Resumo

Este estudo tem por objetivo compreender o processo de acomodação dialetal de africanos lusófonos residentes em João Pessoa (Paraíba), com base na Teoria da Acomodação da Comunicação (Giles et al., 1987) e nos aportes teórico-metodológicos da Teoria da Variação Linguística (Labov, 1972). O fenômeno fonológico que nos permitiu verificar os efeitos da acomodação foi a realização da lateral pós-vocálica, pelo fato de que esse segmento marca claramente a diferença entre os dialetos em estudo. A vocalização da lateral é característica da variedade brasileira, enquanto que a manutenção da lateral é característica do português de Cabo Verde e da Guiné-Bissau (países cujos informantes foram observados neste estudo). O corpus foi constituído por 7 informantes entre 20 e 30 anos, provenientes da Guiné- Bissau e Cabo Verde, e residentes na cidade de João Pessoa. Os dados coletados, a partir de entrevistas, foram submetidos a um tratamento estatístico através do Goldvarb X (Sankoff; Tagliamonte; Smith, 2005) e, em seguida, analisados quantitativamente. Além disso, investigamos as atitudes linguísticas que os informantes apresentaram com relação ao dialeto de origem e estrangeiro, bem como o grau de identificação cultural com relação à cultura de origem e nova. Os resultados revelaram que as variáveis país de origem e tempo de exposição foram as mais relevantes estatisticamente. Concluímos que há um processo de acomodação entre os indivíduos investigados, verificado em quase um terço da totalidade de ocorrências. 

Introdução

Embora as pesquisas sobre contato linguístico no Brasil sejam numerosas, a maior parte desses estudos se dá com base no português fronteiriço ou entre o português e línguas europeias trazidas para o país com os imigrantes. Ainda há certa escassez de trabalhos no que se refere ao contato linguístico do português brasileiro (PB) com outras variedades de português, sobretudo as variedades faladas no continente africano. Foi precisamente a partir dessa lacuna, e também diante do visível aumento do número de estudantes africanos nas universidades brasileiras, que surgiu nosso interesse no estudo do contato linguístico entre o PB e o português falado em países lusófonos da África.

Nesse sentido, elegemos um fenômeno fonológico que marcasse claramente a diferença entre essas variedades, de modo que pudéssemos perceber quantitativamente o impacto do contato dialetal na forma que os migrantes falam. O fenômeno escolhido para este estudo foi a lateral em posição de coda silábica, que é produzida de maneira vocalizada no PB, como em [aw’mosu]1 (almoço), e de maneira velarizada na variedade de português dos africanos, como em [ał’mosu], se configurando em um forte ponto de divergência entre os dois falares. Tanto no português falado na Guiné-Bissau quanto no português falado em Cabo Verde, esse fonema é realizado de forma velarizada [ł], ao passo que no PB, temos um processo de vocalização [w] que resulta em uma sílaba com ditongo. Além dessas possibilidades, há ainda uma terceira realização para o fonema que, embora menos comum nas variedades da língua portuguesa em questão, também foi levada em conta neste trabalho: o apagamento [Ø].

Para empreender a pesquisa, selecionamos informantes de dois países africanos: Cabo Verde e Guiné-Bissau. Em ambos os países a língua oficial é a portuguesa, no entanto, fala-se cotidianamente o crioulo cabo-verdiano e o crioulo guineense, respectivamente. Destacamos, no entanto, que a variedade da língua portuguesa falada pelos africanos se assemelha a do português europeu (PE).

Com relação ao embasamento teórico, partimos de estudos anteriores sobre contato dialetal, baseando-nos especialmente em Trudgill (1986). Segundo o autor, uma das causas que provocam variação e mudança linguística é o contato entre os dialetos. O autor afirma que dialetos diferentes, quando em contato, provocam efeitos/interferência uns nos outros, ocorrendo transferência de alguns itens. Uma possível explicação para descrever esse processo de variação é a teoria da acomodação, elaborada por Giles et al. (1991).

Os primórdios da Teoria da Acomodação da Comunicação surgem a partir das primeiras publicações de Giles (1973) a respeito do que ele denominou de “Teoria da Acomodação da Fala”. Nesse trabalho seminal, Giles critica alguns aspectos do paradigma laboviano, argumentando que o papel da formalidade-informalidade do contexto e o critério de “atenção à fala” (associados por Labov ao prestígio dos estilos de fala) poderiam ser interpretados como processos de acomodação interpessoal (cf. giles et al., 1991). Giles foca sua atenção para os fatores que estão envolvidos no processo de acomodação dialetal e para a influência de falantes sobre outros, fato que se exterioriza através do comportamento linguístico. Em outras palavras, a teoria propunha que a explicação através da “formalidade-informalidade do contexto” poderia ser substituída por uma interpretação em termos de influência interpessoal, através da convergência linguística de um falante.

Em sua gênese, a teoria proposta por Giles tinha um foco sócio-psicológico, embora ela não tenha se restringido apenas a esse campo de estudo. Como afirma o autor (1973), ao longo de doze anos, a teoria se desenvolveu, levando em consideração os fenômenos relacionados aos processos de interação comunicativa. Assim, num segundo momento, a Teoria da Acomodação da Fala passou por uma releitura por parte de seus teóricos, numa perspectiva mais interdisciplinar, explorando aspectos linguísticos mais amplos, como as dimensões discursivas da interação social e fenômenos não verbais da língua. Surge, então, a Teoria da Acomodação da Comunicação, a partir do trabalho de Giles et al. (1987).

De acordo com essa nova perspectiva, o indivíduo, com o objetivo de alcançar uma aceitação social, converge a sua maneira de falar ao de seu interlocutor, processo denominado pelo autores de “convergência”. Esse fenômeno se concretizaria a partir da adaptação de comportamentos linguísticos e extralinguísticos por parte do falante. Por outro lado, se o indivíduo evita uma aproximação do interlocutor, ele tende a realçar as diferenças dialetais que os separam, processo denominado pela teoria de “divergência”. Para os autores, a acomodação ocorrerá a depender das necessidades do falante. A teoria volta-se para as investigações de atitudes, motivações e estratégias usadas pelos indivíduos com o objetivo de atingir uma integração social e/ou preservar a identidade do grupo.

Para a concretização desta pesquisa, utilizamos também os métodos próprios da Teoria da Variação Linguística, proposta por Labov (2008 [1972]). Segundo essa teoria, a variação não ocorre por acaso, de maneira caótica. Ela é sistemática e motivada por fatores linguísticos e sociais. No âmbito desta pesquisa, procuramos perceber o impacto de variáveis sociais e linguísticas no processo de acomodação dialetal vivido pelos africanos em estudo.

O objetivo da pesquisa foi o de investigar se os guineenses e cabo- verdianos residentes em João Pessoa (Paraíba) apresentam indícios de acomodação linguística ao dialeto pessoense no que se refere à lateral em posição de coda silábica, bem como identificar os fatores sociais e linguísticos que favorecem essa acomodação. Para atingir nosso objetivo, propusemos algumas questões norteadoras: 1) existe um processo de acomodação dialetal entre os guineenses e cabo-verdianos que estão na Paraíba? 2) Se sim, em que estágio se encontra esse processo? 3) quais aspectos sociais relacionados aos falantes podem impactar na acomodação? 4) quais fatores linguísticos podem favorecer a vocalização da lateral pós-vocálica?

