Resumo




Este artigo objetiva proceder a um estudo comparado da nomenclatura de três dicionários escolares monolíngues de língua Portuguesa do tipo 2. Pretende-se veri car quais os critérios adotados pelos autores na escolha da seleção, extensão e origem da nomenclatura dessas obras, uma vez que elas são destinadas ao mesmo público. Nosso corpus é composto de: Dicionário Escolar da Língua Portuguesa Ilustrado com a turma do Sítio do pica-pau amarelo, Caldas Aulete, editora Globo, 2011, Dicionário Ilustrado de Português de Maria Tereza Camargo Biderman, editora Ática, 2012 e Dicionário da Língua Portuguesa Ilustrado, editora Saraiva Júnior, 2009. 




Introdução

Os dicionários são obras que oferecem diversas informações ao consulente/aluno, sendo, portanto, um instrumento essencial e imprescindível ao cotidiano das salas de aula de língua Portuguesa. Para Krieger (2005, p.102), “o conjunto das informações que encerra torna o dicionário um lugar privilegiado de lições sobre a língua, um instrumental didático de grande valia para o professor”. Apesar de reconhecida a importância de suas funções didáticas, podemos afirmar que essas obras lexicográficas ainda são pouco conhecidas e exploradas por professores no ensino de língua materna e, sem dúvida, a inexistência da Lexicografia nos currículos acadêmicos é fator que contribui sobremaneira.

Por outro lado, a inclusão dos dicionários no Programa Nacional do livro didático - PNLD do Ministério da Educação-MEC, no ano de 2000, representa um avanço. Com a participação de universidades públicas, o PNLD-MEC passou a selecionar, além de livros didáticos, dicionários que atendessem aos projetos pedagógicos das escolas que, por sua vez, foram adquiridos e distribuídos pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE.

Em 2012, o PNLD-MEC propôs a seguinte divisão de dicionários:

Table 1.

QUADRO 1: Distribuição dos acervos propostos pelo PNLD-MEC 2012

Tipos de dicionários Etapa de ensino Caracterização
Dicionários de tipo 1 1º ano do ensino Fundamental Mínimo de 500 e máximo de 1.000 verbetes; Proposta lexicográfica adequada às demandas do processo de alfabetização inicial.
Dicionários de tipo 2 2º ao 5º ano do ensino Fundamental Mínimo de 3.000 e máximo de 15.000 verbetes; Proposta lexicográfica adequada a alunos em fase de consolidação do domínio tanto da escrita quanto da organização e da linguagem típicas do gênero dicionário.
Dicionários de tipo 3 6º ao 9º ano do ensino Fundamental Mínimo de 19.000 e máximo de 35.000 verbetes; Proposta lexicográfica orientada pelas características de um dicionário padrão de uso escolar, porém adequada a alunos dos últimos anos do ensino Fundamental.
Dicionários de tipo 4 1º ao 3º ano do ensino Médio Mínimo de 40.000 e máximo de 100.000 verbetes; Proposta lexicográfica própria de dicionário padrão de uso escolar, porém adequada às demandas escolares do ensino Médio, inclusive o profissionalizante.

É possível, a partir dessa divisão, percebermos que o referido programa divide os dicionários em tipos, ou seja, tipo 1, 2, 3 e 4, com características distintas, isto é, com números determinados de verbetes e destinados a diferentes etapas de ensino, que vão desde a alfabetização inicial até o ensino Médio e Profissionalizante.

O objetivo principal desse estudo é realizar uma análise comparada da nomenclatura de três dicionários escolares monolíngues de língua Portuguesa do tipo 2 com o objetivo de refletir sobre os critérios adotados pelos autores para a seleção, extensão e origem dessa nomenclatura, uma vez que elas são destinadas ao mesmo público, isto é, alunos que cursam do 2o ao 5o ano do ensino Fundamental. Nossa intenção não é apontar a obra mais adequada, mas sim levantar os critérios propostos pelos autores e examinar as principais informações presentes, considerando-se que se tratam de obras destinadas ao mesmo público.

Nosso corpus consta de três dicionários do tipo 2, a saber: Dicionário Escolar da Língua Portuguesa Ilustrado com a turma do Sítio do pica- pau amarelo, Caldas Aulete, editora Globo, 2011, Dicionário Ilustrado de Português de Maria Tereza Camargo Biderman, editora Ática, 2012, Dicionário da Língua Portuguesa Ilustrado, editora Saraiva Júnior, 2009.

1. Pressupostos Teóricos

Para Biderman (2001, p.18), “um dicionário é constituído de entradas lexicais ou lemas que, ora reportam a um termo da língua, ora a um referente do universo extralinguístico”, que juntos formam o que ela denomina de “nomenclatura do dicionário, a sua macroestrutura”. No âmbito deste trabalho, nomenclatura será considerada como o conjunto das unidades léxicas descritas no dicionário. Assim, para darmos continuidade o nosso trabalho, passemos à apresentação dos critérios de seleção das unidades, propostos por diferentes autores, pois acreditamos que esse apanhado pode nos auxiliar em nossas análises.

1.1 A Eleção das Entradas

Haensch et al. (1982, p. 396) divide os critérios de seleção das entradas em externos e internos. Para os autores, o critério de finalidade (descritiva ou normativa), os usuários a que a obra se destina e a sua extensão são considerados critérios externos. Por outro lado, o critério interno está relacionado ao método de seleção das unidades léxicas.

