Resumo

Este trabalho se volta para o estudo de mudanças que envolvem construções existenciais e possessivas no período que compreende os séculos XIII a XVI1/2, trazendo a contribuição de analisar tais mudanças sob uma perspectiva formal, tentando mostrar como se caracteriza a estrutura sintática das orações existenciais com os verbos ser e haver ao longo do tempo. Insere-se numa linha de pesquisa que parte do pressuposto de que as chamadas construções locativas (locativas, possessivas e existenciais) provêm de uma mesma estrutura subjacente (cf. LYONS, 1968; CLARK, 1978; BENVENISTE, 1976; FREEZE, 1992; KAYNE, 2006). Buscaremos explicar essas mudanças com base na noção de “competição de gramáticas” (KROCH, 1994). Tentaremos, todavia, adequar essa noção à de que haver seria derivado de ser por meio de movimento e incorporação (conforme proposta de FREEZE, 1992), pautando-nos num modelo não-lexicalista, como o da Morfologia Distribuída (HALLE & MARANTZ, 1993), segundo a qual os itens funcionais não vêm “prontos” do léxico, mas são obtidos por meio da combinação de traços no decorrer da derivação sintática. Este consistirá no diferencial desta pesquisa em relação a outras já desenvolvidas sobre as mudanças envolvendo esses verbos na história do português.

Introdução

As construções existenciais têm sido foco de pesquisa de muitos investigadores, sincrônica ou diacronicamente. Vários estudos têm se voltado para a relação entre os verbos que compõem construções possessivas e existenciais3. Isso porque, conforme alguns estudiosos, essas construções possuem uma mesma estrutura subjacente (cf. LYONS, 1968; CLARK, 1978; BENVENISTE, 1976; FREEZE, 1992; KAYNE, 2006). Algumas pesquisas sobre o português tratam do percurso histórico dos verbos ser, estar, haver e ter, mostrando a interrelação entre eles na substituição de um pelo outro num dado padrão sentencial, tais como as de MATTOS E SILVA (1995, 1996, 1997, 2002a, 2002b), RIBEIRO (1996) e AVELAR (2004, 2006a, 2006b, 2007). Esses trabalhos leva em conta o fato de os verbos serem intercambiáveis na realização de diferentes funções, como a de auxiliares, possessivos e existenciais.

MATTOS E SILVA (1995) relata que a variação entre as formas seer e habēre em construções existenciais já era verificada no latim vulgar, representadas pelo verbo esse no latim clássico, no qual, habere estava em competição com tenere em construções possessivas nos séculos IV e V. No latim vulgar, aver começou a perder os significados do verbo habere (do latim clássico: possuir, obter, manter, reter, segurar, conter, deter, entre outros), que passaram ao domínio do verbo teer, restringindo-se somente ao significado de possuir4. Isso nos mostra que essas não consistem em mudanças iniciadas no português, mas numa “herança” latina. No português histórico, de acordo com MATTOS E SILVA (1995, 1996, 1997, 2002a, 2002b), haver-existencial sobrepõe-se a ser-existencial no século XV ((1a) e (1b), respectivamente), e ter-possessivo, a princípio usado na expressão de posse circunstancial, prevalece sobre haver-possessivo em todos os contextos de posse na metade do século XVI (seguem em (2a) e (2b), respectivamente, sentenças com ter e haver possessivos). O verbo seer ainda variava com star nas construções locativas/situativas e construções copulares transitórias, como pode ser visto nas sentenças em (3a) e (3b), funções que passaram a ser exercidas somente por estar no século XVI. Nesse século, a autora registra um contexto em que o verbo ter parece admitir tanto a interpretação de posse quanto a de existência, conforme (4).

(1) a. En hua abadia huu tesoureiro avia.

b. non foi quem podesse (MATTOS E SILVA, 1997:262)

(2) a. Que os çegos a nam tenham, ainda que ouçam cousas de que se possa haver.

b. E estas meas voages l, m, r, se chamam líquidas e houveram este nome açerca dos latinos. (MATTOS E SILVA, 2002b:128)

(3) a. Este rey dom Afonso, seendo en Castella en este nono anno do seu reinado[...] (Crônica de Afonso X, Séc. XIV. Fonte: CIPM)

b. [...] e todas aquelas cousas que Deus mi deu em poder sten em paz e em folgãcia. (MATTOS E SILVA, 2002a:105)

(4) [...] se metiam [eles] em almaadias duas ou três que hy tiinhan

[...] (MATTOS E SILVA, 1996:187)

De acordo com RIBEIRO (1996), o emprego existencial de aver se inicia no Português Arcaico, já que, no latim clássico, as existenciais eram realizadas por esse. Segue em (5) sentenças existenciais com os verbos ter, haver e ser, retiradas por RIBEIRO (1996:373) do Índice Analítico do Vocabulário de Os Lusíadas

(5) a........... e assim caminha

Para a povoação, que perto tinha (Lus. V, 29)

b. Que aqui gente de Cristo não havia (Lus. I, 102)

c. Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha (Lus. III, 23)

Menciona o fato de, no Português Arcaico, o verbo ser fazer parte das construções locativas ao lado de estar, que prevaleceu nessas construções. Ressalta o fato de, nas existenciais, ser e haver possuírem um traço locativo, próprio das construções locativas. Foi justamente a perda desse traço que fez com que ser deixasse de ser verbo existencial e auxiliar temporal (segundo RIBEIRO, o traço locativo era responsável pela caracterização de um verbo ser ou não auxiliar em português)5.

Ainda, “ser caracteriza-se no PA sempre como um auxiliar verbal, nas perifrásticas passivas e ativas, e nas construções existenciais e locativas. No PB contemporâneo conserva só o seu estatuto de auxiliar nas perífrases passivas” (RIBEIRO, 1996:377, grifo nosso).

