Resumo

Neste artigo será abordada a importância de um consenso de gra a da Língua Brasileira de Sinais (Libras) em SignWriting. A partir de publicações em SignWriting, é possível identi car que um mesmo sinal da Libras é escrito de forma diferenciada. Nesse sentido, compreende-se que, para a consolidação do SignWriting para a formação de professores e para o ensino nas escolas de ensino básico, é fundamental um consenso quanto à escrita dos sinais. Com o propósito de demonstrar esse fato, foram pesquisados os sinais SURDO, TRADUÇÃO e INTERPRETAÇÃO em SignWriting, em quatro produções cientí cas, quais sejam: Barreto e Barretto (2012) - Escrita de sinais sem mistérios; Nobre (2011) - Processo de Gra a da Língua de Sinais: uma análise fono-morfológica da escrita em SignWriting; Quadros e Stumpf (2010), no artigo publicado em SignWriting “Tradução e Interpretação de Língua Brasileira de Sinais: Formação e Pesquisa”, em Cadernos de Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina/Pós-Graduação em Estudos da Tradução - PGET; e Capovilla, Raphael, Maurício (2009) - Novo Deit-Libras. A escrita de sinais de cada autor pesquisado foi organizada em tabelas. Posteriormente, identi cam- se, analisam-se e apresentam-se os símbolos envolvidos na referida escrita, como também as diferenças ou semelhanças. Nas considerações, não há indicação de preferência por um ou outro autor e tampouco são realizadas análises críticas quanto à escrita. Conclui-se pela sensibilização e iniciativa para um diálogo acerca da possibilidade de um consenso para a escrita em SignWriting. 

Introdução

O SignWriting foi desenvolvido por Valerie Sutton a partir de um sistema de notação de coreografia da dança - DanceWriting - também criado por ela. Apesar de ser uma invenção americana, o referido sistema começou na Dinamarca e não está baseado em uma determinada Língua de Sinais, podendo, nesse caso, escrever qualquer Língua de Sinais. O SignWriting é uma forma de notação que registra todo e qualquer movimento de seres humanos, de animais e insetos. Ele pertence à comunidade surda mundial e pode ser usado por qualquer sinalizante (ver Capovilla & Raphael, 2001). Segundo Sutton, “Como a argila usada para criar uma estátua que perdurará por gerações futuras, SignWriting pertence aos surdos para moldar sua própria Língua de Sinais, sua Cultura, sua História”. (2001:21).

A partir de produções científicas publicadas por pesquisadores de SignWriting, torna-se viável identificar que um mesmo sinal de Língua Brasileira de Sinais – Libras1 pode ser escrito de forma diferenciada. Nesse sentido, compreende-se que para a consolidação da escrita de sinais em SignWriting, tanto para a formação de professores quanto para o ensino nas escolas de ensino básico para crianças surdas, a padronização da escrita dos sinais de Libras em SignWriting é fundamental.

J. Février apud Higounet (2003:11) considera que para a existência da escrita é necessário “um conjunto de sinais que possua um sentido estabelecido de antemão por uma comunidade social e que seja utilizado”. Além disso, o autor citado considera que “é preciso que esses sinais permitam gravar e reproduzir uma frase falada”. Calvet (2007) considera que não se forja uma palavra de forma aleatória.

Essas considerações podem ser sugeridas à escrita da língua de sinais, haja vista que o conjunto de sinais estabelecido – SignWriting - permite reproduzir a palavra sinalizada. Wilcox e Wilcox (2005:40) consideram que os sinais são semelhantes às palavras faladas, escritas ou sinalizadas. São blocos de construção que formam a base das línguas. No entanto, conforme verificaremos neste artigo, há a ocorrência da variação de grafia da língua de sinais nesse sistema. Conforme Calvet, esta constatação suscitou uma pergunta interessante: “como transcrever uma palavra pronunciada de diferentes formas pelo território de maneira que todos a reconheçam?” (2007:67).

Essas considerações de J. Février apud Higounet (2003) e Calvet (2007) permitem refletir sobre a possibilidade de o SignWriting vir a ser considerado um sistema de escrita da língua de sinais, de forma que os leitores da referida escrita possam reconhecer o sinal.

