Resumo

As pesquisas desenvolvidas junto ao Corpus Tycho Brahe1 de estruturas linguísticas que caracterizam o Português Clássico, apontam a propriedade dessa gramática de formar sentenças declarativas nitas projetando uma sintaxe de ordem semelhante à sintaxe de línguas V2, com o verbo e o sujeito ocupando posições mais altas na estrutura da frase. Qualquer constituinte deslocado do VP, inclusive o sujeito, pode ocupar uma posição pré-verbal dentro da estrutura prosódica da oração, sendo, nessa posição, interpretado como tópico e/ou foco (ANTONELLI 2008, 2011; GALVES 2003, 2009; GALVES, BRITTO & PAIXÃO DE SOUSA 2005; GIBRAIL 2010; PAIXÃO DE SOUSA 2004). Em se tratando de objetos diretos em posição pré-verbal, o português clássico licencia-os em duas posições distintas de tópico: em um núcleo Top projetado dentro da oração (GALVES 2003, 2009), que GIBRAIL (2010) de ne como estrutura de Top-V22, e/ou em posição de adjunção, com o objeto direto realizado como um adjunto, dentro e/ou fora do contorno intoacional da frase, na forma de estrutura de Deslocação à Esquerda Clítica (DEC). 

Introdução

O objetivo deste artigo é a apresentação dos contextos de formação de objetos diretos topicalizados na forma de Top-V2 e na forma de DEC no Português Clássico (doravante, PCl), com os dados levantados de textos de autores portugueses nascidos entre o séc. 16 e início do séc. 19, disponibilizados no Corpus Tycho Brahe. O resultado a ser apresentado confirma a propriedade do PCl de formar sentenças declarativas finitas projetando uma sintaxe de ordem semelhante à sintaxe de línguas V2 (ANTONELLI 2008, 2011; GALVES 2003; GALVES, BRITTO & PAIXÃO DE SOUSA 2005). Nessas sentenças, qualquer constituinte da oração pode ser realizado em posição pré-verbal dentro do contorno intoacional da frase. Em se tratando de objeto direto topicalizado, o PCl tende a topicalizar este constituinte em sentenças declarativas finitas na forma de Top-V2, ainda que instancie também, com regular frequência, sua topicalização na forma de DEC.

Segundo GALVES, BRITTO & PAIXÃO DE SOUSA(2005), a presença de pronomes clíticos em próclise nas sentenças do português dos séc. 16-17 é o fator que define o sintagma pré-verbal em posição interna à oração. O uso de clíticos em ênclise sinaliza que o verbo é o primeiro elemento a compor a estrutura prosódica da oração.

A partir do séc. 18 ocorrem mudanças estruturais que levam à restrição de uso de objetos diretos topicalizados na forma de Top-V2 e ao aumento concomitante de seu uso na forma de DEC.

Este artigo é organizado em duas seções. A primeira seção, intitulada “Contextos de formação de objeto direto topicalizado na forma de Top-V2, apresenta os contextos de formação de objeto direto topicalizado sem retomada pronominal, em sentenças declarativas finitas raízes e/ou dependentes de ordem V2/V3. A segunda seção, intitulada “Formas de manifestação de estruturas de DEC na diacronia, apresenta os contextos de licenciamento de objeto direto topicalizado na forma de DEC nos textos dos séc. 16-17 e os contextos de sua formação a partir do séc. 18.

1. Contextos de Formação de Objeto Direto Topicalizado na Forma de Estruturas de Top-V2.

Conforme a pesquisa de GIBRAIL (2010) mostra, a produção escrita dos autores nascidos nos séc. 16-17 apresenta taxa maior de uso de objetos diretos topicalizados na forma de Top-V2. O objeto direto nessas construções ocupa o Spec de um núcleo Top projetado dentro da estrutura prosódica da oração (GALVES 2003).

(1) que isto segure Joham Ango de modo que nam aja niso duvida nem debate ao diante. (D. João III, séc. 16)

(2) A gloria do desenho e perfil ou traço concederão os antigos a Parrhasio, (F. de Holanda, séc. 16)

(3) Esta história contou a peregrina com os olhos cheios de água, (R. Lobo, 1579)

(4) Sete fontes de graça deixei na minha Egreja, (A. Vieira, séc. 17: Sermões)

Nas formulações de GALVES (2003, 2009), um dos fatores que vêm definir o objeto direto topicalizado em posição interna à oração nos textos dos séc. 16-17 é a generalização de uso de clíticos em próclise em sentenças de ordem V2. De acordo com essa autora, “uma característica importante desse tipo de construção é que o sintagma fronteado não é retomado por um pronome”.

(5) As outras tres vos encomendo que, cõ a moor brevidade que poderdes, llançeis fora esoutras tres, (D. João III, séc. 16)

(6) Três novas me dá Vossa Mercê tôdas grandes e tôdas dignas de reflexão. (C. Brochado, séc. 17)

(7) Grandes duas novas nos trouxeram as cartas de Vossa Excelência dêste correio, (A. Vieira, séc. 17, Cartas)

Os dados levantados desses textos apresentam ocorrências de Top-V2 com objetos diretos na categoria de sintagma nominal sem determinante.