Pontes (2009, p.65) afirma que quando se pretende definir o corpus de um dicionário escolar, “é necessário que se levem em conta, entre outros fatores, os diferentes níveis de escolarização dos usuários, e a documentação selecionada deve ter características próprias.”

Cano (2011, p.116) aponta para a falta de uma “política linguística” direcionada para as escolas e para o livro didático, quando o assunto é aquisição de vocabulário e, devido a essa falha, segundo a autora, “fica difícil determinar o número de entradas de um dicionário escolar.”

Em relação aos dicionários escolares, Damin (2011, p. 117) afirma que a “seleção da nomenclatura deve buscar suprir necessidades comunicativas e incluir, por exemplo, palavras como “geometria, latitude, genética e metáfora”, além de “algumas palavras em desuso”.

1.2 Extensão da Nomenclatura

Barros (2002, p.141) aponta que o fator quantitativo é o que diferencia os diferentes tipos de obras existentes, como por exemplo, os thesaurus que se diferem dos vocabulários. Para ela (BARROS, 2002, p.141), o “aspecto quantitativo conduz a uma diferença qualitativa, tanto do ponto de vista tipológico, quanto no que concerne à natureza da nomenclatura que comportam.”

Por outro lado, Damin (2011, p. 117) afirma que “entre os lexicógrafos não há consenso sobre o número de entradas que um dicionário escolar deva ter.” Por outro lado, para a autora, é possível tomarmos por base as obras disponíveis no mercado brasileiro e percebermos que esses dicionários possuem entre 8.000 e 50.000 entradas.

Welker (2004, p. 87) também aborda essa questão da exigência das editoras e, segundo o autor, ela desempenha importante papel na extensão da nomenclatura: “vários autores já frisaram que as editoras, geralmente, destacam o número de palavras registradas, indicando a quantidade até mesmo na capa dos dicionários.”

1.3 A Origem da Nomenclatura

Pontes (2009, p.63) afirma que “a elaboração de um dicionário tem que começar com a coleta e informatização do corpus de textos. Para o autor “é sempre preferível partir do zero, partindo da informação que nos der o corpus e não tomar outros dicionários como ponto de partida.” Welker (2004, p.87) também aborda a questão da origem da nomenclatura de um dicionário. O autor aponta, inclusive, para a questão da “criminalidade lexicográfica”, entretanto não discute a questão.

Para Cano (2011, p. 116), no caso de dicionários elaborados para crianças de 9 a 13 anos, a nomenclatura deveria ser extraída de livros didáticos, materiais paradidáticos, obras literárias indicadas para o público-alvo e contemplar, sempre que possível, as variantes sociais e regionais com as devidas marcações.

Cano (2011) acredita que, para um público jovem, entre 13 a 18 anos, a nomenclatura, deva ser constituída de:

manuais didáticos e do material paradidático indicados para cada série, a nomenclatura deva ser acrescida de revistas de divulgação científica e de jornais de grande circulação. Quanto a obras literárias, acreditamos serem suficientes as indicativas para leitura extraclasse e concursos vestibulares, que tenham cunho contemporâneo, além de lançamentos escritos originalmente em Língua Portuguesa. (CANO, 2011, p. 116)

Do exposto por Cano (2011), complementamos que, para nós, os diferentes níveis de escolarização dos usuários é fator primordial na composição da nomenclatura de um dicionário escolar, que deve incluir, entre outros textos, os livros e manuais didáticos e paradidáticos.

2. Nossas Análises

Iniciaremos nossas análises discorrendo sobre as principais características e aspectos relevantes dos textos iniciais e finais dos dicionários do tipo 2, dando especial atenção às informações relativas à seleção, extensão e origem da nomenclatura dessas obras.

Tomaremos por base os seguintes questionamentos de pesquisa: Qual deve ser a extensão da nomenclatura, ou seja, quantas unidades devem compor a nomenclatura de um dicionário? Quais os critérios adotados pelos autores na seleção da nomenclatura dessas obras? Qual a origem dessa nomenclatura? Quais são os tipos de unidades que devem compor essa nomenclatura? e Como se deu o arranjo das entradas, ou seja, como elas foram organizadas?

2.1 Dicionário Escolar da Língua Portuguesa Ilustrado com a Turma do Sítio do Pica-Pau-Amarelo

O dicionário escolar da Língua Portuguesa Ilustrado com a turma do sítio do pica-pau amarelo apresenta já na capa inicial a quantidade de verbetes, a informação de que trata-se de uma obra aprovada pelo PNLD Dicionários, de venda proibida, para uso exclusivo em sala de aula, destinada a alunos do 2º ao 5º ano do ensino Fundamental, além do nome do organizador, nome da editora, título da obra e ilustrações.

No verso da capa inicial, é registrado um texto denominado Mensagem ao leitor, dirigido a Professores e Estudantes. Nele, o autor informa que o dicionário “faz parte de um acervo composto por dicionários de diferentes autores e editoras, distribuídos às escolas públicas pelo Ministério da Educação, “ [...], “deve ser usado na sala de aula”, [...] “é um valioso instrumento de apoio para a aprendizagem e descoberta de significados para a leitura” e ainda estimula o aluno a consultá-lo sempre.