Sobre a questão da variação da escrita em SignWriting, Stumpf (2003) avalia que o SignWriting contribui para o desenvolvimento da percepção do sujeito surdo quanto à língua de sinais de seu país. Durante o ensino da escrita da língua de sinais no Brasil e na França, a pesquisadora identificou que as crianças se apropriam naturalmente da grafia da escrita de sinais nas primeiras aulas. As crianças, segundo a autora, fazem os sinais antes de escrevê-los e apresentam variações em sua escrita.

A variação da escrita em surdos adultos foi objeto de pesquisa de Nobre (2011:54), que analisou a produção de 20 sinais/sentenças por quatro sujeitos surdos fluentes em Libras e usuários da escrita de sinais com ênfase na produção gráfica dos sinais e na ordem dos símbolos que compõem a escrita do sinal. Após a identificação das divergências e similaridades da escrita dos participantes de sua pesquisa, Nobre (2011) considera que a padronização da escrita contribuirá para o fortalecimento da língua escrita, propõe a consolidação do SignWriting na comunidade surda, sugere uma escrita simplificada e apresenta propostas de ortografia.

Acerca da padronização da escrita de sinais, Capovilla, Raphael, Maurício (2009) compreendem que, quando há acordos ortográficos de uma língua, a leitura e escrita são mais fáceis de serem realizadas e as ambiguidades diminuem. Entretanto, continuam os autores, quando uma língua possui uma escrita recente e com acordos não constituídos e firmados, as variações são mais frequentes e desencadeiam debates sobre a forma mais apropriada de escrever. O Novo Deit-Libras (Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue) não almeja estabelecer nenhuma convenção para a escrita da Libras. A referida obra, ainda segundo os autores, descreve, explica e ilustra as diretrizes gerais do sistema de escrita SignWriting dos sinais de Libras.

Visando à sensibilização da comunidade surda sobre a importância da padronização dos sinais de Libras em SignWriting, adotamos como metodologia demonstrar a variação da escrita por esse sistema dos seguintes sinais: SURDO, TRADUÇÃO e INTERPRETAÇÃO. Tal demonstração basear-se-á em Barreto e Barretto (2012), Nobre (2011), Quadros e Stumpf (2010), e Capovilla, Raphael, Maurício (2009). Os referidos sinais, dos quatro autores, serão dispostos um ao lado do outro e em tabelas. Cada sinal terá a apresentação dos símbolos utilizados na sua escrita e serão demonstradas as diferenças e as semelhanças.

Nas considerações, não será indicada preferência por um ou outro autor, e tampouco será realizada uma análise crítica quanto à escrita.

1. Metodologia

Os sinais SURDO, TRADUÇÃO e INTERPRETAÇÃO foram pesquisados nas quatro produções científicas e dispostos em tabelas nas ordens a seguir: Barreto e Barretto (2012); Nobre (2011); Quadros e Stumpf (2010); e Capovilla, Raphael, Maurício (2009). Após a apresentação da tabela de cada sinal, são descritos os símbolos utilizados por cada autor para escrevê-lo. Terminada a descrição de cada autor, serão demonstradas as diferenças e as semelhanças.

Para os sinais TRADUÇÃO e INTERPRETAÇÃO, por iniciativa da autora, a configuração de mão final dos referidos sinais que não estão visíveis em Barreto e Barretto (2012), Nobre (2011), e Quadros e Stumpf (2010) será demonstrada somente no sentido de facilitar a leitura da escrita.

1.1 Sinal SURDO

Na tabela 1, abaixo, serão apresentadas as grafias em SignWriting do sinal SURDO. Na coluna 1, Barreto e Barretto (2012:56); na coluna 2, Nobre (2011:44); na coluna 3, Quadros e Stumpf (2010:167); e, na coluna 4, Capovilla, Raphael, Maurício (2009: 2070):

Figure 1.

