Resumo

A circulação de notícias online, produto de uma sofisticada e heterogênea maquinaria midiática, impõe novas problemáticas para os estudos discursivos, em um momento em que as limitações de tempo e espaço são cada vez mais diluídas socialmente. Uma delas é o fio condutor deste artigo, que objetiva elencar reflexões sobre relatos de falas que compõem o gênero notícia online, provenientes de retomadas de sobreasseverações. Estas, de acordo com Maingueneau, referem-se ao destaque de trechos efetuado pelo próprio locutor do texto-fonte em seu discurso, geralmente sob forma de pequenas-frases. Para este artigo, selecionamos como corpus um debate político-televisivo do segundo turno das eleições de 2010 para presidência do Brasil, e notícias online que são construídas com recortes de falas dos atores envolvidos nos debates. Foi possível articular, no percurso de análise, o conceito de sobreasseveração com novas e antigas problemáticas, como a heterogeneidade constitutiva e a heterogeneidade mostrada, o silenciamento, a citação e as aforizações, todas constitutivas das sobreasseverações e indispensáveis para compreender o funcionamento das notícias online construídas sobre relatos de falas.

Considerações iniciais

Uma contínua retomada de dizeres é característica do funcionamento de grande número de notícias que atribuem uma fala a outrem. Compreender essas retomadas implica considerar uma sofisticada maquinaria midiático-discursiva em cujo funcionamento intervêm fatores e atores diversos, sistemicamente inter-relacionados e envolvidos na obtenção, triagem, interpretação e circulação das informações. Trata- se de um processo similar ao da cadeia detectada por Salgado (2011, p. 22), na chamada Lei do Livro, que trata da autoria, edição, distribuição, comercialização e difusão do livro. E, tal como aquela, “envolve coletivos complexos, etapas distintas de trabalho, uma diversidade de colaborações” (idem).

Produto dessa maquinaria, as notícias calcadas em relatos de fala fazem emergir antigas questões que se problematizam em torno de citações1, heterogeneidade constitutiva e mostrada, tópicos já há certo tempo abordados por diversos pesquisadores, dentre os quais destacamos Authier-Revuz (1982, 1990, 2004), que ancora seus estudos na concepção do duplo dialogismo bakhtiniano e na abordagem psicanalítica do sujeito. Essa maquinaria também faz emergir problemáticas não abordadas nas primeiras fases da Análise do discurso. Exemplo disso são as sobreasseverações, as cenas da enunciação, o ethos discursivo, as aforizações e as pequenas frases, conceitos desenvolvidos e articulados por dominique Maingueneau, nas três últimas décadas, com o objetivo de compor um corpo teórico que permita abordar o aparecimento e a circulação de uma grande diversidade de materiais linguísticos, dentre os quais destacamos a notícia online, objeto deste artigo.

Com o objetivo de observar o funcionamento da maquinaria discursiva que produz notícias online baseadas em relatos de fala, abordamos os enunciados destacados, focalizando as noções de sobreasseveração e aforização. Em um primeiro momento, aproximamos essas noções das de heterogeneidade constitutiva e mostrada, enfatizando as não-coincidências do dizer; em seguida, aproximamos citações e sobreasseverações da questão do silenciamento, que, ao lado da inclusão de informações, funciona como manobra discursiva da referida maquinaria midiática. Ao final, apresentamos nossas considerações finais.

1 Sobreasseverações e aforizações: o percurso das citações

Uma das temáticas recorrentes na obra recente de Maingueneau tem sido a questão da destacabilidade enunciativa de algumas frases, propiciada por algumas características formais da enunciação: “são curtas, bem estruturadas, de modo a impressionar, a serem facilmente memorizáveis e reutilizáveis”; são, além disso, “pronunciadas com o ethos enfático conveniente” e generalizações “que enunciam um sentido completo”. (2008, pp. 74-77). Para tratar convenientemente da destacabilidade e de suas interfaces, aí incluída a sobreasseveração, nosso interesse maior, necessitamos evocar os regimes enunciativos propostos por Maingueneau (2010, p. 13), apresentados no esquema abaixo:

Figure 1.