1. Contexto histórico-linguístico da Guiné-Bissau e Cabo Verde

A língua oficial de Cabo Verde é o português, no entanto, o crioulo cabo-verdiano é a língua materna da maior parte da população, representando o papel de língua de identidade nacional. De acordo com o censo de 2010, a população cabo-verdiana era de 496.000 habitantes, dentre os quais 492.000 (99,2%) são falantes do crioulo, ao passo que a população falante do português como língua materna em Cabo Verde é insignificante, praticamente restrita aos estrangeiros que habitam o país, em sua maioria portugueses e brasileiros (Lewis et al., 2013).

Somente através da história de Cabo Verde pode-se compreender a realidade linguística atualmente encontrada no país; passearemos, portanto, brevemente por esta história que começou em 1456, com a descoberta do arquipélago pelos europeus. Quando os navegadores portugueses atracaram nas ilhas cabo verdianas, encontraram uma região completamente desabitada, o que leva a crer, portanto, que Cabo Verde foi, de fato, descoberta pelos portugueses. As ilhas do arquipélago são de origem vulcânica, não apresentam solo de qualidade para agricultura e o clima é do tipo desértico. Além disso, o arquipélago situa-se entre os três continentes componentes do comércio de escravos: Europa, África e América. As más condições para a agricultura, juntamente com a localização geográfica privilegiada para a movimentação de navios, contribuíram para que Portugal elegesse Cabo Verde como ponto de apoio para a comercialização de escravos. Assim, a povoação do país se deu com africanos de diferentes etnias vindos da África continental para serem escravizados e portugueses que trabalhavam nesse comércio, resultando uma população miscigenada em sua maioria. Segundo Holm (1989), a população cabo verdiana é composta 28% por africanos, 1% por europeus e 71% miscigenada. O aumento da ocupação portuguesa na segunda metade do século XVII nas ilhas, somado ao enfraquecimento da identidade cultural dos africanos levados à Cabo Verde, devido à ruptura forçada com suas etnias originárias, levou a um fortalecimento da cultura e da língua portuguesa em Cabo Verde maior do que o que aconteceu em Guiné-Bissau.

Segundo Dias (2002), a diversidade linguística do país, resultante do encontro dos vários dialetos africanos e do PE, dificultava a comunicação necessária ao povo da ilha, tanto entre portugueses e africanos quanto entre os africanos entre si. Nesse contexto, surgiu o crioulo de base lexical portuguesa conhecido como crioulo cabo-verdiano. Não se sabe ao certo como se deu a formação dessa língua, sabe-se apenas que as línguas que o originaram foram os dialetos africanos e o Pe. Dias (2002) afirma ainda que o crioulo é a língua da oralidade, das famílias e das tradições africanas remanescentes no país. Apesar da penetração quase total do crioulo nas ilhas, a ele ainda não foi atribuído o status de língua oficial do país.

A referida autora afirma ainda que o português, além de oficial, é considerado o idioma internacional, que possibilita a interação de Cabo Verde com os outros países do mundo. Internamente, é utilizado em contextos específicos bem delimitados, como o ensino, a literatura escrita, a justiça, algumas instituições oficiais, e na maior parte da programação da televisão e do rádio. Na literatura, observa-se que há aquela que é escrita em língua portuguesa, consumida pela elite alfabetizada do país2, e que representa a modernidade; e há também a literatura oral, em crioulo, consumida pela massa cabo-verdiana, em sua maioria analfabeta ou semianalfabeta, e representativa das tradições africanas. Como o acesso à escola é restrito à elite cabo-verdiana, pode-se dizer que a literatura escrita do país não atinge a maioria da população, caracterizando-se por ter um baixo índice de penetração. No ensino, ressalta-se que a educação formal é dada em língua portuguesa, não havendo, inclusive, livros didáticos em crioulo.

A Guiné-Bissau apresenta uma grande diversidade linguística, onde coexistem a língua portuguesa, o crioulo guineense e ainda cerca de vinte dialetos africanos. Assim como em Cabo Verde, para se compreender o caldeirão linguístico vivido na Guiné-Bissau, é preciso discorrer brevemente sobre a história do país e a formação de sua nação independente.

A história da República da Guiné-Bissau se diferencia da história de Cabo Verde especialmente pelo fato de ser uma região já habitada à época da chegada dos portugueses. De acordo com HOLM (1989), a invasão portuguesa ocorreu em 1456, e, em 1462, seis anos depois, o território guineense foi formalmente concedido ao lorde feudal de São Tiago, das ilhas cabo verdianas, para que administrasse a circulação dos escravos.

A Guiné-Bissau foi durante 500 anos colônia de Portugal, tendo sido o primeiro país lusófono do continente africano a conquistar a independência, ocorrida em 24 de setembro de 1973. A atual República da Guiné-Bissau está dividida administrativamente em oito regiões e um setor autônomo, a capital Bissau. Cada uma dessas regiões, por sua vez, está dividida em setores, 36 no total. Os setores são formados por tabancas (aldeias africanas). Há mais de vinte etnias e vinte dialetos diferentes distribuídos em todo o país. Para se ter uma ideia da diversidade linguística encontrada em Guiné-Bissau, Intumbo (2008) revela que a cada 40km ou 50km de estrada se encontra uma realidade étnico-linguística diferente.

De acordo com Embaló (2008), apenas 13% da população fala a língua portuguesa, sendo pouco expressiva a parcela da população que a tem como língua materna. Apesar disso, é o idioma oficial, utilizado em contextos formais como escolas, instituições oficiais, jornais, na política, etc. No cotidiano, a língua utilizada é o crioulo guineense, que se expandiu com a luta para a independência e a formação da nação, permitindo a comunicação entre os mais de vinte grupos de diferentes etnias e dialetos. Assim como em Cabo Verde, Guiné-Bissau vive a dificuldade da alfabetização em segunda língua. Essa dificuldade é ainda maior em Guiné-Bissau, uma vez que a administração colonial portuguesa nunca se preocupou com a construção de escolas no país.

Como visto acima, mesmo sendo a língua portuguesa o idioma oficial dos dois países, apenas uma pequena parcela da população a domina. Este idioma é utilizado em situações formais, como em escolas e universidades, instituições oficiais, na literatura escrita, em jornais, na justiça e na política. Os crioulos guineense e cabo-verdiano, por outro lado, ficam reservados para as conversas informais entre amigos e familiares, o que caracteriza um fenômeno diglóssico.

Em linhas gerais, parafraseando Fernández (1998), diglossia é uma situação linguística onde duas variedades coexistem e a cada uma delas é reservada uma função específica na comunidade de fala. Um rótulo H ou L é atribuído a cada uma dessas variedades, sendo H para a variedade superposta ‘high’/‘alta’, e L para a variedade regional ‘low’/‘baixa’. Em regra, H desfruta de maior prestígio e é utilizada em contextos mais formais, como tribunais, legislação, literatura escrita, instituições oficiais, etc.; ao passo que L é a variedade dotada de menor prestígio, sendo utilizado mais coloquialmente, nas mais diversas situações do cotidiano e na cultura em geral. Em Cabo Verde, a língua portuguesa é H e o crioulo cabo-verdiano de base portuguesa é L. A Guiné-Bissau se assemelha a Cabo Verde, mas apresenta uma especificidade a mais. Além da diglossia entre a língua portuguesa (H) e o crioulo guineense (L), também de base portuguesa; há outra diglossia sobreposta (ou triglossia) entre os dialetos africanos (L) e o crioulo guineense (H), conforme explicado por Intumbo (2008), e resumidamente demonstrado no quadro esquemático a seguir:

Table 1.

