Resumo

O trabalho focaliza o processo de mudança em curso do apagamento do R em posição de coda silábica final e medial (cantaØ ~ cantar; maØ ~ mar; sorte ~ soØte; cerveja ~ ceØveja), no português brasileiro. Os dados foram extraídos de entrevistas informais (dialeto padrão) com jovens e idosos de nove capitais da região Nordeste do Brasil e a análise faz uso da metodologia sociolinguística (Labov, 1994). Os resultados mostram que o processo se encontra em estágios diferentes, a depender da cidade de origem do falante e do tipo de coda, e é sensível a variáveis estruturais e sociais. 

Introdução1

Neste trabalho, focaliza-se o processo de apagamento do R, em posição de coda silábica medial e final, a partir de amostras de fala culta do Projeto Atlas Linguístico do Brasil (Projeto ALiB), provenientes das nove capitais do Nordeste Brasileiro.

É em função da vitalidade do fenômeno, que se apresenta tão diverso em áreas dialetais distintas, não só quanto às múltiplas formas de atualização nos falares brasileiros, mas também quanto ao estágio do processo, que o tema já fez correr tanta tinta e desperta cada vez mais interesse por parte de linguistas.

Por um lado, pode-se antever o final de linha para esse processo de mudança -- que aponta para a perda total do R em posição de coda silábica final, em algumas regiões -- por outro, é indispensável proceder a uma análise do fenômeno em escala geográfica, levando em conta as multifaces das realizações do R e seus condicionantes. Esta é a nossa tarefa neste artigo, que se encontra estruturado da seguinte forma: a seção 1 é dedicada à apresentação dos objetivos, do corpus e do aparato teórico-metodológico do estudo; na seção 2 faz-se uma retrospectiva concernente a alguns aspectos relacionados ao tema; e, na seção 3, analisam-se os resultados.

1. Objetivos, corpus e aparato teórico-metodológico

1.1 Objetivos

O objetivo geral do trabalho é apresentar os índices de apagamento do rótico em posição de coda silábica, nas capitais do Nordeste, visto que estudos anteriores, também com base na chamada norma culta, revelam um avanço do processo de cancelamento em capitais dessa região do país (Callou, Leite & Moraes, 1996; Serra & Callou, 2013; Farias & Oliveira, 2013).

O Atlas Linguístico do Brasil (Cardoso et alii, 2014), publicado recentemente, já apresenta três cartas que retratam o apagamento do rótico nas 25 capitais brasileiras inquiridas, embora, nelas, os resultados para o apagamento do segmento na fala dos indivíduos com nível superior completo e dos indivíduos que cursaram até a 7a série sejam apresentados conjuntamente. As cartas F04C1 e F04C2 referem-se à coda final, em nomes e verbos, respectivamente, e a carta F04C5 refere- se à coda medial.

Pretende-se ainda mostrar que o apagamento do R não se restringe à coda silábica final, já atingindo a coda medial, naqueles dialetos em que a norma de pronúncia do segmento é sempre [- vibrante] e [- anterior].

Parte-se, para tanto, de trabalhos anteriores sobre os róticos, em que vários fatores já foram apontados como relevantes, entre os quais, classe morfológica, dimensão do vocábulo (saliência fônica), contexto fonológico subsequente, além da região de origem do falante, faixa etária e gênero (Oliveira, 1983; Callou, 1987; Callou, Moraes & Leite, 1996; Hora & Monaretto, 2003, 2010; Callou & Serra, 2012; Serra & Callou, 2013; 2015; entre outros). Mais recentemente, a perda do segmento tem sido observada em relação ao tipo fronteira prosódica em que se encontra o rótico (Callou & Serra, 2012; Serra & Callou, 2013, 2015).

1.2 Corpus e aparato teórico-metodológico

Nosso corpus é composto de amostras de fala culta do Projeto ALiB, estratificadas em duas faixas etárias (de 18 a 30 anos e de 50 a 65 anos) e extraídas do momento mais informal das entrevistas, denominado Discurso semidirigido, em que os entrevistados discorrem livremente sobre um tema proposto. O comportamento linguístico de falantes mais escolarizados das nove capitais do Nordeste -- a saber, São Luís, Teresina, Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Maceió, Aracaju e Salvador -- constitui, portanto, o foco do trabalho. A tabela 1 apresenta os dados considerados nesta parte do estudo.

