Resumo

Com a introdução das letras y, k e w ao nosso alfabeto, pelo Acordo Ortográfico de 1990, muitos alfabetizadores têm ficado em dúvida sobre a classificação de y e w como vogais ou consoantes. O principal objetivo deste artigo é esclarecer essa questão, partindo de princípios fonéticos, fonológicos e pedagógicos, deixando claro que, na nossa língua, continuamos tendo sete vogais orais [a, e, E, i, ↄ, o, u].

Introdução1

A associação dos sons com os símbolos escritos que os representam na grafia nunca foi tarefa fácil na alfabetização. A criança, quando chega à escola, hoje por volta dos quatro anos, nas classes que antecedem a alfabetização propriamente dita, já conhece os sons de sua língua materna e, com eles, já se comunica perfeitamente com o mundo. Ela se expressa usando todos os sons da língua com a entonação adequada, de forma que os que a cercam a compreendem e isso, por si só, demonstra que, nessa fase, a criança já não apresenta qualquer problema grave em relação ao uso e à compreensão dos sons de sua língua materna.

Então, por que ela deve ser submetida a um processo de alfabetização? Porque seu processo de comunicação e expressão ainda ocorre basicamente na forma oral, o que não basta para se comunicar de forma satisfatória com seu mundo próximo ou distante em uma sociedade letrada. Nesse ambiente letrado, a escrita e a leitura complementam as possibilidades de comunicação da criança.

Entretanto, o que se tem visto – ultimamente, de forma mais acentuada - é uma grande confusão no processo de ensino da leitura e da escrita. Há um patente desconhecimento dos processos envolvidos nesse ensino e um decorrente emaranhar de conceitos e métodos que enlouquecem as crianças mais do que as orientam. É preciso que os profissionais que trabalham com a formação da criança na área da comunicação e expressão, sobretudo o alfabetizador, que é o responsável pela base da pirâmide nessa área, tenham conhecimentos sólidos de Fonética, parte da Linguística que trata do estudo dos sons, tão necessários para se distinguir: 1. letra (grafema); 2. som (fone) e 3. fonema.

Nosso principal objetivo, neste artigo, é tentar esclarecer um questionamento que tem sido feito por alguns alfabetizadores sobre a classificação de ‘y’ e ‘w’ como vogais ou consoantes, em virtude de essas letras terem, juntamente com o ‘k’, retornado ao nosso alfabeto após o Acordo Ortográfico de 1990. Achamos interessante reproduzir o questionamento de uma professora alfabetizadora2:

“Dia desses, meu aluno M. de 7 anos perguntou:” ‘Profe’, Y é vogal ou consoante? Porque ele tem som de I né? Então é vogal?” Boa pergunta do M... eu nunca tinha parado para pensar!!! Eu apenas inclui as letras na faixa do alfabeto, mas quando as crianças foram avançando para hipóteses silábico- alfabéticas e a noção de sílaba (formada por duas ou mais letras) foi construída a dúvida que me pareceu muuuuito natural. Agora eu tenho outra dúvida: como vou apresentar as vogais para as crianças? A, E, I, O, U, Y e (às vezes) W???”

Passos e Silva (2010, p.10)3, no livro Língua Portuguesa – 1º Ano do Ensino Fundamental, apresentam seis vogais em português: a, e, i, o, u, y. Se o ‘y’ está sendo considerado como vogal, então, o ‘w’ também não o deverá ser?

Para melhor compreensão da noção de vogal, necessário se faz abordar, antes, alguns conceitos tais como grafema, fone e fonema, cinco ou sete vogais orais e hiatos ou ditongos4. Vamos a eles.

