Resumo

Aplicamos dois modelos sintáticos para a alternância causativa, quais sejam, a Sintaxe Lexical, de Hale & Keyser (2002) e a Morfologia Distribuída, representada por vários autores, ao estudo de duas línguas brasileiras, Dâw, uma língua indígena brasileira da família Nadahup, e o português brasileiro. Com base nas ferramentas analíticas oferecidas por esses modelos, argumentamos que a variação da alternância causativa nas línguas se dá por dois motivos: (a) a disponibilidade de um tipo de raiz em uma dada língua; (b) variação de núcleos funcionais. Teoricamente, almejamos comprovar que abordagens sintáticas são mais vantajosas por lidarem com primitivos da construção da palavra e da sentença e, assim, capturarem pontos contrastantes em duas ou mais línguas que são o lócus de comportamentos contrastantes com relação a um fenômeno.

Introdução1 2

Neste trabalho, examinamos a alternância causativa à luz de dois modelos construcionistas3, a saber, a Sintaxe Lexical e a Morfologia Distribuída. O primeiro modelo é aplicado com mais minúcias ao exame da língua Dâw e o segundo ao português brasileiro (doravante PB)4.

A alternância causativa pode ser definida como a possibilidade de um verbo figurar em duas sentenças diferentes, uma transitiva e outra intransitiva, as quais têm em comum a mudança de estado do argumento interno. Observe os exemplos da alternância causativa5 com o verbo quebrar no português brasileiro no inglês e na língua Dâw (família Nadahup):

Figure 1.

Esses exemplos evidenciam alguma uniformidade do fenômeno em tela em línguas pertencentes a famílias linguísticas distintas. Isso sugere que a alternância causativa tem uma relativa independência das características de cada língua. O estudo de HASPELMATH (1993) sobre esse tipo de alternância corrobora essa hipótese. Nele, o autor observa a alternância de 31 verbos em 21 línguas e estabelece uma classificação para elas. Abaixo, encontra-se a tabela com os dados de alternância do verbo quebrar nessas 21 línguas, codificada com as siglas (A), (S), (L), (E), (C) que indicam, na terminologia do autor, a direção da alternância. Por exemplo, quando a inacusativa é marcada morfologicamente, ela é derivada da causativa, nesse caso, a alternância seria anticausativa (A). Quando a causativa é marcada morfologicamente, ela é tida como derivada da sentença inacusativa. Nesse caso, a alternância é causativa (C). As alternâncias lábil (L), supletiva (S) e equipolente (E) seriam não- direcionadas, uma vez que não há marcas morfológicas na alternância lábil (veja, por exemplo, o dado do inglês) e as raízes verbais são diferentes na alternância supletiva (há vários exemplos para morrer/ matar abaixo). Por fim, na alternância equipolente, os dois membros da alternância têm morfologia característica (georgiano, entre outras línguas no quadro abaixo). Seguindo essa perspectiva icônica para a alternância - isto é, o par da alternância que tem mais morfologia é derivado de um mais básico -, essas alternâncias não-direcionadas se caracterizariam pela independência de formação dos dois membros da alternância.

Table 1.

TABELA 1: Dados de alternância do verbo quebrar em 21 línguas segundo Haspelmath (1993)

Língua formas do verbo quebrar nas línguas forma do(s) verbos morrer/matar
Árabe in-kasara/kasara (A) maata/qatala (S)
Armênio Ǯard-v-el/Ǯard-el(A) spa-n-el/mer-n-el (S)
Inglês break/break (L) die/kill (S)
Finlandês murt-ua/murtaa (A) kuolla/tappaa (S)
Francês se briser/briser (A) mourur/tuer (S)
Georgiano i-mt’vreva/a-mt’vrevs (E) mo-k’vdeba/mo-k’lavs (S)
Alemão zerbrechen (L) sterben/töten (S)
Grego moderno 1) spázo (L) 2) tsakísome/tsakízo (A) pethéno/skotóno (S)
Hebraico ni-šbar/šavar (A) mat/he-mit (C)
Hindi-Urdu tuut-naa/tor-naa (E) mar-naa/maar-naa (A)
Húngaro össze-tör-ik/ *ossze-tör (A) meg-hal/meg-öl (S)
Indonésio patah/me-matah-kan (C) mati/me-mati-kan (C)
Japonês or-e-ru/or-u; war-e-ru/war-u (A) sin-u/koros-u (S)
Lezguiano xu-n (L) q’i-n (L)
Lituano lüz-ti/lauz-ti (E) užmuš-ti/mir-ti (S)
Mongolês xuga-r-ax-/xuga-l-ax; xemx-r-ex/xemx-l-ex (E) üx-ex/al-ax (S)
Romeno se rupe/rupe (A) muri/ucide (S)
Russo lomat’-sja/lomat’ (A) umeret’/ubit’ (S)
Swahili vunj-ik-a/vunj-a (A) fa/ua (S)
Turco kir-il-mak/kir-mak (A) öl-mek/öl-dür-mek (C)
Udmurt (?) tija-sky-ny/tija-ny (A) kuly-ny/viv-ny (S)
Legenda : A = alternância anticausativa; C =alternância causativa; E = alternância equipolente; L =alternância lábil; S =alternância supletiva.