QUADRO 1: Diglossias em Cabo Verde e Guiné-Bissau

Cabo Verde H Português
L Crioulo cabo-verdiano
Guiné-Bissau H Português
L Crioulo guineense
H Crioulo guineense
L Dialetos africanos

2. A lateral pós-vocálica no PB

De acordo com Pinho & Margotti (2010), no PB, em grande parte do território nacional, a lateral em posição de coda silábica é realizada de forma vocalizada. Desse modo, palavras como mau e mal e viu e vil têm a mesma pronúncia As variedades da língua portuguesa falada na Guiné- Bissau e em Cabo Verde se assemelham ao PE, que, em se tratando da lateral pós-vocálica, possui o som de uma lateral velarizada [ł], como explica MATEUS (2006). Desse modo, pode-se dizer que a pronúncia da lateral em situação de coda silábica é um forte traço diferenciador do PB e do português falado em Cabo Verde e na Guiné-Bissau.

Ainda de acordo com Pinho & Margotti (2010), na maior parte do país, a variante predominante é [w]; em certas regiões do sul, no entanto, há o predomínio da lateral velarizada [ł]. Há ainda os casos de apagamento, que ocorrem principalmente após a vogal [u], e, mais raramente, após a vogal [o]. O processo de vocalização da lateral em coda silábica não é um fenômeno exclusivo da língua portuguesa. É possível observar esse mesmo fenômeno no latim vulgar, e em línguas modernas como o francês e o inglês.

Pinho & Margotti (2010) realizaram um levantamento das pesquisas desenvolvidas no Brasil que investigaram a variação da lateral pós- vocálica. Tomaremos esse trabalho como guia para apresentarmos a seguir um panorama das pesquisas sobre o fenômeno no Brasil. O estudo de Dal Mago (1998) constatou que fatores extralinguísticos influenciam mais a vocalização da lateral do que fatores linguísticos, destacando-se dentre eles as variáveis escolaridade, idade e fator geográfico. Dentre os fatores linguísticos, a autora destacou a tonicidade, o tamanho da palavra e o contexto anterior.

Quednau (1993) comparou a variação da lateral em quatro cidades do Rio Grande do Sul, cada uma com uma influência étnica diferente. Percebeu que os metropolitanos vocalizavam mais que os outros grupos étnicos analisados, quais sejam alemães, italianos e fronteiriços, o que levou a crer que o processo se inicia na capital e é, aos poucos, reproduzido nas cidades do interior. A mesma autora alertou para a relevância da variável idade na evolução do fonema, confirmando o que afirma Dal Mago (1998), que a vocalização é mais significativa nos mais jovens.

Hora (2006) também investigou a lateral e constatou que a vocalização apareceu em 84% dos casos que analisou. O autor percebeu ainda que a posição na palavra em que a lateral pós-vocálica aparece influencia a sua produção, sendo a variante aspirada [h] mais frequente no interior da palavra e o zero fonético [Ø] no final da palavra. Com relação aos fatores extralinguísticos, Hora observou que a idade se mostra relevante no processo de vocalização, porém o sexo não. Com relação ao fator idade, o autor chegou às mesmas conclusões que Quednau (1993), apontando que a vocalização é maior entre falantes mais jovens. O autor também percebeu que a vogal [u] antes da lateral favorece o apagamento. Observou também que o apagamento é mais comum nos grupos menos escolarizados, seja qual for a vogal precedente.

Além dos trabalhos mencionados acima, Pinho & Margotti (2010) mencionam ainda uma grande pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal da Bahia, com o apoio de outras instituições de nível superior, na qual foram analisadas as falas de informantes de todas as capitais do Brasil, a fim de construir-se o Atlas Linguístico do Brasil (ALiB). De acordo com os resultados obtidos nessa investigação, temos que, de fato, a vocalização predomina no PB, representando um total de 88% dos casos. Constatou-se ainda que quanto mais ao sul do país, maiores são as chances de aparecer a lateral plena [l] ou velarizada [ł]. Essas ocorrências, no entanto, só foram encontradas em falantes mais velhos, sinalizando mais uma vez um processo de mudança em progresso. Os casos de apagamento foram verificados com maior frequência nas regiões nordeste e norte, com 13% e 5% dos casos, respectivamente. Com relação à influência dos fatores linguísticos, os autores descobriram que as vogais [o], [c] e [u] favorecem o apagamento da lateral.

3. Procedimentos metodológicos

O corpus utilizado nesta pesquisa foi constituído por 7 informantes entre 20 e 30 anos, provenientes da Guiné-Bissau e Cabo Verde, e residentes na cidade de João Pessoa (Paraíba). Todos eles participam ou participaram do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), no qual estudantes de outros países têm a oportunidade de cursar gratuitamente uma graduação no Brasil, devendo apenas custear suas despesas de manutenção.

O acesso inicial à comunidade africana se deu através de uma moradora do bairro dos Bancários, que tinha contato com um africano proveniente do Congo, em decorrência de relações cordiais estabelecidas na própria vizinhança. Por meio dele, obtivemos acesso ao primeiro informante lusófono, e, posteriormente, através de uma rede de indicações que se seguiram, chegamos ao grupo participante desta pesquisa.

A coleta de dados se deu através de entrevistas orais gravadas com auxílio de um gravador digital Sony IC RECORDER ICD-BX800, e foram divididas em quatro etapas:

1) “Entrevista” sociolinguística nos moldes labovianos: seguimos um roteiro pré-planejado, baseado em TAGLIAMONTE (2008), e adaptado à realidade dos entrevistados. O roteiro foi dividido em cinco módulos: Pessoal; Cultura Africana x Cultura Brasileira; Viagens; Futuro/Sonhos; e Risco de Morte. Esta etapa da entrevista teve duração média de 30 minutos.

2) “Entrevista” módulo língua: apresenta-se como uma continuação da etapa anterior; ou seja, não há marcação expressa para seu início, de modo que continuamos com a entrevista, porém, direcionando agora as perguntas para o tema língua. Aqui, os informantes deveriam comentar sobre suas percepções acerca das diversas variedades da língua portuguesa com as quais tem contato, além de elaborar breves apreciações sobre sua própria maneira de falar. Esta etapa teve duração média de 10 minutos.

3) Leitura de textos: apresentamos aos informantes pequenos textos postos em uma apresentação de Power Point e pedimos-lhes que lessem em voz alta. Os textos apresentavam 45 palavras contendo a lateral pós-vocálica em diferentes contextos linguísticos.