Descrição das colunas 1 e 2 – Tabela 1 - Barreto e Barretto (2012) e Nobre (2011) apresentam a mesma escrita em SignWriting do sinal SURDO. A utilização da face indica o local de realização do sinal. Há deslocamento da configuração de mão (CM) do local de início da realização da sinalização, delimitado com um símbolo de contato (tocar), próximo à orelha, e um símbolo de contato próximo ao queixo, fim da sinalização. A Tabela 2, abaixo, expõe na coluna 1 a CM; na coluna 2, o contato; na coluna 3, a locação; e na coluna 4, o sinal.

Figure 2.

Descrição coluna 3 - Tabela 1: Quadros e Stumpf (2010) escrevem o referido sinal com a CM que toca o local próximo à orelha e se movimenta em direção ao queixo, tocando-o. Os locais da face que a CM toca estão delimitados. Os símbolos envolvidos no sinal estão dispostos na Tabela 3, abaixo. Na coluna 1, apresenta-se a CM; na coluna 2, a face com delimitação do local 1 – inicial; na coluna 3, a face com delimitação do local 2; e na coluna 4, apresenta-se o sinal.

Figure 3.

Descrição da coluna 4 – Tabela 1 - Capovilla, Raphael, Maurício (2009) utilizam a CM inclinada com símbolo de contato na orelha e nos lábios; próximo a essa CM há uma seta que nos leva ao entendimento de que a CM se desloca para a boca e sua posição transforma-se de inclinada para vertical e o dorso da mão toca os lábios.

Na Tabela 4, abaixo, demonstra-se cada símbolo utilizado na grafia. Na coluna 1, a CM que toca a orelha; na coluna 2, a CM vertical, cujo dorso toca os lábios; na coluna 3, o símbolo de contato que está disposto próximo à orelha e nos lábios; na coluna 4, a seta de movimento; na coluna 5, os locais de realização do sinal; e na coluna 6, apresenta-se o sinal.

Figure 4.

Tendo em vista que a escrita de cada autor foi exposta nas tabelas 2, 3 e 4, na Tabela 5 esses símbolos serão dispostos um ao lado do outro, com o objetivo de dar visibilidade às diferenças e semelhanças da grafia do sinal SURDO. Na coluna 1, os símbolos (CM, local, contato e seta); na coluna 2, os símbolos utilizados por Barreto e Barretto (2009); na coluna 3, os símbolos utilizados por Nobre (2011); na coluna 4, os símbolos utilizados por Quadros e Stumpf (2010); e na coluna 5, os símbolos utilizados por Capovilla, Raphael, Maurício (2009).

Figure 5.

1.1.1 Diferenças e Semelhanças do Sinal SURDO

Verifica-se que, entre os autores, não há diferença da CM. Quanto ao local, podemos dizer que não há diferença, ou seja, os autores utilizaram a face como local de realização do sinal; Barreto e Barretto (2012) e Nobre (2011) enfatizaram o local com o símbolo de contato disposto próximo à orelha e, provavelmente, próximo ao queixo ou abaixo deste. Quadros e Stumpf (2010) ressaltam-no próximo à orelha e no queixo. Capovilla, Raphael, Maurício (2009) destacaram a orelha e puseram o símbolo de contato nos lábios. A propósito do contato, este símbolo é visível em Barreto e Barretto (2012), em Nobre (2011) e em Capovilla, Raphael, Maurício (2009), e não visível em Quadros e Stumpf (2010). Quanto à seta, é visível apenas em Capovilla, Raphael, Maurício (2009).

1.1.2 Sinal TRADUÇÃO

Na tabela 7, a seguir, será apresentado o sinal TRADUÇÃO e a sua escrita em SignWriting: na coluna 1, Barreto e Barretto (2012:5); na coluna 2, Nobre (2011:119); na coluna 3, Quadros e Stumpf (2010:167); e na coluna 4, Capovilla, Raphael, Maurício (2009:742).

Figure 6.

