Resumo

Ao passo que se assume que as descrições definidas pressupõem a existência e unicidade de seus referentes, há vários contraexemplos, em que ou a existência ou a unicidade não está pressuposta. Entre eles estão os definidos fracos, que pertencem a duas classes, os definidos fracos curtos, como em ‘pegar o trem’, e os definidos fracos longos, como em ‘esses dados vieram do aluno de um linguista’. Propomos uma análise unificada para essas duas classes, baseada na afirmação de que nomes em descrições definidas denotam tipos (types) e que o determinante definido dispara uma pressuposição de unicidade fraca, em que a unicidade depende da existência.

Introdução1

Os trabalhos sobre definidos fracos são baseados em exemplos que podem ser divididos em dois grupos. No primeiro deles, encontramos NPs complexos, que incluem um genitivo, como no exemplo em (1a), de Poesio (1994); o segundo, é composto por NPs curtos, envolvidos em construções semelhantes a expressões idiomáticas, como ilustrado em (1b), um exemplo de Carlson et alii (2005):

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(1) a. I’ve got this data from the student of a linguist.

a. Eu consegui esses dados com o aluno de um linguista.

b. Jacqueline took the train from Paris to Moscow.

b. Jacqueline pegou o tem de Paris para Moscou.

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Esses NPs definidos são chamados de fracos porque não pressupõem a unicidade de seus referentes: (1a) não pressupõe que o linguista mencionado na sentença tem apenas um aluno, e (1b) seria perfeitamente adequada numa situação na qual Jacqueline fez uma baldeação em algum momento de sua viagem e por isso pegou dois trens. Para explicar essa falta de unicidade, encontramos duas análises diferentes na literatura, e a controvérsia sobre se uma única análise poderia dar conta dos dois casos é geralmente deixada em aberto2.

Neste artigo, defenderemos uma análise unificada para os definidos fracos, com base na ideia de que o que torna esses definidos fracos não é o determinante, mas sim o NP, que denota um tipo (type) e não uma ocorrência (token). Argumentaremos, então, que não há dois determinantes definidos (um fraco e um forte), mas apenas um. Nossa tese se aproxima da proposta de Aguilar-Guevara & Zwarts, que assumem que definidos fracos denotam espécies, mas se afasta dela com relação à semântica do determinante definido. Nossa proposta é que o determinante definido não dispara uma pressuposição de unicidade, somente uma pressuposição fraca, segundo a qual a unicidade depende da existência. Argumentaremos que a unicidade, no caso de NPs que são definidos fortes, e a falta de unicidade, no caso de NPs que são definidos fracos, não são características inerentemente codificadas no determinante definido, mas são derivadas do contexto.

Este artigo está organizado da seguinte forma: as seções 1 e 2 apresentam um panorama da literatura sobre definidos – na seção 1, revemos e classificamos os exemples relevantes; na seção 2, apresentamos as várias análises e discutimos seus limites. Finalmente, trazemos nossa proposta na seção 3, que explica por que definidos fracos e indefinidos são semanticamente parecidos.

1 Exame dos dados

1.1 Definidos fracos longos

Poesio (1994) introduziu o termo “definidos fracos” para se referir às descrições definidas (DD) que eram perfeitamente apropriadas em um contexto no qual mais de uma entidade satisfazia a descrição. De acordo com o autor, DDs fracas são sempre DDs complexas, construídas com um determinante definido, um nome relacional e um sintagma nominal indefinido encaixado, como descrito em (2) e exemplificado em (3). Ele mostra que as leituras fracas desaparecem na ausência de um complemento-de (4a), quando um outro tipo de complemento substitui o genitivo (4b) e quando o genitivo é forte (4c).

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(2) Def N1 of Indef-sg N2 Def N1 de Indef-sg N2

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(3) a. The village is located on the side of a mountain.

a. A aldeia está localizada na encosta de uma montanha.

b. I usually had breakfast at the corner of a major intersection.

b. Eu geralmente tomava o café da manhã na esquina de um cruzamento importante.

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(4) a. John got these data from the student.

a. John conseguiu esses dados do aluno.

b. John got these data from the student who studies with a linguist.

b. John conseguiu esses dados do aluno que estuda com um linguista.

c. John got these data from the student of Chomsky.

c. John conseguiu esses dados do aluno de Chomsky.