(8) Razões tinha o nosso Arcebispo bem suficientes pera poder furtar o corpo aotrabalho de tão comprida jornada (Sousa, séc. 16)

(9) Ancora lançou Castella em Portugal, e ferrou a unha taõ rijamente, que o naõ largou por espaço de sessenta annos. (M. da Costa, 1601)

(10) Fortaleza de ânimo lhe encomendo a Vossa Mercê, (A. Chagas, 1631).

A interpretação de foco do objeto direto fronteado é mais definida nas ocorrências que apresentam este constituinte na categoria de sintagma não referencial (BARBOSA 1991, 1996, 2009; CINQUE 1990; KATO 1998, 2009; MARTINS 1994, 2013; RAPOSO 2000; RIZZI 1997, 2004a).

(11) Tudo depus e me sacrifiquei alegre para morrer em vosso serviço, julgando que em vos servir me não divertia do serviço de Deus. (M. de Melo, séc. 17, 004)

(12) Muito devemos àqueles que nos ajudam a correr no caminho dos Mandamentos de Deus (m. Bernardes, séc. 17)

(13) E dizer que nenhuma duvida tinha, he falso. (M. da Costa, séc. 17)

Assim considerando, a frequência maior, nos textos dos séc. 16-17, de objeto direto fronteado na categoria de sintagma referencial pode ser analisada como uso maior de estruturas de Top-V2 nessas obras. Nos textos a partir do séc. 18, diminui a frequência de sintagmas referenciais fronteados, aumentando, concomitantemente, o uso de quantificadores nus nessa posição. A frequência maior de objetos diretos na categoria de sintagma quantificacional fronteados em sentenças de ordem V2 indica haver aumento, nessas obras, de uso desse constituinte em posição de foco.

(14) Tudo lhe agradecerei e pode-se retirar. (J. Daniel da Costa, séc. 18)

(15) Nada disse ao Príncipe de importante que não fôsse na presença de Vossa Eminência. (Marquesa de Alorna, séc. 18)

(16) Tudo tenho na cabeça, (A. Garrett, séc. 19, Teatro)

Todavia, o aumento de objetos fronteados expressando foco não está em distribuição complementar com a diminuição de uso desse constituinte topicalizado na forma de Top-V2. Nesses textos, objetos diretos topicalizados passam a ser realizados na forma de DEC, com clíticos resumptivos em posição de próclise e/ou ênclise, inclusive quando este argumento verbal é realizado por sintagmas sem determinante.

A correlação entre esses dois fatos reflete uma mudança em curso na língua nesse período, que leva à restrição de projeção do núcleo Top dentro da oração. Por outro lado, a presença ainda, nos textos dos séc. 18-19, de objetos diretos topicalizados na forma de Top-V2 e a evolução de uso deste constituinte topicalizado na forma de DEC refletem a competição de gramáticas diferentes na produção escrita desses autores.

Na perspectiva da proposta de Kroch (1989, 1994, 2001), a competição de gramáticas emerge no uso, em moldes clássicos, de objetos diretos topicalizados na forma de Top V2 e em seu uso, em moldes modernos, na forma de DEC. A gramática subjacente aos textos dos autores dos séc. 16-17 se caracteriza pela propriedade de deslocar objetos diretos para o Spec de um núcleo Top projetado dentro da estrutura prosódica da oração; em contrapartida, o novo sistema que emerge na produção escrita dos autores nascidos a partir do séc. 18 apresenta, no uso de estruturas de tópico e foco, propriedades que o aproxima do português europeu moderno na formação dessas construções (BARBOSA 1991, 1996a, 2009).

Ainda que a tendência do PCl nos séc. 16-17 seja formar estruturas de Top/Foc V2 com o deslocamento de constituintes do VP de uma oração para a posição pré-verbal dessa mesma oração, essa gramática instancia também estruturas variantes formadas por movimento longo. Nessas construções, o objeto de uma oração subordinada se desloca para a posição pré-verbal da oração matriz imediatamente precedente e/ ou da oração matriz que precede outra oração subordinada.

(17) estas nos dizião elles, que caçavam tãbem de rapina no chaõ, (M. Pinto, séc. 16)

(18) A petição creo oferecerá o senhor Bispo de Ene em dia de São José, (M. Bernardes, séc. 17)

Os textos dos séc. 18-19 também apresentam ocorrências como objeto direto da oração subordinada ocupando a posição pré-verbal da oração matriz. Diferente, entretanto, das produções dos séc. 16-17, que não dispõem de objetos diretos fronteados à oração matriz em contextos visíveis de foco, os textos dos séc. 18-19 apresentam dados nos quais o objeto direto, deslocado por movimento longo, é um sintagma não referencial e/ou este constituinte é fronteado em ambiente de foco, como no exemplo (19) a seguir. Neste exemplo, o pronome mesmo, um elemento de foco segue imediatamente o objeto direto. Outra diferença observada é a frequência maior de sua formação em contextos nos quais o objeto direto se desloca de oração subordinada com verbo não finito.