Assumindo a hipótese da existência de um paradigma locativo envolvendo sentenças locativas, possessivas e existenciais, AVELAR (2004) propõe que ter-existencial é formado pelo complexo de traços v+T no componente morfológico. A esse complexo são associados outros, de modo a obterem-se os demais verbos. Assim sendo, v+T+D leva à obtenção de estar; somando-se Top a esse complexo (v+T+D+Top), gera-se o verbo copulativo ser; o complexo v+T+D+C forma o que se tem denominado na literatura terceira cópula (cf. KATO, 2007). Enquanto MATTOS E SILVA e RIBEIRO afirmam a inexistência de ser-existencial no PB, AVELAR não menciona a possibilidade de tais construções nessa variedade do português6.

Neste trabalho, vamos nos centrar nas sentenças existenciais construídas com ser e haver, conforme os exemplos a seguir.

(6)

a. [...] djzendo q(ue) era uerdade q(ue) antre elles fora (con)tenda. (Textos notariais in Clíticos da História do Português, Séc. XV. Fonte: CIPM)

b. Titolo p(ri)m(eyr)o q(ue) fala das leys e som XIX leys en este titolo. (Alphonse X, Primeyra Partida, Séc. XIV. Fonte: CIPM)

c. [...] diz a Sancta Escriptura que nõ é huu mayor enmigo ca aquel que dana a boa fama do outro. (Afonso X, Foro Real, 1280(?). Fonte: CIPM)

Mostramos no par de sentenças em (7) abaixo que o verbo ser ocorre em contexto análogo ao que ocorre o verbo haver, sem que haja aparente prejuízo ou alteração de sentido.

(7)

a. Falando primeiro da soberva que procede da presunçom e desejo de propria vantagem, em ella sam tres partes. (Leal Conselheiro, Séc. XIV. Fonte: CIPM)

b. Do entendimento nosso, segundo minha declaraçom, ha

VII partes. (Leal Conselheiro, Séc. XIV.Fonte: CIPM)

Tomaremos como base nesta análise o Blocking Effect (Aronoff 1976), princípio a que KROCH (1994) recorre para analisar fenômenos de variação e mudança linguísticas. KROCH (1994:1-2) concebe os doublets (duplos) como reflexos de ‘competição de gramáticas’, dado que, de acordo com o Blocking Effect, os “doublets are always reflections of unstable competition between mutually exclusive grammatical options”. Nossa abordagem se pautará, entretanto, numa perspectiva não-lexicalista, da Morfologia Distribuída, conforme proposto por EMBICK (2007), que discorda dessa visão “tradicional” de blocking effect, argumentando que, na formação dos comparativos e superlativos do inglês, por exemplo, a forma sintética smarter não bloqueia a forma analítica *more smart – formas analíticas são disponíveis em outros contextos, como more intelligent. Casos como esse não envolvem bloqueio baseado em competição entre palavras ou entre palavras e sintagmas (isso já fora notado por DI SCIULLO & WILLIAMS (1987). Ao contrário, efeitos de bloqueio se limitam a efeitos de mecanismos distintos, como (1) Inserção Vocabular em um determinado morfema, e (2) operação de processos combinatórios (EMBICK, 2007:1). O seu trabalho examina a formação dessas estruturas, buscando mostrar como é possível dar conta de efeitos de bloqueio em uma abordagem que envolve sintaxe e morfologia.

Segundo o autor,

[…] competition is restricted to one aspect of the derivation of complex forms, namely the consideration of the phonological form of single nodes (morphemes). There is no competition at the level of outputs, so that larger objects like “words” do not compete with one another. Consider, for example, tak-en versus *tak-ed. Tak-en exists only as the result of a particular derivation, and has no independent existence on a list like the VI that inserts -(e)n in certain participial structures does. *Tak-ed is not derived at all; i.e. it could only exist if the grammar were altered.

[…] There is therefore no sense in which intelligenter and more intelligent exist on lists that are consulted for insertion, nor does the grammar generate both intelligenter and more intelligent and select a winner. Rather, the syntax and PF generate a structure which, after Vocabulary Insertion, receives the phonological form of more intelligent. (EMBICK, 2007:6-7)

Também assumimos nesta pesquisa pressupostos minimalistas da Teoria de Princípios e Parâmetros (CHOMSKY, 1995).

Temos por objetivo: (a) demonstrar quando o verbo haver, que expressava posse, passou a designar existência, substituindo ser como verbo existencial canônico do português; (b) mostrar sintaticamente (estruturalmente) quais complexos de traços licenciam a obtenção do verbo ser-existencial em oposição ao verbo haver-existencial, o que distingue este trabalho de outros, como o de MATTOS E SILVA (1989, 1994, 1996, 1997, 2002) e RIBEIRO (1996), seguindo a linha de trabalhos que consideram que o verbo de posse/existência é resultado de uma derivação sintática e que são obtidos a partir de uma base comum; e (c) verificar se essa substituição de ser por haver na expressão de existência é ou não decorrente da ação do Blocking Effect nos moldes aqui assumidos (conforme explicitado acima).

Analisamos textos dos séculos XIII-XVI, provenientes do Corpus Informatizado do Português Medieval (CIPM7)e do Corpus Tycho Brahe8 9 . Foram coletados 601 dados10 (204 sentenças existenciais e 397 possessivas) que foram submetidos ao Goldvarb 2001, programa usado como ferramenta metodológica, que, por meio de tratamento estatístico/probabilístico, aponta os fatores mais importantes para a ocorrência de uma dada variável dependente11. Considerando que estamos analisando a aplicação de construções existenciais com o verbo haver em oposição às existenciais com o verbo ser, nas rodadas desse Programa, estão sendo levados em conta os valores percentuais e pesos relativos referentes às existenciais com o verbo haver. O programa atribuiu o input de 0.750 à aplicação da regra, ou seja, às ocorrências de existenciais com o verbo haver, o que significa que, no corpus como um todo, levando-se em consideração todos os grupos de fatores, a ocorrência do verbo haver foi qualitativamente mais importante que a de ser.

