Resumo

A língua de sinais (LS) é uma língua de modalidade viso-gestual independente do sistema de línguas orais. Pelo seu caráter de língua natural, assim como as línguas orais, é influenciada por fatores externos e sofre variação nos seus vários níveis linguísticos (fonologia, morfologia, sintaxe, semântica e pragmática). Assim sendo, o objetivo deste estudo foi investigar o papel da variável sexo na variação fonológica da Língua Brasileira de Sinais (Libras). O estudo foi realizado com a participação de 16 surdos (oito homens e oito mulheres), que foram solicitados a realizar os sinais de 60 palavras em português apresentadas individualmente em um notebook. Os parâmetros fonológicos da Libras foram analisados de forma quantitativa em relação às variáveis complexidade do sinal, quantidade de mãos e localização. Conclui-se que existe variação nos parâmetros fonológicos de configuração de mão, localização, movimento e orientação da palma da mão da Libras, no entanto, não se verificou variação em relação ao sexo. 

Introdução

A história dos estudos sobre as línguas de sinais (LS) é bastante recente, tendo sido iniciada apenas na década de 1960, diferentemente dos estudos sobre as línguas orais que datam de séculos atrás. Desde o início, os estudiosos da Linguística se esforçavam para apresentar indícios que comprovassem o status de língua natural das línguas de sinais, algo desnecessário para as línguas orais.

Além disso, em comparação com as línguas orais, poucos são os pesquisadores que se dedicam ao estudo das línguas de sinais, o que faz com que o estudo dessas línguas seja mais restrito. E a Sociolinguística Variacionista acompanha essa tendência. É grande o know-how dessa área da Linguística no que se refere às línguas orais em relação às línguas sinalizadas. Assim, surgiu o interesse em conhecer o comportamento da variação sociolinguística sobre o aspecto fonológico da Língua Brasileira de Sinais (Libras).

Depoimentos informais de intérpretes de línguas de sinais e professores de surdos das cidades paraibanas de João Pessoa e Campina Grande, que relatavam a “enorme” diferença entre a Libras realizada nessas duas cidades separadas por menos de 130 quilômetros, motivaram a escolha dessas duas cidades como áreas de estudo. Essas pessoas, imersas na cultura surda, ainda se mostravam sedentas por conhecimentos sobre a Libras utilizada na Paraíba.

Segundo Faria, Cavalcante e Cavalcanti (2014), uma das grandes dificuldades encontradas pelos surdos de João Pessoa para se comunicar com outros usuários da Libras se refere à variação dos sinais dessa língua em relação a outras regiões, o que mostra a relevância de um estudo de cunho sociolinguístico variacionista.

Considerando que a língua de sinais é uma língua natural, uma forma legítima de expressão e comunicação das comunidades surdas, com estrutura linguística complexa, que dispõe de todos os níveis linguísticos necessários, como fonologia, morfologia, sintaxe, semântica e pragmática, é de se esperar que ela esteja também sujeita a variações nos diversos níveis.

A Libras é a segunda língua oficial do Brasil, segundo a Lei Federal 10.436 de 24 de abril de 2002. De acordo com o Censo 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2005), o Brasil tem cerca de 24,6 milhões de pessoas que se consideram deficientes (14,5% da população total), seja visual, auditivo, mental, físico ou múltiplo. Destes, mais de 5,7 milhões são surdos, em quaisquer graus.

Se considerada a realidade local, a Paraíba tem uma das maiores populações de surdos da Região Nordeste. Juntamente com os estados da Bahia, Pernambuco e Maranhão, apresenta uma das maiores prevalências de surdez. Na Paraíba, aproximadamente 230 mil pessoas são surdas (qualquer grau de surdez), das quais mais de 6 mil afirmam não escutar (perda auditiva de grau profundo) e quase 42 mil apresentam grande dificuldade auditiva (perda auditiva de grau severo) (IBGE, 2010).