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Barker (2005) mostrou que as restrições sugeridas por Poesio são fortes demais, pois leituras fracas podem surgir mesmo na ausência de um complemento-de (5a). Ele também estendeu suas investigações a DDs fracas plurais, como em (5b):

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(5) a. The baby’s fully-developed hand wrapped itself around the finger of the surgeon.

a. A mão já totalmente desenvolvida do bebê envolveu o dedo do cirurgião.

b. The term double crush describes a type of fracture or other injury resulting from being driven over by the two wheels of a car or other vehicle.

b. O termo “double crush” descreve um tipo de fratura ou outro trauma resultante de ter sido atropelado pelas duas rodas de um carro ou outro veículo.

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O mesmo tipo de fenômeno existe em francês e foi estudado, entre outros, por Milner (1982), Flaux (1992, 1993) e Corblin (2001). Flaux observa que a sentença (6) é ambígua. A DD pode ser forte e assim denota uma pessoa particular, e pode ser também interpretada como uma DD atributiva. Neste caso, a DD é fraca e o falante salienta o fato de que a pessoa que ele encontrou tem uma propriedade específica, a propriedade de ser a filha de um fazendeiro:

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(6) J’ai rencontré la fille d’un fermier.

‘Encontrei a filha de um fazendeiro’

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(7) a. J’ai rencontré la fille d’un certain fermier.

‘Encontrei a filha de um certo fazendeiro’

b. J’ai rencontré une fille de fermier.

‘Encontrei uma filha de fazendeiro’

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Corblin acrescenta exemplos em francês de DDs fracas que envolvem um definido genitivo, como em (8):

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(8) a. J’ai abîmé l’aile de ta voiture.

‘Estraguei a lateral do seu carro’

b. Le médecin a plâtré le bras de Jean.

‘O médico engessou o braço do Jean’

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Todos esses casos de DDs fracas são complexos, pois eles trazem um complemento-de.

1.2 Definidos fracos curtos

Há uma outra classe de DDs que permite leituras fracas. Elas foram primeiramente descritas por Carlson & Sussman (2005), e depois estudadas por Carlson et alii (2006), Klein et alii (2009), e Aguilar-Guevara et alii (2011) no caso do inglês, e por Corblin (2011, 2013), Aurnague (2012) e Beyssade & Simatos (prelo), para o francês. Chamamos esses exemplos de definidos fracos curtos porque eles contêm um determinante seguido de um nome, sem nenhum complemento encaixado. A leitura fraca surge somente quando a DD co-ocorre com um verbo particular ou com uma preposição específica. No entanto, essas construções são muito produtivas e seria inadequado assumir que elas são expressões idiomáticas. O símbolo *w indica que a leitura fraca não está disponível.

(9) a. He went to the hospital. *w He went to the building.

a. Ele foi para o hospital. *w Ele foi para o prédio.

b. I’ll read the newspaper. *w I’ll read the book.

b. Eu vou ler o jornal. *w Eu vou ler o livro.

c. You should see the doctor. *w You should see the nurse.

c. Você deveria ver o médico. *w Você deveria ver a enfermeira.

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O teste usado na literatura para checar se a leitura fraca está disponível, baseia-se na elipse de VP: apenas as leituras fracas dão vez a interpretações fajutas (sloppy), como em (10a):

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(10) a. Anna read the newspaper and John did, too.

a. Anna leu o jornal e John também.

(não necessariamente o mesmo jornal)

b. Anna read the book and John did, too.

b. Anna leu o livro e John também.

(necessariamente o mesmo livro)

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Corblin e Aurnargue focam os definidos fracos associados com a preposição francesa “à”. Corblin (2011) investiga uma subclasse de definidos fracos que ele denomina “definidos télicos”, nos quais as DDs co-ocorrem com verbos de localização e sujeitos animados (ver (11a- b)). Aurnargue (2012) descobriu novos exemplos associados a “rotinas sociais” (ele toma essa expressão de Vandeloise (1987)), construídos com o verbo être (“ser/estar”), nos quais um objeto (e não um lugar) está associado com uma atividade (ver (11b-c)):

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(11) a. Pierre va à l’école.

Pierre vai a a escola

‘Pierre vai para a escola’

b. Pierre {va / est} à la plage.

Pierre {vai /está} a a praia

‘Pierre vai/está na praia’

c. Pierre est au piano.