De acordo com a figura 1, são dois os regimes enunciativos: o aforizante e o textualizante. No regime aforizante inserem-se os enunciados naturalmente destacados (slogans, ditados e provérbios, por exemplo) e os enunciados retirados de textos e utilizados sob a forma de citação (os destacados de um texto). A enunciação aforizante caracteriza- se por pretender “exprimir o pensamento de seu locutor, aquém de qualquer jogo de linguagem: nem resposta, nem argumentação, nem narração, mas pensamento, dito, tese, proposição, afirmação soberana...” (MAINGUENEAU, 2010, p. 14). Sinteticamente, podemos afirmar que, enquanto resposta, a argumentação e a narração são casos de regime textualizante, as enunciações destacadas caracterizam-se como aforizações.

Há situações em que o próprio locutor do texto-fonte marca um trecho como destacável, seja com o auxílio de um conector, seja com uma reformulação (“dito de outra forma”, “em suma”), seja por meio de uma generalização ou por sua localização em final de texto ou de parágrafo. Temos nesses exemplos o que Maingueneau (2008, 2010) denomina sobreasseveração.

No procedimento de retomada de enunciados, o discurso direto é bastante empregado. Contudo, ele não é uma transcrição autêntica, mas consiste tão somente em uma simulação, em um diálogo construído a partir de um registro. Nesse processo de retomada de falas, pode acontecer de o lugar de sobreasseverador ser imputado ao locutor do texto-fonte, à sua revelia, conforme esclarece Maingueneau (2012), em uma obra ainda inédita no Brasil:

Como nada impede que se destaque de um texto uma sequência que não foi sobreasseverada, os locutores dos textos-fonte se encontram frequentemente como sobreasseveradores involuntários de enunciados que não proferiram como tal. Uma responsabilidade tanto mais problemática quando a análise mesmo superficial mostra que o enunciado destacado raramente é idêntico à sequência a que deveria corresponder no texto-fonte. (MAINGUENEAU, 2012, p. 19, tradução nossa2)

O fenômeno da citação que emerge desse processo de retomada das sobreasseverações já foi tratado, de maneiras variadas, por consagrados estudos que versam sobre discurso relatado, discurso direto, entre outros.

Por isso, com o intuito de dar algum tipo de contribuição, propomo-nos pensar a configuração discursiva da retomada da sobreasseveração, a partir dos desdobramentos da Análise do discurso (Ad), que concebem: a) a língua como constitutivamente opaca e polissêmica e não como transparente; b) os sujeitos como clivados, e não unos; c) os textos como marcados pela heterogeneidade e pela alteridade constitutivas de todos os dizeres; d) a interpretação como um trabalho, já que as palavras não têm sentidos unívocos.

2 A citação: um caso de heterogeneidade mostrada

Authier-Revuz (1982) fundamenta seu conceito de heterogeneidade discursiva nos estudos de Bakhtin sobre o dialogismo e na abordagem psicanalítica do sujeito. Para a autora, o discurso é heterogêneo uma vez que é “constitutivamente atravessado pelos ‘outros discursos’ e pelo ‘discurso do Outro’. O outro não é um objeto (exterior; do qual se fala) mas uma condição (constitutiva, pela qual se fala)” (AUTHIER- REVUZ, 1982, p. 140).

A heterogeneidade constitutiva deve-se ao fato de que o outro “é sempre onipresente e está em toda a parte” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 21). Nesse sentido, o discurso é sempre heterogêneo porque comporta, constitutivamente no seu interior, outros discursos. Graças à ilusão que o caracteriza, o sujeito discursivo julga-se fonte primeira de seu discurso. Ele tem a ilusão de que seu discurso é homogêneo, não identificando a presença do “discurso do Outro” e dos “outros discursos” na construção do “seu”. Embora a percepção da heterogeneidade constitutiva seja ignorada pelo sujeito, que não tem consciência dessa alteridade, há situações em que esta é percebida e dada a perceber.

Nesses casos, por meio de marcas da presença do outro no discurso, opera-se a separação entre o que o sujeito diz e o que o outro diz. Trata- se dos casos de heterogeneidade mostrada, que pode ser: i.) marcada, isto é, visível na materialidade linguística, como acontece com o uso das aspas nas notícias online, em que “o locutor dá lugar explicitamente ao discurso de um outro em seu próprio discurso” (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 12), instituindo, ao mesmo tempo, todo o restante do discurso como emanando dele próprio; ii.) não marcada, ou seja, não evidenciada na ordem do discurso, como nas situações de ironia e de discurso indireto livre.

