Resumo

O presente trabalho visa discutir sobre o processo de apagamento da vogal postônica medial em nomes, no dialeto da cidade de Sapé, localizada no interior da Paraíba. Alguns estudos apontam que, com esse apagamento, certos processos são desencadeados, como a ressilabação, a assimilação e a reestruturação dos pés métricos, um fenômeno ligado diretamente à síncope e, por isso, tomado como ponto principal desta discussão. Uma das características desse apagamento é apresentar uma mudança de padrões, ou seja, desencadear um processo que transforma palavras com padrão de acento marcado em um padrão acentual não marcado. Assim, parte-se do pressuposto de que as sílabas, no português brasileiro (PB), tendem a se estruturar em troqueus binários, da direita para a esquerda, e que o peso silábico deve ser levado em consideração nesse processo. Além disso, as exceções à regra devem ser explicadas por meio de outros argumentos - como a extrametricidade - para que se ajustem a essa regra. Assim como Bisol e Wetzels, defende-se aqui que o PB é sensível ao peso silábico em não verbos e se acredita em uma estruturação deles em pés binários trocaicos. E, para a discussão deste trabalho, foi empregada a perspectiva da Fonologia Métrica, desenvolvida por Hayes (1995), Bisol (1992) e Wetzels (1992). Nas considerações finais, aponta-se que, a partir dessa reestruturação do pé, o acento, antes proparoxítono, passa a ser paroxítono, o que corrobora a mudança do acento para o padrão default do português brasileiro. Essa reestruturação dos pés ocorrerá em forma de um troqueu silábico, já que esse tipo de pé é o que se ajusta melhor ao apagamento da vogal postônica medial. 

Introdução

Os vocábulos proparoxítonos são documentados como irregulares em todas as fases do português. Já no latim clássico, observou-se que elas só ocorriam se a penúltima sílaba fosse leve. Tal particularidade passou pelo latim vulgar e pelo português arcaico. Segundo se documenta, essas palavras, chamadas esdrúxulas, desapareceram devido à queda da vogal da penúltima sílaba (Williams, 1991; Coutinho, 1876). Contudo, esses vocábulos ressurgiram no português depois do Século XV, por via erudita, a partir de empréstimos do grego e do próprio latim, em seu chamado período moderno.

Alguns estudos apontam que, a partir desse apagamento, certos processos são desencadeados, como a ressilabação, a assimilação e a reestruturação dos pés métricos, um fenômeno ligado diretamente à síncope e, por isso, tomado como ponto principal desta discussão. Uma das características desse apagamento é apresentar uma mudança de padrões, ou seja, desencadear um processo que transforma palavras com padrão de acento marcado em um padrão acentual não marcado.

As proparoxítonas, embora pertençam a um número bastante resumido, devido às restrições que ocorrem na estrutura métrica dessas palavras, ainda são vistas como exceções no português atual. Isso se justifica ao se levar em consideração que essas palavras apresentam o limite máximo a que o acento pode chegar, tomando como base a borda direita da palavra, comumente conhecido como restrição das três janelas. Assim, o acento, em português, não poderá ultrapassar a terceira sílaba da palavra, e o vocábulo proparoxítono é o limite acentual.

Bisol (2001, p. 135) refere que outra restrição que recai sobre os vocábulos proparoxítonos é a de que eles não aceitam sílabas pesadas na posição última, nem na penúltima, embora haja poucas violações, quase sempre advindas de origem estrangeira, como: Jéferson, pênalti, ínterim (cf. Magalhães e Silva, 2011). Como se pôde ver, há um caráter particular e excepcional nessas palavras.

O documento Appendix Probi, de Silva Neto (1956), já apontava uma tendência ao apagamento da vogal medial das palavras proparoxítonas. Atualmente, o mesmo processo acontece no português brasileiro (PB) falado, em situações menos formal, como também na fala de pessoas com pouca escolarização. Em ambos os casos, o falante, depois de apagar a sílaba medial não final, produz uma reorganização tanto no molde silábico quanto na organização métrica da palavra.

