Resumo

Este estudo está situado entre o campo da aquisição fonológica e da sociolinguística. Esta é uma investigação sobre o conhecimento da criança sobre a adequação das formas linguísticas utilizadas para indicar situações particulares, papéis e relações. Há poucas investigações sobre essas questões, especialmente no Português do Brasil. Em defesa das pesquisas sobre aquisição fonológica fortalecerem as relações com a sociolinguística, este estudo teve como objetivo analisar os aspectos fonológicos envolvidos na mudança de estilo. Para investigar a relação entre a variação fonológica e a mudança de estilo em crianças, este estudo propôs observar 4 crianças, de ambos os sexos, entre 4 e 6 anos, em três situações interacionais diferentes, a partir do desempenho de diferentes papéis sociais: médico/paciente, professor/aluno, pai-mãe/filho e filha. Houve mais diferenças nas sessões família e médico do que na situação de sala de aula. As meninas produziram mais fala e também apresentaram mais dramatizações de realizações desempenhadas em comparação aos meninos. Atitudes são também adicionadas ao discurso quando as crianças realizam as diferentes funções. Por exemplo, quando estão fingindo ser um médico, estão preocupadas com a postura na cadeira, a forma como usam a caneta e usam gestos. Ou quando estão realizando um professor que eles falam mais alto e utilizam formas mais imperativas de verbos, por exemplo. Quando estão desempenhando o papel de uma criança, usam um pitch alto e falam com um volume mais baixo. Todas essas variações são utilizadas, em graus variados, para marcar diferentes registros dentro das situações, o que caracteriza uma variação causada por uma mudança de estilo. Alguns processos fonológicos oram mais usados para marcar alguns registros. As simplificações de clusters e codas e a substituição e semivocalização de líquidas foram as mais usadas para marcar alguns registos. Em geral, as crianças demonstraram ajustes fonológicos ao exercer algumas funções de classes sociais mais altas, como médico, professor e pai ou a mãe. Isso significa que eles usam alguns ajustes fonológicos para marcar as diferentes funções e os diferentes estilos. Os resultados indicam que as crianças estão realizando de forma muito semelhante aos falantes adultos, aumentando os níveis de retenção nos estilos mais formais. Assim, a experiência com vários estilos é importante para a construção de um repertório sociolinguístico mais amplo. Por isso, é importante que a criança tenha possibilidade de desempenhar diferentes papéis, no sentido de experimentar diferentes situações e de ter experiências em ambientes linguísticos formais e informais. Como mostram os resultados, as mudanças de estilo podem influenciar as escolhas fonológicas, ou seja, aumentam as possibilidades de variação em seu sistema fonológico. 

Introdução

Os estilos de fala são socialmente condicionados e as formas lingüísticas são caracterizadas por diferenças na complexidade sintática, na escolha lexical, na forma fonológica e na realização fonética. A distância social, o contexto social, e o retorno do ouvinte estão entre os fatores que podem desencadear uma mudança de estilo (Labov, 1972; Giles, Coupland, Coupland, 1991).

Para estudar a mudança de estilo e do comportamento lingüístico é necessário definir mudança de estilo em si, que diz respeito à forma como o falante alterna entre vários dialetos ou alterna a própria fala, dependendo das situações comunicativas.

Estudos iniciais têm abordado o estilo e a variação focados em um continuum de formalidade e informalidade. Introduzido por Labov (1966), essa visão possível de estilo situa a variação intra-falante em padrões perfeitamente mais amplos de variação entre grandes comunidades. À estratificação de classes de variáveis linguísticas são atribuídas reputações para o estigma do discurso. Prestígio e estigma, então, tornaram-se os principais significados sociais associados às variáveis, e a formalidade traz um foco no prestígio como uma tentativa de evitar o estigma. Com o significado social localizado em categorias demográficas, a agência estilística surgiu em estudos de variação.