Percebemos, dessa forma, que as situações em que o sujeito constata a presença do outro em seu discurso e, mais que isso, deseja dar a conhecê-la, como nos casos de heterogeneidade mostrada, servem para confirmar mais a ilusão de que todo o restante do discurso emana dele próprio. Em outras palavras, ao mostrar que a presença do outro está em um trecho, o locutor “afirma” que os lugares não mostrados lhe pertencem.

Uma das formas de mostrar (e marcar) a presença do outro em um discurso é atribuir a fala a outrem. Há notícias que são quase inteiramente construídas por relatos de fala. É o caso das notícias online que nos servem de corpus, que relatam o debate político eleitoral entre dilma Rousseff e José Serra, veiculado pela emissora BANd, no segundo turno das eleições de 2010. Esses relatos possuem características formais específicas, conforme se trate de discurso direto (provocando um efeito de teatralização de uma enunciação), ou de discurso indireto (com efeitos de interpretação).

No processo de seleção, recorte, produção e circulação da notícia, o discurso direto é um recurso bastante utilizado, uma vez que seu uso está relacionado a três necessidades da maquinaria midiática: i.) criar autenticidade, o efeito de sentido de que aquela é a exata transcrição da fala do outro; ii.) distanciar-se ou aproximar-se, na medida em que pode evidenciar uma aceitação ou recusa em relação ao dizer; iii.) mostrar- se objetivo, isento (MAINGUENEAU, 2011, p.142). Em decorrência disso, o aspeamento que acompanha o discurso direto

[...] nunca é neutro, mas implica uma tomada estratégica de posição face ao discurso relatado, resultante na aprovação do dito, na sua ridicularizarão ou na sua negação; [permite ao locutor que cita...] resguardar- se, protegendo de polêmicas porque ‘foi o outro quem disse’, [ou ...] expor-se a elas, pelo enquadramento do pronunciamento alheio numa sequência textual- argumentativa que lhe é sutil ou declaradamente divergente ou convergente. (BENITES, 2002, p. 61, inserção nossa)

Os três aspectos levantados por Maingueneau (2011) permitem-nos observar o recurso de utilização das aspas como manobra relacionada ao uso do discurso direto, que opera “um distanciamento muito variável entre o locutor citante o locutor citado” (BENITES, 2002, p. 57). O uso do discurso direto é uma maneira hábil de dizer o que se pensa sem necessariamente se responsabilizar pelo dizer. A utilização das aspas é a forma de inserção do discurso direto mais frequente na mídia e nas notícias online, mas o recorte de um discurso pode também ser marcado pelo uso de itálico e travessão.

3 A sobreasseveração em circulação: heterogeneidade constitutiva com ares de mostrada

Os conceitos de sobreasseveração e aforização, brevemente expostos anteriormente, começaram ser delineados por Maingueneau (2008) na obra “Cenas da Enunciação”, em um texto em que o autor parece estar construindo o raciocínio, elaborando a “teoria”. No último parágrafo do texto, ele chama a atenção para a distinção entre a lógica da sobreasseveração e a lógica da aforização:

Parece-nos preferível não confundir uma lógica de sobreasseveração - que faz aparecer uma sequência sobre um fundo textual - e uma lógica de aforização (para ser exato, um destaque aforizante), que implica um tipo de enunciação totalmente diferente, uma outra figura do enunciador e do coenunciador, do estatuto pragmático do enunciado. (MAINGUENEAU, 2008, p. 92, grifos do autor)

Segundo o autor, a sobreasseveração decorre do destacamento realizado pelo próprio locutor do texto-fonte, por meio de recursos coesivos, posicionais, sintetizadores ou reformuladores. dependendo de sua circulação, esse elemento destacável pode tornar-se, posteriormente, destacado, isto é, um trecho destacado pelo autor de determinado texto pode vir a se tornar um dito ou uma frase feita.