Pierre está a o piano

‘Pierre está tocando piano’

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Beyssade e Simatos (no prelo) mostram exemplos de definidos fracos associados a nomes de partes do corpo em sentenças do francês que expressam posse inalienável. Eles também investigam restrições quanto aos verbos e preposições associados com a leitura fraca dessas DDs (13):

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(12) Jean s’est cassé le bras / la jambe / le doigt.

Jean REFL quebrou o braço / a perna / o dedo

‘Jean quebrou seu braço / sua perna / seu dedo’

(13) Marie a levé / #lavé le bras.3

Marie levantou / lavou o braço

‘Marie levantou / lavou seu braço’

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Todas essas DDs fracas são curtas: são compostas somente por um determinante definido seguido por um nome, sem complementos. Note, contudo, que as leituras fracas surgem somente pela combinação com certos verbos e preposições.

2 Análises e suas limitações

Encontramos na literatura três diferentes hipóteses para explicar as leituras fracas. A primeira delas, elaborada para dar conta de DDs fracas longas, se baseia na sintaxe e assume que as DDs fracas e fortes estão associadas a duas análises sintáticas diferentes. As outras duas hipóteses foram propostas para lidar com DDs fracas curtas, e se baseiam numa ambiguidade semântica atribuída seja ao determinante definido seja ao nome.

2.1 Hipótese 1: duas formas sintáticas diferentes

Tal análise foi proposta, entre outros, por Dobrovie-Sorin (2001) e Barker (2005). Resumiremos aqui a proposta de Barker. A ideia é que um NP como em (14) é sintaticamente ambíguo e pode estar associado a duas estruturas diferentes, a depender de o nome ser interpretado como relacional ou não. No primeiro caso, o nome não relacional se combina com o complemento genitivo e o todo se combina com o determinante (como em (15a), o que dá vez a uma interpretação forte do NP associada à pressuposição de unicidade). No outro caso, o nome relacional se combina diretamente com o determinante, e o todo se combina com o complemento-de, como em (15b), o que gera a leitura fraca. (15) explicita as duas maneiras de compor o significado da descrição definida em (14):

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f = [[the]], g = [[corner]], h = [[of the intersection]]

(em português: f = [[a]], g = [[esquina]], h = [[do cruzamento]])

f g indica a composição funcional, que é distinta da aplicação funcional, em geral indicada por f(g).

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(14) the corner of the intersection a esquina do cruzamento

(15) a. f (g(h)) = the (corner (of-the-intersection))

a. f (g(h)) = a (esquina (do-cruzamento))

b. (f • g)(h) = (the corner) (of-the-intersection)

b. (f • g)(h) = (a esquina) (do-cruzamento)

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Quais são as interpretações semânticas associadas a (15a-b)? Barker explica que, no caso padrão, no qual o nome que encabeça a DD não é um nome relacional, como em ‘o homem’, um uso bem sucedido da DD é aquele que guia o ouvinte a identificar de maneira segura o indivíduo em questão. ‘O homem’ denota o homem sobre o qual o falante está dizendo algo (não a mulher, ou o cachorro) e a DD falha em denotar quando há mais de um homem no contexto. Sendo assim, no caso da leitura forte de (14), o nome ‘esquina’ primeiramente se combina com o complemento-de ‘do cruzamento’ e um uso bem sucedido de ‘a esquina do cruzamento’ é aquele que garante que o ouvinte identificará a esquina intencionada. ‘A esquina do cruzamento’ denota a esquina sobre a qual o falante está dizendo algo, e a DD falha em denotar quando há mais de uma esquina do cruzamento saliente no contexto.

De modo análogo, no caso em que o nome é relacional, como em (15b), ele se combina com o determinante definido e denota a única relação sobre a qual o falante está dizendo algo. Em (14), trata-se da relação de ser esquina e não alguma outra relação espacial, como a relação de estar sobre algo ou no meio de algo. De fato, há diversos outros tipos de relações que poderiam ser utilizadas para caracterizar um aspecto do cruzamento. Segundo Barker (2005: 110), “Um uso bem sucedido de uma descrição definida é, portanto, aquele que fornece informação suficiente para que o ouvinte possa seguramente identificar o tipo de objeto intencionado. O que o falante tem em mente é uma relação única, específica, e essa especificidade é o que o determinante definido está marcando”. A relação espacial esquina define uma relação que é única. O fato de que essa relação associa diversos elementos ao complemento genitivo não é um problema; pelo contrário, ele explica a interpretação fraca. Dado que há sempre diversas esquinas num cruzamento, a ideia é considerar a classe dessas esquinas e esquecer as diferenças entre elas, que se tornam irrelevantes nesse contexto.

