hipertextuais.

Mais precisamente, sobre a web pode-se distinguir dois níveis de cenografia: verbal e digital.

A cenografia “verbal” é aquela que implica a enunciação propriamente linguística. Nos enunciados escritos tradicionais, a cenografia verbal acompanha elementos visuais: a diagramação, a política etc. No caso da “Carta a todos os franceses” de F. Mitterrand, por exemplo, a relação epistolar se revela no dispositivo tipográfico: o termo endereço é destacado, a apresentação em preto e branco dá ao leitor a impressão de ter em suas mãos uma folha de papel impressa. Mas se se coloca essa letra em um site de Internet, ela se torna por sua vez uma imagem em uma tela, um suporte de operações (por exemplo, se podemos clicar sobre tal ou tal palavras ou grupo de palavras), um módulo na arquitetura de um site (ela pode se situar em lugares bem diversos: o site oficial de um partido, uma base de dados linguísticos, um site de informação jornalística etc.). Tanto quanto os elementos que interagem fortemente com a cenografia propriamente verbal.

A cenografia digital comporta assim três dimensões:

- Uma dimensão iconotextual (o site mostra as imagens e constitui ele mesmo um conjunto de imagens em uma tela);

- Uma dimensão arquitetural (o site é uma rede de páginas dispostas de certa maneira);

- Uma dimensão procedimental (cada site é uma rede de instruções).

Essas três dimensões podem convergir ou divergir: por exemplo, uma cenografia procedimental muito didática pode entrar em tensão com uma cenografia iconotextual muito “poética” (cores pastel, tipografia elegante...).

O enfraquecimento da cena genérica na web se manifesta igualmente através da fragmentação de páginas da tela: temos em questão não um texto, mas um mosaico de módulos heterogêneos, que proíbe colocar em correspondência simples um texto e uma cena de enunciação.

Notaremos que essa tendência à fragmentação se observa igualmente na imprensa escrita contemporânea. Assim, sobre esta página interior tomada ao ocaso no jornal diário gratuito “Manhã direta” (22/10/2008, p. 17):

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EXEMPLO 1: “A equipe da França não domina seu tema”

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Figure 1.

FIGURA 1: reprodução

A página se apresenta como um mosaico de cinco módulos de forma retangular: uma tira na parte superior, uma entrevista disposta verticalmente na parte esquerda, três módulos à direita: duas informações de ordem esportiva e uma publicidade. Desde que o módulo conte com certa amplidão, ele se decompõe ele mesmo em sub-módulos: é o caso da tira superior, que contém três, e da entrevista, que se decompõe naturalmente seguindo o número de pares pergunta-resposta. A página contém igualmente três citações em discurso direto que são isoladas tipograficamente: uma ao centro da tira superior, a segunda no título, a terceira no centro da entrevista3. Elas participam também dessa disposição modular e contribuem para “decompor” o texto.

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EXEMPLO 2. “Mais de 3.800 receitas e vídeos – para cozinhar em sua casa como um chefe!”

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Figure 2.

FIGURA 2: reprodução

Além da fragmentação da informação em módulos, vários traços podem ser postos em evidência.

- O olhar não pode segurar o conjunto da página: é de fato uma “tela” que se vê, quer dizer, uma vista parcial de uma totalidade que não se pode dar como tal. Há divergência essencial entre a “paginação” da web e uma página impressa.

- A heterogeneidade enunciativa entre módulos é patente: encontramos listas de diversos tipos, de diagramas, de publicidades, de aberturas de artigos, de slogans, de títulos de primeira página, de instruções... Não há mesmo ali hierarquia entre o que seria um texto principal e um paratexto. Não se trata de microtextos, de textos curtos (como, por exemplo, as máximas ou os pequenos anúncios tradicionais), mas de uma subversão generalizada da lógica do texto.

- O módulo pode igualmente funcionar como uma zona que, por um clique, dá acesso a outro espaço (de outras páginas do mesmo site ou de outros sites, um vídeo ou uma publicidade). O módulo não parece, portanto, como um texto ou um fragmento de texto autossuficiente: é uma porta, um permutador.

- Os módulos obedecem a temporalidades distintas, a que aparece sobre a tela é um estado apenas provisório: a maior parte dos constituintes (componentes) se renova constantemente.

Pode-se pensar que essas características desaparecem quando deixamos a homepage e, clicando sobre um título de artigo, reencontra- se o texto tradicional, um tipo de artigo de imprensa. Não há nada, como se pode ver clicando, por exemplo, no módulo “Laurent Blanc: ‘a Espanha era melhor’” da homepage do Figaro4:

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EXEMPLO 3: “Blanc: ‘A Espanha era melhor’”

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Figure 3.