Dividimos este trabalho em duas etapas. Na primeira, apresentamos (na seção 2) propostas, dentro do arcabouço gerativista, que abordam a relação entre construções existenciais e possessivas, considerando o fato de ambas serem provenientes de uma mesma base estrutural. A seção seguinte se estrutura da seguinte forma: (a) em uma primeira fase, analisamos quantitativamente os dados, com base em fatores condicionadores intra e extralinguísticos, observando a variação/ mudança que envolvem os verbos ser e haver nas construções existenciais (e, por necessidade, voltando-nos para a substituição de haver por ter na expressão de posse); (b) em uma segunda fase, procedemos à análise qualitativa dos dados, apresentando hipóteses em termos teóricos para o fato de o verbo haver ter passado de possessivo a existencial, ocupando o lugar do verbo ser. Na segunda etapa, na seção 4, apresentamos, em linhas gerais, a proposta de ‘competição de gramáticas’ (KROCH, 1994), discutindo os ‘desafios’ que se coloca ao linguista histórico, ao lidar com dados de épocas passadas, para mostrar que a variação ou mudança linguística observada nos textos escritos se dá entre opções gramaticalmente incompatíveis, refletindo, assim, competição entre gramáticas.

1 Relação entre construções existenciais e construções possessivas

Se tomarmos como verdadeira a hipótese de que construções possessivas, existenciais (e copulativas) provêm de uma mesma estrutura subjacente, uma estrutura inerentemente locativa construída a partir de um verbo copulativo (LYONS, 1968; CLARK, 1978; BENVENISTE, 1976; FREEZE, 1992; KAYNE, 2006), acreditamos que poderemos explicar melhor as mudanças envolvendo os verbos ser e haver existenciais na história do português.

FREEZE (1992:565), numa perspectiva gerativista, propõe que construções locativas, como em (8b), existenciais, (8c), e possessivas, em (8d’) abaixo, são geradas de uma única estrutura subjacente em torno de um verbo copulativo, em que a preposição é o núcleo do sintagma predicativo, como demonstrado com exemplos do russo12. Os movimentos a partir dos quais essas construções são formadas se baseiam na definitude do Tema: (i) um Tema definido é movido para o início da sentença (posição de sujeito, [Spec,IP]), gerando um predicado locativo, (8b); (ii) um Tema indefinido permanece in situ e o sintagma preposicionado se move para a posição de sujeito, o que leva à obtenção de dois padrões sentenciais: (iia) o existencial, quando o locativo possui o traço [-humano], (8c); (iib) e o possessivo, quando o locativo tem, preferencialmente, o traço [+humano], (8d) e (8d’).

Figure 1.

Para as línguas românicas, FREEZE (1992:566) prevê uma arquitetura diferente da apresentada acima, que conta com a presença do que ele chama proforma (clítico locativo y), conforme representado em (9) a seguir, com um exemplo do francês:

Figure 2.

Para esse autor, a proforma nessas línguas não ocupa a posição de sujeito, visto no francês essa posição ser ocupada pelo quase-argumento il (expletivo nos termos de CHOMSKY, 1995, conforme mostraremos adiante). Propõe, assim, que a proforma é uma realização do traço de Infl em PF (Forma Fonológica), sendo lexicalmente inseparável de AGR (concordância) e/ou TNS (tempo), mas nunca adjacente ao sintagma locativo, além de ter uma relação de precedência estreita com este (evidências do seu caráter locativo).

Com relação às possessivas, a sua unidade com as existenciais é evidenciada em línguas como o hindi, em que ambos os padrões sentenciais apresentam os mesmos constituintes na mesma ordem, como podemos ver em (10). Conforme afirmado acima, é o traço [±humano] que diferencia possessivas de existenciais.

Figure 3.

que se refere à forma verbal empregada nas possessivas, em algumas línguas, como o português, o possuidor, que é gerado dentro do sintagma preposicionado (PP), se move para a posição de sujeito e a preposição (P), núcleo do PP, permanece in situ, adjacente a I, obtendo-se a forma está com, conforme (11) a seguir. Quanto ao verbo ter (assim como o verbo inglês have), o autor propõe que este é obtido por meio da incorporação da preposição (P) a Infl, segundo o exemplo em (12).

(11) O menino está com fome.

(12) O menino tem fome. (FREEZE, 1992:567)

KAYNE (2006:16) se baseia na proposta de FREEZE (1992) e SZABOLCSI (1983, 1994) de que as possessivas são originadas a partir das existenciais. Demonstra a equivalência entre as mesmas apontando a possibilidade de o clítico ci, constituinte que está presente nas existenciais, ocorrer em sentenças possessivas em alguns dialetos do italiano, como em (13) abaixo.

(13) Gianni c’ha una sorella. (‘G ci has a sister’) (KAYNE, 2006:16)

A derivação das possessivas segue a das existenciais pelo fato de seu verbo tomar um único argumento (a despeito da possibilidade de adicionar-se um locativo):

(14) ...[ci una sorella di Gianni]indef.DP... --> raising of ‘una sorella di Gianni’

...[una sorella di Gianni]i...[ci ti]... --> merger of V

...è [una sorella di Gianni]i...[ci ti]... --> remnant movement

...[ci ti]k è [una sorella di Gianni]i...tk...

C’è una sorella di Gianni... (‘there is a sister of G...’) (KAYNE, 2006:17)

Até o ponto a que se chegou na derivação acima, obtém-se uma sentença existencial, ‘C’è una sorella di Gianni...’ (‘there is a sister of G...’). Seguindo a derivação, o possuidor Gianni é movido de dentro do sintagma ‘una sorella di Gianni’ para a posição de sujeito, obtendo-se uma sentença possessiva.

(15) ...[ci ti]k ha [una sorella Gianni]i...tk... --> raising of the possessor

...Giannim [ci ti]k ha [una sorella tm]i...tk... (KAYNE, 2006:17)

Para KAYNE, as existenciais de todas as línguas românicas possuem, na posição de sujeito, tanto clíticos locativos, do tipo do y (considerados pelo autor como um ‘modificadores dêiticos’, na medida em que é gerado juntamente com o DP a que modifica dentro de uma small clause)13 quanto um quase-argumento, como il (ambos do francês). Tanto o clítico como o quase-argumento poderão ser nulos em algumas línguas.