Para concluir, Barker propõe dar conta das diferenças entre leituras fracas e fortes em termos sintáticos. De acordo com o autor, o determinante definido não é semanticamente ambíguo. Longe disso, ele sempre dispara uma pressuposição de unicidade. No caso das leituras fracas, ainda há unicidade, mas não quanto à referência. O que é unívoco, na verdade, é seleção por contraste de uma relação e não outra. Essa análise é atraente, mas ela se aplica apenas a DDs longas, que incluem tanto um nome relacional quanto um complemento-de. Parece difícil transportar essa explicação para dar conta das leituras fracas de expressões como ‘ler o jornal’ ou ‘ir para a praia’4.

2.2 Hipótese 2: uma ambiguidade no determinante

Outra hipótese para dar conta das leituras fracas é postular que há dois determinantes definidos distintos, um que veicula uma pressuposição de unicidade, e um outro que não veicula significado algum e que pode ser analisado como um elemento expletivo.

Essa hipótese foi defendida por Carlson et alii (2009) para as DDs fracas curtas5. Eles assumiram que definidos fracos “formam uma classe específica de (aparentes) descrições definidas que compartilham uma semântica com (ao menos) os singulares nus contáveis, mas provavelmente não com definidos” (Carlson et alii, 2006: 179). Eles então propõem analisar os definidos fracos como um caso de incorporação semântica, e, para justificar sua proposta, salientam diversas propriedades compartilhadas por DDs fracas e por NPs incorporados: 1) ambos são não-específicos, 2) ambos são interpretados como indefinidos com escopo estreito e não interagem com o escopo de outros operadores lógicos presentes numa mesma sentenças, 3) ambos veiculam uma interpretação neutra para número, que é uma interpretação existencial e nunca genérica. Além disso, definidos fracos e singulares nus nunca ocorrem no mesmo contexto (go to school / *w go to the school, *w listen to radio / listen to the radio; em português ‘ir a escola / ir para a escola’, ‘escutar rádio / escutar o rádio’ 6 ). Essa análise em termos de incorporação explica tanto a falta da pressuposição de unicidade (neutralidade para número) quanto o enriquecimento do significado semântico, que é um traço bastante típico das estruturas de incorporação.

Para concluir, Carlson et alii assumem que há dois determinantes definidos: de um lado, o artigo definido padrão, que dispara a pressuposição de unicidade; e, de outro lado, o artigo expletivo. Essa análise é atraente, mas deixa em aberto diferentes questões: por que as DDs fracas são usadas em inglês, em vez de simplesmente se usar o singular nu, e como dar conta das restrições lexicais associadas às DDs fracas? Além disso, se o determinante é ambíguo, cada ocorrência de uma DD deveria dar vez a duas leituras, uma forte e uma fraca, o que claramente não é o caso.

2.3 Hipótese 3: uma ambiguidade no nome

A última hipótese para dar conta das leituras fracas baseia-se na ideia de que os nomes são ambíguos e podem denotar tanto objetos quanto espécies. Ela foi elaborada por Aguilar-Guevara & Zwarts (2011) para dar conta de DDs fracas curtas, como em ‘o hospital’ no VP ‘ir ao hospital’ A ideia principal é que os definidos fracos nessas expressões não denotam objetos específicos, mas sim instanciações de espécies específicas. Para dar conta das restrições lexicais e do enriquecimento semântico que caracterizam as leituras fracas, Aguilar-Guevara & Zwarts usam um predicado de dois lugares, notado por U, que se refere a eventos de uso estereotípico associados com o nome. Seguindo Parsons (1990), eles consideram que as sentenças descrevem eventos e propõem (17) para dar conta das duas leituras de (16):

(16) John goes to the hospital. John vai ao hospital.

(17)

a. Ǝe[ir-para(e) ^ Agente(e)=john ^ Ǝx[hospital(x) ^ Goal(e)=x]]

b. Ǝe[ir-para(e) ^ Agente(e)=john ^ Ǝx[hospital(x) ^

Goal(e)=xi ^ U(e,hospitalk)]

(17a) representa a leitura forte, em que x denota um objeto (um hospital), ao passo que (17b) corresponde à leitura fraca, na qual ‘hospitalk’ denota a espécie ‘hospital’ e xi denota um objeto – neste caso, uma instanciação da espécie ‘hospital’. xi não é necessariamente um hospital conhecido pelo falante ou pelo ouvinte, mas ainda é um hospital concreto, não a espécie abstrata ‘hospital’.