A partir do exposto acima, o presente artigo pretende discutir sobre a reestruturação dos pés após o processo de apagamento da vogal postônica medial em nomes, tomando como parâmetro o dialeto da cidade de Sapé, localizada no interior da Paraíba, descritos em Silva (2010). Para atingir esse objetivo, defende-se aqui que as sílabas do PB tendem a se estruturar em troqueus binários, da direita para a esquerda, e que o peso silábico deve ser levado em consideração nesse processo. As exceções à regra devem ser explicadas por meio de outros argumentos - como a extrametricidade - para que se ajustem a essa regra. Dessa forma, entende-se que o PB é sensível ao peso silábico em não verbos, bem como em uma estruturação dele, como afirmado por Bisol (1994) e Wetzels (2006).

1. Algumas considerações sobre o acento nas proparoxítonas

Em todas as línguas do mundo, as palavras apresentam uma sílaba mais forte, que recebe o nome de tônica, e outra mais fraca (com exceção das línguas tonais), chamada de átona. A percepção distintiva dessas sílabas está no acento, que é o modo de proferir um som ou grupo de sons com mais proeminência do que outros. As acentuadas (tônicas) e as não acentuadas (átonas) diferenciam-se de acordo com a dosagem - maior ou menor - de certas qualidades físicas que caracterizam os sons da fala humana.

Esse acento pode ser apontado como de intensidade (força, dinâmico, expiratório ou icto), quando o relevo consiste em fazer um esforço expiratório maior, e musical (tom ou altura), quando o relevo está na elevação ou na maior altura da voz. De acordo com Crystal (2004), acento é

um termo usado em FONÉTICA para referir-se ao grau ou à força usada na produção da SÍLABA. A distinção usual é entre sílabas tônicas (acentuadas) e átonas (não acentuadas), em que a tônica é mais proeminente do que a átona e marcada na TRANSCRIÇÃO com uma linha vertical crescente, [‘]. A proeminência geralmente se dá devido ao aumento da SONORIDADE da sílaba acentuada, mas aumentos em EXTENSÃO e às vezes em PICO podem CONTRIBUIR para a impressão total de proeminência1.

Na língua portuguesa, entre as três subdivisões supracitadas, os vocábulos proparoxítonos são os menos produtivos e, por sua vez, os mais especiais. Registram-se no Dicionário Aurélio, de acordo com Amaral (1999), 8.520 proparoxítonos de um total de, aproximadamente, 120.00 verbetes, razão pela qual eles são considerados pelos estudiosos como formas marcadas no léxico, ou seja, exceções. É normal os vocábulos proparoxítonos obedecerem, na fala, ao molde canônico português, tornando paroxítono o que é proparoxítono.

Para Câmara (1970), o acento é distintivo, imprescindível à língua portuguesa. Outros estudiosos, como Leite (1974); Bisol (1992, 1994); Wetzels (1992); Massini-Cagliari (1999); Amaral (1999); entre outros, que abordam o acento lexical no PB, afirmam, de modo geral, que o acento paroxítono/troqueu é o acento padrão do PB. Já os acentos oxítono/ iâmbico e proparoxítonos/dátilos são desvios acentuais.

O acento das palavras substantivas, segundo Leite (1974), é diferente dos verbos, porque cada tipo de palavra requer um grupo diferente de regras para realização de análises, como, por exemplo, regras para cada tipo de acentuação e regras para determinados sufixos [superlativo e diminutivo]. A partir daí, todos os autores subsequentes aos estudos de Leite afirmam que o padrão proparoxítono é marcado/não natural para a acentuação da língua portuguesa.

Bisol (1992, 1994), por sua vez, baseando-se na teoria métrica, inclui os verbos e os não verbos em sua regra, usando o recurso da extrametricidade, que foi proposto por Liberman e Prince (1977) e muito utilizado por Halle e Vergnaud (1987). Esse instrumento tornou- se alicerce da teoria métrica em Hayes (1991), visto que elementos extramétricos não são analisados pelas regras de acento. Isto é, as regras são “cegas” aos elementos extramétricos, da mesma forma como esses são considerados invisíveis às regras. Esse recurso é aplicado da seguinte forma nas proparoxítonas:

(01)

a) Para os nomes: a regra aplica-se na palavra derivacional, a partir do radical + vogal temática, ciclicamente;

b) Para os verbos: aplica-se na palavra pronta, ou seja, a palavra lexical, de uma só vez.

A regra é a mesma, mas sua aplicação no léxico é diferente. Nos nomes, quando se acrescenta um sufixo, por exemplo, carta – carteiro, a regra do acento volta a se aplicar. Por essa razão, diz-se que o acento é cíclico. Já nos verbos, como o acento se aplica somente quando a palavra estiver completamente pronta, a regra não é cíclica.