(19) As cousas mais santas sabem os homens aplicar a fins os mais injustos: (M. Aires, séc. 18)

(20) isto mesmo mandava eu participar a Vossa Senhoria pello mencionado estudante Branquinho. (P. Manique, séc. 18)

(21) a ele jurei eu não tornar a ver (A. Garrett, séc. 19, Viagens)

(22) Muita coisa teria ainda que dizer (E. de Queiróz, séc. 19)

Outra propriedade intrínseca do português dos séc. 16-17 é a topicalização/focalização de objetos diretos na forma de Top/Foc-V2 com sintagmas descontínuos3. Esta forma de manifestação de estrutura de Top/Foc - V2 ocorre com regular frequência nos textos dos autores nascidos nesse período. Na forma de sintagmas descontínuos, o sujeito de uma mini-oração sofre movimento para a posição pré-verbal, permanecendo o restante do material in situ, dentro do VP.

(23) A Guilhelmo criou Marquês de Monferrato; (R. Lobo, séc. 16)

(24) A Hercules pintou a Antiguidade ornado com huma Clava, que lhe arma as maõs, e com cadeas, e redes, que lhe sayem da boca, e levaõ preza infinita gente. (M. da Costa, séc. 17)

(25) As ruínas veria Vossa Mercê lastimosas, se agora aqui se achasse, no estrago que fez um depósito de pólvora, (A. de Gusmão, séc. 17)

Outros dados apresentam o sujeito de mini-oração deslocado por movimento longo.

(26) Os pyllotos vos emcomendo muito que trabalheis por mãdar cõtentes o mais que poderdes, (D. João III, séc.16)

(27) Esta obra me afirmaram algumas pessoas graves que viram de todo acabada, (S. de Faria, séc. 16)

(28) Estas duas coisas tão ignoradas, quero que leveis hoje sabidas: (A. Vieira, séc. 17, Cartas)

A topicalização/focalização de sintagmas descontínuos é atestada também com o predicado de mini-oração. No exemplo a seguir, o predicado da mini-oração é um sintagma preposicionado.

(29) Por secretário recebeu a António Paes Viegas; (M de Melo, 1608: Tácito)

Na forma de sintagmas descontínuos, o português desse período instancia a topicalização e/ou a focalização de complemento de objeto direto, permanecendo o núcleo deste constituinte no VP.

(30) Das mesas de Cleópatra, das hortas e banquetes de Luculo, dos manjares e convites de Heliogábalo, êle tem a culpa. (F. Lobo, séc. 16)

(31) De Fernando Afonso dão noticia duas Escrituras do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, (A. Brandão, séc. 16)

(32) Do padre Frei Ene tive carta: (A. Chagas, séc. 17)

Sendo esta forma de estrutura de tópico/foco realizada também com complementos de predicados de mini-oração.

(33) De armas, e sabedoria vemos ornado, e fortalecido a Vossa Alteza assim porque tem todas as de Portugal (que monta tanto como as do mundo) á sua obediencia, (M. da Costa, séc. 17)

Há restrição de uso de objetos diretos topicalizados na forma de sintagmas descontínuos nos textos dos séc. 18-19. No exemplo a seguir, extraído dos dados levantados do texto de Marquês de Fronteira e Alorna, autor nascido no séc. 19, o objeto direto, em posição pré-verbal, é um sintagma não referencial.

(34) que nenhuma notícia teve de o exército francês depois de a sua entrada em Espanha ( M. de Fronteira, séc. 19)

Em outra ocorrência, levantada dos dados de José Daniel da Costa, nascido no séc. 18, a topicalização do sujeito da mini-oração é legitimada em sentença com verbo causativo.

(35) A mana Inês faça Ernesto, a mana Olaia, Eritreia. (J. Daniel da Costa, séc. 18)

Não há restrição, nesses textos, de topicalização de sujeito de mini- orações de objeto indireto subcategorizado pelo verbo chamar.

(36) A estas últimas chamam os médicos doenças contra as leis da Natureza. (C. de Oliveira, séc. 18)

(37) A estes últimos chama o comum dos Gramáticos grandes Latinos. (A. Verney, séc.18)

(38) Êsse chamo eu um mesquinho, um miserável (M. de Alorna, séc. 18)

(39) A esta saudável ignorância das misérias do próximo chamava o meu padre Manuel Bernardes “trevas claríssimas”. (C. Branco, séc. 19)

Outro fato observado nos textos dos séc. 16-17 é a variação de uso de objetos diretos topicalizados/focalizados em sentenças de ordem V3/V4. Nessas construções, há variação da posição de realização dos sintagmas na periferia esquerda. As sentenças de ordem V3 projetam as ordens variantes XOV/OXV, com a posição de X ocupada por um sintagma preposicional e/ou um sintagma adverbial, uma estrutura oracional apositiva e/ou com o sujeito ocupando essa posição. Nos exemplos em (40) e (41) abaixo, de sentenças de ordem OXV, o elemento que ocupa a posição de X é um PP.

