Resumo




Neste trabalho, investigo como as vozes citadas ou relatadas são gerenciadas no discurso da revista Caros Amigos. A análise foi feita considerando-se as orações verbais e também as funções dos verbos introdutores de opinião. 




Introdução

A análise do uso dos Processos Verbais em dado discurso revela que vozes de terceiros são articuladas à voz do autor do texto e, principalmente, como essas vozes são articuladas. Essa pesquisa teve início em 2014 quando comparamos a articulação de vozes em uma reportagem veiculada na mídia corporativa, representada pela revista Época, e em uma reportagem veiculada na mídia alternativa, pela revista Caros Amigos. A análise mostrou-nos, entre outras coisas, que todas as vozes presentes na reportagem da Caros Amigos estavam em consonância com o discurso veiculado pela revista, ou seja, não houve debate, apenas apresentação de um ponto de vista único em relação à questão, qual seja, a condenação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Diante desse resultado surgiu o questionamento sobre os pontos de vista veiculados pela Caros Amigos de um modo mais amplo: eles seriam sempre unilaterais, expressando apenas o posicionamento da revista endossado por outras vozes ali encontradas, ou expressam também posicionamentos contrários, o que certamente enriqueceria o debate?

Considerando-se que um dos objetivos da reportagem é discutir determinado assunto, podemos dizer que a presença de somente um dos lados da questão revela um discurso tendencioso que apenas tenciona impor seus posicionamentos, sem permitir ao leitor a análise de todos os lados dessa mesma questão.

Para tentar responder a essa pergunta, ampliamos o corpus de análise, o que nos permitirá fazer algumas generalizações mais consistentes sobre o gerenciamento de vozes no discurso da Caros Amigos. Sendo assim, nosso objetivo é analisar as vozes articuladas no discurso da revista, agora com um corpus de oito reportagens que tratam de assuntos diversos, selecionadas nos anos 2012 e 2013, sob o viés da Linguística Sistêmico- Funcional (HUNSTON, 1995; HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004), mais especificamente a partir da análise das Orações Verbais encontradas nessas reportagens e também da concepção de verbos introdutores de opinião apresentada por MARCUSCHI (2007), que sugere uma análise discursiva da ação desses verbos. As teorias são compatíveis e complementares entre si, o que nos permitirá uma análise aprofundada do comportamento dos verbos do dizer no discurso da revista Caros Amigos.

1. Verbos ‘de relato’ ou Verbos introdutores de opinião

HUNSTON (1995) faz uma importante distinção entre afirmação e atribuição como fundamentais para a organização da interação em textos escritos. Para a autora, o que não é atribuído é afirmado pelo próprio autor do texto. Usando como exemplo o texto acadêmico, a Hunston aponta a variedade de objetivos com os quais a atribuição pode ser adotada, uma vez que ela transfere a responsabilidade pelo que está sendo dito. Sendo assim, a atribuição pode ser usada para inserir uma informação que corrobora o ponto de vista do autor do texto, para indicar uma lacuna na pesquisa, ou para ilustrar um ponto de vista contra o qual o autor do texto deseja argumentar (HUNSTON, 1995). Pode-se dizer que a atribuição funciona de modo análogo no discurso jornalítico, ou seja, ela pode ser usada para reforçar o ponto de vista do autor do texto, para contrapor esse ponto de vista ou ainda para explicitar alguma lacuna na discussão. Da mesma forma, o autor do texto jornalístico também transfere a responsabilidade da informação atribuída em seu texto.

Além disso, ressalta HUNSTON (1995), o autor do texto pode avaliar a atribuição, o que será feito por meio do verbo ‘de relato’, nos termos da autora. HUNSTON (1995) cita os verbos que revelariam a concordância do autor do texto em relação à informação atribuída: reconhecer, admitir, conceder, confessar, revelar, divulgar, predizer, advertir, indicar, mencionar, notar, recordar, revelar, deixar escapar, tornar claro, apontar; e também aqueles que revelam exatamente o contrário, alguma dúvida ou descrença: alegar, afirmar, mentir, informar mal, dar a entender, decifrar. É importante reforçar que os estudos mencionados utilizaram como corpus o texto acadêmico. No entanto, nossas análises mostraram que o comportamento dos verbos ‘de relato’, ou processos verbais, é semelhante no texto jornalístico com o qual trabalhamos.

Mais recentemente, MARCUSCHI (2007) também propôs uma reflexão sobre os verbos introdutores de opinião (ou verbos ‘de relato’ (HUNSTON, 1995). Para o autor, “apresentar ou citar o pensamento de alguém implica, além de uma oferta de informações, também uma certa tomada de posição diante do exposto” (MARCUSCHI, 2007: 146). No entanto, ressalta o autor, esse posicionamento, em geral, não é explicitado paralelamente, mas é processado por meio do instrumento linguístico. Dito de outra forma, são as escolhas linguísticas feitas pelo autor do texto que revelam seu posicionamento em relação ao pensamento que veicula em determinado discurso.1

De modo geral, “pode-se dizer que é praticamente impossível informar neutramente” (MARCUSCHI, 2007: 151), já que, ao apresentar ou citar o discurso do outro, o autor do texto parte de sua interpretação desse discurso, interpretação que, por sua vez, é influenciada pelas estruturas sócio-político-culturais nas quais está inserido. Sendo assim, quando informamos uma opinião, especialmente no discurso jornalístico, podemos dizer que ela é sempre manipulada por essa interpretação pessoal. Essa manipulação, em geral, é feita por meio de um verbo introdutor de opinião.

Para MARCUSCHI (2007: 151),

Ao se informar a opinião de alguém é possível levá- lo a dizer algo que não disse. (...) Muitas vezes alguém levantou uma hipótese e o redator já nos faz ver uma declaração; outras vezes um político expressa uma posição mais dura e o redator transforma aquilo em uma ameaça; em outros casos alguém faz uma ressalva e o redator nos faz ver uma ênfase.