Consideraremos em nossa análise as hipóteses de FREEZE (1992) e KAYNE (2006) de que clíticos locativos (ou, apenas, locativos) e quase- argumentos entram na composição das sentenças existenciais das línguas românicas (numa maneira a ser explicitada), discutindo o seu papel na formação das existenciais com os verbos ser e haver, bem como a de que as construções possessivas são geradas a partir das existenciais.

2 Substituição de ser por haver nas construções existenciais

2.1 Variação entre ser e haver existenciais – condicionadores extralinguísticos

Na Tabela 1 abaixo, podemos ver que o verbo ser é mais representativo que haver nas construções existenciais no século XIII, conforme demonstra o peso relativo que as construções com ser apresentam nesse período: 0.823. A situação mantém-se assim até a primeira metade do século seguinte, em que o peso relativo aponta o fato de esse período ainda favorecer o emprego de ser-existencial (0.648). Observa- se, entretanto, uma mudança de comportamento quanto ao emprego das existenciais no terceiro período (1350-1399), cujo peso relativo de 0.614 leva ao uso de haver. A partir de então, todos os pesos relativos dos séculos seguintes favorecem a ocorrência das existenciais com esse verbo, até que, na segunda metade do século XVI, haver já substitui por completo o verbo ser nesse tipo de construção. O que podemos notar na Tabela 1 é que nem sempre peso relativo e valores percentuais “caminham juntos”. Isso pode ser observado no período de 1300-1349, em que, embora os percentuais de ocorrências de haver sejam superiores aos de ser (respectivamente, 59% e 41%), em termos de peso relativo, esse período é selecionado como significativo para a ocorrência de ser-existencial, ou seja, esse fator, considerado com os demais fatores (sejam linguísticos ou extralinguísticos), está favorecendo o emprego de ser nas existenciais.

Figure 4.

Quanto às construções possessivas, haver se mantém como verbo possessivo canônico do português até a segunda metade do século XIV, entre os períodos 1 a 3 (como indicado tanto em termos percentuais, respectivamente, 78,4%, 66,7%, 77,2%, quanto em pesos relativos (respectivamente, 0.805, 0.670, 0.828)). Entretanto, considerando o peso relativo, verificamos uma variação entre os empregos de ambos os verbos na primeira metade do século XV, o que é muito significativo considerando o ponto de vista de GALVES, NAMIUTI & SOUSA (2006) de que, num processo de mudança, deve-se olhar para o momento inicial (de surgimento das novas formas), não para quando a mudança já está concluída. Nossos resultados condizem com o que apontam as autoras, isto é, com o fato de um período de inflexão na história da língua portuguesa ser a fronteira entre o século XIV e o XV. A virada se dá no período seguinte (1450-1499), em que o verbo ter é favorecido por peso relativo de 0.809, ocorrendo o mesmo no século seguinte (peso relativo de 0.888), até que não encontramos nos dados nenhuma ocorrência de haver-possessivo na segunda metade do século XVI. Esses resultados podem ser conferidos na Tabela 2 a seguir.

Figure 5.

Concluímos que, à medida que o verbo haver vai espraiando seu uso entre as construções existenciais, vai perdendo seu uso entre as possessivas. Em termos de progressão, observamos que a expansão do verbo haver-existencial se dá mais rapidamente que a do verbo ter-possessivo, pois as ocorrências com o primeiro já superam as construções com ser- existencial no terceiro período, enquanto as construções com ter-possessivo só ganham projeção sobre as construções com haver-possessivo no período 5.

Na próxima seção, tentaremos explicar, em termos teóricos, o que motivou essas mudanças.

Outro fator relevante é o gênero textual14: documentos notariais, textos narrativos (crônicas) e textos dissertativos (normas sobre a conduta, comportamento a ser adotado na vida em sociedade).

De modo a obtermos alguma indicação sobre a dinâmica da mudança, decidimos cruzar o grupo de fatores gênero textual com século.

Para a análise desses grupos, tivemos que descartar os dados do século XVI, já que, na primeira metade desse século, não foram encontrados textos dissertativos e, na segunda, só encontramos textos do gênero narrativo, o que poderia comprometer a análise. Como podemos ver na Tabela 3 abaixo, no século XIII, o verbo ser-existencial era mais usado que haver tanto nos documentos notariais, com 86% de ocorrências, quanto nos textos dissertativos, com 60%. Ambos os verbos variam nos textos narrativos, em que ser apresenta percentual de 52% e haver, de 48%. Todavia, é neste tipo de texto que haver começara a ter maior projeção nas construções existenciais nos séculos posteriores. Na primeira metade do século XIV, ser continua a se destacar nos documentos notariais, com 67%, enquanto haver vai ganhando espaço nas narrações, com 65%, bem como nos textos dissertativos, em que varia com haver, cada um apresentando 50% de ocorrências. No segundo quinquênio desse século, justamente quando haver se sobrepõe a ser nas existenciais, conforme demonstramos na Tabela 1, o emprego de haver se sobressai ao de ser nos documentos notariais, com 67%, e nas narrações chega a 100%. Ambos continuam a variar nas dissertações: ser com 54% e haver com 46%. O mesmo quadro se delineia no período de 1400-1449, em que haver alcança 100% de ocorrências tanto nos documentos notariais quanto nas narrações, variando com ser nos textos dissertativos, com 54% para 46% de ser. Os resultados obtidos na segunda metade do século XV são curiosos e não encontramos uma explicação para eles, pois ser apresenta 67% de ocorrências nos documentos notariais e varia com haver nas narrações, com 50%; haver predomina nas dissertações, com 88%.

Figure 6.

TABELA 3: Verbo Haver Existencial, de acordo com o Gênero Textual e o Século 15

Os dados acima nos mostram que os textos narrativos são a porta de entrada para o verbo haver-existencial, enquanto os dissertativos consistem no contexto de resistência para ser.

Também, a fim de observarmos a dinâmica da mudança, analisamos, Tabela 4 a seguir, como se comporta o grupo de fatores Definitude do Tema ao longo do tempo, constatando que o verbo haver já se destaca com DPs indefinidos desde o século XIII, com 62%, com os quais sempre mantém percentuais superiores aos de ser; a partir da primeira metade do século XIV, sobressai-se a ser, de um modo geral, com 75%. Ao contrário, nunca obtém percentuais elevados com temas definidos. A segunda metade desse século chama a atenção pelo fato de haver e ser variarem com todos os tipos de DPs.