Bisol (1994) utiliza duas noções importantes na elaboração da regra de acento: o peso silábico e o pé métrico. As exceções à regra a autora resolve por meio do recurso da extrametricidade.

(02)

Regra do acento primário

Domínio: a palavra

i. Atribua um asterisco (*) à sílaba pesada final, i. é, sílaba de rima ramificada.

ii. Nos demais casos, forme um constituinte binário (não iterativamente) com proeminência à esquerda, do tipo (*.), junto da borda direita da palavra.

Quanto ao peso silábico, a regra de acento é sensível à sílaba pesada final. Desse modo, o acento é atribuído às oxítonas terminadas em consoante ou ditongo, como: (o) jantar, chapéu, papel, por meio de (02i). Quanto ao pé, a regra determina que o acento cairá sobre a segunda sílaba, a contar da borda direita da palavra, desde que a primeira seja leve. Desse modo, o acento é atribuído às paroxítonas, como casa, parede e bicicleta, por meio de (02ii).

A segunda análise de Bisol (2002) é reinterpretada à luz de Hayes (1995) e é ela que norteia o presente estudo. Nessa análise, Bisol assume que o domínio é a palavra lexical, e a aplicação das regras é cíclica em não verbos e não cíclica em verbos. Ainda segundo a autora, a extrametricidade é marcada no léxico em não verbos e é dada por uma regra geral em verbos. Assim, a regra, antes pautada na teoria de Halle & de Vergnaud (02), passa a ter a seguinte organização:

(03)

Regra do acento primário

Domínio: palavra lexical

i. A aplicação cíclica em não verbos; não cíclica em verbos.

Quanto à extrametricidade, Bisol (2002) propõe que se atribua a extrametricidade a formas nominais lexicalmente marcadas. Quanto aos verbos, marcar como extramétrica a sílaba final da primeira e da segunda pessoa do plural de tempos de imperfeito. Nos demais casos, a coda com status de flexão. Dessa forma, ter-se-ia a regra final como (04):

(04)

i. Forme um troqueu mórico se a palavra acabar em sílaba

ramificada;

ii. Nos demais casos, um troqueu silábico, não iterativamente, da direita para a esquerda.

Bisol (2002, p. 108) oferece as seguintes exemplificações para formalizar essa regra:

Figure 1.

Figure 2.

A partir do exposto, Bisol (2002) propõe uma regra geral para a síncope das proparoxítonas, não alcançada em sua análise mórica. Ainda de acordo com a autora, observa-se em (05) um contexto similar para a síncope que apaga o membro fraco de um pé métrico, independentemente de o acento incidir em sílaba leve, como em abóbora, ou pesada, como em fósforo (grifo da autora). Bisol (2002, p. 109) aponta a seguinte regra para o apagamento da postônica não final:

Figure 3.

Leia-se: Apague a sílaba que ocupa a posição fraca de um pé, quando seguida de outra sílaba à fronteira de uma palavra.

Essa regra, de acordo com Bisol, é de origem antiga, vem se mantendo viva e estabelece elos com as diferentes etapas da história da língua. Ela é importante, porque dá conta de palavras com acento por peso silábico e só forma um pé mórico quando a sílaba pesada se encontra em posição final, como em (05a). Nos demais casos, a regra geral forma um troqueu silábico sem olhar o peso silábico. Como se pode ver, essa proposta (03) é bem diferente da primeira (02).

Bisol (2002) lembra que as duas regras estão em relação de Elsewhere Condition. Isso significa que a mais restrita, o troqueu mórico, tem prioridade de aplicação. Se for satisfatória em determinado contexto, o troqueu silábico não terá vez. Porém, se o mórico não encontrar contexto, o troqueu silábico, por default, aplica-se. É a partir dessa ideia que palavras como *pédestre, *córrente, *cartéiro não existem, já que não existe contexto para o mórico na posição final. Então o troqueu silábico se forma da direita para a esquerda, e a posição fraca do pé sempre coincide com uma sílaba não ramificada das palavras pedéstre, corrénte e cartéiro.

Em posição forte do troqueu silábico, poderá haver uma sílaba ramificada e uma simples (05b). Mas, na posição fraca, devido à relação de Elsewhere Condition, só ocorre a sílaba não ramificada.