(40) esta pois perfeyçaõ sobre todas amou a Madre Elena como quem conhecia o seu valor. (M. do Céu, séc. 17).

(41) Todas estas calúnias, porém, sem motins, nem estrondos, desfazia logo destramente o Padre VIEIRA com tanta evidência, e luz, porque na verdade a nenhum conheço, (A. de Barros, séc. 17)

Nos exemplos a seguir de sentenças V3 na ordem XOV, a posição de X em (42) e (44) é ocupada por um PP e o objeto direto é um sintagma não referencial; em (43), um advérbio ocupa a posição de X e o objeto direto é um sintagma referencial.

(42) Com este rigor nenhuma comparação tem o Juiso de Deus (A. Vieira, séc. 17: Sermões)

(43) Verdadeiramente dous grandes e dificultosos conhecimentos achamos nestes casos. (M. de Melo, séc. 17: Cartas)

(44) Saiba que neste mundo a ninguém desejara ver mais santa, não só o por que Vossa Mercê me deseja perfeito, mas por trezentas dívidas. (A. Chagas, séc. 17)

A interpretação de foco do objeto direto deslocado para a posição pré-verbal é definida nas ocorrências que apresentam este constituinte na categoria sintagma não referencial (BARBOSA 1991, 1996, 2009; CINQUE 1990; KATO 1998, 2009; MARTINS 1994, 2013; RAPOSO 2000; RIZZI 1997, 2004a).

A tendência do português dos séc. 16-17 de formar estruturas de tópico em sentenças declarativas finitas com o sintagma topicalizado ocupando um núcleo Top projetado dentro da oração é confirmada nas sentenças variantes de ordem V3/V4. O clítico em próclise nessas produções define o sintagma que precede imediatamente o verbo dentro da estrutura prosódica da oração. Em se tratando de sentenças de ordem V3 com o sujeito e o objeto precedendo o verbo, os textos dos séc. 16- 17 fazem uso maior dessas construções na ordem SOV, com o sujeito em posição mais alta.

(45) mas todavia eu a el-rei sirvo de Portugal, (F. de Holanda, séc. 16)

(46) e eu nenhuma outra cousa pretendo e rogo. (M. de Melo, séc. 17, Cartas)

PAIXÃO DE SOUSA (2004) analisa como adjunto, o argumento referencial em posição externa discursivamente codificada, correferente ao argumento do verbo. Segundo essa autora,

“nessas construções, o tópico da frase está externo e coincide com o sujeito gramatical ou o complemento do verbo no interior da frase-comentário. Os adjuntos que coincidem com o os complementos do verbo remetem a pronomes (os clíticos, nas DEC) ou a um elemento vazio (nos sistemas que admitem o objeto nulo); os sujeitos adjuntos podem remeter ao sujeito nulo no interior da frase.”

Assim considerando, o objeto direto em posição mais alta nas ocorrências de ordem OXV em (40) e (41), acima, se caracterizaria como um adjunto, realizado fora da estrutura prosódica da oração. O sintagma que precede imediatamente o verbo preencheria a posição pré-verbal dentro do contorno intoacional da frase. Essas construções corresponderiam à configuração [X # XV], proposta por GALVES, BRITTO e PAIXÃO DE SOUSA (2005) e PAIXÃO DE SOUSA (2004). Nos dois exemplos de sentenças V3 de ordem SOV em (45) e (46), o sujeito em posição mais alta pode ser interpretado como um adjunto, sendo retomado na frase por um sujeito nulo, haja vista que o português desse período licencia sujeitos nulos.

Importa destacar, entretanto, que, nas orações de ordem OSV/ SOV, a categoria de sintagma não referencial do objeto direto e/ou do sujeito em posição mais alta não permite sua interpretação como tópico; podendo, no entanto, ser interpretado como foco (BARBOSA 1991, 1996, 2009; CINQUE 1990; KATO 1998, 2009; MARTINS 1994, 2013; RAPOSO 2000; RIZZI 1997, 2004a).

Dessa forma, nos exemplos (47) e (48), a seguir, de sentenças de ordem OSV, o objeto direto na categoria de sintagma não referencial pode ser interpretado como foco.

(47) porque, como disse Publico Mímio, nenhuma cousa o avaro faz boa senão quando morre, (F. Lobo, séc. 16)

(48) tudo as damas podem dever a este Rey, escusando suas vaydades (B. de Brito, séc. 16)

A projeção de um núcleo Foc acima da posição que precede imediatamente o verbo, ocupada pelo sujeito, indica que português dos séc. 16-17 instancia construções com a projeção de dois núcleos funcionais em posição pré-verbal dentro da estrutura prosódica da oração. Essa propriedade do PCl é confirmada nas ocorrências de sentenças V3 de ordem SOV, nas quais o sujeito, em posição mais alta, é um quantificador.