Vimos que, em todas as línguas pesquisadas por HASPELMATH (op.cit.), o verbo quebrar alterna, corroborando a ideia de que a alternância causativa parece ser um fenômeno estável através das línguas. A variação de classificação que observamos está relacionada com os expedientes morfológicos disponíveis para as línguas, algo bastante relevante para a alternância, conforme se verá na seção 4 de análise.

Entretanto, quando nos atentamos para dados de alternância com os verbos morrer/matar, há maior variação. Na maioria das línguas, a alternância encontrada com esses verbos é a supletiva. Nesse tipo de alternância, como falamos, a raiz verbal não é a mesma, portanto não há derivação, no sentido estrito. Desse modo, esse conjunto diverge da uniformidade que encontramos para as alternâncias com quebrar. Por que isso acontece? Para verbos como matar e morrer, acreditamos que uma explicação plausível seria tão somente opções idiossincráticas das línguas, ou seja, a possibilidade de morrer e matar alternarem ocorre se a língua engloba essas duas codificações distintas de eventos em um só signo. Se forem signos diferentes em uma mesma língua, é muito provável que morrer e matar não sejam tidos como verbos alternantes.

Não obstante, não acreditamos que todos os casos de variação de alternância em uma perspectiva translinguística estejam ligados a idiossincrasias. É exatamente o que a comparação da língua Dâw com o PB intenta mostrar. Na exposição a seguir, defendemos que as variações de alternância estão ligadas a dois fatores: i) ao número de raízes e núcleos funcionais, que realizam expedientes morfológicos, da língua; ii) à compatibilidade entre os núcleos funcionais disponíveis e as raízes.

Para exemplificar a importância desses dois fatores, tomemos uma língua hipotética X. Se essa língua hipotética não possui expedientes morfológicos que restrinjam as alternâncias da língua, espera-se que mais verbos alternem em comparação com uma língua que tenha o mesmo inventário de raízes e um ou mais expedientes morfológicos para alternância causativa que imponham restrições ao licenciamento de raízes. Isto é ilustrado abaixo.

Figure 2.

FIGURA 1: Licenciamento de raízes em uma língua hipotética X

Figure 3.

FIGURA 2: Licenciamento de raízes em uma língua hipotética Y

Em suma, é o balanço entre essas duas entidades – raízes e expedientes morfológicos - que determinará a maior ou menor possibilidade de alternância. Neste artigo, defendemos essa ideia com base no exame dessas duas línguas brasileiras.

Este artigo está organizado da seguinte maneira: na seção 1, apresentamos brevemente algumas abordagens sintáticas que analisam a estrutura argumental e as alternâncias causativas. Mostramos que as abordagens sintáticas são mais vantajosas em relação às abordagens lexicais por lidarem com primitivos teóricos possíveis de serem checados nas línguas de modo geral, chegando, assim, a uma generalização teoricamente mais abrangente; na seção 2, apresentaremos os dados acerca da alternância causativa na língua Dâw e no PB; na seção 3, esboçamos uma análise comparativa entre a alternância discutida acerca das duas línguas supracitadas; na seção 4, apresentamos uma síntese do trabalho e algumas considerações finais sobre a questão discutida.

1 Abordagens sintáticas para a estrutura argumental

1.1 Por que abordagens sintáticas?

Um dos grandes trabalhos motivadores para o estudo das alternâncias verbais é o estudo de LEVIN (1993), em que foram discriminados vários tipos de alternância, com base em um grande inventário de verbos do inglês. Esse trabalho está entre os muitos6 que instauraram a tradição de se estudar a estrutura argumental com base em propriedades verbais que projetariam a estrutura sintática a partir da estrutura argumental ‘cunhada’ nos verbos. Atualmente, mesmo que as propostas lexicalistas tenham se diversificado bastante (RAMCHAND, 2008), ainda há bastante peso em uma estrutura argumental da raiz nessas abordagens, como se vê em RAPPAPORT-HOVAV & LEVIN (2012). As autoras postulam duas condições que visam descrever as possibilidades de alternância dos verbos. São elas:

--> Condição de causação direta: um único argumento que acompanha a raiz pode ser expresso em uma sentença com um verbo transitivo se o sujeito representa a causa direta da eventualidade expressa pelo verbo e seu argumento. (RAPPAPORT-HOVAV &LEVIN, 2012:15, nossa tradução)7.

--> Condição de continência apropriada: Quando a mudança de estado é apropriadamente contida dentro de um ato causador, o argumento representando esse ato deve ser expresso na mesma sentença que o verbo descrevendo a mudança de estado. (RAPPAPORT-HOVAV& LEVIN, 2012:16).

Se essas causas se aplicam translinguisticamente, seria esperado que verbos em Dâw como rõ ‘queimar’ e beg ‘clarear’ alternassem, já que na contraparte transitiva desses verbos em português, por exemplo, o sujeito pode representar a causa direta da mudança de estado. Observe os exemplos abaixo que corroboram essa ideia:

Figure 4.