Alguns estudos têm procurado desenvolver uma melhor compreensão da variação intra-estilística. Três teorias apoiaram esses estudos: o modelo de atenção à fala (Labov, 1972), para o qual a mudança de estilo pode estar relacionada ao grau de auto-monitoramento que um falante dedica ao seu discurso; o modelo do estilo orientado pela audiência (BELL, 1984), que destaca o papel crucial e decisivo do ouvinte para as mudanças de estilo. O destinatário está no centro da proposta; e a abordagem centrada no falante, considerando as comunidades de prática (Eckert, 2005), uma vez que as mudanças de estilo devem ser buscadas nas relações sociais estabelecidas dentro de comunidades de prática, como um grupo de pessoas com compromisso agregado mútuo, em um acordo comum.

Eckert (2005) propôs um estudo sobre o papel da variação estilística na prática. Isso envolve não só colocar variáveis nos estilos, mas entendê- las como parte da construção de significado social. Isso tem várias implicações para o desenho da variação. Em primeiro lugar, porque as variáveis não entram em um estilo com um significado específico, fixo, mas assumem grande importância na construção do processo de estilo. Em segundo lugar, porque o estilo não é uma coisa, mas uma prática. É uma atividade em que as pessoas criam significado social. E como o significado social não é estático, não são os estilos. A seleção das variáveis para fazer movimentos estilísticos é baseada na interpretação do falante dos potenciais recursos disponíveis.

Crianças com cerca de 2 anos de idade não controlam o estilo da maneira que os adultos fazem. Por exemplo, se você refere a uma criança de dois anos que você não entendeu o que ela disse, a criança provavelmente vai repetir exatamente o que ela disse antes, da mesma forma (Ferrier, Dunham, Dunham, 2000).

Supõe-se, de acordo com a literatura sobre estilo em adulto, que a mudança de discurso é nitidamente influenciada pelo ouvinte. Isso sugere que as crianças devem adquirir habilidades sociais e pragmáticas relevantes antes que desenvolvem estilos distintos de linguagem. As crianças devem estar cientes de que podem ajustar o discurso para ajudar o ouvinte a entender o que estão tentando dizer. Os estudos sobre estratégias de reparo em crianças pequenas e crianças bilíngües sugerem que essa consciência se torna mais forte até o final do segundo ano de vida. Crianças menores de 3 anos de idade podem, portanto, ser capazes de realizar mudança de estilo, mas se fazem ou não, depende, em parte, se tiverem adquirido o controle estratégias como as usadas pelos adultos (Ferrier et al., 2000; Genesee, 2001) .

De acordo com Hymes (1972), para a aquisição integral da competência comunicativa, as crianças devem aprender a falar não apenas gramatical, mas também adequadamente. Isso significa que, em algum momento durante a aquisição, elas precisam aprender uma variedade de regras sociais que regem o uso de linguagem apropriada. Embora a linguagem dirigida a crianças de 2 anos possa ser altamente especializada, no momento em que as crianças atingem a idade de 4 ou 5 anos, experimentaram já várias configurações de discurso: ir ao médico, à escola, a festas de aniversário, ao supermercado e, por isso, as crianças já participaram de uma maior variedade de situações de fala, com pessoas de diferentes idades, sexo, status e familiaridade e seu discurso pode variar de diversas maneiras sistemáticas.

Renn (2010) observou variação no uso de regras sintáticas e mudanças de estilo quando as crianças alternaram situações interacionais, como contar histórias, ser avaliada a partir de um processo de elicitação de expressão, jogar, interagir com a mãe, interagir com outras crianças, entre outros.

Assim, as crianças estão cientes de todas essas diferenças sociolinguísticas? O que sabem sobre a adequação das formas lingüísticas usadas para indicar situações especiais, papéis especiais e relacionamentos?

É necessário que os modelos teóricos e análises de dados fonológicos sejam reconsiderados. Será que os modelos formais da fonologia são suficientes na análise? O problema não é resolvido apenas em inovações que trazem modelos formais, mas a interface desses modelos com paradigmas funcionais.

A criança adquire conhecimento de sentenças não apenas gramaticalmente, mas também é capaz de julgar como conveniente ou não. A criança adquire competências quanto ao momento de falar, quando não, a falando com quem, quando, onde e como. Isso significa que, no momento da aquisição, a criança torna-se capaz de realizar um repertório de atos de fala para participar de eventos de fala e para avaliar a sua realização por outros (Hymes, 1972).