Na capa final, em um texto que esclarece dados sobre José Bento Monteiro Lobato e Francisco Caldas Aulete, o autor convida o aluno a participar da aventura de conhecer o dicionário em questão.

A obra também informa o público-alvo a que se destina: alunos do ensino Fundamental, do 2º ao 5º anos, “à criança recém - alfabetizada, que começa a estudar tendo a língua como eixo de seu aprendizado.” (CALDAS AULETE, 2011)

Posteriormente a capa e a folha de rosto, a obra traz um texto intitulado nota aos editores, que faz referência à Lexikon, editora digital, especializada “em obras de referência impressas e digitais, na internet e em equipamentos móveis, sempre sintonizada com os novos meios de acesso à informação.” (CALDAS AULETE, 2011, p. 4).

Em seguida, o dicionário apresenta um pequeno sumário, seguido do texto A turma do sítio. Nele o autor apresenta e descreve os seguintes personagens de Monteiro Lobato: Emília, Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Nastácia, Visconde de Sabugosa, Saci, Rabicó, Conselheiro, tio Barnabé, Quindim, Cuca, Zé Carijó, Casca e Cascadura e Pesadelo.

Depois da apresentação dos personagens, o autor expõe o texto aos educadores (proposta lexicográfica) que traz informações relativas à extensão da nomenclatura, “6.183 verbetes.” Para ele, a nomenclatura presente

se propõe a cobrir o universo de palavras e termos com que irá se deparar um jovem entre 6 e 11 anos de idade, entre o 2o e o 5o, eventualmente o 6o ano do ensino Fundamental, em sua educação e instrução escolar, nos campos de interesse cobertos pelos livros e revistas que vai ler, naquilo que vai ver e ouvir no jornal e na televisão e nas conversas dos “mais velhos” que mais lhe chamarão a atenção.” (CALDAS AULETE, 2011, p. 8).

Não há explicitação dos critérios adotados para a seleção da nomenclatura. A obra cita que:

A cobertura do dicionário não se limita a 6.183 palavras. Diante do desafio de aprofundar o nível de informações semânticas, gramaticais, contextuais sem estender os espaços utilizados além dos limites razoáveis e factíveis - o que implica a necessidade de usar um acervo maior que 6.183 palavras-, incorporam-se aos verbetes muitas derivadas e suas definições, além de citações de sinônimos, que ampliam o campo semântico e o universo das palavras sem um grande aumento de utilização de espaços. (CALDAS AULETE, 2011, p. 8)

O texto também informa que as definições serão elucidativas a partir de seu próprio enunciado, para o que se usam palavras simples e uma estrutura que propicia a intuição do significado”. O autor complementa, em relação às definições que “elas não são definições, mas explicações, às vezes, em nível coloquial, em que a palavra elucidada está em sua função natural na própria frase que a explica.” (CALDAS AULETE, 2011, p.8)

Além disso, o texto aos educadores (proposta lexicográfica) apresenta a quantidade de desenhos e fotos, 662, cuja função, segundo o autor é “informativa que suplementa a informação escrita, permitindo a perfeita compreensão de significados e usos” (CALDAS AULETE, 2011, p. 8). As ilustrações não têm legenda, porém sempre aparecem junto aos verbetes.

Sobre a formatação gráfica, a obra informa que “visa simultaneamente a um aproveitamento ótimo do espaço disponível e a uma interação orgânica entre texto e ilustrações” (CALDAS AULETE, 2011, p. 8). Há, também, um ótimo aproveitamento de espaço disponível e uma interação entre texto e ilustrações, sem prejuízo de legibilidade, além de ser colorida e visualmente bastante atrativa.

O autor informa a fonte da letra utilizada: “cabeças de verbete em Stone sans bold, corpo 11, texto em Nimrod MT (com entradas suplementares em bold), corpo 10,5 com alinhamento pela esquerda”, o que segundo o autor, “evita o uso de hífens e permite um arejamento da página que beneficia a leitura e torna mais agradável a percepção do todo.”(CALDAS AULETE, 2011, p.11). A mancha-gráfica é organizada em colunas e são duas as palavras-guia em cada página, que aparecem lado a lado no início da primeira coluna. Há o registro das letras k, w, y. Posteriormente ao texto intitulado aos educadores (proposta lexicográfica), a obra apresenta sua proposta pedagógica. É nela que o autor esclarece que este dicionário “tem a função de instigar a criança a querer saber mais e mais e também a de auxiliar o professor/mediador no processo de construção do conhecimento como um apoio, uma sustentação.” (CALDAS AULETE, 2011, p. 9).

O autor também explica que esse dicionário deve ser um instrumento, uma ferramenta para se conhecer e saber usar a Língua Portuguesa, bem como as suas variedades e registros formais e informais.

A obra não apresenta um guia de orientação ao professor. Traz, na página 10, apenas como usar este dicionário. Todos os verbetes apresentam divisão silábica e são ordenados alfabeticamente.

O dicionário traz informações relacionadas à pronúncia. Os verbos têm um tratamento especial, são apresentadas diferentes regências. Os estrangeirismos são marcados por um sinal especial [Ä], muitas locuções e expressões idiomáticas também são assinaladas [¥] e definidas. A obra não faz referência explícita ao tratamento dado aos regionalismos, porém explica se determinada palavra pertence a alguma região específica.

