Resumo




O objetivo deste artigo é investigar a semântica dos numerais distributivos em três línguas: português brasileiro (românica), chinês mandarim (sino-tibetana), e karitiana (arikém, tupi). A despeito da diferença tipológica, propomos uma análise uniforme para esses operadores. Analisamos os numerais distributivos nas três línguas como advérbios que estão associados a uma semântica de pluracionalidade dos eventos. Consideramos que a distribuição é um subproduto da pluralização dos eventos (CABLE, 2014). Assim, torna-se possível fornecer uma entrada lexical única que abarca as diferentes interpretações das sentenças em que esses numerais ocorrem. 




Introdução

Este artigo enfoca a semântica dos numerais distributivos (nDists) adverbiais em três línguas de famílias distintas: o português brasileiro (língua românica), o chinês mandarim (sino-tibetana) e o karitiana (tupi). numerais distributivos são operadores distributivos formados a partir de numerais, conforme ilustramos com o numeral distributivo de dois em dois na sentença (1). Sentenças com numerais distributivos são adequadas para expressar uma gama de situações, como as parafraseadas abaixo da sentença. A primeira paráfrase tenta se aproximar da linguagem coloquial, ao passo que a segunda paráfrase tenta se aproximar da linguagem da lógica de predicados. Observe que, além de distribuir o predicado por vez ou por lugar, o numeral distributivo determina o número de indivíduos que participa de cada um dos eventos de sentar (na sentença (1), temos 2 alunos por evento).

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(1) (Alguns) alunos sentaram de dois em dois.

‘Alunos sentaram dois de cada vez/dois em cada lugar.’

‘Para cada vez/lugar, existem dois alunos que sentaram.’

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no caso da sentença (1), temos um verbo intransitivo, com apenas um argumento. A gama de interpretações possíveis para os numerais distributivos aumenta, ao aumentarmos o número dos argumentos verbais como em (2) e (3). A sentença (2) com um verbo de dois argumentos possui duas leituras possíveis parafraseadas em (2a-b). Já a sentença (3) com um verbo de três argumentos, possui três leituras possíveis, parafraseadas em (3a-c).

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(2) (Alguns) homens carregaram malas de três em três1.

a. Homens carregaram três malas de cada vez.

b. Três homens de cada vez carregaram malas.

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(3) (Alguns) alunos deram presentes para professores de dois em dois.

a. Alunos deram dois presentes de cada vez para professores.

b. Dois alunos de cada vez deram presentes para professores.

c. Alunos deram presentes para dois professores de cada vez.

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O artigo se insere em uma abordagem que vem sendo adotada recentemente pelos estudos teóricos em semântica formal que trata de combinar descrição e análise de fenômenos gramaticais específicos em uma variedade limitada de línguas com a busca de universais linguísticos (BACH; CHAO, 2011; LACA, CABREDO-HOFHERR, 2010). Esse

ponto de vista se diferencia das pesquisas tipológicas mais tradicionais porque em vez de coletar dados de uma quantidade muito grande de línguas, escolhe um número reduzido de línguas geneticamente distintas para um estudo aprofundado de certos fenômenos (LACA, CABREDO- HOFHERR, 2010).

Dessa forma, nossa investigação sobre os numerais distributivos nessas três línguas pretende contribuir para a elucidação de como as línguas naturais expressam relações de distributividade. O artigo enfrenta a questão mais geral de como os numerais distributivos adverbiais individuam e pluralizam eventos através das línguas e se pergunta se esses operadores ocorrem em todas as línguas humanas. Mais especificamente, o artigo investiga a semântica dos NDists em português brasileiro (PB), chinês mandarim e em karitiana. Queremos compreender como esses operadores pluralizam e individuam eventos em cada uma dessas línguas. Defendemos que os numerais distributivos são operadores pluracionais nas três línguas analisadas e que as diferentes interpretações das sentenças com numerais distributivos são geradas a partir da pluralização da relação entre o evento denotado pelo verbo e um de seus participantes. Defendemos também que as diferentes interpretações são possíveis porque existem diferentes modos de se individuar os eventos denotados pelos predicados pluralizados.

O artigo está organizado da seguinte forma: a seção 1 trata dos numerais distributivos através das línguas, de forma geral; a seção 2 trata especificamente dos numerais distributivos em português brasileiro, em chinês mandarim e em karitiana, enfocando sua natureza morfossintática (seção 2.1) e suas interpretações (seção 2.2); a seção 3 apresenta nossa proposta de análise unificada para os numerais distributivos nas três línguas; apresentamos, por fim, as considerações finais.

1. Numerais Distributivos através das línguas

nesta seção, apresentamos um panorama tipológico dos numerais distributivos de acordo com: (i) sua função sintática; (ii) sua manifestação morfológica; e (iii) seu comportamento semântico. numerais distributivos são conhecidos e descritos desde as antigas gramáticas e estudos filológicos (GREENOUGH, ALLEN, 1888; BENNETT, 1963). Um exemplo de numeral distributivo em uma língua clássica, já descrito no século XIX, é o termo latino bini que pode ser traduzido por ‘em dois’, ‘de dois em dois’, ‘dois cada’. Observe o contraste entre o significado das sentenças abaixo com o numeral cardinal duo ‘dois’ (4) e o numeral distributivo bini (5).

Figure 1.

1

Os numerais distributivos só foram estudados de modo mais sistemático pela linguística a partir da segunda metade do século XX, tendo como base o trabalho seminal de GIL (1982a). Baseado em uma vasta pesquisa tipológica, GIL (1982a) afirma que todas as línguas apresentam algum tipo de numeral distributivo adverbial, mas que nem todas possuem numerais distributivos adnominais. Temos aqui um universal descritivo. Desde o trabalho de Gil, várias pesquisas contribuíram para a compreensão dos numerais distributivos com novos dados e análises (ver CABLE 2014, BECK, STECHOW, 2006; BRASOVEAnU, HEnDERSOn, 2011 entre outros). Como vimos, nDists podem ser adnominais e adverbiais. Uma língua que apresenta numerais distributivos adnominais e adverbiais é o tagalog (austronésia)2. Em tagalog há duas estratégias distintas para a formação de numerais distributivos. Os numerais distributivos adnominais são gerados por meio de prefixação (tig-) (ver sentença (6)); enquanto que os numerais distributivos adverbiais são gerados por meio de reduplicação (ver sentença (7)). Segundo GIL (1982a), a existência de dois processos morfológicos distintos para a formação de numerais distributivos é um caso raro nas línguas do mundo.