(49) Tudo seus avessos tem (M. Bernardes, séc. 17).

(50) Tôda a outra dor eu lhe perdôo e o mais que disserem de mim; (A. Chagtas, séc. 17)

As sentenças de ordem OSV/SOV, com o objeto e/ou o sujeito em posição mais alta na categoria de sintagma não referencial, são estruturas de variação no português dos séc. 16-17, na medida em que, nessas construções, a sintaxe de ordem V2 deixa de ser formada com a projeção de dois núcleos funcionais dentro do contorno intoacional da frase: o núcleo que abriga o foco e o núcleo que abriga o sujeito. De acordo com a representação estipulada por GALVES, BRITTO & PAIXÃO DE SOUSA (2005); PAIXÃO DE SOUSA (2004), essas produções correspondem à configuração: [# XXV].

A condição de estruturas de variação dessas construções de ordem OSV/SOV pode justificar a frequência baixa de seu uso nos textos desse período. Por outro lado, a projeção de um núcleo Foc acima da posição que precede imediatamente o verbo, pode explicar a formação de sentenças de ordem OXV com o objeto em posição mais alta na categoria de sintagma referencial, sem que este elemento seja retomado por um clítico na oração. Assim, as construções que dispõem de objetos diretos referenciais, nessa posição, sem retomada clítica são justificadas em função de sua realização como foco.

Nos textos dos séc. 18-19, diminui o uso de sentenças de ordem SOV, aumentando, por outro lado, o uso da ordem variante OSV, com o objeto em posição mais alta, precedido por e/ou seguido de um operador de foco, ou com o objeto na categoria de um sintagma não referencial4.

(51) tudo ele teme (C. de Oliveira, séc. 18)

(52) A nenhuma senhora de Lisboa eu devo metade das obrigações constantes das repetidas, (R. Ortigão, séc. 19)

De acordo com MARTINS (2013), no PE,

“os quantificadores “puros”, ou seja, aqueles que tornam a próclise obrigatória, não podem ser topicalizados. Esta restrição deve-se à sua natureza não referencial quantificacional/denotativa, que se opõe à necessária interpretação referencial dos constituintes topicalizados.”

Nas ocorrências ordem OSV com o objeto direto em posição mais alta na categoria de um sintagma referencial, os textos dos séc. 18-19 instanciam estruturas de DEC.

(53) e esse privilégio concedido a Vossa Paternidade nem todo o mundo o logra. (C. de Oliveira, séc. 18)

(54) A história eles mesmo a fazem. ( A. Verney, séc. 18)

(55) essa final e fatal palavra amo-te, Joaninha a pronunciara tão naturalmente, tão sincera, tão sem dificuldades nem hesitações, ( A. Garrett, séc. 19, Viagens)

(56) A ameaça só ela a ouviu; (C. Branco, séc. 19)

2. Formas de Manifestação de Dec na Diacronia.

A tendência proclítica do português dos séc. 16-17 é confirmada nas produções que instanciam objeto direto topicalizado na forma de estrutura de DEC, em sentenças de ordem V2/V3. A frequência maior de uso dessa estrutura de tópico nos textos é atestada em sentenças V3 de ordem OXV.

(57) Mas o corpo do homem d’esta arte o compos a natureza: (F. de Holanda, séc. 16)

(58) E a architectura eu a comparo e lhe chamo pintura encorporada em matérias grossas, (F. Holanda, séc. 16)

(59) declaro, que os tais livros, & Auctores condemnados, eu os condemno & reprovo, (B. de Brito, séc. 16)

(60) Esau e Jacob o sangue os fez irmãos inteiros, (M. Bernardes, séc. 17)

(61) E já disse o proverbio, que palavras, e plumas, o vento as leva. (M. da Costa, séc. 17)

A realização de objetos diretos topicalizados na forma de DEC em sentenças de ordem OXV ratifica a análise proposta para as ocorrências de ordem OSV em (40) e (41), apresentadas na seção anterior, de o objeto direto nessas construções sem retomada pronominal ocupar uma posição de foco, projetada dentro da oração, acima da posição de projeção de outro núcleo funcional. Outras ocorrências de DEC de objeto direto de ordem V3 dispõem de clíticos em ênclise. Nessas construções, a posição de X é preenchida por uma oração relativa e/ou por uma oração adverbial.

(62) Assim todas as coisas d’este mundo, por grandes e estaveis que pareçam, tirou-as Deus com o mesmo mundo do não ser ao ser; (A. Vieira, séc. 17, Sermões).

