Resumo




Neste trabalho, analisamos o discurso espírita kardecista brasileiro, considerando-o como uma prática discursiva. Desse ponto de vista, o discurso é um sistema de restrições semânticas globais que rege suas duas vertentes, isto é, a textual e a social. Para evidenciarmos a imbricação entre as coerções enunciativas e as práticas institucionais do discurso espírita kardecista, analisamos aspectos relativos ao funcionamento dos centros espíritas e também alguns textos de enlaçamentos, isto é, textos que não só descrevem o ideal de enunciação do discurso, como também tematizam regras de sua comunidade discursiva. 




Introdução

Neste trabalho, com base nas reflexões de MAINGUENEAU (1989 e 2005) sobre o funcionamento dos discursos, tratamos do discurso espírita kardecista, tal como se encontra circulando no Brasil, procurando evidenciar o vínculo que há entre a face textual e a social desse discurso, aqui tomado como uma prática discursiva.

Segundo Maingueneau, o discurso é, acima de tudo, um “sistema de regras que define a especificidade de uma enunciação” (MAINGUENEAU, 2005, p. 19). Mais especificamente, esse sistema corresponde a um conjunto de coerções semânticas, que restringem, ao mesmo tempo, todos os planos do discurso (vocabulário, temas tratados, intertextualidade, ethos). Nesses termos, o discurso equivale a um sistema de restrições semânticas globais, cujos traços semânticos não garantem a gramaticalidade dos enunciados, mas definem os critérios por meio dos quais os textos se filiam a um determinado discurso ao mesmo tempo em que se distinguem do conjunto dos textos possíveis. Assim, o discurso diz respeito tanto a um conjunto de textos efetivos quanto a um conjunto virtual, aquele dos enunciados produzíveis de acordo com o sistema de restrições semânticas globais.

Na verdade, o discurso não se limita a esses textos, pois também diz respeito ao funcionamento do grupo social ao qual está associado, o que, segundo MAINGUENEUA (1989, 2005), se deve ao fato de não haver relação de exterioridade entre essas duas instâncias. Nas palavras do autor:

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[...] é preciso articular as coerções que possibilitam a formação discursiva com as que possibilitam o grupo, já que estas duas instâncias são conduzidas pela mesma lógica. Não se dirá, pois, que o grupo gera um discurso do exterior, mas que a instituição discursiva possui, de alguma forma, duas faces, uma que diz respeito ao social e outra, à linguagem. A partir daí, as formações discursivas concorrentes em uma determinada área também se opõem pelo modo de funcionamento dos grupos que lhes estão associados. (MAINGUENEAU, 1989, p. 55; grifos do autor).

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Para evidenciar a imbricação que há entre grupos sociais e formações discursivas, Maingueneau emprega a noção de prática discursiva. A esse respeito, vale lembrarmos que a noção de prática discursiva foi inicialmente formulada por Foucault, ao definir o discurso como “um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiram, em uma dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa” (FOUCAULT, 1997, p. 136).

Com essa concepção de discurso, Foucault não só instaura a necessidade de o discurso ser compreendido em sua própria espessura, a partir das regularidades que o constituem e o estruturam, mas também evidencia “as condições institucionais de legitimação da enunciação” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 396), colocando em primeiro plano a dispersão - regrada - dos lugares institucionais ocupáveis pelo sujeito de enunciação.

Inspirando-se, então, no pensamento foucaultiano, MAINGUENEAU (1989, 2005), por sua vez, afirma que o discurso é um processo de organização que estrutura não só textos, mas também grupos sociais, conforme muitas abordagens sociológicas têm evidenciado1. E é justamente o reconhecimento desse processo que leva Maingueneau a adotar a noção de prática discursiva, no lugar da tradicional noção de formação discursiva, o que implica a reformulação da própria concepção de discurso. Discurso é, então, uma prática discursiva, noção que designa a “reversibilidade essencial entre as duas faces, social e textual, do discurso” (MAINGUENEAU, 1989, p. 56), relacionando o discurso ao grupo ou à organização de grupos no interior dos quais são produzidos, isto é, gerados os textos relativos ao discurso.

O grupo social, a que Maingueneau chama de “comunidade discursiva”, diz respeito às instituições, às relações entre seus agentes e a tudo que esses grupos implicam no plano de sua organização material e de seus modos de vida, mas sempre dentro dos limites da enunciação, da gestão dos textos. Do nosso ponto de vista, a noção de comunidade discursiva é particularmente interessante para os analistas do discurso, pois, como bem observa SOUSA-E-SILVA (2013), considerando que “os modos de organização dos homens e de seus discursos são inseparáveis” e que a enunciação de um discurso “supõe e torna ao mesmo tempo possível o grupo que lhe está associado”, a noção de comunidade discursiva evidencia que as instituições produtoras de um discurso não são simples “mediadoras transparentes” (SOUZA-E-SILVA, 2013, p. 112).

