Resumo

O presente estudo objetiva apresentar resultados de um projeto de pesquisa “Variação linguística na escola: propostas didáticas”, vinculado ao Departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da Universidade Estadual de Londrina. Nesta pesquisa, serão apresentados os primeiros estudos desenvolvidos no projeto, com a análise de dois corpora (i) documentos oficiais que regem o ensino da língua portuguesa no Paraná, (ii) coleções de livros didáticos utilizados nas escolas do Paraná. Tal análise objetiva verificar o alcance dos estudos sobre a variação da língua, veiculados no ambiente acadêmico, no meio escolar, com o propósito de colaborar para a efetiva concretização de uma pedagogia da variação.

Apresentação

A variação linguística constitui um fenômeno natural em qualquer língua, entretanto tal fato não é compreendido pela grande maioria da população brasileira que acredita ser a língua do Brasil um objeto homogêneo, inflexível. Tal fato é comentado por Faraco, ao propor a ideia de uma pedagogia da variação:

Se, como resultado da intervenção dos linguistas, o tema da variação acabou incorporado pelo discurso pedagógico, podemos dizer que não conseguimos ainda construir uma pedagogia adequada a essa área. Talvez porque não tenhamos ainda, como sociedade, discutido suficientemente, no espaço público, nossa heterogênea realidade linguística, nem a violência simbólica que a atravessa. (FARACO, 2008, p.177)

No meio escolar, na maioria das vezes, a diversidade da língua é também ignorada, pois falta preparo teórico-metodológico para o professor lidar com um fenômeno comum, entretanto incompreendido pela sociedade. Dada tal situação, é crucial uma alteração na tarefa do profissional que lida didaticamente com a língua portuguesa no Brasil, uma vez que os estudos sobre a diversidade linguística brasileira já avançaram consideravelmente. Pensando no distanciamento entre a realidade social e os avanços empreendidos no meio acadêmico, pode-se firmar a necessidade da implantação da pedagogia da variação, proposta por Faraco:

... cabe reiterar que nosso grande desafio, neste início de século e milênio, é reunir esforços para construir uma pedagogia da variação linguística que não escamoteie a realidade linguística do país (reconheça-o como multilíngue e dê destaque crítico à variação social do português); não dê um tratamento anedótico ou estereotipado aos fenômenos da variação; localize adequadamente os fatos da norma culta/ comum/ ‘standard’ no quadro amplo da variação e no contexto das práticas sociais que a pressupõem; abandone criticamente o cultivo da norma-padrão; estimule a percepção do potencial estilístico e retórico dos fenômenos da variação (FARACO, 2008, p.180)

Este texto pretende, pois, apresentar uma pesquisa que objetiva fornecer subsídios aos professores de Língua Portuguesa a partir da elaboração de propostas adequadas ao estudo da língua em suas diversificadas matizes. Trata-se de busca de uma melhor compreensão da língua portuguesa abrangendo as variadas normas presentes no país, ou seja, o trato da linguagem numa perspectiva sociolinguística. Espera-se, com este estudo, levar ao professor, ferramentas úteis para o trabalho com a língua de forma consciente e inovadora, no sentido de romper com o preconceito linguístico e de conceber a linguagem como forma interação social, abordando não só a norma padrão, mas também as variedades linguísticas. Tal proposta se dará a partir de estudos desenvolvidos no projeto de pesquisa “Variação linguística na escola: propostas didáticas”, vinculado ao Departamento de Letras Vernáculas da Universidade Estadual de Londrina, no qual se unem docentes e discentes do curso de Letras, além de professores da rede estadual do Paraná, a fim de pensar o ensino de língua portuguesa atual. Desta forma, serão apresentados, nesta pesquisa, os primeiros estudos desenvolvidos no projeto citado, apresentando análise de dois corpora, a saber: (i) documentos que regem o ensino da língua portuguesa, evidenciando em que sentido a variação faz parte de tais textos normativos, (ii) 15 coleções de livros didáticos aprovadas pelo Plano Nacional do Livro Didático. Tais análises se deram no sentido de colaborar para uma nova abordagem da língua na escola, sob a perspectiva da diversidade linguística.