Vê-se, então, que o acento primário é atribuído por duas regras, uma na linha de Halle & Vergnaud (02), e outra, na linha de Hayes (03). Nesse caso, o pé mórico é a regra específica, e o troqueu silábico, a regra geral.

O trabalho de Massini-Cagliari (1995) também sustenta a relevância do peso silábico no PB, uma vez que sua visão e a primeira análise de Bisol (1992) convergem para ângulos bastante semelhantes. Ela (1999) assume, para a atribuição do acento no PB, propostas semelhantes para verbos e não verbos. Segundo essa autora, o troqueu com proeminência de acento à esquerda é o pé básico no PB, assim como diz Bisol (1992). Massini-Cagliari afirma que o PB é sensível ao peso silábico e propõe a construção de pés da direita para a esquerda, não iterativamente, o que explica o fato de a maioria das palavras do PB ser de paroxítonas terminadas em sílaba leve, oxítonas terminadas em sílaba pesada e monossílabos pesados.

Além disso, reconhece que três casos são exceções clássicas à regra default de acentuação do PB: as oxítonas terminadas em vogal, as paroxítonas terminadas em sílaba pesada e todas as proparoxítonas. Massini-Cagliari (1999) aceita, ainda, a postulação de uma consoante abstrata na coda da rima final e vai um pouco mais além, quando diz que, se a última sílaba das oxítonas terminadas em vogal se comporta como pesada (atraindo acento), é porque ela é pesada.

A proposta de Lee (1994) vem em sentido contrário ao descrito na seção anterior, já que ele assegura que o português não é sensível ao peso silábico. Bisol (1992), em sua primeira análise do acento, partindo da ideia de que o PB estrutura as sílabas de modo a formar troqueus, propõe em (02) uma regra de atribuição de acento primário que leva em conta o peso silábico. Além disso, Bisol admite como “pesada” qualquer sílaba de rima ramificada.

Essa proposta gera muitas exceções entre não verbos e leva-nos a explicar o caso das proparoxítonas a partir da noção de extrametricidade, conforme comentado acima. Ela argumenta que qualquer sílaba ou rima ou mora ou consoante ou até mesmo um morfema, dependendo da língua, pode ser ignorada pelas regras de acento, desde que estejam em posição periférica (1994, p. 26). Isso significa que as sílabas e/ou as consoantes podem ser consideradas extramétricas em determinada língua, caso se encontrem em posição periférica. A partir do exposto acima, também será considerado que os proparoxítonos tenham a última sílaba extramétrica.

Parte-se, então, do pressuposto de que as sílabas, no PB, tendem a se estruturar em troqueus binários, da direita para a esquerda, e que o peso silábico deve ser levado em consideração no processo. Além disso, as exceções à regra (i.e. os grupos de não verbos mencionados há pouco) devem ser explicadas por meio de outros argumentos - como a extrametricidade - para que se ajustem à regra.

Juntamente com Bisol (1994) e Wetzels (2006), defende-se aqui que o PB é sensível ao peso silábico em não verbos e se acredita também que haja uma estruturação deles em pés binários trocaicos, conforme se mostrará a partir de agora.

Collischonn (2005, p. 142) afirma que a síncope desencadeia um processo que transforma palavras com padrão de acento marcado em um padrão não marcado. Mas há palavras que não estão acessíveis a esse processo, portanto, são resistentes.

2. Reestruturação dos pés silábicos

Para atingir o objetivo proposto neste trabalho, retomamos um total de 3.590 dados de fala de Sapé, município do interior do estado da Paraíba, descritos em Silva (2010), que, utilizando-se da metodologia variacionista laboviana, controlou inúmeros fatores relevantes à síncope da vogal postônica medial.

A população desta pesquisa compõe-se de 36 informantes - 18 homens e 18 mulheres da zona urbana da cidade. Entre esses informantes, encontramos pessoas que exercem as seguintes profissões: professor, pedreiro, comerciante, horticultor, motorista, bibliotecário, auxiliar administrativo, vigilante, como também senhoras do lar, aposentados e estudantes.

O tratamento dos dados desta análise parte da ideia de Hayes (1995) de que os pés são sempre binários. Podem ser dissilábicos (σ σ), bimoraicos (µ µ) ou ilimitados. Seguindo o modelo de Hayes, Bisol (2002, p. 107-108) define as regras de acento do PB da seguinte forma:

(07)

Domínio: Palavra lexical. Aplicação cíclica em não verbos; não cíclica, em verbos.