Descrição da coluna 1 - Tabela 7 - Barreto e Barretto (2012) escrevem a CM ativa que se movimentará sobre a mão passiva que está com a palma para baixo, horizontal e paralela ao chão. A mão passiva, que não se movimentará e dará apoio à mão ativa, está com a palma para cima, horizontal e paralela ao chão. O símbolo de contato em duplicidade está situado logo abaixo da mão passiva e ao lado da mão ativa. A seta dupla, localizada abaixo da CM ativa, reforça a disposição do antebraço paralelo ao chão e também permite o entendimento de que a mão ativa iniciará e finalizará a sinalização com a palma para baixo. Barreto e Barretto (2012:147) sugerem que as setas devem ser escritas abaixo da CM, para que se compreenda que o movimento é realizado pelo antebraço. Apesar de não ser visível na escrita do sinal, destaca-se o espaço neutro de sinalização, em frente ao corpo.

Na Tabela 8, apresenta-se cada símbolo utilizado na escrita do referido sinal por Barreto e Barretto (2012). Na coluna 1, a CM ativa; na coluna 2, a CM passiva; na coluna 3, o símbolo de contato; na coluna 4, a seta dupla; na coluna 5, a palma para cima, após a rotação do antebraço, não visível; e na coluna 6, o sinal.

Figure 7.

Descrição da coluna 2 - Tabela 7 - Nobre (2011:119) no sinal TRADUÇÃO, indica que a mão ativa que se movimentará sobre a mão passiva, está com a palma para baixo, horizontal e paralela ao chão. A mão passiva, que dará apoio à mão ativa, está com a palma para cima, horizontal e paralela ao chão. Pelo símbolo de contato apresentado em duplicidade e localizado no lado esquerdo e direito da mão ativa, permite- se ler que, durante a sinalização, a mão ativa toca a mão passiva, move- se em cima da mão passiva e finaliza o sinal com a palma da mão para cima. Conforme explicado, o movimento da mão ativa é conduzido pela rotação do antebraço representado pela seta localizada abaixo da mão ativa. Apesar de não visível na escrita do sinal, a mão ativa, que no início da sinalização está com a palma para baixo, terminará o movimento com a palma para cima e a sinalização ocorre no espaço neutro, em frente ao corpo.

Na Tabela 9, apresenta-se, na coluna 1, a CM ativa; na coluna 2, a CM passiva; na coluna 3, o símbolo de contato em duplicidade; na coluna 4, a seta simples; na coluna 5, a CM que finaliza o sinal, não visível; e na coluna 6, o sinal.

Figure 8.

Descrição da coluna 3 - Tabela 7 - Quadros e Stumpf (2010) escrevem o sinal TRADUÇÃO a CM ativa com a palma para baixo e horizontal e CM passiva com a palma para cima e horizontal. Não há símbolo de contato visível, entretanto, pela visualidade da grafia, o leitor não leigo provavelmente entenderá que a mão ativa toca a mão passiva e se movimenta sobre a mão passiva. A seta localizada ao lado da mão ativa é indicativa de que o movimento da mão ativa será realizado pela rotação do antebraço. Está subentendido que após o movimento de rotação do antebraço a mão ativa ficará com a palma da mão para cima. O espaço neutro, em frente ao corpo, é local de sinalização. Os símbolos envolvidos na escrita do referido sinal estão dispostos na Tabela 11, abaixo. Na coluna 1, a CM ativa; na coluna 2, a CM passiva; na coluna 3, a seta simples com linha vertical no seu centro; na coluna 4, a CM que finaliza o sinal e não visível na grafia; e na coluna 5, o sinal.

Figure 9.

Descrição da coluna 4 - Tabela 7 - Capovilla, Raphael e Maurício (2009:742) descrevem a forma como escrevem o sinal TRADUÇÃO: “mão esquerda aberta, palma para cima; mão direita em V, palma para baixo, tocando a palma esquerda. Virar a palma direita para cima e para baixo duas vezes”.

Em um primeiro momento, a CM ativa, palma para baixo, está horizontal e paralela ao chão; a CM passiva, palma para cima, encontra- se horizontal e paralela ao chão. O símbolo de contato está localizado ao lado da mão passiva, indicando o toque da mão ativa. Em um segundo momento, sem a alteração da mão passiva, a mão ativa está horizontal, paralela ao chão e com a palma para cima. Apesar de a sinalização do sinal em questão não estar visível, perceber-se-á que há a rotação do antebraço; além disso, a sinalização se dá em espaço neutro, em frente ao corpo.