Figure 2.

Línguas que possuem tanto numerais distributivos adnominais quanto adverbiais podem apresentar: (i) mesma forma para ambos; (ii) duas formas diferentes para cada um derivadas de uma base; ou (iii) uma forma para numerais distributivos adverbiais derivada dos numerais distributivos adnominais que, por sua vez, podem ser derivados da forma simples do numeral.

Um exemplo de língua do tipo (i), que possui a mesma forma tanto para o numeral distributivo adnominal quanto adverbial é o iorubá (nigero-congolesa).

Figure 3.

Uma língua que ilustra o tipo (ii), que possui duas formas derivadas de uma base distributiva, é o georgiano (caucasiana) em que o numeral cardinal sam forma o numeral distributivo sam-sam que pode tanto receber uma marca de advérbio e criar um numeral distributivo adverbial – sam- samat – quanto receber marcas de caso e formar um numeral distributivo adnominal – sam-sami conforme ilustrado abaixo.

Figure 4.

Um exemplo de língua do tipo (iii), que apresenta uma forma para numerais distributivos adverbiais derivada dos numerais distributivos adnominais que, por sua vez, são derivados da forma simples do numeral, é o cebuano (austronésia), conforme ilustram os exemplos em (11).

Figure 5.

Generalizando, GIL afirma que a forma morfológica dos numerais distributivos adverbiais é pelo menos tão complexa quanto a forma dos numerais distributivos adnominais e que nenhuma língua apresenta uma forma para o numeral distributivo adnominal derivada da forma adverbial.

Do ponto de vista da forma, a estratégia mais comum de formação de numerais distributivos é por meio de reduplicação. De uma amostra de 251 línguas apresentadas em GIL (2013), 45% tem a reduplicação como sua estratégia morfológica. As sentença (1-3) do português brasileiro, a sentença (6) do tagalog e as sentenças (9) e (10) do georgiano ilustram esse tipo de formação. Além da forma reduplicada, numerais distributivos podem ser formados por meio de afixos ou de uma palavra separada, como no latim (veja a sentença (2) do latim acima). Em nicobanese (austro-asiática), os numerais distributivos são formados pelo prefixo {ka-} conforme ilustrado em (12).

Figure 6.

Além das diferenças quanto à formação morfológica e a função sintática, os numerais distributivos também variam segundo as interpretações que geram nas sentenças em que ocorrem. A título de ilustração, retomemos os exemplos do georgiano. Segundo GIL (1982a), a sentença (9), repetida abaixo como (13), com um numeral distributivo adverbial possui uma leitura de que ocorreu um número indefinido de carregamentos de mala, com três malas por carregamento (distribuição sobre vezes/ocasiões – 3 malas por vez).

Figure 7.

Já o exemplo (10), repetido em (14), com o numeral distributivo adnominal pode ter uma interpretação de que houve um ou mais carregamentos de três malas para cada homem (distribuição sobre o nP sujeito – 3 malas por homem) ou de que ocorreu um número indefinido de carregamentos de mala, com três malas por carregamento (distribuição sobre vezes/ocasiões – 3 malas por vez).

Figure 8.

GIL (1982a) sugere ainda a possibilidade de uma terceira leitura que ele mesmo afirma poder estar incluída na leitura de distribuição sobre o predicado. Trata-se da possibilidade de haver apenas um evento de carregamento ou mais de um. Sentenças como a exemplificada por (15) abaixo são indeterminadas quanto a essa informação. Por conta disso, na leitura de ‘três malas por carregamento’ a quantidade total de malas pode ser seis ou uma quantidade maior, desde que tenha um valor múltiplo de três (seis, nove, doze...). Já na leitura de três malas por homem, se há dois homens, a quantidade de malas deverá ser um valor múltiplo de seis (seis, doze, dezoito...). Vamos deixar de lado essa interpretação por considerar que se trata de vagueza, ou seja, a sentença é indeterminada (e não ambígua) quanto ao número de eventos ocorrido.

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(15) Two men carried suitcases three by three.

‘Dois homens carregaram malas de três em três.’

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Uma vez apresentado um panorama geral das propriedades morfológicas, sintáticas e as interpretações dos numerais distributivos nas línguas do mundo, as próximas seções irão tratar das características dos numerais distributivos em português brasileiro, chinês mandarim e karitiana.

2. Numerais distributivos em português brasileiro, em chinês mandarim e em karitiana

nesta seção apresentamos e discutimos as propriedades dos numerais distributivos em português brasileiro (PB), chinês mandarim e karitiana. Para tal, a seção está dividida em três subseções. A seção 3.1 descreve a natureza morfossintática dos numerais distributivos nas três línguas e argumenta a favor de sua categorização como nDists adverbiais; a subseção 3.2, discute sua interpretação nas três línguas; e, finalmente, a subseção 3.3 apresenta um resumo das propriedades dos nDists nas três línguas.

2.1. Numerais distributivos são sintagmas adverbiais

Nesta seção argumentamos que nas três línguas discutidas - português brasileiro, chinês mandarim e karitiana – os numerais distributivos são sintagmas adverbiais.

2.1.1. Português brasileiro

Em nossa discussão sobre o português brasileiro, nos restringiremos aos numerais distributivos que têm a forma reduplicada de n em n, deixando de lado outros casos possíveis como um por um, três contra três, quatro a quatro. Sua composição por meio de uma preposição já indica seu estatuto de adjunto. Vamos argumentar que eles se comportam sempre como advérbios na língua.

Uma das evidências para essa afirmação está no fato de que eles não têm um comportamento de adjunto do nome. Tomaremos como exemplo a sentença (16) e aplicaremos a ela os testes de constituinte para o SN objeto apresentados em (17)3. Esses testes mostram que malas de três em três não forma um único constituinte e que, portanto, de três em três não faz parte do Sn objeto direto. Ou seja, o sintagma malas se comporta de forma independente do sintagma de três em três.

Em (17a’), vemos que malas pode ser substituído pelo pronome elas independentemente de de três em três. Por outro lado, (17a’’) mostra que se tentamos pronominalizar malas de três em três como um único constituinte, o significado da sentença não é preservado. Da mesma forma, os testes (17b-d) mostram que apenas o constituinte malas pode ser coerentemente clivado, interrogado ou passivizado comportando-se, portanto, como um objeto direto pleno e independente de de três em três. Vemos então que de três em três não forma um constituinte com o objeto direto malas. Os mesmos testes, com os mesmos resultados, podem ser replicados para a sequência meninos de três em três. Podemos concluir então que de três em três não pertence a nenhum dos Sns da sentença (16).