4) Lista de palavras: ainda em apresentação de Power Point, extraímos dos textos da etapa anterior todas as palavras com laterais pós- vocálicas, adicionamos algumas palavras distratoras, e as apresentamos isoladamente em slides para leitura. Esta etapa marca o fim da entrevista, e, junto com a etapa anterior, durou entre 5 e 10 minutos, totalizando cerca de 60 minutos para finalizar o encontro com o informante.

As entrevistas foram realizadas em sua maioria na Universidade Federal da Paraíba ou na residência dos informantes.

Foram controladas as seguintes variáveis independentes:

a) Estilo: de acordo com Labov (2008 [1972]), a variável estilo é controlada de acordo com o grau de monitoramento prestado à fala, que varia da fala casual à fala monitorada. A fala casual é aquela encontrada em situações informais do cotidiano, aparecendo em conversas entre familiares e amigos, onde o falante geralmente apresenta o mais baixo nível de monitoramento à fala. Nesta pesquisa, controlamos os níveis de monitoramento e a sua correlação com a variação linguística estudada através da variável estilo. Adotamos os critérios utilizados por LABOV (2008 [1972]) para isolar diferentes estilos de acordo com diferentes contextos. Assim, o corpus se divide em a) entrevista; b) leitura de textos; c) lista de palavras.

b) Tempo de exposição: em diversas pesquisas sobre dialetos em contato, tais como as de Marques (2006), Martins (2008) e Chacon (2012), o tempo ao qual os informantes foram expostos ao novo dialeto foi relevante no grau de acomodação do fenômeno avaliado. Quanto maior o tempo de exposição, maior a convergência ao novo dialeto. Assim, controlamos esta variável da seguinte forma: a) menos de 3 anos; b) entre 3 e 8 anos; c) a partir de 8 anos de exposição.

c) País de origem: Cabo Verde e a Guiné Bissau, apesar de formarem sozinhos o grupo linguístico conhecido como crioulo da Alta Guiné, apresentam diferenças marcantes entre si. O crioulo cabo verdiano, por não sofrer tanta influência dos dialetos africanos quanto o crioulo guineense, acaba se aproximando mais da língua portuguesa. Além disso, devido às próprias formações históricas dos dois países, a Guiné-Bissau preservou de maneira mais contundente as tradições africanas, o que implicou em uma identificação maior da população com a sua cultura de origem, diferentemente do que ocorre em Cabo Verde, onde, de acordo com Lewis et al. (2013), a maior parte da população reside fora do país. Tais questões de identidade cultural podem favorecer ou não a acomodação linguística para outro dialeto.

d) Tonicidade: de acordo com Martins (2008), a tonicidade da sílaba que contém a variável dependente pode ser um relevante fator que induz a acomodação ou não. Desta forma, controlamos esta variável independente subdividindo-a em três categorias: a) lateral em posição pretônica (ex: alguém, calçada); lateral em posição tônica (ex.: bolsa, cálculo); e c) lateral em posição postônica (ex.: fácil, álcool).

e) Posição na palavra: assim como Martins (2008), consideramos relevante analisar o impacto da variável posição na palavra na acomodação da lateral em estudo. Para isso, controlamos se a variável dependente aparecia na sílaba inicial, medial ou final da palavra, de modo que pudemos quantificar em quais dessas aparições o processo de acomodação se mostrou mais frequente. Além disso, adicionamos a categoria especial monossílabo, tendo em vista que a sílaba da palavra monossílaba é ao mesmo tempo inicial e final.

f) Contexto fonológico anterior: norteados pelo trabalho de Hahn & Quednau (2007), optamos por controlar o contexto fonológico anterior, tendo em vista que esta foi a variável selecionada pelo programa como sendo a mais relevante na pesquisa realizada pelas pesquisadoras, que analisou a variação da lateral pós-vocálica em Londrina (Paraná). Dividimos esta variável em grandes grupos de fonemas: 1) vogal central (ex.: ‘almôndega’, ‘sal’); 2) vogal média aberta (ex.: ‘papel’, ‘pólvora’); 3) vogal /u/ (ex.: ‘azul’, ‘cultura’; 4) vogal /i/ (ex.: ‘mil’, ‘difícil’).

g) Contexto fonológico seguinte: mais uma vez baseados em Hahn & Quednau (2007), controlamos a variável contexto fonológico seguinte. Assim como na variável descrita acima, dividimos esta nova variável em cinco categorias: 1) labial após a lateral (ex.: ‘calma’, ‘culpado’); 2) coronal após a lateral (ex.: ‘solto’, ‘falso’); 3) dorsal após a lateral (ex.: ‘palco’, ‘alguém’); 4) vogal após a lateral (ex.: ‘canal estreito’, ‘ramal ocupado’); 1) pausa após a lateral.

h) Extensão do vocábulo: ainda com base na pesquisa realizada por Martins (2008), optamos por controlar a variável extensão do vocábulo. Assim, controlamos: 1) monossílabos; 2) dissílabos; 3) trissílabos; 4) polissílabos.

Para a análise quantitativa dos dados, utilizamos o software Goldvarb X (Sankoff; Tagliamonte; Smith, 2005), utilizado em pesquisas variacionistas. Além das variáveis independentes apresentadas, identificamos cada informante com um código, para fazermos o tratamento estatístico de cada um separadamente, o que possibilitou uma análise centrada no indivíduo. Isso nos possibilitou o início de uma análise qualitativa que permitiu examinar as questões de atitudes linguísticas que influenciam na acomodação.

4. Análise e discussão dos dados

Obtivemos no total 1184 ocorrências da lateral pós-vocálica, distribuídas nas seguintes proporções:

Table 2.

TABELA 1: Resultado geral de ocorrências da lateral pós-vocálica

Variável dependente Apl./Total %
Manutenção do [ł] 754/1184 64
Vocalização [w] 351/1184 29
Apagamento [Ø] 79/1184 7

Como é possível visualizar na Tabela 1, entre os falantes entrevistados predomina o uso da lateral velarizada, correspondendo a 64% dos casos (754 ocorrências). Apesar dessa predominância, podemos observar que há também uma utilização considerável da variante vocalizada, representada em 29% das situações (351 ocorrências). Apenas os casos de apagamento se mostraram pouco expressivos entre os falantes. Esses dados gerais podem indicar a ocorrência de um processo de acomodação em andamento, tendo em vista que, mesmo sendo a lateral velarizada a forma de produção predominante nas variedades africanas em questão, quase um terço do total de laterais pós-vocálicas produzidas pelos entrevistados foram realizadas à maneira do PB.

Para avaliarmos a influência das variáveis independentes no processo de acomodação, fizemos, inicialmente, três rodadas de dados escolhendo um valor de aplicação diferente para cada uma, uma vez que consideramos três possíveis variantes para o fenômeno estudado (variável dependente). Na primeira rodada, obtivemos os dados referentes à aplicação de [w], em seguida os dados referentes à aplicação de [ł], e, por fim, alcançamos os dados referentes à aplicação do caso de apagamento [Ø]. Nessa última rodada, o programa selecionou apenas quatro variáveis: posição na palavra, país de origem, contexto fonológico seguinte e tonicidade, nesta ordem.

