Resumo

Este artigo apresenta uma análise dos definidos fracos (por exemplo, ‘atender o telefone’) como introduzidos por Carlson e Sussman (2005). A proposta é que esses definidos se referem a espécies (kinds), que são instanciados por indivíduos comuns quando combinados com predicados de objeto (object-level predicates). Essa combinação é possível mediante uma regra lexical que eleva predicados de objeto para predicados de kind (kind-level predicates), e que incorpora em sua denotação um predicado que representa usos estereótipos de espécies (kinds). Essa análise dá conta da maioria das propriedades peculiares dos definidos fracos.

Introdução

Definidos fracos, como ‘atender o telefone’, ‘pegar o trem’ e ‘ir para o hospital’, são definidos que não se referem a indivíduos univocamente identificáveis (Carlson e Sussman, 2005). Por conta disso, eles podem descrever sem problemas contextos em que mais de uma entidade satisfaz seu conteúdo descritivo. Por exemplo, a sentença (1) é um relato fiel de uma situação em que Lola viajou de trem de Amsterdam para Nijmegen e fez uma baldeação no meio do caminho (por exemplo, ela pegou dois trens, um de Amsterdam para Utrecht e um outro de Utrecht para Nijmegen):

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(1) Lola took the train from Amsterdam to Nijmegen. Lola pegou o trem de Amsterdam para Nijmegen.

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Outra consequência da falta de unicidade é que definidos fracos, (2a), em contraste com definidos regulares (2b), têm leituras de identidade fajuta (sloppy identity) em contextos elípticos. De agora em diante, usaremos o símbolo # para indicar que um definido não recebe uma leitura fraca:

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(2) a. Lola went to the hospital and Alice did too.

a. Lola foi pro hospital e Alice também.

(Lola e Alice podem ter ido para diferentes hotéis)

b. Lola went to #the hotel and Alice did too.

b. Lola foi para #o hotel e Alice também.1

(Lola e Alice têm que ter ido para hotéis diferentes)

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Além da referência não-unívoca e da identidade fajuta, os definidos fracos apresentam também as seguintes propriedades especiais (também originalmente descritas por Carlson e Sussman, 2005). Em primeiro lugar, eles recebem interpretação de “escopo estreito” quando interagem com expressões quantificadas:

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(3) a. Every boxer was sent to the hospital

a. Todos os boxeadores foram mandados para o hospital.

(Cada boxeador foi mandado para um hospital diferente)

b. Every boxer was sent to #the hotel.

b. Todos os boxeadores foram mandados para #o hotel.2

(Todos os boxeadores foram mandados para o mesmo hotel)

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Em segundo lugar, definidos fracos apresentam restrições lexicais: nem todo nome pode ocorrer numa configuração típica de definido fraco (4) e nem todo verbo pode comandar um definido fraco (5):

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(4) a. Martha listened to the radio.

a. Martha ouviu o rádio.

b. Martha listened to #the walkie talkie.

b. Martha ouviu #o walk-talkie.

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(5) a. Martha listened to the radio.

a. Martha ouviu o rádio.

b. Martha fixed #the radio.

b. Martha arrumou #o rádio.

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Definidos fracos também apresentam restrições com relação à modificação. Normalmente, a leitura fraca desaparece se os nomes são modificados (6a); somente uns poucos adjetivos que estabelecem subtipos de objetos são aceitos (6b):

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(6) a. Lola went to #the old hospital.

a. Lola foi para #o hospital velho.

b. Lola went to the psychiatric hospital.

b. Lola foi para o hospital psiquiátrico.

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Definidos fracos tipicamente ocorrem na posição de objeto de verbos e de preposições (7). Quando os mesmos definidos ocorrem como sujeitos de sentenças episódicas, eles somente podem ser interpretados como definidos específicos (8):

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(7) Martha was sent to the hospital.

Martha foi levada para o hospital.

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(8) #The hospital was closed today.

#O hospital foi fechado hoje.

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Por outro lado, os mesmos definidos que podem ser interpretados como definidos fracos nas configurações adequadas podem também aparecer em sentenças genéricas:

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(9) The hospital is where you go to get healthy.

O hospital é para onde você vai para se curar.

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Há algumas outras similaridades entre as interpretações fracas e genéricas de definidos. Por exemplo, definidos genéricos também não aceitam modificação ((10)), a não ser que sejam modificados por adjetivos que resultem em subclasses de objetos ((11)):

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(10) ?? The old hospital is where you go to get healthy.