Os exemplos em (4) e (5) deixam claro que esses verbos atendem à condição de causação direta em PB; em Dâw, todavia, os mesmos verbos só são causativizados com a inserção de um auxiliar causativo específico, dôo.

Tendo em vista os dados com os quais trabalhamos, acreditamos que explicações que decomponham mais o sentido dos elementos formadores das sentenças sejam mais interessantes. Essas explicações formam as abordagens sintáticas e sintático-lexicais (também chamadas de construcionistas) para a explicação do comportamento dos verbos em alternância. Nessas abordagens, não se ignora um fato empírico como o aludido na citação de RAPPAPORT-HOVAV & LEVIN (op.cit) de que alguns verbos, obrigatoriamente, aparecerão em sentenças transitivas e com causas como argumento externo. Entretanto, se o argumento externo é o último estágio de formação de um verbo deve haver algum ingrediente semântico ou sintático que licencie a concatenação de uma causa, então a causa, como argumento externo, não é um primitivo, mas um produto de uma configuração sintática e sua interpretação semântica.

Tendo em vista, então, a atenção aos blocos formadores do verbo e de suas estruturas sintáticas compatíveis, acreditamos que essas abordagens são as mais compatíveis para a pergunta que dá título a este texto. Passamos a apresentar as abordagens de que fazemos uso, quais sejam, HALE & KEYSER (2002), na seção 1.2, e a Morfologia Distribuída (doravante, MD), na seção 1.3.

1.2 Breve apresentação da teoria de hALE & KEySER (2002)

Para HALE & KEYSER (2002), a estrutura argumental é a configuração sintática projetada por um item lexical. Ela é determinada pelas configurações sintáticas geradas pela relação entre núcleo (item lexical) e argumento(s). A estrutura argumental dos verbos é formada, basicamente, por quatro tipos de estrutura:

--> Monádica: o núcleo projeta apenas um complemento e nenhum especificador.

--> Diádica básica: o núcleo projeta um complemento e um especificador.

--> Diádica composta: o núcleo projeta apenas um especificador e não um complemento. Este último argumento é gerado somente por composição com outro núcleo.

--> Atômica: o núcleo não projeta nem complemento, nem especificador.

Passemos à exposição e motivação das estruturas na ordem em que foram elencadas acima.

A estrutura monádica é formada por dois elementos: uma raiz (R) e um núcleo verbal (V).

Figure 5.

(8)

O núcleo verbal possui apenas um complemento (a raiz) e não projeta um especificador. A natureza dessa raiz, na maior parte dos casos, é um nome (NP), que não projeta nem especificador, nem complemento. Verbos denominais, como cough ‘tossir’ e dance ‘dançar’, são exemplos de verbos com esse tipo de estrutura. Em um primeiro momento, cough é gerado como um nome, na posição de raiz. O núcleo verbal, nesses casos, está vazio. Para se tornar um verbo, a matriz fonológica do nome passa para a posição estrutural de núcleo verbal por meio de um processo chamado de conflation.

--> Conflation: processo no qual a matriz fonológica do complemento do núcleo é introduzida na matriz fonológica vazia do núcleo que seleciona o complemento.

(HALE & KEYSER, 2002: 13)

Desse modo, depois de transferir a matriz fonológica do complemento nominal para o núcleo verbal, gera-se um verbo sintético que não projeta um especificador. Verbos inergativos e transitivos com esse tipo de estrutura são comumente encontrados nas línguas do mundo. Uma característica importante desses tipos de verbos é a impossibilidade de sofrerem a alternância causativa, como se vê abaixo:

Figure 6.

A alternância apresentada acima é do tipo causativo-inacusativa, na qual o sujeito do par intransitivo passa a ser objeto na sentença transitivada. Verbos intransitivos com estrutura monádica não podem ser transitivizados automaticamente, pois verbos desse tipo não projetam argumentos internos. Portanto, esses verbos não participam dessa alternância, o que explica a agramaticalidade de (9a) e (9b).

O segundo tipo de formação verbal elencado é a estrutura diádica básica. Abaixo, observamos sua estrutura:

Figure 7.

(10)

Nessa estrutura, a preposição é o núcleo que projeta dois argumentos: um especificador (DP) e um complemento (DP). A preposição especifica uma relação (que pode ser espacial, temporal, entre outras) entre duas entidades ou eventos. Isso define, para os autores, o caráter predicador da preposição, que, sendo núcleo, requer tanto especificador quanto complemento, diferentemente de nomes (que não requerem nenhum argumento) e adjetivos (que requerem apenas um argumento, o especificador).

Para a formação do predicado verbal, é necessário que a estrutura diádica básica seja encaixada a uma estrutura monádica, que a toma como complemento, como é observado em (11).

Figure 8.

(11)

Por fim, A estrutura diádica composta possui a seguinte estrutura:

Figure 9.