Extrametricidade: Atribua extrametricidade a formas nominais lexicalmente marcadas; para verbos, aplique a regra seguinte: Marque como extramétrica a sílaba final da primeira e da segunda pessoa do plural de tempos do imperfeito; nos demais casos, a coda com status de flexão.

Regra geral: Forme um troqueu mórico se a palavra acabar em sílaba ramificada; nos demais casos, um troqueu silábico, não iterativamente, da direita para a esquerda.

Regra final: Promova o cabeça do pé a acento primário.

De acordo com os estudos de Bisol (1994), o mecanismo da extrametricidade é lexicalmente atribuído a formas não verbais marcadas. Dessa forma, as palavras com acento antepenúltimo são lexicalmente marcadas e menos recorrentes no PB. Isso faz com que a sílaba final não acentuada da palavra prosódica seja marcada como extramétrica e fique invisível às regras de acento. Essa sílaba, antes invisível, é recuperada posteriormente, depois da formação do pé binário, por meio da regra de adjunção da sílaba extramétrica (ASE).

Segundo Bisol (2002), quando a palavra termina em sílaba com rima ramificada, tem-se um troqueu mórico (08ii). Caso não se tenha tal formação, o troqueu silábico seguirá dois parâmetros: a escansão do pé será não iterativa, da direita para a esquerda (08i). Em seguida, aplica-se a regra de fim, à qual se atribui o acento primário ao cabeça do pé. A aplicação de tais regras é apresentada no exemplo abaixo:

Figure 4.

Como o português é caracterizado pelo pé binário, as proparoxítonas manifestam um pé ternário no nível da palavra prosódica pronta. Mas, em nível mais interno, desenvolvem um pé binário, a regra geral, segundo Bisol (1994).

De acordo com a proposta de Hayes (1995), a sílaba é a unidade portadora de acento. Seguindo a hierarquia prosódica, ela se organiza em pé que, por sua vez, organiza-se em palavra fonológica. Durante o processo de estruturação dos pés, as palavras com acento antepenúltimo podem ser escandidas em dois tipos: troqueu silábico e troqueu mórico:

Figure 5.

Se o pé é trocaico, os vocábulos proparoxítonos parecem adequar-se melhor ao troqueu silábico, porquanto nele não há evidência de peso.

A seguir, apresenta-se a análise do processo fonológico de apagamento das vogais postônicas não finais nos nomes, na cidade de Sapé-PB, sob a perspectiva da Fonologia Métrica, no modelo de Hayes (1995). Há alguns estudos realizados acerca desse tema que também empregaram o arcabouço da Fonologia Métrica, como os de Bisol (2002) e de Lee (2004).

Apesar das diferenças de posições entre esses autores, há, em comum entre eles, a visão de que as proparoxítonas são exceções à regra de acento primário do português do Brasil e que, por apresentarem um pé métrico ternário, sofrem o processo de apagamento da vogal postônica não final.

Seja qual for a sílaba postônica (não final ou final) considerada extramétrica, o processo de apagamento da vogal está relacionado à formação e à forma do pé – troqueu silábico, segundo Lee (2004), ou datílico, segundo Wetzels (1992). As propostas que sugerem o pé troqueu como caracterizador do sistema asseguram, também, a sensibilidade ao peso silábico. As propostas iâmbicas, por outro lado, apostam na insensibilidade do sistema ao peso da sílaba. Não se pode negar que há uma relação entre a formação e a forma do pé e a aplicação do processo de apagamento das vogais postônicas não finais.

O pé troqueu moraico tem as estruturas (*) e (* .), que contemplam os dois padrões de acento ditos não marcados no PB. Os pés troqueu silábico e iambo não evidenciariam esses padrões, posto que o troqueu silábico não contemplaria o acento oxítono terminado em consoante, e o pé iambo não contemplaria os paroxítonos.

Nesse momento, uma questão é pertinente: o resultado apresentado pelos dados revela o mesmo sistema acentual do latim, segundo a proposta de Hayes (1995). O acento latino apresenta a última sílaba extramétrica, e o pé troqueu moraico forma paroxítonas, quando a penúltima sílaba é pesada, e proparoxítonas, quando é leve. Ao se incorporar a última sílaba, tem-se o molde (* .) para o português, ou seja, a estruturação do troqueu silábico, feita em forma de pés dissilábicos com proeminência inicial.