1 Grafema, fone ou fonema?

A abordagem sobre Fonética que normalmente é feita na educação básica brasileira deixa margem a uma conceituação confusa sobre as noções de grafema, de fone e de fonema. Em função da complexidade do tema, obviamente, não se abordam noções de Fonêmica nos níveis iniciais de ensino e, por isso, fala-se de fonema como se esse fosse um termo genérico. Ao se fazer os clássicos exercícios para distinguir grafemas de fonemas (quantas letras e quantos fonemas há na palavra ‘carro’, por exemplo?), não é feita uma preparação oral que permita ao aluno compreender, realmente, o que está fazendo, além de se considerar variações de alguns sons, às vezes, como se fossem fonemas. O aluno que aprende mecanicamente essas noções fará confusões entre grafema e fonema, o que o levará, certamente, a cometer, entre outros, erros de separação silábica, por exemplo, quando estiver separando dígrafos.

Esclareçamos: a Fonética e a Fonologia são áreas da Linguística, estudo científico da linguagem como meio de comunicação, e ambas têm como objeto de estudo os sons da linguagem. No entanto, enquanto a Fonética, de modo geral, preocupa-se com a produção dos sons (ou seja, a forma como são realizados) e com a estrutura física desse sons, à Fonologia interessa saber se esses sons são distintivos ou não, se exercem uma função na linguagem.

Por exemplo, conhecemos as diferentes maneiras de se pronunciar os dois grafemas ‘r’ da palavra ‘carro’: uns têm uma pronúncia mais anterior (região alveolar), outros uma mais posterior (região velar), ou mais posterior ainda (regiões uvular e faringal), mas sempre o falante do brasileiro saberá que se trata da palavra ‘carro’ e não de ‘caro’. Apesar das diferentes realizações dos dois ¨ r (alveolar [r], velar [x], uvular [X], glotal [h])5, objeto de estudo da Fonética, temos um só fonema /r/ ou, conforme Cagliari (1997, pp. 14, 37 e 38)6, /x/ para o dialeto paulista, objeto de estudo da Fonologia.

Os sons descritos pela Fonética, seu objeto de estudo, e que variam de sujeito a sujeito conforme fatores diversos – linguísticos e paralinguísticos – são chamados fones.

Necessário se faz, no entanto, estabelecer um sistema para a língua que seja significativo, distintivo. Aí começa a construção da dimensão fonológica da língua (que vai determinar, pela prova de comutação, o sistema fonêmico da língua, mais econômico que seu sistema fonético), que é objeto de estudo da Fonologia. Pela prova de comutação (alternação de fones em um mesmo contexto), é verificado se uma alteração no significante (sequência de fones) resulta ou não em uma alteração no sentido. Assim, por exemplo, se falarmos ‘teto’ [tE.to] sabemos que não estamos falando de ‘neto’ [nE.to] ou de [fE.to] Nos três significantes temos o mesmo contexto [ _ Eto]; como alteramos a palavra com a alternância dos fones [t], [n] e [f], obtivemos, neste caso, sentidos diferentes; por isso, esses fones são fonemas /t/, /n/ e /f/. Já no caso de ‘carro’, quer falemos [r], [x], [X] ou [h], sabemos tratar-se de um mesmo objeto, pois houve alterações na forma de pronúncia do som, mas o sentido não foi alterado. Temos para ‘carro’, então, vários fones que são alofones ou variantes entre si de um só fonema, o /r/. O falante do brasileiro sabe quando se trata de ‘carro’ (por exemplo, com sentido de ‘automóvel’) e quando se trata de ‘caro’ (por exemplo, com sentido de ‘algo de preço elevado’) pela distinção que ele é capaz de fazer entre os fonemas.

Temos, então, que os fones (sons) que têm valor distintivo na língua são chamados fonemas.

No exemplo dos dois ‘r’, podemos deduzir que o sistema fonêmico da língua é mais econômico que o fonético, pois, para um só fonema /r/, vimos quatro realizações (quatro sons) diferentes. A título de informação, o sistema fonêmico do brasileiro é composto de 28 fonemas (21 consoantes – dentre as quais 2 aproximantes [j] e [w], tradicionalmente conhecidas como semivogais – e 07 vogais)7 ou de 33 se forem consideradas 5 vogais nasais.

Vejamos alguns exemplos para diferenciar grafemas de fones e de fonemas:

Table 1.