?? O hospital velho é onde você vai para se curar.

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(11) The public hospital is where you go to get healthy.

O hospital público é onde você para se curar.

Por sua vez, e em contraste com os definidos genéricos, as sentenças que contêm definidos fracos normalmente têm um significado enriquecido, ou seja, elas carregam mais informação do que o que é veiculado pela simples composição de seus constituintes:

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(12) Eva called the doctor = Eva called a doctor + she asked for medical assistance.

Eva chamou o médico = Eva chamou um médico + ela pediu assistência médica.

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Os definidos fracos parecem ser insuficientes para estabeler um referente discursivo. Isso se reflete na aceitabilidade problemática dos definidos fracos como antecedentes de expressões anafóricas:

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(13) Lola listened to the radioi until she fell asleep. ? She turned iti off when she woke up in the middle of the night.

Lola ouviu o rádioi até adormecer. ? Ela oi desligou quanto acordou no meio da noite.

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Finalmente, definidos fracos estão em distribuição complementar com os nominais singulares nus ilustrados abaixo (Stvan, 1998, 2009):

(14) a. The ship is at sea/port.

a. O navio está em Ø mar/porto.3

b. He’s in bed/jail/prison/church.

b. Ele está em Ø cama/cadeia/prisão/igreja.

c. I watched television this weekend.

c. Eu assisti Ø televisão essa semana.

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Esses nominais (de agora em diante, singulares nus) apresentam a maioria das propriedades dos definidos fracos. Apresentam também identidade fajuta em sentenças com elipse de VP (15) e interpretações de escopo estreito em sentenças quantificadas (16). Além disso, nem todos os nomes podem ocorrer nus (17) e nem todo predicado pode comandar um singular nu (18). Do mesmo modo, a modificação torna os singulares nus agramaticais (19a), embora alguns modificadores, que resultam em subclasses de objetos, sejam permitidos (19b). Singulares nus em posição de sujeito de sentenças episódicas são normalmente inaceitáveis (20). Eles são possíveis como sujeitos de sentenças genéricas (21), mas com restrições. Singulares nus não funcionam bem como antecedentes de expressões anafóricas (22). Finalmente, sentenças com singulares nus apresentam significados enriquecidos (23):

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(15) Alice is in jail and Lola too.

Alice está em cana e Lola também.

(Alice e Lola podem estar em cadeias diferentes)

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(16) Every boxer is in jail.

Todos os boxeadores estão em cana.

(Cada boxeador pode estar numa cadeia diferente)

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(17) *Alice is in cage.

*Alice está em jaula.

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(18) *Alice is behind prison.

*Alice está atrás prisão.

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(19) a. *Alice is in old prison.

a. *Alice está em prisão velha.

b. Alice is in military prison.

b. Alice está em Ø prisão militar.

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(20) *Jail was full last year.

*Cadeia estava cheia ano passado.

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(21) Jail is not a nice place to be for a young woman.

Cadeia não é um lugar legal para uma jovem mulher.

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(22) ?? Alice is in jaili but she thinks that iti will be demolished soon.

?? Alice está em canai, mas ela acha que elai será demolida em breve.

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(23) Alicia is in jail. = Alicia is in a jail + she is imprisoned.

Alice está em cana = Alice está numa cadeia + ela está presa.

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Há pelo menos três boas razões para estudarmos os definidos fracos. Em primeiro lugar, eles desafiam a assunção bem estabelecida de que os definidos se referem a entidades únicas. Em segundo lugar, suas propriedades especiais formam um intrigante quebra-cabeça semântico com relação ao modo pelo qual fatores composicionais, lexicais e pragmáticos interagem. Finalmente, dado que as propriedades dos definidos fracos são também apresentadas por singulares nus, o estudo dos definidos fracos pode também ajudar no entendimento destas outras construções.

Este artigo apresenta uma análise dos definidos fracos que tem por objetivo dar conta das peculiaridades listadas acima. Trata-se de uma versão mais elaborada da abordagem apresentada em Aguilar-Guevara e Zwarts (2010), que é a base de Aguilar-Guevara (2013)4. A proposta, em resumo, é que definidos fracos se referem a espécies instanciadas por objetos quando elas se combinam com predicados de objeto (objet- level predicates). Tal combinação é possível devido a uma regra lexical que eleva os predicados de objeto a predicados de espécies – considerando que espécies são instanciadas através da relação de realização proposta por Carlson (1977) – e que incorpora na denotação das versões elevadas dos predicados uma relação que corresponde aos usos estereotípicos das espécies.