Nas duas rodadas com valores de aplicação [w] e [ł], a variável extensão do vocábulo foi a única descartada pelo programa, ou seja, sua influência não foi considerada relevante na produção de [w] nem na manutenção de [ł]. As variáveis “país de origem” e “tempo de exposição”, nessa ordem, foram consideradas as mais relevantes para o fenômeno em ambas as rodadas. Por limitações de espaço, teceremos comentários, neste artigo, apenas sobre essas duas variáveis mais relevantes do ponto de vista estatístico.

4.1 País de origem

Mostramos abaixo a distribuição dos casos de vocalização da lateral pós-vocálica entre os falantes dos dois países.

Table 3.

TABELA 2: Influência da variável país de origem na vocalização [w] da lateral

País de origem Apl./Total % P.R.
Cabo Verde 247/518 47,7 0,842
Guiné-Bissau 104/666 15,6 0,214

Observando a Tabela 2, fica evidente que a acomodação para o dialeto pessoense ocorre em maior escala entre os entrevistados provenientes de Cabo Verde do que entre os entrevistados da Guiné- Bissau. A proporção é 0,842 de acomodação entre os cabo-verdianos, contra apenas 0,214 entre os guineenses. Uma possível explicação para este dado tão contrastante diz respeito à formação histórica dessas duas nações, e às decorrentes relações de identificação e pertencimento com as quais estes informantes se relacionam com seus países de origem. Conforme já mencionado, a nação cabo-verdiana, desde a sua formação, foi marcada por rupturas e hibridizações de culturas, tendo em vista ter sido formada por diversas etnias da África continental e por colonizadores portugueses.

Além disso, ou justamente como uma das consequências disso, a maior parte da população cabo-verdiana vive fora do país (Lewis e at., 2013). Essa população altamente miscigenada, menos enraizada nas suas origens, devido ao próprio processo de colonização, pode apresentar uma maior adaptabilidade a novas culturas, refletida nitidamente na língua que falam. Por outro lado, a atitude de resistência à dominação portuguesa outrora vivida pela Guiné-Bissau, fortaleceu a identidade nacional e parece ainda estar presente entre os jovens guineenses, refletida na resistência linguística que apresentam ao entrarem em contato com um novo dialeto.

Complementando a análise referente à Tabela 2, a Tabela 3, a seguir, demonstra a influência da mesma variável país de origem, porém, agora, na realização na lateral velarizada em situação de coda silábica.

Table 4.

TABELA 3: Influência da variável país de origem na manutenção da lateral velarizada

País de origem Apl./Total % P.R.
Cabo Verde 255/518 49,2 0,273
Guiné-Bissau 499/666 74,9 0,682
Input: 0,678 Significância: 0,036

Observamos nessa tabela que os guineenses mantiveram a lateral velarizada com um peso relativo 0,682 (74,9% dos casos), contra 0,214 de vocalização apresentados anteriormente. Percebemos no conjunto desses dados, de fato, um processo de acomodação sutil entre o grupo de Guiné-Bissau, especialmente quando comparado ao grupo de Cabo Verde. Os cabo-verdianos, por sua vez, produziram laterais velarizadas em um número bem menos expressivo, peso relativo de 0,273 (49,2% dos casos) contra 0,842 de vocalização. Com essa comparação, podemos confirmar que há entre os cabo-verdianos um processo de acomodação muito mais evidente do que entre os guineenses.

Contemplando os resultados acima, e observando a coluna que indica a frequência absoluta de ocorrências do fenômeno, questionamo- nos sobre a possibilidade da variável tempo de exposição estar exercendo algum tipo de influência sobre ela. Esta foi a segunda variável mais importante selecionada pelo programa tanto na aplicação do [w] quanto do [ł]. Para sanarmos a dúvida, procuramos estabelecer um paralelo das duas variáveis com o número de informantes, como demonstrado a seguir:

Table 5.

QUADRO 2: Mapeamento das variáveis país de origem, tempo de exposição e número de informantes

País de origem Tempo de exposição Nº de informantes
Cabo Verde Menor que 3 anos 1
Entre 3 e 8 anos 2
Maior que 8 anos -
Guiné-Bissau Menor que 3 anos 1
Entre 3 e 8 anos 1
Maior que 8 anos 2

Percebemos com o cruzamento de informações do Quadro 2 que, se o tempo ao qual os informantes estão expostos ao novo dialeto estivesse de fato influenciando os dados referentes à análise da variável país de origem, o resultado teria sido exatamente o inverso, tendo em vista que os informantes cabo-verdianos (os que mais acomodaram), de um modo geral, estão sujeitos a um tempo de exposição menor que os informantes guineenses. Com efeito, os únicos informantes com tempo de exposição ao novo dialeto maior que oito anos são provenientes da Guiné-Bissau, e, ainda assim, compõem um grupo cujo percentual de acomodação foi de apenas 15,6%.

Não podemos deixar de mencionar que essa variável foi também uma das poucas selecionadas na rodada referente ao apagamento, ficando em segundo lugar na ordem de relevância dada pelo programa. Segue a tabela que resultou da rodada.

Table 6.

TABELA 4: Influência da variável país de origem no apagamento ([Ø])

País de origem Apl./Total % P.R.
Cabo Verde 16/518 3,1 0,317
Guiné-Bissau 63/666 9,5 0,645
Input: 0,036 Significância: 0,029

Observando essa tabela, podemos perceber que há uma tendência dos falantes guineenses a apagarem a lateral mais do que os falantes cabo-verdianos. A proporção foi de 0,645 de peso relativo para os guineenses (9,5%), contra 0,317 de peso relativo para os cabo-verdianos (3,1%). Esse dado acaba sendo interessante se levarmos em conta que os guineenses foram os que demonstraram ter maior resistência a convergir dialetalmente. O caso de apagamento não marca a identidade linguística da variedade da língua portuguesa brasileira (PB), tampouco da guineense ou cabo-verdiana. Talvez, então, se trate de um posicionamento sutil dos falantes na tentativa de marcar uma postura que não demonstre uma abertura irrestrita para absorver os traços do dialeto estrangeiro, mas também que não evidencie uma barreira cultural no sentido de evitar qualquer tipo de interferência linguística/miscigenação. Ressaltamos que esta interpretação não pretende, de forma alguma, ser conclusiva a respeito da questão, até mesmo devido à pequena quantidade de dados de que dispomos; desejamos, na verdade, levantar questões que digam respeito a marcas sutis, e ao mesmo tempo tão carregadas de significado, de como os indivíduos, especialmente os migrantes, se relacionam com sua cultura de origem e nova. Consideramos este tema muito relevante para nossa época, e acreditamos que seja esta discussão a contribuição mais significativa deste trabalho para a sociolinguística.

Diante da importância da discussão levantada, achamos oportuno avaliarmos também aspectos qualitativos acerca da atitude dos informantes com relação aos seus países de origem e o Brasil. Para isso, destacamos trechos das entrevistas que fizessem tais referências, e fizemos uma comparação com os dados obtidos na última rodada, com a variável informante inserida. Os dados desta última rodada são apresentados na Tabela 5 e indicam o grau de acomodação dialetal por informante.

Table 7.

TABELA 5: Percentual de acomodação dialetal por informante

Informante Apl./Total %
1 48/161 29,8
2 46/185 24,9
3 153/172 89,0
4 7/166 4,2
5 73/181 40,3
6 8/152 5,3
7 16/167 9,6
Input: 0,206 Significância: 0,000

Complementando a Tabela 5, apresentamos também as características dos informantes que foram levadas em conta nesta pesquisa.