Tomemos um exemplo de nosso corpus. Em um debate com seu adversário, José Serra, ao responder uma pergunta sobre a descriminalização do aborto, a candidata Dilma Rousseff afirmou ao final de sua argumentação: “Entre prender e atender, eu fico com atender”. Como locutora do texto-fonte, a debatedora marcou esse trecho como destacável (por seu caráter generalizante e sintetizador de uma posição, e pela posição final no texto). Ao cunhar essa “pequena frase”, um enunciado de fácil circulação, ela antecipou um destacamento, e, assim, produziu uma sobreasseveração. A depender de suas condições de circulação, essa sobreasseveração poderia vir a passar de um enunciado destacável para destacado e transformar-se em uma palavra de ordem, um dito.

A circulação dessa sobreasseveração traz à tona outras questões discursivas: a) em um posicionamento (aqui entendido como sinônimo de formação discursiva) ligado aos direitos das mulheres, a sobreasseveradora Dilma (não o sujeito empírico) da frase “Entre prender e atender, eu fico com atender” apresenta-se como alguém favorável à vida. dessa forma, essa sobreasseveração pode ter como paráfrases: “Não se deve colocar em risco a vida da mulher”; “A mulher tem direito de optar entre ter filhos ou não e escolher o melhor momento para fazê-lo”; “O fato de o aborto ser considerado crime marginaliza a mulher, levando-a a praticar o ato sem as mínimas condições de higiene e sem assistência, o que resulta em morte”, etc.; b) em um posicionamento discursivo ligado ao campo religioso, a sobreasseveradora será vista como alguém que atenta contra a vida, pois serão evocadas questões de outro caráter, como: “Onde fica o direito à vida do bebê?”; “Quem é essa mulher desumana que não reconhece os direitos do feto, que ignora que a vida tem início na concepção?”.

Maingueneau (2008, p. 83) assevera que a sobreasseveração é “muito presente nas mídias contemporâneas”, e relaciona-a ao fenômeno das pequenas frases, que ele define como “enunciados curtos que, durante um curto período de tempo, vão ser intensamente retomados nos programas de informação”. Conforme o autor, não é possível definir se essas ‘pequenas frases’ são assim porque os locutores dos textos de origem as quiseram assim, isto é, destacáveis, destinadas à retomada pelas mídias, ou se são os jornalistas que as dizem dessa forma para legitimar seu dizer.

Sobre o processo de produção de uma notícia que relata falas incidem diversas ações empíricas que modificam e afastam o recorte de fala de sua fonte. Porém, na circulação discursiva das notícias, o sobreasseverador é posto assinando a fala que se destacou do texto. Essa imagem discursiva pode vir a ser assumida ou contestada, conforme o locutor-fonte concorde que ele seja aquele sobreasseverador ou afirme que não foi aquilo que falou. Trata-se, mais uma vez, de uma questão de circulação.

É bastante comum que a autonomização da sobreasseveração frente ao texto de origem promova “uma transformação do enunciado, ou de um ou de outro de seus parâmetros enunciativos, quando ele passa ao paratexto” (MAINGUENEAU, 2008, p. 83). Mesmo nos casos em que os enunciados “mantêm um elo com um texto de origem” (os chamados destacamentos fracos), não existe, necessariamente, fidelidade do texto relatado com o discurso de origem, o que confirma os resultados dos numerosos estudos sobre o discurso direto, que mostram seu caráter de simulação e a intervenção da máquina midiático-discursiva. Essas transformações devem-se ao posicionamento do veículo e consistem, muitas vezes, em manobras de eliminação de modulações, que reforçam “a autonomia e o caráter lapidar do enunciado”, possibilitando sua sobreasseveração (MAINGUENEAU, 2008, p. 86).

Essas manobras discursivas não podem ser atribuídas a um agente específico, uma vez que a produção da notícia é uma atividade conjunta. Trata-se de uma elaboração da maquinaria midiático-discursiva, grande organismo que envolve diferentes atores e processos, peças constitutivas de uma engrenagem, cada qual com uma finalidade específica na manutenção e propagação de práticas discursivas. dessa forma, a circulação da sobreasseveração constitui um caso de heterogeneidade constitutiva que se apresenta como heterogeneidade mostrada.