Table 1.

TABELA 1 – Distribuição da amostra. Número de ocorrências de apagamento, por capital, em coda final e medial – ALiB Capitais do Nordeste

Capital Coda final Coda medial
Verbos Não-verbos
Oco/Tot Oco/Tot Oco/Tot
São Luís 125/133 56/91 2/235
Teresina 191/228 87/151 4/232
Fortaleza 259/264 90/108 6/245
Natal 154/160 50/70 42/275
João Pessoa 113/116 55/58 43/197
Recife 357/364 84/125 32/299
Maceió 414/422 93/112 94/415
Aracaju 366/442 72/137 23/520
Salvador 433/446 135/152 16/252
Total 2575 1004 2670

As amostras são recentes, gravadas já nos anos 2000. Registraram- se 3.579 ocorrências de R, em posição de coda silábica final, e 2.670 ocorrências, em posição de coda silábica medial. O levantamento, a codificação e a análise dos dados seguem o aparato teórico-metodológico da sociolinguística quantitativa laboviana (Labov, 1994) e o programa estatístico utilizado foi o GOLDVARB X.

Fenômenos variáveis podem ser observados sob diferentes perspectivas. A visão da sociolinguística laboviana está relacionada a uma teoria da mudança que leva em conta a forma como a estrutura linguística heterogênea pode ser afetada por condicionamentos estruturais e sociais. Weinreich; Labov; Herzog (1968:102) apresentam propostas concretas concernentes aos fundamentos empíricos para uma teoria de mudança linguística e de sua natureza. Os autores afirmam que certos princípios devem ser levados em conta, a saber, as condições da mudança (‘constraint problem’); a questão da transição (estágios da mudança em progresso); o encaixamento da mudança na estrutura linguística e social; o problema da avaliação, que lida com o nível de consciência do falante sobre as formas linguísticas em uso; e a transmissão da mudança, que envolve estímulos e restrições, tanto sociais quanto linguísticos.

É evidente a dificuldade de desvendar o enigma da transmissão da mudança, em função do número de fatores que a influenciam: a mudança tem início quando uma das muitas características variáveis da fala se espalha através de um grupo específico em uma comunidade.

Até certo ponto, todas essas questões devem ser consideradas quando se pretende diferenciar variedades linguísticas continentais e/ou variantes de uma mesma variedade, como é o caso dos diversos falares do português do Brasil, por exemplo. Devido ao fato de a variação na produção do rótico poder ser considerada uma tendência universal (Callou, 1987), vários trabalhos foram e continuam sendo feitos no sentido de descrever a direção da mudança e seu encaixamento na estrutura linguística e social.

2. Uma retrospectiva

Em trabalhos já realizados, sob várias perspectivas (Hammarström, 1953; Mateus, 1975; Callou, 1987; Callou et alii, 1996; Abaurre & Sândalo, 2003; Monaretto, 2010), afirma-se que o domínio estrito do apagamento é a sílaba (Callou et alii, 1998) ou nem se entra na discussão sobre o tema. Além disso, os estudos sobre o fenômeno apontam a necessidade de se considerar separadamente o comportamento do R em coda medial e em coda final.

Em Callou & Serra (2012) e em Serra & Callou (2013, 2015), postula- se que o domínio do cancelamento vai além da sílaba e que seu locus tem relação, na verdade, com o tipo de fronteira prosódica (palavra prosódica » sintagma fonológico » sintagma entoacional) em que se encontra o segmento.

Pode-se pensar ainda numa correlação entre o avanço do processo de apagamento em coda silábica final e medial: nas capitais em que o apagamento do segmento, em coda final, pode ser considerado uma mudança quase categórica, seriam registrados, paralelamente, os maiores índices de apagamento em coda medial.

Outro aspecto relevante diz respeito ao fato de o apagamento do rótico se ter mostrado sempre mais frequente em verbos. A hipótese é a de que a presença do R, em coda silábica final, constituiria, no caso, uma marca morfológica de caráter redundante, já que o infinitivo e o subjuntivo futuro são marcados também pelo acento lexical na última sílaba. O mesmo não acontece com os não-verbos, já que neles a coda não representa marca morfológica independente, embora o fenômeno do apagamento venha atingindo, paulatinamente, também os não- verbos, nos dialetos em que o processo de apagamento da coda final em verbos já se encontra muito avançado.