Grafemas (escrita alfabética) Fones Fonemas
chácara [Sa.ka.R] /Sakara/
tira [t5i.R], [tSi.R] /tira/
digo [d5i.gU], [dZi.gU] /digo/
quilo [k11i.lU] /kilo/
cara [ka.R] /kaRa/
Wilson [wiw.sõ]7a /wilsoN/
Wudson [u.u.di.sõ] /uudsoN/
Walkyria ou Valquiria [vaw.k1i.Rjɐ] /valkiRja/
Yara ou Iara [ja.Rɐ] /jaRa/
Kalyl ou Kalil ou Calil [ka.liw] /kalil/

Vamos observar que ocorrem variações na forma como o som relacionado a cada grafema é pronunciado em diferentes regiões do Brasil, embora nada sobre isso seja dito aos pequeninos no processo de alfabetização. Vejamos as duas variações para as palavras ´tira´ e ´digo´: na Paraíba, o ´t´ e o ´d´ têm uma pronúncia apicodental [t5],[d5] (a constrição é causada pelo contato da ponta da língua contra os incisivos superiores), enquanto, nas outras regiões, fala-se uma africada [tS], [dZ] (o som sai com chiado). Tomamos, como exemplo, a variação da pronúncia dessas consoantes antes da vogal [i], mas é necessário esclarecer que, na Paraíba, tem-se essa pronúncia apicodental antes de todas as vogais, caracterizando-se como uma variação regional. Outro exemplo de variação regional da pronúncia dessas consoantes é o caso de Cáceres, Mato Grosso, onde se pronuncia uma africada [tS], [dZ] antes de todas as vogais. Assim, por exemplo, em vez de [dadU] ´dado´, temos [dZadZU], em vez de [dẽtSi] ´dente´, temos [dZẽtSi], em vez de [dedU] ´dedo´, temos [dZedZU]. Mas, atenção: nos outros estados, pronuncia- se um som alveolar [t], [d] antes das demais vogais (a constrição é causada pelo contato da lâmina da língua contra a linha dos alvéolos), caracterizando-se como uma distribuição complementar, ou seja, é uma variação contextual e não regional. Assim, antes de [i] temos [tS] e [dZ] e, antes das demais vogais, temos [t] e [d].

Isso observado, nosso interesse mais direto deve ser: como trabalhar com os alunos quando o nível de ensino não permitir entrar nesses detalhes? Para não se incorrer em erros, falando-se em fonema como se esse fosse um termo genérico, como dissemos no início, julgamos ser preferível falar em “sons” em vez de “fonemas” no Ensino Fundamental e “fones” e “fonemas” nos outros níveis de ensino.

2 Cinco ou sete vogais orais?

Se é constatado que temos um sistema vocálico composto de sete vogais em posição tônica – [i, e, E , a, ↄ , o, u] (p[i]pa, p[e]la, p[E]la, p[a]la, p[ↄ]lo, p[o]-lo, p[u]la) – que se reduz a cinco em posição átona pretônica –[i, e, a, o, u] (pol[i]ticagem, m[e]tralhar, m[a]traca, m[o] lhado, [u]rubu) –, a quatro em posição átona postônica não-final – [i, e, a, u] (polít[i]ca, paralelepíp[e]do, parágr[a]fo, íd[u]lo) – e, até mesmo, a três em posição átona final – [i, , U] (beb[i], cas[], bol[U]) –, então, por que iniciar a alfabetização dizendo que temos cinco vogais?