Figure 7.

TABELA 4: Verbo Haver Existencial, de acordo com a Definitude do Tema e o Século 16

Os grupos de fatores sociolinguísticos serão de suma importância na discussão a ser estabelecida na seção 4, quando abordaremos a variação e a mudança linguísticas com base na noção de ‘competição de gramáticas’, segundo KROCH (1994).

2.2 Variação entre ser e haver existenciais – condicionadores intralinguísticos

Foram selecionados como significativos para a ocorrência de ser e haver existenciais os grupos de fatores intralinguísticos: (1) definitude do Tema; e (2) realização do pronome hy17 18.

Quanto à Definitude do Tema, haver é favorecido por temas indefinidos, com peso relativo de 0.596 (exemplo em (16)); ser, por outro lado, ocorre preferencialmente com temas definidos, apresentando 0.941 de peso relativo, conforme exemplo em (17). Esses resultados podem ser conferidos na Tabela 4 abaixo. Ressaltamos que, em termos teóricos, para um gerativista, quando se fala em “preferencialmente”, está-se querendo apontar para o fato de que, na gramática internalizada do falante, a estrutura própria para a ocorrência de ser-existencial era aquela em que este seleciona como complemento um DP [+definido], embora possa ocorrer com DPs indefinidos e bare nouns em dados contextos. O fato de acontecer com menor ou maior peso relativo diz respeito ao reflexo da gramática do falante (fator interno) nos textos produzidos por ele (fatores externos).

(16)

a. Avya hi muytos mouros vezinhos acerca da cidade (Crônica de D. Afonso, Séc. XIV. Fonte: CIPM)

(17)

a. O primeiro Hercoles foy em [o] tempo de Moyses, pero que naceu ante que elle, e este fez muytos grandes e bõõs feytos pero nom som contados ẽ estas estorias. (Crônica Geral de Espanha, Séc. XIV. Fonte: CIPM)

Figure 8.

O grupo de fatores que considera a posição do Tema na sentença, embora não selecionado como significativo pelo Goldvarb, nos diz muito sobre os resultados obtidos, visto que está relacionado com a definitude do Tema, pois os temas definidos normalmente se encontram à esquerda do verbo (cf. exemplo em (17) acima), o que confirma o que vários estudos têm apontado: a “rejeição” de temas pós-verbais definidos em sentenças existenciais (cf. FREEZE, 1992; BELLETTI, 1998; entre outros)19. Assim, quando o Tema é definido, uma estratégia seria a de deslocá-lo para uma posição externa à sentença20.

Os pesos relativos referentes à realização do pronome hy demonstram que o uso de haver é condicionado pela realização desse elemento (0.733), enquanto ser apresenta uma única construção com hy (com peso relativo de 0.267), conforme exemplos em, respectivamente, (18a) e (18b). Os resultados referentes ao verbo haver se encontram na Tabela 5 abaixo.

(18)

a. E ainda ha hy outra maior cousa q(ue) os leigos q(ue) [...] (Alphonse X, Primeyra Partida, Séc. XIV. Fonte: CIPM)

b. [...] e out(ro)ssy os beens q(ue) hy som e q(ue) podẽ seer. (Alphonse X, Primeyra Partida, Séc. XIV. Fonte: CIPM)

Figure 9.

Quanto ao grupo de fatores Concordância entre o verbo e o Tema, verificamos 100% de concordância com ser, conforme exemplo em (19) a seguir, e 0% de concordância com haver, como em (21). Esse grupo de fatores não foi selecionado pelo Goldvarb, não sendo obtidos pesos relativos, visto que esse Programa não procede a rodadas em que não há variação: nessa situação, aconteceram casos categóricos de realização de concordância com ser e nenhum caso com haver. Esses resultados são muito interessantes para a hipótese aqui desenvolvida, a ser apresentada na próxima seção, pois correlacionamos o fator concordância ao tipo de clítico locativo/quase-argumento que licencia cada verbo existencial (ser e haver).

(19) a. Titolo #VIº da pẽedença q(ue) he o #IIIº sacram(ẽ)to e p(or) q(ue) ha assy nome e som q(ua)rẽeta e hũa leis. (Alphonse X, Primeyra Partida, séc. XIV. Fonte: CIPM)

(20) Capitollo primeiro Das partes do nosso entendimento. Do entendimento nosso, segundo minha declaraçom, ha #VII partes. (Leal Conselheiro, séc. XV. Fonte: CIPM)

Na seção 4, analisaremos a importância dos resultados quantitativos para as mudanças aqui estudadas.

3 Mudanças envolvendo verbos existenciais e possessivos no português medieval – propostas de análise

Conforme pôde ser visto na seção 3.1, foi no século XVI que o verbo haver se fixou como verbo existencial canônico do português. Neste tópico, apresentaremos hipóteses para as causas que podem ter levado haver a migrar dos contextos possessivos para os existenciais, tomando o posto de ser como verbo existencial.

Partimos nossa análise de um fator que chamou a atenção nas construções existenciais com haver, que é a realização do pronome hy.

Como notado por FREEZE (1991) e KAYNE (2006), é próprio das línguas românicas a presença de um clítico locativo em construções existenciais, conforme os seguintes exemplos retirados de FREEZE (1992:567-568):

(21) French:

a. Il y a deux enfants dans l’auto.

it p has two children in the car.

‘There are two children in the car.’ Italian:

b. Non ci sono uomini in casa.

NEG p are men in house

‘There are no men in the house.’ Catalan:

c. No hi ha peix al menu d’avui.

NEG p have fish on.the menu of.today

‘Isn’t there fish on today’s menu?’