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(16) Os meninos levantaram malas de três em três.

Figure 9.

Note agora o contraste entre o comportamento sintático de de três em três na sentença (16) e o comportamento de um adjunto adnominal do tipo vermelhas na sentença (18). Os testes em (19a-d) mostram que vermelhas não pode ser separado do núcleo de seu sintagma nominal – malas – com preservação do significado ou mesmo da gramaticalidade da sentença. É interessante notar também que os resultados são exatamente opostos aos resultados apresentados em (17a-d) para o NDist de três em três. Em (19a), vê-se que não é possível pronominalizar um núcleo nominal – no caso, malas – separadamente de seu adjunto – no caso vermelhas. O teste de clivagem em (19b) mostra, da mesma forma, que é impossível separar malas de seu adjunto vermelhas. Em (19c), vemos que não é possível interrogar apenas o núcleo de um sintagma nominal, ou seja, não é possível interrogá-lo separadamente de seu adjunto. Finalmente, o teste da passivização em (19d), mostra que não é possível separar o núcleo de seu adjunto para formar uma oração passiva. Resumindo, vemos que um verdadeiro adjunto adnominal forma um constituinte único com seu núcleo; o que não acontece com um sintagma adverbial.

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(18) Os meninos levantaram malas vermelhas.

Figure 10.

Além disso, de n em n tem a mesma distribuição de advérbios de modo do tipo cuidadosamente, conforme ilustrado abaixo. Em (20a-d) e (21a- d), vemos que cuidadosamente e de três em três podem ocupar exatamente as mesmas posições na sentença. Por outro lado, eles também são agramaticais nas mesmas posições como ilustrado em (20e) e (21e).4

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(20) a. Cuidadosamente, os meninos levantaram as malas.

b. Os meninos cuidadosamente levantaram as malas.

c. Os meninos levantaram cuidadosamente as malas.

d. Os meninos levantaram as malas cuidadosamente.

e. *Os cuidadosamente meninos levantaram as malas.

(21) a. De três em três, os meninos levantaram as malas.

b. Os meninos de três em três levantaram as malas.

c. Os meninos levantaram de três em três as malas.

d. Os meninos levantaram as malas de três em três.

e. *Os de três em três meninos levantaram as malas.

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Ademais, se fossem adnominais, os numerais distributivos do PB deveriam poder aparecer dentro de um sintagma nominal com uma relativa restritiva (FRANCHI, NEGRÃO, MÜLLER, 1998). O contraste entre o comportamento do adjunto adnominal vermelhas em (22a) e o numeral distributivo de três em três em (22b) ilustra esse fato. Vermelhas, ao contrário de de três em três pode ocorrer dentro do sintagma as malas vermelhas que estavam no porão, ao passo que a inclusão de de três em três dentro do Sn torna a sentença agramatical - *malas de três em três que estavam no porão.

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(22) a. Os meninos levantaram as malas vermelhas que estavam no porão.

b. *Os meninos levantaram as malas de três em três que estavam no porão.

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Um contraexemplo possível que poderia ser levantado para a afirmação de que os numerais distributivos são adverbiais em português seria a possibilidade de ocorrência de dois deles em uma mesma sentença como em (23). Exemplos desse tipo foram utilizados por CABLE (2014) para afirmar que os numerais distributivos em tlingit (na-dene) podem ter uma função adnominal. A sentença (24) do tlingit é adequada em um cenário em que os meninos voltam do supermercado com duas maçãs e três batatas cada.

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(23) Os meninos compraram maçãs de duas em duas e batatas de três em três.

Figure 11.

No entanto, consideraramos que, pelo menos no exemplo em português, há uma elipse verbal e que ambos os numerais distributivos têm função adverbial.

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(25) Os meninos compraram maçãs de duas em duas e (compraram) batatas de três em três.

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nesta seção, apresentamos o comportamento adverbial do nDist em português brasileiro. na próxima seção discutiremos esse comportamento no chinês mandarim.

2.1.2.   Chinês mandarim

Em chinês mandarim, os numerais distributivos têm a forma de um numeral reduplicado acompanhado de um classificador nominal com um sufixo opcional de que acompanha os advérbios na língua: n-CL.n-CL-(de)5. 5Uma das evidências de que se trata de sintagmas adverbiais está na possibilidade de sua ocorrência em posição pré-verbal, posição prototipicamente associada aos advérbios na língua e não permitida para numerais cardinais simples, que têm comportamento adnominal. A sentença (26a) apresenta um numeral não reduplicado acompanhado de classificador em posição típica de adjunto adnominal. O exemplo (26b), por sua vez, mostra que não é possível a ocorrência do numeral+classificador em posição pré-verbal. Já (26c) atesta que os numerais reduplicados em chinês podem aparecer em posição pré-verbal.

Figure 12.

5

Uma evidência adicional para o estatuto adverbial dos numerais distributivos em mandarim está no fato de que eles podem, opcionalmente, ser marcados pelo morfema DE2, que também ocorre com advérbios de modo, conforme ilustrado abaixo pela sentença (27a). Em (27b), vemos que o advérbio hen kuai ‘rapidamente’ ocorre na mesma posição que o nDist liang ge.liang ge em (27a). O morfema DE2 se refere à modificação adverbial e é glosado com o 2 subscrito para diferenciá-lo do morfema DE1 homófono (mas não homógrafo) que marca modificação adnominal.

Figure 13.

Vimos então que mandarim possui nDists adverbiais da mesma forma que o PB. A seguir mostramos que o mesmo acontece em karitiana.

2.1.3.   Karitiana

Em karitiana os numerais distributivos possuem a mesma distribuição que outros advérbios (ADV) na língua. Suas possibilidades de ocorrência estão representadas em (28). Em sentenças com a ordem Sujeito-Verbo- Objeto, que é a ordem canônica para as sentenças matrizes declarativas na língua, a única posição que os sintagmas adverbiais não podem ocupar é entre o sujeito e verbo (STORTO, 1999). Em (29a-d), ilustramos a distribuição do advérbio kandat em karitiana.

Figure 14.

As sentenças em (30a-d), com sypomp sypomp ‘de dois em dois’, mostram que os numerais distributivos têm a mesma distribuição que os outros advérbios na língua.

Figure 15.

