Resumo

Para responder a pergunta formulada no título deste artigo, serão considerados os próprios termos a partir dos quais a questão se elabora. Inicialmente, dividem-se os analistas do discurso em três grupos: o primeiro, em que se incluem pesquisadores de formação filosófica; o segundo, que é o constituído pelos pesquisadores que utilizam o “método qualitativo”, os discursivistas; e, por fim, o terceiro grupo, composto por pesquisadores que se esforçam por manter um equilíbrio entre a reflexão sobre o funcionamento do discurso e a compreensão de fenômenos de ordem sócio-histórica ou psicológica. Com os grupos assim organizados, busca o artigo compreender o que os analistas do discurso pesquisam, como o fazem e como esses estudos contribuem para as construções sociais. 

Introdução

Responder à pergunta “o que pesquisam os analistas do discurso?” é particularmente embaraçoso, sobretudo quando se pratica, como é meu caso, análise do discurso há muito tempo: quanto mais o tempo passa, mais esta atividade me parece enigmática. Uma forma de contornar esta dificuldade é retomar os próprios termos da questão proposta. Dois elementos chamam minha atenção: “os analistas do discurso” e “o que pesquisam…”.

1. Os três grupos

Evocar “os analistas do discurso” não pressupõe que haja um grupo bem definido e homogêneo? Ora, isso não tem nada de evidente. Muito esquematicamente, parece-me que se pode, na realidade, repartir os pesquisadores em análise do discurso em três grupos distintos, deixando claro que o mesmo indivíduo pode, segundo as circunstâncias, passar de um a outro.

Em um primeiro grupo pode-se incluir os pesquisadores cuja visada é de ordem filosófica ou para-filosófica. Os questionamentos ligados ao discurso lhes permitem refletir sobre temas como o poder, a diferença sexual, a subjetividade, a escritura, a dissidência, o pós-colonialismo... É particularmente este o caso dos que se filiam à “Theory” pós-estruturalista.

Pode-se mencionar, por exemplo, nos EUA, o nome de Spivak, que, no cruzamento da análise do discurso, da análise textual, da filosofia, do feminismo e do marxismo, se empenha em criticar os paradigmas ocidentais. Pode-se igualmente pensar, no domínio das ciências políticas, na teoria da hegemonia, defendida por Laclau e Mouffe, que se apóiam em uma teoria da fixação do sentido em um sistema de diferenças; sua definição de discurso está bem distante daquela da grande maioria dos analistas do discurso, para os quais o discurso é, antes de mais nada, um conjunto de dados textuais. Pode-se ver isso na definição que Laclau propõe para o termo “discurso”:

We call articulation any practice establishing a relation among elements such that their identity is modified as a result of the articulatory practice. The structured totality resulting from the articulatory practice, we will call discourse. The differential positions, insofar as they appear articulated within a discourse, we will call moments. By contrast, we will call elements any difference that is not discursively articulated. (Laclau, 1985 : 105)

Chamamos de articulação a qualquer prática que estabelece uma relação entre elementos tais que sua identidade é modificada como resultado da prática articulatória. À totalidade estruturada que resulta da prática articulatória, chamamos de discurso. Às posições diferenciais, antes de aparecerem articuladas em um discurso, chamamos momentos. Por contraste, chamamos elemento a qualquer diferença que não esteja discursivamente articulada (Laclau, 1985: 105)

Esta orientação para-filosófica está presente desde as origens dos estudos de discurso. Na França, a partir dos anos 1960, coexistiram abordagens linguísticas (que dominam no número especial da revista Langages n°13) e abordagens que tinham um olhar essencialmente crítico e filosófico, como o de Michel Foucault ou o de Michel Pêcheux; este último, em particular, visava fundar “uma teoria do discurso como teoria geral da produção dos efeitos de sentido”, uma teoria que “não pode de forma alguma substituir uma teoria da ideologia, nem uma teoria do inconsciente, mas que pode intervir no campo dessas teorias” (Pêcheux, 1969: 110). É Pêcheux quem coloca “intervir” em itálico: a análise do discurso “intervém”, ela não se deixa encerrar em nenhuma disciplina constituída, nem mesmo pela que tem a ideologia como objeto.

No segundo grupo de discursivistas, pode-se incluir os que utilizam a análise do discurso como “método qualitativo” disponível na caixa de ferramentas das ciências sociais. Eles trabalham, de fato, no interior de quadros que foram definidos pela disciplina à qual eles pertencem (geografia, sociologia, ciências políticas…) e seu objetivo principal não é enriquecer os conceitos e os métodos que utilizam, mas ter acesso a “realidades” fora da linguagem. O risco de tal uso da análise do discurso é o de apagar, ou, ao menos, borrar a fronteira entre o estudo do discurso e as técnicas típicas da análise do conteúdo (content analysis), sendo que a distinção entre análise do discurso e análise do conteúdo teve um papel importante na fundação da análise do discurso. Pêcheux, por exemplo, produziu uma crítica sem concessões à análise do conteúdo, à qual reprovava a pretensão de “chegar ao sentido do texto atravessando sua estrutura lingüística” (1969: 4). Encontram-se palavras próximas a estas em Fairclough, que recusa “uma tendência a considerar a linguagem transparente, (…) a crer que o conteúdo social dos dados linguísticos pode ser lido sem prestar atenção à linguagem propriamente dita” (2001 [1992]: 20).