FIGURA 3: reprodução

É de novo um mosaico que aparece; “o artigo” divide o espaço com módulos de naturezas muito diversas (inclusive, a informação em contínuo) sobre aquelas em que se pode clicar.

Essas características colocam em dúvida o regime clássico da textualidade, e o tipo de generacidade que lhe é solidário. O enfraquecimento da cena genérica e da cena englobante é compensado pela hipertrofia de uma cenografia digital.

2.2 O exemplo do blog

Não se pode negar, entretanto, que existem gêneros na web, categorias tais quais sites de negócios, blogs, sites de informação, sites sociais etc. De fato, não estamos em uma lógica de gênero de discurso: temos em questão aqui uma categorização que ressalta o que chamamos de “hipergênero”. Esses gêneros de sites são, em realidade, formatações pouco coercivas que rendem possíveis cenografias muito variadas.

Consideremos o cibergênero sem dúvidas mais estudado, o blog. Notamos (ver, por exemplo, Herring e outos, 2005) que se trata de um “gênero ponte”, de uma categoria que atravessa categorias temáticas muito diversas (blog pessoal, institucional, comercial, educacional etc.); ela se caracteriza por coações formais e uma relação comunicacional mínima: uma entidade que possui um nome próprio fala dela mesma a alguém que visita seu site. É o que explica a extraordinária diversidade de sites que se dizem “blogs”. Por exemplo, O blog de Melanie (http:// leblogdemelanie.over-blog.com/5), a despeito de seu nome e da pequena foto de uma jovem mulher em um canto da homepage, é um blog institucional: a Faculdade de Direito da Universidade de Montpellier I utiliza o nome de uma doutoranda em direito privado para dar as informações sobre as atividades (colóquios, defesas de teses...). Entre as rubricas, encontra-se uma informação em contínuo contraída à Wikio News. Ao contrário, O blog sexy de Sophie (www.sophie1986.canalblog. com) permite a uma prostituta atrair clientes. O blog de Françoise Vallet (www.francoise-vallet.com) é o blog de um militante do partido socialista. Quanto ao site Os blogs de Douglas (www.blog.douglas.qc.ca/arts/), sub- titulado “O blog de Francine Lévesque, arte-terapeuta”, é destinado a promover uma técnica terapeuta.

As cenografias que se desenvolvem no quadro desse hipergênero não são diversificadas ao infinito: um certo número de rotinas se instala. Em um estudo consagrado a 80 blogs de profissionais da política na França durante o mês de setembro de 2007, L. Lehti (2011) assim distinguiu cinco subgêneros aos quais recorrem os homens ou as mulheres políticas: diário, scrapbook, diário de notícias, ensaio e polêmica. Este estudo recorre ao termo de “subgêneros”, mas me parece mais pertinente falar aqui de tipos de cenografias no interior do hipergênero do blog.

Consideremos um dos exemplos citados acima, o “blog Sexy de Sophie”.

Figure 4.

FIGURA 4: Reprodução

Constata-se que a organização dessa homepage é a mesma que aquela de muitos outros blogs, cujas finalidades são muito diversas. Se a arquitetura desses blogs é idêntica, é porque eles são concebidos com a mesma lógica. É o caso, por exemplo, de um blog de um clube de futebol6.

Figure 5.

FIGURA 5: Reprodução

Vê-se, a cena englobante e a cena genérica interpretam aqui um papel negligenciável: um clube de futebol e uma prostituta se apresentam através de uma mesma formatação, o mesmo hipertexto. É através da cenografia que se marcam diferenças entre eles:

- a cenografia digital: por exemplo, a escolha de cores e de elementos icônicos (desenhos, fotos) ativam certa imagem da fonte do blog;

- a cenografia verbal: o blog do clube de futebol é antes de tudo uma agenda, cuja função é resgatar certo número de informações práticas.

