Resumo

A análise de regra variável (Labov, 1972) em tempo real, estudo de tendência (LABOV 1994), da palatalização de /t/ e /d/ antes de vogal anterior alta (tia~[t͜ʃ]ia, dia~[d͜ȝ]ia, gente~gen[t͜ʃɪ], onde~on[d͜ȝɪ]) no português falado na comunidade ítalo-brasileira de Flores da Cunha (RS) é realizada com o objetivo de verificar se houve aumento na aplicação da regra no intervalo de vinte anos e quais condicionadores linguísticos e sociais têm tido efeito sobre o processo nesse período. Analisados dados de dois bancos, VARSUL e BDSer, confirma-se a tendência de progressão da regra, o efeito das variáveis linguísticas Qualidade da Consoante-Alvo, Status da Vogal Alta, e das variáveis sociais Idade, Sexo/Gênero, essas discutidas com base nos pressupostos labovianos da mudança geracional (Labov, 1994) e da assimetria na transmissão linguística (Labov, 2010). 

Introdução

A palatalização de /t/ e /d/ antes de vogal anterior alta (tia~[t_F]ia, dia~[d_y]ia) é processo variável aplicado a falares de português brasileiro em diferentes proporções (Abaurre; Pagotto, 2002; Cardoso et al., 2014). Em variedades do Sul do Brasil, que apresentam taxas de aplicação moderadas ou baixas, análises de regra variável (Labov, 1972) em tempo aparente (Labov (1994) têm mostrado que o processo tende a progredir (Bisol, 1991; Almeida, 2000; Pagotto, 2001; Kamianecky, 2002; Pires,

2004; Paula, 2006; Battisti et al., 2007; Dutra, 2007; Matté, 2009; Battisti; Dornelles Filho, 2012). O objetivo deste trabalho é realizar análise em tempo real, estudo de tendência (Labov, 1994), para comprovar esse padrão numa comunidade de fala do interior do Rio Grande do Sul, em que o processo parece avançar, mas lentamente. Com dados de fala levantados de entrevistas sociolinguísticas de Flores da Cunha (RS) de dois bancos, VARSUL (PUCRS, UFRGS, UFSC, UFPR) e BDSer (UCS),

as primeiras realizadas em 1990, as segundas, em 2008 e 2009, busca-se verificar se houve aumento na proporção de palatalização no português falado nesse pequeno município gaúcho, fundado por imigrantes italianos no final do século xIx, bem como os condicionadores linguísticos e sociais do processo.

Um estudo (Battisti; Rosa, 2012) realizado nessa comunidade, com a mesma base de dados e mesmo objetivo, incluiu contextos com vogal alta fonológica (tia, dia) e contextos com vogal /e/ em posição átona que, elevada, pode desencadear a regra (gente[i], ond[i]). Os autores verificaram que parte significativa dos contextos com /e/ não sofre elevação e, assim, tampouco desencadeia a regra. No presente estudo, consideram-se apenas contextos com vogal /e/ efetivamente elevada, o que, como veremos, repercute nas proporções totais de palatalização obtidas.

O trabalho inicia-se com considerações sobre a palatalização variável de /t/ e /d/ em suas características fonético-fonológicas e em sua distribuição em capitais brasileiras captada em dois períodos, nos anos setenta do século passado e trinta anos mais tarde, já no século xxI (seção 1). Revisam-se em seguida estudos sobre o processo, com base em que se levantam hipóteses testadas na presente análise (seção 2). Depois vêm os procedimentos metodológicos (seção 3) e os resultados da análise (seção 4). Nossas conclusões fecham o trabalho.

1. A palatalização variável de /t/ e /d/ no português brasileiro

Em termos fonéticos (articulatórios), a palatalização afeta as consoantes /t/ e /d/ em seu ponto de articulação: são produzidas com obstrução à corrente de ar não pelo toque da ponta da língua nos alvéolos, mas pelo toque da língua levemente mais para trás, dos alvéolos ao palato duro, o que antecipa o gesto articulatório necessário à produção da vogal anterior alta seguinte, desencadeadora do processo. Também o modo de articulação de /t/ e /d/ é alterado: ocorre a africatização das consoantes, isto é, há um pequeno escape de ar ao final de sua articulação, pelo aumento do tempo de soltura.