Na Tabela 12, apresenta-se cada símbolo envolvido na escrita do referido sinal. Na coluna 1, a CM ativa; na coluna 2, a CM passiva; na coluna 3, o símbolo de contato; na coluna 4, a CM ativa, após o movimento; e na coluna 5, o sinal.

Figure 10.

Tendo em vista que os símbolos envolvidos na escrita de cada autor do sinal TRADUÇÃO foram demonstrados nas tabelas 10, 11 e 12, na Tabela 13, abaixo, serão apresentados separadamente os símbolos utilizados por cada autor. Este procedimento permitirá identificar as diferenças e as semelhanças da grafia do sinal. Na coluna 1, estão dispostos os símbolos (CM, Contato e Seta); na coluna 2, os símbolos utilizados por Barreto e Barretto (2009); na coluna 3, os símbolos utilizados por Nobre (2011); na coluna 4, os símbolos utilizados por Quadros e Stumpf (2010); e na coluna 5, os símbolos utilizados por Capovilla, Raphael, Maurício (2009).

Figure 11.

1.1.3 Diferenças e Semelhanças do Sinal TRADUÇÃO

Podemos dizer que não há diferença quanto às CM ativa e passiva. As CM não visíveis e o espaço neutro foram incluídos na Tabela 13 somente no sentido de tornar mais clara a explicação dos símbolos e o fato de que é possível que uma CM termine o sinal com a palma da mão para cima ou para baixo, fato este não visível na escrita. O símbolo de contato está presente em Barreto e Barretto (2009), em Nobre (2011) e em Capovilla, Raphael, Maurício (2009) e não está visível em Quadros e Stumpf (2010); entretanto, na sinalização do referido sinal, a mão ativa toca a mão passiva, provavelmente ao colocar na escrita uma mão sobre a outra, podemos subentender que estão em contato. Quanto à seta, Barreto e Barretto (2009) dispuseram uma seta dupla localizada abaixo da mão ativa, esse fato provavelmente se apresenta pela sinalização de TRADUÇÃO da comunidade surda local, ou seja, a mão ativa com palma para baixo, com a rotação do antebraço fica com a palma para cima e finaliza com a palma para baixo. Pode-se considerar que Nobre (2011) e Quadros e Stumpf (2010) não se diferenciam quanto à seta simples, a diferença se expõe quanto à localização da seta; em Nobre (2011), abaixo da mão ativa; em Quadros e Stumpf (2010), ao lado da mão ativa. Ainda em relação à localização da seta, Barreto e Barretto (2012) e Nobre (2011) apresentam semelhança e posiciona-a abaixo da CM em que haverá a rotação do antebraço. Em Capovilla, Raphael, Maurício (2009) consideramos a seta como não visível. Provavelmente, na disposição dos símbolos da escrita do referido sinal está implícita a rotação do antebraço.

1.1.4 Sinal INTERPRETAÇÃO

Na Tabela 14, a seguir, serão ilustradas as variações de grafia em SignWriting do sinal INTERPRETAÇÃO. Na coluna 1, Barreto e Barretto (2012:148); na coluna 2, Nobre (2011:119); na coluna 3, Quadros e Stumpf (2011:167); e na coluna 4, Capovilla, Raphael e Maurício (2009:1292).

Figure 12.

Descrição coluna 1 – Tabela 14: Em Barreto e Barretto (2012), o sinal INTERPRETAÇÃO apresenta grafia da CM ativa com a palma para baixo; ela toca a mão passiva que está com a palma para cima. A disposição das duas CM permite a leitura de que ambas estão horizontais e paralelas ao chão. O contato em duplicidade, localizado acima da mão passiva, bem como a seta dupla, permite a leitura de que a mão ativa movimenta-se sobre a mão passiva e volta à posição inicial. Abaixo da mão ativa, há setas duplas, localizadas abaixo da mão ativa, são indicativas do movimento para a direita e para a esquerda, o que será realizado pela rotação do antebraço e, consequentemente, a mudança da palma da mão, para a direita e para a esquerda.