Desse ponto de vista, o sistema de restrições semânticas globais do discurso diz respeito não só a vertente textual de uma prática discursiva, mas também à sua vertente social, uma vez que as coerções que possibilitam os textos são as mesmas que possibilitam o grupo. Em outras palavras: a(s) instituição(ções) que produz(em) e faz(em) circular o discurso está(ão) submetida(s) ao mesmo processo de estruturação desse discurso. Segundo Maingueneau, não se trata de pensar só na organização social da comunidade discursiva, na sua estrutura hierárquica propriamente dita, mas também nas relações humanas relativas a essa organização. Nas palavras do autor:

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[...] tem-se que levar em conta uma instância de embreagem entre a discursividade e sua inscrição institucional: o tom, a incorporação dos enunciadores e dos protagonistas, seu temperamento não são somente realidades textuais, funcionam também como modelo de interação no interior das comunidades. (MAINGUENEAU, 2005, p. 131; grifos nossos)

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Feitos esses esclarecimentos sobre a noção de prática discursiva, vamos analisar o discurso espírita kardecista, tal como se encontra circulando atualmente no Brasil, procurando ressaltar “a imbricação semântica irredutível” (MAINGUENEAU, 2005, p. 143) que há entre os aspectos textuais e sociais desse discurso.

Desse modo, pretendemos contribuir com os estudos sobre o discurso religioso, um tipo de discurso bem pouco explorado pelos estudos do discurso, embora o fato religioso, como bem observado por MAINGUENEAU (2005), esteja particularmente presente no mundo contemporâneo.

1. O discurso espírita kardecista

No Brasil, o espiritismo é uma religião seguida por milhões de pessoas. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), há, no país, 3.8 milhões de espíritas declarados2. Já a Revista Veja, na edição de 23 de junho de 2010, afirma que, além desses que se consideram espíritas, há por volta de 18 milhões de simpatizantes – pessoas que declaram pertencer a outras religiões, mas acreditam nos dogmas espíritas ou participam de seus cultos, o que pode explicar o interesse crescente da sociedade brasileira pelo discurso espírita kardecista. Quanto a isso podemos citar o sucesso dos filmes como Nosso Lar (2010), Chico Xavier (2010) e As mães de Chico Xavier (2011), que tratam dos princípios que regem a tese da existência de comunicação entre vivos e mortos por meio da mediunidade. Outro exemplo são as diversas novelas espíritas exibidas na televisão brasileira, tais como: Somos todos irmãos (TV Tupi, 1966), A viagem (TV Tupi, 1975 e TV Globo, 1994), Sétimo Sentido (TV Globo, 1982), Anjo de Mim (TV Globo, 1996), Alma Gêmea (TV Globo, 2005), Escrito nas Estrelas (TV Globo, 2010).

O discurso espírita kardecista está baseado nas ideias de Hippolyte Léon Denizard Rivaile (1804-1860), que, sob o pseudônimo de Allan Kardec, desenvolveu suas reflexões sobre o sobrenatural, procurando imprimir-lhe um tratamento científico, por causa da influência do movimento positivista e progressista do final do século XIX (cf. SCHMIDT, 2001, apud SILVA, F., 2007, p. 45). Nesses termos, o discurso espírita pode ser considerado como um modo de tratar supostos fenômenos sobrenaturais à luz da onda racionalista propagada pelos pensadores do século XIX. Seguindo essa linha de pensamento científico, Allan Kardec, em suas obras, define o discurso espírita como um conjunto de princípios e leis, revelados pelos espíritos superiores, que tratam da natureza, da origem e do destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal, procurando aproximar ciência e fé cristã.

De fato, segundo SILVA, E. (2002), o movimento espírita kardecista francês não deixou de ser um movimento cristão no qual os adeptos se guiavam pelos conhecimentos fornecidos pelos espíritos, que, supostamente, lhe apresentavam uma nova revelação das verdades cristãs. Mais exatamente, para a autora, tratava-se de uma nova interpretação do discurso cristão, na qual os ensinamentos de Cristo seriam completados pela aliança com o discurso científico, que deixaria de ser exclusivamente

materialista.

Com o advento do Espiritismo na França, posteriormente, o discurso espírita kardecista começou a circular também no Brasil, ainda no final do século XIX, quando sofreu bastante resistência, especialmente por parte de católicos e médicos. A partir da segunda metade do século passado, a expansão do discurso espírita kardecista torna-se mais significativa no país, especialmente por causa da influência do médium Francisco Cândido Xavier (publicamente conhecido como Chico Xavier), um dos responsáveis pela consolidação da feição católica3 de que se revestiu o Espiritismo no Brasil. Na próxima seção, tratamos do discurso espírita kardecista, conforme se encontra circulando atualmente.