A dimensão do vocábulo também tem se mostrado importante na observação do cancelamento do rótico: a partir da hipótese da saliência fônica, espera-se que, em vocábulos com maior número de sílabas haja maior probabilidade de apagamento do R, pois o segmento seria, aí, menos saliente.

Em contexto final de vocábulo, resultados de diversos trabalhos apontam a atuação da pausa como um inibidor ao processo de cancelamento, visto que essa é uma pista acústica associada à fronteira de sintagma entoacional (Serra & Callou, 2013, 2015). A presença de um vocábulo subsequente iniciado por vogal nem sempre garante a realização do rótico, apesar da possibilidade de o R ser ressilabificado em ataque da sílaba subsequente.

Em coda silábica medial, o tipo de consoante subsequente parece ser um fator estrutural importante para a perda da coda silábica. Verifica- se, historicamente, que a presença de uma consoante de articulação aproximada à do rótico favorece processos assimilatórios que podem levar ao cancelamento de um dos segmentos.

Em relação às localidades por nós estudadas, trabalhos que focalizam a norma culta apontam uma frequência alta de apagamento em algumas capitais do Nordeste Brasileiro, como Salvador, Recife e João Pessoa (Callou et alii, 1996; Farias & Oliveira, 2013; entre outros). Dessa forma, ao mesmo tempo que se espera que em todas as capitais do Nordeste haja índices expressivos de apagamento, em função de a norma de pronúncia dos róticos ser semelhante, pode-se pensar também em comportamentos, em certa medida, diferenciados, por conta das peculiaridades na formação sócio-histórica de cada área, por exemplo.

De acordo com Serra & Callou (2013: 589-590), as variáveis sociais, gênero e faixa etária também atuariam no processo de mudança. Segundo as autoras, é possível observar que, já na década de 70, o processo não atua da mesma forma nas três faixas etárias do NURC (faixa 1, de 25 a 35 anos, faixa 2, de 36 a 55 e faixa 3, de 56 anos em diante). Salvador e Porto Alegre apresentam, na década de 70, uma curva de mudança em progresso, com índices altos de apagamento na primeira faixa etária, enquanto o Rio de Janeiro apresenta relativa estabilidade nas três faixas. Entre as mulheres jovens, a frequência de apagamento em verbos já atingia 97%, em Salvador, e, em Porto Alegre, 93%, o que vem ao encontro da tese de que, nos processos de mudança sonora, as mulheres estão, em geral, uma geração à frente dos homens (Gauchat, 1905).

3. Resultados e Discussão

3.1 Resultados gerais: coda medial e coda final

Em função do comportamento diferenciado do R em coda silábica medial e final (Callou et alii, 1996), os resultados serão apresentados, separadamente, em cada contexto.

Em relação à coda silábica final, os resultados dão conta da mudança em direção ao apagamento do rótico, na Região Nordeste, embora os percentuais sejam diferenciados, a depender da classe morfológica dos vocábulos, se verbos ou não-verbos (Gráfico 1 e 2). Observem-se também os exemplos 1 e 2, na sequência.

Figure 1.

GRÁFICOS 1 e 2: Distribuição geral dos dados de coda silábica final: verbos (oco: 2.575) e não-verbos (oco: 1004) – ALiB Capitais do Nordeste

1) “às vezes vou pra casa almoçaO, às vezes não” (ALiB - Natal)

2) “Prostituta... MulheO da vida” (ALiB - Natal)

Em posição de coda silábica medial (Gráfico 3), a análise geral de dados, no conjunto de todas as capitais, revela um percentual de 10% de apagamento do rótico. Este índice, entretanto, nivela a diferenciação por região (o exemplo 3 ilustra um caso de manutenção do R e o exemplo 4, seu cancelamento). Essa variável é selecionada pelo programa computacional em primeiro lugar, o que nos leva a fazer rodadas específicas para cada uma das cidades (cf. Seção 3.2.2).

Figure 2.

GRÁFICO 3: Distribuição geral dos dados de coda silábica medial (oco: 2.670) – ALiB Capitais do Nordeste

3) “O doRso do cavalo” (ALiB - Maceió)

4) “e a tendência dela, claro, que é mu1cha1 mesmo...” (ALiB - Recife)

3.2 Distribuição Regional: heterogeneidade linguística e social

3.2.1 Coda final

Na Figura 1, a seguir, são apresentados os percentuais de apagamento do R, em verbos, em cada uma das capitais do Nordeste.