1 Pressupostos teóricos

Nesta seção, apresentam-se algumas discussões de pesquisadores renomados sobre questões relacionadas à língua e ao fenômeno da variação.

1.1 Normas

A língua portuguesa do Brasil apresenta diversas normas, apesar disso, a sociedade em geral, distante dos estudos linguísticos, apresenta uma busca incessante de uma língua única, invariável, ou seja, a norma padrão expressa na gramática normativa. Segundo Castilho (2002), existem três tipos de norma: a norma objetiva, a norma subjetiva e a norma prescritiva.

A norma objetiva, também chamada de padrão real, é a linguagem praticada pela classe social de prestígio, ou seja, pela classe culta, escolarizada. O segundo tipo de norma, a norma subjetiva considerada padrão ideal de linguagem é a atitude que o falante assume perante a norma objetiva em situações em que a comunidade linguística exige maior cuidado com a linguagem. Já a norma prescritiva é a combinação da norma objetiva com a norma subjetiva, em que são ensinados os usos linguísticos de uma classe de prestígio considerados mais adequados a cada situação e mais bem identificados com o ideal de perfeição linguística.

De acordo com Faraco (2002), a norma pode ser considerada um fator de identificação sociocultural. Diante disso a norma culta da língua se destaca por ser a utilizada pelos grupos que controlam o poder social. O autor esclarece a distinção entre norma culta e norma padrão, já que essas costumam ser confundidas, inclusive no meio acadêmico.

Segundo Faraco (2002), norma culta é a norma linguística praticada em determinadas situações (aquelas que envolvem certo grau de formalidade) por aqueles grupos sociais mais relacionados com a língua escrita, enquanto a norma padrão são as formas contidas e prescritas pelas gramáticas normativas.

Por esse padrão ter tido origem de um modelo lusitano praticado por alguns escritores portugueses, não há muita relação entre a norma padrão e o uso; desta forma, o distanciamento entre a norma padrão e a realidade linguística brasileira dificultam a assimilação de tal norma por uma grande parcela da população do país.

Na sociedade brasileira, podem-se constatar empiricamente variadas normas, visto que constituem possibilidades adequadas a determinados contextos, assim há a “norma da casa”, a “norma do emprego”, a “norma dos amigos”, e assim por diante. Pensando desta forma, pode-se associar o conceito de norma à variação, dado que cada norma constitui uma variedade; desse modo, a norma padrão constitui uma entre as diversas variedades do português do Brasil.

1.2 Variação linguística

A linguagem é, por natureza, um objeto sujeito a alterações, por ser uma parte constitutiva do ser humano e da cultura na qual este se insere. Ora, se o homem está sempre evoluindo, mudando sua aparência, suas ideias, seus valores, bem como a sociedade na qual este se inscreve, é perfeitamente normal haver variações e mudanças linguísticas. Os estudos de Labov (1962) apontam que a variação linguística é natural, é essencial à linguagem humana, desta forma o que exigiria explicação seria a ausência da variação na linguagem e não a sua presença. Meillet já apontava, no início do século passado, em 1906, o fato social como motivação fundamental para ocorrerem alterações linguísticas: “Por ser a língua um fato social resulta que a linguística é uma ciência social, e o único elemento variável ao qual se pode recorrer para dar conta da variação linguística é a mudança social” (MEILLET apud CALVET, 2002, p. 16).

A variação da língua ocorre devido a fatores linguísticos ou extralinguísticos, de forma que os primeiros se dão pela própria natureza linguística e os segundos, por motivos externos à língua. Em relação aos fatores extralinguísticos, Camacho (1988) propõe uma sistematização apontando a classificação: variação histórica, geográfica, social e estilística. O autor ressalta que tal classificação proposta não se dá de forma estanque, ou seja, muitas vezes uma variação ocorre devido a mais de um fator, como o social e o geográfico, por exemplo. Já Castilho (2010) apresenta outra proposta de classificação, a saber: variação geográfica, variação sociocultural, variação individual, variação de canal e variação temática. A seguir, busca-se correlacionar as propostas de Camacho (1988) e de Castilho (2010)