2. O discurso espírita kardecista: uma questão de prática discursiva

Como nosso objetivo é analisar o discurso espírita kardecista, tal como se encontra circulando no Brasil, para o desenvolvimento da análise, levamos em conta não só as obras que são consideradas doutrinárias pela comunidade discursiva (o conjunto das obras de Allan Kardec, tido como o fundador do discurso espírita), como também diversos tipos de textos de divulgação do discurso espírita, como artigos, reportagens, mensagens psicografadas por médiuns. Grande parte desses textos se encontra disponível na rede, em sites espíritas, como o da Federação Espírita Brasileira (FEB), o da Federação Espírita do Mato Grosso, o do médium Divaldo Franco.

A leitura desse conjunto heterogêneo de textos do discurso espírita nos revelou que a moral propalada por esse discurso se resume na seguinte máxima: “Amar ao próximo como a si mesmo” (KARDEC, 2006, p. 146). Mais exatamente, do nosso ponto de vista, no discurso espírita, esse princípio se constitui como uma regra de conduta universal. Assim, para o discurso espírita kardecista, o cristão é aquele que ama o próximo como a si mesmo, o que leva a outra máxima, a saber: “Fora da caridade não há salvação” (KARDEC, 2006, p.197), que, se concretizada, representa o comportamento idealizado pelo discurso espírita kardecista. Vejamos:

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[...] na máxima “Fora da caridade não há salvação”, estão contidos os destinos do homem sobre a Terra e no céu. [...] Nada exprime melhor o pensamento de Jesus, nada melhor resume os deveres do homem do que esta máxima de ordem divina. O Espiritismo não podia provar melhor a sua origem, do que oferecendo-a por regra, porque ela é o reflexo do mais puro Cristianismo (KARDEC, 2006, p. 202; grifo nosso).

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Diante do exposto e considerando também os resultados dos trabalhos de STOLL (1999), SILVA, F. (2007) e ARRIBAS (2008), entendemos que o /+cristianismo/ é um dos traços semânticos desse discurso. Do nosso ponto de vista, esse traço não esgota a “significância” do discurso espírita, mas, na qualidade de um dos traços que o caracterizam, pressupomos que esteja presente em qualquer uma de suas dimensões, e a sua observação pode ser, nesses termos, uma das chaves para a leitura do discurso espírita kardecista. Assim, as reflexões que aqui apresentamos dizem respeito a esse traço semântico do discurso espírita kardecista, considerando não só sua face verbal como também sua face social.

A seguir, tratamos dos centros espíritas, procurando evidenciar como sua organização e as ações que promovem estão relacionados ao conteúdo doutrinário do discurso.

2.1 Os centros espíritas e ações de caridade

Os espíritas, assim outros grupos sociais, promovem eventos que sustentam o discurso espírita kardecista. Entre esses eventos, que se prestam também a cumprir outros objetivos mais específicos, encontram- se as reuniões promovidas pelos centros espíritas. Normalmente, essas reuniões acontecem pelo menos uma vez por semana em cada centro espírita.

Para participar de uma reunião espírita, basta o interessado dirigir- se a qualquer centro espírita existente na cidade onde reside. Nos centros espíritas, as reuniões são iniciadas normalmente por uma palestra proferida por algum espírita ligado àquele centro ou por algum palestrante convidado.

As palestras realizadas nos centros, segundo o discurso espírita kardecista, visam a divulgação da doutrina espírita e a promoção do indivíduo, com o intuito de “orientar, consolar, incentivar e elevar o padrão vibratório dos ouvintes de modo a facilitar o trabalho de atendimento realizado pela equipe espiritual da Casa” (CRUZ, 2001, p. 10).

A finalidade das palestras (orientar e consolar os participantes), do nosso ponto de vista, está relacionada à semântica global desse discurso, por se tratar de uma meta que está de acordo com a moral cristã; afinal, nesse discurso, a evangelização e o consolo espiritual são considerados atos de caridade. Quanto a esse aspecto, vale observarmos que a caridade, nesse discurso, não diz respeito tão somente à concessão de algum tipo de ajuda financeira e/ou material, mas deve ser entendida de forma bastante ampla, abrangendo qualquer prática de benevolência. Vejamos:

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O Espiritismo nos mostra que a caridade toma diversas formas. Não apenas aquela da ajuda material em relação aos que possuem pouco, muito menos do que nós, sob a forma de moedas, roupas, alimento. A caridade também pode ser exercida entre pessoas de iguais condições materiais, através da indulgência, do apoio moral, da ajuda espiritual. Os atos mais simples do dia-a-dia, como escutar, sem julgamentos e sem tentar impor nosso ponto de vista a alguém que precisa desabafar sobre seus problemas, ou fazer o máximo para compreender alguém que segue um estilo de vida diferente do nosso, podem ser grandes atos de caridade.4

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E também:

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[...] Mas o que é caridade segundo a Doutrina Espírita? Para facilitar a compreensão, pode-se dividi-la em caridade material e moral.