Há muitos exemplos, explicações sobre gírias, explicações suplementares (sinônimos, antônimos, parônimos), além de contemplar diferentes classes gramaticais.

Em relação à homonímia, esse dicionário afirma que, quando houver “dois verbetes de origens diferentes, mas que se escrevem da mesma maneira, cada verbete vem seguido de um número sobrescrito” (CALDAS AULETE, 2011, p. 11).

Logo depois do texto, como usar este dicionário, segue uma parte intitulada modelos de conjugação que, por meio de quadros, apresenta os modelos das três conjugações regulares e do verbo “pôr”. É uma obra colorida, de aspecto visual bastante atrativo ao público em questão. É na página 13, que o dicionário propriamente dito se inicia. A obra não possui apêndice ou anexo.

2.2 Dicionário Ilustrado de Português de Maria Tereza Camargo Biderman

Essa obra apresenta na capa inicial, o título, o nome da autora, a indicação da editora, a quantidade de verbetes e de imagens que o consulente irá encontrar, a informação de que trata-se de uma obra de venda proibida, de uso exclusivo em sala de aula, aprovada pelo PNLD Dicionários.

Na capa final, por meio de tópicos tais como: clareza e atualidade, fácil de usar, ricamente ilustrado, pertinência e anexos com informações úteis, o dicionário explica ao consulente que as definições utilizaram uma linguagem clara, esclareceram a ortografia, o significado das palavras, como elas são usadas hoje em dia, que o projeto gráfico visa auxiliar no desenvolvimento da habilidade de consulta, que há mais de 750 fotos e ilustrações coloridas, cujo objetivo é estimular o interesse e a curiosidade do consulente.

É também na capa final que o dicionário informa ao consulente a extensão de sua nomenclatura: “mais de 5900 palavras relacionadas à língua escrita e falada nas primeiras séries escolares”, incluindo “indicação de pronúncia, classificação gramatical, sinônimos, antônimos, expressões, estrangeirismos e muito mais” (BIDERMAN, 2012). Além disso, a autora esclarece ainda que os anexos contêm a origem das palavras, mapas, bandeiras etc.

Assim como no dicionário escolar da Língua Portuguesa Ilustrado com a turma do sítio do pica-pau amarelo, no verso da capa inicial, é registrado um texto denominado Mensagem ao leitor, dirigido a

Professores e Estudantes, contendo as mesmas informações, ou seja, essa obra “faz parte de um acervo composto por dicionários de diferentes autores e editoras, distribuídos às escolas públicas pelo Ministério da Educação, “ [...], “deve ser usado na sala de aula”, [...] “é um valioso instrumento de apoio para a aprendizagem e descoberta de significados para a leitura” e ainda estimula o aluno a consultá-lo sempre.

Logo após a folha de rosto, o dicionário apresenta o sumário, seguido do texto apresentação, que, diferentemente das outras obras, é escrito em forma de verso e, de forma lúdica, informa que “o dicionário é um livro bem diferente dos outros”, “parecido com uma casa organizada” e que é muito bom quando se pode ter uma obra dessa natureza para “curtir e aprender” (BIDERMAN, 2012, p. 5).

Em seguida, surge o texto como usar este dicionário, que apresenta as diversas informações que podem ser encontradas pelos consulentes: entradas em azul e, quando se tratar de um estrangeirismo, em itálico; categoria gramatical, exemplo, separação silábica, sílaba tônica, sinônimos e antônimos.

Em relação às palavras compostas, a obra informa que, em muitos casos, seu registro se dará junto a outras; esclarece também que poderá haver a remissão para outras entradas e ainda para figuras, que as expressões idiomáticas também serão registradas, além de observações relativas à mudança da categoria gramatical e pronúncia.

Posteriormente ao texto como usar este dicionário, o dicionário apresenta, nas páginas 8, 9 e 10, o prefácio. Nesse texto, a autora aponta a finalidade da obra: “iniciar a criança no fascinante mundo das palavras e no uso de um dicionário de tipo adulto” (BIDERMAN, 2012, p. 8).

Segundo a autora, a formatação permite à criança se familiarizar com esse tipo de obra, além de incluir todas as informações que aparecem “em um dicionário convencional com a vantagem de ter uma apresentação mais simples, definições adequadas aos estudantes do ensino Fundamental I e exemplos atualizados e fáceis de entender” (BIDERMAN, 2012, p. 8).

Segundo Biderman, essa proposta de dicionário inclui palavras relacionadas à tecnologia e um acervo considerável da herança cultural, histórica e linguística de nosso país e os critérios empregados na seleção desse acervo foram:

uma pesquisa feita em um grande corpus do Português Brasileiro contemporâneo de 6 milhões de palavras, sendo 5 milhões relacionadas à língua escrita e o restante associado à língua falada. Esse corpus contém as mais variadas modalidades de gêneros discursivos e temáticos, sendo muito representativo do atual estado sincrônico do Português Brasileiro. Desse conjunto tão amplo, foram selecionados inicialmente 3 milhões de palavras, levando- se em conta critérios de maior frequência; em seguida, tal seleção foi confrontada com um grande número de livros escolares de 1ª a 4ª série, ampliando o universo tratado para cerca de 5 mil vocábulos. Finalmente foi feita uma comparação entre o vocabulário gerado e o contexto das definições e exemplos que tinham sido elaborados, chegando-se a uma nomenclatura de 5.904 palavras. Obviamente houve aí também a preocupação de apresentar todos os vocábulos usados nas definições e nos exemplos. (BIDERMAN, 2012, p. 8)