4 Sobreasseverações, citações e silenciamento

No funcionamento de sobreasseverações e citações, observamos que a maquinaria midiática, em suas práticas discursivas, realiza opções que ora envolvem o silenciamento de enunciados, ora submetem as sobreasseverações a manobras diversas, como inclusão, modificação, exclusão e/ou apagamento de partes do enunciado. Neste artigo, trataremos com mais vagar das manobras de apagamento e de inclusões justificadas pelas coerções da maquinaria e indiciadoras do posicionamento do veículo de comunicação.

Partimos do princípio de que o silêncio é fundador, ou seja, que o silêncio é aquele que “existe nas palavras, que significa o não-dito e que dá espaço de recuo significante, produzindo as condições para significar” (ORLANdI, 2010, p. 24), portanto mesmo em inclusões, alterações/ modificações e exclusões podemos falar em silenciamentos, manobras que são atreladas às retomadas de fala.

É importante ressaltar que “sem considerar a historicidade do texto, os processos de construção dos efeitos de sentidos, é impossível compreender o silêncio” (ORLANdI, 2010, p. 45); só é possível observá-lo pelos efeitos que ele produz, e pelos diferentes modos de significar nesses textos, pelas falhas que ele apresenta, pelos traços e pistas deixados ao longo dos discursos. Nessa linha de raciocínio, “[...] o sentido é sempre produzido de um lugar, a partir de uma posição do sujeito – ao dizer, ele estará, necessariamente, não dizendo ‘outros’ sentidos. Isso produz um recorte necessário no sentido” (ORLANdI, 2010, p. 53), recorte que observamos como operado por uma tomada de posição, um posicionamento pelo produtor da notícia, que se apresenta em forma de retomadas de sobreasseverações nas notícias geralmente publicadas em veículos impressos e digitais.

Descontextualizados, os recortes de falas que compreendem as notícias online podem assumir sentidos diferentes, ser utilizados como mecanismos de produção de sentidos. Alguns mecanismos frasais são lembrados por Orlandi (2010) como os responsáveis por atribuir ao silêncio uma identidade positiva. A autora elenca a elipse, a reticência, a descontinuidade temática, a subdeterminação semântica e a preterição. Acrescentamos a essa lista aqueles que se relacionam de perto à retomada das sobreasseverações, com destaque ao aspeamento que produz no texto um efeito de verdade nas sobreasseverações fortes, em que o leitor não tem acesso ao texto fonte. O uso das aspas em textos sobreasseverados atribui pelo menos dois sentidos diferentes: o efeito de recorte literal de um texto fonte e o de distanciamento em torno do que é dito. Maingueneau (2008, p. 91) reforça essa ideia ao afirmar que

a sobreasseveração, qualquer que seja a modalidade, implica uma figura de enunciador que não apenas diz, mas que mostra que diz o que diz, e presume-se que o que ele diz condensa uma mensagem forte, induz a uma tomada de posição exemplar. A sobreasseveração estabelece uma asserção que leva a uma responsabilidade diante do mundo.

A utilização das aspas que proporciona o silenciamento e a produção de sentidos se apresenta como mecanismo que afasta o apagamento de imparcialidade em relação à notícia veiculada. Atribuir o dizer ao outro é um procedimento muito recorrente em textos da maquinaria midiática, como podemos perceber nas notícias online de nosso corpus e na maior parte de revistas e jornais em circulação.

A sobreasseveração vinculada à maquinaria de produção de notícia online manifesta/operacionaliza mecanismos de silenciamento, o que evidencia a incompletude constitutiva da linguagem. Por isso, para se compreender o funcionamento das sobreasseverações retomadas em citações nas notícias online, também é necessário compreender o silêncio, atribuindo-lhe estatuto de sentido, presente tanto na ausência quanto na presença de palavras, no distanciamento de sua fonte de origem, no dito e no não-dito dos discursos, o que nos permite observar a sobreasseveração também em seu caráter histórico. Os movimentos da seleção, do recorte e da circulação a que as sobreasseverações são submetidas contemplam sentidos envoltos em silêncio: ao mesmo tempo em que a alteração de um enunciado marca um posicionamento, também silencia posicionamentos diferentes, contrastantes, inadequados, desnecessários.