A caridade material compreende aquilo que tem manifestação no mundo físico, devendo ser exercida com desprendimento e amor, sem humilhar quem recebe. O amor se manifesta na maneira como se dá, não incluindo os que doam algo apenas para se verem livres de quem pede ou para aliviar a consciência, mas sim a atitude realizada com real vontade de auxiliar. [...] A caridade moral, como a entendia Jesus, é elucidada na questão 886 de O Livro dos Espíritos, como sendo benevolência (boa vontade) para com todos, indulgência (tolerância) para com as imperfeições alheias e perdão das ofensas. [...] Assim, a caridade moral pode ser:

* verbal: palavras que consolam, esclarecem e edificam, prece que aproxima de Deus, silêncio ou suavidade no falar;

* mental: ondas mentais sob a forma de perdão, prece e amor, emitidas em favor de encarnados e desencarnados;

* gestual: afago fraternal, abraço, aperto de mão, sorriso, carinho;

* passiva: silêncio diante de uma ofensa, atenção perante um desabafo;

* mediúnica: amparo a encarnados e desencarnados através da faculdade mediúnica5.

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A esse respeito, observamos que os envolvidos na organização dos encontros, das palestras, dos passes espíritas e nas demais ações promovidas pelos centros espíritas realizam um trabalho voluntário, sem remuneração, conforme as palavras de Jesus Cristo citadas por Allan Kardec no evangelho espírita: “Dai de graça o que de graça recebestes” (KARDEC, 2006, p. 295). Essa atitude pode ser vista como um “gesto de amor ao próximo”, tal como prega a moral cristã, que ressalta a importância de amar ao próximo como a si mesmo, promovendo ações em seu benefício. De acordo com o discurso espírita kardecista:

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[...] toda a movimentação humana, sem a luz do amor, pode perder-se nas sombras.

Seremos admitidos ao aprendizado do Evangelho, cultivando o Reino de Deus que começa na vida íntima. Estendamos, assim, a fraternidade pura e simples, amparando-nos mutuamente [...]. Fraternidade que trabalha e ajuda, compreende e perdoa, entre a humildade e o serviço que asseguram a vitória do bem. Atendamo- la, onde estivermos, recordando a palavra do Senhor que afirmou com clareza e segurança: – “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”.6

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De fato, no trabalho que desenvolveu sobre a formação do campo religioso brasileiro, ARRIBAS (2008) evidencia, justamente, como a concepção de salvação espírita (isto é, fora da caridade não há salvação) conduziu a uma prática social muito específica. Assim, com base nas reflexões da autora, podemos dizer que os diversos tipos de caridade promovidas pelos centros, incluindo aí os trabalhos de educação e de consolo espiritual oferecidos aos que procuram os centros espíritas estão diretamente relacionados às práticas de benevolência e de fraternidade fomentadas pelo discurso espírita kardecista. Por isso, os centros espíritas, segundo o próprio discurso espírita kardecista:

  • são núcleos de estudo, de fraternidade, de oração e de trabalho praticados dentro dos princípios espíritas;
  • são escolas de formação espiritual e moral, que trabalham à luz da Doutrina Espírita;
  • são postos de atendimento fraternal para todos os que os procuram com o propósito de obter orientação, esclarecimento, ajuda ou consolação;
  • são oficinas detrabalhoque proporcionam aos seusfrequentadores oportunidades de exercitarem o próprio aprimoramento íntimo pela prática do Evangelho em suas atividades;
  • são casas onde as crianças, os jovens, os adultos e os idosos têm oportunidade de conviver, estudar e trabalhar, unindo a família sob a orientação do Espiritismo;
  • são recantos de paz construtiva, que oferecem aos seus frequentadores oportunidades para o refazimento espiritual e a união fraternal pela prática do “amai-vos uns aos outros”;
  • são núcleos que se caracterizam pela simplicidade própria das primeiras casas do Cristianismo nascente, pela prática da caridade e pela total ausência de imagens, símbolos, rituais ou outras quaisquer manifestações exteriores;
  • são as unidades fundamentais do Movimento Espírita7.
  • Assim, de acordo com o discurso espírita, os centros são lugares heterogêneos, desempenhando funções diversas, ligadas não só à religião (unidades fundamentais do Movimento Espírita, recantos de paz construtiva), como também à educação (núcleos de estudo, escolas de formação), ao trabalho (oficinas de trabalho), à saúde (postos de atendimento). O que as aproxima é o fato de todas essas funções estarem articuladas a um propósito cristão (prática da fraternidade, da caridade).