Com base nessas considerações, este estudo tem como ponto de partida a compreensão da surdez sob o ponto de vista sócio-antropológico, em que a língua de sinais é compreendida como um fator de união da comunidade surda. Nesta perspectiva, a “patologia”, a “falta” ou “perda de audição” não são vistos como essenciais. O que marca a surdez é uma diferença. Os surdos, dessa forma, são caracterizados como um grupo minoritário que tem em comum a mesma língua e os mesmos valores culturais.

A língua de sinais, segundo Quadros e Karnopp (2004) e Rosa (2008), de forma semelhante às línguas orais-auditivas, é estruturada segundo padrões fonológicos, morfológicos, sintáticos, semânticos e pragmáticos. Quadros e Karnopp (2004) afirmam ainda que o que diferencia as línguas de sinais das línguas orais é a estrutura simultânea da organização dos elementos das línguas de sinais.

Segundo Brentari (2002), a fonologia é um nível de análise gramatical em que unidades estruturais primitivas sem sentido são combinadas para criar um infinito número de sentenças repletas de significado. Para Battison (1974), a fonologia da língua de sinais é um nível estrutural sublexical análogo, mas não apresenta qualquer relação de dependência da fonologia das línguas orais.

McIntire (1977) afirma que a fonologia das línguas de sinais é, em muitos aspectos, diferente da fonologia das línguas orais, mas obedece aos mesmos princípios. De acordo com Sandler (1993), há similaridades entre a fonologia das línguas orais e de sinais, o que é esperado pelo fato de que as línguas de sinais apresentam, de forma subjacente, as mesmas funções cognitivas e sociais que as línguas orais, são processadas por um mesmo cérebro humano e apresentam relação similar com a memória e a atenção.

Stokoe (1960) e Stokoe, Casterline e Cronenberg (1965) revelam que não só a língua de sinais é um sistema organizado linguisticamente, mas sua estrutura difere da estrutura das línguas orais. De forma mais específica, estes autores descreveram a estrutura da Língua de Sinais Americana (ASL), afirmando que a formação do sinal se dá a partir de três parâmetros simultâneos: a configuração (formato) das mãos, a localização no espaço e a sua movimentação. Cada um dos parâmetros, segundo Liddell (1991) e Siedlecki Jr. e Bonvillian (1993), apresenta um conjunto limitado de elementos formacionais, corroborando Battison (1980), que afirma que as possibilidades dos elementos formacionais não são infinitas.

A configuração das mãos se refere à forma particular que a mão assume ao realizar o sinal, considerando os dedos a ser utilizados e o quão flexionados ou estendidos eles estão (Marshall, 2011).

A localização no espaço ou ponto de articulação do sinal está relacionada ao local onde a mão já configurada é posicionada. A mão pode tocar, bater ou ser posicionada em um ponto inicial da qual deslizará para outro ponto do corpo. Pode, ainda, ser posicionada em um espaço neutro (sem contato com qualquer parte do corpo) à frente ou ao lado do corpo, seja na direita, esquerda, em cima, no meio ou abaixo.

O parâmetro de movimento se refere ao deslocamento específico realizado para expressar o significado do sinal, podendo ser o abrir, o bater, o deslizar, o apertar, o girar etc. Este parâmetro pode envolver uma grande gama de formas, desde movimentos internos da mão, movimentos do pulso e movimentos direcionais no espaço (Klima; Bellugi, 1979) e direções, com linhas retas, curvas, sinuosas ou circulares (Ferreira, 2010). Segundo Baker e Padden (2005), este é considerado o parâmetro-chave do sinal.

Após a publicação dos parâmetros, dois novos parâmetros foram propostos e é consensual a importância de ambos para a realização dos sinais: a orientação da mão (Battison, 1978) e os elementos não-manuais (Liddell, 1991), entre os quais o último não será tratado neste estudo. A orientação é a direção para a qual a palma da mão aponta na produção do sinal (Quadros; Karnopp, 2004): voltada para cima, para baixo, para o corpo, para a frente, para a esquerda ou para a direita (Ferreira, 2010).