Em termos fonológicos e pela perspectiva linear do SPE1, a palatalização é concebida como processo que afeta as consoantes plosivas [+coronal] em sua altura: elas passam de [-alto] para mais [+alto], por assimilação à vogal anterior alta seguinte. A africatização decorre da alteração do traço [-metástase retardada] para [+metástase retardada]. Já na perspectiva Autossegmental e pela Geometria de Traços2, pode-se conceber a palatalização, tal qual faz Hora (1990, 1993), como mudança de uma consoante simples para complexa: o traço [coronal] da vogal3 se espraia ao nó de Ponto da consoante, convertendo [+anterior] em [-anterior]. A consoante passa, assim, a ter uma articulação primária (consonantal) e uma secundária (vocálica), daí sua complexidade.

Há, portanto, motivação fonético-fonológica para o processo, o que explica por que apenas as plosivas alveolares são afetadas: tanto consoante-alvo quanto vogal-gatilho são coronais. E o que motiva a diversidade nas proporções de palatalização? Por que em algumas comunidades as formas palatalizadas são mais frequentes do que em outras? Resta compreender a palatalização de /t/ e /d/ em seu avanço no percurso da variação e mudança, com o aumento da aplicação da regra pelos grupos etários mais jovens e incremento das proporções totais de palatalização nas comunidades de fala.

Os resultados de Abaurre; Pagotto (2002) para a análise de regra variável da palatalização de /t/ e /d/ em dados levantados de oito entrevistas do NURC4 realizadas de 1971 a 1974 mostram índices distintos de palatalização em cinco capitais brasileiras:

Figure 1.

FIGURA 1: Proporção total de palatalização em capitais brasileiras nos anos 1970 (dados do NURC)

Fonte: Os Autores, com base nos resultados de Abaurre; Pagotto (2002)

A maior proporção de palatalização de /t/ e /d/ verifica-se, nos anos 1970, no Rio de Janeiro: é de quase 100%, ou seja, trata-se de regra praticamente categórica nessa capital brasileira já há quarenta anos. Em Salvador, o processo mostra-se variável, mas a proporção é alta, 85%. São Paulo segue Salvador, com expressiva taxa de palatalização. Já Porto Alegre apresenta palatalização moderada nos anos 1970 e Recife, baixa aplicação do processo.

Situação diversa é captada pelas cartas do ALIB5 referentes a capitais brasileiras, publicadas em 2014. A Figura 2 traz uma delas, com os índices de palatalização por vogal-gatilho /i/ fonológico (tia, dia) e vogal-gatilho [i] fonético, derivado de /e/ em sílaba átona (gente, onde). As colunas escuras representam as taxas de palatalização por vogal anterior alta fonológica, as colunas claras, por vogal anterior alta fonética.

Figure 2.

FIGURA 2: Proporção total de palatalização em capitais brasileiras nos anos 2010 (carta do ALIB)

Fonte: Cardoso et al. (2014: 123)

A carta apresenta um primeiro grande contraste entre as capitais do Nordeste e as demais: a proporção de palatalização por uma e outra vogal é baixa em Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa; moderada (Cuiabá, Natal, Florianópolis, Curitiba), alta (Teresina, Macapá, Boa Vista, Manaus, Campo Grande, Porto Velho, Rio Branco) ou categórica (Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Belo Horizonte, Fortaleza, São Luís, Belém) nas demais capitais. Comparadas as Figuras 1 e 2, e exceto pela resistência de capitais nordestinas, a palatalização avançou nas capitais brasileiras em quarenta anos, com destaque para as do Sul e Sudeste, em que a regra já é categórica. A hipótese pode ser a de que, como defende Noll (2008), a palatalização de /t/ e /d/ no português brasileiro se expanda das áreas mais urbanas para as menos urbanas.