A variação histórica resulta das mudanças naturais consequentes da evolução temporal. Moda, decoração, conceitos de beleza constituem costumes que variam conforme o tempo; isto porque a sociedade evolui e altera sua forma de agir, de pensar e de conceber seus padrões de beleza e de normalidade. Assim também acontece com a língua, formas linguísticas consideradas comuns em determinada época não o são em outra. Daí o que se entende por arcaísmos e neologismos, de forma que as primeiras constituem formas desatualizadas, não mais utilizadas pela maioria da comunidade, enquanto que as segundas, novas, inovadoras. Conforme aponta Camacho (1988, p.30), “podem conviver no mesmo plano temporal variantes em desuso com suas respectivas substitutas, estritas, porém a alguns poucos falantes de idade avançada que, paralelamente à evolução dos usos e costumes, mantêm formas de expressão adotadas como prestigiosas pela norma pedagógica ou social de décadas atrás”.

Cabe ressaltar que este tipo de variação evidencia a intrínseca relação existente entre língua e sociedade; ora, se a sociedade evolui, muda com o passar do tempo, nada mais do que natural do que a mudança linguística, dado que o ser humano se constitui pela linguagem.

A variação geográfica resulta da forma linguística comum a uma região. A língua portuguesa falada em diferentes países constitui exemplo interessante deste tipo de variação, pois se diferencia nos diversos países em que é falada, chegando a ser classificada, por alguns pesquisadores, como outra língua, como no caso no Brasil em que se nomeia “português brasileiro”. Camacho ressalta que o limite geográfico de uma comunidade linguística muitas vezes não coincide com os limites políticos; segundo o autor, “tais limites são relativamente fixados, porque graduais, e se às vezes a rotulação de determinado falar regional corresponde aos limites políticos, será por necessidade prática.” (CAMACHO, 1988, p.31-32)

Castilho (2010, p.198), afirma ser a variação geográfica a mais perceptível: Quando começamos a conversar com alguém, logo percebemos se ele é ou não originário de nossa região. O autor ainda salienta que a visibilidade deste tipo de variação fez surgir a Dialetologia; pode-se afirmar aqui a importância dos estudos dialetológicos no Brasil, que conta com pesquisadores renomados, os quais contribuem para a descrição do português brasileiro.

A variação social resulta da diferença entre setores socioculturais da comunidade, o que implica diferenças etárias, sexuais e socioculturais. Em relação à diferença entre faixas etárias distintas, pode-se visualizar com ênfase a linguagem dos adolescentes e a dos idosos. A adolescência constitui uma fase importantíssima para o indivíduo, em que o adolescente, ansioso pela marcação de identidade, define formas linguísticas próprias que o diferem dos demais. Já os idosos, também marcam sua identidade pelas formas próprias de sua época e pelo cuidado com a língua, forma de demarcar a cautela do homem já vivido e experiente. A diferença sexual se identifica também na linguagem, sendo mais comuns formas delicadas, com predomínio de diminutivo na fala feminina. Já a questão sociocultural implica diferenças entre classes sociais, fator de suma importância para a abordagem na escola, uma vez que diferenças características de determinados extratos sociais resultam barreiras sociais, inclusive no âmbito linguístico. Tais questões são relativas ao prestígio às formas características de determinados grupos, conforme aponta Camacho (1988, p.33):

A divisão de uma comunidade em setores sociais não significa que o intercâmbio linguístico entre indivíduos de distintos estratos seja prejudicado por dificuldades de compreensão, como poderia ocorrer entre duas comunidades regionais. Significa, antes, que o uso de certas variantes é indício, numa sociedade estratificada, do nível sócio-econômico e cultural de seus membros e, portanto, indício de alto ou baixo grau de prestígio

Em sua classificação, Castilho (2010, p.204) apresenta uma delimitação, apontando a variação sociocultural, considerando as variáveis: (i) falante não escolarizado e (ii) falante escolarizado. Para o autor (2010, p.204), analfabetos e falantes escolarizados não falam exatamente da mesma forma. Assim, Castilho afirma ser comum a variedade culta para pessoas escolarizadas enquanto que a variedade popular caracteriza o falar dos não escolarizados.