Assim se processa a manipulação discursiva, ainda que ela não seja intencional ou que esteja despida de intenções obscuras. O relato de opiniões pode acontecer por meio de um verbo, de uma nominalização, de construções adverbiais ou de dois-pontos (ou inserção aspeada no texto). Neste trabalho, vamos nos dedicar principalmente à análise da opinião introduzida por um verbo.

Os verbos introdutores de opinião funcionam como “parafraseantes sintéticos” (MARCUSCHI, 2007), já que resumem o sentido geral do discurso apresentado em uma só palavra. Para ele, essa organização parte de um texto (relato) montado a partir de outro texto (opinião), e é justamente nessa organização que a manipulação se manifesta, já que nem sempre as funções assumidas pelos verbos são coerentes com a opinião do autor do discurso relatado.

Tendo em vista também a função argumentativa que esses verbos desempenham no discurso, podemos dizer que eles incorporam as intencionalidades do autor do texto, a partir de sua interpretação da opinião citada ou relatada. Mas como essas orações são estruturadas textualmente? Mais especificamente, como elas são estruturadas no discurso jornalístico? Passemos agora à proposta de HALLIDAY e MATTHIESSEN (2004) para uma análise da estrutura das orações verbais, com o intuito de tentar responder a essas questões.

2. As orações Verbais – lsf

As orações verbais, ou seja, aquelas por meio das quais é possível articular o discurso autoral e o discurso das fontes, também podem ser analisadas a partir da abordagem sistêmico-funcional (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004). Os objetivos centrais da Linguística Sistêmico- Funcinal (LSF) são descrever o sistema da língua, bem como a maneira pela qual esse sistema se relaciona com textos empíricos. Na visão funcionalista, a estrutura é entendida como parte fundamental da descrição, mas interpretada como a forma exterior assumida pelas escolhas sistêmicas, e não a característica que define a língua. O significado reside nos padrões sistêmicos de escolha (HALLIDAY, MATTHIESSEN, 2004).

A noção de escolha é central na visão funcionalista da língua, já que um texto é resultado de uma seleção feita pelo falante a partir do potencial de opções disponíveis no sistema linguístico. Ressaltemos o caráter intencional e ideológico dessas escolhas, ainda que eventualmente inconscientes, tendo em mente que o uso da língua parte sempre de uma razão motivadora (EGGINS, 2004).

Considerando que a língua tem por objetivo satisfazer as necessidades comunicativas humanas e, por isso, é organizada de maneira funcional e sistêmica, podemos dizer que ela é estruturada para produzir três principais tipos de significado simultaneamente, ou seja, o sistema semiótico consiste nas metafunções (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004): ideacional (experiencial e lógica), interpessoal (interação) e textual (sequências de discurso). Neste trabalho, vamos nos dedicar à análise da metafunção ideacional, sendo nosso foco o significado experiencial revelado a partir do comportamento dos processos verbais.

O sistema de transitividade (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004) constrói o mundo da experiência a partir de um conjunto de tipos de processos. Dessa forma, a Metafunção Ideacional Experiencial relaciona- se com a realidade presente em determinado texto, ela relaciona o texto e o mundo real. Cada tipo de processo, realizado por meio de grupos verbais, possui seu esquema para construir determinado domínio da experiência como uma figura de um tipo específico. Para os autores, os principais tipos de processos de transitividade são o material, o mental e o relacional, mas ressaltam que há outras categorias localizadas nos limites entre eles. No limite entre os processos material e mental está o processo comportamental; no limite entre os processos mental e relacional está o processo verbal; e, por fim, no limite entre os processos relacional e material está o processo existencial.

Ressaltamos a importância discursiva dos processos verbais, já que é por meio deles que o autor do texto explicita as vozes nas quais fundamenta seu discurso, ou até mesmo as vozes com as quais estabelece um embate. Como o foco deste trabalho centra-se nos usos dos processos verbais, passemos a uma explicação mais detalhada da estrutura das orações verbais a partir das considerações de HALLIDAY e MATTHIESSEN (2004).

As orações verbais são orações de dizer e constituem um recurso importante em diversos tipos de discurso, tais como o acadêmico e o jornalístico, uma vez que contribuem para a criação da narrativa tornando possível a configuração de passagens explicitamente dialógicas ao mostrarem as fontes de determinadas vozes presentes no texto (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004). No discurso jornalístico, mais especificamente, é por meio das orações verbais que o jornalista atribui a informação a fontes, que podem ser representantes do governo, especialistas no assunto e/ou testemunhas.

A oração verbal é constituída de um participante principal, o Dizente, de um processo que indica a atividade de fala, o Processo Verbal, e pode apresentar também outros Participantes opcionais: a Verbiagem, o que é dito, o Receptor, a quem é dito, e o Alvo, o que ou quem é atingido pelo processo de dizer. O participante Dizente é o responsável pelo processo verbal, ainda que não seja humano. Sendo assim, a fonte de uma informação tanto pode ser um ser consciente, como em E, como ela foi concebida tão somente para atender a uma demanda diplomática, conforme aponta Dallari, não levou em conta as necessidades dos usuários profissionais da língua, como professores e jornalistas, quanto pode ser um ser inconsciente, como em a raposa disse que as uvas ainda estavam verdes, em fábulas e histórias infantis, por exemplo.

Os processos das orações verbais, conforme sugerem HALLIDAY e MATTHIESSEN (2004), podem ser realizados por verbos ou por grupos verbais de dois tipos principais: os verbos de atividade (elogiar, insultar, abusar, caluniar, lisonjear, criticar, culpar, repreender, falar e conversar) e os verbos de semiose (contar, relatar, anunciar, explicar, provar, prometer, perguntar, interrogar, dizer, ordenar, ameaçar, suplicar, implorar, rogar, persuadir e prometer, ente outros). Além dos processos verbais, é importante ressaltar as Circunstâncias de Ângulo que se relacionam com o Dizente nas orações verbais. Nesse caso, a Circunstância de Ângulo constitui a fonte da informação Citada ou Relatada (HALLIDAY; Matthiessen, 2004) e, por isso, também pode ser considerada parte de uma oração verbal.