Cenografias verbal e digital são indissociáveis. É assim que o blog de Sophie se caracteriza por uma interpenetração da cenografia verbal e do plano procedural da cenografia digital. Ao lado de mensagens como esta:

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30 de agosto de 2007

Cuco7, meninos,

Acabo de consultar os comentários e de validá-los. Vejo que há quem não me esqueceu! É um prazer :) cloopson: ao contrário, adoro que me digam que sou sexy!! É muito lisonjeiro! Bizz

Então, faço um “cuco” todo particular a Nico que segue minhas pequenas “aventuras”. Eu te confirmo, Sandra o desamparou igualmente, mas por outra razão... Ela havia encontrado alguém e queria se acalmar um pouco sobre as fotos malandras [coquines], e portanto, seu blog, mas eu o fiz na semana passada por MSN e isso não ia forte, ela se aborreceu com esse cara e isso não durou mais! É assim que se fala de nossos blogs, que eu quis retomar, e ela me confessou que lhe fazia falta também não poder se exibir na internet, mas ela tinha medo que seu cara a descobrisse! Aparentemente ele estava um pouco acuado... Eu lhe direi se souber mais...

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Encontram-se múltiplas ligações a ativar:

- Quando se abre a homepage, aparece embaixo, à direita, um retângulo publicitário contendo uma série de rostos femininos (por exemplo, “Taion, 21 anos, Essone”) que interpelam o internauta: “Olá, gostaria de conversar?”.

- Clicando sobre “Clique aqui para me adicionar” cai-se na homepage do site “Easyflirt”, que propõe aos visitantes preencher um questionário para se tornar membro.

- O “álbum de fotos” de Sophie contém várias séries de fotos “malandras” de uma jovem que supostamente tem um blog.

- A maioria das mensagens postadas dá acesso a links comerciais, como este que incita a ir a um site de encontros:

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2 de junho de 2008

Estou sempre lá! Faço falta a você? Saudações!

Bem se vê que faz tempo que não escrevo em meu blog, mas estou sempre lá e, aliás, estou muito ativa no site: Eden Flirt! (...)”

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Como no regime clássico da generacidade, o recurso a esse ou àquele hipergênero está longe de ser insignificante. Num primeiro nível, ele permite dar sentido à atividade de comunicação, atribuindo certo papel aos parceiros, instaurando certa relação, definindo as circunstâncias de enunciação, e as escolhas são sintomáticas de uma configuração social. No caso do blog de Sophie, o recurso a um blog pessoal contrasta com a atitude de uma prostituta tradicional que recruta seus clientes em um lugar determinado da cidade, sob a proteção de algum “agenciador”. Produz-se um apagamento imaginário da distinção entre prostituta profissional e mulher comum, entre clientes e rede de amigos: as relações se estabelecem entre indivíduos, e não através de instituições. Pode-se ter o mesmo tipo de raciocínio a propósito do “blog de Mélanie”: a Faculdade de Direito não quer ser considerada como uma instituição “vertical” e impessoal. O fenômeno pode ser posto em relação com a cena do plano de fundo da cena englobante e da cena genérica, que implicam uma cartografia rigorosa das atividades comunicacionais.

3. Formas de textualidade

Ao lado da questão dos gêneros de discurso, é a textualidade ela mesma que está em jogo. É, aliás, o que implica o conceito de hipertexto, que foi introduzido em 1965 por Tad Nelson precisamente para contestar a textualidade tradicional.

Os três regimes metodológicos de base (oral, impresso, digital) implicam formas de textualidade distintas, em função da relação que eles mantêm com a generacidade.

1) Na oralidade conversacional comum, os parceiros não podem apreender como texto, globalmente e do exterior, a atividade de fala na qual estão engajados. No entanto, uma vez transcritas, as conversações se tornam textos para aqueles que as analisam.

2) Existe uma segunda forma de textualidade, “planejada”, que pode ser oral ou escrita.

* A oralidade planejada pode ser dividida em dois sub-tipos:

- A oralidade dialogal, na qual os enunciadores são mais ou menos organizados a avançar e gerenciar durante a atividade de fala por um moderador que procura se conformar em certos esquemas. Mas esta opção de oralidade “planejada” é igualmente pertinente quando não há moderador, quer dizer, quando os participantes se submetem espontaneamente às normas tácitas do gênero de discurso ao qual estão implicados.

- A oralidade monologal, na qual o orador planeja sozinho o desenvolvimento de sua enunciação. É a situação, por exemplo, de um pregador ou de um conferencista, que segue reajustando seu propósito em função de reações de seu auditório.

* A textualidade planejada escrita pode se manifestar de duas maneiras: linear e tabular. Qualquer tipo de texto escrito é também, de certa maneira, “tabular”, uma vez que se apresenta como uma imagem, submissa às normas de publicação. Mas, em regra geral, as normas apenas supostamente clarificam a articulação do texto, que é fundamentalmente linear. Na textualidade propriamente tabular, ao contrário, o texto é concebido como o componente de uma imagem. A proliferação, na imprensa escrita, das hiperestruturas é uma manifestação particularmente forte desse tipo de textualidade.