Uma evidência adicional para o estatuto adverbial dos numerais distributivos em karitiana é a presença do morfema {-t}, sufixo presente em muitos sintagmas adverbiais na língua, como ilustrado em (31) (SANCHEZ-MENDES, 2014).

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(1) a. koo-t. ‘

ontem-ADV’

b. soaso-t

‘rápido-ADV’

c. kama-t

‘agora-ADV’

(SANCHEZ-MENDES, 2014: 178)

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Adjuntos adnominais, por outro lado, não possuem morfologia funcional. As sentenças em (32) e (33) ilustram esse contraste com o modificador pita(t) ‘muito’, que tem a forma pita quando modifica sintagmas nominais e a forma pitat quando modifica sintagmas adverbiais.

Figure 16.

Um argumento adicional para a afirmação de que os numerais distributivos em karitiana são adjuntos adverbais é o fato de que sintagmas nominais não possuem projeções funcionais de nenhum tipo nessa língua. Os Sns na língua não são marcados para número, não apresentam classificadores nem marcas de definitude ou mesmo quantificadores (MÜLLER, STORTO, COUTINHO-SILVA, 2006). Nesse sentido, os numerais distributivos teriam um comportamento não previsto se pertencessem ao domínio nominal.

Esta seção mostrou que, embora sendo línguas tipologicamente muito diversas, o português brasileiro, o chinês mandarim e o karitiana possuem propriedades semelhantes quanto à natureza morfossintática de seus numerais distributivos. Do ponto de vista da forma, as três línguas estão de acordo com a generalização de GIL(1982a) de que a forma morfológica dos numerais distributivos é pelo menos tão complexa quanto a forma dos numerais. Em português, temos a forma de n em n, em chinês a forma n-CL.n-CL-(de), e em karitiana a forma n-t.n-t (em que n é um numeral). nas três línguas, esses operadores se comportam como sintagmas adverbiais.

A próxima seção tratará das interpretações dos numerais distributivos nas três línguas.

2.2. A interpretação dos numerais distributivos em português brasileiro, em chinês mandarim e em karitiana

O objetivo desta seção é explicitar a interpretação dos numerais distributivos nas três línguas enfocadas neste trabalho.

2.2.1.  Português brasileiro

Em português brasileiro, uma sentença com um nDist com sujeito não quantificado apresenta três leituras possíveis. A sentença (34) abaixo com o sujeito quantificado dois homens é adequada para descrever tanto uma situação em que cada um dos homens carrega três malas, ou uma situação em que três malas são carregadas a cada evento.

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(34) Dois homens carregaram malas de três em três.

a. Para cada homem, há um evento de ele carregar três malas.

= 3 malas por homem

b. Para cada ocasião/local, há um evento de dois homens carregarem três malas.

= 3 malas por vez/local

Já uma sentença sem numeral no Sn sujeito apresenta uma terceira leitura, apresentada em (35c). A sentença (35) pode ser utilizada para descrever os dois cenários adequados para (34) descritos acima, mas também pode ser usada para descrever uma situação em que malas são carregadas por três homens de cada vez. A leitura (35c) difere das outras duas porque apresenta o sujeito como a entidade a ser distribuída, ou seja, a entidade denotada pelo sujeito e não pelo objeto que tem sua cardinalidade (quantidade) determinada pelo NDist.

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(35) (Alguns) homens carregaram malas de três em três.

a. Para cada homem, há um evento de ele carregar três malas.

= 3 malas por homem

b. Para cada ocasião/local, há um evento de homens carregarem três malas.

= 3 malas por vez/local

c. Para cada ocasião/local, há um evento de três homens carregarem malas.

= 3 homens por vez/local6

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Vimos em (35) que as três leituras estão disponíveis para as sentenças transitivas com numerais distributivos em português somente quando um dos argumentos do verbo não possui um numeral. Se o sujeito ou o objeto forem nomes próprios ou descrições definidas singulares como, ‘João’ ou ‘o homem’ em (36-37), apenas uma leitura é possível, a de distribuição sobre o predicado, sendo que em (36) o objeto malas é particionado e em (37) o sujeito homens é particionado. Observe o contraste entre a sentença (35) acima e as sentença (36) e (37) abaixo.

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(36) João/O homem carregou malas de três em três.

a. #Para cada João/ o homem, há um evento de ele carregar três malas.

b Para cada ocasião/local, há um evento de João/o homem carregar três malas.

= 3 malas por vez/local

c. #Para cada ocasião/local, há um evento de três João/o homem carregarem malas.

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(37) (Alguns) homens carregaram João/a mala de três em três.

a. #Para cada homem há um evento de ele carregar três João/ a mala.

b. #Para cada ocasião/local, há um evento de homens carregarem três João/ a mala.

c. Para cada ocasião/local, há um evento de três homens carregarem João/a mala.

= 3 homens por vez/local

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Dessa forma, vemos que as propriedades de quantização dos argumentos do verbo (do sujeito ou do objeto) são fundamentais para a disponibilidade de leituras das sentenças contendo numerais distributivos. Além disso, no PB, o gênero dos nDists e dos argumentos do verbo também pode interferir na seleção de leituras. As sentenças

(1) e (39) abaixo, embora possuam sujeito plural sem numeral, não apresentam as três leituras atestadas em (35) acima pelo fato de que o gênero feminino dos numerais que compõem o nDist seleciona apenas argumentos femininos, no caso, malas ou mulheres.

(38) (Alguns) homens carregaram malas de duas em duas.

a. Para cada homem, há um evento de ele carregar duas malas.

b. Para cada ocasião/local, há um evento de homens carregarem duas malas.

c. #Para cada ocasião/local, há um evento de dois homens carregarem malas.

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(39) (Algumas) mulheres carregaram livros de duas em duas.

a. #Para cada mulher, há um evento de ela carregar dois livros.

b. #Para cada ocasião/local, há um evento de mulheres carregarem dois livros.

c. Para cada ocasião/local, há um evento de duas mulheres carregarem livros.

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Resumindo, as sentenças transitivas com numerais distributivos em português podem apresentar três leituras: (i) distribuição sobre o sujeito sendo o objeto direto particionado, ou seja, o sujeito é o distribuidor e o objeto direto tem sua cardinalidade determinada pelo nDist e faz parte do predicado distribuído (35a); (ii) distribuição sobre ocasiões/locais e o objeto sendo particionado (35b); (iii) distribuição sobre ocasiões/locais e o sujeito como sendo particionado (35c). É importante notar que o distribuído são sempre eventos e o que varia é o participante do evento a ser particionado.