O prefácio também informa como se dá a estrutura e organização dos verbetes, a apresentação dos homônimos, que, segundo a autora, foi uma preocupação vigente nessa obra e recebeu especial atenção. Neste momento, ela informa que os homônimos se apresentam por meio de entradas diferentes (numeradas, inclusive) e os critérios adotados para distingui-los foi: “diversidade semântica – quando as palavras têm significação distinta e o falante é capaz de compreendê-las como unidades diferentes” e o critério da “diversidade léxico-gramatical - quando as palavras pertencem a classes gramaticais distintas por causa de seu funcionamento linguístico, devendo ser consideradas como unidades distintas” (BIDERMAN, 2012, p. 9).

Fomos examinar alguns exemplos e constatamos total coerência com a proposta apresentada por Biderman (2012):

Figure 1.

O prefácio também esclarece sobre a categorização das palavras e informa “quando a palavra pertence a duas categorias distintas (substantivo e adjetivo), optou-se por dar como entrada a categoria mais frequente” (BIDERMAN, 2012, p. 9). No prefácio, também encontramos informações sobre a classificação dos verbos, sinônimos, antônimos, estrangeirismos, seleção icnográfica e palavra final.

Segundo Biderman (2012, p. 9), os sinônimos e antônimos permitem estabelecer relações de semelhanças e diferenças entre os vocábulos e, em relação aos estrangeirismos, a autora esclarece que alguns foram incluídos, entretanto não faz referência aos critérios que foram utilizados. Depois desse prefácio relativamente extenso, o dicionário traz uma lista de abreviaturas e símbolos. Na página 13, em uma linguagem bastante simples, iniciam-se os verbetes, que se organizam em ordem alfabética e contemplam diferentes classes gramaticais. As entradas são grafadas na cor azul, divididas em sílabas, separadas por hífen.

Os verbos não tratam de informações sobre a transitividade. Biderman (2012) comenta que esses conceitos são difíceis para esse nível de ensino e o perfil do usuário dessa obra. Para ela, o importante é que o leitor aprenda e saiba reconhecer as funções básicas de um verbo.

Quanto às expressões idiomáticas, Biderman (2012) afirma que a inclusão foi feita apenas quando o uso corrente aconselha. A obra traz ainda indicação da pronúncia, palavras compostas, plurais e não informa sobre o tratamento dado aos regionalismos.

Todas as letras do alfabeto estão presentes no dicionário e não há guia de orientação ao professor. A mancha-gráfica é organizada em colunas. O dicionário apresenta as palavras-guia no início de cada coluna. Todas as ilustrações têm legenda.

Na página 325, o dicionário apresenta os anexos: Mapa do mundo, Bandeira dos países, Mapa do Brasil, Bandeiras dos estados brasileiros, Categorias gramaticais, Origem das palavras, Libras, Animais, Medidas, Figuras geométricas, Numerais e Tempo.

As informações relativas a Medidas, Figuras geométricas (contando com seis figuras), Numerais e Tempo subdividido em dias da semana, fases da lua, meses e estações do ano são apresentados em forma de pequenos quadros.

2.3 Dicionário da Língua Portuguesa Ilustrado Saraiva Júnior

O Dicionário da Língua Portuguesa Ilustrado, editora Saraiva Júnior, 2009, em formato menor do que os apresentados anteriormente (20 x 14 cm), traz na capa inicial, além do título, algumas ilustrações, a indicação da quantidade de verbetes, mais de 7.040, indicação da editora/editores responsáveis, o público alvo, a informação de que trata-se de uma obra de venda proibida, para uso em sala de aula, destinada a alunos do 2o ao 5o ano do ensino Fundamental, aprovada pelo PNLD Dicionários.

Na capa final, a obra apresenta uma série de informações, entre elas: a extensão da nomenclatura e como se deu o arranjo das entradas (mais de 7000 organizadas em ordem alfabética), impressão em destaque colorido, marca alfabética impressa nas laterais, mais de 350 imagens e ilustrações didáticas, verbetes com divisão silábica etc.

Assim como nos demais dicionários também é registrado no verso da capa inicial o texto denominado Mensagem ao leitor, dirigido a Professores e Estudantes, contendo as mesmas informações, ou seja, essa obra “faz parte de um acervo composto por dicionários de diferentes autores e editoras, distribuídos às escolas públicas pelo Ministério da Educação, “ [...], “deve ser usado na sala de aula”, [...] “é um valioso instrumento de apoio para a aprendizagem e descoberta de significados para a leitura” e ainda estimula o aluno a consultá-lo sempre.

Depois da capa e da folha de rosto, o dicionário traz o texto apresentação do dicionário, que é disposto em forma de verbetes. Nesse texto, Saraiva Júnior informa que “a proposta lexicográfica está adequada ao nível de escolaridade dos alunos do segundo ao quinto ano do ensino Fundamental, que se encontram em fase de consolidação do domínio da escrita e em pleno processo de construção da cidadania” (SARAIVA JÚNIOR, 2009, p. 3).

Além disso, o autor informa sobre os verbetes. Segundo ele, as definições são “claras e analíticas”, seguem “prioritariamente a frequência de uso” e, nos casos em que há mais de uma acepção, as “definições são numeradas” (SARAIVA JÚNIOR, 2009, p. 3). Porém, não é informado aos leitores como se deu a seleção e origem dos verbetes.