O participante Recebedor, a quem a mensagem é dirigida, em geral é realizado por um grupo nominal, que pode indicar um ser consciente, um coletivo ou uma instituição, como em João Pedro responde a todas as perguntas dos jornalistas. Ressaltemos que o grupo nominal que representa o Recebedor também pode ocorrer acompanhado por uma preposição, como no exemplo citado.

O participante Alvo refere-se a quem será atingido pelo processo de dizer, ou seja, sobre quem o Dizente age verbalmente, como em Ela acusou o marido de ser individualista. As orações verbais que apresentam Alvo em geral não projetam orações.

Em uma abordagem funcionalista da linguagem, o Participante Verbiagem, ou o que é dito, tem a função de oração secundária em uma oração complexa, que pode ser realizada por um grupo nominal ou preposicional. Ela pode representar o conteúdo do que é dito (questão, afirmação, ordem), ou seja, o nome do dizer. Além disso, a Verbiagem também pode representar o nome de uma língua (árabe, francês). Nas orações verbais é muito frequente que a Verbiagem seja realizada por meio de uma oração projetada que será classificada como uma Citação ou como um Relato.

A noção de projeção pode ser entendida como uma relação lógico- semântica por meio da qual uma oração passa a funcionar como a representação de uma representação (linguística) e não como uma representação direta da experiência (não linguística). Os usos discursivos da projeção podem ser: atribuir fontes em notícias, representar pontos de vista no discurso científico, construir diálogos na narrativa, construir questões na conversação. A oração projetada pode ser uma proposição, realizada por uma oração finita, ou uma proposta, realizada por uma oração perfectiva não finita (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004).

HALLIDAY e MATTHIESSEN (2004) apontam três sistemas envolvidos na diferenciação dos tipos de projeção: o nível da projeção (ideia x locução); o modo da projeção (relato hipotático x citação paratática) e a função da fala (proposição projetada x proposta projetada2). Por meio da projeção, uma oração torna-se a representação do conteúdo linguístico de outra. No caso específico da oração verbal, objeto desta investigação, o conteúdo da oração de dizer, ou seja, a locução.

No que se refere ao modo da projeção, ela pode combinar as orações projetante e projetada a partir das relações táticas de interdependência (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004): a parataxe (citação) e a hipotaxe (relato). Vejamos cada uma delas.

A forma mais simples de projeção é o discurso direto. Há inúmeros usos desse tipo de vínculo de citação – material de testemunhas oculares em notícias, passagens dialógicas em narrativas, cenas em biografias, citações no discurso científico. Nesse tipo de citação, a relação tática, ou seja, o tipo de dependência, é a parataxe, o que significa que as duas partes têm valores iguais. A oração projetada retém, dessa forma, todos os traços interativos da oração, inclusive o potencial modo verbal, além dos vocativos e expletivos, seleção tonal e continuativos textuais (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004).

Além dessa forma, é possível também relatar um dizer, representando-o como um significado. Trata-se do discurso indireto. Nesse caso, o princípio básico que fundamenta a representação hipotática de um evento verbal é que esse evento não é, necessariamente, verdadeiro, mas apresentado como verdadeiro para aquele texto. O falante relata a essência do que foi dito, ou seja, o texto produzido pode ser bastante diferente do original. Ressaltemos, no entanto, que quando um falante usa a forma direta, paratática, ele também não está necessariamente repetindo as palavras exatas, mas complementando a informação (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004).

Passemos, agora, à análise das orações verbais encontradas nas reportagens de Caros Amigos com o intuito de compreendermos como ocorre o gerenciamento de vozes no discurso dessa revista.

2.1 Metodologia

As reportagens selecionadas para esta investigação são “A batalha pela partilha do latifúndio virtual” (março de 2012), “A verdadeira face que a direita oculta” (agosto de 2012), “Em cada batalhão da PM tem um grupo de extermínio” (setembro de 2012), “Empresa estrangeira atua em ensino público” (setembro de 2012), “A ditadura da grande mídia cala o país” (maio de 2013), “Reforma política volta ao debate” (agosto de 2013), “Até quando esperar?” (setembro de 2013), “Polêmica existe desde os anos 90” (outubro de 2013). Optamos por selecionar reportagens que tratassem de assuntos diversos por entendermos que, dessa forma, faríamos um mapa mais fiel do discurso da revista como um todo.

Analisaremos, em primeiro lugar, as estruturas mais frequentes das Orações Verbais, incluídas nesse grupo as orações constituídas por uma Circunstância de Ângulo, já que elas também introduzem vozes alheias no discurso. Na sequência, a análise voltar-se-á apenas para os verbos introdutores de opinião, à luz da proposta de MARCUSCHI (2007), ou seja, o foco estará na força argumentativa desses verbos. Entendemos que a partir dessas análises será possível responder ao nosso questionamento inicial.

2.2 A Estrutura das orações Verbais no Discurso da revista Caros Amigos

Nas oito reportagens analisadas, foram encontradas 351 orações verbais, número que já revela a importância do discurso do outro para a revista. De fato, no discurso da Caros Amigos, a maioria das afirmações feitas é seguida de uma voz que as endossa ou as explica.

Table 1.

TABELA 1: Estruturas de orações verbais mais frequentes no discurso da revista Caros Amigos

Estrutura da oração Percentual
Padrão 1 Citação + Processo Verbal + Dizente 20%
Padrão 2 Circunstância de Ângulo + Relato (+ Citação) 17%
Padrão 3 Citação + Processo Verbal 13%
Padrão 4 Dizente + Processo Verbal + Relato ou Citação 6%
Padrão 5 Dizente + Processo Verbal + QUE + Relato (+ Citação) 5%

Essa análise revela resultados um pouco distintos dos apurados em Oliveira (2014), já que o foco das Orações Verbais no discurso de Caros Amigos recai principalmente sobre a Citação, e o participante Dizente ocorre na mesma posição em 28% das orações. De fato, em dois dos cinco padrões mais recorrentes é a Citação que aparece em destaque na oração, o que significa um percentual de 33% das Orações Verbais. Já o participante Dizente ocorre em 28% dessas orações nessa posição, considerando-se os padrões 2, 4 e 5. Estamos considerando também o padrão 2, pois a Circunstância de Ângulo envolve o Dizente da oração, como veremos nos exemplos de cada um dos padrões em realce.