(12)

Verbos com esse tipo estrutural possuem um especificador interno que é exigido semanticamente pela raiz (complemento do núcleo verbal8, isto é, V na estrutura) e é projetado pelo núcleo verbal. Na sintaxe, esse especificador sobe para o Spec de IP para receber caso e configura-se como o sujeito, se a sentença for inacusativa. Verbos desse tipo podem sofrer alternância causativo-incoativa por meio de um processo de transitivização simples, ou automática.

O núcleo V tem como complemento uma raiz de natureza adjetival, que possui propriedades predicadoras e requer semanticamente um especificador, justamente pelo fato de ter características adjetivais. Compare o comportamento contrastante de, por um lado, amarelo e bonito, que precisam modificar um nome (casaco amarelo e homem bonito) e nomes como pulo e estudo que fazem sentido por si só.

Assim, na estrutura diádica composta, a raiz adjetival, por meio de conflation, passa a ocupar a posição de núcleo verbal V (fonologicamente nulo e que recebe a matriz fonológica do adjetivo) tornando-se um verbo. Esse núcleo verbal projeta uma estrutura que recebe o especificador projetado pela raiz da estrutura. Desse modo, é o complemento (i.e., raiz adjetiva) que tem a propriedade de requerer um especificador. Essa estrutura é chamada de composta, pois a projeção do especificador interno depende de dois núcleos, a raiz, que o requer semanticamente, e núcleo verbal, que fornece uma estrutura para a projeção desse especificador.

1.3 Estrutura argumental em MD

1.3.1 A Morfologia Distribuída

A Morfologia Distribuída (doravante, MD) é um dos desenvolvimentos da Gramática Gerativa e oferece uma proposta alternativa para o modelo de arquitetura da gramática assumido por essa corrente teórica. Seu grande diferencial é não tratar o léxico como um componente de idiossincrasias e de elementos indivisíveis.

Na MD, não existe um componente lexical que alimenta a sintaxe. Em vez do léxico, existem três listas que têm as informações antes atribuídas ao componente lexical da gramática. Não há diferença entre a formação de palavras ou de sentenças, já que são necessárias as mesmas operações para a produção desses dois tipos de estruturas: move e merge. Portanto, este é um modelo que se mostra pertinente na exploração de questões morfossintáticas, como é o caso do objeto de estudo deste trabalho. Com o esquema do modelo de gramática da MD apresentado abaixo, presente em Silva (2010), podemos explicar melhor suas propriedades:

Figure 10.

FIGURA 3: Arquitetura da Gramática na Morfologia Distribuída

No modelo proposto pela MD9, há três listas. A Lista 1, que contém traços gramaticais abstratos universais, além de raízes. A Lista 2 contém os expoentes fonológicos para as raízes que, uma vez manipuladas pela sintaxe, transformam-se em palavras, e morfemas funcionais abstratos, além de regras para sua inserção. A Lista 3, por fim, chamada de Enciclopédia, lista os significados especiais. Por exemplo, na sentença João é um gato, a interpretação de que João é uma pessoa bonita e não um tipo de animal felino é dada pela Lista 3.

O módulo morfológico, presente após a derivação sintática, é o responsável por uma série de ajustes morfêmicos. Isso, argumentam HALLE E MARANTz (1993), é o fator responsável para que não haja isomorfia entre sintaxe e fonologia, já que, nesse módulo da gramática, traços podem ser apagados (empobrecimento), concatenados (merge), fundidos (fusão) ou separados (fissão). Algumas máximas importantes para esse modelo de gramática são:

--> As raízes são acategoriais. Assim, a partir de uma mesma raiz,

como estud-, por exemplo, pode-se formar, por sua concatenação com um morfema categorial n, o nome estudante ou, por sua concatenação com um morfema categorial a, o adjetivo estudioso ou, ainda, por concatenação dessa raiz com o morfema categorial v o verbo estudar. Como as palavras podem mudar de classe de acordo com o contexto sintático, postular raízes acategoriais que são concatenadas com um morfema funcional durante a derivação é uma das vantagens da MD.

--> Não são necessárias regras de ligação entre o léxico e a sintaxe, uma vez que, na teoria, o único componente gerativo é a sintaxe e as palavras são formadas pelos mesmos processos que sentenças. Palavras, assim como sentenças, são constituídas por morfemas lexicais e funcionais. Nesse modelo, estrutura argumental não é um produto do léxico e todas as alternâncias são tratadas como produtos de concatenação sintática.

--> Estrutura sintática hierárquica em toda a derivação: para a MD, os mesmos processos que ocorrem para a formação de sentenças são aplicáveis na formação de palavras.

1.3.2   Estrutura argumental na MD

As abordagens para a estrutura argumental em MD são um tanto dispersas e há várias correntes que não necessariamente se excluem. Todas partilham a ideia de que há raízes acategoriais, como exposto na seção 1.3.1.

Com SCHER, MEDEIROS & MINUSSI (2010) e MARANTz (2013), assumimos que as raízes são licenciadas em estruturas sintáticas. Há, pelo menos, duas posições em que elas podem ocorrer: elas podem se concatenar diretamente ao v (vezinho), funcionando como uma espécie de advérbio de modo e raízes que se concatenam mais abaixo à estrutura e, quando categorizadas, podem expressar resultado da ação do verbo (incluem-se nessa última categoria muitas raízes que, quando categorizadas, participarão da alternância causativo-incoativa).