Este artigo está organizado do seguinte modo: na seção 1, explicitaremos a semântica a ser adotada para o artigo definido que aparece nos definidos fracos; a seção 2 discute como definidos fracos se referem a espécies; a seção 3 discute como as espécies denotadas por definidos fracos são instanciadas, o que permitirá a elaboração das formas lógicas das sentenças com definidos fracos na seção 4. Feito isso, a seção 5 discute os usos estereotípicos das espécies e como eles são capturados na forma lógica das sentenças com definidos fracos. A seção 6 discute como acontece a combinação entre definidos fracos e predicados de objeto. A conclusão resume nossas afirmações principais e discute as virtudes desta análise, bem como suas desvantagens e algumas outras questões em aberto.

1 O significado do artigo definido

Há duas linhas principais de pensamento com relação ao significado do artigo definido. Uma delas, iniciada por Frege (1892), Russell (1905) e Strawson (1950) e seguida por autores contemporâneos como Hawkins (1991), Abbott (1999) e parcialmente por Farkas (2002) e Schwarz (2009), pode ser resumida na seguinte condição:

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(24) Condição de Unicidade

Um definido é feliz se há uma e apenas uma entidade no contexto que satisfaça seu conteúdo descritivo.

A outra linha de pensamento, proposta por Heim (1982), Kamp (1981) e parcialmente seguida por Roberts (2003) e Schwarz (2009), pode ser resumida na seguinte condição:

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(25) Condição de Familiaridade

Um definido é feliz somente se a existência de seu referente é presumivelmente conhecida pelo ouvinte.

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A maioria das abordagens contemporâneas dos definidos opta ou pela unicidade ou pela familiaridade (ver as referências acima). Contudo, mais recentemente, alguns autores passaram a perseguir uma combinação de ambas as abordagens (e.g. Farkas, 2002; Roberts, 2003) e alguns autores adotaram ambas para dar conta dos diferentes usos dos definidos (e.g. Schwarz, 2009).

Não é nosso objetivo neste trabalho avaliar essas abordagens. Em vez disso, simplesmente assumiremos que o artigo definido presente nos definidos fracos é o mesmo que ocorre em, pelo menos, uma parte dos definidos comuns e que ele veicula unicidade.5

Para além das motivações conhecidas que são dadas a favor de uma abordagem pela unicidade, temos mais uma, relacionada ao modo como os definidos fracos são expressos em alguns dialetos do alemão. Nesses casos, quando uma preposição precede um artigo definido (e.g., zu dem Haus ‘para a casa’), o artigo pode ser reduzido por diversas razões (e.g., zum Haus ‘para a casa’) (Cieschinger, 2006; Puig-Waldmüller, 2008; Schwarz, 2009). Uma das razões para tanto é a expressão da definitude fraca. Schwarz notou que, se o artigo definido não é reduzido nesses contextos, a leitura fraca do definido não está disponível:

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(26) Maria ging zum/zu #dem Supermarkt. (Schwarz, 2009)

Maria foi a-o/a o supermercado

Maria foi ao mercado.

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É interessante notar que algo semelhante acontece com os usos genéricos dos definidos. A sentença seguinte, que não faz afirmações sobre uma zebra específica, mas sim sobre a espécie zebra, somente é aceitável se o artigo definido estiver em sua forma reduzida:

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(27) Am/#an dem Zebra kann man sehen, dass die Natur symmetrisch ist. (Schwarz, 2009)

em-a/em a zebra pode se ver que a natureza simétrica é

A zebra nos mostra que a natureza é simétrica.

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Schwarz atribui um significado pressuposicional, baseado em unicidade, para a forma reduzida. Sua análise lida explicitamente apenas com definidos que se referem a indivíduos comuns únicos e ele deixa a análise de definidos genéricos e fracos para trabalhos futuros. Do nosso ponto de vista, as duas únicas suposições necessárias para estender a análise de Schwarz a esses casos são simplesmente, de um lado, (i) que ambos (os definidos fracos e os genéricos) se referem univocamente a espécies e, é claro, (ii) que a denotação para o artigo definido que ele propõe possa também interagir com espécies.