Table 8.

QUADRO 3: Características dos informantes

Informante País de origem Tempo de exposição
1 Cabo Verde 05 anos
2 Cabo Verde 08 meses
3 Cabo Verde 05 anos
4 Guiné-Bissau 01 ano
5 Guiné-Bissau 08 anos
6 Guiné-Bissau 06 anos
7 Guiné-Bissau 10 anos

O informante 3 é de Cabo Verde, e, à época da entrevista, residia em João Pessoa há cinco anos e dez meses. Foi o informante que apresentou o maior índice de acomodação dialetal, com 89%. Através da entrevista, pudemos perceber que ele faz uma boa avaliação a respeito do Brasil, demonstrando até mesmo desejo de permanecer aqui após seu período de estudos. Vale salientar que esse informante já terminou a graduação, mas optou por continuar no país fazendo uma especialização.

Não podemos nos esquecer de considerar a importância das relações interpessoais vividas individualmente por cada informante no processo de acomodação dialetal. Esse informante tem uma namorada brasileira e pretende casar-se com ela. Tais projetos de vida, juntamente com o contato mais próximo que ele passou a ter com o PB devido ao relacionamento, podem favorecer a convergência.

O informante demonstra ainda ter consciência das diferenças dialetais entre os dois países, e, mesmo afirmando que a variedade que aprendeu em Cabo Verde é a mais “correta”, ele acredita que existe uma variedade mais adequada para cada situação, dizendo claramente que no Brasil prefere a variedade do PB, porém em Cabo Verde prefere a variedade cabo-verdiana. Apresentamos abaixo o trecho da entrevista que surgiu após ser questionado se tinha alguma preferência entre os dois dialetos. Ele começa falando que gosta da variedade brasileira, porém prefere a do sul, e depois passa a comparar o PB com o cabo-verdiano.

(...) Aí eu acho que se perguntar assim: ‘tu prefere um ou outro? Qual?’ Aqui eu prefiro logo o... logicamente esse aqui, mas lá eu prefiro o outro. (Informante 3)

Ressaltamos que o informante 3 foi o único que considerou aspectos de adequação ao contexto em seus comentários. Os outros informantes, ao serem questionados sobre qual variedade preferiam, escolheram o PE, justificando a escolha com argumentos que envolvem pureza e correção linguística.

Por outro lado, analisando a entrevista do informante 4, guineense, e que apresentou o menor índice de acomodação dentre todos (4,2%), encontramos uma maior valorização da sua nação e cultura, manifestada também no forte desejo de retornar ao país, levando consigo o aprendizado dos anos de estudo no Brasil, a fim de contribuir com o desenvolvimento da sua nação de origem. Esse informante estava no Brasil há apenas um ano, mas acreditamos que esse não tenha sido o único fator determinante para um índice de acomodação tão baixo, tendo em vista que o comparamos com o informante 2, cabo-verdiano, que estava no Brasil há apenas oito meses, e convergiu para o nosso dialeto em 24,9% das ocorrências. Mostramos a seguir dois trechos da entrevista do informante 4, em que menciona o desejo de retornar à Guiné-Bissau. O primeiro trecho refere-se ao momento em que foi perguntado onde gostaria de morar, e o segundo refere-se a quando foi perguntado como se imaginava daqui a vinte anos.

De preferência no meu país. Eu quero morar no meu país. Trabalhar no meu país. (Informante 4)

Talvez daqui a 20 anos... é o meu sonho, que eu sempre falo na brincadeira... É... daqui a 20 anos: presidente da República. Daqui a 20 anos presidente da República. Sempre eu falo isso, mesmo brincando, no colégio assim, eu falo assim.. tipo, nas apresentações: “ah, isso e isso e tudo, ah!, esqueci uma coisa: futuro presidente da República!” Mas é o meu sonho, que eu falo na brincadeira, as pessoas ficam brincando, mas é meu sonho. (Informante 4)

O informante 4, além de manifestar objetivamente o desejo de morar e trabalhar em seu país de origem, demonstra ter grandes planos para sua vida futura lá, pretendendo vir a ser, inclusive, presidente da República. Tal declaração revela interesse por parte do informante em dedicar parte de sua vida à gerência do país, constituindo-se em seu principal projeto de vida futuro. Além disso, imaginamos que um representante de Estado busque manter preservada e aparente a sua identidade nacional, para que provoque no povo o sentimento de representatividade esperado para tal função. Essas questões podem ter contribuído para o alto índice de resistência linguística que o informante apresenta para preservar sua variedade de origem.

Percebemos que surge na fala dos informantes indícios de alguma noção de que os cabo-verdianos são mais inclinados a acomodar-se à variedade brasileira quando comparados aos informantes guineenses. A fala do informante 6 apresentada logo abaixo é ilustrativa de tal percepção. O informante foi questionado, no final da entrevista, sobre se os amigos africanos haviam mudado a pronúncia da lateral pós-vocálica durante a residência no Brasil. Ouvimos a seguinte resposta:

Eu percebo isso.

Da Guiné também. Normalmente, guineense perde menos, mas muitos já tão perdendo.

(...)

Todos não. Porque tem, por exemplo, alguns cabo- verdianos pegam. E gostam de usar assim, muito mais abrasileirado. (Informante 6)

4.2 Tempo de exposição

Como já mencionamos, esta foi a segunda variável em grau de relevância que mais influenciou tanto a vocalização quanto a manutenção da lateral velarizada. Iniciaremos nossa análise apresentando numericamente a influência do tempo de exposição na vocalização da lateral, e, em seguida, a influência na manutenção da lateral velarizada.

Table 9.

TABELA 6: Influência da variável tempo de exposição na vocalização da lateral

Tempo de exposição Apl./Total % P.R.
Menor que 3 anos 53/351 15,1 0,183
Entre 3 e 8 anos 209/485 43,1 0,495
Maior que 8 anos 89/348 25,6 0,823
Input: 0,207 Significância: 0,008

Table 10.

TABELA 7: Influência da variável tempo de exposição na manutenção da lateral velarizada

Tempo de exposição Apl./Total % P.R.
Menor que 3 anos 274/351 78,1 0,741
Entre 3 e 8 anos 250/485 51,5 0,460
Maior que 8 anos 230/348 66,1 0,302
Input: 0,678 Significância: 0,036

Ao elaborarmos inicialmente uma hipótese referente à influência do tempo de exposição em um processo de acomodação dialetal, imaginávamos encontrar um contínuo em que quanto maior o tempo exposto ao novo dialeto, maiores seriam os índices de acomodação. Imaginávamos esta relação não apenas por intuição, mas também por respaldo empírico encontrado em outras pesquisas na área de acomodação dialetal, tais como Marques (2006), Martins (2008) e Chacon (2012). Ocorre que, na nossa investigação, não encontramos uma progressão perfeita nessa correlação de fatores. Conforme pode ser observado na Tabela 6, informantes expostos a menos que três anos ao novo dialeto, apresentaram 15,1% (peso relativo 0,183) de acomodação, ou seja, vocalizaram em 15,1% das situações. Os informantes com tempo de exposição intermediário, entre três e oito anos, apresentaram um índice de acomodação de 43,1% (peso relativo 0,495). Já os informantes com tempo de exposição maior que 8 anos, para a nossa surpresa, convergiram para o novo dialeto em 25,6% dos casos (peso relativo 0,823), ou seja, acomodaram menos do que os informantes com tempo de exposição menor encontrados na categoria intermediária.