Embora as regras de uso da linguagem possa variar de uma cultura para outra, são geralmente sensíveis entre as línguas para muitos dos mesmos fatores, incluindo o contexto de discurso, idade, sexo e status do falante. Na maioria das línguas, por exemplo, há uma forma de os adultos falarem com crianças pequenas, outro modo para crianças mais velhas, e ainda uma outra maneira para falarem com adultos (Andersen, 1975). Os falantes nativos modificam seu discurso, ao abordar os estrangeiros (Ferguson, 1975). Todas essas diferenças estilísticas, que se referem a alterações no registro, são, muitas vezes, sutis. As crianças, por isso, precisam aprender o dialeto ou uma variedade de dialetos que marcarão diferentes aspectos de suas identidades sociais, incluindo as questões regionais, classe social, etnia, idade e sexo. Elas também precisam adquirir um repertório de registros e regras sociais internacionais que possibilitam expressar significados sociais importantes para os contextos particulares em que eles falam, considerando-se as relações de poder (status e controle), familiaridade, intimidade e níveis de formalidade.

Alguns estudos etnográficos têm documentado que as habilidades em crianças em diferentes modos de comunicação como contar histórias, iniciar e terminar uma conversa diferem das dos adultos, nessas mesmas atividades (Cook-Gumpertz, Corsaro, 1977; Corsaro, 1979). A aquisição dessas competências linguísticas relacionadas aos papéis e às relações sociais tem sido estudada pela sociolinguística do desenvolvimento. As últimas pesquisas nessa área sugerem que, durante o período pré- escolar, há um salto significativo na cognição social, no conhecimento das crianças acerca de características sociais importantes, acerca de indivíduos e de interações entre as pessoas. Desde a idade de dois anos de idade, a criança é capaz de começar a categorizar as ações. Padrões fonológicos, lexicais e morfológicos são utilizados pelas crianças para marcar registros diferentes e diferentes estilos e todas as crianças usam regularmente marcas prosódicas adequadas para fazer distinções, para desempenhar diferentes papéis sociais, fazendo ajustes na freqüência vocal (pitch), entonação, volume e qualidade vocal, além de outras marcas fonológicas mais comuns, como babytalk. Assim, as crianças modificam o discurso para distinguir fala do adulto, fala da criança, homem, mulher, médico, professor, pais, filhos, etc.

Apesar de todo o entendimento de que as regras sociais são importantes para o conhecimento de qualquer cultura, e apesar de os estudos considerem essas questões sociais importantes na aquisição da linguagem, a maioria dos estudos concentram-se em variações ligadas ao gênero, sexo e idade. Talvez porque os papéis sociais disponíveis para crianças pequenas são relativamente limitados, no sentido de que elas podem ser filhos ou irmãos de alguém, mas jamais um médico, professor, namorado, mãe ou o pai de alguém (Andersen, 1990). Assim, poucos estudos têm sido capazes de investigar as variações nas mudanças de estilo, em crianças, no que diz respeito aos diferentes papéis sociais com que as crianças podem brincar.

Há apenas um pouco de conhecimento de como e quando as crianças adquirem a capacidade de mudar o estilo e muito menos conhecimento de como essa mudança de opções de estilo são refletidas no comportamento fonológico da criança. Os poucos estudos que existem, com falantes de outras línguas, enfatizam os aspectos morfossintáticos (RENN, 2010) e pouca atenção é dada aos aspectos fonológicos. Segundo esses estudos, os aspectos morfossintáticos geralmente têm algum tipo de relevância social e, assim, os falantes estão mais conscientes desses aspectos do que dos fonológicos, portanto, pode manipulá-los com mais facilidade, o que os torna os melhores indicadores de mudança de estilo (Wolfram and These-Schilling, 1997). Outro argumento dos pesquisadores não darem a atenção devida aos aspectos fonológicos, é que os fenômenos que envolvem variações fonológicas podem ser grande obstáculo para o investigador, em termos de transcrição e codificação.

No entanto, sabe-se que é possível observar alternâncias fonológicas devido às mudanças no estilo, tanto em adultos quanto em crianças, quando se comparam os diferentes contextos, sejam de formalidade/ informalidade, sejam relacionadas a comunidades de prática.