Várias outras informações são apresentadas nesse texto: as imagens usadas como parte indissociável das definições, os catorze trava-línguas, ou seja, uma espécie de exercício fonético, vinte adivinhações, que são brincadeiras relacionadas à dedução e à capacidade de abstração da criança consulente, dezenove provérbios que abordam o folclore, três poemas, seis atividades intituladas faça você mesmo que objetivam incentivar a “criatividade, a socialização e a formação individual sob uma perspectiva interdisciplinar”, trinta e um você sabia? cujo objetivo é trazer mais informações a respeito de determinados verbetes, dez brincadeiras e onze cantigas de roda.

Posteriormente ao texto apresentação do dicionário, segue a parte como consultar este dicionário de Língua Portuguesa. Esse texto traz informações relativas ao tratamento dado aos sinônimos, antônimos, indicação de pronúncia, entre outras.

O Dicionário da Língua Portuguesa Saraiva Júnior apresenta suas entradas em letra minúscula, cor azul, seguidas da divisão silábica entre parênteses, separadas por ponto. No caso dos monossílabos, a palavra é repetida.

Após a separação silábica com a respectiva indicação da sílaba tônica, o dicionário apresenta a indicação da categoria gramatical. O dicionário contempla diversas classes gramaticais.

No verbete também encontramos exemplos, segundo o autor, usados para auxiliar o aluno na compreensão e alguns superlativos absolutos sintéticos, quando irregulares ou duvidosos.

Já sobre a homonímia, o autor comenta que “são vocábulos que possuem a mesma pronúncia, mas cujo sentido e, às vezes, grafia são diferentes” e, nesse caso, segundo ele, “há uma indicação remetendo ao outro verbete” (SARAIVA JÚNIOR, 2009, p. 4).

Sobre os regionalismos, Saraiva Júnior esclarece que eles são palavras ou locuções usadas em determinadas regiões do país, mas não explicita o tratamento que foi dado. Quanto as expressões idiomáticas, o autor afirma que citou somente as mais comuns. Já as locuções aparecem no verbete em destaque colorido. As palavras estrangeiras, recentes ou não, são apresentadas em itálico e com a indicação da língua de origem.

Os verbos apresentam a transitividade e as irregularidades estão indicadas no final do verbete. A expressão – conjuga-se como é usada como referência quando determinado verbo serve de referência, além da expressão àV conjug. nos casos em que a conjugação do verbo estiver no anexo final.

Em uma linguagem bastante simples, a obra traz também informações relativas à indicação da área do conhecimento a que determinadas palavras pertencem, palavras da vida moderna, plurais irregulares e femininos duvidosos, propriedades morfossintáticas, tais como a indicação de gênero do substantivo e do adjetivo, indicação de diferentes níveis de formalidade e aumentativos.

A mancha-gráfica é organizada em colunas. São duas as palavras- guia em cada página, que aparecem no início de cada coluna. Todas as ilustrações têm legenda, são de boa qualidade e condizentes ao público em questão. A obra não informa a fonte da letra utilizada e inclui as letras k, w, y.

A obra apresenta, na página 6, depois do texto como consultar este dicionário da Língua Portuguesa, uma lista de abreviaturas e, na página 465, vários apêndices e anexos que são dessa forma propostos: Conjugação verbal, Respostas das Adivinhas, Coletivo, Algarismos Arábicos e Romanos, Números Cardinais e Ordinais, Estados, Capitais e Adjetivos Pátrios, Países, Bandeiras e Mundo.

A seguir, apresentamos uma síntese das dos textos iniciais e finais de cada uma das obras.

Dicionário Escolar da Língua Portuguesa Ilustrado com a Turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo - Caldas Aulete: Capa, 2 Folhas de rosto, Nota aos editores, Sumário, A turma do Sítio, Aos pais e educadores, Proposta pedagógica, Como usar este dicionário, Modelos de conjugação, Corpo do dicionário e Capa final.

Dicionário Ilustrado de Português de Maria Tereza Camargo Biderman: Capa, Folha de rosto, Sumário, Apresentação, Como usar este dicionário, Prefácio, Abreviaturas e símbolos usados neste dicionário, Corpo do dicionário , Anexos e Capa final.

Dicionário da Língua Portuguesa Ilustrado - Saraiva Júnior: Capa, Folha de rosto, Apresentação do dicionário, Como consultar este dicionário, Abreviaturas usadas neste dicionário, Corpo do dicionário, Anexos e Capa final.

Considerando-se a capa, a capa final, a folha de rosto e o sumário como elementos obrigatórios em uma obra dessa natureza, é possível visualizarmos que somente o texto que explica como se usa o dicionário é parte comum nas três obras em questão. Convém ressaltar o que cita Gomes (2007, p. 149), quando afirma que “as orientações para o uso do dicionário são imprescindíveis.” Para nós, esse tipo de texto seria de natureza obrigatória.

Em relação à lista de abreviaturas e siglas usadas na obra (que também consideramos texto obrigatório), o Caldas Aulete inova e traz ao final de cada página as abreviaturas que foram utilizadas.

Outro ponto observado, que nos pareceu uma prática comum, é informar ao consulente a extensão da nomenclatura do dicionário de maneira bem visível, pois as três obras analisadas trazem essa informação na capa.