O ponto de partida de uma oração, o Tema, é o elemento que a orienta em seu contexto (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004). Sendo assim, esses dados nos permitem perceber a importância da voz do outro, bem como de sua fonte no discurso da revista, já que essas vozes, além de orientarem o discurso, também endossam o posicionamento do autor.

Passemos agora à análise de alguns exemplos de cada um dos padrões destacados no discurso de Caros Amigos, a começar pelo Padrão 1:

1. “Se a lei for aprovada, quem desbloqueia um celular pode ficar sujeito a pena de reclusão de até dois anos. A mesma pena pode ser aplicada a quem transfere sua coleção de músicas do Ipod de volta para o computador”, critica Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Faculdade Getúlio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro e diretor do Creative Commons no Brasil. (março de 2012)

2. “Nenhum país resolveu seus problemas educacionais assim. O estudante não deixa de aprender, porque não tem computador na sala de aula. Ele não aprende porque falta professor, a aula é curta demais, o número de horas de permanência na escola é muito pequeno, o número de alunos na sala de aula é muito grande, o professor é mal remunerado e sobrecarregado, as escolas não têm laboratórios, bibliotecas e outros espaços para responder às questões do estudante”, manifesta-se Otaviano Helene, do IF-USP. (setembro de 2012)

3. “Do Congresso Nacional, sem pressão social, não sairão coisas do interesse público. É necessário fortalecer propostas de iniciativa popular que venham da sociedade. Nessas condições, esse novo Grupo de Trabalho da Câmara só pode produzir acordos espúrios, além de não querer ouvir a voz das ruas. Foram dois anos de Comissão Especial sem produzir proposta de interesse popular. Não é um grupo de trabalho que resolverá”, avalia o deputado [Ivan Valente, do PSOL]. (agosto de 2013)

O Padrão 1 ilustra a estrutura oracional mais recorrente no discurso da revista Caros Amigos, a saber, parte de uma Citação, seguida de um Processo Verbal (1) critica, (2) manifesta-se e (3) avalia e finalizada com o participante Dizente (1) Ronaldo Lemos, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Faculdade Getúlio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro e diretor do Creative Commons no Brasil, (2) Otaviano Helene, do IF-USP e (3) o deputado. Aqui já podemos ressaltar a importância creditada ao discurso citado, o que é revelado por sua posição temática na ampla maioria das Orações Verbais encontradas nas reportagens em análise. De fato, como já dissemos, somados os Padrões 1 e 3 encontramos 33% de Orações Verbais com a Citação em posição inicial, ou seja, como ponto de partida das orações.

O Padrão 2 é uma estrutura composta de uma Circunstância de Ângulo seguida de um Relato (estrutura hipotática) eventualmente acrescida de uma Citação (estrutura paratática). Vejamos exemplos dos dois casos:

4. Para ele [Demian Bezerra de Melo, historiador da Universidade Federal Fluminense], a atuação do instituto tem um sentido histórico: a contenção. Seu papel é fazer frente a emergência de governos com vínculos no campo da esquerda na América Latina. (agosto de 2012)

5. De acordo com o sociólogo Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC e membro do comitê Gestor da Internet no Brasil, o Marco Civil visa desde sua construção colaborativa garantir os direitos que hoje existem na rede contra os ataques promovidos pelas indústrias de telecomunicações e de copyright. (maio de 2013)

Nos exemplos acima, temos ocorrências de uma Circunstância de Ângulo (4) Para ele e (5) De acordo com o sociólogo Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC e membro do comitê Gestor da Internet no Brasil seguida de um Relato, ou seja, o discurso referido é apresentado de modo resumido com as palavras do autor do texto.

6. Para o policial [não identificado na reportagem], a violência na polícia paulista é pior do que a da época do esquadrão da morte da ditadura militar. “Hoje é pior, porque naquela época era bem delimitado: polícia é polícia e bandido é bandido. Hoje, a polícia é bandido, porque ela está conjugada com o crime. Tomou uma desproporção.” (setembro de 2012)

7. Para o advogado Rogério Taffarello, membro do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM), o posicionamento de Holde é histórico porque parte do país responsável pela disseminação do modelo repressivo pelo mundo. “Se os EUA afirmaram não ter mais dinheiro para sustentar essa política criminal, o Brasil vai ter? Evidente que não”. (setembro de 2013)

Já em (6) e (7), a Circunstância de Ângulo (6) Para o policial e (7) Para o advogado Rogério Taffarello, membro do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM) é seguida de um Relato que, por sua vez, é seguido de uma Citação. Nesse caso, o discurso Relatado é complementado pelo discurso Citado, já que este último supostamente é a transcrição literal do que foi proferido pelo Dizente. Nos dois exemplos, podemos dizer que a Citação é usada para confirmar o Relato feito pelo autor da reportagem. A estrutura do Padrão 3 é composta de uma Citação seguida de um Processo Verbal:

8. “Para essa tradição, a liberdade é a ausência de restrição externa, onde qualquer política pública que signifique interferência do Estado significa tolhimento. Então eles não conseguem e também não querem, porque é conveniente pra eles, compreender que essa não é a única concepção de liberdade”, explica [o jornalista e sociólogo Venício Lima]. (agosto de 2012)

9. “A diferença é que este direito não pode ser apenas de quem tem o meio de comunicação. Todos têm de ter o direito de se expressar. Não estamos criando um projeto para fechar emissoras. Mas é verdade também que há monopólios no setor. Não somos contra nenhuma emissora, mas somos contra o monopólio”, afirma [Rosane Bertotti, coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e secretária nacional de Comunicação da CUT]. (maio de 2013)

10. “Vivemos no Brasil em um Estado que se pretende limitado e garantista, com uma concepção de sociedade individualista, conflitualista e pluralista, enquanto que em Cuba o estado é intervencionista e dirigista, com uma organização social de concepção totalizante, harmônica e monista”, argumenta [José Carlos Gomes Sardinha, ex-presidente do Conselho Regional de Medicina do Amazonas]. (outubro de 2013)

Os exemplos em tela mostram orações cujo ponto de partida é uma Citação, seguida de um Processo Verbal: (8) explica, (9) afirma e (10) argumenta. Como já dissemos, essa estrutura também demonstra a importância do discurso citado para a revista, já que o ponto de partida da oração constitui seu Tema, ou seja, a parte mais importante nessa estrutura.