Segundo Souza e Segala (2009), a maioria das investigações em língua de sinais foi influenciada por teorias estruturalistas e inatistas, cujo objetivo era descrevê-las, como sistemas homogêneos, com base nos pressupostos de uma Gramática Universal (Chomsky, 1966), a fim de comprovar o seu status de línguas naturais. Dessa forma, buscava- se descrever os princípios internos, identificando uma regularização estrutural das línguas de sinais em comparação às línguas orais, centrada na competência linguística dos indivíduos ou nas comunidades isoladas que desenvolveram, sem contato com outras línguas de sinais, uma língua com propriedades semelhantes às anteriormente estudadas. Só a partir da década de 1970 se iniciou a preocupação em resgatar os dados concernentes à emergência e desenvolvimento de línguas sinalizadas dentro de uma metodologia sociolinguística.

A variação sociolinguística das línguas de sinais tem sido descrita sistematicamente em diversos países, no entanto, segundo Fenlon et al. (2013), os estudos realizados ainda são pequenos em quantidade e em grandeza, quando comparados aos estudos sociolinguísticos das línguas orais, o que é esperado, em função do nível em conhecimento de que se dispõe sobre as línguas de sinais (LS).

Segundo Lucas et al. (2001, 2002), estudos sobre variação em línguas de sinais são desenvolvidos desde a década de 1960, no entanto, a maioria enfocava a variação lexical. Bayley, Lucas e Rose (2002) e Lucas et al. (2002) afirmam que os estudos sobre variação fonológica da LS se iniciaram na década de 1970, parcialmente em resposta aos estudos de mesma natureza nas línguas orais.

Schembri e Johnson (2012) destacam que, tanto nas línguas orais quanto nas línguas de sinais, os fatores que conduzem à variação linguística podem ser agrupados em três categorias: fatores linguísticos (ou internos), fatores sociais (ou intersujeitos) e fatores estilísticos (ou intrasujeitos).

Os mesmos autores (2012, 2013) afirmam que os fatores linguísticos se referem aos processos fonológicos, como epênteses, apagamentos, metáteses e assimilações. A variação estilística envolve, por exemplo, a alternância entre um estilo formal e um estilo casual de fala por um sujeito a depender da situação. Já os fatores sociais, foco do presente estudo, envolvem questões como idade, sexo, região de origem, etnia, background linguístico (fato de a família do sujeito ser surda e, portanto, usuária de língua de sinais no ambiente familiar, ou não) e nível socioeconômico.

Os parâmetros da língua de sinais podem ser considerados traços distintivos, assim como ocorre nas línguas orais. Da mesma forma que as palavras “faca” e “vaca” podem ser considerados pares mínimos por apresentar um único fonema que difere em termos de vozeamento (/f/ é desvozeado e /v/ é vozeado), a mudança de um parâmetro da Libras pode provocar uma mudança no sentido da palavra. No entanto, segundo Cormier et al. (2012), a diferença em um único parâmetro do sinal pode ser considerada variação fonológica, dependendo dos sinais a que se refere.

A variável sexo é uma das que tem sido mais amplamente utilizada em pesquisas sociolinguísticas em LS (Lucas; Bayley; Valli, 2001; Mulrooney, 2002; Schembri et al., 2009). Sutton-Spence, Woll e Allshop (1990) e Mckee e Mckee (2011) sugerem que o sexo é um dos fatores que menos interfere na escolha da variante linguística. Schembri et al. (2010) e Schembri e Johnston (2012) afirmam que não há, ainda, estudos que mostrem variação lexical sistemática no complexo das Línguas de Sinais Britânica, Australiana e Neozelandesa (BANZSL) relacionada ao sexo, no entanto, sugerem que a mudança linguística, na Auslan, é comandada pelas mulheres e não pelos homens, como acontece na ASL, conforme descrito por Lucas, Bayley e Valli (2001) e Lucas et al. (2002).