No que diz respeito às sentenças intransitivas, o sintagma do sujeito é sempre parte do que é distribuído, uma vez que ele é o único argumento disponível, como vemos na sentença (40).

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(40) As mulheres dançaram de três em três.

a. #Para cada mulher, há um evento de ela dançar de três em três.

b. Para cada ocasião/local, há um evento de três mulheres dançando.

= 3 mulheres por vez/local.

Note que a leitura (40b), com a interpretação em que o distribuidor são vezes ou locais pode descrever cenários bastante diferentes. A sentença (40) pode ser usada para descrever uma situação em que para cada ocasião, há um evento de mulheres dançando agrupadas de três em três em locais diferentes. A figura abaixo representa um cenário capturado por essa leitura.

Figure 17.

Mas ela também pode ser usada em um cenário em que a cada ocasião/vez há um evento de três mulheres dançando. Ou seja, pode haver um evento de três mulheres dançando agora, outro daqui a uma hora e assim por diante. A figura abaixo representa esse cenário.

Figure 18.

Os diferentes cenários ilustram diferentes formas de se individualizar os eventos, por local ou por tempo; mas o predicado distribuído é o mesmo. Mais adiante, na seção 4, argumentaremos que apesar de as sentenças com NDists serem adequadas e verdadeiras em diferentes tipos de cenários, não se trata de um caso de ambiguidade, mas sim de indeterminação em como os eventos a serem distribuídos devem ser individuados. Essa indeterminação é resolvida no contexto que envolve tanto o conteúdo da sentença quanto o contexto extralinguístico. Assim, dois ou mais cenários podem ser capturados pela mesma leitura da sentença.

note também que a disponibilidade de interpretações por vez ou por local independe da estrutura argumental do verbo. Vimos que sentenças transitivas e intransitivas tem o mesmo comportamento no que diz respeito à disponibilidade de leituras por vez ou por local. Elas podem ser, evidentemente, mais ou menos favorecidas dependendo do significado lexical do verbo. O comportamento de sentenças com verbos inergativos e inacusativos ilustra esse fato mais uma vez. A sentença (41) abaixo, com o verbo inacusativo chegar, possui as mesmas interpretações que a sentença (40) com o verbo inergativo dançar. A interpretação expressa em (41b) pode descrever mulheres agrupadas de três em três em diferentes locais ou chegando em grupos de três em cada ocasião.

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(41) As mulheres chegaram de três em três.

a. #Para cada mulher, há um evento de ela chegar de três em três.

b. Para cada ocasião/local, há um evento de três mulheres chegando.

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Na próxima seção, discutiremos a interpretação de sentenças com NDists em mandarim.

2.2.2. Chinês mandarim

Passaremos agora ao exame do comportamento dos numerais distributivos adverbiais em chinês mandarim, que apresentam um comportamento semelhante ao do português. Em chinês mandarim, as sentenças transitivas com numerais distributivos também podem apresentar as três leituras atestadas em português, conforme ilustrado abaixo em (42).

Figure 19.

Em chinês mandarim, também há propriedades gramaticais que podem interferir na disponibilidade de leituras para sentenças desse tipo. Uma delas, também atestada em português, é quando o sujeito é singular. Evidentemente, isso acontece porque não é possível distribuir sobre uma entidade singular. A sentença abaixo mostra que, quando o sujeito é um nome próprio, ele não pode ser o argumento distribuído ou mesmo ser o distribuidor - o ‘beneficiário’ - da distribuição, uma vez que sua cardinalidade (ou quantidade) não pode variar. O exemplo (43) abaixo ilustra esse fato.

Figure 20.

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Além das propriedades de número do sujeito, em mandarim, o classificador selecionado pelo numeral distributivo também afeta a disponibilidade de leituras. Os classificadores em chinês têm uma função semelhante ao gênero em português no que diz respeito à seleção de um dos argumentos do verbo para a distribuição. Por exemplo, na sentença (42), o classificador ge que acompanha o numeral distributivo é um classificador genérico. Quando o numeral distributivo é formado com um classificador mais especializado, ele pode se referir apenas às entidades denotadas por um dos Sns da sentença. Por exemplo, enquanto o classificador geral ge em (42) é compatível tanto com criança quanto com amendoim, o classificador ke em (44) pode ser empregado apenas para se referir a pequenos objetos, logo só pode estar se referindo a amendoim. Dessa forma, a leitura com o sujeito sendo distribuído (44c) é descartada.

Figure 21.

a. Para cada criança, há um evento de ela comer dois amendoins.

b. Para cada ocasião/local, há um evento de crianças comerem dois amendoins.

c. #Para cada ocasião/local, há um evento de duas crianças comendo amendoim.

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No que diz respeito às sentenças intransitivas, em mandarim quase todos os verbos semanticamente intransitivos são sintaticamente transitivos. Esses verbos precisam vir acompanhados de um Sn nu que faz o papel de um objeto postiço (do inglês dummy object) (CHEnG, SYBESMA, 1998). Assim, um verbo como dançar é expresso por algo do tipo dançar dança. no entanto, esse objeto postiço, embora esteja sintaticamente presente, está inativo semanticamente e não pode ser usado como o argumento a ser distribuído como ilustrado em (45a-c). A única opção de leitura para esta sentença é com o argumento externo sendo usado como o argumento distribuído, como nas sentenças intransitivas do PB (45c).

Figure 22.

A seguir passamos a discutir as interpretações de sentenças com NDists em karitiana.

2.2.3. Karitiana

Apresentemos agora as propriedades semânticas dos numerais distributivos em karitiana. na língua karitiana, a interpretação em que o sujeito é o argumento distribuído nunca está disponível para sentenças com numerais distributivos. A sentença (46) abaixo ilustra essa propriedade.

Figure 23.

Assim como em português e em chinês, em karitiana, o sujeito singular também afeta as leituras disponíveis para sentenças como em (47).

Figure 24.

Até onde sabemos, em karitiana, não há uma propriedade gramatical associada ao numeral distributivo que possa influenciar na seleção de leituras tal qual o gênero em português e os classificadores em chinês.