No estado do Rio Grande do Sul, em que se localiza a comunidade- alvo deste estudo, Flores da Cunha, há um contraste entre os índices de palatalização da capital, Porto Alegre, e os do interior (Figura 3), onde se fala português de contato com línguas de imigração – falares dialetais italianos, alemães, poloneses – e com o espanhol na zona de fronteira com o Uruguai e a Argentina. São comunidades que, mesmo dedicadas a comércio, indústria e serviços na zona urbana, mantêm extensas áreas rurais, dedicadas, em algumas regiões (como a nordeste, por exemplo), ao cultivo de hortifrutigranjeiros, em outras, ao cultivo de soja, milho, arroz em grandes plantações (centro e noroeste) e à criação extensiva de animais (sudoeste).

Figure 3.

FIGURA 3: Proporções de palatalização em comunidade gaúchas

Fonte: Os Autores

Os estudos cujos resultados estão registrados na Figura 3 usam dados de quatro bancos, NURC, VARSUL, BDSer e BDSPampa6. Auxiliam a ilustrar o contraste interior-capital, de alto índice de palatalização em Porto Alegre7, e de índices moderados a baixos no interior. A existência de entrevistas sociolinguísticas de uma mesma comunidade, Flores da Cunha, em dois bancos, VARSUL e BDSer, oferece a rara oportunidade de realizar análise em tempo real, estudo de tendência (com dados não exatamente dos mesmos sujeitos, mas de sujeitos com semelhante perfil social – idade, sexo/gênero – coletados em dois pontos no tempo diferentes) da palatalização de /t/ e /d/, para comprovar a progressão da regra variável no intervalo de vinte anos, tendência que análises em tempo aparente (com dados coletados num só ponto no tempo) vêm apontando, como se vê a seguir.

2. Revisão de literatura

Embora sejam muitos os estudos de palatalização de /t/ e /d/ no português brasileiro, a breve revisão de literatura que se faz aqui dá atenção somente a análises em Flores da Cunha e com dados dos dois bancos de interesse, VARSUL e BDSer.

Para investigar a palatalização em Flores da Cunha (RS), Almeida (2000) utilizou vinte e quatro entrevistas sociolinguísticas de informantes do VARSUL. A frequência total de aplicação da regra foi de 47%. Foram controladas as variáveis linguísticas Contexto Fonológico Precedente e Seguinte, Sonoridade, Tonicidade, Tipo de Vogal Alta; e as variáveis extralinguísticas Idade, Escolaridade e Gênero. Favorecem a palatalização vogal, vibrante, fricativa alveolar precedente, e lateral e labial seguinte, como também a oclusiva surda /t/, a sílaba postônica final e a vogal alta derivada de /e/ átono. As três variáveis sociais mostraram-se relevantes para o processo: promovem a palatalização as mulheres, os indivíduos que completaram o ensino médio e aqueles com menos de 50 anos de idade, o que leva o autor a afirmar a existência de mudança em progresso na comunidade, conduzida pelas mulheres ao adotarem a variante de maior prestígio.

Battisti; Dornelles Filho (2012) investigaram a palatalização de /t/ e /d/ em Flores da Cunha (RS) com dados de quarenta e oito entrevistas sociolinguísticas do BDSer. Verificaram uma proporção total de aplicação da regra de 29%. O processo é condicionado tanto linguística quanto socialmente: jovens, vogal alta fonológica, habitantes de zona urbana e consoante-alvo desvozeada favorecem a palatalização. Embora tenham constatado que o processo tende a progredir na comunidade, a análise da variação como prática social (Eckert, 2000) com o estudo da rede social dos informantes mostrou que a alta densidade da rede, nucleada por informantes de grupos etários mais velhos, refreia a palatalização. O estudo etnográfico revela que os habitantes de Flores da Cunha, em especial os jovens, realizam práticas sociais inovadoras ao lado de práticas tradicionais, introduzindo a palatalização na comunidade. O emprego das formas palatalizadas é valorado como não local e é relativamente prestigiado.