Figure 3.

FIGURA 1: Região e apagamento do rótico em coda final (verbos), percentuais – ALiB Capitais do Nordeste

Observe-se que em sete cidades do Nordeste o índice de apagamento é superior a 90% e, em duas, é superior a 80%, a saber, Aracaju e Teresina. A regra se configura como semi-categórica, sem apresentar, praticamente, restrições de natureza estrutural e/ou social. De referência a Aracaju, capital que apresenta, relativamente, percentual mais baixo de cancelamento, a única variável a ser selecionada é contexto subsequente (vogal; consoante; pausa), revelando que a presença de pausa propicia menos o cancelamento do rótico (Tabela 2). Para Teresina, não houve seleção de nenhuma variável.

Table 2.

TABELA 2: Apagamento do rótico em coda final (verbos), no de ocorrências, percentual e peso relativo – ALiB Aracaju. Input .83

Contexto subsequente Oco/ Total % Peso relativo
Pausa 88/129 68 0.28
Vogal 121/133 91 0.65
Consoante 157/180 87 0.55

Seguindo uma perspectiva prosódica, os trabalhos de Serra & Callou (2013, 2015) têm buscado explicar a atuação da pausa como um inibidor ao processo de cancelamento, não só na variedade brasileira, mas também na variedade europeia do português. A intenção das autoras é discutir a importância de levar em conta o encaixamento do fenômeno segmental na estrutura prosódica.

De acordo com a teoria da hierarquia prosódica (Selkirk, 1984; Nespor & Vogel, 1986/2007), a prosódia de um enunciado é vista como uma estrutura hierárquica, organizada fonologicamente em determinados constituintes: sílaba, pé métrico, palavra prosódica, sintagma fonológico, sintagma entoacional e enunciado fonológico. Cada constituinte prosódico atua como âmbito de processos fonológicos específicos, que podem ser aplicados (variavelmente) ou bloqueados de acordo com os limites desses domínios (Nespor & Vogel, 1986/2007; Battisti & Vieira, 1996; Bisol, 1996; 2002; Tenani, 2002).

O processo de cancelamento do R se aplica, variavelmente, na fronteira direita de todos os constituintes prosódicos, inclusive na fronteira de sílaba, em coda medial, como visto na seção antecedente. A fronteira direita de sintagma entoacional (IP), entretanto, tem se mostrado menos propícia ao cancelamento. É a essa fronteira prosódica que está relacionada à pausa silenciosa. O domínio de IP -- em muitas línguas – é (i) o locus de alongamentos pré-fronteira, (ii) de inserção de pausas, e (iii) altamente relevante para a entoação, ou seja, é o constituinte, por excelência, ao qual se agregam os contornos entoacionais através da distribuição de eventos tonais: acentos tonais associando-se à cabeça (última sílaba tônica do enunciado) desse constituinte prosódico e tons de fronteira, às suas fronteiras direita e esquerda (Serra, 2009).

No que se refere à atuação da pausa, nossos resultados vão ao encontro do apontado nos trabalhos de Serra & Callou (2013, 2015), já que é precisamente na presença dessa pista acústica – que marca a fronteira direita do IP, que o processo tende à não-aplicação. O exemplo 5, a seguir, de um falante de Aracaju, ilustra a realização do R, no verbo “chamar”, que se encontra em fronteira de IP e seguido de pausa silenciosa. Simbolizam-se também a palavra prosódica (prosodic word), com o pw, e o sintagma fonológico (phonological phrase), com o php.

5) “[((O almoço)pw )php ((está)pw (pronto)pw )php ]IP, [((não) pw (precisa)pw )php ((nem)pw (chamaR....)pw )php ]IP” (ALiB - Aracaju)

Os resultados das autoras, com base em dados atuais da fala de jovens cariocas e lisboetas (www.concordancia.letras.ufrj.br), dão conta da importância da informação prosódica para a ocorrência do cancelamento do rótico: o fenômeno encontra seu locus ideal de aplicação na fronteira de palavra prosódica e de sintagma fonológico, mas já atinge tanto a fronteira mais alta de sintagma entoacional (IP), a despeito de portar informação entoacional relevante, quanto a mais baixa da sílaba interna à palavra.