KAYNE (2006) ressalta o fato de que o português e o espanhol contemporâneos, apesar de não apresentarem uma contraparte visível do y francês (com exceção do tempo presente no espanhol: Hay gente en el pasillo), devem dispor de uma versão nula desse elemento. Acreditamos que os resultados desta pesquisa corroboram a sua afirmação, já que, no português antigo, encontramos vestígios da presença de tal locativo nas existenciais do português, evidenciando a sua realização fonológica (hy e suas variantes hi, y...) nas sentenças com o verbo haver, o que aproxima o português de suas irmãs. As existenciais com ser, por sua vez, contariam com um locativo do tipo do ci italiano, só que nulo, como argumentaremos a seguir.

Podemos observar nas sentenças existenciais em (21a) e (21c) acima, respectivamente do francês e do catalão, que, quando o verbo realizado é haver, o locativo que ocorre com ele é do tipo do y/hi. Quando se trata do verbo ser, como no italiano (21b), o locativo é ci. Outro ponto relevante é que no italiano é ativada a concordância entre o verbo ser e o tema, enquanto, no francês e no catalão, não ocorre concordância. Esse fator também é atestado nos resultados apresentados na seção 3.2 deste trabalho, visto que com ser é verificado 100% de concordância com o tema, enquanto com haver, 0%. Observamos, desse modo, que o fator concordância está relacionado ao tipo de clítico locativo que ocorre com o verbo existencial.

Mas essa não é toda a história. Ainda, para KAYNE, assim como o francês apresenta il na posição de sujeito das suas existenciais, as demais línguas românicas também contam com um sujeito quase-argumental (nos termos de CHOMSKY, 1981), só que na sua versão nula.

Quanto ao argumento que ocorre na posição de sujeito das construções existenciais, recorremos à distinção feita por CHOMSKY (1995) entre “expletivos puros”, do tipo de there do inglês (que não possui traços- φ nem traço de Caso) e expletivos com Caso e traços-φ (categorias quase-argumentais (CHOMSKY, 1981)), it do inglês e il do francês21.

Os “expletivos” (puros e quase-argumentais) possuem estreita relação com os clíticos locativos do tipo de y, hi, ci. Logo, quando o pronome locativo é do tipo de ci, um expletivo puro aparece na posição de sujeito. Trazendo para a discussão os pressupostos assumidos por CHOMSKY (1995) quanto à checagem de traços, podemos afirmar que, nesse caso, numa sentença, como em (22) a seguir, T, uma sonda com traços-φ que precisam ser valorados, procura um elemento que possua esses traços valorados com que possa combinar os seus, encontrando o DP (Tema). Assim, T, além de valorar os traços-φ, compartilha com o tema o traço de Caso nominativo. Contudo, ainda resta um traço de T a ser valorado, o traço EPP. Esse traço exige a presença de um elemento em [Spec,TP], que, conforme vemos em (22), não se trata do tema, que permanece em posição pós-verbal; logo, o traço EPP só poderá ser satisfeito por um expletivo puro, que não possui traços-φ nem traço de Caso22. Quando o locativo é do tipo de hy,23 por seu turno, como em (23) abaixo, é um quase-argumento (pro quase-argumental) que ocupa a posição de sujeito no Sintagma Verbal/Small Clause, com o qual T valorará traços-φ e traço de Caso, bem como traço EPP. Nessa situação, o tema portará Caso inerente partitivo. O clítico locativo (Æ e hy), que é gerado junto com o DP (dentro de uma Small Clause) se adjunge a T, conforme demonstrado nos esquemas abaixo.

(22) [ TP e proexpletivo-puro [T’ Æ -loc+som+T [DP Æ-loc [q(ua)rẽeta e hũa leis [+nom,+φ]]]]] (Alphonse X, Primeyra Partida, séc. XIV. Fonte: CIPM)

(23) [TP proquase-argumental [+nom,+φ] [T’hy+a+T [DP hy [muytos mouros...]]]] (Crônica de D. Afonso, Capítulo II – Século XIV.

Fonte: CIPM)

A partir do que é afirmado acima, podemos tentar uma explicação

para a passagem de haver de possessivo a existencial.

Consideramos que a presença de hy acarreta uma mudança de estatuto do verbo haver: enquanto nas construções de posse, haver contava com um sujeito argumental pleno, portador de traço geralmente [+humano], haver existencial ocorre com um sujeito quase-argumental (do tipo do il francês, só que nulo24, segundo FREEZE (1992) e KAYNE (2006)). Em (24), apresentamos a configuração para uma sentença possessiva e, em (25), para uma existencial, chamando a atenção para o constituinte que ocupa a posição de sujeito em cada uma delas [Spec,IP/TP]. Estamos seguindo as configurações propostas por FREEZE (1992), apresentadas na Seção 2.

(24) [IP [P’ Ihesu Cristo]i [I’ á [PP en sy [NP duas naturas d’omen e Deus] [P’ ti]]]]

(25) [IP pro [I’ avya hi [PP hi [muitos mouros] [P’ acerca da cidade]]]]]

Como estamos associando concordância e Caso, justificamos o fato de T não tomar como alvo muitos mouros, com que, inclusive, não concorda em número, porque está concordando com pro.

Passemos agora ao segundo ponto a ser analisado nesta seção: o fator que fez com que ser perdesse o posto de verbo existencial canônico do português. Assumimos aqui a proposta de RIBEIRO (1996) de que esse verbo portava traço [locativo], o qual perdeu, deixando de poder ser licenciado entre as existenciais. Conforme registrado na introdução deste trabalho, ao mesmo tempo em que ser era empregado em construções existenciais, também o era em construções locativas/situativas e copulares transitórias (ao lado de estar, sendo suplantado por este no século XVI). As existenciais e as locativas/situativas têm em comum o fato de ocorrem com constituintes que envolvem a noção de locação, daí sustentarmos nossa proposta de que o verbo ser, nesses padrões sentenciais, possui um traço [locativo]. A partir de quando ser perdeu esse traço, deixou de ser licenciado entre as existenciais e locativas. Adotamos a visão de FREEZE (1992) de que o clítico locativo (proforma, em seus termos) consiste na realização fonológica do traço [locativo] do verbo existencial, que pode ser nulo.