Observar o fenômeno de variação na aquisição fonológica, assim como a variação fonológica na fala do adulto, pode trazer contribuições importantes para a compreensão do funcionamento lingüístico, tornando possível questionar e rever seus próprios modelos teóricos, tais como a fonologia formal.

Com base nisso, o presente estudo visa complementar a investigação existente sobre os crianças falantes de outras línguas, para promover mais descobertas sobre o comportamento linguístico em termos de variação do nível fonológica em crianças que estão aprendendo as ramificações sociais estilos de fala. O objetivo deste estudo foi analisar a relação entre a variação fonológica e a mudança de estilo em crianças. Os objetivos específicos foram: mapear os processos fonológicos em cada situação comunicativa e investigar se a mudança no estilo implica em variação fonológica, interferindo na qualidade e frequência de processos fonológicos. A intenção é analisar de que forma as habilidades fonológicas das crianças são apresentadas ao usar diferentes estilos.

Métodos

Este estudo analisou dados de quatro crianças, 2 meninos e 2 meninas, com idades entre 4 e 6 anos. O controle da amostra, com base em parâmetros sociolinguísticos ocorreu através de estratificação por idade e sexo. As crianças foram investigadas durante atividades em que exerceram diferentes papéis e atitudes sociais (pai, mãe, professor, médico).

As crianças mais jovens (com idade inferior a 4 anos) não foram incluídas neste estudo, pois é sabe-se que crianças muito jovens ainda não revelam muitas possibilidades de alternância, variação, dada a limitação do inventário fonológico, devido ao próprio processo de aquisição, e devido à pouca experiência com as possibilidades de uso social da língua. Além disso, o estudo de Renn (2010), sobre a aquisição e estilo, demonstra que a chave para a mudança está na fase em que a criança vai para a escola primária ou fora do pré-escolar.

Um exame clínico dos aspectos orais foi realizado em uma tentativa de afastar a possibilidade de as crianças investigadas apresentarem desvios na fala causada por alterações orgânicas nos órgãos da fala.

O projeto que abarca este estudo, foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do Hospital Universitário Lauro Wanderley, da Universidade Federal da Paraíba, conforme determina a Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, e foi aprovado sob o no. 636/10.

Apesar dos rigores experimentais mínimos, a seleção das crianças ocorreu aleatoriamente. Seguindo a proposta de Andersen (1990), para capturar a fala natural, considerando as possibilidades de mudança de estilo, foram criadas algumas situações que permitiram que as crianças demonstrassem suas habilidades. A coleta de dados ocorreu através da gravação de crianças em diferentes situações de interação. As amostras de fala foram espontâneas, gravadas e transcritas. Atividades envolvendo diferentes situações interacionais foram realizadas individualmente, em tempo previamente programado e em uma sala reservada para esse fim, com a preocupação de que o espaço fosse o menos barulhento possível. A coleta de dados foi realizada no local onde as crianças se sentissem confortáveis e familiarizadas com os recursos lúdicos e experimentais necessários, como a presença de brinquedos, computador, gravador, papel, lápis de cor, entre outros. As sessões de filmagens foram feitas a partir de momentos de interação entre crianças e pesquisador ou entre a criança e os personagens imaginários criados a partir de situações de comunicação lúdicas e imaginativas. Essas gravações foram analisadas a partir de uma abordagem qualitativa e interpretativa, uma vez que uma análise quantitativa estatística não foi possível devido ao pequeno número de indivíduos e da própria natureza do material linguístico e interativo desses eventos comunicativos.

Para a tarefa, foi utilizada uma técnica chamada improvisação controlada (Andersen, 1984). Para orientar a escolha dos diferentes papéis sociais, alguns materiais de jogo poderiam indicar sobre que situações seriam, criando três possibilidades de interação - situação médica, sala de aula e família - como proposto por Andersen (1990). Cada criança participou de três sessões de jogo de ação, com três configurações: (a) o escritório do doutor; (B) em sala de aula; e (c) a família ou em casa situação:

Table 1.