Na passagem do latim clássico para o latim vulgar, as mudanças se restringem a poucas palavras e se manteve o padrão geral quanto à pauta acentual, ou seja, a predominância de paroxítonos e proparoxítonos é marcante. No estágio de formação do galego-português, Massini- Cagliari (1999, p. 16) observa um número mais significativo de oxítonas na língua, as proparoxítonas praticamente desaparecem e ficam restritas a termos técnicos e empréstimos, que aparecerão nos textos em prosa.

Massini-Cagliari (1999) entende que o acento do português é atribuído pela mesma regra de acento do latim. Isso se deve ao fato de não haver mudança nos parâmetros dos quais é composta a regra de acento, mas no módulo do componente lexical em que a regra é aplicada. A partir daí, apresenta três argumentos para justificar o pé troqueu irregular:

i. A passagem de um pé irregular para um pé regular do latim clássico para o latim vulgar;

ii. O processo de síncope;

iii. O processo de redução da vogal.

Em relação ao primeiro argumento, o inverso teria ocorrido na passagem do latim vulgar para o português, i. é, mudou um sistema não marcado para um marcado, já que o latim vulgar seria representado por um troqueu silábico, e o português, por um troqueu irregular.

Quanto ao processo de síncope, segundo Quednau (2002), pode-se formular por meio do pé troqueu irregular uma só regra: o apagamento do membro fraco do pé. Com o troqueu moraico, apaga-se o membro fraco do pé e da sílaba não analisada em pés. Em português, a síncope também ocorre em proparoxítonos, e outra generalização pode ser feita: o processo tem como justificativa a regularização de um pé binário.

Nos dados, a aplicação do apagamento da vogal não ocorre de forma categórica em todos os vocábulos testados, já que a coleta dos dados foi direcionada. Somente os itens triângulo, músculo, árvore e xícara foram alguns com o maior índice de ocorrência de apagamento da vogal postônica não final, os quais têm em comum o fato de o segmento lateral e o tepe continuarem a ocupar a posição de ataque da sílaba depois da aplicação do processo e da conseguinte reestruturação silábica, como se pode ver abaixo:

Figure 6.

Figure 7.

Já os itens máquina, médica, parabólica, elétrico e lâmpada quase não sofreram o processo em estudo e têm em comum o fato de os segmentos terem uma diferença sonora de 0 ou 1 na escala de soância. Sabe-se que a tendência do português é de preferir sílabas com elementos adjacentes separados por uma distância mínima de dois graus na escala de soância. Logo, formações do tipo: *maquna ~ máquina, *medca ~ médica, *parabolca ~ parabólica, *eletrco ~ elétrico e *lampda ~ lâmpada (independentemente de as consoantes restantes do apagamento passarem a ocupar um onset ou uma coda) não seriam possíveis, já que tais sequências, do tipo OO, ON, NN e NL, são bloqueadas. Essas palavras tiveram um número mínimo de ocorrências em relação ao apagamento da postônica não final.

Nessas poucas ocorrências de apagamento, não só o núcleo da sílaba foi apagado como também o onset da sílaba seguinte. Isso resolveu o problema da ressilabação em relação à escala de soância, que resultou em: maca ~ máquina, parábola ~ parabólica, eletro ~ elétrico e lâmpa

~ lâmpada. A palavra médica foi a única que não sofreu, em momento algum, o processo aqui trabalhado.

Nesse sentido, observa-se que, nos itens em que houve a aplicação do processo, o segmento flutuante manteve-se na posição de ataque após a reestruturação silábica (10). Já nos demais itens, a aplicação do processo levaria também a uma mudança no número de sílabas, que resultou não só no apagamento da vogal postônica não final, como também da consoante da sílaba seguinte.

No que diz respeito aos resultados explicitados acima, encontra- se uma explicação em Beckman (1998) sobre o Princípio da Posição Privilegiada2. A posição de ataque silábico, no sistema linguístico de muitas línguas, representa uma posição privilegiada em detrimento da posição de coda, porque, no ataque, mantém-se o contraste fonêmico, enquanto, na coda, há perda dos contrastes, em que, muitas vezes, ocorre neutralização.