Já em relação aos fatores etário e sexual, Castilho (2010) propõe outro tipo de classificação denominada variação individual. Em relação à idade, o autor afirma: sabe-se que velhos falam como se falava antes, e jovens acolhem as mudanças na língua que foram generalizadas posteriormente (CASTILHO, 2010, p.212). Já, em relação ao sexo, o autor aponta uma questão relacionada à própria estrutura da língua portuguesa, visto que não se identificam diferenças estruturais caso o falante seja homem ou mulher, como ocorre no japonês, por exemplo.

A variação estilística, proposta por Camacho (1998), se compõe das diferentes maneiras de se manifestar linguisticamente diante de situações formais e informais, daí a necessidade de adequação ao ambiente. Trata- se de um tipo muito importante para a abordagem em sala de aula, pois neste tópico é possível ensinar ao aluno a possibilidade de utilizar formas coloquiais e a necessidade de aprender formas mais elaboradas, devido à situação interativa. Cabe ressaltar que, para Castilho (2010), as diferenças de registro resultantes da situação se incluem no tipo por ele denominado variação individual.

Castilho (2010, p.211) ainda aponta a variação de canal: A comunicação linguística pode ocorrer em presença do interlocutor, quando falamos, ou na sua ausência, quando escrevemos. Assim o autor propõe a variação entre a língua falada e a língua escrita. Em relação à variação de canal, Ilari e Basso (2006) propõem outra denominação: variação diamésica. Segundo os autores, a variação diamésica compreende, antes de mais nada, as profundas diferenças entre a língua falada e a língua escrita. (ILARI; BASSO, 2006, p.181). Cabe ressaltar que tal classificação se estende, para os pesquisadores, para a variação entre os gêneros discursivos.

Castilho (2010) ainda aponta a classificação temática que diz respeito ao modo como se trata determinado assunto. Segundo o pesquisador: Podemos falar de assuntos do dia a dia, e teremos o ‘português corrente’. Podemos falar de assuntos especializados, e aí teremos o ‘português técnico’. Assim, o autor afirma que tais variedades distinguem a linguagem do cidadão comum da linguagem dos cientistas, dos clérigos, dos políticos etc. (CASTILHO, 2010, p.223)

Tais classificações são de grande relevância para o profissional que se dedica a estudar o fenômeno da variação, uma vez que propiciam visualizar a amplitude que o constitui.

1.3 Oralidade e escrita

É possível abordar, conforme aponta Marcuschi (2001), eventos de oralidade e de escrita como um contínuo, em que se identificam determinados gêneros. Desta forma, há gêneros que se encaixariam num pólo de maior oralidade, como uma conversa informal, por exemplo, enquanto outros se enquadrariam num pólo mais apropriado para eventos da escrita, como um artigo científico. Corroborando com as ideias de Marcuschi (2001), Bortoni-Ricardo (2004) apresenta uma proposta de contínuos de oralidade e escrita para os eventos comunicativos, havendo também pólos de maior predominância ou da oralidade ou da escrita.

Cabe ressaltar a não correlação: escrita-formalidade, oralidade- informalidade, visto que do mesmo modo, podemos aplicar a proposta dos contínuos para os níveis de formalidade, tanto nos gêneros orais, como nos escritos. Apesar disso, é fato natural a associação da formalidade ao texto escrito devido à própria história da escrita na vida do ser humano. Ora, uma criança, até a educação formal escolar, pratica anos eventos orais livres de padronização, enquanto que, ao adentrar o meio escolar, insere-se na necessidade de padronização do texto escrito. Além disso, ressalta-se a diferença quantitativa em relação à produtividade de textos escritos, pois um profissional que não tem a escrita como profissão, raramente se depara com eventos de escrita, e quando isto ocorre, em geral devem ser produzidos na norma-padrão, pois constituem gêneros que se caracterizam pela formalidade, como é o caso de requerimentos, procurações, ofícios, etc. Nesse sentido, é papel do professor de língua portuguesa, levar o aluno ao contato com diversos gêneros orais e escritos, propiciando a percepção da adequação da linguagem a cada evento de comunicação.