Na Tabela 15, abaixo, estão apresentados, em colunas, cada símbolo utilizado pelos autores na grafia do sinal em questão. Na coluna 1, a CM ativa com a palma para baixo; na coluna 2, a CM passiva com a palma para cima; na coluna 3, o símbolo de contato duplo; na coluna 4, a seta dupla; na coluna 5, a CM ativa palma para cima, após o movimento da mão ativa e não visível na grafia; e na coluna 6, o sinal.

Figure 13.

Descrição coluna 2 – Tabela 14: Em Nobre (2011), as mãos ativa e passiva estão horizontais e paralelas ao chão. Pelo símbolo de contato apresentado em duplicidade, localizados nos lados esquerdo e direito da mão ativa, e a seta simples, localizada abaixo da mão ativa, compreende-se que durante a sinalização, a mão ativa com a palma para baixo e se movimenta, sob o comando da rotação do antebraço, tocando a mão passiva e termina a sinalização com a palma para cima.

Na Tabela 16, serão apresentados os símbolos utilizados pelo referido autor. Na coluna 1, a CM ativa; na coluna 2, a CM passiva; na coluna 3, o contato em duplicidade; na coluna 4, a seta simples; na coluna 5, a CM que finaliza o sinal e que não está visível na grafia; e na coluna 6, o sinal.

Figure 14.

Descrição coluna 3 – Tabela 14: Em relação ao sinal INTERPRETAÇÃO, verifica-se que Quadros e Stumpf (2011) escrevem-no com a mão ativa, palma da mão para baixo e mão passiva com a palma da mão para cima, ambas estão horizontais e paralelas ao chão. Na visibilidade do sinal, a mão ativa está em cima da mão passiva, provavelmente tocando-a; a seta simples, indicativa de que ocorre a rotação do antebraço, está ao lado da mão ativa e indica que a mão ativa finalizará a sinalização com a palma para cima.

Na Tabela 17, a coluna 1 apresenta a CM ativa; na coluna 2 a CM passiva; na coluna 3, a seta simples; na coluna 4, a CM ativa após a rotação do antebraço e que finaliza o sinal, porém não está visível na grafia; e na coluna 5, o sinal.

Figure 15.

Descrição coluna 4 – Tabela 14: Capovilla, Raphael, Maurício (2009:1292) descrevem o sinal INTERPRETAÇÃO: “mão esquerda aberta, palma da mão para cima; mão direita aberta, palma para baixo, dedos inclinados para a esquerda, tocando a palma esquerda. Girar a palma direita para cima e para baixo, rapidamente, duas vezes”. O referido sinal possui CM ativa localizada sobre a mão passiva e visível pelo símbolo de contato. Apesar de não visível, para que a mão ativa com a palma para baixo faça um movimento sobre mão passiva e finalize o sinal com a palma para cima, há a rotação do antebraço da mão ativa. Conforme a Tabela 18, verificam-se os símbolos envolvidos no referido sinal. A coluna 1 apresenta a CM ativa; a coluna 2, a CM passiva com a palma para baixo; a coluna 3, o contato; a coluna 4, a CM ativa com a palma para cima; e a coluna 5, o sinal.

Figure 16.

Uma vez que os símbolos envolvidos na escrita de cada autor, do sinal INTERPRETAÇÃO, foram demonstrados nas tabelas 15, 16, 17 e 18 acima, na Tabela 19 serão apresentados os símbolos dos autores, o que permitirá perceber as diferenças e semelhanças da grafia do sinal INTERPRETAÇÃO. Na coluna 1, os símbolos (CM, Contato e Seta); na coluna 2, os símbolos utilizados por Barreto e Barretto (2009); na coluna 3, os símbolos utilizados por Nobre (2011); na coluna 4, os símbolos utilizados por Quadros e Stumpf (2010); e na coluna 5, os símbolos utilizados por Capovilla, Raphael, Maurício (2009).

Figure 17.