Schembri et al. (2009), em estudo sobre a variação da localização na Língua de Sinais Australiana (Auslan) e Neozelandesa (NZSL) identificaram variação na localização do sinal em função de diferentes variáveis, uma das quais o sexo. Neste estudo, os autores verificaram, nas duas línguas de sinais, que os homens tendem a ser mais conservadores do que as mulheres.

Estes dados, confrontados aos de Lucas et al. (2001, 2002), mostram que não há um padrão universal em termos de que grupo é mais conservador ou mais inovador, já que nos estudos sobre a ASL, as mulheres tendem a ser mais conservadoras.

Já Geraci et al. (2011), em estudo sobre a variação sociolinguística observada na fonologia da Língua de Sinais Italiana (LIS), verificaram que as mulheres se mostraram mais inovadoras do que os homens.

Desta forma, o objetivo deste estudo foi descrever o papel da variável sexo na variação fonológica da Libras.

1.      Metodologia

O estudo, de natureza observacional, descritiva e transversal, foi realizado em duas instituições de referência em educação de surdos localizadas em João Pessoa e Campina Grande. João Pessoa é a capital da Paraíba e localiza-se no litoral, enquanto Campina Grande localiza-se no agreste do estado. As duas cidades tem uma distância aproximada de 125 km uma da outra.

A primeira instituição onde a pesquisa foi desenvolvida é um centro de reabilitação, vinculado ao Governo do Estado da Paraíba, localizado na cidade de João Pessoa, que promove acompanhamento multiprofissional aos portadores de vários tipos de deficiência (física, auditiva, visual e mental), síndromes e transtornos do comportamento, da linguagem e da aprendizagem.

A segunda instituição é uma escola de referência para surdos, também vinculada ao Governo do Estado da Paraíba, localizada na cidade de Campina Grande, que oferta turmas do 3º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio.

Fizeram parte da pesquisa 16 sujeitos surdos, sendo oito do sexo masculino e oito do sexo feminino, com idade entre 14 e 36 anos de idade, inseridos em comunidades surdas e que utilizam a Libras como L1.

O tamanho da amostra foi definido considerando as variáveis eleitas e a estratificação social típica de pesquisas sociolinguísticas. Além disso, o universo de participantes é restrito em função dos critérios de inclusão adotados. De forma semelhante a Lucas et al. (2002) e Schembri et al. (2009), não foram incluídos ouvintes na população de estudo.

Como critérios de inclusão, foram considerados:

(1) a utilização, com fluência, da Libras como L1;

(2) residência nos municípios mencionados anteriormente;

(3) ausência de deficiência visual (tendo em vista que a língua é viso-gestual), física (em função da dificuldade em articular os sinais) ou intelectual;

(4) não ter morado fora da região de investigação;

(5) não conviver intensamente com pessoas surdas de outra região e/ou pessoas de outra naturalidade;

(6) possuir conhecimento da língua portuguesa, já que a coleta de dados foi realizada por meio de palavras escritas.

Anteriormente à coleta dos dados, foi realizado um estudo piloto, com dois sujeitos surdos com idade superior a 10 anos e residentes na cidade de João Pessoa/PB, para testagem do material e do procedimento de avaliação. Estes sujeitos não fizeram parte da amostra final da tese.

Das 133 palavras utilizadas no início do estudo piloto, permaneceram 60 vocábulos, sendo obtidos 952 sinais (99,16% das palavras apresentadas), já que quatro surdos referiram não conhecer algumas palavras. Dessa forma, 3.808 tokens relacionados aos parâmetros foram analisados.

As palavras foram apresentadas por meio de um netbook (marca Acer, modelo Aspire One, monitor LED de 10.1”), em um arquivo do Microsoft Powerpoint, sendo cada vocábulo apresentado em um slide. O experimento foi conduzido pelo mesmo pesquisador e foi videogravada, através de uma filmadora (marca Sony, modelo DCR-SR47) com tripé. A câmera ficou localizada ao lado do netbook, tendo em vista que o sujeito deveria estar, necessariamente, de frente para o computador.