O predicado U em (17b) é usado para dar conta das restrições lexicais e do enriquecimento semântico associados às leituras fracas. A ideia é que λe[U(e,hospitalk)] é o conjunto de todos os eventos estereotípicos para hospitais. Se a intersecção entre esse conjunto e o conjunto de todos os eventos de ir-para não é vazia, então há um evento e tal que e é um evento de ir-para um hospital e é usado em sua função estereotípica. Uma das funções estereotípicas de um hospital é curar pacientes. Portanto, em (17b), U(e,hospitalk) indica o enriquecimento semântico associado com a leitura fraca.

O segundo papel desse predicado é dar conta das restrições lexicais das leituras fracas. Muitas associações verbo-nome nunca ensejam leituras fracas, simplesmente porque não há uma sobreposição entre os conjuntos associados ao verbo e aquele associado aos eventos estereotípicos ligados ao termo que denota uma espécie. Por exemplo, ‘pintar o hospital’ não permite uma leitura fraca porque não há interseção entre o conjunto de eventos estereotípicos para hospital e o conjunto dos eventos de pintar.

Essa análise também explica por que definidos fracos são compatíveis com interpretação fajutas (sloppy) no caso de elipses de VP: a DD fraca não se refere a um objeto que tem que ser o mesmo na oração principal e na elipse, mas sim a uma instanciação de uma espécie, que pode variar. Embora essa análise seja muito atraente, ela tem ao menos três problemas. Em primeiro lugar, parece difícil assumir que, no caso das leituras fracas associadas a nomes que denotam partes do corpo, como (12), os NPs ‘a perna de João’ e ‘o braço da Maria’ denotam espécies. Em segundo lugar, Anscombre (2012) mostra que a lista de expressões em francês que compõem DDs com leituras fracas e que denotam partes do corpo é muito extensa e inclui uma série de expressões metafóricas (ver (18)); para esses casos, seria ad hoc assumir que o nome para a parte do corpo é usado de modo estereotípico. O significado dessas expressões é frequentemente não-composicional, mas o uso de uma DD fraca que inclui um nome para partes do corpo é bastante regular:

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(18) ne pas lever le petit doigt, tenir la jambe, avoir la main leste, avoir à l’œil, avoir l’œil, retirer une épine du pied, se mettre le doigt dans l’oeil, faire la sourde oreille, avoir l’oreille fine, tendre / prêter l’oreille, avoir la dent dure, froncer le sourcil, avoir le cheveu rare, lever le coude...

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E, finalmente, não vemos como estender essa análise para lidar com DDs fracas longas, do tipo ‘o aluno de um linguista’ ou ‘o filho de um camponês’. Como usar o predicado U para dar conta da diferença entre intepretações fortes e fracas nesses casos?

Para concluir esse panorama das análises dos definidos fracos, gostaríamos de insistir em dois pontos: em primeiro lugar, todas elas foram elaboradas para dar conta de apenas uma das classes de definidos fracos e parece difícil estendê-las para lidar com a outra. Além disso, elas deixam de lado uma importante propriedade dos definidos fracos, compartilhada pelos definidos fracos curtos e longos, que é o fato de eles serem usados em contextos em que são interpretados como descrições atributivas e não como referenciais.

3 Nova proposta

Nossa proposta ancora-se em duas ideias: (i) a afirmação de que a pressuposição de unicidade das DDs deve ser substituída por uma pressuposição mais fraca, segundo a qual a unicidade depende da existência e (ii) a afirmação de que o artigo definido das DDs fracas se combina com um sintagma nominal (N0 ou N’) que é interpretado como um nome que denota um tipo (type), e não como um nome que denota uma ocorrência (token).

3.1 De volta à pressuposição de unicidade do determinante definido

A ideia de que as DDs pressupõem a existência e a unicidade de seus referentes tem sido regularmente discutida. Há pelo menos quatro tipos de contextos nos quais as DDs não pressupõem nem existência nem unicidade. O primeiro caso corresponde às DDs atributivas, que ocorrem em posição de predicado, como em (19):

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(19) 1000 is the biggest even number.

1000 é o maior número par.