TABELA 1: As tarefas

Consultório Médico Sala de aula Família
Materiais: termômetro, estetoscópio, boneca, cama, prescrições, caneta, copo d’água, caixas de remédios, Materiais: Quadro, bonecas, livro, lápis. piloto, caderno, Materiais: Boneca, mamadeira, chupeta, fralda, roupas, escova de cabelo, banheira infantil, revistas sobre festas infantis.
Situações: a. A criança assume o papel de um médico, para ver se o boneco tem uma febre, dor; examina a boneca, prescreve medicamentos, dá o remédio, verifica os batimentos cardíacos. b. A criança pode assumir o papel de paciente e finge tosse, dor. c. A criança ainda pode assumir reversibilidade de papéis para falar pelo o boneco, observando-se em um único momento, as duas funções de médico e paciente. Situações: a. A criança assume o papel de professor; a criança pode ler, ensinar, ditar regras, reclamar com as bonecas, escrever no quadro, fazer perguntas. b. A criança pode assumir o papel de aluno e responder, perguntar, pedir para ir ao banheiro. c. A criança pode assumir reversibilidade de papéis para falar pelo boneco, observando- se, em um único momento, os dois papéis de professor e aluno. Situações: a. A criança assume o papel de pai-mãe, dá comida, troca a roupa da boneca, escova os cabelos e banha a boneca, queixa- se, aconselha, canta canção de ninar, conta histórias, organiza uma festa de aniversário. b. A criança pode assumir o papel de filha / filho e pedir mamadeira, diz que está com fome, que quer ir ao banheiro, o que quer na festa de aniversário. c. A criança ainda pode assumir reversibilidade de papéis para falar pelo o boneco, observando—se, em um único momento, os dois papéis de mãe-filho ou pai-filha.

Assim, cada criança participou de três sessões, em três configurações diferentes, uma em cada registro, totalizando 12 amostras de fala. Os registros dos dados de fala foram transcritos foneticamente, usando o alfabeto fonético internacional (IPA), na folha de registo. Posteriormente, os dados foram analisados considerando-se todas as variáveis linguísticas, como pitch vocal, volume vocal e processos fonológicos e as variáveis extralinguísticas, como idade, sexo e estilo (a depender da situação comunicativa).

Para a análise, foi necessário descrever os processos fonológicos (Stampe, 1971) ou as estratégias de reparo (lamprecht, 2004) encontradas no discurso das crianças. Como o foco do estudo é a aquisição fonológica e da variação, foi necessário descrever, também, inventário fonológico das crianças, mapeando os contrastes e inventário fonético bem. O objetivo foi mapear os processos fonológicos que variam com a mudança de estilo. Para isso, foi necessário descrever os dados de cada sessão e situação e, depois, comparar a frequência dos processos fonológicos entre as diferentes situações. Foi possível observar se a mudança no estilo interfere na variação fonológica e como as habilidades fonológicas das crianças são desenvolvidas ao usar diferentes estilos.

Resultados

O primeiro dado importante desta pesquisa é o fato de que as crianças desempenharam mais papéis em algumas sessões, do que em outras, de acordo com o estudo prévio de Andersen (1990), como mostra a Tabela 2:

Table 2.

TABELA 2: Desempenho de papéis X Situações comunicativas

Família Médico Sala de aula
Desempenho de papéis 19 16 13
Não desempenho de papéis 5 8 11

Com base em 24 possibilidades de desempenho de papéis (6 r-r x 4 crianças, para cada situação).

Houve mais diferenças nas sessões família e médico do que na situação de sala de aula. Isso indica que as crianças reconhecem melhor as diferenças entre o médico, a mãe ou o pai e o discurso do paciente, filha ou filho, em comparação com as diferenças entre professor e aluno. Outro dado importante é sobre as diferenças entre os sexos.

As meninas produziram mais fala e também apresentaram mais dramatizações de realizações desempenhadas em comparação aos meninos investigados. As meninas desempenharam todos os papéis do total de possibilidades e um menino não foi capaz de desempenhar um dos possíveis (família).