O terceiro grupo de analistas do discurso que eu distinguiria é constituído pelos pesquisadores que se esforçam por manter um equilíbrio entre a reflexão sobre o funcionamento do discurso e a compreensão de fenômenos de ordem sócio-histórica ou psicológica. A maior parte deles tem forte ancoragem nas ciências da linguagem. É este grupo que fornece, de certa forma, a base para a análise do discurso, distinta da teoria do discurso ou do simples método qualitativo.

2. O que pesquisam

A segunda dificuldade que a questão posta levanta se deve à ambiguidade da expressão “o que pesquisam ...”1. Ela pode, de fato, referir-se às motivações pessoais dos pesquisadores ou às motivações que o fato de praticar análise do discurso implica. Certamente, seria muito interessante interrogar-se sobre as motivações de ordem social ou psicológica que animam os analistas do discurso em um lugar e em um momento dados, mas é a segunda interpretação que parece impor-se aqui. O problema é que eu duvido que se possa atribuir uma finalidade unívoca às pesquisas em análise do discurso, que permitiria justificar sua existência e a maneira pela qual são conduzidas. Para melhor fazer- me compreender, faço uma comparação com a categoria do gênero do discurso.

Quando se aborda um gênero de discurso, considera-se comumente que um de seus constituintes essenciais é sua finalidade: tal gênero tem tal(is) finalidade(s) que justificaria(m) sua existência e explicaria(m) seu funcionamento. Certamente, um gênero de discurso não pode ser praticado se os atores sociais não lhe atribuem alguma finalidade, mas isso não significa que a existência de um gênero de discurso se reduza às diversas finalidades que lhe são atribuídas. O gênero de discurso é uma realidade sócio-histórica, uma instituição que ultrapassa as interpretações que os atores sociais lhe dão, em função de seus próprios interesses. De maneira comparável, pode-se dizer que a análise do discurso existe independentemente de cada pesquisador, que é um espaço que se pode identificar no campo do saber; precisamente, os analistas do discurso definem seus posicionamentos pela maneira pela qual atribuem uma finalidade a este espaço. A este respeito, é significativo que a análise do discurso não descenda de um fundador único, ao qual se poderia atribuir um projeto que definiria sua finalidade, mas da convergência de correntes muito diversas. O resultado dessa convergência não pode ser definido por um projeto do qual elas seriam o desdobramento, mas como o espaço profundamente incerto no qual “se desfaz o laço aparentemente tão forte entre palavras e coisas”, para retomar uma expressão célebre de A Arqueologia do saber de M. Foucault (1969: 66/56 – tradução brasileira) A análise do discurso, antes de ser qualquer coisa de cuja finalidade cada posicionamento tenta se apropriar, é, de fato um sintoma de que uma sociedade participa de um certo mundo. Da mesma forma que se poderia caracterizar a sociedade grega antiga como uma sociedade na qual existia a retórica, poder-se-ia definir a sociedade contemporânea como uma sociedade na qual se estuda o “discurso”. Esta atividade não veio preencher uma falta prévia, encarregar-se de tratar de fenômenos até então negligenciados, como se o mundo das coisas esperasse que haveria um interesse por um setor até então apenas esboçado, por falta de visibilidade e de pesquisadores para estudá-lo. Se a análise do discurso emergiu é porque se produziu uma transformação na configuração do saber: a análise do discurso não “exporta” seus procedimentos para a sociologia, a história, a psicologia..., e estas não “importam” nada da análise do discurso, a não ser na medida em que são já trabalhadas pelo que tornou a análise do discurso possível.

3. Controlar os poderes do discurso

Queira-se ou não, os estudos de discurso estão amarrados ao movimento da “tecnologização do discurso” (Fairclough), este empreendimento multiforme que pretende analisar os poderes do discurso para melhor controlá-los. De fato, ao lado das pesquisas universitárias às quais nós nos aplicamos, existe uma multiplicidade de técnicas de controle da linguagem: formalização dos procedimentos de interação entre empregados e clientes ao telefone, tratamento automático de massas documentais de todos os tipos, estudo das produções verbais com fins educativos ou psicoterapêuticos, conselhos em comunicação destinados a todos os que tomam a palavra em público, elaboração de programas de informática de análise e de produção de textos de múltiplos gêneros etc. Jamais na história da humanidade houve tanta preocupação em estudar o discurso. Fato sintomático, os canais de televisão multiplicam as emissões nas quais “especialistas” analisam as falas das personalidades públicas, em particular dos políticos. Assim, quanto mais se multiplicam os lugares de colocação em espetáculo dos signos, tanto mais se multiplicam as colocações em espetáculo da análise desses signos.

Entre as pesquisas propriamente acadêmicas e essas múltiplas práticas de estudo do discurso, a fronteira é indecidível; ela é continuamente negociada. Como a língua, segundo o legendário Esopo, o estudo do discurso pode ser a melhor ou a pior das coisas.