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Não há o maior número par. Portanto, se a DD estiver associada a uma pressuposição, (19) deveria exemplificar uma falha de pressuposição e a sentença não deveria ser nem verdadeira nem falsa. Mas (19) é claramente falsa. Logo, pode-se argumentar que em (19) a DD não pressupõe a existência de seu referente.

Coppock e Beaver (2012) encontram outro tipo de contexto em que a DD é apropriada embora ela não pareça pressupor a unicidade de seu referente. É o caso de quando o determinante definido se combina com um termo exclusivo como ‘sole’ e ‘only’, em inglês, e ‘único’ em português:

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(20) a. John is the sole/only author.

a. John é o único autor.

b. John is not the sole/only author.

b. John não é o único autor.

c. Is John the sole/only author?

c. John é o único autor?

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Se (20a) afirma que há um único autor, (20b) implica que há mais de um autor e a questão em (20c) pode ser usada somente se o falante considera a possibilidade de que haja mais de um autor. Logo, num primeiro olhar, (20a-c) não pressupõem a unicidade do referente da DD. É justamente o contrário, e Coppock & Beaver afirmam que construções como as em (20) ilustram um efeito de anti-unicidade. Mas se analisarmos esses exemplos com mais cuidado a unicidade da DD ‘o único autor’ não é, em si, problemática. Em certo sentido, ela é até mesmo tautológica: ser o único N significa ser o único enquanto N. O que é problemático é a existência de ‘o único autor’: (20b) afirma que não há autores, mas somente coautores, e (20c) endereça a questão da existência de um autor.

Corblin (2001) fornece outros exemplos, em francês, que desafiam a pressuposição de unicidade geralmente atribuída às DDs. Exemplos como os de (21) são facilmente interpretáveis e implicam que Pierre tem dois amigos, e não apenas um:

(21)

a. Un ami de Pierre vendit sa voiture à un autre de ses amis. L’ami de Pierre partait au Canada et ne pouvait emporter sa voiture.

Um amigo de Pierre vendeu seu carro para um outro de seus amigos. O amigo de Pierre se estava se mudando para o Canadá e não poderia levar o carro consigo.

b. Un ami de Pierre vendit sa voiture à un autre de ses amis. L’ami de Pierre en fut satisfait.

Um amigo de Pierre vendeu seu carro para um outro de seus amigos. O amigo de Pierre ficou satisfeito com ela.

Finalmente, todos os exemplos de definidos fracos listados na Introdução também desafiam a pressuposição de unicidade. Para dar conta de todos esses exemplos, assumimos, com Coppock e Beaver7, que as DDs não disparem pressuposição de unicidade, mas apenas uma pressuposição mais fraca, em que a unicidade é independente da existência. Porém, para lidar com o caso das DDs fracas, reformulamos a proposta dos autores, e introduzimos a diferença entre tipo (type) e ocorrência (token). Então, substituímos (22) pelas formulações dadas em (23): (23a) e (23b) são equivalentes, (23b) é o contrapositivo de (23a)8.

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(22) A DD ‘o N’ pressupõe que se há um N, então há apenas um N.

(23)

a. A DD ‘o N’ pressupõe que se N denota uma ocorrência (token), então, se há um N, há apenas um N.

b. A DD ‘o N’ pressupõe que se há mais de um N, então N não denota uma ocorrência (token).

3.2 The derivation of weak and strong readings

Assumimos que as DDs fracas e fortes não estão associadas a duas análises sintáticas diferentes: em ambos os casos, o complemento-de modifica o nome comum e o todo é especificado pelo determinante definido. Assumimos também que há apenas um determinante definido, que veicula o mesmo significado e a mesma pressuposição. Nossa afirmação é que a diferença entre leituras fracas e fortes vêm da interpretação do nome. Em contextos nos quais há mais de uma ocorrência (token) que satisfaz a propriedade denotada por N’ (N ou N e seu complemento), N’ tem que ser interpretado como uma expressão que denota um tipo (type). Trata-se, por assim dizer, de um caso de coerção.

Leituras fortes correspondem a casos em que a existência de um referente para a DD é dada no contexto pela asserção do evento. Dado que o evento existe, os vários participantes desse evento, que são realizados como argumentos na sentença, também existem. O efeito de unicidade é diretamente derivado da combinação da asserção de existência com a pressuposição de unicidade fraca dada em (23).