(63) s minhas cartas, quando Vossa Mercê lhe achar alguma cousa, que sem nojo possa aproveitar a alguém, mostre-as, se quiser; (A. Chagas, séc. 17)

Dentro da análise que norteia este trabalho, o objeto direto topicalizado nas ocorrências de DEC com ênclise é realizado em posição externa à oração, na categoria de um adjunto. O sujeito, precedendo imediatamente o verbo, ocupa a posição pré-verbal dentro da estrutura prosódica da oração, definida pela realização do clítico em próclise; preservando, assim, a sintaxe de ordem V2 nessas sentenças. Em contrapartida, esses textos também apresentam ocorrências de DEC de objeto direto com próclise de ordem V3 com o objeto direto topicalizado precedendo imediatamente o verbo em contextos não categóricos.

(64) antes as almas que Deus dispõe para grandes cousas, as aflige e crucifica primeiro com as tentações, (A. Chagas, séc. 17)

O uso de estruturas de DEC com próclise é confirmado em contextos que licenciam o fenômeno de agrupamento de clíticos. Há formação de estruturas de DEC de objeto direto de ordem V2/V3, com agrupamento de clíticos acusativo e dativo em posição de próclise, em ambientes categóricos e não categóricos.

(65) E porem, porque ysto Martim mo nam estcreve, (D. João III, séc. 16, Cartas)

(66) e isto não m’o poderá alguem negar, (F. de Holanda, séc. 16)

(67) grandes razões de Estado, não sei se firmes, lhas solicitaram, omissa ou intercadente. (M. de Melo, séc. 17, Tácito)

(68) O entendimento, que é nosso, não no-lo querem deixar. (M. de Melo, séc. 17, Cartas)

(69) Assim em São Guilherme, duque de Aquitânia, as grandes forças e braveza de ânimo que tinha para insultos lhas deixou para extraordinárias penitências. (M. Bernardes, séc. 17)

(70) Em Santo Agostinho a agudeza nos argumentos, lha conservou contra os hereges. (M. Bernardes, séc. 17)

O fato destacado na formação de objetos topicalizados na forma de DEC de ordem V2 com próclise nos textos dos séc. 16-17 é a propriedade do português desse período de licenciar a próclise com objetos diretos topicalizados na categoria de estrutura de adjunção.

(71) outra se chama visão obscura, e esta a tem os que no mundo chegam a fazer actos de fé. (A. Chagas, séc. 17)

(72) A maior parte das fortunas do duque Dom Teodósio as desfez logo Dom João, fabricando outras de novo. (M. de Melo, séc. 17, Tácito)

(73) A huma pessoa grande que lhe comunicou o intento que tinha na escolha de marido, para a herdeyra de sua caza, a persuadia que mudasse de intento, (M. do Céu, séc. 17)

Por outro lado, as ocorrências de estruturas de DEC de objeto direto na ordem V2 com próclise revelam que o português dos séc. 16-17 licencia estruturas de adjunção dentro do contorno intoacional da frase. A realização de clíticos resumptivos em posição proclítica é evidenciada também em estruturas de DEC de objeto indireto em sentenças de ordem V2.

(74) Aos Turcos lhes pezou muito da morte de Dom Christovão, (D. Couto, séc. 16)

(75) A Vossa Mercê lhe mando que tôda esta quaresma não faça aquela penitência (A. Chagas, séc. 17)

O uso de clíticos em próclise com o elemento pré-verbal na categoria de um adjunto no português dos séc. 16-17 é validado nas ocorrências de sintagmas adverbiais precedendo o verbo em contextos de ordem V2

(76) loguo me depachareis outro correo cõ toda deligemçia, (D. João III, Séc. 16)

(77) mas em Orléans me disseram os padres do nosso Colégio havia Vossa Excelência passado por aquela cidade oito dias antes. (A. Vieira, séc. 17, Cartas).

(78) Cedo nos veremos. (A. Chagas, séc. 17)

Contrariamente à formação de DEC com próclise, as ocorrências da forma variante com ênclise são formadas em ambientes de paralelismo sentencial, com o objeto direto topicalizado interpretado como tópico contrastivo.

(79) ao austinado move-o á compunção; o mundano á penitencia; o contemplativo á contemplação e medo e vergonha. (F. de Holanda, séc. 16)

(80) E isto sabe-o Deos e sabe-o Roma. (F de Holanda, séc. 16)

(81) os peccados soffremol-os facilmente; os milagres não os podemos soffrer. (A. Vieira, séc. 17, Sermões)

(82) Ao gigante derrubou-o a pedra, e a David o sonido. (A. Vieira, séc. 17, Sermões)

(83) Aos apóstolos sagrados trocou-lhes a pesca de peixes pela de homens, no Mar do século: a São Mateus mudou-lhe o livro das contas pelo do Evangelho. (M. Bernardes, séc. 17)

A formação DEC de objeto direto com ênclise nesses ambientes sentenciais é significativa, na medida em que vem confirmar a proposta de GALVES, BRITTO E PAIXÃO DE SOUSA (2005) de uso de clíticos em ênclise nas sentenças declarativas finitas de ordem superficial V2 do português dos séc 16-17 como fator que define o verbo como primeiro elemento a compor a estrutura interna da oração.

Os textos dos séc. 18-19 apresentam restritas ocorrências de DEC de objeto direto na ordem V2 com próclise em ambientes não categóricos.