Aqui, os professores deveriam falar em sons ao invés de falar em vogais como se elas fossem ‘letras’. É absolutamente indispensável que o professor alfabetizador8 entenda que nosso sistema de escrita é ortográfico e não fonético-alfabético. O que isso significa? Significa que, em um sistema fonético-alfabético, haverá apenas um símbolo (letra/ grafema) relacionado a cada som. Em um sistema assim, ‘b’ com ‘e’ dá ‘bé’ e ponto final. Em um sistema ortográfico como o nosso, a coisa é bem diferente: ‘b’ com ‘e’ pode dar ‘bé’ (bela) [bE.l], ‘bê’ (bebê”) [be.be], ‘bi’ (bebe) [bE.bi]. Então, quando eu falo para o aluno que “há cinco vogais na língua”, pensando que meu sistema de escrita é fonético- alfabético, eu o levo a entender que só “há cinco sons de vogais” porque eu só mostro para ele cinco letras (a, e, i, o, u) que eu, equivocadamente, chamei de “vogais” e isso está muito errado!

Nosso sistema, diferentemente, é ortográfico. Isso significa que há uma forma correta (ortográfica) de escrever as palavras e que essa forma de escrever não corresponde à pronúncia das palavras na oralidade. Assim, o que eu deveria lhe mostrar é que há cinco letras9 que podem ser usadas para os sons de vogais, pois uma vogal é um som e não uma letra. Mas o sistema tradicional de alfabetização, que inclui os chamados métodos fônicos, tem confundido isso de forma drástica! Como eu posso ensinar um sistema ortográfico por um método fônico? Não dá! Depois os alunos ficam fazendo “transcrição fonética” na hora de escrever (e saem coisas como caza, tanbein, caxoro, mãi, naum, muinto) e os professores que os ensinaram uma “pseudotranscrição fonética” como forma de escrita ficam inconformados.

Quando conversamos sobre as vogais com eles, os professores, normalmente, insistem na pretensa característica fonética do sistema e nos respondem: “Ora, temos sete sons representados por cinco letras que recebem o acento agudo para indicar os sons abertos”. E ficam sem resposta quando lhes perguntamos como explicar o fato de termos sons abertos que são representados por letras sem acento agudo, como em ‘pele’ [pE.li] e ‘polo’ [pↄ.lU], por exemplo. Ou seja, fazem uma confusão entre grafemas e sons. Por que não dizer que temos vários sons de vogais representados, na escrita, por menos letras, ou seja, que temos mais sons do que letras em nossa escrita?

De modo geral, com quem temos conversado em nossa caminhada, fica claro que o receio de mudar se deve ao fato de que serão questionados pela família do aluno ou pelo corpo técnico da escola. A nosso ver, isso já deveria merecer um tratamento mais correto da parte dos alfabetizadores.

3 Hiatos ou ditongos?

Por que importa falarmos em hiatos (ocorrência de duas vogais próximas na palavra, que se separam na pronunciação, ou seja, ficam em sílabas diferentes (saúde [sa.u.de]) ou ditongos (ocorrência de uma vogal e uma semivogal que são pronunciadas conjuntamente, na mesma sílaba (pai [pai]) aqui? Devido à classificação dos grafemas ‘y’ e ‘w’ como vogais ou consoantes, problema que vem surgindo para os alfabetizadores, como já dissemos no início deste artigo.

É importante observar que, como um mesmo som pode ser representado por vários grafemas (como vimos em 1), com a reinclusão das letras ‘y’ e ‘w’ em nossa grafia, pelo último Acordo Ortográfico, as vogais (fonemas) ‘i’ e ‘u’ passam a poder, ‘oficialmente’10, ser representadas, pelos grafemas ‘i’ ou ’y’ e ‘u’ ou ‘w’, dependendo da ortografia da palavra.

Assim, temos Wilson [wiw.sõ], Wudson [u.u.di.sõ], Walkyria ou Valquíria [vaw.k1i.Rj], Yara ou Iara [ja.R] (alguns consideram hiato [i.a.R]) , Kalyl ou Kalil ou Calil [ka.liw]. Observe-se que o grafema ‘l’ também é representado pelo som [w], ou seja, soa como “u” (com exceção do Rio Grande do Sul onde é pronunciado como ‘l’ mesmo [ka.lil]). Ainda mais alguns exemplos: em ‘whisky’ [wis.k1i], o grafema ‘w’ soa como [u], mas, como se trata de um ditongo, foneticamente, temos a aproximante [w] e, fonologicamente, a semiconsoante /w/. Já está lexicalizada a forma ‘uísque’, mas é a mesma representação fonética com ditongo, apesar de alguns estudiosos considerarem aí a existência de um hiato [u.is.k1i]. Em ‘hobby’ [hↄ.bi], temos o grafema ‘y’ que soa como a vogal [i], núcleo silábico. Em ‘byroniano’ [baj.Ro.ni. .no], temos o grafema ‘y’ soando em um ditongo.