4. Uma abertura ilimitada

A análise do discurso participa também de nossa contemporaneidade pelos corpora que pode fornecer: da conversação ao curso universitário, do grafite ao tratado de metafísica. Pela primeira vez na história da humanidade, qualquer produção verbal é assim passível de uma leitura especializada, privilégio até então exclusivo dos textos prestigiosos. Uma liberdade que tem seu avesso: dado que tudo é susceptível de ser analisado, é necessário empregar grandes esforços para justificar que se destrinche tal objeto.

No momento em que a análise do discurso apareceu, nos anos 1960, em matéria de estudo de textos havia uma espécie de divisão tácita do trabalho: as faculdades de letras analisavam os textos prestigiosos, prestando atenção especial ao “estilo”, e, portanto, aos recursos lingüísticos mobilizados pelo escritor; por sua vez, os departamentos de ciências humanas ou sociais se dedicavam a textos de baixo prestígio, aos “documentos” que não eram considerados passíveis de uma abordagem estilística e que só eram estudados porque continham indicadores que davam acesso a realidades extralinguísticas. Os textos que os primeiros abordavam eram objeto de verdadeiros comentários; tratava-se de textos consagrados, singulares, legados pela Tradição, que eram analisados por meio de métodos normatizados (para os literários, por exemplo, o comentário composto, o comentário estilístico, a explicação de textos...). Por sua vez, os textos que as faculdades de ciências sociais consideravam eram desprovidos de prestígio: entrevistas, questionários, massas documentais de todos os tipos mobilizavam técnicas que derivavam das diversas variantes da análise do conteúdo. Tratava-se de extrair e de estruturar a informação que os documentos considerados reveladores de realidades psicológicas ou sociais exteriores continham. A análise do discurso converteu o olhar sobre estes “documentos”: eles foram beneficiados, desde então, por uma atenção comparável àquela que mereciam os textos estudados nas faculdades de letras, mas em um quadro teórico e metodológico muito diferente. Certamente, desde muito tempo os filólogos estudaram com cuidado tanto os grafites dos muros de Pompeia ou os livros as cadernetas dos escribas egípcios quanto as epopéias ou os textos jurídicos medievais. Mas, se os enunciados triviais são objeto de tanta atenção, é porque eles são raros, são documentos que testemunham algum estágio antigo da língua ou dos costumes de alguma civilização perdida. Nada disso ocorre com os analistas do discurso, que se dão como objeto a própria diversidade do discurso.

No século xVII, qualificava-se de “crítica” o estudo racional dos textos antigos e, em particular, a Bíblia: o texto sagrado era então tratado como um texto profano. Pode-se pensar aqui na Histoire critique du vieux Testament (1678), de Richard Simon. A sua maneira, a análise do discurso também tem força crítica: tomando-os como discurso, ela relaciona os textos tradicionalmente prestigiosos a suas condições de possibilidade.

Conclusão

Quando se pergunta o que pesquisam [cherchent] os analistas do discurso, pergunta-se naturalmente o que sua tarefa tem de específico. Mas não se poderia esquecer que a análise do discurso partilha também os interesses do conjunto das ciências humanas, às quais ela oferece um observatório privilegiado: através das instituições discursivas que torna possíveis e que a tornam possível, qualquer sociedade pode ser apreendida como uma certa regulação da palavra (produção, circulação, arquivamento). Estudar a emergência, o funcionamento ou as transformações de um gênero de discurso é abrir uma janela para os processos de construção das identidades e do sentido social.

A análise do discurso se situa em um lugar singular, na intersecção da linguagem, da sociedade e da psique. Poder-se-ia dizer que é uma disciplina “angélica”, que se desdobra no cruzamento do conjunto das ciências humanas e sociais e entre as palavras e as coisas. Mas o anjo, sabemos, é às vezes tentado a sair de seu papel auxiliar, a ocupar o lugar do Deus. Trata-se de uma ambivalência que mostra a duplicidade do termo “discurso”, que oscila entre valor empírico, quanto gira em torno da categoria do texto ou do agrupamento de textos (“os discursos”) e valor especulativo maiúsculo (“o Discurso), quando é o conjunto da sociedade que está submetido a sua ordem. Esta ambivalência é constitutiva dos estudos de discurso.

Referências

LACLAU, Ernesto & Chantal Mouffe. Hegemony and Socialist Strategy. Towards a Democratic Radical Politics (London: Verso). 1985.

FAIRCLOUGH, Norman. [1992]. Discurso e mudança social (Brasilia: Editora Universidade de Brasilia), trad. de Discourse and Social Change (Oxford, UK, & Cambridge, MA: Polity Press & Blackwell), 2001.

FOUCAULT, Michel. 1969. A arquelogia do saber. Trad. de Luiz Felipe Baeta Neves, 7 Edição, Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 2008.

PÊCHEUX, Michel. 1969. Análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Trad. Eni P. Orlandi (et all). 3 Ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1999.

Tradução: Sírio Possenti

Recebido em 12/11/2014 e Aceito em 30/03/2015.