Assim que o sujeito se posicionava em frente ao computador, o pesquisador ajustava a câmera, de forma a enquadrar toda a sua região cefálica e torácica, a fim de captar detalhes da fonologia da Libras do sujeito. Anteriormente à execução dos sinais, o participante era questionado sobre a adequada angulação do monitor do netbook, a fim de evitar reflexos da luz da sala e, consequentemente, sua dificuldade em ler as palavras.

Foram consideradas as seguintes variáveis dependentes: complexidade do sinal (representação de uma palavra por apenas um sinal ou dois sinais combinados, classificada como simples ou composto); quantidade de mãos (quantidade de mãos utilizadas para a representação do sinal, classificada como unimanual ou bimanual) e localização (local onde as mãos configuradas eram posicionadas, classificada em superior, se acima da linha média do queixo ou inferior, se abaixo da linha média do queixo).

Cada variável foi quantificada em termos de mínimo e máximo de sua ocorrência dentro de cada grupo. Por exemplo, quando considerada a quantidade de mãos usadas para a realização do sinal em função do sexo, foi verificado o número mínimo e máximo de sinais unimanuais e de sinais bimanuais realizado pelos homens e pelas mulheres.

A análise dos dados aconteceu de forma quantitativa (estatística), por meio do software SPSS (Statistical Package for Social Sciences) versão 16 for Windows, em que as informações referentes às variáveis complexidade do sinal, quantidade de mãos e localização foram confrontadas à variável sexo.

Optou-se pelo uso da estatística não-paramétrica pelo fato de que a distribuição das variáveis na amostra estudada mostrou-se não- gaussiana, de acordo com os resultados advindos da aplicação do teste Shapiro-Wilk. Foi utilizado o teste de Mann-Whitney para a relação entre as variáveis.

O p-valor fornecido ao final da aplicação do teste de Mann-Whitney se refere à probabilidade de o resultado ter sido absolutamente casual e será inversamente proporcional à diferença entre os grupos. O p-valor igual a 0,05 indica uma probabilidade de 5% de que o resultado seja casual e esta é a probabilidade máxima considerada neste estudo para que se possa afirmar que há diferença estatisticamente significante entre os grupos. Assim sendo, considerou-se diferença estatisticamente significante quando p < ,05.

Na ausência de variação (quando todos os sujeitos realizaram o parâmetro da mesma forma), foi utilizado o termo “forma canônica”, assim como proposto por Lucas e Bayley (2008), que se refere ao que é costumeiramente ensinado nas aulas de Libras e consta nos dicionários. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Hospital Universitário Lauro Wanderley sob o número 393/10.

2. Resultados

A análise em relação à complexidade do sinal revelou grande semelhança entre a produção de sinais pelos participantes dos sexos masculino e feminino. Entre as 60 palavras apresentadas, os homens realizaram um mínimo de 46 e um máximo de 53 sinais simples, enquanto que as mulheres realizaram um mínimo de 44 e um máximo de 51 sinais simples. Os homens realizaram ainda, entre 7 e 13 sinais compostos, enquanto que as mulheres realizaram entre 8 e 16 sinais compostos.

As medianas dos dados mostram que as mulheres apresentam uso maior (49,5) de sinais simples do que os homens (48,5). A relação entre a variável complexidade do sinal e o sexo mostrou p > ,05 em todas as comparações realizadas. O sinal simples apresentou p = ,851 e o sinal composto, p = ,365 quando comparada a sua realização pelos sujeitos do sexo masculino e feminino (Tabela 1).

A realização dos sinais unimanuais também foi extremamente semelhante em função do sexo. Entre as 60 palavras apresentadas, tanto os homens quanto as mulheres realizaram um mínimo de 38 e um máximo de 42 sinais unimanuais. Os homens realizaram, de 17 a 20 sinais bimanuais, enquanto que as mulheres realizaram de 18 a 22 sinais bimanuais.