5 Manobras da maquinaria midiática na produção de notícias online

5.1 Silenciamento: omissão/exclusão de sentidos

Levantamos neste trabalho a discussão em torno do funcionamento do silenciamento como prática da maquinaria de produção de notícia online. Para que um jornal selecione um recorte do debate televisivo e o coloque em evidência nas notícias, deve operar um movimento pragmático de escolha daquilo que convém ao jornal ser evidenciado, são as coerções da máquina midiática. Uma das características bastante recorrentes no processo que compreende a saída da sobreasseveração para figurar na composição de notícias online em forma de citação se dá pela omissão ou exclusão de palavras.

A própria seleção de uma porção da fala de atores políticos no debate político-televisivo já opera o apagamento de um contexto maior, de uma porção maior de texto, de um sentido mais amplo. Esse apagamento pode se evidenciar por uma exclusão, uma ação de “jogar para fora” da notícia aquilo que não convém ou não pode ser dito, característica essa relacionada com o movimento pragmático de retirar da fala do ator político aquilo que não pode ser dito dentro da notícia daquele veículo de informação. Essas ações cumprem um papel pragmático-discursivo de adequação ao posicionamento, de escolha, de recorte, de pôr em evidência um e não outro enunciado. Vejamos alguns exemplos em que esses apagamentos se processam:

(1) José Serra: você disse com clareza no debate na FOLHA, na UOL, que era a favor da liberação do aborto, depois diz o contrário. (BANd)

UOL: Na questão do aborto, você disse isso no debate da Folha, no UOL, que era a favor do aborto.

(2) Dilma Rousseff: E aí o que aconteceu, há hoje uma denúncia em que você, o Juiz te denunciou e você hoje é réu por calúnia, pelo crime de calúnia e difamação. (BANd)

Veja: “Você precisa ter cuidado para não ter mil caras, está sendo processado por calúnia.”

No exemplo da retomada da fala elaborada por UOL, em (1), podemos observar que há o apagamento da sequência “depois diz o contrário”, que se refere a dilma, em forma de crítica, por ela não se posicionar claramente em relação ao aborto. Reconhecemos que as notícias sofrem coerções de conteúdos, muitas vezes devido à velocidade entre o acontecimento e sua publicização na web, que pode acabar impondo cortes a fim de, rapidamente, por a notícia em circulação. Contudo, é difícil acreditar que esse apagamento ocorra por acaso ou se deva às coerções do gênero relacionadas ao trabalho do jornalista propriamente dito.

Quando o site retoma a fala de Serra, ao dizer que Dilma Rousseff é a favor do aborto, e omite “depois diz o contrário”, parece-nos que esse apagamento deixa de comprometer a candidata como uma pessoa que se diz a favor em um momento e contra em outro. Assim, não caracteriza dilma como contraditória, sentido produzido pela fala de José Serra. Para todo político, é muito importante ter uma posição que não evidencie desvios de conduta, de moral; o ethos de “virtude” (CHARAUdEAU, 2006, p. 122) seria abalado se a candidata se posicionasse de formas diferentes, em momentos diferentes.

Em (2), também se opera um apagamento quando VEJA exclui da lista de crimes de Serra, levantados por dilma, a “difamação”. Em termos jurídicos há diferença entre calúnia e difamação. Embora ambas estejam muito próximas, de acordo com Gonçalves (1999), a calúnia consiste em atribuir, falsamente, a uma pessoa a prática de um ato criminoso. Já a difamação consiste em atribuir a alguém um fato que seja desonroso, que ofenda a reputação de alguém.

Nesse sentido, os apagamentos de “difamação” e do autor da denúncia, o Juiz, provocam relevantes efeitos de sentido, por dois motivos: porque “difamação” e “calúnia” são termos jurídicos que não representam um único tipo de crime; porque ser acusado por calúnia e difamação por seu oponente político poderia ser, de certa forma, aceitável dentro de uma disputa política. Mas, ser acusado por um Juiz tem um peso maior, em termos de argumentação, se pensarmos que o Juiz, autoridade em direito, conhecedor das leis, é quem irá julgar o candidato que teria caluniado e difamado outrem. Aparentemente, ser denunciado por um Juiz implica estar direcionado à condenação. Esses sentidos, apagados pelos recortes operados por VEJA, parecem coadunar-se com a posição política da revista.