Nesse momento, temos que considerar também o fato das exigências das editoras e a postura dos usuários na busca de informações relativas à quantidade de entradas. Acreditamos que as questões relativas à extensão da nomenclatura realmente possam significar dificuldades aos lexicógrafos no que se refere ao aspecto comercial; entretanto, como estudiosos da área, não acreditamos que isso deva mudar nossa postura de análise cuidadosa da seleção da nomenclatura para a elaboração de um dicionário escolar.

Outras questões são também relevantes e deveriam ser informadas ao consulente, tais como o arranjo das entradas, a origem da nomenclatura e quais os critérios adotados na seleção das entradas.

O quadro a seguir resume o que foi verificado em relação a essas informações:

Table 2.

QUADRO 2: Informações sobre a nomenclatura dos dicionários analisados

Dicionário Escolar da Língua Portuguesa Ilustrado com a Turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo Caldas Aulete Dicionário Ilustrado de Português – Maria Tereza Camargo Biderman Dicionário da Língua Portuguesa Ilustrado Saraiva Júnior
Extensão da nomenclatura 6.183 verbetes mais de 5900 verbetes mais de 7000 verbetes
Arranjo Ordenação semasiológica Ordenação semasiológica Ordenação semasiológica
Origem da nomenclatura Não informa Grande corpus composto por 6 milhões de palavras. Não informa
Seleção das entradas Não informa Pelo critério de frequência, seleção inicial de 3 milhões de palavras. Logo após, confronto dessa seleção com um grande número de livros escolares de 1ª a 4ª série e depois uma comparação entre o vocabulário gerado e o contexto das definições e exemplos que tinham sido elaborados. Não informa
Obs. O autor informa que as entradas se propõem a cobrir o universo de palavras com que irá se deparar uma criança ao se comunicar, nos campos de interesse coberto pelos livros, revistas, jornais, televisão e conversas com pessoas mais velhas. -- O autor informa que a proposta lexicográfica está adequada ao nível de escolaridade dos alunos das quatro primeiras séries do ensino Fundamental, que se encontram em fase de consolidação do domínio da escrita e em pleno processo de construção da cidadania

Diante desse quadro, um ponto nos chamou a atenção: já que os três autores citam que as entradas dos dicionários mantêm relação com o universo infantil, seja por meio de manuais didáticos, revistas, jornais ou por estarem relacionadas a esse nível de ensino, a título de verificação, escolhemos aleatoriamente 80 lemas que nomeiam meios de transporte1 e fomos verificar quais deles coincidem nas três obras. O resultado de nossa pesquisa registra que apenas 32 são comuns e, portanto, foram registrados nos três dicionários. São eles: aeronave, ambulância, automóvel, avião, balão, barco, bicicleta, caminhão, canoa, carreta, carro, carruagem, foguete, helicóptero, jangada, jato, jipe, locomotiva, máquina, metrô, motocicleta, navio, ônibus, perua, skate, submarino, tanque, táxi, trator, trem, vagão e veículo.

Quando se trata de um domínio mais específico (informática)2, esse número é ainda menor: dos 54 lemas apresentados, apenas 15 são comuns. São eles: CD, CD-Rom, chip, disquete, DVD, e-mail, hacker, informática, internet, janela, mouse, on line, programa, site e software.

Alguns comentários se fazem necessários: causou-nos certo estranhamento lemas como antivírus, computação, CPU, driver, net, link e web constarem em apenas uma das três obras citadas, uma vez que, conforme afirmamos, se tratar de palavras comuns e presentes nos manuais, revistas e livros didáticos com que se depara esse consulente. Da mesma forma, causou-nos estranhamento o dicionário de

Biderman não ter registrado palavras como blog, CD-R, homepage, internauta, laptop, micro, microcomputador, notebook, entre outras, pois, segundo a autora, foram incluídos “alguns estrangeirismos por causa de seu uso generalizado no Português Brasileiro Contemporâneo, sobretudo no domínio da informática” (BIDERMAN, 2012, p. 10).

Outros pontos em relação à nomenclatura nos chamaram a atenção: o registro, por exemplo, de palavras como gazeteiro, haraquiri, hemeroteca, híndi, kilt, kitsch, Kwanza, léxico, lexicologia, lexicólogo, lexicografia, lexicógrafo, mórmon, neologismo, numismática, Oxossi, quarup, quíchua, quimbundo, sambaqui, taoísmo em um dicionário especialmente elaborado para crianças em fase de consolidação do domínio da escrita.

Conclusões

A discussão proposta no âmbito desse trabalho teve como ponto de partida a lista de obras proposta pelo PNLD-MEC 2012 e o contraponto a que nos propusemos foi realizar uma análise comparada da nomenclatura de três dicionários escolares monolíngues de Língua Portuguesa do tipo 2, com o objetivo de refletir sobre os critérios adotados pelos autores para a seleção das entradas, extensão e origem da nomenclatura, uma vez que elas são destinadas ao mesmo público, isto é, alunos que cursam do 2º ao 5º ano do ensino Fundamental.