As medianas dos dados mostram que os dois grupos foram muito semelhantes em relação ao uso de sinais unimanuais (40,5 nos dois grupos) e bimanuais (19,0 nos dois grupos). Assim sendo, verificou-se que não houve diferença estatisticamente significante entre a quantidade de mãos e o sexo, revelado através do p > ,05 em todas as comparações realizadas. O sinal unimanual apresentou p = ,963 e o sinal bimanual, p = ,273 na relação entre sexo masculino e feminino (Tabela 1).

A análise dos sinais, em relação à localização, revelou, da mesma forma, semelhança entre a produção dos sinais pelos sujeitos do sexo masculino e feminino. Dentre as 60 palavras apresentadas, os homens realizaram entre 22 e 35 sinais superiores, enquanto as mulheres realizaram entre 21 e 30 sinais superiores. Os homens realizaram, ainda, entre 25 e 37 sinais inferiores e as mulheres, 29 a 39 sinais inferiores.

As medianas dos dados mostram que mulheres apresentam uma discreta maior utilização de sinais inferiores (35,0) em relação aos homens (33,5), no entanto, não se pode atribuir tal realização apenas ao sexo, considerando que a relação entre a localização do sinal e o sexo mostrou p > ,05 em todas as comparações realizadas. O sinal superior apresentou p = ,897 e o sinal inferior, p = ,453, quando comparada a sua realização pelos sujeitos do sexo masculino e feminino (Tabela 1).

Table 1.

TABELA 1: Relação entre sexo e variáveis dependentes de complexidade do sinal, quantidade de mãos e localização (João Pessoa e Campina Grande, 2012)

Masculino Feminino P
Mediana [Mínimo-Máximo] Mediana [Mínimo-Máximo]
Sinal simples 48,5 [46-53] 49,5 [44-51] ,851*
Sinal composto 10,0 [7-13] 9,5 [8-16] ,365*
Sinal unimanual 40,5 [38-42] 40,5 [38-42] ,963*
Sinal bimanual 19,0 [17-20] 19,0 [18-22] ,273*
Sinal superior 25,0 [22-35] 25,0 [21-30] ,897*
Sinal inferior 33,5 [25-37] 35,0 [29-39] ,453*
*Valor de p em Teste U de Mann-Whitney.

A variável sexo tem sido referida, pela maioria dos estudos como sendo uma das mais fracas entre as variáveis independentes, concordando com os dados deste estudo, em que não foi verificada qualquer diferença estatisticamente significante nos grupos de variáveis linguísticas (complexidade do sinal, quantidade de mãos e localização do sinal).

Mckee, Mckee e Major (2008) concordam que a variável sexo parece ser a menos determinante entre as variáveis independentes do seu estudo, concordando com os resultados do presente estudo.

Segundo Schembri e Johnston (2013), não há, até o momento, estudos que mostrem sistematicidade de variação em relação ao sexo. Em nenhum dos estudos analisados, tal variável foi considerada a mais fortemente relacionada à variação linguística. Em relação à ASL, Lucas, Bayley e Valli (2001) e Lucas et al. (2002) observaram que as mulheres tendem a ser conservadoras e favorecedoras da forma canônica, enquanto os homens se mostram discretamente favorecedores da forma não-canônica (mais inovadores).

Para Schembri et al. (2009) e Schembri e Johnston (2013), os dados relacionados à Auslan e NZSL sugerem que a mudança linguística é liderada pelas mulheres na Auslan. Na sua população, os homens se mostraram mais favorecedores da forma canônica do sinal (mais conservadores), apesar de também não terem observado diferença estatisticamente significante na realização dos sinais por homens e mulheres (Schembri; Johnston, 2007).

O mesmo resultado foi verificado na presente pesquisa, em que não foi identificada, na amostra em questão, diferença entre os sinais produzidos por surdos do sexo masculino e feminino no que se refere à complexidade do sinal, quantidade de mãos utilizadas para a realização do sinal e localização do sinal. Assim sendo, na presente amostra, não se pode atribuir a variação fonológica ao sexo.