Tal como o Padrão 2, o Padrão 4 também se desdobra em duas possibilidades: parte de um Dizente, seguido de um Processo Verbal e finalizado com um Relato ou com uma Citação.

11. Ela [Maria Orlanda Pinassi, professora do Departamento de Sociologia da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp] contextualiza: “O fim do período ascendente do sistema do capital, marcado pela aplicação do receituário neoliberal em todo o planeta, vai se basear numa lógica de produção e de acumulação essencialmente destrutiva”. (agosto de 2012)

12. O policial [não identificado na reportagem] da Polícia Civil rebate: “É indefensável o governo alegar essas coisas. Se formos ver a Baixada Santista, que tem comando diferente do de São Paulo, mata do mesmo jeito que a capital. E no interior também se mata. Os grupos de extermínio são institucionalizados e regionalizados em cada batalhão, tem em todo o estado de São Paulo. Cada batalhão tem um grupo de extermínio, tem seu ‘caixa-dois’”. (setembro de 2012)

Nos exemplos acima, a oração é iniciada com um Dizente (11) Ela e (12) Ele, seguido de um Processo Verbal (11) contextualiza e (12) rebate e finalizada com uma Citação.

13. Ele [presidente do PSOL, deputado Ivan Valente] diz estar convencido de que, sem participação popular e debate público com a sociedade, a reforma política continuará engavetada ou será muito limitada e/ou retrógada. (agosto de 2013)

14. A Open Society Foundations’s global Policy Program, que procura documentar exemplos positivos de reformas mundiais nas políticas da droga, cita o exemplo português como um modelo internacional. (setembro de 2013)

Já em (13) e (14) a estrutura se mantém, com a diferença de que a oração é encerrada por um Relato. Sendo assim, parte de um Dizente

(12) Ele e (14) A Open Society Foundations’s global Policy Program, seguido de um Processo Verbal (13) diz e (14) cita e finalizado pelo Relato.

Por fim, o Padrão 5, caracterizado pela sequência: Dizente seguido de Processo Verbal, seguido de QUE e finalizado por um Relato que, por sua vez, pode anteceder uma Citação:

15. Um representante de Itaquaquecetuba [não identificado na reportagem] disse que diretores de algumas escolas foram informados pelos técnicos de que o equipamento seria instalado na sala de leitura ou em uma única sala da escola, em vez da instalação em todas as salas de aula com turmas do ciclo II do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, como prevê o projeto. (setembro de 2012)

16. O jurista Walter Fanganiello Maierovitch, especialista em criminalidade transacional, afirma que desde 1988 defende o uso do recall no Brasil para afastar aqueles que traem os compromissos com o eleitor. (agosto de 2013)

Os exemplos acima são estruturados a partir de um Dizente (15) Um representante de Itaquaquecetuba e (16) O jurista Walter Fanganiello Maierovitch, especialista em criminalidade transacional, seguido de um Processo Verbal (15) disse e (16) afirma, ambos seguidos da Locução Conjuntiva QUE e finalizados por um Relato.

17. Amadeu [Sérgio Amadeu, representante da sociedade civil no comitê Gestor da Internet e professor da Universidade Federal do ABC] relata que o Acta pretende universalizar o princípio da política de “três faltas e fora” [three strikes and you’re out, regra do beisebol, um dos esportes mais populares dos EUA], que excluiria da internet pessoas que praticassem três infrações à propriedade intelectual. “Ele também prevê a celeridade na justiça desses países quando o assunto for propriedade intelectual”. (março de 2012)

18. Marcelo Branco [da Associação Software Livre.org] explica que tais blocos de oligopólios têm interesses antagônicos, contradições e conflitos entre si, “o que é muito bom”. (março de 2012)

Em (17) e (18), ocorre, além do Relato, a inserção de uma Citação. Sendo assim, as estruturas partem de um Dizente (17) Amadeu e (18) Marcelo Branco, seguido de um Processo Verbal (17) relata e (18) explica, ambos seguidos da Locução Conjuntiva QUE que introduz um Relato, seguido de uma Citação.

Entre os Processos Verbais identificados no discurso de Caros Amigos, ilustrados pelos exemplos (1) a (18) acima, encontramos ainda 24 ocorrências nas quais o autor optou por usar um Processo Mental com função de Processo Verbal. O processo Mental, de acordo com HALLIDAY e MATTHIESSEN (2004), é aquele que se refere à nossa experiência no mundo da nossa própria consciência (cognição, percepção, emoção, desejo). Vejamos alguns exemplos:

19. Embora esteja parado na Comissão de Ciência e Tecnologia, “e de uma certa maneira tenha sido derrotado, ele [o PL] foi empurrado pelo PSDB até o último ponto. Não tem mais nenhuma comissão por onde passar, e está pronto para ser votado. Ou seja, a qualquer momento ele pode ser desengavetado”, preocupa-se Pablo Ortellado, professor da Universidade de São Paulo (USP). (março de 2012)

20. “Mas, em 2010, eu fiz um levantamento pensando no processo eleitoral e me chamou a atenção que nas eleições presidenciais eles se posicionaram de maneira independente pela direita, chegaram até a criticar o [José] Serra [candidato pelo PSDB] por não defender as privatizações do FHC”, relembra [Demian Bezerra de Mello, historiador da Universidade Federal Fluminense]. (agosto de 2012)

21. “É preciso refletir, pois se o sistema político ruir aqui sobre o peso das denúncias, a probabilidade é que não se construa sobre ele algo melhor, mas que venham aventureiros e os sem partido”, conclui [Maria Hermínia Tavares de Almeida, diretora do Instituto de Relações Internacionais da USP]. (agosto de 2013)

Estamos entendendo os Processos Mentais destacados em (19), (20) e (21) como Processos Verbais, porque seu uso no discurso de Caros Amigos é análogo ao dos Processos Verbais. Como se pode ver nos exemplos destacados, nas estruturas oracionais, eles ocorrem após as Citações, ou seja, são utilizados, de fato, para organizar as vozes de terceiros inseridas no discurso da revista.