É interessante notar (Tabela 2) que uma informação prosódica parece ganhar a queda-de-braço sobre uma informação segmental, já que a pausa favorece menos o cancelamento que a presença de um vocábulo subsequente iniciado por vogal, que garantiria a realização do rótico, pela possibilidade de o R ser ressilabificado em ataque da sílaba subsequente.

Vejam-se, na Figura 2, a seguir, os percentuais de apagamento do R, em não-verbos.

Figure 4.

FIGURA 2: Região e apagamento do rótico em coda final (não- verbos), percentuais – ALiB Capitais do Nordeste

Verifica-se que, para os não-verbos, a distribuição do cancelamento do rótico entre as capitais estudadas não é tão uniforme quanto a dos verbos. A distribuição do processo na região Nordeste seria, então, tripartida:

1. Em alguns pontos o processo atua de forma semelhante em verbos (V) e não-verbos (NV) (João Pessoa – V: 97%, NV: 95%; Salvador – V: 97%, NV: 89%; Maceió – V: 98%, NV: 83%; e Fortaleza – V: 98%, NV: 83%), sendo possível antever, para essas capitais, a etapa final da mudança que se implementou pela substituição da consoante fricativa laríngea pelo zero fonético;

2. Em três localidades (Natal – V: 96%, NV: 71%; Recife – V: 98%, NV: 67%; e São Luís – V: 94%, NV: 62%), o processo é muito frequente em verbos e um pouco menos frequente em não-verbos, demonstrando a relevância, ainda, da informação sobre a classe morfológica dos itens;

3. Em duas cidades -- uma do litoral (Aracaju – V: 83%, NV: 53%) e outra mais para o interior (Teresina – V: 84%, NV: 58%) --, o comportamento é diferenciado: em geral, os percentuais de apagamento são mais baixos, comparados aos das demais capitais, e em não-verbos o processo está apenas a meio termo.

Em João Pessoa, a mudança é quase categórica e não apresenta restrições de qualquer natureza, ou seja, o cancelamento do rótico ocorre em contexto de coda silábica final, independentemente da classe morfológica do vocábulo ou de qualquer outro fator estrutural ou social.

Nas demais cidades, a dimensão do vocábulo se mostrou um fator relevante: o número de sílabas sempre foi selecionado pelo programa, que aponta o apagamento do rótico em não-verbos como muito menos frequente em monossílabos.

No que se refere às variáveis sociais, o gênero do falante é um fator selecionado em Maceió, Recife e Fortaleza, sendo as mulheres as que mais cancelam o R em coda final de não-verbos, nessas capitais. A faixa etária se mostrou significante em Aracaju e Fortaleza: a fala dos mais jovens sempre apresentando índices maiores de apagamento do rótico.

Foi realizada a tabulação cruzada entre os grupos de fatores sociais gênero e faixa etária. Os resultados, para quase todas as capitais, indicam os mais jovens, ora os homens ora as mulheres, como os propulsores da mudança.

Voltando aos princípios propostos por Weinreich; Labov; Herzog (1968:102) para o estudo da mudança linguística, podemos encontrar, a partir da observação que se fez até aqui, as pistas 1) para o encaixamento da mudança na estrutura linguística e social, já que o processo ainda apela para a categoria gramatical do vocábulo e para o perfil social do falante; 2) para a questão dos estágios da mudança em progresso, pois que a distribuição geográfica dá conta da gradiência do fenômeno por grupos de falares (não necessariamente contíguos geograficamente); 3) para o problema da avaliação, tendo em vista que, se os falantes são mais escolarizados, a mudança se dá no sentido de um uso que não é (mais) estigmatizado; e 4) para a transmissão da mudança, que tem como representante principal a comunidade mais jovem.

Resta comentar, antes de passar para a seção que trata da coda medial, o comportamento diferenciado das capitais Aracaju e Teresina em relação às demais. Essas duas capitais se assemelham pelo fato de apresentarem os índices mais baixos de cancelamento em coda final tanto de verbos quanto de não-verbos. As semelhanças, ao que parece, terminam por aí, já que, para os verbos, não parece haver restrições ao cancelamento em Teresina, mas o contexto subsequente foi significativo para Aracaju. Para não-verbos, em ambas as capitais, a dimensão do vocábulo é relevante e a preservação se dá, prioritariamente, nos vocábulos monossilábicos. Nesse aspecto, as duas capitais apresentam comportamento semelhante às demais.