Os sons [j] e [w] entram na composição dos ditongos e dos tritongos como semivogais ou semiconsoantes, dependendo da estrutura da língua. No caso do português brasileiro, como semiconsoantes, pois, em uma comutação, alternam com consoantes. Por exemplo, no contexto [ __aRa], podemos formar as palavras ‘Mara’ [ma.Ra], ‘para’ [pa.Ra] e ‘Yara’ [ja. Ra], além de outras mais. Em [ja.Ra], temos um ditongo, portanto, duas sílabas, se bem que, para alguns, é um tritongo [j.a.Ra]. Apesar de serem sons muito parecidos com os das vogais respectivas, se diferenciam por um tempo de emissão mais curto e rápido. Nunca serão vogais, pois o ápice da sílaba é sempre uma vogal, e tão somente uma.

É frequente a dificuldade da maioria dos alunos, até mesmo de adultos, para distinguir ditongos de hiatos, e nem estamos falando aqui de ditongos crescentes e decrescentes.

Essa questão simples, mas tornada complicada, sem entrar no mérito sobre ditongos verdadeiros e falsos, será facilmente resolvida se os professores levarem em conta que os sons, antes de qualquer coisa, devem ser pronunciados. Quando se faz uma abordagem oral correta da pronúncia das palavras, ou seja, uma prática oral em sala de aula, o problema desaparece.

É necessário dar mais atenção ao fato de que, quando os alunos pronunciam, percebem a diferença entre hiato e ditongo e, quando sentem a intensidade mais forte ou mais fraca do início do ditongo, facilmente deduzem qual é o crescente ou o decrescente, sem ter necessidade de decorar, sem compreender, a fatigante lista dos ditos ditongos. Aliás, parece que os normativistas são fascinados por listas prontas... Pode-se, até mesmo, associar a representação Vv¯ para os ditongos decrescentes e vV­para os crescentes. Assim, na palavra ‘pai’ temos [paj], ou seja, Vv¯, e, em ´quase´, temos [kwazi], ou seja, vV­. É claro que, nas séries iniciais, o professor não deverá ter a preocupação de ensinar aos alunos a diferença entre ditongo, tritongo, hiato, ditongo crescente e decrescente, entre outros aspectos da fonologia da língua; afinal, o enfoque nesse período deve estar nas quatro habilidades básicas da comunicação: ler, escrever, ouvir e falar. Mas, quando o tema vier a ser introduzido, em séries mais avançadas, esses aspectos que abordamos aqui não devem passar sem relevo.

Façamos, portanto, um exercício clássico para distinguir letras e fonemas, pois é assim que aparece nos manuais de alfabetização. Iremos um pouco mais adiante, porém, verificando como ele deveria ser respondido com base na moderna visão fonético-fonológica sobre a língua:

Em ‘chaleira’, temos:

a. oito letras (ou grafemas);

b. sete sons (ou fones) [Sa.lej.Ra];

c. sete fonemas /SalejRa/;

d. três sílabas fonéticas e três sílabas gráficas [Sa.lej.Ra] e ‘cha- lei-ra’, respectivamente;

e. três consoantes [S, l, R] e não quatro (há 1 dígrafo “ch”);

f. uma semiconsoante [j] (aproximante é o termo fonético) e

g. três vogais, considerando-se a repetição do ‘a’, [a, e, a].

Para o aluno não confundir pensando que a letra ‘i’ é vogal, teríamos que fazê-lo pronunciar e perceber que ‘ei’ é um só som longo, parte de uma sílaba, e não ‘e’ e ‘i’, separadamente, pois aí seria hiato e não ditongo.