Em busca de uma nova hipótese para esclarecer as estatísticas que geraram inquietação, procuramos novamente correlacionar a influência de outra variável a essa. Tendo em vista que o país de origem dos informantes foi a variável que mais afetou a variação da lateral pós- vocálica, partimos dela.

Table 11.

QUADRO 4: Correlação entre as variáveis tempo de exposição, país de origem e número de informantes

Tempo de exposição País de origem Nº de informantes
Menor que 3 anos Cabo Verde 1
Guiné-Bissau 1
Entre 3 e 8 anos Cabo Verde 2
Guiné-Bissau 1
Maior que 8 anos Cabo Verde -
Guiné-Bissau 2

Observamos no Quadro 4 que não dispomos de informantes oriundos de Cabo Verde com mais de oito anos de vivência na Paraíba. Como já foi demonstrado anteriormente, os guineenses são mais resistentes ao processo de acomodação. Por serem os únicos na categoria maior que oito anos, podem estar enviesando a progressão linear típica encontrada na variável tempo de exposição. É possível que em uma pesquisa onde fossem considerados apenas os informantes cabo-verdianos, ou que houvesse igualdade numérica entre os informantes cabo-verdianos e guineenses em cada categoria, a progressão linear de acomodação esperada fosse encontrada.

Gostaríamos de acrescentar que se observarmos apenas a primeira e a última linha da Tabela 6, podemos perceber que houve aumento no grau de convergência, que passou de 15,1% na categoria abaixo de três anos para 25,6% na categoria acima de oito anos, mesmo sendo esta última composta apenas por guineenses. Parece que, de fato, há influência dessa variável entre todos os informantes, embora ela se dê com intensidade diferente para cada nacionalidade.

Analisando as apreciações linguísticas dos informantes obtidas no Módulo Língua da entrevista, encontramos que a impressão geral que eles têm do PB é negativa.

Agora eu disse ‘aí...’ ‘aí...’ não tem lá em Cabo Verde, né? ‘Né’, tá vendo? São algumas coisas que sem querer eu já não consigo evitar isso, né? Mas é assim, não é que eu to, é... rebaixando o português de vocês, mas é assim: eu tento não usar esses {init}, porque eu sei que o português de Portugal é um português padrão, um português assim conhecido no mundo todo, diferente do português do Brasil, que é aqui no Brasil. (Informante 2)

Ham ram. Eu acho... acabo utilizando... agora eu nem sei avaliar o meu português. Se eu to falando um português de antes que eu falava, tipo um português que eu falava d’antes, que é um pouco puro, né? Tipo, português mais ligado ao de Portugal, e agora um português... eu não sei diferenciar agora. Sei não. (Informante 4)

Os trechos transcritos acima demonstram a força que o processo colonizador ainda exerce sobre os colonizados. A língua do colonizador é por eles considerada a modalidade superior e é referida como o padrão, a língua pura, a língua correta. Essa hierarquização é recorrente e aparece em quase todas as falas coletadas. Parece indicar uma naturalização da superioridade do colonizador e de sua cultura, em contraponto às modalidades culturais e linguísticas consideradas inferiores, híbridas, impuras.

A hierarquização linguística acima referida se repete no contexto de retorno ao país de origem quando o uso do PB, e não do crioulo, em situações do cotidiano, é interpretado como demonstração de superioridade, como indicam as falas seguintes:

Assim, como a gente aprendeu a nossa língua oficial é o português, assim, parecido com o português de Portugal, quando a gente chega lá, embora pode ter passado 5 anos, 2 anos, o tempo que for, se a gente chegar lá e começar a falar esse tipo de português que to falando agora, um pouquinho assim, brasileirado, aí o pessoal lá tem essa assim, ‘eita, tá querendo se mostrar’, ‘tá querendo, é.. mostrar que sabe falar bem direit.., falar é, brasileiro’, ‘esqueceu a língua, tá dando uma de doido, esqueceu a língua aqui’. É isso aí. (Informante 3)

Já. Eu chego lá, primeira coisa que eles acham, já você chegando do Brasil, é... já tá falando português do Brasil, né? Falando com eles, aí vai ficar falando português do Brasil. Que agora português do Brasil tá tendo muita influência já na Guiné por causa desses, da televisão, de outras coisas, aí você tá no Facebook, aí entrou um amigo, aí ‘Oi, cara’. Mesmo antes de ouvir falar ‘cara’ já existia, ‘oi, cara, beleza?, tudo joia?’ já existia, mas que é um português de Brasil. Que agora tá tendo muita influência na no português da Guiné. E no português da Guiné, como no dia a dia no crioulo também. É porque no crioulo existia ‘ya, tudo fish?’, que já é inglês, tá vendo? Mas agora tá existindo ‘beleza’, não sei o que, substituindo aquele parte de inglês que a gente tinha botado no crioulo. Aí substituindo a outra parte de português de Portugal também que a gente tinha botado no crioulo. (Informante 4)

A valorização do PB expressa nas falas acima pode indicar também uma referência ao contexto presente em que o Brasil vem despontando como país emergente em processo de crescimento econômico3 e de melhoria nos índices sociais enquanto o mundo europeu, incluindo Portugal, vem atravessando um período largo de crise e de índices expressivos de desemprego. Um dos entrevistados aponta inclusive à ampliação da influência cultural brasileira em países africanos, referindo- se à presença da televisão e da internet.

Encontramos na fala de um dos informantes uma comparação entre as línguas crioulas em seu país, Cabo Verde.

Eu acho, eu acho que tem, posso fazer assim, por ilha, eu acho que tem uma ilha que é a Ilha de São Vicente, que é a ilha do meu amigo que não tá aqui, que mora comigo, eu acho que ele, que a ilha dele fala um crioulo mais assim, muito mais bonito, muito mais ligado ao português e... e pra vocês mesmo que não sabem falar crioulo, vocês entendem esse esse crioulo muito mais rápido que, por exemplo, se fosse um crioulo da ilha dele (referência a outro colega que estava na sala) ou da minha ilha. Então, é... o crioulo da ilha dele vocês entendem muito mais rápido, é mais ligado ao português e é muito mais um crioulo mais suave, assim. Tem palavras mais mais ligadas ao português mais simples assim, ou seja, sofreu influências acredito europeias mais do que influências africanas, já nas outras ilhas como o meu, sofreu influências mais, em termos de língua, que foi influência mais africana de que europeu. (Informante 2)

Eu, até eles ficam tirando onda com meu crioulo aí, mas eu sei que esse crioulo é meu, eu tenho que defender, mas sem querer também eu reconheço em outra parte, não posso ser tão como... digamos assim, obcecado só pelo que é meu e achando que o meu é sempre o verdadeiro, não. Tenho que ver outra parte também, outro lado. O crioulo dele é um crioulo mais bonito mesmo, até na maneira de falar. Eu to dizendo, se um dia tiver oportunidade de falar com esse outro cara aí, você vai ver que o português dele, diga pra ele falar um pouco do crioulo, assim pra ver, a maneira dele pronunciar as palavras é muito mais suave assim. (Informante 2)

Percebemos na fala do informante uma hierarquização dos crioulos cabo-verdianos, na qual as variantes mais próximas ao PE ocupam as posições superiores. É curioso perceber que o crioulo falado pelo informante sofre mais influências africanas, e mesmo assim não é o mais valorizado por ele. Ele considera o crioulo de seu colega mais bonito e mais suave, e parece avaliar também, de um modo geral, que influências europeias são melhores que influências africanas.