As análises de regra variável realizadas observam a mudança em tempo aparente, isto é, mediante análise da aplicação da regra por diferentes grupos etários. A conclusão geral é a de que falantes jovens palatalizam mais do que falantes velhos, sugerindo que a regra tende a progredir na comunidade. Dentre os condicionadores sociais, além de Idade destaca-se a variável Gênero, com Feminino favorecendo a aplicação da regra. Dentre os condicionadores linguísticos, têm papel favorecedor a vogal alta subjacente e a consoante-alvo desvozeada. Contexto fonológico precedente e seguinte podem ter algum papel.

A comparação dos resultados de Almeida (2000) e de Battisti; Dornelles Filho (2012) poderia viabilizar o cumprimento do objetivo do presente estudo, o de realizar análise em tempo real. No entanto, seus resultados não são comparáveis porque (i) a estratificação etária não é a mesma. Almeida (2000), seguindo a estratificação do próprio VARSUL, divide os informantes em menos de 50 anos, mais de 50 anos de idade. Battisti; Dornelles Filho (2012), em conformidade com a estratificação do BDSer, consideram quatro grupos etários (18-29 anos, 30-49 anos, 50-69 anos, 70 ou mais anos); (ii) a amostra de Almeida (2000) é bastante menor, com dados de 24 entrevistas, Battisti; Dornelles Filho (2012) usam dados de 48 entrevistas; (iii) além disso, é de se estranhar que nos dados do VARSUL tenha se verificado 47% de palatalização (Almeida 2000) e, nos do BDSer, 29% (Battisti; Dornelles Filho, 2012), parecendo apontar regressão da regra, quando as análises registram a tendência de progressão na comunidade. Esses resultados podem derivar da diferente codificação das formas palatalizadas, mas não africatizadas, registradas como não aplicação da regra em Battisti; Dornelles Filho (2012). Ou da presença, entre os contextos de aplicação da regra considerados por esses autores, de dados com vogal /e/ em posição átona que não vêm a se elevar, característica do português local de contato com a fala dialetal italiana, dados esses que podem ter mascarado a proporção total de aplicação da regra verificada.

Essas considerações estão na base da justificativa para a realização da análise aqui pretendida, da palatalização variável de /t/ e /d/ em Flores da Cunha em tempo real, com dados do VARSUL e do BDSer: a necessidade de empregar dados e procedimentos comparáveis. Será usado igual número de entrevistas, informantes com a mesma estratificação por idade, o mesmo critério de registro de aplicação-não aplicação da regra, e serão considerados apenas dados com vogal /e/ em sílaba átona em que há a efetiva elevação da vogal. É uma análise em tempo real, estudo de tendência, o que empreendemos, conforme a metodologia explicitada a seguir.

3. Metodologia

Na análise em tempo real, estudo de tendência (Labov, 1994), analisam-se dados de fala de entrevistas realizadas em momentos distintos no tempo, na mesma comunidade de fala, com informantes de mesmo perfil, mas não exatamente os mesmos informantes. Para tanto, utilizam-se neste estudo dados de doze entrevistas sociolinguísticas de informantes de Flores da Cunha do VARSUL realizadas em 1990 e doze do BDSer realizadas de 2008 a 2009 no mesmo município. Como a estratificação etária é diferente nesses dois bancos – os informantes do VARSUL distribuem-se em dois grupos etários, os do BDSer, em quatro – consultou-se a Ficha Social dos informantes e, com base na idade declarada no momento das entrevistas, conseguiu-se chegar a três grupos etários (25 a 39 anos, 40 a 59 anos, 60 ou mais anos) compatíveis nos dois bancos. Além disso, distribuíram-se os informantes por sexo/ gênero (masculino e feminino).

Os dados levantados das vinte e quatro entrevistas foram codificados conforme as seguintes variáveis: (a) Dependente: palatalização de /t d/ desencadeada por vogal anterior alta subjacente /i/ (tia~[t_F]ia, dia~[d_y] ia) ou por [i] derivado de /e/ em sílaba átona (gente~gen[t_Fi], onde~on[d_yi]); (b) Independentes – sociais: Idade (25-39, 40-59, 60 ou mais anos) e Sexo/Gênero (feminino, masculino); Independentes – linguísticas: Contexto Fonológico Precedente, Contexto Fonológico Seguinte, Status da Vogal Alta, Qualidade da Consoante-Alvo, Posição da Sílaba na Palavra, Tonicidade. Os dados codificados foram então submetidos ao pacote de programas VARBRUL, versão Goldvarb x, para análise de regra variável (Labov, 1972), com que se buscou verificar se, no intervalo de vinte anos, a palatalização teria progredido na comunidade, se a tendência à progressão da regra ainda se mantém, como também as variáveis condicionadoras do processo.