Agora, a pergunta focal aqui é: um aluno de 4, 5 ou 6 anos, em fase de alfabetização, precisa saber tudo isso? É evidente que não! Mas seu professor precisa! É muito importante que o professor alfabetizador consiga diferenciar esses fenômenos, separar claramente cada um, compreender a diferença entre um sistema de alfabetização fonético- alfabético e um sistema ortográfico para saber como lidar com cada um deles no processo de ensino e conseguir discernir as dificuldades de seus alunos na aprendizagem.

Concluindo, temos que registrar que, em nossa caminhada pedagógica, observamos que a maioria dos professores de português brasileiro não sabe o porquê do estudo de ditongos e hiatos, não o associam à separação silábica, não dominam os fundamentos do sistema de escrita de nossa língua. Isso se reflete, inelutavelmente, no ensino da escrita e da leitura para os menores.

4 O Acordo Ortográfico (1990) e as letras reintroduzidas.

Pelo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990), as letras ‘k’, ‘w’ e ‘y’ são usadas em antropônimos e antropônimos estrangeiros e seus derivados (Franklin, frankliniano, Darwin, darwinismo, Taylor, taylorista, Wilson, Yara), topônimos e topônimos estrangeiros e seus derivados (Kuwait, Kuwaitiano) e em siglas e símbolos (TWA, kg – quilograma, kW – kilowatt, yd – jarda).

Com a volta dessas três letras ou grafemas ‘k’, ‘w’ e ‘y’ (optamos aqui, por questões fonológicas, não empregar o termo consoante), em nossa ortografia, devemos nos lembrar que, em um sistema ortográfico como o nosso, são apenas mais uma opção para representar sons como o produzido pelos grafemas ‘qu’ em quilômetro, o som ‘u’ em Wilson e o som ‘i’ em Yara ou Iara, por exemplo.

É exatamente o mesmo que acontece com alguns sons consonantais que são representados por várias letras (grafemas)11. Vejamos os exemplos seguintes:

Figure 1.

A professora que teve problema com seu aluno M., de sete anos (relatado no início deste artigo), após consultas feitas em blogs pedagógicos, chegou à seguinte conclusão12:

Seguindo os princípios fonético-fonológicos, Y é uma VOGAL, pois é um fonema pronunciado com a passagem livre do ar pela boca. O K é uma CONSOANTE, pois precisa de uma vogal para formar sílabas e ser pronunciada. Já o W é VOGAL ou CONSOANTE, dependendo do uso. Fica assim: com som de V, quando proveniente do alemão (como Wagner), com som de U, quando de origem inglesa (caso de web).

Sobre essa conclusão, é necessário reforçar que ela está errada! Nem ‘Y’ é vogal, nem ‘K’ é consoante, nem ‘W’ é vogal ou consoante. ‘Vogal’ e ‘consoante’ são especificações taxonômicas de ‘sons’ e não de ‘letras’. ‘Y’, ‘K’ e ‘W’ são apenas letras ou, mais tecnicamente, ‘grafemas’, que podem ser utilizados para representar ora sons vocálicos, ora sons consonantais, como ocorre com as demais letras do sistema do português brasileiro de escrita, sendo que isso varia de um sistema de escrita para outro. Veja: uma vogal [a] será uma vogal [a] em qualquer sistema linguístico em que ela ocorra no mundo. A letra ‘a’ pode ter valores diferentes em sistemas de escrita diferentes. Conhecer claramente essa diferença é essencial para quem alfabetiza.

É óbvio que há grafemas da escrita do português brasileiro que se especializaram em sons vocálicos (como o ‘a’), e outros que se especializaram em sons consonantais (como o ‘r’), mas também há outros que ora são vocálicos (ou semivocálicos, ou semiconsonantais, conforme a estrutura da língua) ora consonantais (como o “l”, que pode ter som de [w] – como em “final” - e o “m” que pode ter som do [w] dos ditongos nasais - como em “correram”, por exemplo).