Ressalta-se ainda a interferência da variação própria da situação de oralidade para a de escrita, e, como afirma Cagliari (1992, p.124), “a variação linguística, característica inerente a toda e qualquer língua do mundo, pode constituir um grande problema para quem está adquirindo o sistema da escrita.” Isto porque o aluno pode transpor as variantes distantes da norma para o texto escrito. Em outro estudo, o autor ainda aponta que “o erro mais comum dos alunos é caracterizado por uma transcrição fonética da própria fala” (CAGLIARI, 1992, p.138).

2 Sobre o projeto Variação linguística na escola

O projeto “Variação linguística na escola: propostas didáticas” constitui uma investigação de natureza teórico-metodológica sobre o atual sistema de ensino da língua portuguesa nas escolas do Paraná, incluindo documentos oficiais de ensino, livros didáticos e atuação profissional, a fim de averiguar até que ponto os estudos sociolinguístico estão efetivamente presentes no dia-a-dia da escola. Pretende-se, neste projeto, verificar se ocorre a abordagem da variação linguística nos manuais didáticos utilizados no Paraná, e, em caso positivo, como isso se dá. A partir dos dados obtidos, objetiva-se propor atividades sobre a variação pouco contempladas nos atuais manuais e que merecem atenção. Com isso, espera-se colaborar para a divulgação dos estudos sociolinguísticos e a extinção do tão arraigado preconceito linguístico presente em nossa sociedade. Para tal tarefa, professores da rede estadual, docentes e discentes do curso de Letras da Universidade Estadual de Londrina se reúnem para estudar questões sobre a língua e analisar documentos oficias de ensino e manuais didáticos para, a partir deste estudo sistematizado, elaborar novas propostas de ensino da língua que contemplem a variação. No presente artigo serão apresentadas (i) a análise dos Parâmetros Curriculares do Ensino Médio e os Parâmetros Curriculares do Ensino Fundamental; (ii) a análise de 11 coleções de livros didáticos utilizadas no Paraná.

3 Análise dos corpora

Nesta seção serão apresentas análises de dois corpora: (i) documentos oficiais de ensino, (ii) manuais didáticos do ensino fundamental e médio.

3.1 Análise dos documentos

Os Parâmetros Curriculares do Ensino Fundamental apresentam uma orientação sobre o trabalho com a variação linguística na escola. Apresentam-se, a seguir, trechos do documento em que se evidencia tal afirmação:

Entre as críticas mais frequentes que se faziam ao ensino tradicional destacavam-se: a excessiva valorização da gramática normativa e a insistência nas regras de exceção, com o consequente preconceito contra as formas de oralidade e as variedades não-padrão;(...) É neste período que ganha espaço um conjunto de teses que passam a ser incorporadas e admitidas, pelo menos em teoria, por instâncias públicas oficiais. A divulgação dessas teses desencadeou um esforço de revisão das práticas de ensino da língua, na direção de orientá-las para a ressignificação da noção de erro, para a admissão das variedades linguísticas próprias dos alunos, muitas delas marcadas pelo estigma social, e para a valorização das hipóteses linguísticas elaboradas pelos alunos no processo de reflexão sobre a linguagem e para o trabalho com textos reais, ao invés de textos especialmente construídos para o aprendizado da escrita. (BRASIL, 1998, p.18)

Pode-se contatar, nesta citação, a necessidade do trabalho com a variação linguística, implicando necessariamente uma melhoria na qualidade do ensino da língua no período atual. No documento em análise, identifica-se ainda um item “Implicações da questão da variação linguística para a prática pedagógica” (BRASIL, 1998, p. 29), em que se discorre sobre a necessidade da abordagem da língua em sua diversidade. Além disso, nas “Orientações didáticas específicas para alguns conteúdos” (BRASIL, 1998, p.81-83), há uma seção específica intitulada “Variação linguística”.