Segundo Baker e Padden (2005), há uma tendência a que sinais executados na região do tronco e da cintura (inferiores), ao longo do tempo, sejam realizados em regiões mais superiores, havendo outra tendência, segundo Frishburg (1975), a que os sinais sejam executados tão próximos à face quanto possível.

Além disso, Baker e Padden (2005) identificaram que os sinais realizados no tronco e na cintura, geralmente, são bimanuais, enquanto os executados mais superiormente, em geral, são unimanuais. Isto, provavelmente, acontece em função da maior dificuldade de percepção dos sinais realizados mais inferiormente: eles precisariam de mais informação visual (duas mãos) do que os sinais realizados na região da cabeça e do pescoço (Frishburg, 1975; Woodward e Desantis, 1977; Baker e Padden, 2005). Woodward e Desantis (1977) atestam, ainda, a mudança histórica dos sinais bimanuais realizados na face em sinais unimanuais.

De forma geral, no presente estudo, as mulheres apresentaram mais sinais simples, enquanto os homens apresentaram mais sinais superiores e menos sinais bimanuais. Desta forma, aventa-se a possibilidade de os homens liderarem o processo de mudança linguística, apesar de não se verificar diferenças estatisticamente significantes entre as características fonológicas dos sujeitos dos dois sexos. Tendência semelhante, como já mencionado, foi identificada na ASL por Lucas, Bayley e VALLI (2001) e Lucas et al. (2002).

O presente estudo se propôs a estudar algo inédito: as variações da LS realizadas no estado da Paraíba. Em nível regional, pode ser destacada a iniciativa do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (Cavalcante et al., não publicado), realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Associação Brasileira de Linguística (ABRALIN), Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), com o propósito de descrever a variação da Libras realizada nos estados da Paraíba e Pernambuco. Em nível nacional, são raras as iniciativas sobre o assunto, o que pode ser comprovado pela escassa bibliografia publicada por brasileiros, em português ou inglês.

Se considerada, ainda, a especificidade do foco do trabalho em variação fonológica, pode-se afirmar, sem dúvida, que este é um dos primeiros trabalhos desenvolvidos em âmbito nacional. Acreditamos que essa é apenas a “ponta de um iceberg”, com inúmeras questões ainda a serem desveladas e que, certamente, contribuirão para a compreensão da Libras em nível regional e nacional e para a sua consolidação enquanto língua natural dos surdos.

Conclusões

De forma geral, este estudo constatou que o sexo é uma variável pouco relacionada ao processo de variação fonológica da Libras.

Não se pode esquecer, ainda, da existência de fatores linguísticos que motivem a variação na Libras, tal qual as línguas orais, fenômeno não investigado no presente estudo.

O fato de a língua de sinais ser ágrafa, apesar dos esforços para que o sign writing seja amplamente utilizado pelos surdos, pode sugerir a razão para que a mudança linguística da LS seja, talvez, mais ampla e rápida do que das línguas orais que possuem escrita. Além disso, a criação de sinais pelos próprios surdos acontece de forma mais ampla do que a criação dos neologismos nas línguas orais.

Os resultados aqui expostos promovem evidência adicional de que a variação linguística é característica de todas as línguas naturais, independentemente da modalidade em que é expressa. Além disso, assim como nas línguas orais, a variação das línguas de sinais se mostra não-aleatória, mas condicionada por fatores sociais.

Este é um estudo pioneiro no Brasil, considerando que não são conhecidas as publicações envolvendo estas variáveis em âmbito nacional, e seu objetivo é iniciar as questões acerca da variação da Libras. Dessa forma, ainda há muito a ser aprofundado em relação a questões fonológicas, além das morfológicas, sintáticas e pragmáticas dessa língua. Além disso, muitas das questões discutidas são, possivelmente, explicáveis considerando-se a história dos surdos e, particularmente, o papel das línguas de sinais na educação de surdos.

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Recebido em 10/03/2015 e Aceito em 10/06/2015.