Figure 11.

Nesse paradigma teórico, o significado de uma dada estrutura é dado por três fatores:

--> Voice, a projeção funcional que introduz o argumento externo (KRATzER (1994));

--> vP, que introduz a eventualidade;

--> Raízes, que podem ser de vários tipos.

Esses três ingredientes, em suas mais diferentes combinações, devem refletir a variedade de codificação de eventos que há nas línguas do mundo. Para dar um exemplo útil à argumentação que será feita para o PB abaixo, ALEXIADOU, ANAGNOSTOPOLOU & SCHAEFER (2006) propõem que a estrutura de sentenças inacusativas alternantes pode ser de dois modos10:

Figure 12.

(13) Inacusativos com VoiceP:

Figure 13.

(14) Inacusativos sem VoiceP:

O primeiro tipo é o encontrado em línguas com morfologia nas inacusativas. Essa morfologia não é considerada pelos autores como marca de um núcleo funcional (ver discussão sobre isso na seção 3). Nessas línguas, a morfologia que é concatenada em VoiceP é categorizada sintaticamente, porque ocupa uma posição sintática dedicada, mas não semanticamente, já que essas formas não recebem papel temático porque não são interpretadas como entidades no mundo. O segundo tipo de inacusativos é aquele presente em línguas como o inglês, na qual as sentenças inacusativas não têm morfologia.

A existência ou não de morfologia em inacusativas e a relação desse fenômeno morfológico com os verbos que alternam ou não em uma dada língua pode ser bem tratado nesse paradigma, visto que esses três elementos são tomados como os formadores do significado verbal e podem sofrer variações nas línguas.

2 Alternância causativa nas línguas em análise

Feita a introdução dessas teorias, passemos a explorar a alternância causativa nas duas línguas em análise.

Cada uma das abordagens sintáticas tratadas neste artigo fará uso dos seguintes instrumentos para derivar a alternância causativa:

--> HALE & KEYSER (2002): raízes, com propriedade adjetival11,

que predicam um argumento interno e conflation12;

--> MD: compatibilidade entre raízes e estrutura sintática. Se compatíveis, as raízes são licenciadas em determinadas estruturas. Ainda, as estruturas podem variar de língua para língua em virtude dos expedientes morfológicos das línguas.

2.1 Alternância causativa em Dâw

A língua Dâw é falada por uma tribo de nome homônimo que vive na comunidade Waruá, no estado do Amazonas. Segundo MARTINS (2004), primeira pesquisadora a estudar a língua e autora da primeira gramática Dâw, essa língua se apresenta, tipologicamente, como isolante- analítica com poucos processos de sufixação e nenhum de prefixação; além disso, seu léxico é predominantemente monossilábico.

Ainda de acordo com MARTINS (2004), a alternância causativa teria reflexos nas mudanças tonais dos predicados verbais intransitivos. De acordo com a autora, verbos intransitivos são transitivizados por um morfema tonal descendente (HL)13. Para a autora, esse processo também estaria condicionado a restrições fonotáticas específicas da língua, como ensurdecimento da coda silábica, entre outros14.

Fruto de um trabalho de campo realizado em julho de 2013 junto à comunidade Dâw os trabalhos de AUTOR-B (2014a) e AUTOR-B E OUTROS (manuscrito) analisaram a alternância causativa e seus reflexos nas mudanças tonais de 21 verbos intransitivos, a saber: rôd – sair, ‘ãa – dormir, çeeb – mudar, ‘ʉb – acordar, beg – clarear, rõ – queimar, pêg-saak – crescer , çom – banhar, win – trabalhar , nõx - cair , kog’õogn – desmaiar, baax – aparecer, kʉ̃m – afundar , pôw’ – boiar, wʉʉd ‘chegar’, baad ‘virar’, ‘eed ‘virar’, bâar ‘derramar’, xop ‘secar’, ‘abrir’.

A análise dos dados coletados evidenciou que o sistema tonal em Dâw é previsível na sentença, ou seja, o tom não está ligado a um tipo específico de sentença. Logo, não pode ser tomado como evidência da alternância de verbos. Desse modo, em linhas gerais, no nível fonológico, os itens lexicais que compõem as sentenças são divididos em frases fonológicas que são formadas por segmentos tonais previsíveis, isto é: (L H) e (L L H). Esses padrões são formas default e podem sofrer variações de contorno tonal.

Diante dessas descobertas, AUTOR-B (2014a) reavalia o processo de transitivização em Dâw e afirma que esse processo não condiciona mudança tonal dos verbos intransitivos, contrariando, desse modo, a hipótese de MARTINS (2004).

Abaixo, apresentamos um exemplo de alternância causativa em Dâw no qual mostramos que os verbos da construção inacusativa (15a), e da construção causativa (15b) possuem o mesmo padrão tonal.

Figure 14.