Tais apontamentos mostram a aceitação e a crença por parte dos responsáveis pelos documentos do ensino fundamental da necessidade da abordagem da variação linguística no ambiente escolar.

Já nos Parâmetros Curriculares do Ensino Médio, os apontamentos sobre variação linguística não se dão com tanta ênfase, o foco se dá mais diretamente no que diz respeito à linguagem e identidade. Isto talvez se deva ao fato de estar subentendido que o trabalho sobre variação seja bem realizado já no ensino fundamental, conforme as indicações dos documentos direcionados a tal fase.

No item “Competências e habilidades” (BRASIL, 2000, p.19), verifica-se o subitem “Considerar a Língua Portuguesa como fonte de legitimação de acordos e condutas sociais e como representação simbólica de experiências humanas manifestas nas formas de sentir, pensar e agir na vida social” (BRASIL, 2000 p.20) em que consta a seguinte afirmação:

Dar espaço para a verbalização da representação social e cultural é um grande passo para a sistematização da identidade de grupos que sofrem de deslegitimação social. Aprender a conviver com as diferenças, reconhecê- las como legítimas e saber defendê-las em espaço público fará com que o aluno reconstrua a auto-estima. (BRASIL, 2000, p.20)

É possível verificar, nesta citação, a importância atribuída à identidade e às diferenças, o que implica, em se tratando de linguagem, a valorização também da variação linguística, dado que tal fenômeno constitui instrumento de identidade e de consequente marcação de diferença social.

Ainda neste item constata-se o seguinte apontamento:

A escola não pode garantir o uso da linguagem fora do seu espaço, mas deve garantir tal exercício de uso amplo no seu espaço, como forma de instrumentalizar o aluno para o seu desempenho social. Armá-lo para poder competir em situação de igualdade com aqueles que julgam ter o domínio social da língua” (BRASIL, 2000, p.22)

Pode-se evidenciar, nesta afirmação, as ideias apontadas por Gnerre (1985) em que o autor afirma a necessidade de a escola proporcionar ao aluno o acesso à norma culta e à norma padrão a fim de que ele possa utilizá-las nas situações em que são necessárias. Tal formação é de suma importância haja vista o estigma que carregam as variedades do português distantes da norma, de forma que os falantes dessas variedades são considerados incultos, ignorantes, sendo desprezados socialmente pelos que dominam a norma de prestígio.

Com base nos dados identificados nesta análise, pode-se afirmar um avanço em relação à situação de ensino se comparada a anos anteriores, uma vez que a sugestão da necessidade da abordagem da variação linguística se faz presente tanto nos Parâmetros do Ensino Fundamental como nos documentos do Ensino Médio. A seguir, apresenta-se a análise dos manuais didáticos do Paraná.

3.2 Análise dos manuais didáticos

Nesta seção, pretende-se apresentar uma análise quantitativa da abordagem da variação linguística nos livros didáticos utilizados no Paraná até 2012. Cabe ressaltar que foram aprovadas 16 coleções pelo Plano Nacional do Livro Didático, entretanto, para a presente pesquisa foi possível analisar 15 coleções, uma coleção é indisponível, visto que nem mesmo as escolas de Londrina a possuíam. Desta forma, foram analisadas 15 coleções, buscando identificar quais tipos de variação são contempladas por ano a fim de traçar um panorama geral. Para a análise em questão, utilizou-se a proposta de Camacho que classifica a variação em quatro tipos: geográfica, estilística, histórica e social; optou-se por esta classificação pelo aspecto téorico-prático desta classificação, ou seja, trata-se de uma proposta viável para análise, o que não desmerece as demais classificações de outros autores. Cabe ainda ressaltar que, para a busca de cientificidade do presente trabalho, os manuais analisados são nomeados pelos numerais de 1 a 15. Assim, foram elaboradas 4 tabelas correspondentes aos quatro tipos de variação proposta por Camacho (1988) com a análise quantitativa da abordagem da variação da língua. Seguem tabelas com a análise, para posterior discussão:

Figure 1.