    Nos centros, os seguidores do discurso espírita kardecista se voluntariam para desenvolver as atividades que ali são promovidas. Assim, qualquer pessoa que se dedica aos estudos das obras espíritas e a sua doutrina pode tornar-se um palestrante. Diga-se o mesmo a respeito dos que se voluntariam a participar de suas campanhas de assistência aos necessitados.

    O último momento de uma reunião promovida pelos centros espíritas é marcado pelo ritual do passe espírita. As pessoas presentes na palestra, divididas em grupos menores, adentram uma sala para receber o passe. A tradição do passe, no discurso espírita kardecista, é um tipo de prática de cura. Conforme o trabalho de ARRIBAS (2008, p. 195), o passe nada mais é do que a imposição das mãos sobre uma pessoa com a intenção de aliviar dores e sofrimentos físicos ou espirituais, ou seja, para curá-la de algum mal, ou simplesmente fortalecê-la. A esse respeito, vejamos o que afirma o discurso espírita kardecista:

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    A aplicação do passe tem como finalidade auxiliar a recuperação de desarmonias físicas e psíquicas, substituindo os fluidos deletérios por fluidos benéficos; equilibrar o funcionamento de células e tecidos lesados; promover a harmonização do funcionamento de estrutura neurológicas que garantem o estado de lucidez mental e intelectual do indivíduo [...].8

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    De acordo com o discurso espírita, o passe é aplicado com esses propósitos nos centros espíritas brasileiros desde sua formação, na época de Bezerra de Menezes, no início do século XX. Conforme o discurso espírita kardecista, a aplicação do passe deve guardar coerência com as orientações doutrinárias, fundamentadas nas orientações de Allan Kardec, em suas diversas obras. Para isso, os passistas, que, segundo Allan Kardec, são pessoas que têm o dom de curar pelo simples toque, pelo olhar ou por um gesto, sem o concurso de qualquer medicação, devem apresentar algumas qualidades de ordem superior entre as quais se destacam, segundo o próprio discurso espírita: “grande domínio sobre si mesmo, espontâneo equilíbrio de sentimentos, acendrado amor aos semelhantes, alta compreensão da vida, fé vigorosa e profunda confiança no Poder Divino”9.

    Com o intuito de prolongar o efeito do passe, os espíritas também usam o processo de fluidificação das águas. Segundo a Federação Espírita, os espíritos superiores, com participação ou não de médiuns encarnados, magnetizam a água, utilizada como recurso da terapêutica espiritual. Nas palavras do médium Divaldo Franco, “quando um paciente está enfermo, poderemos magnetizar a água, fluidificá-la, para que lhe prolongue aquele bem-estar que ele vai buscar ao centro espírita”10.

    Desde a origem do grupo Asssistência aos Necessitados, o passe é aplicado como uma forma de atendimento tanto à “saúde do espírito quanto à saúde do corpo” (ARRIBAS, 2008, p. 191). Nos centros espíritas, o passe e as águas fluidificadas são empregados nos processos de desobsessão de espíritos desencarnados.

    Segundo ALLAN KARDEC (2003), a obsessão nada mais significa do que a ação persistente ou o domínio que alguns espíritos logram adquirir sobre certas pessoas. É praticada pelos espíritos inferiores, que procuram dominar as pessoas, apresentando caracteres muito diversos, desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais de um indivíduo.

    Assim, para a prática discursiva à qual está vinculado, o passe é, essencialmente, uma forma de caridade, assim como o são outras práticas realizadas nos centros espíritas.

    De fato, o conjunto dessas práticas (passes, orientação espiritual por meio de palestras, águas fluidificadas, desobsessão), ainda de acordo com ARRIBAS (2008), pode mesmo ser tomado como uma evidência de que a caridade, fundamento propagado pela moral cristã, está fortemente vinculada ao discurso espírita kardecista até mesmo em se tratando do próprio modo de organização dos grupos espíritas. Nas palavras da autora:

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    À altura de Bezerra de Menezes, a exaltação desta virtude – a caridade, isto é, um benefício prestado a outrem – foi tomando corpo e tornando-se uma espécie de traço marcante do espiritismo, assumindo várias formas: 1) desde auxílios materiais e amparo social (exercícios sobretudo no “Serviço de Assistência aos Necessitados”, uma organização que funcionava nas dependências da FEB), passando pelos 2) trabalhos de assistência espiritual, desenvolvidos através dos “passes” ou das consultas homeopáticas, até chegar 3) aos trabalhos de “desobsessão”, em que o papel do médium e do doutrinador eram indispensáveis. Como uma das formas de salvação, talvez a mais importante, porque a mais destacada e trabalhada no espiritismo desde seus inícios com Allan Kardec, mas recebendo no Brasil, país de desemparados aos milhões e toda sorte, uma acentuação ainda mais pronunciada, a ‘caridade’ foi posta como pedra de toque no arcabouço teórico-doutrinário espírita. A incorporação dessa virtude como meio salvífico acarretou duas principais consequências sobre os adeptos do espiritismo: de um lado, as intervenções práticas no meio social, de outro, um tipo especial de organização burocrático-institucional. A apropriação subjetiva do sistema de pensamento espírita sob esse arranjo peculiar que tomou a doutrina pode ser tida como um indício para melhor compreender por que o espiritismo hoje é uma religião cujo destaque recai sobretudo em suas inúmeras obras filantrópicas – uma das características que a distinguem no campo religioso brasileiro. (ARRIBAS, 2008, p.187; grifos nossos).

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    De acordo com o que nos esclarece a citação, a caridade diz respeito não só a intervenções práticas no meio social, como também a um tipo especial de organização burocrático-organizacional, o que vai bem de acordo com a noção de discurso, ou melhor, de prática discursiva empregada neste trabalho. Ainda a esse respeito, a mesma autora afirma:

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    O que geralmente se tem hoje no espiritismo, do ponto de vista organizacional, e que decorre diretamente da visão de mundo espírita, é um conjunto de instituições entrelaçadas: o centro espírita, enquanto unidade elementar, consiste no lugar privilegiado para a prática dos estudos e para a execução prática da doutrina; lá, as formas de caridade mais praticadas são a ‘assistência espiritual’ e os trabalhos de ‘desobsessão’. Quase sempre funcionam atreladas aos centros, instituições de auxílio social e material, frequentemente creches, escolas profissionalizantes, albergues, orfanatos, hospitais e asilos. Há ainda as federações, que procuram, através de diversos mecanismos (organizações e publicações), fornecer orientações e recomendações que garantam certa uniformidade em termos doutrinários e práticas. (ARRIBAS, 2008, p.187-188; grifo nosso).

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    A essa citação, acrescentamos uma ressalva importante: de acordo com a perspectiva que adotamos neste trabalho, o ponto de vista organizacional dos grupos espíritas, enquanto comunidade discursiva, não decorre exatamente de sua visão de mundo, mas diz respeito à semântica global desse discurso, cujos traços, como já dito, dizem respeito não só a um conjunto de textos, mas também à face social do discurso.

    Desse modo, podemos dizer que todos os aspectos que foram apontados sobre os centros espíritas (práticas e tipos de relações que promovem) estão ligados à semântica global desse discurso, mais exatamente ao traço /+cristianismo/. Diga-se o mesmo a respeito do modo como a comunidade espírita se organiza, entrelaçando instituições de caridade (creches, escolas profissionalizantes, albergues, orfanatos, hospitais e asilos), conforme observado por ARRIBAS (2008).

    3. Enlaçamentos

    Segundo MAINGUENAU (1989), a ausência de exterioridade entre as coerções enunciativas e as práticas institucionais de determinada prática discursiva pode ser percebida nos textos que se estruturam frequentemente a partir dessa imbricação. Trata-se de textos que podem ser tomados como amostras de um corpus de um discurso específico e, ao mesmo tempo, como tematização das regras que atuam nas comunidades discursivas ligadas a esse discurso. A respeito de textos dessa natureza, o autor afirma: “à medida que a reversibilidade entre os dois aspectos é constante, os textos puramente doutrinários, em aparência, se transformam, com facilidade, em textos sobre a instituição” (MAINGUENEAU, 1989, p. 68).

    Os processos pelos quais os textos de uma formação discursiva refletem sua própria enunciação são chamados por Maingueneau de enlaçamentos e eles dizem respeito a textos que, em graus distintos, revelam as imbricações entre a face verbal e a não verbal da prática discursiva. Esses textos podem apresentar níveis distintos de enlaçamentos; vejamos:

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    - textos de primeiro grau, que revelam unicamente sua doutrina;

    - textos de segundo grau, que descrevem um ideal enunciativo realizado em sua própria enunciação ou uma comunidade cujo funcionamento é o das comunidades discursivas que lhes estão associadas;

    - textos de terceiro grau, em que a transmissão de sua doutrina coincide com a descrição de seu ideal enunciativo ou de sua comunidade discursiva;

    - textos de quarto grau, que fundem estes diversos elementos em um único: a descrição do mundo é, a um só tempo, definição de um ideal enunciativo e percurso de uma instituição (MAINGUENEAU, 1989, p. 69).