Quanto às sentenças intransitivas, karitiana possui a particularidade de que todos os seus verbos intransitivos se comportam como inacusativos (ROCHA, 2011; STORTO, ROCHA, 2014). Logo o único argumento das sentenças intransitivas é o argumento interno que tem, portanto, comportamento similar ao do objeto das transitivas. De qualquer modo, nas três línguas, as sentenças intransitivas só permitem distribuição por ocasiões ou locais. Isso é compreensível, uma vez que numerais distributivos necessitam particionar um dos argumentos do verbo e, no caso das sentenças intransitivas, há um único argumento disponível.

Em (48), apresentamos uma sentença intransitiva em karitiana. Ela é interpretada com o sujeito sendo particionado e distribuído (48b).

Figure 25.

Passamos, a seguir, às conclusões gerais da seção.

2.3. Conclusões da seção

Vimos que, nas três línguas investigadas, os numerais distributivos são sintagmas adverbiais. E, como sintagmas adverbiais, eles potencialmente têm escopo sobre predicados. Consequentemente eles operam sobre eventos. Para deixar mais transparentes as interpretações que elicitamos, vamos comparar a sentença (40), repetida abaixo como (49), à sua versão sem numeral distributivo (50).

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(49) As mulheres dançaram de três em três.

(50) As mulheres dançaram.

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A sentença (50) é indeterminada quanto ao número de eventos a que pode se aplicar. Ela é também indeterminada quanto ao número de mulheres que podem participar desses eventos. A sentença (49), por outro lado, denota necessariamente um número plural de eventos em cada um dos quais três mulheres dançaram. Podemos inferir da comparação que a pluralização do predicado e a partição do argumento verbal são geradas pelo numeral distributivo.

Apresentamos abaixo uma generalização para os NDists nas três línguas investigadas que indica a base da análise que será apresentada a seguir:

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i. NDists particionam um evento indeterminado em subeventos homogêneos;

ii. os subeventos são individuados por locais, vezes, ou participantes;

iii. NDists determinam a cardinalidade (a quantidade) de um dos argumentos do verbo para cada um dos subeventos.

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Evidentemente há particularidades. Em PB e em mandarim, dependendo da sentença, algumas leituras podem ser descartadas de acordo com propriedades do numeral distributivo. Em PB, o que pode interferir para a seleção de leituras é o gênero e em chinês mandarim é o classificador. Já em karitiana, o sujeito nunca pode ser o distribuidor. A próxima seção apresentará nossa análise unificada para os fatos gerais descritos nesta seção.

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3. Análise

Esta seção apresenta uma proposta de análise para a contribuição semântica dos nDists às sentenças de que participam. Análises anteriores propuseram mecanismos sintático-semânticos bastante complexos para explicar a variabilidade de interpretações das sentenças com numerais distributivos (ver FARKAS 1997, HENDERSON 2011, entre outros). Aqui vamos nos ater a uma breve revisão da proposta baseada em escopo e em apresentar a proposta de numerais distributivos enquanto operadores pluracionais, que vamos adotar7. Para uma revisão das propostas existentes na literatura, ver CABLE (2014).

A proposta baseada na noção de escopo foi sugerida inicialmente por GIL (1988). Para descrever as interpretações dos numerais distributivos, o autor postula a seguinte regra:

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(51) A reduplicação de uma expressão A força uma expressão B que contém A a distribuir sobre um constituinte C disjunto e B8.

(GIL, 1988:1046)

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Vamos ilustrar o funcionamento do formalismo de Gil através da sentença (52) do georgiano. Como vimos acima, uma sentença com numeral distributivo adnominal em georgiano pode ter uma leitura de distribuição sobre o sujeito (três malas por homem) ou sobre o predicado (vP/VP) (três malas por carregamento).

Figure 26.

As representações sugeridas por GIL (1988) para as leituras de (52) são apresentadas abaixo em (53a-b). Em (53a), temos a representação da distribuição sobre o sujeito e em (53b), temos a representação da distribuição sobre o predicado.

Figure 27.

O formalismo de Gil, entretanto, é insuficiente para explicar de que forma as leituras são geradas a partir do numeral distributivo (BALUSU, JAYASEELAN, 2013). Ademais, como vimos, os exemplos do português brasileiro e do chinês mandarim apresentam uma gama de leituras distintas das descritas em (53a-b) exibindo, além das leituras atestadas para o georgiano, uma leitura em que o sujeito é parte do predicado distribuído.

A representação da operação de distribuição ganha uma formalização com o trabalho de LASERSOHN (1995), que investigou a distributividade de forma geral, não especificamente associada a numerais distributivos. LASERSOHN (1995) assume que a distributividade estrita é gerada por um operador distributivo – DIST - que apresenta uma restrição – o distribuidor - e um escopo – o distribuído. A formulação geral de Lasersohn (1995) é apresentada em (54) e sua aplicação ao exemplo do georgiano é apresentada em (55a-b). O ganho dessa representação está em considerar o operador distributivo como separado das outras duas partes da sentença e como responsável pela semântica de distributividade. Trata-se de uma análise quantificacional da distributividade, o que pode ser percebido através de suas paráfrases. Observe que essas paráfrases fazem uso do quantificador universal (cada) e do quantificador existencial (existe).

Figure 28.

No entanto, análises dos numerais distributivos como operadores quantificacionais como a baseada em LASERSOHN (1995) preveem que os elementos da restrição (o distribuidor) sejam exauridos na distribuição, ou seja, todos os indivíduos salientes no contexto devem entrar para que a sentença seja verdadeira. Isso é verdade para sentenças com cada no PB como (56) abaixo, mas não se aplica necessariamente a sentenças com numerais distributivos. As sentenças com NDists (57-59) do português, do madarin e do karitiana podem ser usadas para descrever um cenário em que nem todas as criança, alunos ou homens salientes no contexto entrararam, dançaram ou chegaram. Esse fato, no entanto, é capturado pela análise pluracional que apresentaremos mais adiante.

Figure 29.

Além disso, o tratamento dos NDists como quantificadores distributivos não dá conta do fato de que, embora os numerais distributivos adverbiais indiquem morfologicamente através da reduplicação que marcam distribuição, eles não apontam o que deve ser distribuído e qual deve ser o distribuidor (CABLE, 2014). As análises quantificacionais também não dão conta de como a cardinalidade do argumento a ser distribuído é determinada. A análise pluracional adotada neste artigo resolve esse enigma uma vez que tudo o que o operador pluracional precisará saber é que sintagmas nominais poderão ter suas cardinalidades determinadas pelo nDist.