O apagamento que levantamos neste tópico não diz respeito somente a exclusões de trechos ou palavras. As retomadas das sobreasseverações, em forma de citações, em si já são evidências de silenciamentos que produzem sentidos. O processo de destextualização já é, em parte, responsável por esse apagamento, pois quem seleciona um texto o faz de um lugar discursivo, para expor aquilo que convém a seu posicionamento.

A manobra de apagamento operacionaliza, ainda, outros mecanismos de silenciamento, como podemos observar nos exemplos (1) e (2), em que há o apagamento de trechos ou de palavras, o que nos permite compreender que o silêncio funciona de maneiras diferentes nos diferentes processos de recorte, seleção e circulação de discursos.

A manobra de omitir ou de apagar parte ou partes do texto destacado está presente em quase todos os exemplos levantados no corpus. São mais do que adequações entre as modalidades da fala e da escrita, indo além do uso do discurso direto e das aspas. Como foi possível observar nos exemplos (1) e (2), essas retomadas de fala são tomadas de posição que, pelo uso dessas manobras, operam um direcionamento pragmático de sentidos dentro do texto.

5.2 Ampliação ou inclusão de informações

Por ampliação compreendemos uma ação metadiscursiva que resulta em amplificação de sentido, isto é, o dizer é intensificado a ponto de alterar o sentido do discurso. Essa é uma manobra que tem a intenção de chamar a atenção ou direcionar a compreensão do interlocutor, o leitor. Vejamos o exemplo a seguir:

(3) Dilma Rousseff: Você [Serra] regulamentou, até eu concordo com a regulamentação, porque eu sou contra tratar a questão das mulheres, das duas mulheres que morrem por dia, ou um dia sim um dia não, por aborto, como uma questão de polícia. (BANd, grifos nossos)

Carta Capital: desde o início da polêmica, Serra vem dizendo que dilma defende o aborto, mas a candidata insistiu e mostrou que ela defende é que ele deixe de ser considerado crime, pois coloca milhares de mulheres pobres sob risco de morte. “Concordo com a regulamentação (feita por Serra, em 1988). São milhares de mulheres que praticam aborto em condições precárias (a cada ano).” (grifos nossos)

Em relação aos grifos, no exemplo (3) podemos observar que a fala de dilma Rousseff no debate da BANd traz à luz a discussão em torno das mulheres que morrem por praticarem abortos. Em seu discurso, a candidata afirma que são “duas mulheres que morrem por dia” em consequência do aborto. Em seguida, especifica que essas mortes ocorrem “um dia sim um dia não”. Mesmo parecendo contraditório, ela menciona em sua fala que são duas mulheres que morrem por dia ou ainda que duas mulheres morrem em um dia e no outro não morre nenhuma, e assim sucessivamente. Na notícia online, CARTA CAPITAL informa ao leitor que são “milhares de mulheres que praticam aborto”. Nessa alteração enunciativa, ocorre uma ampliação de uma ou duas “mulheres que morrem por dia”, na fala de dilma, para “milhares” no relato de CARTA CAPITAL. O referente também é modificado, deixando de ser “mulheres que morrem” e passando a ser “mulheres que praticam aborto”, mudança que certamente resulta em um número bem maior. Essa mudança de sujeitos dá maior amplitude ao problema do aborto porque evidencia outros índices, altera a informação apresentada pela candidata, sem deixar de responsabilizá-la pela fala. As aspas cumprem esse papel de atribuir a dilma o dizer.

A ampliação aí ocorrida é notável. Se fizermos um cálculo da quantidade de mulheres a que dilma se refere, duas, não chegaremos ao total de “milhares” de CARTA CAPITAL. Ainda que considerássemos duas mulheres, dia sim e dia não, ou mesmo duas diariamente não chegaríamos sequer a um milhar, quantidade distante da apresentada pela revista. Há neste exemplo pelo menos três manobras discursivas, funcionando simultaneamente:

• a de ampliação do referente, uma vez que há uma diferença quantitativa em relação aos referentes dos dois discursos;

• a de alteração da mensagem informada, que pode remeter a um outro dado estatístico, uma vez que CARTA CAPITAL não traz a quantidade de mulheres que morrem por causa do aborto, e sim a quantidade de mulheres que praticam o aborto;

• o uso das aspas para marcar o discurso direto, isentando a revista da responsabilidade sobre o que é dito.