Investigou-se a média dos processos fonológicos apresentados em cada situação comunicativa. Calculou-se um total de enunciados de cada sessão e um total de processos fonológicos. Os resultados serão mostrados através da quantidade de processos em relação ao total de enunciados, para cada situação de comunicação. A Tabela 3 mostra a ocorrência de processos fonológicos em cada sessão:

Table 3.

TABElA 3: Ocorrência de processos fonológicos para situação e para papéis

Processo Fonológico Família Criança - Pais Médico Paciente - Médico Sala de Aula Aluno - Professor Exemplo
Simplificação de Cluster 31 - 21 26 - 19 24 - 18 ponto - pronto febe - febre
Simplificação de Coda 26 - 18 15 - 7 19 - 14 pota- porta feta - festa
Redução Silábica 7 - 3 3 - 1 2 - 0 lógio - relógio neti - sabonete
Reduplicação 9 - 6 2 - 0 0 - 0 pepeta - chupeta banbanho - banho
Posteriorização 22 - 11 14 - 8 13 - 10 ∫im - sim fa∫o - faço
Anteriorizaçãao 12 - 6 4 - 3 5 - 2 supeta - chupeta solar - chorar
Plosivização 24 - 16 22 - 10 23 - 10 pebe - febre tampu - champu
Desvozeamento 7 - 5 6 - 5 6 - 3 teto - dedo toce - doce
Substituição de líquida 27 - 13 21 - 10 19 - 13 bola - bora mamadela - mamadeira
Semivocalização 24 - 9 21 - 8 17 - 8 doia - dora queio - quero
Total 189 - 108 134 - 71 118 - 78
* Os valores são apresentados como N (número de ocorrências)

De acordo com a Tabela 3, o papel em que as crianças apresentaram menos processos fonológicos foi o de médico (N = 71), e o papel em que apresentaram mais processos foi na situação de família (N = 189). A situação em que há uma maior diferença é a situação da família, comparada à sala de aula. Isso significa que as crianças reconhecem muito bem a distância entre uma criança e uma mãe/um pai, quando têm o discurso dirigido aos pais e elas não reconhecem essa diferença ao desempenhar o papel de aluno ou estudante ou o papel de professor, em situação de sala de aula. É possível que o babytalk seja responsável pela maior ocorrência de processos fonológicos em situação familiar, quando desempenhado o papel de bebê.

É importante ressaltar que o papel em que eles tentam chegar a um discurso com menos processos é quando o de médico. Esses dados revelam algum conhecimento de que um médico ocupa um mais alto ou mais poderoso status social e as crianças, de alguma forma, mudam o estilo de discurso, tentando adaptar o uso do conhecimento fonológico para a hierarquia de status entre médico-paciente.

Outro resultado importante é sobre a elevada ocorrência de processos fonológicos, mesmo quando as crianças estão realizando um pai (mãe ou pai). Mesmo que a diferença seja ainda maior em comparação com as outras situações, elas mostram muitos processos fonológicos em um papel de pai ou mãe (N = 108). É, talvez, por conta do babytalk, que se refere a um discurso cuidador ou discurso direcionado à criança, chamado como “motherese” ou “mommy talk”. Fica mais claro quando as crianças usam reduplicações em um papel de Pai/Mãe.

Atitudes são também adicionadas ao discurso quando as crianças realizam as diferentes funções. Por exemplo, quando estão fingindo ser um médico, estão preocupadas com a sua postura na cadeira, a forma como usam a caneta e usam gestos. Ou quando estão realizando um professor que eles falam mais alto e utilizam formas mais imperativas de verbos, por exemplo. Quando estão desempenhando o papel de uma criança, usam um tom alto e falam com um volume baixo de voz. Todas essas variações são utilizadas, em graus variados, para marcar diferentes registros dentro das situações, o que caracteriza uma variação causada por uma mudança de estilo.