Antes de analisarmos definidos genéricos e espécies, apresentamos em (28) a denotação que será adotada para o artigo definido singular. Essa denotação corresponde a uma função de propriedades para valores de verdade que pressupõe que uma entidade x é o único indivíduo na extensão da propriedade P. Seguindo Partee (1986), a unicidade é indicada por meio do operador iota:

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(28) [[o]] = λPιx.P(x)

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Se combinarmos, através de Aplicação Funcional, a denotação de ‘o’ com a de um nome comum como ‘balão’, que denota, nesse contexto, uma propriedade de indivíduos, teremos uma expressão do tipo e, que corresponde ao único indivíduo que tem a propriedade de indicada por ‘balão’:

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(29) a. [[o]] = λPιx.P(x)

b. [[balão]] = λx.Balão(x)

c. [[o balão]] = [[λPιx.P(x)]] ([[λx.Balão(x)]]) via AF (Aplicação Funcional)

= ιx.Balão(x)

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Em definidos comuns, como ‘o balão’, os nomes denotam conjuntos de indivíduos “ordinários”/“comuns”. Contudo, como veremos na próxima seção, nomes também podem denotar conjuntos de espécies.

2 Referência a espécies

Espécies podem ser definidas como objetos abstratos, representativos de um grupo de indivíduos com características semelhantes. Desde Carlson (1977), assume-se comumente que NPs podem se referir a espécies (e subespécies) para além de indivíduos ordinários. A partir de então, inúmeros autores estudaram como essa referência é estabelecida pelos diferentes tipos de NPs em uma grande diversidade de contextos (ver Carlson, 1977; Chierchia, 1998; Ojeda, 1991; Krifka et alii, 1995; Guerts, 2001; Cohen, 2002, 2005; Dayal, 2004; Krifka, 2004; Katz e Zamparelli, 2005; Farkas e de Swart, 2007; Dobrovie-Sorin e Pires de Oliveira, 2008; Mueller-Reichau, 2012; Borik e Espinal, 2012, entre vários outros). As sentenças abaixo ilustram essa diversidade através de diferentes tipos de predicados verbais e, crucialmente, através de diferentes tipos de NPs que se referem a espécies (em negrito): plurais nus, indefinidos e definidos:

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(30) a. Women are good managers.

a. Mulheres são excelentes administradores.

b. Thomas Stewart had invented a clamping mop that could wring the water out of itself by the use of a lever.

b. Thomas Stewart inventou um esfregão de aperto que pode ser seco pelo uso de uma alavanca.

c. The whale eats lots of fish and krill in order to fatten up for its long trip to its mating grounds.

c. A baleia come muito peixe e krill para poder engordar para sua longa viagem às regiões de acasalamento.

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No que segue, nosso foco estará nos definidos genéricos ilustrados em (30c) e, mais extensamente, pelos exemplos em (31):

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(31) a. The Dutchman is a good sailor.

a. O holandês é um bom navegador.

b. Shockley invented the transistor.

b. Shockley inventou o transistor.

c. The potato genome contains 12 chromosomes and 860 million base pairs making it a medium-sized plant genome.

c. O genoma da batata contém 12 cromossomos e 860 milhões de pares de base, o que o faz um genoma de planta de tamanho médio.

d. Context : In the zoo.

Sentence: Look children! This is the reticulated giraffe.

d. Contexto: No zoológico.

Sentença: Vejam crianças! Essa é a girafa-reticulada.

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É essencial entender o significado dos definidos genéricos para nossos propósitos porque, como vimos, há um paralelismo entre definidos genéricos e fracos. Tal paralelismo motiva fortemente nossa teoria de definidos fracos.

2.1 Definidos genéricos e referência a espécies

Os definidos genéricos receberam muito menos atenção que outras expressões que se referem a espécies, em especial os plurais nus. Contudo, trabalhos como os de Ojeda (1991); Chierchia (1998); Dayal (2003, 2004, 2011, 2013); Krifka (2004); Beyssade (2005); Farkas e de Swart (2007); Borik e Espinal (2012) são exemplos de tentativas interessantes de entender a distribuição e o significado dos definidos genéricos, bem como de diferenciar as espécies a que eles se referem das espécies denotadas por plurais nus.