(84) e a história a fazem renascer a cada instante. (M. Aires, séc. 18)

(85) essa final e fatal palavra amo-te, Joaninha a pronunciara tão naturalmente, tão sincera, tão sem dificuldades nem hesitações, (A. Garrett, séc. 19, Viagens)

Aumenta nos textos desse período o uso de DEC de ordem V2 com ênclise.

(86) Os primeiros princípios, e os primeiros movimentos reservou-os para si a Providência ( M. Aires, séc. 18)

(87) mas as teorias filosóficas dos liberais, escarnecia-as como absurdas, rejeitava-as como perversoras de toda a ideia sã, (A. Garrett, séc. 19, Viagens)

(88) As companhias da relé desprezou-as. (C. Branco, séc. 19)

(89) A história que se prestava pelo pitoresco, contei-a com tão bom humor que fizchorar de riso. (R. Ortigão, séc. 19)

(90) O Prado espero-o aqui todos os dias, solteiro creio eu. (E. de Queiróz, séc. 19)

A frequência ainda elevada dessa construção com próclise nos textos dos séc. 18-19 fica por conta de sua realização em contextos que motivam o uso de clíticos em posição pré-verbal. Nos dados a seguir, o sintagma focalizador - - precede o clítico em (91); em (92) é o advérbio de negação – não – que o precede.

(91) A toilette, de que usava, só a tornei a vêr nas danças do theatro de São Carlos, no tempo dos grotescos. (M. de Fronteira, séc. 19)

(92) Esta condecoração não a porei absolutamente nunca em Portugal a não ser dentro da legação de Espanha, que é território espanhol. (R. Ortigão, séc. 19)

Conforme é apontado nas produções (8), (9) e (10), apresentadas na primeira seção deste artigo, os textos dos séc. 16-17 legitimam ocorrências de Top-V2 com o objeto direto na categoria de sintagma nominal sem determinante. Nos textos a partir do séc 18, objetos diretos dessa natureza topicalizados são licenciados em configuração de DEC.

(93) Orgulho não o tive; (A. Garrett, séc. 19, Cartas)

(94) Oh! bem entendido: décima e impostos annexos, por este anno ainda lhe pertence a vossa senhoria pagá-los (A. Garrett, séc. 19, Teatro)

(95) Notícias deu-mas, se as quis, a Senhora Dona Benedicta (E. de Queiróz, séc. 19)

(96) Homens também os não havia – uns tinham morrido na África, outros andavam rezando pelas igrejas de Lisboa. (E. de Queiróz, séc. 19)

Considerando a tendência enclítica da nova gramática em processamento no português desse período, as ocorrências de DEC dos exemplos em (91), (92), (93) e (96), acima, podem ser tomadas como estruturas de tópico formadas por este outro sistema gramatical. Em ambientes não categóricos, essas estruturas de DEC disporiam do clítico resumptivo em ênclise.

A mudança de sistema gramatical em evolução no português a partir do séc. 18 é visível também no uso de estruturas de DEC de ordem V3. Os textos do séc. 18 e o texto do séc. 19 “Viagens na minha terra”, de A. Garret, ainda apresentam ocorrências desse tipo de construção com próclise em ambientes não categóricos; nos outros textos do séc. 19, há ausência de dados de DEC de ordem V3 com próclise em ambientes não categóricos.

(97) A magoa que ahinda Presentemente oprime meu Coraçaõ eu a Comonico a Vossa Senhoria. (P. Manique, séc. 18)

(98) essa final e fatal palavra amo-te, Joaninha a pronunciara tão naturalmente, tão sincera, tão sem dificuldades nem hesitações, (A. Garrett,séc. 19, Viagens)

(99) Os seus lindos olhos na terra os pregava. (A. Garrett, séc. 19, Viagens)

Outro fato que define a mudança gramatical em evolução no português a partir do séc. 18 é a ausência, nos textos dos autores nascidos nesse período, de estruturas de DEC com ênclise em sentenças de ordem V2 formadas em ambientes de paralelismo sentencial. A ausência de DEC de objeto direto nesses ambientes sentenciais é significativa, na medida em que vem confirmar a mudança apontada por GALVES (2003) de uso de clíticos em ênclise nas sentenças declarativas finitas do português a partir do séc. 18 não mais atrelado à restrição de realização do verbo como primeiro elemento a compor a estrutura interna da oração.

A tendência do português dos séc. 18-19 de realização de objetos diretos topicalizados na forma de DEC é confirmada no licenciamento dessa construção em contextos com agrupamento de clíticos, em sentenças de ordem V2/V3., com esses pronomes em posição de próclise e/ou de ênclise. A forma com próclise ocorre com maior frequência nos textos do séc. 18.

(94) O moral lho ensinam as damas com o amor (C. de Oliveira, séc. 18)

(95) Esse destino lho pedi eu muitas vezes. (C. Branco, séc. 19: Amor...)