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    No caso do discurso espírita kardecista brasileiro, podemos citar textos desse discurso que descrevem um ideal de comportamento verbal que não deixa de ser também um ideal de comportamento social, o que seria, nos termos de MAINGEUENAU (1998), um caso de enlaçamento de terceiro grau. Vejamos alguns exemplos:

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    (01) Asseio Verbal

    “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para a edificação”

    (Paulo – Efésios, 4:29)

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    Quanto mais se adianta a civilização, mais se amplia o culto à higiene. Reservatórios são tratados, salvaguardando-se o asseio das águas. Mercados sofrem fiscalização rigorosa, com vistas à pureza das substâncias alimentícias. Laboratórios são continuamente revistos, a fim de que não surjam medicamentos deteriorados. Instalações sanitárias recebem, diariamente, cuidadosa assepsia. Será que não devemos exercer cautela e diligência para evitar a palavra torpe, capaz de situar-nos em perturbação e ruína moral?

    Nossa conversação, sem que percebamos, age por nós em todos aqueles que nos escutam.

    Nossas frases são agentes de propaganda dos sentimentos que nos caracterizam o modo de ser; se respeitáveis, trazem-nos a atenção de criaturas respeitáveis; se menos dignas, carreiam em nossa direção o interesse dos que se fazem menos dignos; se indisciplinadas, sintonizam- nos com representantes da indisciplina; se azedas, afinam-nos, de imediato, com os campeões do azedume. Controlemos o verbo, para que não venhamos a libertar essa ou aquela palavra torpe. Por muito esmerada nos seja a educação, a expressão repulsiva articulada por nossa língua é sempre uma brecha perigosa e infeliz, pela qual perigo e infelicidade nos ameaçam com desequilíbrio e perversão.11

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    (02) Na esfera da língua

    “Quem quer amar a vida e ver os dias felizes, refreie a sua língua do mal”

    (Pedro, 3:10.)

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    Reflete no bem que esperas na palavra dos outros, para que a tua palavra não se converta em agente do mal.

    Necessitando desse ou daquele concurso, agradeces ao companheiro que te endossa as solicitações com apontamentos de simpatia.

    No instante do erro, quando muitos te malsinam a invigilância, assinalas, feliz, a frase de entendimento do irmão que te justifica ou desculpa.

    De Espírito desarvorado, ante as provas que chegam em monte, na luta de cada dia, consideras por recurso do Céu a indicação generosa daqueles que te induzem à paciência.

    De coração obrigado a atitudes constrangedoras, observas que a ansiedade se te alivia, perante a referência confortadora dos que te ofertam apoio e compreensão.

    Entre dificuldades amargas, diante da queixa ou da desesperação que te escampam da boca, bendizes o amparo de quantos te acalmam, usando notas de tolerância.

    Sempre que estiveres a ponto de complicar os problemas ou azedar o ânimo de alguém, através da palavra, lembra o auxílio verbal de que precisas, por intermédio dos semelhantes. Se aspiramos a desfrutar os tesouros da vida e do tempo, apliquemos a regra áurea, na esfera de nossa língua.

    Insuflemos nos ouvidos alheios a tranquilidade que ambicionamos e falemos dos outros aquilo que desejamos que os outros falem de nós.12

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    Os textos em questão são, segundo o discurso espírita kardecista, mensagens psicografadas, relacionadas a Emmanuel, que, segundo o discurso espírita, é um guia espiritual evoluído, tido como o autor de grande parte das mensagens psicografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier. Como podemos notar, essas mensagens prescrevem um ideal de comportamento verbal relacionado a um ideal de conduta que, por sua vez, está perfeitamente de acordo com a moral cristã. Assim, o discurso deve ser respeitável, digno, disciplinado, ou ainda, deve ser marcado por apontamentos de simpatia, de gratidão, deve gerar tranquilidade (agradeces ao companheiro; bendizes o amparo de quantos te acalmam, usando notas de tolerância; insuflemos nos ouvidos alheios a tranquilidade) de modo que a enunciação siga à risca a regra áurea, segundo a qual cada um deve fazer aos outros o que gostaria que lhe fizessem; daí a recomendação de falar dos outros aquilo que desejamos que os outros falem de nós. Para evidenciarmos o quanto esse ideal de conduta verbal está de acordo com o ideal de conduta social preconizado pelo discurso espírita kardecista, apresentamos, a seguir, outra mensagem psicografada, que trata, justamente, desse ideal de conduta social, a ser adotado pelos membros da comunidade discursiva:

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    (03) Couraça da caridade

    “Sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e da caridade”

    (Paulo, 1ª Epístola aos Tessalonicenses, 5:8.)

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    Paulo foi infinitamente sábio quando aconselhou a couraça da caridade aos trabalhadores da luz.

    Em favor do êxito desejável na missão de amor a que nos propomos, em companhia do Cristo, antes de tudo é indispensável preservar o coração.