Essa relação entre a quantidade de pessoas que praticam o aborto e a quantidade de pessoas que morrem por praticá-lo não nos parece simétrica (todas as mulheres que praticam aborto morrem?). Mas, a informação da revista pode direcionar o leitor à interpretação de que todas as mulheres que praticam o aborto, em situações precárias, morrem.

O emprego do verbo “praticar” denota certa recorrência e liberdade em relação à escolha de abortar ou não, ao mesmo tempo em que evidencia uma repetição dessa prática na sociedade. durante toda sua campanha, dilma sofreu muitas críticas relacionadas a essa temática. Por esse motivo, o verbo “praticar”, de certa forma, retoma o sentido de facilitação ao procedimento de aborto que faz parte da memória do eleitorado, assim como o sentido envolto ao discurso de aceitação por parte da candidata que se mostra, na fala, favorável à regulamentação dessa prática. “Praticar” é um verbo de ação e, inserido dentro do discurso de dilma, como foi possível observar em (3), evidencia em CARTA CAPITAL um sujeito que deixa de ser passivo, alguém que sofre por causa do aborto, e passa a ser ativo, que “pratica” a ação. Transforma- se numa relação de causa (apontada por Carta Capital) a consequência (apresentada por dilma Rousseff), evidenciada, respectivamente, por uma contradição entre um sofrer (a morte) e um agir em relação ao aborto.

A fala de dilma possibilita a interpretação de que a mulher sofre por consequência do aborto; já em CARTA CAPITAL a mulher é a responsável pelo aborto porque é ela quem o pratica. A amplificação dos dados dá outra dimensão ao problema, intensifica-o de tal modo que a situação sai de duas por ano, como exposto na fala de dilma, para milhares ao ano, na notícia da revista.

da mesma forma que ampliaram o referente em (3), também os veículos inserem informações que vão além de adequação entre as modalidades falada e escrita. No mesmo exemplo, podemos observar na fala da candidata que as mulheres que morrem por aborto não são especificadas, (trata-se simplesmente “das mulheres que morrem”). CARTA CAPITAL inclui o adjetivo “pobres” à informação, afastando a possibilidade de mulheres ricas ou mulheres de outra classe social também correrem esse risco.

O sentido da fala de dilma é alterado por essa informação que delimita e especifica quem são as mulheres que morrem por consequência do aborto. No decorrer da pesquisa, percebemos diversos indícios de que CARTA CAPITAL tendeu em favor da eleição de dilma Rousseff. Nesse sentido, vemos que a especificação das mulheres por CARTA CAPITAL está relacionada ao discurso do PT, voltado aos mais pobres, ou seja, ao posicionamento político do jornal.

Considerações finais

Foi possível observar no decorrer das reflexões aqui empreendidas que a retomada de enunciados sobreasseverados é parte do mecanismo de uma sofisticada, complexa e heterogênea maquinaria midiático- discursiva, que produz e põe em circulação notícias online. Ocorre, nesse processo, a articulação do conceito de sobreasseveração com novas e antigas problemáticas, tais como a heterogeneidade constitutiva e a heterogeneidade mostrada, o discurso relatado, o silenciamento e as aforizações. Todos esses elementos estão envolvidos no processo de seleção, recorte, produção e circulação da notícia, e exercem um importante papel no efeito de autenticidade, distanciamento ou aproximação do dizer e na objetividade pretendida pela maquinaria midiática.

Observamos que tanto manobras que silenciam e excluem quanto manobras que ampliam o dizer sobreasseverado pelos candidatos são comuns e recorrentes na composição das notícias e indispensáveis para compreender o funcionamento das notícias online construídas sobre relatos de fala. Acreditamos ter deixado claro que as manobras discursivas que incidem sobre a construção da notícia online estão ancoradas na contínua retomada de dizeres que envolve as heterogeneidades constitutiva e mostrada. As alterações nas retomadas de sobreasseverações que compõem as notícias online se manifestam como manobras discursivas dessa sofisticada maquinaria midiática que envolve o complexo processo de produção onde intervêm fatores e atores diversos.

Referências

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