Retomando nomenclatura concebida aqui como o conjunto das unidades léxicas descritas no dicionário, nossas análises permitiram- nos tecer algumas considerações: em primeiro lugar, fica evidente que a proposta de inclusão do dicionário no Programa Nacional do livro didático, no ano 2000 e, consequentemente, a criação de documentos que apontam diretrizes a respeito dessas novas propostas lexicográficas, provocou uma valorização do dicionário no ambiente escolar, enquanto instrumento didático. Hoje, as escolas estão equipadas com acervos que contêm diferentes tipos de dicionários escolares (1, 2 3 e 4), destinados a diferentes públicos que contemplam desde o 1o ano do ensino Fundamental ao ensino Médio. Além disso, esses acervos foram divididos em grupos cada um com um número mínimo e máximo de verbetes e proposta lexicográfica adequada a diferentes demandas.

Sem dúvida, demos um primeiro passo no momento em que refletimos sobre a construção de diferentes tipos de dicionários para diferentes públicos. Por outro lado, nossas análises nos mostraram que ainda há muito a ser feito, pois, para nós, algumas questões são significativas na construção de uma obra lexicográfica escolar.

Em se tratando especialmente dos critérios apresentados pelo PNLD/MEC/Dicionários 2012, em uma rápida análise podemos verificar algumas lacunas o que nos leva às seguintes indagações: os dicionários do tipo 2, segundo o PNLD/dicionários contêm um número mínimo de 3.000 e máximo de 15.000 verbetes, o que a nosso ver, é uma diferença que propõe um número relativamente extenso para caracterizar um mesmo tipo de obra, ou seja, 12.000 entradas.

Outro questionamento: se os dicionários do tipo 2 contêm um número mínimo de 3.000 e máximo de 15.000 verbetes e os dicionários do tipo 3 um número mínimo de 19.000 e máximo de 35.000 verbetes, como se classifica o dicionário que possui um número entre 15.000 e 19.000 verbetes?

Especialmente em relação aos critérios propostos pelos autores dos dicionários do tipo 2, em se tratando da extensão da nomenclatura, percebemos que eles optaram por números que variam entre 5.900 a 7.000 verbetes: o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa Ilustrado com a Turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo Caldas Aulete contém 6.183 verbetes, o Dicionário Ilustrado de Português – Maria Tereza Camargo Biderman, mais de 5.900 e o Dicionário da Língua Portuguesa Ilustrado Saraiva Júnior, mais de 7000 verbetes.

A nosso ver, um dicionário escolar do tipo 2 não deve ser extenso demais e tampouco econômico demais. Ademais, defendemos que ele deve informar na capa se essa quantidade refere-se ao número de definições ou de entradas, pois em muitos casos essas diferenças numéricas não são tratadas.

Já considerando-se a seleção das entradas dos dicionários do tipo 2, apenas o Dicionário Ilustrado de Português – Maria Tereza Camargo Biderman aponta o critério de seleção e origem da nomenclatura, ou seja, o critério de frequência, partindo de uma seleção inicial de 3 milhões de palavras e um grande corpus composto de 6 milhões de palavras.

Acrescentamos que é de suma importância que essa seleção seja realizada a partir de critérios claros e sempre buscando suprir as necessidades do consulente/aluno a que o dicionário se destina.

Para concluir, diante do exposto, cremos que demos um primeiro passo no momento em que o PNLD/MEC Dicionários propôs os critérios de classificação dos dicionários escolares em tipos destinados a diferentes públicos. Por outro lado, não podemos deixar de acrescentar que discutir essa problemática é o único caminho que dá início à construção do perfil de obras cada vez mais adequadas e funcionais para seus usuários.

Referências

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BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. Os dicionários na contemporaneidade: arquitetura, métodos e técnicas. As ciências do Léxico. Lexicologia, Lexicografia, Terminologia. (org.) OLIVEIRA, Ana Maria P; ISQUERDO, Aparecida NEGRI, 2.ed. Campo Grande MS:UFMS, 2001. 265 p.

BRASIL. SEF/MEC. Guia de livros didáticos do PNLD 2004 - Dicionários. Brasília: SEF/MEC, 2012.

CANO, Waldenice Moreira. Qual deve ser a nomenclatura de um dicionário escolar para crianças e de um dicionário para jovens? In: XATARA, CLAUDIA; BEVILACQUA, CLECI REGINA; HUMBLÉ, PHILIPPE, RENÉ MARIE (Org.). Dicionários na teoria e na prática: como e para quem são feitos. São Paulo: Parábola Editorial, 2011. 115-122.

DAMIN, Cristina Pimentel. Qual deve ser a nomenclatura de um dicionário escolar para crianças e de um dicionário para jovens? In: XATARA, CLAUDIA; BEVILACQUA, CLECI REGINA; HUMBLÉ,

PHILIPPE, RENÉ MARIE (Org.). Dicionários na teoria e na prática: como e para quem são feitos. São Paulo: Parábola Editorial, 2011. 43-44.

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WELKER, H. A. Dicionários: uma pequena introdução à lexicografia. 2.ed. Brasília: Thesaurus, 2004.

Dicionários

BIDERMAN, Maria Tereza Camargo. Dicionário Ilustrado de Português. São Paulo: Ática; 2012.

CALDAS AULETE. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa Ilustrado com a turma do Sítio do pica-pau amarelo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

SARAIVA JÚNIOR. Dicionário da Língua Portuguesa Ilustrado. São Paulo: Saraiva. 2009. 482 p.

Recebido em: 20/07/2015 e aceito em: 18/12/2015.