Figure 2.

Figure 3.

Figure 4.

Com base nos dados gerais das tabelas, é possível constatar os seguintes resultados: a variação estilística é a mais contemplada entre as coleções, pois entre os 60 manuais, ela se constata em 44, ou seja, há 73,3 por cento de ocorrências (Tabela 1). A variação regional é abordada em metade dos livros analisados, pois, dos 60, está presente em 30 livros (Tabela 2). Já a variação social e a histórica são as menos abordadas; a variação social se evidencia em 27 manuais, totalizando 45 por cento (Tabela 3) e a variação histórica se identifica em 19 manuais, resultando 31,6 por cento (Tabela 4).

Figure 5.

Tais dados numéricos permitem afirmar que a variação histórica é pouco contemplada nesses manuais, o que se explica pela própria área em que se insere tal tipo de variação: a Linguística Histórica, que exige do profissional que se interesse por caminhar nesta perspectiva, um conhecimento muito vasto e uma formação acadêmica diferenciada, uma vez que noções a respeito de língua latina, diacronia e história são cruciais para tal formação.

A variação social também é pouco abordada nas coleções, fato que pode ser explicado também pela área de estudo, a qual envolve questões polêmicas, relacionadas ao preconceito linguístico. É fato que a sociedade ainda desconhece e, consequentemente, despreza os estudos desenvolvidos no ambiente acadêmico sobre língua e preconceito, de forma que, para o meio social, ensinar língua significa ensinar regras gramaticais, como se a norma padrão fosse algo concreto e realizável, ou seja, prevalece ainda a “pureza da Língua”, contemplada por Otávo Bilac ao falar sobre “a Flor do Lácio”. Ressalta-se ainda que a atitude da sociedade atual ainda reflete a atitude da sociedade brasileira em sua colonização quando o ideal lusitano prevalecia, ou seja, a elite brasileira rejeitava a “língua de preto”, almejava a uma sociedade branca, europeizada. Tais afirmações são apontadas por Faraco (2008) ao comentar a atitude da elite brasileira no período da colonização:

Por trás da atitude excessivamente conservadora dessa elite letrada, além de uma herança da pesada tradição normativa dos países de línguas latinas, estava seu desejo de viver num país branco e europeu, o que fazia lamentar o caráter multirracial e mestiço do nosso país (aspirando, de modo explícito até a década de 1930, a um ‘embranquecimento da raça’); e, no caso da língua, a fazia reagir sistematicamente a tudo aquilo que nos diferenciasse do modelo linguístico lusitano por ela escolhido para padronizar a fala e a escrita no Brasil. (FARACO, 2008, p.79)

Pode-se, pois, relacionar a atitude da elite letrada comentada por Faraco com a elite brasileira, havendo muitos resquícios daquela busca de um padrão lusitano e “puro”.

Já em relação às séries, pode-se evidenciar que a variação da língua tem pouca evidência nos anos finais do ensino fundamental, pois três coleções não tratam de nenhum tipo de variação no nono ano e sete coleções tratam apenas de um tipo de variação no último ano. Tais dados indicam que a maioria dos profissionais que produziram os manuais didáticos acredita ser desnecessário trabalhar a variação linguística no final do ensino fundamental, fato curioso e preocupante uma vez que tal atitude pode resultar da pouca importância destinada ao assunto, ou seja, é possível que se julgue o tema da variação linguística menos importante do que outros mais relacionados à noção de “pureza da Língua”. Além disso, a ausência do enfoque à variação linguística no final do ensino fundamental pode ainda resultar da crença de que esse tipo de conhecimento não será objeto de cobrança em vestibulares, Enem, etc.