Desse modo, AUTOR-B (2014a) assume que a alternância causativa apresentada acima é do tipo lábil. A mesma forma verbal é usada tanto na construção causativa quanto na construção inacusativa, sem o acréscimo de morfologia, o tipo (L) em HASPELMATH (op.cit.).

A alternância acima exemplificada foi testada com 21 verbos intransitivos. Apenas 7 deles alternaram entre uma forma inacusativa e causativa. Eles são: pêt ‘quebrar’, wʉʉd ‘chegar’, baad ‘virar’,‘eed ‘virar’, bâar ‘derramar’, xop ‘secar’, ‘abrir’. Os outros 14 verbos intransitivos testados não alternaram livremente entre as formas inacusativa e causativa como foi observado com os 7 verbos supracitados. A causativização desses verbos pode ocorrer somente por meio da inserção de um auxiliar causativizador do tipo fazer em PB que em Dâw realiza-se como dôo. Na sintaxe, esse causativizador é concatenado acima do verbo substantivo da sentença. Neste trabalho, vamos nos deter apenas na alternância do tipo lábil.

A escolha dos predicados verbais testados teve como objetivo a seleção de verbos que de acordo com a literatura (HALE & KEYSER 2002, HASPELMATH op.cit, entre outros) são prototipicamente alternantes (mudar, clarear, queimar, aparecer, afundar, boiar, virar, derramar, secar e abrir) e não-alternantes (sair, dormir, acordar, crescer, banhar, trabalhar, cair, desmaiar). O último grupo configurou-se como um grupo de controle, pois, por mais que nas línguas, de modo geral, esses predicados não alternam livremente entre uma forma intransitiva e causativa, testamo-los na língua Dâw de forma a constatar se essa língua em questão também segue o mesmo padrão de outras línguas já estudadas no que se refere à alternância desses predicados especificamente.

Dessa forma, AUTOR-B (2014a) identifica duas subclasses de verbos intransitivos em Dâw:

--> Subclasse dos verbos alternantes: 33% dos verbos elicitados: wʉʉd chegar, baad ‘virar’,‘eed ‘virar’, bâar ‘derramar’, pêt ‘quebrar’, xop ‘secar’ e ‘abrir’. Esses verbos alternaram entre a forma intransitiva e causativa sem morfologia específica que marque aumento de valência ou sem a inserção de um causativizador acima do VP. A semântica desses verbos é de mudança de estado no caso de verbos como pêt ‘quebrar’ e ‘xop ‘secar’, e de mudança de lugar no caso de verbos como wʉʉd ‘mudar’ e baad e ‘eed ‘virar’.

--> Subclasse dos verbos não-alternantes: 66% dos verbos elicitados: rôd ‘sair’, ‘ãa ‘dormir’, çeeb ‘mudar’, ‘ʉb ‘acordar’, beg ‘clarear’, rõ ‘queimar’, pêg-saak ‘crescer’, çom ‘banhar’, win ‘trabalhar’, nõx ‘cair’, kog’õogn ‘desmaiar’, baax ‘aparecer’, kʉ̃m ‘afundar’, pôw’ ‘boiar’. Esses verbos foram causativizados apenas por meio da inserção do causativizador dôo.15

2.1.1 A subclasse dos verbos alternantes

Segundo AUTOR-B (2014a), cada uma das subclasses de verbos intransitivos apresentada caracteriza-se por um tipo específico de estrutura argumental que lhes capacita, ou não, a alternar entre uma forma intransitiva e causativa sem a inserção de um causativizador ou um morfema de aumento de valência.

Como vimos na seção 1.2, para HALE & KEYSER (2002), verbos alternantes possuem estrutura diádica composta, formada por núcleo, raiz (complemento do núcleo) e especificador interno (sujeito do verbo na sentença intransitiva e objeto na sentença causativa). Os verbos intransitivos alternantes em Dâw estão configurados em uma estrutura como essa. Assim, na construção inacusativa, o sujeito do verbo é o especificador interno do predicado. Esse predicado é formado por meio de conflation entre raiz e núcleo verbal. Na construção causativa (formada pela concatenação de duas estruturas: a diádica composta e a monádica, que está acima daquela), a matriz fonológica do verbo é movida para o núcleo da estrutura monádica. O especificador interno da estrutura diádica composta permanece in situ, ocupando a posição de objeto da sentença.

Abaixo, as estruturas inacusativa e causativa dos verbos em Dâw propostas por AUTOR-B (2014a) são apresentadas e ilustram a alternância com o verbo xop (secar).

• Alternância causativo-incoativa

Figure 15.

• Estrutura intransitiva

Figure 16.

• Estrutura transitiva

Figure 17.

O sujeito da sentença transitiva, ou seja, o argumento externo tir ‘ele’, é gerado apenas na sintaxe, não na estrutura argumental. Para os autores, o sujeito é estruturalmente um adjunto do VP.

2.2 Alternância causativa no português brasileiro

O PB, assim como as demais línguas românicas e muitas outras do Tronco Indo-Europeu, pode apresentar uma morfologia específica nas sentenças inacusativas. O exemplo (1), acima, retomado, poderia se manifestar da seguinte forma na língua em tela:

(27) O João quebrou o prato. O prato se quebrou.