Uma análise estatística complementar explorou pressupostos labovianos para esclarecer os resultados das variáveis sociais. De acordo com Labov (1994: 83) e o pressuposto da mudança geracional (generational change, em inglês), nosso sistema fonológico está definido na juventude e se estabiliza na vida adulta. Mudanças linguísticas resultam de mudanças na comunidade8. Já pelo pressuposto da assimetria na transmissão linguística (asymmetry of language transmission, em inglês) de Labov (2010: 198), homens da geração mais velha (geração 1) não se envolvem na mudança, homens entre 30 e 50 anos (geração 2) são os primeiros a terem mães afetadas pelos processos e mostram um incremento rápido nos valores de aplicação equivalentes aos de suas mães (entre 50 e 70 anos de idade). Assim, homens estarão cerca de uma geração atrás de suas mães até o fim do processo, quando a diferença de sexo/gênero diminui. É o que pode explicar a eventual aproximação nos índices dos fatores feminino e masculino num intervalo de tempo.

Consultaram-se as Fichas Sociais dos vinte e quatro informantes que forneceram dados para a análise (quantitativa) em tempo real, buscando a idade declarada pelo informante no momento da entrevista. Seguindo o pressuposto da mudança geracional, tomou-se (arbitrariamente) a idade de quinze anos como aquela em que o sistema fonológico se estabilizaria e calculou-se o ano em que cada informante tinha quinze anos. Com essa informação, procedeu-se a uma regressão logística da aplicação da palatalização em função da idade de estabilização e também da idade estratificada por sexo/gênero.

4. A análise

A análise quantitativa de 7944 dados de fala de Flores da Cunha, 4710 levantados de entrevistas do VARSUL (1990) e 3234 de entrevistas do BDSer (2008-2009), mostrou que a tendência a palatalizar aumentou na comunidade nos últimos vinte anos. É o que indicam os valores de Input (numa escala e 0 a 1) para os dados do VARSUL, de 0,37 e para os dados do BDSer, de 0,53. A proporção total de aplicação da regra em cada amostra conforma-se à tendência expressa pelos valores de Input: foi de 41,7% nos dados do VARSUL e de 51,7% nos dados do BDSer, como se vê na Figura 4:

Figure 4.

FIGURA 4: Proporção total de aplicação da regra nos dados do VARSUL e do BDSer

Fonte: Os Autores

Chama atenção, na ordem de seleção dos fatores apontados como mais significativos pelo programa de análise estatística, uma mudança no posicionamento da variável Sexo/Gênero: foi a primeira colocada na análise da amostra do VARSUL, passou a terceira colocada na análise da amostra do BDSer, superada por Idade, como se vê no Quadro 1.

Table 1.

QUADRO 1: Variáveis selecionadas na análise quantitativa das amostras do BDSer e do VARSUL

VARSUL (1990) BDSer (2008-2009)
(1º) Sexo/Gênero (2º) Status da vogal alta (3º) Contexto fonológico seguinte (4º) Qualidade da consoante-alvo (5º) Idade (1º) Idade (2º) Status da vogal alta (3º) Sexo/Gênero (4º) Qualidade da consoante-alvo (5º) Contexto fonológico seguinte
Fonte: Os Autores

Entre os grupos de fatores selecionados estão variáveis linguísticas e sociais, mostrando o relevo das restrições gramaticais no condicionamento da palatalização, além das sociais. Abordaremos os resultados de duas variáveis linguísticas listadas no Quadro 1, Status da vogal alta e Qualidade da consoante-alvo, que se mostram condicionadoras em praticamente todas as análises da palatalização em comunidades da antiga região colonial italiana do Rio Grande do Sul.