    E se não agasalharmos a fonte do sentimento nas vibrações do ardente amor, servidos por uma compreensão elevada nos círculos da experiência santificante em que nos debatemos na arena terrestre, é muito difícil vencer na tarefa que o Senhor nos confia.

    A irritação permanente, diante da ignorância, adia as vantagens do ensino benéfico.

    A indignação excessiva, perante a fraqueza, extermina os germes frágeis da virtude.

    A ira frequente, no campo da luta, pode multiplicar-nos os inimigos sem qualquer proveito para a obra a que nos devotamos.

    A severidade demasiada, à frente de pessoas ainda estranhas aos benefícios da disciplina, faz-se acompanhar de efeitos contraproducentes por escassez de educação do meio em que se manifesta.

    Compreendendo, assim, que o cristão se acha num verdadeiro estado de luta, em que, por vezes, somos defrontados por sugestões da irritação intemperante, da indignação inoportuna, da ira injustificada ou da severidade destrutiva, o apóstolo dos gentios receitou-nos a couraça da caridade, por sentinela defensiva dos órgãos centrais de expressão da vida.

    É indispensável armar o coração de infinito entendimento fraterno para atender ao ministério em que nos empenhamos.

    A convicção e o entusiasmo da fé bastam para começar honrosamente, mas para continuar o serviço, e terminá-lo com êxito, ninguém poderá prescindir da caridade paciente, benigna e invencível.13

    Com essa mensagem, cujo título é Couraça da caridade, evidenciamos o ideal de comportamento definido pelo discurso espírita, que, promovendo os valores associados à moral cristã, repele a irritação, a indignação, a ira, a severidade, em prol de uma atitude de caridade, de infinito entendimento fraterno. Conforme podemos notar, segundo o discurso espírita kardecista, somente a caridade paciente, benigna e invencível é que pode nos proteger (couraça da caridade, preservar o coração, agasalharmos), das sugestões da irritação intemperante, da indignação inoportuna, da ira injustificada ou da severidade destrutiva, ou seja, a caridade é, segundo esse discurso, a conduta a ser adotada, ao mesmo tempo em que as outras (irritação, indignação, ira, severidade) são condutas rejeitadas pelo discurso, o que, do nosso ponto de vista, se justifica pelo fato de não estarem adequadas ao traço /+ cristianismo/.

    Considerações Finais

    Neste trabalho, analisando o discurso espírita kardecista brasileiro, verificamos que o traço /+cristianismo/ é um traço semântico desse discurso, presente tanto em sua face textual quanto em sua face social, o que evidencia a imbricação que há entre essas duas vertentes do discurso.

    Desse modo, alinhando-se às reflexões de Maingueneau sobre o discurso, nosso trabalho combate a idéia de que a massa documental relativa ao discurso espírita kardecista possa ser tomada como produto das diversas instituições espíritas que lhe seriam anteriores e independentes. Na verdade, o discurso espírita, conforme procuramos demonstrar, é fundamentalmente “uma mesma rede que rege semanticamente essas diversas instâncias” (p. 142), ou seja, não só o conjunto dos textos espíritas kardecistas, como também as instituições e o funcionamento dessas instituições ligadas à produção, à circulação, à divulgação e ao consumo desses textos.

    Referências

    1. Afinal, espiritismo é religião? A doutrina espírita na formação da diversidade religiosa brasileira ARRIBAS C. G. 2008.
    2. Dicionário de Análise do Discurso CHARAUDEAU P, MAINGUENEAU D. São Paulo: Contexto; 2004.
    3. A manutenção da casa espírita CRUZ R. F. 20 de fevereiro de 2014.
    4. Arqueologia do saber FOUCAULT M. Rio de Janeiro: Forense Universitária; 1997.
    5. O livro dos médiuns KARDEC A. Rio de Janeiro: Federeação Espírita Brasileira; 2003.
    6. O Evangelho segundo o Espiritismo: contendo a explicação das máximas de Jesus Cristo, sua concordância com o Espiritismo e sua aplicação às diversas situações da vida KARDEC A. São Paulo: LAKE; 2006.
    7. Novas tendências em Análise do Discurso MAINGUENEAU D. Campinas: Pontes; 1989.
    8. Gênese dos discursos MAINGUENEAU D. Curitiba: Criar Edições; 2005.
    9. Discursividade e espaço discursivo SOUZA-E-SILVA M. C. P. In: FIGARO R, ed. Comunicação e Análise do Discurso. São Paulo: Contexto; 2013 .
    10. O Cristo reinterpretado: espíritas, teósofos e ocultistas do século XIX SILVA E. M. Revista Ideias.2002;v. 4:25-37.
    11. Céu, inferno e purgatório: representações espíritas do além SILVA F. L. 2007.