Vamos agora defender uma proposta que explica de que forma as diferentes leituras são geradas composicionalmente pelos numerais distributivos em português brasileiro, chinês mandarim e karitiana. Assumimos que uma análise semântica que permita explicar ao efeito de distribuição tanto sobre entidades como sobre eventos é a chave para a análise dos numerais distributivos (CABLE, 2014). nossa tese é a de que os numerais distributivos são, na realidade, marcadores de pluracionalidade e que a distribuição é apenas um efeito da pluralização. Mais especificamente, argumentamos que a pluralização de eventos através de numerais distributivos é uma pluralização da relação entre o evento e um de seus argumentos. Uma proposta desse tipo foi defendida recentemente por CABLE (2014) para os numerais distributivos em tinglit.

A pluracionalização de eventos é descrita na literatura como submetida a diferentes requisitos de individuação. Eventos plurais podem ser obtidos por individuação através de coordenadas espaciais, temporais ou a partir dos próprios participantes do evento. Alguns marcadores pluracionais podem ser especificados para uma ou outra dessas dimensões (COLLInS, 2001; YU, 2003); outros, porém, permitem mais de uma opção e podem ser interpretados através de diferentes critérios de individuação. Em nosso caso, como se pode perceber pela variabilidade de leituras atestadas na última seção, estamos lidando com um marcador pluracional do segundo tipo.

A ideia geral da proposta defendida neste artigo é a de que os numerais distributivos são operadores pluracionais adverbiais que têm escopo sobre o sintagma verbal (vP/VP) pluralizando a relação do evento com um de seus argumentos. As diferentes leituras são derivadas a partir da vagueza do critério de individuação/partição do evento. Assim, as diferentes interpretações das sentenças com numerais distributivos não representam um caso de ambiguidade, mas sim casos de diferenças na escolha do critério de individuação, o que encerra os três cenários discutidos (CABLE, 2014).

Isso pode ser percebido se compararmos a sentença (60a) à sentença (60b). Ao adicionarmos o numeral distributivo de duas em duas à sentença (60a), o evento de crianças entrarem deixa de ser indeterminado quanto ao número de participantes e de ocasiões ou locais. A sentença (60b) afirma que existe um número necessariamente plural de eventos de crianças entrarem, cada um deles contendo duas crianças.

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(60) a. Crianças entraram.

b. Crianças entraram de duas em duas.

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Para implementar formalmente nossa proposta, vamos utilizar o operador pluracional ** que pluraliza predicados que denotam relações entre eventos e um de seus argumentos (cf. BECK, VOn STECHOW, 2006). Essas relações são de de tipo >, ou seja, são relações entre indivíduos - tipo e - e eventos - tipo s. O tipo t representa o tipo da sentença9. A definição apresentada em (61) diz que uma relação pluralizada ([**R]) é verdadeira para todos os elementos que a relação original era verdadeira (condição a) mais todas as estruturas de parte- todo que podem ser construídas a partir delas (condição b).

Figure 30.

10

A relação disponível automaticamente, se a operação de distribuição tiver escopo sobre o VP, é a relação entre o predicado e seu argumento interno. É relativamente consensual na literatura linguística que os argumentos de predicados transitivos possuem um estatuto diferente. Assim, considera-se que o argumento interno é o verdadeiro argumento do verbo e que o argumento externo deve ser introduzido por um núcleo funcional próprio (vP ou voiceP) (MARANTZ, 1984; KRATZER, 1996). Dessa forma, a entrada lexical de um verbo do tipo plantar teria a representação em (62), tendo apenas o argumento interno como parte de sua denotação. Plantar, segundo a definição abaixo, denota uma relação entre uma entidade (x) e um evento (e).

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(62) [plantar ]= λx. λe. plantar (e) & Tema (e) = x

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no entanto, para incluir todas as leituras disponíveis para as sentenças investigadas neste artigo, que englobam a leitura em que o sujeito é o argumento distribuído, será preciso considerar que a pluralização pode recair também sobre a relação entre o evento e o seu argumento externo. Por conta disso, vamos assumir que a relação pluralizada (R) é estabelecida segundo um predicado Participante que engloba tanto o argumento interno quanto o externo (CABLE, 2014). A definição deste predicado é apresentada em (63).

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(63) O predicado Participante:

Participante (e,x) se, e somente se x possui uma relação temática com e & x é o Agente de e, ou x é o Tema de e, ou x é a Meta de e, …

(CABLE, 2014)

.

(64) [NDist ]= λnn [ λP> [ λx [ λe. P(x)(e) & = σ. y < x & | y | = n & e’ < e & Participante(e’,y) ]] ]11

.

Em palavras, a denotação acima expressa que o numeral distributivo primeiramente procura um número natural de tipo n, que é dado pelo nDist. Em seguida se aplica a um predicado verbal de tipo > - uma relação entre entidades (tipo e) e eventos (tipo s) - e devolve um predicado de mesmo tipo com a relação entre o evento e argumento pluralizada. Assim, a relação é particionada resultando em uma soma σ, que é uma soma de relações entre um subevento e uma parte y. As partes do participante tem cardinalidade n. A denotação acima é a que propomos para de n em n em português, n-CL.n-CL-(de) em chinês e n-t.n-t em karitiana. Abaixo em (68) ilustramos a denotação do numeral distributivo de dois em dois e de seus equivalentes em mandarim e em karitiana.

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(65) [de dois em dois / liang-ge.liang-ge-de / sypom-t.sypom-t ] =

[ λP> [ λx [ λe. P(x)(e) & = σ. y < x & |y| = 2 & e’ < e & Participante(e’,y) ] ] ]

.

Estamos assumindo que a reduplicação do numeral tem uma contribuição semântica de pluralização dos eventos, ou seja, de pluracionalidade. Além disso, o numeral distributivo também traz a informação de que um dos participantes deve ser particionado de acordo com o número natural utilizado na formação do numeral distributivo. note que nossa proposta para os numerais distributivos é toda baseada na operação de pluralização. Uma vez pluralizada a relação, a distributividade é gerada como um epifenômeno, pois a pluralização gera uma série de subeventos idênticos um ao outro.

Vamos mostrar abaixo, com o exemplo (66) do português, de que forma essa proposta formal dá conta das leituras presentes em sentenças com numerais distributivos.

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(66) (Alguns) homens carregaram malas de três em três.

a. Para cada homem, há um evento de ele carregar três malas.

b. Para cada ocasião/local, há um evento de homens carregarem três malas.

c. Para cada ocasião/local, há um evento de três homens carregarem malas.

.