Tendo discutido quando e como se deu a “migração” de haver das construções possessivas para as existenciais, substituindo ser, vamos nos voltar para o nosso segundo objetivo: mostrar se essa mudança refletida nos textos escritos resultou de ‘competição de gramáticas’.

4 Variação e mudança linguísticas à luz da noção de ‘competição de gramáticas’

Tratando inicialmente dos fatores intralinguísticos, vimos, conforme análise desenvolvida na Seção 3.2, que foram selecionados como condicionadores do uso de ser/haver a definitude do Tema (haver ocorre preferencialmente com temas indefinidos e ser, com definidos) e a realização do pronome hy (que acontece quase exclusivamente com haver).

Ainda, apesar de não terem sido selecionados pelo Goldvarb, alguns fatores merecem destaque: (a) a posição do Tema na sentença, que está relacionada com a definitude, visto que os temas definidos (que favorecem o verbo ser) vêm normalmente à esquerda do verbo; (b) o presente do indicativo, que levou à expansão de haver ao longo dos séculos; e (c) Temas cujo traço semântico é [abstrato]. A importância desses resultados está no sentido de que podemos chegar à conclusão de que ser e haver não demonstram ser itens funcionalmente idênticos, não estando sujeitos ao Blocking Effect25.

Dessa forma, quanto aos fatores intralinguísticos analisados, concluímos que o fato de o verbo haver ter substituído o verbo ser na expressão de existência não quer dizer necessariamente que essa mudança seja reflexo de ‘competição de gramáticas’; podemos afirmar com certeza que haver acabou ocupando todos os espaços de ser, o que o tornou obsoleto e ‘bloqueado’. Contudo, a análise pautada somente em fatores intralinguísticos não pode ser conclusiva para constatar-se se as mudanças envolvendo verbos existenciais e possessivos são reflexo de ‘competição de gramáticas’, daí passarmos à análise das motivações sociolinguísticas na próxima seção.

Conforme afirmado na introdução, KROCH (1994:1-2) se vale do Blocking Effect (ARONOFF, 1976) para invalidar a ocorrência de doublets nas línguas. Logo, no caso da presença de doublets em uma dada língua, o Blocking Effect “entra em ação”, eliminando uma das formas26.

Todavia, isso não exclui a possibilidade de que duplos ocorram nas línguas. Logo, uma forma encontrada por KROCH (1994:6) para explicar esse fato sem invalidar o princípio do Blocking Effect, é atribuir aos duplos uma origem sociolinguística:

Doublets arise through dialect and language contact and compete in usage until one or other form wins out. Due to their sociolinguistic origins, the two forms often appear in different registers, styles, or social dialects; but they can only coexist stably in the speech community if they differentiate in meaning, thereby ceasing to be doublets. Speakers learn either one or the other form in the course of basic language acquisition, but not both. Later in life, on exposure to a wider range of language, they may hear and come to recognize the competing form, which for them has the status of a foreign element. They may borrow this foreign form into their own speech and writing for its sociolinguistic value or even just because it is frequent in their language environment. Over time, however, as dialects and registers level out through prolonged contact, the doublets tend to disappear.

Contudo, como o próprio KROCH (1994:5) já assinalou, não consiste numa tarefa fácil para o linguista (nem assim o deve ser, como bem pontua o autor), mostrar que uma variação ou mudança linguística se dá entre opções gramaticalmente incompatíveis, refletindo, assim, competição entre gramáticas27:

The difficulty introduced by the possibility of Grammar competition is not for the learner but for the linguist, for whom a methodological question arises; namely, how to know when grammar competition should be invoked and when failure to find a unified analysis means only that more research is needed […]

Analisar o passado com o olhar do presente é uma tarefa um tanto melindrosa, pois o linguista, além de não dispor de intuição linguística para analisar a língua falada na época, nem sempre conta com informações relativas aos textos analisados, como data e local de nascimento do autor, e local onde passou os primeiros anos de sua vida, dados importantes para sabermos sob que condições se deu sua formação (aquisição) linguística.

Aqui se coloca outro desafio para o linguista: Como comprovar que as causas das mudanças estudadas são sociolinguísticas diante dos dados de que dispomos?

Pensando primeiramente sobre o grupo de fatores extralinguísticos gêneros textuais, algumas questões se colocam:

(1) Analisando o gênero textual (documentos notariais, textos narrativos e textos dissertativos, seria adequado assumirmos a postura adotada em trabalhos sobre o português atual, tomando, por exemplo, os textos narrativos como mais próximos da oralidade? Para tanto, seria necessária uma pesquisa acurada sobre os gêneros textuais no português medieval, o que consistiria em outro trabalho, não sendo o foco desta pesquisa;

(2) Como se caracterizava a linguagem falada retratada nas narrativas analisadas – estava ou não voltada para o padrão linguístico da época? A princípio, nossa resposta seria afirmativa, visto que as crônicas versam sobre feitos dos reis (nobres) e contam histórias sobre a vida de santos cujos personagens ou eram pessoas da própria nobreza e do clérigo ou a eles ligados. Entretanto, como discutiremos a seguir, é necessária uma reflexão sobre o que consistia no padrão linguístico nos períodos antigo, médio e clássico (somente o século XVI), tendo em vista que a preocupação dos escritores nessa época era com a formação do português enquanto uma língua independente28 (cf. ILARI & BASSO, 2006).

(3) Como lidar com problemas relacionados à coleta de dados disponíveis, quando esses são ‘limitados’?

Em nosso caso, por exemplo, encontramos basicamente textos narrativos na segunda metade do século XVI (contando com documentos notariais apenas na primeira metade desse século)29.

Considerando que a mudança estudada provavelmente tenha sido motivada por fatores sociolinguísticos, assim como outras ocorridas nesse período, buscamos informações relativas, ao menos, ao local onde os textos foram escritos, já que não dispomos de muitas informações sobre os autores, de modo a verificarmos se era possível contrapor diferenças linguísticas em termos de região geográfica, por exemplo. Mas praticamente todos os textos foram escritos por escritores que viviam em Lisboa. Ainda, como saber se viveram sua infância em Lisboa (eis outro ‘complicador’)?