Seguindo Dayal (2004); Krifka (2004); Farkas e de Swart (2007); Borik e Espinal (2012), assumimos que o significado do definido genérico resulta da combinação do artigo definido, que veicula unicidade, e de nomes que denotam propriedades de espécies, que são concebidas como indivíduos atômicos.6 De acordo com essa análise, a denotação de um definido genérico como ‘a baleia’ (em (30c)) corresponde à única espécie da qual a propriedade de ser baleia é o caso (o único membro do conjunto unitário {B}). Essa denotação é abreviada com uma letra maiúscula em negrito:

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(32) [[a baleia]] = ιxk.Baleia(xk)

= B

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Por mais simples e intuitiva que essa denotação possa ser, há algumas coisas a serem ditas sobre ela. A primeira dessas coisas é que essa denotação obviamente implica que o operador iota representado pelo artigo definido pode prender variáveis do tipo espécie para além de variáveis para indivíduos ordinários. Essa é uma suposição intuitiva, dado que não há nenhuma razão para que esse operador, assim como os quantificadores existencial e universal, não possam prender variáveis de diferentes tipos.

A segunda coisa a ser dita é que a definição adotada implica que os NPs podem operar no nível tanto de espécies quanto de indivíduos ordinários. Isso foi independentemente assumido para dar conta de outros fenômenos que não tem nada a ver com os definidos genéricos, como a incorporação e a pseudo-incorporação em diversas línguas (ver, por exemplo, Dayal, 2003, 2011; Espinal e McNally, 2011; McNally e Boleda, 2004; Dobrovie-Sorin e Pires de Oliveira, 2008). Na literatura, foram propostas pelo menos três maneiras diferentes para explicar a capacidade dos nomes de operar nos níveis de espécie e de indivíduo. Uma delas é assumir que os nomes sistematicamente denotam propriedades de indivíduos ordinários e propriedades de espécies; essa ideia encontra respaldo em Dayal (2004) e Farkas e de Swart (2007). Outra possibilidade, proposta por Borik e Espinal (2012), é assumir que nomes denotam propriedades de espécies e que a projeção de número (NumP) adiciona o nível dos indivíduos. A ideia é que, quando essa projeção não está presente – e é isso que elas argumentam que acontece com os definidos genéricos –, o nível das espécies é o único disponível. A terceira possibilidade, defendida por McNally e Boleda (2004), é que a denotação dos nomes inclui, ao mesmo tempo, tanto um argumento para indivíduos quanto um para espécies.7 Avaliar em detalhes as vantagens dessas três possibilidades está além dos propósitos deste texto. Em vez disso, por razões de simplicidade, adotaremos a primeira alternativa: nomes são ambíguos entre denotação de espécies e de objetos.8

A última coisa a ser dita sobre a denotação assumida para os definidos genéricos tem a ver com as condições nas quais esses definidos são aceitáveis. Sabemos que, pelo menos em inglês, os definidos genéricos não são muito produtivos. Considere os exemplos clássicos em (33), que Carlson (1977) atribui a Barbara Partee.

(33) a. The Coke bottle has a long neck.

a. A garrafa de Coca tem um gargalo longo.

b. #The green bottle has a long neck.

b. #A garrafa verde tem um gargalo longo.

Com base nesses exemplos, Carlson propõe que definidos genéricos designam apenas conceitos bem estabelecidos. Sendo assim, garrafas de Coca constituem um conceito bem definido, ao passo que esse não é o caso com garrafas verdes, e essa diferença explica o contraste acima. Dayal (2004) argumenta que essa explicação não está correta, pois manipulações contextuais podem, em princípio, permitir que qualquer definido seja aceitável com uma interpretação genérica. Como exemplo, ela descreve um contexto no qual uma fábrica produz dois tipos de garrafa, uma que é verde e que tem fins medicinais, e uma que é branca, usada para cosméticos. Nesse contexto, o definido em (33b) iria perfeitamente se referir a uma espécie.