Alguns processos fonológicos foram mais usados para marcar alguns registros. As simplificações de clusters e codas e a substituição e semivocalização de líquidas foram mais usadas para marcar alguns registos, quando comparadas às ocorrências na situações mãe-criança, médico-paciente, aluno-professor. Os processos fonológicos como desvozeamento e anteriorização não foram tão importantes em termos de modificações para marcar diferentes papéis. Isso significa que não diferiram nas variadas condições de fala. Normalmente, os traços [Voz] e [Posterior] são modificados quando a criança tem uma dificuldade fonológica. É possível ver que o processo de desvozeamento não variou muito. Ele foi apresentado por apenas um filho (um menino) que, possivelmente, tem alguma dificuldade específica com o traço [Posterior], caracterizando, nessa criança, uma aquisição possivelmente desviante, ou seja, fora do esperado para uma criança com aquisição normal. Vale salientar que foi realizada uma avaliação prévia com as crianças, que descartou qualquer possibilidade de desvio fonético, mas não foi feita uma avaliação fonológica, visto que todas as crianças não apresentavam queixas. Essa criança em questão foge ao esperado, uma vez que seu sistema não está dentro dos padrões de normalidade, mas não interfere nos resultados, uma vez que, ainda com essa limitação específica, o que caracteriza um desvio, a criança ainda foi capaz de marcar a mudança de estilo a partir da variação fonológica, com os traços já presentes em sua fala. No entanto, não constitui a amostra ideal para o estudo. Isso valerá para estudos posteriores, tanto como outro critério futuro de exclusão, como a possibilidade de outro estudo, uma vez que chamou atenção para o fato de que inclusive crianças com sistemas desviantes podem ser capazes de fazer alternâncias em mudanças de estilo. No entanto, um estudo envolvendo crianças com desvio merece um outro tratamento metodológico, com um controle dos processos que são relacionados ao desvio e que são relacionados ao estilo.

Em geral, as crianças demonstraram ajustes fonológicos ao exercer algumas funções de classes sociais mais altas, como médico, professor e pai ou a mãe. Isso significa que eles usam alguns ajustes fonológicos para marcar as diferentes funções e os diferentes estilos. Esses ajustes podem melhorar suas falas, quando, por exemplo, desempenham a função Médico, as crianças colocaram esforço na realização dos segmentos, alcançando melhorias em sons que elas ainda não eram capazes de produzir de forma sistemática. As crianças apresentaram até mesmo os ajustes que refletiam alguma consciência do registro babytalk, por exemplo, na situação da família, que, ao contrário do exemplo anterior, simula uma diminuição em seu sistema, optando por usar palatalizadas, reduplicações e simplificações, como mostrado na Tabela 3. As reduplicações marcaram o estilo no papel de filho e dos pais com a fala dirigidas ao bebê (babytalk).

Como a proposta deste estudo também foi analisar a aquisição da variação fonológica em termos da interação entre idade e estilo, é possível observar que as crianças menores não foram capazes de fazer tantos ajustes, por duas possíveis razões: ou por ainda não terem tantas experiências sociais necessárias ao desempenho variado de papéis sociais, com repertório lexical e pragmático restrito, ou por limitações nos ajustes fonológicos, relacionadas à imaturidade na memória fonológica, processamento ou planejamento motor.

Conclusões

Foram encontradas diferenças no comportamento fonológico das crianças quando comparadas em cenas diferentes, funções comunicativas e sociais distintas. Portanto, as crianças apresentaram variações no uso da fonologia, dependendo do estilo. Crianças mostraram, por exemplo, maior ocorrência de palavras, como também foi observado no Andersen (1990), também utilizando o padrão mais maduro das características fonéticas ou fonológicas, quando exerce o papel de um médico, por exemplo, do que fazendo o papel de um paciente.

Distinções fonológicas foram observadas nas sessões de médico, indicando que este é o papel de maior status social, marcada por alta frequência (pitch) na voz e o uso de vogais médias átonas pretônicas, por exemplo. Nas sessões de sala de aula, quando as crianças desempenham o papel de professor, falam mais alto, com maior volume de voz, e quando desempenham o papel de aluno, algumas substituições fonológicas marcam o estilo, como a eliminação em coda e a eliminação em clusters. Portanto, foram encontradas diferenças ou alternâncias fonológicas com mudanças de estilo, guiado pela cena social.

As crianças mais velhas, em geral, realizam mais estilo alternado que as crianças mais jovens, uma vez que têm maior repertório de temas para cada cenário, e desenvolveram vocabulários mais amplos para cada tema.