3. Função dos Verbos introdutores de opinião no Discurso da revista Caros Amigos

Como destacamos na Introdução, um dos objetivos deste trabalho é tentar responder a um questionamento resultante de outro trabalho no qual também analisamos os processos verbais ou verbos introdutores de opinião no discurso da mídia. Em Oliveira (2014), estabelecemos uma comparação entre os usos desses verbos no discurso das revistas Caros Amigos e Época, a partir de duas reportagens sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Nesse trabalho, observamos que a reportagem da revista Caros Amigos não apresentava opiniões diferentes da sua, ou seja, não houve uma discussão sobre esse assunto, apenas a expressão do ponto de vista da revista, bem como de interlocutores que comungavam desse ponto de vista. Considerando que uma das regras básicas do jornalismo refere-se exatamente à necessidade de se ouvir representantes dos dois lados da questão, decidimos investigar se esse dado é uma regularidade no discurso da revista ou apenas um caso pontual na reportagem que analisamos sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Entre as oito reportagens selecionadas para a atual investigação, identificamos duas nas quais não encontramos posicionamentos divergentes dos apresentados pela revista, quatro reportagens com citações de posicionamentos divergentes em cerca de 10% das ocorrências com verbos introdutores de opinião e duas reportagens nas quais cerca de metade das citações refere-se a posicionamentos diferentes do da revista. Sendo assim, podemos dizer que a Caros Amigos tende a não desenvolver debates em suas páginas, embora não possamos afirmar que eles estejam totalmente excluídos.

Considerando que se trata de uma revista opinativa, ou seja, que tem como um de seus principais objetivos convencer seu leitor do seu posicionamento ideológico, observamos a carência desse debate nas reportagens analisadas, já que uma forma importante de se formar a opinião do leitor seria exatamente a exposição dos dois lados da questão para que ele mesmo construa suas conclusões.

Além da carência de debates, observamos também a seleção dos verbos introdutores de opinião para cada tipo de fonte. Das 351 orações em tela, 74% são orações verbais nas quais há ocorrência de processo verbal, e os verbos introdutores de opinião mais recorrentes nas reportagens da revista Caros Amigos são: afirmar (41 ocorrências), dizer (31), explicar (23), defender (11), apontar (10) e avaliar (10). Além desses, identificamos outros 61 tipos de verbos introdutores de opinião. Para ilustrarmos nossa análise, vamos citar dois dos verbos mais recorrentemente utilizados no discurso da revista: afirmar (41) e explicar (23). Nosso intuito é comparar seu uso relacionado às fontes, ou seja, como atuam discursivamente quando relacionados a fontes que comungam do ponto de vista de Caros Amigos e quando atuam relacionados a fontes que contrapõem a opinião da revista.

Vejamos primeiramente o verbo afirmar, dado que esse foi o verbo introdutor de opinião mais recorrentemente encontrado no discurso de Caros Amigos. É importante frisarmos que neste trabalho nosso foco está nos verbos introdutores de opinião, mas há ocorrências de outros modos de se introduzir vozes de terceiros nesse discurso, tais como nominalizações, construções adverbiais, dois-pontos.

De acordo com MARCUSCHI (2007: 163), o verbo afirmar entra na categoria de “verbos indicadores de posições oficiais e afirmações positivas”. De fato, observamos que seu uso é muito mais recorrente quando relacionado às fontes que reforçam o ponto de vista da Caros Amigos: 34 entre os 41 encontrados. Além disso, há que se registrar que MARCUSCHI (2007) considera-o um verbo da esfera da subjetividade, ou seja, seu uso sugere que o autor do texto deixa a responsabilidade da opinião citada ou relatada a cargo de seus autores. Dessa forma, o autor do texto, em Caros Amigos, geralmente usa o discurso citado ou relatado para reforçar ou comprovar seu ponto de vista ao mesmo tempo que a responsabilidade por seu conteúdo fica por conta de seus autores.

Passemos aos exemplos:

22. “O pensamento liberal surge associando o comunismo ao estado de bem estar social e tudo isso ao totalitarismo. Com isso, oligopólios que sempre se beneficiaram querem garantir seus privilégios na América Latina e impedir que, das contradições, emerjam lutas que questionem a ordem”, afirma Demian. (agosto de 2012)

23. Em seu site, o Millenium afirma: “para manter sua independência e autonomia é importante que o IMIL tenha como sua maior fonte de financiamento os recursos de indivíduos que se identificam com a nossa causa”. (agosto de 2012)

Os exemplos (22) e (23) foram retirados da reportagem “A verdadeira face que a direita oculta” (agosto de 2012), na qual Caros Amigos questiona a atuação do Instituto Millenium (IMIL). De acordo com a revista, o IMIL tem como principal objetivo desenvolver um projeto de direita no Brasil, ou seja, difundir sua ideologia através dos mais diversos meios de comunicação.

Em (22), o Dizente responsável pela opinião citada é o historiador da Universidade Federal Fluminense Demian Bezerra de Melo, que desde 2009 acompanha o IMIL, tal como informado pela revista. Trata-se de uma autoridade no assunto que também questiona o trabalho do IMIL, ou seja, comunga do ponto de vista de Caros Amigos. Nesse caso, o verbo afirmar tem a função de introduzir uma posição afirmativa, de Demian, em relação à opinião construída na reportagem de Caros Amigos, a saber, contrária à atuação do IMIL na nossa sociedade, ao mesmo tempo que tal posicionamento é de sua inteira responsabilidade.