Quer na ordem de seleção, quer nos pesos relativos obtidos, a variável Status da vogal alta vem mantendo seus efeitos: o fator Vogal alta fonológica /i/ condiciona a palatalização nas duas amostras, do VARSUL e do BDSer, o fator Vogal alta fonética desfavorece a aplicação da regra (Figura 5).

Figure 5.

FIGURA 5: Resultados em pesos relativos para a variável Status da vogal alta nas amostras do VARSUL e do BDSer

Fonte: Os Autores

Em vinte anos, pode-se notar um leve aumento no distanciamento dos pesos relativos das duas vogais, o que parece indicar que o sistema da comunidade pode estar fixando a distinção entre os tipos de vogal- gatilho, fonológica ou fonética/derivada, com a seleção do primeiro. Isso colabora para o estabelecimento do padrão local, com palatalização, mas moderada.

Figure 6.

FIGURA 6: Resultados em pesos relativos para a variável Qualidade da consoante-alvo nas amostras do VARSUL e do BDSer

Fonte: Os Autores

Como a variável Status da vogal alta, a variável Qualidade da consoante- alvo mantém seus efeitos no intervalo de vinte anos: o fator consoante desvozeada /t/ condiciona a palatalização, o fator consoante vozeada

/d/ desfavorece. A motivação para esse efeito da consoante desvozeada parece ser articulatório: na produção do segmento palatalizado, a energia concentra-se na parte frontal da cavidade oral, como na realização das consoantes desvozeadas, produzidas sem a vibração das pregas vocais, a energia concentrando-se na cavidade supra-glótica. (ASHBY, 2011) Percebe-se, no entanto, uma aproximação nos pesos relativos dos dois fatores, sugerindo a possibilidade de a distinção entre as consoantes vir a se desfazer futuramente, com o incremento na aplicação da regra.

O controle da variável Idade nas duas amostras confirma que a palatalização de /t/ e /d/ é mudança em progresso em Flores da Cunha: os pesos relativos dos grupos etários mais jovens são maiores do que os pesos dos grupos mais velhos. Chama atenção o fato de o grupo etário mais jovem ter despontado na amostra mais recente, do BDSer (Figura 7).

Figure 7.

FIGURA 7: Resultados em pesos relativos para a variável Idade nas amostras do VARSUL e do BDSer

Fonte: Os Autores

Uma explicação para o efeito condicionador do grupo etário mais jovem, como já sugerido por Battisti; Dornelles Filho (2012), está no fato de os jovens de Flores da Cunha terem, hoje, mais mobilidade territorial: deslocam-se a centros urbanos maiores para estudar, trabalhar e, eventualmente, para atividades de lazer, mas retornam a Flores da Cunha, onde seguem residindo, mesmo que não seja na zona rural (na ‘colônia’, no vocabulário local). Nisso, aumentam as oportunidades de interação com pares de outras comunidades, tornando sua fala suscetível a inovações como a palatalização.

Em relação à variável Sexo/Gênero, os pesos relativos obtidos na análise das duas amostras revelam que o fator feminino tem o mesmo papel, condiciona a palatalização em Flores da Cunha. No entanto, verifica-se a aproximação nos valores de peso relativo dos fatores feminino e masculino, como mostra a Figura 8.

Figure 8.

FIGURA 8: Resultados em pesos relativos para a variável Sexo/Gênero nas amostras do VARSUL e do BDSer

Fonte: Os Autores

Haveria, nessa aproximação dos pesos relativos, um indício de que a oposição feminino-masculino tende a desaparecer futuramente, com o incremento da aplicação da regra? A resposta parece ser afirmativa. Não só o aumento do peso relativo em vinte anos, como o incremento nas proporções de aplicação do fator masculino são significativos: houve aumento de 17% para 40% de palatalização pelo fator masculino da amostra do VARSUL para a do BDSer, e diminuição de 65% para 59% de palatalização pelo fator feminino. Por que a proporção da aplicação da regra pelo fator feminino diminuiu e pelo masculino aumentou? Que mudanças na comunidade justificariam alterações nas tendências de sexo/gênero?