Aracaju é a cidade que apresenta maior percentual de manutenção nos monossílabos (90%). Os itens lexicais praticamente se restringem à preposição por, com ocorrências eventuais de mar, bar e ffor. A preposição por, não-portadora de acento lexical, atua como sílaba pretônica integrante do vocábulo subsequente (por isso, por falta de, por causa).

O apagamento é sempre menos frequente em monossílabos: em Aracaju, apenas 10%; em Natal e São Luís, 13%; e em Teresina, 22% de apagamento. Em Aracaju, nos jovens -- como esperado na implementação da mudança --, o processo está mais avançado.

Na tentativa de chegar a uma configuração sociolinguística do Nordeste brasileiro, apresentam-se, inicialmente, alguns indicadores sócio-históricos das duas cidades acima referidas, a saber, Aracaju e Teresina.

Aracaju é uma cidade litorânea de pequena extensão territorial (181.8 Km2), com uma população residente de 571.149 habitantes, segundo dados do Censo de 2010 do IBGE. Teresina tem uma área territorial de 1.392 Km2 e a população é de 814.830 habitantes. É capital de um Estado de grande extensão e se situa a 366 km do litoral.

Seria necessário seguir mais detalhadamente a trilha da caracterização sócio-histórica dessas duas comunidades, que, de certa forma, apresentam, em alguns aspectos, comportamento linguístico discrepante do das capitais circunvizinhas. Diz-se ‘de certa forma’, por São Luís, capital do Maranhão, apresentar, como Teresina, um percentual mais baixo de cancelamento em não-verbos e, no caso, a proximidade geográfica ser maior.

Do ponto de vista histórico, os dados registrados no Primeiro Censo Demográfico (IBGE, 1872) revelam uma distribuição diversa da população das duas cidades por ‘raça’ (Gráficos 4, 5, 6 e 7). Reunindo homens e mulheres, nas duas Freguesias das duas cidades, pode-se verificar que a população ‘branca’ de Aracaju é maior que a de Teresina: 42% versus 27%. Os índices dos que sabem ler e escrever são paralelos aos da população ‘branca’, o que leva a crer que apenas esta era alfabetizada.

O povoamento de Sergipe resultou da necessidade de conquistar a faixa territorial daquela área e anular as divergências culturais entre índios, franceses e negros, que não aceitavam o domínio português. O local que hoje corresponde ao município de Aracaju era a residência oficial do cacique Serigy, que, segundo Clodomir Silva no “Álbum de Sergipe”, de 1922 (www.ibge.gov.br), dominava desde as margens do rio Sergipe até as margens do rio Vaza-Barris. Em 1590, os índios foram derrotados e Cristóvão Barros fundou a cidade de São Cristóvão -- mais tarde capital da província -- junto à foz do Rio Sergipe e definiu-se a Capitania de Sergipe. Somente em 1865, a capital se firmou. Era o término de uma década de lutas contra uma série de adversidades políticas, sociais e estruturais2.

Já Teresina começou a ser povoada no século XVII, com Domingos Jorge Velho e um grupo de bandeirantes, que estabeleceram uma feitoria e um criatório de gado. Em 1797, foi erguida a igreja de Nossa Senhora do Amparo, e sua fundação foi oficializada em 16 de agosto de 18523.

Os Gráficos a seguir permitem observar a distribuição geral da população livre e escrava (homens e mulheres) de Aracaju e Teresina por “raça”, segundo o Primeiro Censo de 1872, e, quem sabe, levantar hipóteses para o comportamento linguístico diferenciado das duas comunidades.

Figure 5.

GRÁFICO 4: População livre por raça em Aracaju – Mulheres – Censo 1872

Figure 6.

GRÁFICO 5: População livre por raça em Teresina – Mulheres – Censo 1872

Figure 7.

GRÁFICO 6: População livre por raça em Aracaju – Homens – Censo 1872

Figure 8.