Uma alternativa encontrada foi buscarmos informações sobre o contexto sociocultural que envolve tanto o latim vulgar quanto o português dos períodos antigo e médio (veja comentários sobre os verbos ser e haver no latim na introdução deste texto).

Pensando sobre a noção de prestígio que uma forma linguística possui junto à sociedade, bem como sobre o fato de que o latim clássico se opunha ao latim vulgar, que era o vernáculo, ou seja, “o aprendizado que se dá, por assimilação espontânea e inconsciente, no ambiente em que as pessoas são criadas” em contraposição a “tudo aquilo que é transmitido através da escola” (ILARI & BASSO, 2006:15), podemos concluir que ser pode ser tida como a variedade de prestígio, por ser uma variação do verbo esse do latim clássico30. Ademais, o fato de a Sociolinguística, normalmente, tomar a forma mais antiga como a que goza de maior prestígio na sociedade vem corroborar nossa afirmação, pois o verbo ser é a forma mais conservadora.

ILARI & BASSO (2006:17) ainda registram que

o latim vulgar foi uma variedade de latim principalmente falada, a mesma que os soldados e comerciantes romanos levaram às regiões conquistadas durante a formação do Império que foi passando de geração em geração sem ser ensinada formalmente.

Dá-se o contrário com o latim literário, que “foi criado pelo esforço consciente de várias gerações de escritores e tinha fins estéticos”, sendo “uma forte referência cultural” (ILARI & BASSO, 2006:17).

Somado a isso está o fato de o latim vulgar ter se fragmentado devido às invasões ‘bárbaras’, resultando nas línguas românicas. Todavia, a fragmentação do latim vulgar não se deveu somente a causas externas, mas também a causas internas, tais como o despovoamento do império romano em decorrência das guerras civis, das constantes invasões bárbaras, bem como de uma terrível epidemia de peste que durou mais de quinze anos dizimando milhões de cidadãos romanos; o empobrecimento da população, “incompatível com os altos impostos cobrados para a manutenção do fausto da corte imperial” (BASSETO, 2001:139); a decadência militar, com a redução do efetivo, o que forçou os imperadores a buscar reforços entre os bárbaros, ocasionando a sua presença em todo o império, consistindo no que se tem chamado “invasão pacífica”.

Quanto ao padrão linguístico retratado nos textos do português antigo e médio, também não se pode precisar como ele era estabelecido, já que, conforme ILARI & BASSO (2006:22), no século XIII, por exemplo, os documentos notariais (escrituras de cartório relativas a demandas, heranças e doações) adotavam a fala corrente, o que constituía um problema para os escribas medievais, por falta de uma padronização. Com relação ao português, considerando que fatores externos influenciam a história interna da língua, CASTRO (2006) cita como fatores que podem ter influenciado as mudanças linguísticas que marcaram o português médio, entre outras: (a) as obras dos filhos de D. João I; (b) assim como as de seu pai, escritor; (c) a influência de seu avô, que, apesar de não ter influenciado na literatura, trouxe para Portugal técnicas novas de vencer batalhas aos castelhanos; e (d) de seu trisavô, Afonso III, que transferiu a sede do poder de Guimarães para Lisboa (cf.: MESSNER, 1983, 2002). Ainda, com o advento da dinastia de Avis, Lisboa se converteu no modelo a ser seguido por todos; e, linguisticamente, o eixo Lisboa-Coimbra se tornou o centro do domínio da língua portuguesa, segundo TEYSSIER (1982).

Sabemos que, de acordo com estudiosos históricos, muitas mudanças linguísticas culminaram no século XVI, que consistiu num período de efervescência cultural e artística em Portugal, sendo “apontado como o século de ouro na literatura portuguesa” (ILARI & BASSO, 2006:28), “um período de forte preocupação com a língua portuguesa”, na tentativa de fixá-la (ILARI & BASSO, 2006:28). Nesse período, foram suprimidas muitas formas e construções encontradas no período arcaico, de acordo com ILARI & BASSO (2006:29); também se buscou “enriquecer a língua através de uma convivência íntima com o latim clássico”. Diante dessas colocações, que fizemos questão de citar na íntegra, talvez possamos concluir que as formas linguísticas adotadas deveriam refletir o que a sociedade (ou a elite social, econômica) tomava como culturalmente melhor.

Em suma, encontramo-nos diante de duas situações: (a) de um lado, a análise dos fatores extralinguísticos não é suficiente para afirmarmos que as causas das mudanças foram sociolinguísticas; logo, não temos como falar em ‘competição de gramáticas’. Isso nos conduz à mesma conclusão a que chegamos na análise dos fatores intralinguísticos: de que não estamos diante de ‘competição de gramáticas’, tratando- se de mudanças cujas motivações foram intralinguísticas – haver foi ‘invadindo’ os contextos ocupados por ser, em decorrência da alteração na configuração dos traços que compunham essas formas verbais, conforme discutido na seção 4 deste trabalho; (b) por outro lado, tendo em conta que as mudanças aqui estudadas, envolvendo verbos existenciais e possessivos, ocorreram no mesmo período em que se deram tantas outras, motivadas, segundo CASTRO (2006), por fatores externos, conforme discutido, poderíamos concluir que tais mudanças consistem em reflexos de ‘competição’ entre gramáticas.

Diante desse quadro, é necessário ressaltarmos que este trabalho longe de pretender ser conclusivo, propôs-se a discutir os desafios do linguista que trabalha com dados históricos ao analisar a gramática internalizada do falante refletida nos dados por ele escritos.

Conclusões

Através da análise de textos escritos em Português Arcaico e Médio, esperamos ter mostrado que:

(a) ser e haver existenciais não consistiam em dois itens funcionalmente idênticos, logo, não se pode falar em ‘competição de gramáticas’, o que foi demonstrado através da análise de fatores condicionadores intra e extralinguísticos: a mudança é decorrente exclusivamente de fatores de ordem intralinguística;

(b) são vários os desafios que se colocam ao linguista histórico que toma como base pressupostos teóricos que se pautam na intuição linguística do falante para lidar com (analisar) dados de épocas passadas, o que torna a análise ainda mais instigante e crítica.

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