Para muitos autores (BURzIO, 1986; LEVIN &RAPAPPORT, 1995; CHIERCHIA, 2004), tal distribuição é um marcador de valência, que indica, por exemplo, a ordem da derivação. Os três autores acima tomam a sentença causativa como básica e a inacusativa como contraparte derivada. Há uma série de testes que podem mostrar que esse não é o caso. Se essa morfologia das anticausativas for simplesmente um afixo sintático, não se espera que ela tenha efeitos de interpretação, o que os dados abaixo sugerem ser o caso.

(28) #A porta se abriu, mas não está completamente aberta.

A porta abriu, mas não está completamente aberta.

(29) A porta fechou rápido.

#A porta se fechou rápido

(NEGRÃO & VIOTTI, 2008)

Outro argumento para que essa morfologia não seja vista como fruto de uma redução lexical é o fato de que ela não está disponível para todos os verbos alternantes. Verbos alternantes como aumentar e afundar, por exemplo, não aparecem com essa morfologia quando alternam nem os deadjetivais, que são tidos por alguns trabalhos como os verbos alternantes por excelência.

(30) O navio (*se) afundou16.

(31) O número de senadores (*se) aumentou.

(32) A banana (*se) amarelou17.

Tanto essa incompatibilidade de alguns verbos alternantes ocorrerem com essa morfologia quanto a possibilidade de uma língua perder ou ganhar essas marcas colocam em xeque a crença de que essa morfologia é fruto da redução lexical. Essa argumentação também vale para propostas sintáticas de que a morfologia da inacusativa é a lexicalização de uma categoria funcional como VoiceP [-ativo] (ver, por exemplo, LABELLE &DORON, 2010)18. Os mesmos problemas – disponibilidade dessa morfologia com alguns verbos, e com outros não, e a possibilidade de essas marcas serem, diacronicamente, perdidas e adquiridas, ficam sem resposta19.

Uma questão que chama a atenção é o fato de marcas como essas estarem disponíveis em línguas que têm mais possibilidade de ter formas dependentes do verbo – afixos pronominais, afixos gramaticais e clíticos. Línguas que não têm essa capacidade não possuem, geralmente, morfologia na anticausativa. Essa correlação não se sustentaria, mais uma vez, em uma visão que veja essa morfologia como fruto de redução lexical ou como expoente de uma categoria funcional.

Levando essa argumentação em conta, seguimos aqui a proposta de SCHAEFER (2008) de que essa morfologia é um expletivo sintático.A estrutura para uma sentença como O prato se quebrou é a seguinte:

Figure 18.

(33)

O fato de essa categoria ser pobre em termos de traços-phi20 – isto é, ela ter menos traços-phi do que nos, a(s) e outros clíticos – demonstra que não há conteúdo suficiente para que ela seja interpretada como um constituinte passível de receber papel temático. Dito de outra forma: essa pouca especificação garante que ela não receba qualquer interpretação. Dessa forma, esse clítico é análogo a pronomes plenos expletivos como it e il, eminglês e francês respectivamente, que satisfazem tão somente um requerimento sintático, mas não têm participação na construção do evento.

A estrutura para verbos que apresentam essa morfologia nas anticausativas foi esboçada acima, com base no trabalho de SCHAEFER (2008). Naturalmente, as línguas que não têm essa morfologia não poderão ter a mesma estrutura. Essas línguas só terão até o nível vP nas anticausativas. Uma sentença como O prato quebrou terá, então, a seguinte estrutura:

Figure 19.

(34)

É de conhecimento geral que o PB tem perdido essa morfologia de inacusativas e seu padrão de alternância, que era (33) em sincronias anteriores, tem passado, gradualmente, a ser o de (34), ver discussão em (CHAGAS (2000) E RIBEIRO (2011), entre outros). Essa mudança no padrão de alternância sinaliza outra relação entre a raiz do verbo e os núcleos funcionais. Isso vai ser mais detalhado abaixo.

3 Comparando a alternância causativa em Dâw e PB

Com a análise aqui proposta, pretendemos mostrar que a alternância causativa é guiada por fatores sintáticos e sua variedade está ligada a fatores internos à língua. Por exemplo, se uma língua tem um núcleo funcional que impõe restrições aos membros da alternância causativa, menos verbos alternariam, porque menos seriam compatíveis com a estrutura da língua. Nas figuras (1) e (2), demos um exemplo abstrato sobre isso. Agora, vamos usar o PB para ilustrar esse caso. Veja um exemplo da alternância com um expediente morfológico que impõe restrições:

Figure 20.

(35)

Em um sistema em que esse núcleo funcional não é mais projetado, mais verbos podem fazer parte dessa alternância, desde que eles sejam compatíveis com a mudança de estado (ou afetação) compatível com vP21.

Figure 21.