A análise estatística complementar, fundamentada pelos pressupostos labovianos de mudança geracional e assimetria na transmissão linguística (ver seção 3, Metodologia), auxilia a compreender os efeitos do fator masculino. Inicialmente, tomando-se a idade de quinze anos como aquela em que o sistema fonológico se estabiliza, calculou-se o ano em que cada informante tinha quinze anos. Com essa informação, efetuou-se uma regressão logística, para verificar a proporção estimada de aplicação de palatalização à época em que se estabilizou o sistema fonológico dos informantes (Figura 9).

Figure 9.

FIGURA 9: Regressão logística da aplicação de palatalização em função da data de estabilização linguística do informante (dados totais)

Fonte: Os Autores

Na Figura 9, 1990 refere-se a informantes do VARSUL, 2008, a informantes do BDSer. A curva de regressão logística mostra que, à medida que o tempo passa, incrementa-se a proporção de palatalização. O sistema fonológico adquirido pelos florenses foi apresentando índices maiores de palatalização nas sucessivas gerações.

Os efeitos da variável Sexo/Gênero são visíveis na Figura 10, que traz o resultado da regressão logística estratificados nos fatores feminino e masculino.

Figure 10.

FIGURA 10: Regressão logística da ocorrência de palatalização em função da data de estabilização linguística do informante (estratificação por sexo/gênero)

Fonte: Os Autores

Na Figura 10, a linha de regressão mais clara mostra que a aplicação da regra pelo fator feminino é mais alta do que a aplicação pelo fator masculino, mas se mantém praticamente estabilizada em quase cem anos. E, há quase cem anos, já havia palatalização na fala de mulheres quando o processo era inexistente na fala dos homens. É o que mostra a linha de regressão mais escura, que representa, além disso, o rápido aumento da palatalização pelo fator masculino entre os anos 1950 e 1990. Se houve progressão da regra por sexo/gênero, ela ocorreu na fala masculina, como parte do padrão previsto pelo pressuposto da assimetria na transmissão linguística.

Conclusão

A análise em tempo real da palatalização de /t/ e /d/ em Flores da Cunha (RS) confirma o que análises em tempo aparente haviam captado: a aplicação da regra variável vem sendo incrementada com o passar do tempo, o que caracteriza variação na mudança em progresso. O exame de dados coletados em dois momentos (amostras do VARSUL e do BDSer), com um intervalo de quase vinte anos entre as coletas, revela o papel condicionador das variáveis linguísticas Status da Vogal Alta e Qualidade da Consoante-Alvo, em seus fatores vogal alta fonológica e consoante-alvo desvozeada, respectivamente; e das variáveis sociais Idade e Sexo/Gênero, em seus fatores 25 a 39 anos e feminino.

Exceto pelos valores de peso relativo obtidos para os fatores da variável Status da vogal alta, que se distanciaram, os valores dos pesos relativos dos fatores das demais variáveis aproximaram-se, sugerindo a possibilidade de, futuramente, seus efeitos opostos virem a se desfazer com o incremento da palatalização. Já os efeitos de vogal alta fonológica /i/ (condicionador) e vogal alta fonética/derivada [i] (desfavorecedor), distanciados na amostra mais recente, parecem estar contribuindo para estabelecer o sotaque local, com palatalização por /i/, mas não no contexto de /e/ átono, e, assim, fazendo perdurar o contraste interior/ capital hoje verificado em relação à palatalização.

O exame, por regressão logística, da interação de sexo/gênero, idade de estabilização linguística (do sistema fonológico) e proporção de palatalização dos informantes permite concluir que o sexo/gênero feminino, condicionador da aplicação da regra, vem mantendo seus efeitos já há algumas gerações. O sexo/gênero masculino, embora se mostre desfavorecedor na análise de regra variável, vem incrementando a palatalização, marcadamente a partir da segunda metade do século passado, o que se conforma ao pressuposto laboviano da assimetria na transmissão linguística: os homens situam-se pelo menos uma geração atrás das mulheres na aquisição e difusão dos processos variáveis inovadores.

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Recebido em 13/02/2015 e Aceito em 10/06/2015.