Posto isso, é possível observar que o processo de apagamento das vogais postônicas não finais, no interior da palavra fonológica com contexto segmental propício à aplicação do processo, está condicionado, na variedade em estudo, a manter, nas mesmas posições silábicas, os segmentos que se tornam flutuantes, após o apagamento das vogais postônicas não finais. Isso implica manter esse segmento especificado.

As proparoxítonas, cuja última sílaba é extramétrica, são descritas por um troqueu silábico não iterativo, da direita para a esquerda, seguido da aplicação da regra final, após a incorporação da sílaba extramétrica, como mostram os exemplos a seguir:

Figure 8.

Na realização de uma análise mórica (12), uma sílaba desses vocábulos proparoxítonos ficará fora do pé. Hayes (1995) assevera que, se essa sílaba fosse escandida em um único pé, ter-se-ia um pé degenerado, isto é, um pé malformado. Assim, Hayes não escande uma sílaba, que fica fora do pé. Ao se fazer isso, duas sílabas não são escandidas: a penúltima e a extramétrica. Para solucionar tal problema, Bisol (2002) propõe a utilização da regra de adjunção da sílaba extramétrica (ASE). De acordo com a autora, essa regra faz com que essas duas sílabas sejam associadas ao pé, antes da aplicação da regra final, como se vê em:

Figure 9.

De acordo com o exposto acima, pode-se inferir que ocorre uma reestruturação do pé das palavras depois do processo da síncope, devido ao fato de que o apagamento da vogal se dá justamente com o membro fraco do pé, i. é, na penúltima sílaba. Depois desse processo, houve a incorporação da sílaba extramétrica ao pé na reestruturação, que antes fora adjungida durante a silabação, formando, necessariamente, um constituinte binário.

Mais do que a incorporação da sílaba, antes extramétrica, esses dados mostram que o pé passa por uma completa reestruturação, haja vista a perda e, ao mesmo tempo, o acréscimo de segmentos. Abaixo, apresenta-se a formalização da reestruturação dos pés nos troqueus silábico e mórico.

Figure 10.

Em (13a), o apagamento da vogal postônica acontece dentro do pé em todos os casos. Vale lembrar que, para esse tipo de pé, é irrelevante o peso silábico, porquanto só as sílabas são consideradas, sejam elas leves ou pesadas. No troqueu mórico (13b), a síncope acontece fora do pé, em palavras com a sílaba tônica pesada, como ‘más.ca.ra’.

A partir do exposto, constata-se que a reestruturação do pé forma troqueus silábicos, porque esse tipo de pé acomoda a nova configuração métrica da palavra após a síncope, tanto nos vocábulos que apresentam rima ramificada na sílaba tônica quanto naqueles que apresentam apenas sílabas leves em todas as posições. Além disso, ao se considerar um troqueu silábico, há economia instrumental, porquanto todas as sílabas estarão escandidas, e sempre o membro mais fraco do pé é que cairá, como já afirmara Bisol (1992).

Outro fator relevante e que favorece o uso do troqueu silábico nesta pesquisa é a utilização da sílaba extramétrica, visto que é com a utilização desse recurso que se cria um pé dissilábico com proeminência acentual à esquerda. A partir desse artifício, o acento, que antes se acomodava na antepenúltima sílaba, passa a viver na penúltima, estabelecendo como palavras paroxítonas as que, antes, eram proparoxítonas.

Considerações finais

Este artigo visou mostrar como se dá o processo de ressilabação depois do apagamento da vogal postônica medial em vocábulos proparoxítonos no PB. Com base em toda a análise apresentada, chegou- se à conclusão de que, após o apagamento da vogal postônica medial, a ressilabação ocorre em consonância com alguns princípios e leis. Assim, o segmento que ocupava a posição de ataque da sílaba sincopada fora incorporado ora à sílaba precedente (tônica), ora à seguinte (postônica final).

Essa reestruturação dos pés é feita em forma de um troqueu silábico, já que esse tipo de pé é o que se ajusta melhor ao apagamento da vogal postônica não final. A partir dessa reestruturação do pé, o acento, antes proparoxítono, passa a paroxítono, o que corrobora a mudança do acento para o padrão default do PB, como proposto por Bisol (1992) e Wetzels (1992), que defendem que o PB é sensível ao peso silábico em não verbos, e sua estruturação é apresentada em pés binários trocaicos, por meio de uma regra de atribuição de acento primário (03) que leva em conta o peso silábico.

Referências

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