1.1.5 Diferenças e Semelhanças do Sinal INTERPRETAÇÃO

Verifica-se que, entre os autores, há pouca diferença da CM, haja vista que todos eles utilizaram a CM em B. No entanto, em Nobre (2011) e em Quadros e Stumpf (2010), o dedo polegar das mãos ativa e passiva estão estendidos. Barreto e Barretto (2012), Nobre (2011) e Capovilla, Raphael, Maurício (2009) utilizaram o símbolo de contato. No entanto, a localização dos referidos símbolos difere entre os três autores. Pela ordem, o primeiro colocou o símbolo acima da mão passiva; o segundo colocou o símbolo do lado direito e esquerdo da mão ativa e, o terceiro, colocou o símbolo ao lado da mão ativa e logo abaixo da mão passiva. Quanto ao símbolo de contato, este não é visível na grafia de Quadros e Stumpf (2010). As setas em Barreto e Barretto (2012) são duplas e localizadas abaixo da mão ativa. Em Nobre (2011) e Quadros e Stumpf (2010), as setas são simples, porém há diferença quanto à localização da seta, o autor colocou a seta abaixo da mão ativa e as autoras colocaram a seta ao lado da mão ativa. Ainda em relação às setas, há semelhanças de localização destas em Barreto e Barretto (2012) e em Nobre (2011). Apesar das diferenças, setas duplas e setas simples, respectivamente, os autores a colocaram abaixo da mão ativa. Em Capovilla, Raphael e Maurício (2009), as setas não são visíveis. Provavelmente, na disposição dos símbolos da escrita do referido sinal está implícita a rotação do antebraço.

Conclusão

Entende-se que o objetivo de identificar as diferenças e as semelhanças a partir dos sinais SURDO, TRADUÇÃO e INTERPRETAÇÃO foi alcançado neste artigo. A análise foi realizada com a precaução de não indicar a preferência da autora por uma ou outra grafia, haja vista não se tratar de uma simples variação na grafia, o que pode até ser normal, principalmente quanto ao paramento da locação da Libras, e devido aos alofones, mas nas obras analisadas, foram indicadas variações de registro público.

A pesquisa sobre as diferenças e semelhanças de escrita da Língua de Sinais em SignWriting poderão ser ampliadas para outros sinais e isso é possível de ser realizado. Os mesmos sinais eleitos para esta pesquisa também poderão obter outras análises descritivas diferentes das que foram aqui realizadas e obter conclusões diferenciadas.

Outra possibilidade de pesquisa, a partir dos sinais apresentados, e, provavelmente, em outros sinais a serem pesquisados, é a análise do movimento de rotação do antebraço em SignWriting. Percebe-se que nos sinais TRADUÇÃO e INTERPETAÇÃO a não utilização do símbolo de contato por Quadros e Stumpf (2010) e o fato de que visivelmente a mão ativa está sobre a mão passiva sugere que, durante a rotação do antebraço, as duas mãos estão em contato. Os outros autores enfatizaram o símbolo de contato (tocar). Entretanto, Capovilla, Raphael, Maurício (2009), pela grafia e disposição dos símbolos, enfatizaram o contato e não deram visibilidade à seta de rotação do antebraço. Pesquisas mais aprofundadas poderão identificar que outros sinais semelhantes aos sinais TRADUÇÃO e INTERPRETAÇÃO são possíveis de serem escritos com ou sem o contato, ou com ou sem a seta de rotação do antebraço e também com ambos. Quanto à seta, considera-se pertinente pesquisar a melhor localização, se abaixo ou ao lado da mão passiva, tendo em vista ter sido alocada por Barreto e Barretto (2012) e Nobre (2011) abaixo da mão passiva. Em Quadros e Stumpf (2010), a seta foi alocada ao lado da mão passiva.

A expectativa é de desencadear o início de um diálogo entre pesquisadores de SignWriting, haja vista que o próprio sistema permite a variação da grafia, fato este demonstrado em apenas três sinais eleitos para o artigo e, principalmente, pela disposição dos símbolos e pelo acréscimo ou simplificação deles.

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Recebido em: 13/12/2014 e aceito em: 08/12/2015.