Portanto, as crianças devem melhorar e expandir as possibilidades de mudança de estilo com o avançar da idade, desempenhando mais papéis sociais.

Observou-se também, fora dos cenários propostos descritos na metodologia, que uma criança quando apresentou sua fala dirigida à mãe, a fala era mais infantil, com mais processos fonológicos de simplificação (Stampe, 1973) ou estratégias de reparo (lamprecht, 2004), justamente por reconhecer o papel da filha e reforçarem a situação de babytalk, quando comparada à sua fala dirigida ao pesquisador, uma vez que a criança é capaz de reconhecer a possibilidade de ser avaliado e, além de ser um outro papel social, é outra situação comunicativa, com maior formalidade.

Esses achados podem trazer contribuições para a linguística clínica, a fim de destacar a possibilidade de as mães trazerem queixas relacionadas à fala da criança que não estão realmente relacionadas a um desvio fonológico. Existe a possibilidade de que a criança que demonstra imaturidade linguística para a mãe, possa não ter realmente um problema na aquisição, mas apenas uma alternância em uso, ou seja, apesar de apresentar um padrão de fala de uma criança, pode ser devido a uma mudança de estilo, que só é revelada quando desempenha papel social particular.

Os resultados indicam que as crianças estão realizando mudanças de estilo, de forma muito semelhante aos falantes adultos, aumentando os níveis de retenção nos estilos mais formais. Assim, a experiência com vários estilos é importante para a construção de um repertório sociolinguístico mais amplo. Por isso, é importante que as crianças tenham possibilidade de desempenhar diferentes papéis, para experimentar diferentes situações e ter experiências em diferentes ambientes linguísticos, formais e informais. Como mostram os resultados, as mudanças de estilo podem influenciar as escolhas fonológicas e pode tornar as crianças experimentes nas possibilidades de variação em seu sistema fonológico.

Referências

ANDERSEN, E. S. Speaking with style: the sociolinguistic skills of children. Routledge, 1990.

BELL, A. Language style as audience design. language in Society. 13 (2), p. 145-204, 1984.

COOK-GUMPERZ, J.; CORSARO, W. Social-ecological constraints on children’s communicative strategies. Sociology, 11, p. 411-434 1977.

CORSARO, W. young children’s conception of status and role. Sociology of Education, 52, p. 15-79, 1979.

ECKERT, P. Variation, convention and social meaning. Paper Presented at the Annual Meeting of the linguistic Society of America. Oakland CA. Jan. 7, 2005.

FERGUSON, C. A. Toward a characterization of english foreigner talk. Antropological linguistics, 17, p. 1-14, 1975.

FERRIER, S., DUNHAM, P., DUNHAM, F. The confused robot: two-year-olds’ responses to breakdowns in conversation. Social Development, 9, 2000.

GENESEE, F. Bilingual first language acquisition: exploring the limits of the language faculty. Annual Review of Applied linguistics, 21, p. 153-168, 2001,

GILES, H., COUPlAND, J., COUPLAND, N. (Eds.). Contexts of Accommodation: Developments in Applied Sociolinguistics. Cambridge: CUP, 1991.

HYMES, D. On communicative competence. In: PRIDE, J. B; HOlMES, J. (eds) Sociolinguistics: selected readings, Baltimore: Penguin, 1972.

LABOV, W. The social stratification of English in New York City. Washington D. C. Center of Applied linguistics, 1966.

LABOV, W. Sociolinguistic Patterns. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1972.

LAMPRECHT, R.R. Aquisição fonológica do português: perfil de desenvolvimento e subsídios de terapia. Porto Alegre: Artmed, 2004.

RENN, J. Acquiring Style: the development of dialect shifting among african american children. Proquest, Umi Dissertation Publishing, 2010.

STAMPE, D. A dissertation on natural phonology. 1973. Tese (Doutorado em letras) - Chicago University, 1973.

WOLFRAM, W.; SCHILLING-ESTES, N. Hoi Toide on the Sound Soide: The Story of the Ocracoke Brogue. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1997.

Recebido em 17/02/2015 e Aceito em 16/05/2015.