Assim, o que o alfabetizador deve mesmo reforçar com seus alunos é o fato de que, em um sistema de escrita como o nosso, uma mesma letra pode servir a muitas finalidades. Por isso, devemos aprender como as palavras são escritas, já sabendo que serão pronunciadas de formas diferentes, em diferentes partes de nosso imenso país, utilizando-se economicamente uns poucos símbolos para a grande quantidade de sons que a língua possui. E isso muito mais com a preocupação de que o aluno aprenda a ler e escrever com qualidade, do que com a “decoreba” de classificações e nomes que não lhe dizem nada.

Conclusão

Por tudo que expusemos neste artigo - e como dissemos no início - é preciso que os profissionais que trabalham com a formação da criança na área da comunicação e expressão, sobretudo o alfabetizador, revejam seus conceitos de grafema, som ou fone, fonemas, vogais e consoantes, encontros e separações vocálicas, entre outros.

Queremos enfatizar que é preciso separar os diferentes níveis de análise: grafemática, fonética e fonológica, pois, assim procedendo, o alfabetizador não terá mais problemas em relação à classificação de ‘y’ e ‘w’. Temos visto que alguns estudiosos e autores de livros estão misturando esses níveis de análise.

Antes de se adotar um manual de alfabetização, seria interessante que a coordenação pedagógica das escolas, juntamente com os professores da área de Comunicação e Expressão, fizessem uma boa análise do capítulo em que são utilizados conceitos de Fonética, pois tudo o que se ensina no início da alfabetização exercerá influência sobre todo o processo da aprendizagem.

Assim, fica claro que, na nossa língua, continuamos tendo sete vogais orais [a, e, E, i, , o, u], que elas podem ser nasalizadas (com ou sem o uso de diacrítico próprio (~) na escrita) e que também ocorrem semiconsoantes13 ([j] e [w]) quando, na escrita, aparecerem duas letras na mesma sílaba, o que resulta, na fala, em ditongos que são formados de uma vogal (ápice silábico) e uma semiconsoante, devido à estrutura do português, ou em tritongos, como já explicamos no item três deste artigo.

Para toda essa diversidade, a escrita conta hoje com poucas letras e outros símbolos (diacríticos). Veja o que usamos:

a. a, e, i, o, u, y e w para representar as vogais e as semiconsoantes, conforme o caso;

b. os diacríticos (^, ´, ~) para indicar certas modificações nos sons dessas vogais e semiconsoantes, mas apenas em alguns casos previstos na ortografia, já que o uso de diacríticos é próprio da ortografia e

c. letras como “m” e “n” para indicar nasalizações em alguns casos previstos na ortografia, como em ‘antes’ [.tes] e ‘ambas’ [È.bas].

Ou seja: como se trata de um sistema ortográfico, cumpre saber, caso a caso, como a palavra será representada, sem qualquer garantia de pronúncia idêntica por parte dos falantes.

Referências

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. 5ª ed., Rio de Janeiro: Global Editora. 2009.

CAGLIARI, L. C. Análise fonológica. Introdução à teoria e à prática com especial destaque para o modelo fonêmico. Campinas: Edição do Autor. Série Linguística Vol.1. 1997.

FERRAREzI JR., Celso. Discutindo Linguagem com Professores de Português. São Paulo: Terceira Margem, 2000.

FERRAREzI JR., Celso. Ensinar o Brasileiro: Respostas a 50 perguntas de professores de língua materna. São Paulo: Parábola, 2008.

FERRAREZI JR., Celso e TELES, Iara Maria. Gramática do Brasileiro. São Paulo: Editora Globo, 2006.

PASSOS, Célia e SILVA, Zeneide, Língua Portuguesa – 1º ano Ensino fundamental, 2.ed.. São Paulo: IBEP, 2010.

Anexo

Relação letra, som, fonema, representação grafemática e exemplos

Figure 2.

Figure 3.

Figure 4.

Figure 5.