Em (23), o verbo afirmar também introduz uma posição afirmativa, mas relacionada à ideologia defendida pelo IMIL apresentada ao leitor.

Aqui é importante ressaltarmos que ao final da reportagem seu autor registra que tentou falar com os representates do IMIL e não obteve resposta até o fechamneto da edição, o que pode justificar a ausência de debate nessa reportagem. Nela encontramos apenas três ocorrências de pontos de vista distintos do de Caros Amigos, todos retirados do site do IMIL na internet.

O verbo afirmar, no discurso de Caros Amigos, está amplamente relacionado ao ponto de vista defendido pela revista, ainda que os autores das reportagens deixem claro que se trata de opiniões de terceiros. Sendo assim, entendemos esse uso como uma forma de endossar seu posicionamento, especialmente porque, na maioria das vezes, seus parceiros ideológicos são identificados com nome completo, instituição em que atuam (em geral, uma universidade pública) e, eventualmente, com alguma informação que reforce sua autoridade no assunto.

A inserção de vozes no texto funciona como argumento de autoridade. O argumento de autoridade é aquele por meio do qual o autor de um texto utiliza “atos ou juízos de uma pessoa ou de um grupo de pessoas como meio de prova a favor de uma tese” (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005 [1992]: 348). No entanto, é importante ressaltarmos que responsabilizar o autor da fala citada ou relatada, como acontece quando se usa o verbo afirmar, tanto pode reforçar o ponto de vista do autor do texto como pode mostrar a distância entre o pensamento deste e de sua fonte. De fato, ao inserir a fala de uma autoridade no assunto, o autor mostra que há especialistas que pensam como ele, o que funciona como um reforço, ainda que o dito seja de inteira responsabilidade da fonte. Em contrapartida, quando o ponto de vista é distinto, o distanciamento entre os posicionamentos fica mais evidente, dada a subjetividade do verbo utilizado, o que revela e reforça o embate ideológico.

A exemplo do verbo afirmar, explicar também foi encontrado mais recorrentemente associado ao discurso das fontes que partilham o ponto de vista de Caros Amigos (21 fontes de acordo e duas contrárias), diferença que pode ser explicada, como já apontamos, pela tendência da revista de não debater realmente os temas selecionados para as reportagens. Vejamos, pois, como o verbo explicar atua em relação aos dois discursos, favorável e contrário ao discurso de Caros Amigos:

24. “Os comentaristas da Lei vigente entendem que o sujeito que está usando drogas para uso exclusivamente seu pode contribuir para a disseminação do consumo de terceiros”, explica o advogado [Rogério Taffarello], acrescentando que a lei não pode ser aplicada afim de cumprir uma medida preventiva. “Eu não posso punir o sujeito porque há uma presunção legal que sob o efeito de entorpecentes ele possa cometer um crime, e isso não se sustenta quando a gente analisa porque certas substâncias foram eleitas para serem proibidas e outras lícitas, como o álcool”. (setembro de 2013)

25. Em vídeo institucional do projeto, disponível no site oficial do programa, a coordenadora da Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Professores (Efap), Vera Lúcia Cabral Costa, explica que, na fase de PMI, o “projeto foi avaliado pela Secretaria da Fazenda, do Planejamento e da Educação. A partir disso, foi constituído outro projeto, base do Chamamento Público para empresas que tenham interesse em apresentar estudos de viabilidade e de modelagem do que vai ser o edital de licitação.” (setembro de 2012)

O exemplo (24) foi retirado da reportagem “Até quando esperar?” (setembro de 2013), que trata do atual modelo punitivo relativo ao consumo de drogas no Brasil, condenado pela revista. Caros Amigos defende a falência desse modelo e busca reforçar seu ponto de vista a partir da fala de especialistas, como o citado no exemplo (24), que explica porque o artigo 28, que criminaliza o porte de drogas, é inconstitucional.

O verbo explicar introduz algum esclarecimento em relação a algo que é obscuro ou ambíguo, sendo assim permite revelar a ideologia contida no discurso ao tornar mais clara uma afirmação. Exatamente como ocorre no discurso de Caros Amigos. Em primeiro lugar, o autor da reportagem insere a fala do especialista que aponta a inconstitucionalidade do artigo 28 e, na sequência, o mesmo especialista explica essa inconstitucionalidade, reproduzida no exemplo (24). Está claro que esse é o ponto de vista da revista endossado por um advogado da área, e que o mesmo artigo 28 pode receber outras interpretações e até mesmo outras explicações.

O exemplo (25) foi retirado da reportagem “Empresa estrangeira atua em ensino público” (setembro de 2012), que discute a atuação do setor privado em uma área da cidadania, a Educação, no então governo de São Paulo, o que é veementemente condenado pela revista. Esse exemplo mostra um ponto de vista contrário ao defendido por Caros Amigos, já que é proveniente de um vídeo institucional do projeto. Nesse trecho, o Dizente é a coordenadora da Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Professores (Efap), Vera Lúcia Cabral Costa, mas a reportagem não informa sua formação, tal como geralmente ocorre com as fontes que endossam o posicionamento da revista. Ela explica como é construído o edital de licitação para empresas particulares atuarem na educação do Estado de São Paulo.

Nesse caso, pode-se dizer que o verbo explicar introduz o esclarecimento sobre como funciona o projeto do governo de São Paulo que insere a iniciativa privada na área da Educação e, portanto, constitui um argumento forte na defesa do ponto de vista construído pela revista. Em uma leitura crítica desse trecho, é possível observarmos a comparação entre a educação e algum outro produto (como produtos de limpeza ou material de escritório) adquirido pelo governo de São Paulo, o que evidencia uma ironia do autor da reportagem. A ironia3 surge da contradição entre uma licitação que geralmente se destina à contratação de bens e serviços e sua aplicação à Educação, que deveria ser regida por políticas públicas.