Leituras fracas correspondem a casos em que não há uma ocorrência única (token) que a DD possa denotar. A interpretação fraca resulta da aplicação da pressuposição de unicidade fraca em tal contexto. Como já se sabe que um carro tem mais de uma lateral, uma mulher tem mais de um braço e um cruzamento tem mais de uma esquina, podemos derivar de (23b) que as DDs em (24) não denotam ocorrências (tokens). A única maneira de interpretá-las é como expressões que denotam tipos (types):

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(24) a. I damaged the wing of a car / of your car.

a. Eu estraguei a lateral de um carro / do seu carro.

b. Marie s’est cassé le bras

b. Marie quebrou o braço.

c. I usually had breakfast at the corner of a major intersection.

c. Eu geralmente tomava o café da manhã na esquina de um cruzamento importante.

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Várias consequências se seguem desta proposta. Em primeiro lugar, nos contextos em que as leituras fracas aparecem, definidos e indefinidos podem se alternar sem alterações no significado. O ponto aqui é que o que é verdade para um tipo (type) é também verdade para pelo menos uma ocorrência (token), que instancia o tipo (type). Por isso, se a sentença que inclui uma DD fraca é verdadeira, a mesma sentença com uma descrição indefinida no lugar da DD também será verdadeira.

Em segundo lugar, as DDs fracas tem algo de genérico. De fato, em contextos nos quais as leituras fracas aparecem, há mais de uma ocorrência (token) que satisfaz a DD e o determinante definido é usado para alternar entre ocorrências (tokens) e o tipo (type) que agrupa tais ocorrências e as apresenta como indistinguíveis. Para poder construir um tipo (type), o falante apaga as diferenças entre as várias ocorrências (tokens), considerando-as irrelevantes. O mesmo processo é usado para alternar de ocorrências para espécies: uma espécie agrupa ocorrências cujas diferenças são apagadas para salientar a propriedade que elas têm em comum: elas pertencem a um tipo. Tipos e espécies compartilham a propriedade de ter instanciações, e de serem estruturadas em taxonomias e não em reticulados. Mas a diferença é que as espécies são construídas no léxico, ao passo que os tipos são construídos na sintaxe.

Em terceiro lugar, podemos observar que há contextos em que uma descrição definida é usada para denotar tanto um tipo quanto várias ocorrências. Esse é o caso de NPs construídos como ‘mesmo’ (same, em inglês), visto em (25). (25) é ambígua, e pode significar tanto que há uma única camisa (como ocorrência) que John e Mary vestem sucessivamente, ou que eles vestem duas camisas diferentes (como ocorrências) e que elas são duas ocorrências de um mesmo tipo de camisa:

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(25) John and Mary wear the same T-shirt. John e Mary vestem a mesma camisa.

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E, finalmente, parece que os contextos nos quais as DDs fracas ocorrem são exatamente os contextos aos quais se aplica o princípio de “maximizar pressuposição” 9. Cada tipo, exatamente como cada espécie, é um elemento maximal, pois denota um conjunto unitário. O uso de um determinante definido é obrigatório porque o uso de um indefinido daria vez a uma anti-pressuposição de que há mais de um referente para a DD, o que implicaria que a DD não denota um tipo. Podemos traçar um paralelo entre os contrastes dados em (26a), visto em Heim (1991), e (26b). A descrição indefinida em (26b) não tem uma interpretação na qual denota o tipo. Ela pode apenas ser interpretada como denotando uma ocorrência, com um significado partitivo que corresponde a “um dos alunos de um linguista particular”:

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(26) a. * a father of the victim / the father of the victim

a. * um pai da vítima / o pai da vítima

b. * a student of a linguist / the student of a linguist

b. * um aluno de um linguista / o aluno de um linguista

Conclusão

Em resumo, argumentamos a favor de duas ideias principais: (i) que o artigo definido contribui apenas com uma pressuposição de unicidade fraca, na qual a unicidade depende da existência; (ii) as DDs fracas são usadas para denotar ou nomear tipos.

Mostramos que o determinante definido é licenciado (e mesmo frequentemente obrigatório) em contextos nos quais o falante quer alternar de ocorrências para tipos. Ele apresenta as diferenças entre as ocorrências como irrelevantes e usa o nome para poder denotar um tipo. A hipótese da pressuposição de unicidade fraca dá conta do fato de que definidos fortes pressupõem existência e unicidade, de que definidos fracos não pressupõem a unicidade de ocorrências e de que definidos atributivos (em posição de predicado) não pressupõem existência.

Referências

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