(36)

Todavia, uma análise como essa para os dados do PB poderia entrar em choque com a análise dada para a língua Dâw. Acreditamos que esse não é o caso. Com essa mudança no sistema de anticausativas, o PB perdeu um núcleo funcional em anticausativas por ter perdido o item lexical que era concatenado a ele. Sendo o PB uma língua com grande quantidade de raízes compatíveis com uma estrutura de mudança de estado (cf. CANÇADO, GODOY & AMARAL, 2013 para um levantamento exaustivo de verbos), isso aumentou a alternância causativa.

O Dâw, por outro lado, não poderia ser o mesmo tipo de língua. Os resultados do trabalho feito em campo por AUTOR-B (2014a) levam a crer que a língua possui poucas raízes compatíveis com mudança de estado (daí resulta a pouca produtividade de alternância nessa língua) e poucas raízes, de um modo geral, compatíveis com conflation em algumas eventualidades, e a falta de alguns núcleos funcionais. Cada um desses dois tipos de situação será exemplificado abaixo.

3.1 Falta de alguns núcleos funcionais em Dâw: a inexistência de passivas

Para evidenciar o argumento que esboçamos no final da seção anterior, é interessante observar que a pouca produtividade de alternâncias não é restrita à alternância causativa. A formação de passivas na língua não é possível22. No lugar dessa construção sintática, dois tipos de sentenças foram produzidas na elicitação de dados23: uma sentença inacusativa

Figure 22.

(37b); ii) uma sentença com sujeito genérico (38b).

Figure 23.

Como sabemos, a formação de passivas depende de formas fracas ligadas ao verbo (particípio ou clíticos). Se a língua não dispõe dessas formas e, consequentemente, da projeção funcional em que essas formas são concatenadas, como PartP, por exemplo, a passiva não é uma eventualidade disponível.

3.2 Raízes incompatíveis com conflation

AUTOR-B (2014a) afirma que em Dâw não há uma classe de verbos deadjetivais derivada morfologicamente como vemos em línguas como o PB (curto (adjetivo), encurtar (verbo)) e uma escala menor no inglês (red (adjetivo), redden (verbo)), mas construções analíticas na qual o adjetivo não é verbalizado, mas é complemento da cópula rãm ‘ficar’. Dessa forma, em Dâw, os verbos intransitivos “deadjetivais” possuem uma semântica estativa e não alternam.

Figure 24.

(39)

A autora ainda afirma que a restrição de alternância deve-se à estrutura argumental desses tipos verbais. Desse modo, sequências formadas por um verbo auxiliar e um adjetivo são formadas por uma construção diádica composta, na qual o núcleo verbal é preenchido por uma cópula que toma como complemento um adjetivo. O núcleo não sofre conflation com seu complemento, pois esse processo só ocorre quando o núcleo verbal é vazio, ou afixal24, e recebe a matriz fonológica do seu complemento. Caso esse núcleo seja fonologicamente pleno, ou seja, possua uma matriz fonológica, não ocorre conflation, como é observado em Dâw.

A impossibilidade desses verbos alternarem é explicada, pois não há conflation do núcleo verbal e de seu complemento (o adjetivo), o que cancela a derivação do verbo. O que emerge dessa comparação está sumarizado no quadro abaixo.

Table 2.

TABELA 2: Síntese

Elemento PB Dâw
Raízes de mudança de estado ou afetação Muitas Poucas
Conflation com V Sim Em poucos casos
Morfologia em inacusativas Têm desaparecido Não

Os elementos explorados na tabela deixam claro que o PB não têm mecanismos que impediriam a alternância de ser tão produtiva, como foi descrito aqui. Como mencionado, essa língua possui muitas raízes de mudança de estado ou afetação, por outro lado, não há um verbo que impeça a operação conflation em estruturas diádicas compostas e a morfologia em inacusativas que, claramente, faz a seleção de alguns verbos com as quais pode se compor (o número de senadores (*se) aumentou)) é quase inexistente atualmente.

O Dâw também não possui morfologia em sentenças inacusativas, o que poderia nos levar a prever que a alternância seria bastante difundida nessa língua também. Todavia, esse elemento não favorece a alternância porque elementos mais baixos do que ele já são restritivos para a alternância. Há raízes que não fazem conflation com V, portanto não há alternância, vide o exemplo de verbos deadjetivais. Além disso o número de raízes elegível para entrar na alternância é pequeno, presumivelmente porque essas raízes não atendem ao requerimento semântico da construção inacusativa.

Conclusão

Neste artigo, mostramos que, apesar da aparente uniformidade da alternância causativa, os verbos que alternam em uma dada língua estão condicionados a propriedades das línguas, mais notadamente, a tipos de raízes e núcleos funcionais de que as línguas dispõem. Ilustramos isso com dois casos. O PB perdeu um núcleo funcional que restringia a alternância causativa – só verbos com causa e agente como argumento externo eram licenciados nessa estrutura - acarretando uma generalização de verbos alternantes. A língua Dâw parece ter comportamente oposto, ela apresenta raízes defectivas em alguns contextos e falta de núcleos funcionais defectivos que permitiram conflation.

Em um nível empírico, esse trabalho corrobora a ideia de que a alternância causativa e os fenômenos de estrutura argumental, de um modo geral, estão relacionados à configuração dos primitivos nas línguas.

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