Para fechar essa análise, recorremos a dois Processos Verbais encontrados na reportagem “Empresa estrangeira atua em ensino público” (setembro de 2012) que explicitam a diferença no modo de atribuição em relação ao ponto de vista relatado ou citado (favorável ou contrário ao ponto de vista da revista):

26. A modalidade de ensino à distância, conforme ensina Otaviano Helene, do IF-USP, é muito mais precária que a presencial, pois as atividades são mais limitadas. “É um erro grosseiro. Como se forma professor de química, física ou biologia, áreas que precisam fundamentalmente de laboratórios, à distância? De fato, o professor tem mais contato com pessoas do que médicos, dentistas ou enfermeiros. E por que sobrou para esta profissão formar à distância? Porque é a mais fragilizada. Assim, é evidente que os cursos à distância se concentram em áreas como a formação de professor. A consequência é o enfraquecimento ainda maior da profissão. A escola não é um espaço de treinamento. Nesse espaço, a interação é fundamental.” (setembro de 2012)

27. A mídia de massa, de cunho neoliberal, a propósito, insiste na incompetência dos professores como causa direta da má qualidade do ensino. (setembro de 2012)

Em (26), o Processo Material4 ensinar é usado com função de Processo Verbal, já que introduz o relato e, na sequência, uma citação da fala do Dizente Otaviano Helene, do IF-USP. Nessa ocorrência, o autor insere uma voz que funcionará como argumento de autoridade, o que é revelado pelo Processo Verbal selecionado. De fato, nesse caso, o Dizente não apenas explica ou esclarece, mas ensina, ou seja, transmite um conhecimento que deve ser apreendido pelo leitor. O que é reforçado pela identificação do Dizente Otaviano Helene, do IF-USP (Instituto de Física da Universidade de São Paulo).

Dessa forma, o verbo introdutor de opinião ensinar assume uma força argumentativa que tende a levar o leitor da reportagem a concordar com o posicionamento ali defendido. De acordo com MARCUSCHI (2007), podemos dizer que se trata de um verbo indicador de força do argumento. Além disso, ele mostra a sintonia entre o discurso da revista e o do professor citado.

Em (27), o verbo introdutor de opinião insistir organiza um aspecto conflituoso, já que introduz um ponto de vista divergente em relação ao discurso de Caros Amigos. O Dizente é a mídia de massa, também identificada como de cunho neoliberal. Nesse contexto, a insistência sugere uma superficialidade do argumento, pois ele estaria sendo repetido à exaustão, mas sem uma justificativa convincente.

Considerações finais

Em nosso artigo de 2014, como já dissemos, verificamos que em uma reportagem de Caros Amigos sobre o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa não houve um debate de ideias, ou seja, o autor da reportagem não apresentou vozes discordantes da sua, apenas vozes que ratificavam seu ponto de vista. Essa constatação motivou a ampliação do corpus com o intuito de verificarmos se se tratava de um fato isolado ou de uma regularidade no discurso da revista. Observamos que há, na verdade, uma tendência à omissão do debate, mas não podemos afirmar que há uma ausência total.

De fato, em duas das reportagens analisadas para este trabalho, também verificamos a ausência total de uma disscusão sobre o tema com opiniões favoráveis e contrárias às do autor do texto. No entanto, em outras quatro reportagens encontramos um debate que pode ser considerado simbólico, já que havia uma desproporção entre as vozes (apenas cerca de 10% do total de vozes discordavam do autor da reportagem) e nas outras duas reportagens houve um debate real, revelado pela presença de cerca de metade das vozes discordantes. Estamos entendendo esse mapeamento como uma tendência, pois em seis das oito reportagens analisadas o debate foi ausente ou apenas simbólico.

Além disso, no que se refere à estrutura da oração verbal, observamos resultados distintos dos alcançados em Oliveira (2014). A reportagem analisada em 2014 mostrou uma maioria de participantes Dizentes como ponto de partida das orações verbais. Neste trabalho, constatamos uma maioria de Citações, ou participante Verbiagem, nessa posição. Sendo assim, podemos inferir que, na verdade, o maior destaque nesse discurso recai sobre o que é dito pelas fontes da revista, e não sobre sua fonte, como havíamos deduzido no trabalho anterior.

No que se refere aos verbos introdutores de opinião, podemos dizer que os resultados deste trabalho são análogos aos encontrados em Oliveira (2014), pois aqui também verificamos uma complexidade no uso desses verbos, bem como uma ampla variedade deles. É importante ressaltarmos a diferença no uso desses verbos quando relacionados a fontes em acordo com o posicionamento da revista e a fontes em desacordo com esta. De fato, no primeiro caso, os verbos funcionam de modo argumentativamente mais forte, como vimos nos exemplos destacados.

Os modos de dizer em determinado texto revelam posicionamentos ideológicos muitas vezes dissimulados no fio do discurso, o que torna este estudo fundamental, já que tentamos descortinar alguns desses usos. Tal análise importa ainda para despertar a atenção do leitor para as possibilidades interpretativas de um único texto, o que permitirá uma leitura mais crítica.

Referências

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FAIRCLOUGH, N. analysing discourse: textual analysis for social research. Routledge. London, 2003.

HALLIDAY, M. A. K.; MATTHIESSEN, C. M. I. M. an introduction to functional grammar. London. Hodder Education, 2004.

HUNSTON, S. a corpus study of some English verbs of attribution. Functions of Language. 1995. 2, 2, p. 133-158.

MARCUSCHI, L. A. a ação dos verbos introdutores de opinião. In:______ Fenômenos da linguagem: reflexões semânticas e discursivas. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007. p. 146-164.

OLIVEIRA, D. Gerenciamento de vozes no discurso midiático: Caros Amigos x Época. Cadernos de Linguagem e Sociedade. 15 (1), 2014, p. 84-100.

PERELMAN, C.; OLBRECHTS-TYTECA, L. Tratado da argumentação: a nova retórica. São Paulo: Martins Fontes, 2005 [1992].

Recebido em: 20/04/2015 e aceito em: 16/12/2015.