Assim, há indicações nas falas dos africanos da presença de um princípio de classificação que hierarquiza as línguas. É em referência à língua do colonizador europeu que elas são classificadas e hierarquizadas e as mais próximas daquela são consideradas mais bonitas, mais suaves, mais corretas e mais puras do que as que dela se distanciam.

Questionamos ainda os informantes sobre as diferenças dialetais entre as variedades brasileiras, e o que encontramos em cinco das sete respostas foi uma preferência pelas variedades do sul e sudeste. Os outros dois informantes apenas afirmaram que não possuíam preferência quanto a isso. Nenhum, portanto, escolheu a variedade paraibana, na qual estão inseridos.

Eu gosto da forma como o carioca fala, entendeu? E também a forma como o mineiro fala.

não gosto não.

Não, tipo, depende do paraibano, entendeu? Tipo, se for universitário já fala melhor. Agora se for paraibano que não estudou, não terminou assim, aí eu não gosto não. Fala com muita gíria, eu não gosto de muita gíria não. (Informante 1)

Olha, eu acho que fala do paraibano é um pouco mais desligada aí do português de Portugal. Acredito que o falar das pessoas do Brasil lá do sul é mais correto do que aqui. (...) aqui no João Pessoa é, eu posso dizer assim que o português dele já é muito mais ainda ruim do que... não é que é ruim, né? Ok, não é ruim. Mas assim, é mais assim num nível mais baixo ainda do que nas pessoas da zona sul. Eu acho que é um pouquinho mais baixo. (Informante 2)

De um modo geral, todas as comparações analisadas acima indicam que atributos linguísticos positivos, como bonito, correto ou puro, foram sempre relacionados às variedades social e historicamente mais poderosas, nos contextos que analisamos (PE x PB, crioulos x PB). Fazermos uma ressalva, porém, para alertar que opiniões sobre os crioulos não foram exploradas em todas as entrevistas, por não serem objeto de estudo desta pesquisa. Mencionamos aqui apenas aquelas que surgiram na conversa. Não deixa de ser revelador, no entanto, que sentimentos como familiaridade e enraizamento com a língua não sejam tão impactantes no julgamento feito pelos informantes sobre as línguas, prevalecendo nesse julgamento principalmente as relações históricas de poder e dominação vividas pelas nações.

Considerações finais

Para iniciar nossas considerações finais, retomaremos as questões que nortearam esta pesquisa, buscando resumir as respostas que encontramos.

Existe um processo de acomodação dialetal entre os guineenses e cabo-verdianos que estão em João Pessoa? Se sim, em que estágio se encontra esse processo? De acordo com os resultados desta pesquisa, observamos o fenômeno da convergência dialetal no que se refere à lateral em situação de coda silábica em quase um terço dos casos (29%), configurando um percentual expressivo de ocorrência da acomodação. Destacamos, porém, que esta tendência é mais forte entre os cabo- verdianos do que entre os guineenses o que nos levou a novas indagações.

Analisando as peculiaridades da formação histórica daqueles países e seus desdobramentos na cena contemporânea, é possível afirmar que elas têm muito a explicar sobre as diferenças linguísticas entre os dois países. O processo de colonização, a formação do sentimento de nacionalidade, fatores étnicos e culturais locais, entre outros, deram origem a diferentes relações de identificação e de pertença. A nação cabo- verdiana, desde a sua formação, foi marcada por rupturas e hibridizações de culturas, tendo em vista ter sido formada por diversas etnias da África continental e por colonizadores portugueses. Além disso, ou justamente como uma das consequências disso, a maior parte da população cabo- verdiana vive fora do país. Essa população altamente miscigenada, menos enraizada nas suas origens, devido ao próprio processo de colonização, pode apresentar uma maior adaptabilidade a novas culturas, refletida nitidamente na língua que falam. Por outro lado, a atitude de resistência à dominação portuguesa outrora vivida por Guiné-Bissau, fortaleceu a identidade nacional e parece ainda estar presente entre os jovens guineenses, refletida na resistência linguística que apresentam ao entrarem em contato com um novo dialeto.

Quais aspectos sociais relacionados aos falantes podem impactar na acomodação? Dentre as variáveis sociais controladas, a que se mostrou mais influente na acomodação foi o país de origem. Em segundo lugar, tivemos o tempo de exposição, revelando que quanto maior o tempo ao qual os informantes estão expostos, mais chances eles têm de acomodar dialetalmente.

Investigamos ainda o papel das atitudes linguísticas na acomodação dialetal. Percebemos que os dialetos de países ou regiões historicamente dominados ou menos desenvolvidos foram avaliados de maneira negativa, através de atributos como feio, que não é correto, que não é padrão, etc., enquanto que os dialetos de países ou regiões outrora dominadores ou mais desenvolvidos receberam elogios como bonito, suave, padrão, correto, puro, etc. Essas apreciações foram feitas quando se confrontou o PE com o PB, o PB com o crioulo, as variedades de crioulo entre si, e as variedades do PB entre si, aparecendo nos polos elogiados o PE sempre, o PB quando em comparação com o crioulo, os crioulos com mais influência portuguesa que africana, e as variedades do sul e sudeste no Brasil em relação a do nordeste. Através desta análise, percebemos que as relações de poder e dominação se expressam não só na língua falada, mas também na avaliação que os falantes fazem dela.

O fenômeno de variação linguística é complexo e diversos fatores podem influenciá-lo. Propusemos neste trabalho analisar a influência de algumas variáveis que julgamos poder afetar a forma de realização da lateral pós-vocálica. Este rol, no entanto, não é conclusivo, de modo que outros fatores podem afetar a variação em estudo. Gostaríamos, por exemplo, de ter avaliado a influência da variável sexo, idade e se o informante reside com conterrâneos, porém, nos deparamos com a dificuldade de encontrar colaboradores em número significativo nessas categorias para levá-las em conta na análise e examinar sua influência no processo de acomodação. Deixamos, portanto, tal investigação como sugestão para trabalhos futuros.

Pretendemos com esta pesquisa esclarecer o que está por trás das escolhas linguísticas feitas pelos migrantes guineenses e cabo-verdianos após o contato dialetal com o PB, e o que elas representam no contexto social em que vivem. Acreditamos que a investigação sociolinguística contribui com a redução de atitudes estigmatizantes com relação a outros dialetos, uma vez que demonstra que as variantes linguísticas são apenas maneiras diferentes de se dizer uma mesma coisa, de modo que não há uma melhor que outra.

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Recebido em 30/03/2015 e Aceito em 10/06/2015.