(96) O bom tom, eu lho darei antes de muito tempo (J. Daniel da Costa, séc. 18).

Nos textos do séc. 19, diminui o uso da forma com próclise, evoluindo a frequência de uso da forma com ênclise.

(97) Esses dois iria eu buscar-tos, se o reumatismo me deixasse, menina. (C. Branco, séc. 19, Moisés)

(98) A tal prova apenas examinada remeta-ma logo, sem tardar, para meu modelo. (E. de Queiróz, séc. 19)

A frequência maior desse tipo de construção com próclise nos textos do séc. 18 e a diminuição de seu uso no séc. 19, concomitantemente ao aumento da variante com ênclise, reflete o momento de diglossia linguística do português desse período.

Importa ressaltar que a tendência do português a partir do séc. 18 de licenciar objetos diretos topicalizados em estrutura de DEC justifica a restrição de topicalização de sintagmas descontínuos, seja de topicalização de partes de uma mini-oração, seja de topicalização de complementos de núcleos de argumento verbal. Nas estruturas de DEC, o objeto direto, na condição de um sintagma referencial completo, é retomado por um clítico que carrega os mesmos traços-phi e o mesmo Caso desse constituinte topicalizado5.

O fato relevante que vem corroborar com a proposta de uma mudança gramatical no licenciamento de objetos diretos topicalizados nos textos a partir do séc. 18, ressaltadas neste artigo, é a ocorrência, nessas obras, de outras mudanças estruturais. Evidencia-se, nos textos dos atores nascidos nos séc. 18-19, uma queda significativa da frequência de uso de sintagmas com funções diferentes de sujeito e/ou de sintagmas adverbiais em posição pré-verbal. Diminui também, nesses textos, o uso da inversão VS em sentenças com verbos transitivos (GIBRAIL 2010; PAIXÃO DE SOUSA 2004) Nas sentenças declarativas finitas, a posição pré-verbal passa a ser a posição do sujeito, o que permite postular que o verbo e este constituinte deixam de ocupar posições mais altas na estrutura da frase. Consequentemente, a sintaxe de ordem V2 deixa de ser projetada. A ordem SVO passa a ser a ordem não marcada das estruturas transitivas formadas pela gramática em desenvolvimento na língua nesse período (GALVES, BRITTO & PAIXÃO DE SOUSA 2005; PAIXÃO DE SOUSA 2004).

Conclusão

Este artigo apresentou as formas de licenciamento de objetos diretos topicalizados no PCl, descrevendo dados levantados junto ao Corpus Tycho Bhrae, de textos de autores portugueses nascidos entre o séc. 16 e meados do séc. 19, que formam os corpora da tese de doutorado de GIBRAIL (2010). Foram propostas análises descritivas dos contextos de uso de objetos diretos topicalizados na forma de estruturas de Top V2 e na forma de DEC. Considerando a mudança gramatical apontada nas pesquisas que descrevem outros fenômenos pertinentes ao PCl (ANTONELLI 2008, 2011; GALVES 2003, 2009; GALVES, BRITTO & PAIXÃO DE SOUSA 2005; GIBRAIL 2010; PAIXÃO DE SOUSA 2004), buscou-se fazer um estudo comparativo dos contextos de formação dessas construções nos textos dos séc. 16-17 e nos textos dos séc. 18-19.

Foi destacada a tendência do português em uso nos séc. 16-17 de topicalizar objetos diretos na forma de Top-V2 com a projeção de um núcleo Top dentro da oração. Em sentenças com clíticos, as estruturas de Top-V2 dispõem, de forma generalizada, desses pronomes em próclise. O clítico em próclise define a realização do objeto topicalizado, na forma de Top-V2 e/ou na forma de DEC, dentro da estrutura prosódica da oração. A formação de objetos diretos topicalizados na forma de DEC com clíticos resumptivos em próclise revela a propriedade do português dos séc. 16-17 de licenciar estruturas de adjunção dentro do contorno intoacional da frase. A forma variante de DEC com ênclise é licenciada quando o verbo é o primeiro elemento a compor a estrutura prosódica da oração.

Na formulação de uma hipótese para explicitar as mudançasevidenciadas nos textos a partir do séc. 18 no uso dessas construções, foi proposto, neste trabalho, que a restrição de formação de objetos diretos topicalizados na forma de Top-V2, concomitantemente à evolução de seu uso na forma de DEC, é motivada pela atuação de uma nova gramática em processamento na língua naquele período histórico. Essa nova gramática não projeta um núcleo Top dentro da oração. O verbo e o sujeito não ocupam posições mais altas na estrutura da frase, o que leva à restrição de sintagmas com funções gramaticais diferentes de sujeito ocuparem uma posição pré-verbal dentro da estrutura prosódica da oração. A posição pré-verbal passa ser a posição do sujeito; por conseguinte, a ordem SVO passa a ser a ordem não marcada das estruturas transitivas desse novo sistema gramatical.

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Recebido em: 21/10/2014 e aceito em: 01/12/2015.