3) O terceiro tipo de textualidade é aquele que implica a Internet. Trata-se de uma textualidade navegante, solidária aos novos modos de “leitura”. As propriedades do hipertexto suscitaram uma série de reflexões (ver, por exemplo, Levy, 1990; Nielsen, 1990; Slatin, 1991; Landow, 1994 e 2006; Rouet e outros, 1996). Não se trata propriamente de falar de um texto de uma ordem superior, mas de um sistema contingente construído pelo internauta: “O hipertexto (ou hiperdocumento) é um conjunto de textos, imagens e sons – nódulos – conectados por links eletrônicos de modo a formar um sistema cuja existência é contingente além do computador8 (Slatin, 1991: 56). É o internauta que fabrica o texto que ele “lê”. Essa possibilidade põe em efeito e em causa um pressuposto que é o coração do humanismo tradicional: a relação entre um Sujeito e um texto orgânico é estável, seja esse sujeito um autor ou leitor.

Figure 6.

A textualidade conversacional não é posta em uma lógica de gênero de discurso. A textualidade planejada é plenamente submissa à lógica do gênero de discurso, com sua tripartição entre cena englobante, cena genérica e cenografia, sistema no qual a cena genérica constitui o pivô. Na textualidade navegante, a cena genérica não desempenha um papel central: é o par hipergênero/cenografia que domina. Com a web, é, portanto, todo o dispositivo tradicional que vacila.

Conclusão

A maneira pela qual se apreendem os gêneros de discurso não é nada atemporal, uma vez que as atividades de fala participam de configurações históricas associadas a certas tecnologias de comunicação. Toma-se tanto melhor consciência quando se produz uma mutação de tecnologias. Foi particularmente evidente, então, o acontecimento da escrita, depois da impressão, e isso não é menor com o desenvolvimento das tecnologias digitais e da Internet. Desse ponto de vista, o estudo da generacidade constitui um lugar de observação privilegiada.

O exercício de fala parece atualmente dividido entre três regimes que mantêm uma relação diferente à generacidade. Isso vai muito além de uma simples justaposição. Em suas vidas cotidianas, os sujeitos falam entrelaçando esses regimes cada vez mais estreitamente: um estudante pode conversar com um amigo ao telefone enquanto navega na web e redige uma lição. O oral e a escrita são profundamente afetados pela existência da web: a imprensa escrita é contaminada pelas formatações da web, os atores da vida pública controlam muito mais suas falas, conscientes de que elas podem circular por um vídeo pelo mundo inteiro.

Antes, era essencialmente a oposição entre o oral e o escrito que estruturava o universo discursivo. Doravante, as atividades de comunicação orais ou escritas são de qualquer forma duplicadas por outro espaço que é, ao mesmo tempo, o mesmo e radicalmente outro. O mesmo porque podem ser transferidos não importam quais produções orais ou escritas, e porque numerosos cibergêneros parecem prolongar as práticas tradicionais: assim os chats e as conversações, os sites de informação e os diários etc. Mas também um espaço fundamentalmente outro, que modifica a natureza mesma da textualidade. Esta ambiguidade é encontrada, aliás, a propósito da escrita: há muito tempo, tem sido possível pensá-la como aquela que supre oral, portanto, que ela realmente transforme as condições mesmas de fala e de pensamento.

A generacidade que implica a web segue no sentido de uma diversificação dos domínios da fala. A generacidade “clássica” se apoia sobre a cartografia das atividades verbais: há tipos de discurso e, no interior dessas instituições, falas bem distintas. A web, ao contrário, tem tendência a misturar essas fronteiras, por uma exacerbação ao mesmo tempo da cenografia e do hipergênero. Uma evolução como essa se faz em detrimento das coações ligadas à legitimidade dos parceiros e às circunstâncias de atividade verbal que prescrevem um gênero de discurso “clássico”, mas também em detrimento da Unidade de um texto. Na tela, aparecem imagens transitórias em recomposição perpétua, mosaicos de modos tipográficos, quadros de borda, nós em redes, não textos que se poderiam reportar a lugares circunscritos em territórios. À relação imaginária que liga um texto isolado aos seus “produtores” se substitui a relação generalizada [isto é, condicionada aos gêneros de discurso], em um espaço virtualmente infinito, de sites que são organizações coletivas. À lógica do lugar se substitui aquela da do vínculo.

Referências

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