GRÁFICO 7: População livre por raça em Teresina – Homens – Censo 1872

Se admitirmos que o processo de apagamento do rótico teve origem na ‘fala dos negros’, como registrado em peças de Gil Vicente, seria o índice mais baixo de apagamento em Aracaju explicável pela maior presença de brancos? Como correlacionar os índices das duas capitais? É um longo caminho a percorrer. Talvez a semelhança do comportamento linguístico dos falantes das duas áreas possa ter relação com o baixo índice relativo à população escrava – apenas 12% em Aracaju e 14% em Teresina, pelo Censo de 1872 – e não o de raça, paralelo ao de instrução, que, ao contrário, as distingue.

Também as dinâmicas sociais mais atuais podem ser ponto importante para a observação das aparentes(?) semelhanças do comportamento linguístico de falantes dessas áreas.

Pode-se observar pelos dados no Quadro 1, a seguir, que o IDH das duas capitais sofreu aumentos progressivos e que o IDH de Teresina referente à Educação quase triplicou nos últimos 30 anos.

Figure 9.

QUADRO 1: Índices de desenvolvimento humano – Teresina e Aracaju

3.2.1   Coda medial

Cenário bastante diverso é aquele encontrado em relação ao apagamento do rótico em coda medial. Aqui, estamos diante de uma regra variável prototípica, em que a variante inovadora, a ausência do segmento, atinge, no geral, um percentual baixo de ocorrências (10%) e está restrita a vocábulos específicos.

De toda forma, se confirma, parcialmente, a hipótese de serem as capitais que mais apresentam apagamento em coda final as que também apresentam mais apagamento em coda medial. João Pessoa e Maceió lideram o ranking de cancelamento em coda medial, com 22% (197 ocorrências, Input .21) e 23% (415 ocorrências, Input .23), respectivamente. Por outro lado, Salvador e Fortaleza, que também se destacam pelos percentuais altos de cancelamento em coda final, apresentam percentuais ainda tímidos de zero fonético em coda medial, principalmente a última capital (6,3% e 1,6%, respectivamente).

O apagamento do R em coda medial parece também ganhar espaço em Natal e em Recife (15% e 11%, respectivamente).

Em função de a variável região ter sido selecionada como fator importante para a aplicação da regra do cancelamento do rótico em coda medial, observamos em separado os dados das duas capitais em que a regra se mostrou mais produtiva: João Pessoa e Maceió.

Resultados para João Pessoa (197 ocorrências, Input .21 ) e Maceió (415 ocorrências, Input .23)

Em coda silábica medial, o tipo de consoante subsequente parece ser um fator estrutural relevante para a perda do segmento, já que a presença de uma consoante de articulação aproximada à do rótico favorece processos assimilatórios que podem levar ao cancelamento de um dos segmentos, fato comprovado na história da língua portuguesa. O apagamento é mais frequente nos contextos em que ao rótico se seguem as fricativas [s], [Z] e [v] (97%, 67% e 40%, respectivamente), em João Pessoa. O mesmo acontece em Maceió, capital em que, mais uma vez, são as fricativas as que mais frequentemente propiciam o cancelamento do R ([s], 76%, e [v], 46%).

Considerações finais

Neste trabalho, corroboram-se as hipóteses de o processo de apagamento do rótico ser gradiente, apresentar restrições de natureza morfológica e prosódica, atingir primeiro a coda final e só depois a medial (processo de mudança semi-categórica, no primeiro caso, e variável, no segundo) e se aplicar também a falantes de escolaridade mais alta, sendo, portanto, um processo que atua abaixo do nível de consciência do falante.

Da comparação com outros estudos realizados na região Sudeste e Sul, pode-se pressupor que o apagamento está relacionado às mudanças na articulação da consoante, de vibrante para fricativa e de anterior para posterior. Os sucessivos estágios de mudança na realização do rótico, tanto do modo quanto do ponto de articulação -- vibrante anterior à fricativa posterior à aspiração à Ø -- estariam relacionados ao processo de enfraquecimento e consequente apagamento da consoante.

Os estudos sobre a história social das comunidades, no Brasil, pelo menos, são ainda incipientes, mas já nos permitem fazer algumas correlações entre o fenômeno linguístico em pauta e alguns indicadores sociais, corroborando uma teoria da mudança que leva em conta a forma como a estrutura linguística heterogênea pode ser afetada por condicionamentos estruturais e sociais.

Referências

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Fontes

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Recebido em 21/02/2015 e Aceito em 15/05/2015.