Para derivar as leituras (66a) e (66b), o numeral distributivo deve se aplicar à relação entre o predicado carregar e o argumento mala, uma vez que o participante que está sendo particionado é o argumento interno. O resultado dessa aplicação é apresentado em (67).

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(67) [de três em três ] ([[carregar mala ])= [ λe. carregar(x)(e) & mala(x) & = σ. y < x & |y| = 3 & e’ < e & Participante(e’,y) ] ] ]

.

Em palavras, a representação acima diz que carregar mala de três em três denota um predicado de carregar que está em relação com um participante do evento - mala - cujas subpartes são particionadas em porções ou grupos de três e cada uma dessas porções ou grupos está associada a um subevento do evento de carregar. Vejamos abaixo se essa representação lógica de fato captura as leituras (66a) e (66b).

Para isso, vamos criar um cenário para cada uma das leituras e verificar se a denotação acima pode representar estes cenários. Considere o cenário I com três homens (h1, h2 e h3) em que para cada um dos homens há um evento de ele carregar três malas e um cenário II em que há dois homens (h1, h2) e para cada ocasião/local há um evento desses dois homens carregarem três malas em cada subevento12.

Figure 31.

Note que o que esses cenários têm em comum é o fato de haver três malas por evento de carregar. Essa é exatamente a parte expressa pela denotação em (67) que diz que há uma relação entre um evento e um participante e as subpartes desse participante associadas às subpartes desse evento são particionadas de três em três. O que varia entre os cenários I e II é exatamente o elemento sobre o qual distribuir – o distribuidor.

Note que é o distribuidor que determina como os eventos pluracionalizados são individuados. Assumimos que a escolha do distribuidor é contextual e não faz parte da operação realizada pelo nDist. As diferentes opções de leitura são dadas graças à vagueza associada à individuação dos eventos, se segundo seus participantes ou segundo ocasiões ou locais. A semântica do nDist apenas gera uma pluralidade de relações entre eventos e entidades com uma cardinalidade determinada. Como a individuação é feita através da correspondência de um número fixo e sempre igual de participantes dado pelo numeral distributivo, ela se torna idêntica a uma distribuição strictu senso. Assim, a distribuição é na verdade um efeito da individuação. nesse sentido, assumimos que as leituras (66a) e (66b) não são de fato duas leituras distintas, mas dois cenários de verificação diferentes para uma mesma leitura/interpretação, que é representada pela mesma forma lógica derivada da pluralização da relação entre o predicado e seu argumento interno.

Passaremos agora a analisar a leitura (66c) repetida abaixo como (70a). Nossa proposta assume que o numeral distributivo se aplica sempre à relação entre o evento e um de seus participantes. Quando temos leituras como as ilustradas pelos cenários I e II, o numeral se aplica à relação entre o evento e seu argumento interno. Quando, no entanto, temos uma leitura como a parafraseada em (70b) abaixo, o numeral distributivo está sendo aplicado à relação entre o evento e seu argumento externo. Sua realização formal é explicitada em (71).

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(70) a. (Alguns) homens carregaram malas de três em três.

b. ‘Para cada ocasião/local, há um evento de três homens carregarem malas.’

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(71) [de três em três homens carregar malas ]= [ λe. carregar (z)(x)(e) & homem(x) & mala (z) & = σ. y < x & |y| = 3 & e’ < e & Participante(e’,y) ] ] ]

.

O cenário III, apresentado em (72) abaixo, ilustra como a denotação em (71) abarca a leitura em (66c/70b). A denotação indica que há um evento de carregar cujos participantes (homens) devem ser particionados de três em três.

Figure 32.

Vimos que, em karitiana, o numeral distributivo não pode se aplicar a uma relação diferente da relação do evento com seu argumento interno, pois uma leitura como a (66c/70b) não está disponível na língua. Supomos que essa restrição pode estar vinculada à natureza do alinhamento dos argumentos verbais na língua. Karitiana é uma língua ergativo-absolutiva, ou seja, uma língua em que o argumento dos verbos intransitivos se assemelha ao argumento interno de verbos transitivos, e não a seu argumento externo (o agente). Esse alinhamento tem reflexos nas marcas de concordância da língua que sempre concordam com o argumento absolutivo (STORTO, 2005). Dessa forma, o verbo tem uma relação muito mais estreita com seu argumento absolutivo, a saber, o sujeito transitivo e o objeto intransitivo. Português brasileiro e chinês mandarim, por outro lado, são línguas nominativo-acusativas, em que o sujeito transitivo apresenta uma relação próxima com o verbo.

Esta seção mostrou nossa proposta de análise para os numerais distributivos em português, chinês e karitiana baseada na pluralização da relação entre eventos e seus participantes. Segundo essa proposta, a distribuição é, na realidade, um subproduto da operação de pluralização do evento denotado pelo predicado verbal e da partição de seus participantes. Dessa forma, evitamos regras complexas de escopo para explicar as diferenças de leitura apresentadas pelas sentenças com nDists nas três línguas.

Considerações finais

Este trabalho investigou o comportamento sintático e semântico dos numerais distributivos em três línguas tipologicamente muito distintas: o português brasileiro, o chinês mandarim e o karitiana e propôs uma análise baseada na pluralidade de eventos para esses operadores.

Segundo nossa análise, nDists realizam uma pluralização da relação entre o evento denotado pelo predicado verbal e um de seus participantes. Além disso, a operação realizada pelo nDist particiona o participante da relação em grupos com a mesma cardinalidade. nessa proposta, as interpretações distributivas são consideradas como um epifenômeno da operação de pluralização. As diferentes interpretações encontradas nas sentenças com numerais distributivos descrevem, na realidade, diferentes cenários de verificação de duas leituras básicas, ambas derivadas de uma mesma entrada lexical para o numeral distributivo. Uma delas resulta da pluralização da relação entre o predicado e seu argumento interno (presente nas três línguas); a outra resulta da pluralização da relação entre o predicado e seu argumento externo (presente em português e chinês, línguas nominativas).

O trabalho que fizemos aplica conceitos do paradigma da semântica formal para analisar em profundidade um fenômeno translinguístico – os numerais distributivos – em três línguas tipologicamente distintas. nossa análise mostra que esses operadores realizam a mesma operação nas três línguas investigadas. Se juntamos esse resultado ao extenso levantamento tipológico de GIL (1982a), podemos concluir que encontramos nos NDists e na operação que realizam um excelente candidato a universal linguístico.

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