Em relação à qualidade da abordagem identificada nos manuais analisados, pode-se afirmar novamente a necessidade da aplicação, no ambiente escolar, dos estudos realizados nas universidades, visto que há muitas pesquisas voltadas para a variação linguística que poderiam muito auxiliar professores de ensino fundamental e médio na tarefa de abordar a língua em sua diversidade. Tal fato se constata, por exemplo, nas atividades encontradas sobre a variação histórica; como já pontuado, pouco há sobre tal variação nos manuais analisados e, quando isto se dá, a maioria dos livros traz o mesmo texto: “Antigamente”, de Carlos Drummond de Andrade. Ressalta-se que não se objetiva criticar tal texto, trata-se, é claro, de uma obra muito interessante, rico em termos arcaicos, o que se questiona é a raridade de exemplos oferecidos para os leitores dos manuais didáticos. Novamente tal fato se dá pela própria formação dos autores dos manuais, pois a área da diacronia é pouco aprofundada durante a maioria dos cursos de graduação, somente quem se aventura por tal área em pesquisas posteriores, teria melhores condições de oferecer possibilidades diversificadas sobre os estudos antigos, como por exemplo, manuscritos de séculos anteriores, jornais antigos, cartas etc.

Em relação à variação geográfica, reafirma-se um distanciamento entre a escola e a universidade, pois a maioria trata o fenômeno da variação regional sem fundamentação teórica, com fontes pouco seguras, como glossários regionais não fundamentados em estudos linguísticos. A abordagem deste tipo de variação também poderia ser muita mais enriquecida pelos estudos acadêmicos haja vista o intenso trabalho realizado por dialetólogos brasileiros na tarefa de registrar a língua do Brasil no projeto ALIB – Atlas Linguístico do Brasil, além dos atlas regionais já concluídos.

Em relação à variação social, a maioria traz a diferença entre faixa etária, havendo poucas atividades destinadas à questão cultural, o que implica necessariamente comentários a respeito do preconceito linguístico. Trata-se de um tema bastante polêmico, difícil de ser abordado sem correr o risco de ser mal interpretado pela sociedade, mas que merece sim ser estudado, havendo, pois, a necessidade de profissionais que se aventurem a realizar tal atividade.

Pode-se reafirmar, com base nas constatações apresentadas, a necessidade de uma maior proximidade entre escola e universidade a fim de que a prática escolar seja enriquecida e que a escola seja competente na tarefa de abordar a variação língua.

Considerações

O estudo sobre variação linguística nos bancos acadêmicos já é bastante profícuo, no entanto ainda urge sua presença nos bancos escolares, uma vez que a academia não pode se dissociar da prática educacional, principalmente nos cursos de licenciatura, com é o caso do curso de Letras.

O presente trabalho busca, pois, indicar a importância da pesquisa sobre a variação linguística, implementada no ambiente escolar e, para isto, foram analisados documentos oficiais de ensino e manuais didáticos utilizados nas escolas paranaenses.

Em relação aos Parâmetros Curriculares, tanto do ensino fundamental como do ensino médio, pode-se afirmar que já há uma conscientização da necessidade da abordagem da variação linguística na escola, fator de suma importância, uma vez que tais documentos podem alterar a atual sistema de ensino. Cabe ressaltar que o que se evidencia nos PCNs, necessariamente, não se vê na prática, entretanto já há um avanço considerável em relação a épocas anteriores em que se abominava o fenômeno da variação.

Já, em relação à análise quantitativa da abordagem da variação linguística nos manuais didáticos, foi possível verificar que a variação é abordada, mas tal fato ainda carece de mais atenção, uma vez que se identificaram lacunas, como, por exemplo, a escassez da abordagem de determinado tipo de variação _ a histórica _ como também a pouca atenção dada ao fenômeno da variação da língua no nono ano.

A análise qualitativa das atividades oferecidas pelos manuais didáticos permitiu constatar a distância entre a escola e a universidade, visto que a riqueza dos estudos já realizados no meio acadêmico não presencia os manuais didáticos.

As análises realizadas no presente estudo se deram com a finalidade de verificar como as ideias sobre o fenômeno da variação se propagaram no ambiente escolar. A proposta não é criticar a situação atual de ensino, mas verificar lacunas existentes para que se busquem esforços no sentido de preenchê-las. Tal tarefa é fundamental para concretizar a proposta da pedagogia da variação linguística no Brasil.

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