Acreditamos que, num nível mais geral, as ideias de Carlson e de Dayal sobre o licenciamento de definidos genéricos são complementares, e não opostas. Acreditamos que o que licencia a leitura genérica de um definido é a presença de circunstâncias apropriadas, que levam à identificação de uma única espécie, talvez de modo semelhante ao que acontece com definidos regulares quando se referem a um único indivíduo ordinário. Nessa perspectiva, ser bem estabelecido é uma dessas circunstâncias que permitem a referência única porque o que essa característica faz é diferenciar suficientemente as espécies, do mesmo modo como acontece com alguns indivíduos “universalmente” únicos (e.g., ‘a lua’). No exemplo de ‘a garrafa de Coca’, o conhecimento de mundo nos permite interpretar o definido como se referindo a única espécie identificável com a garrafa de Coca. Por outro lado, no exemplo da garrafa verde, um contexto apropriado fornece a identificabilidade unívoca da espécie de garrafas verdes, de modo que um definido possa se referir a ela.9

Há outras maneiras de garantirmos uma referência unívoca. Uma delas é modificar os definidos com adjetivos que operam sobre espécies, como em ‘o gato persa’ em (34a) (ver McNally e Boleda, 2004; Arsenijevic et alii, 2010). Contudo, a questão passa a ser saber o que exatamente o modificador faz nesses casos. Uma opção seria dizer que o adjetivo estreita o domínio de avaliação do definido de modo a criar o efeito de unicidade. É intrigante notar, como ‘o gato francês’ mostra em (34b), que nem todo modificador funciona igualmente bem como licenciador de definidos genéricos. Isso sugere que modificadores de espécies criam espécies bem estabelecidas algumas vezes, mas nem sempre. Esse seria o caso para ‘o gato persa’, mas não para ‘o gato francês’:

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(34)

a. The Persian cat is one of the most popular breeds of cats around.

a. O gato persa é uma das raças de gato mais populares por aí.

b. ? The French cat is one of the most popular breeds of cats around.

b. ? O gato francês é uma das raças de gato mais populares por aí.

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Outra forma de chegar à referência de uma espécie univocamente identificável é se referir a espécies naturais ou artefatos sobre os quais normalmente falamos como se se tratasse de indivíduos ordinários, como ‘a piranha’ (35) ou ‘o transistor’ (36):

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(35) The piranha is a type of freshwater fish found in the rivers of the South American jungles.

A piranha é um tipo de peixe de água doce encontrado nos das florestas da América do Sul.

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(36) The transistor was invented by John Bardeen.

O transistor foi inventado por John Bardeen.

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Compare esses exemplos com outros nomes de outras espécies ou artefatos mais familiares como ‘o gato’ ou ‘a cama’, cuja interpretação genérica é menos aceitável:

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(37)

a. ? The cat is a type of pet very popular among singles.

a. ? O gato é um tipo de animal de estimação muito comum entre solteiros.

b. ? The bed was invented by Egyptians.

b. ? A cama foi inventada pelos egípcios.

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Como pode ser visto, há ainda muito a ser investigado sobre os definidos genéricos e suas condições de aceitabilidade. Em particular, a noção de ser bem estabelecido precisaria ser mais profundamente investigada, dada sua relevância não apenas para a interpretação de definidos genéricos, mas também de definidos fracos. Sobre isso, ver, por exemplo, Zwarts (2013), que discute como a identificabilidade de espécies pode ser analisada em termos de frames que podem ser cultural e contextualmente condicionados.

2.2 Definidos fracos e a referência a espécies

Depois de discutir os definidos genéricos, podemos agora passar a investigar o significado dos definidos fracos. Nossa proposta é que os definidos fracos, assim como os definidos genéricos, se referem a espécies. Assim, por exemplo, os definidos ‘o jornal’ e ‘o violino’ nas sentenças (38a) e (38b) se referem, respectivamente, a única espécie J e a única espécie V, como as denotações em (39) mostram:

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(38) a. Lola is reading the newspaper.

a. Lola está lendo o jornal.

b. Marika played the violin.

b. Marika está tocando o violino.

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(39) a. [[o jornal]] = ιxk.Jornal(xk)

= J

b. [[o violino]] = ιxk.Violino(xk)

= V

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Analisar definidos fracos como expressões que se referem a espécies dá conta de três de suas propriedades especiais. Em primeiro lugar, tal análise dá conta da principal diferença dos definidos fracos em comparação com definidos regulares: a presença de um artigo definido, apesar da falta de unicidade no nível dos indivíduos ordinários. Com um definido fraco, o que licencia a presença do artigo definido é unicidade da espécie a qual ele se refere.

A presente proposta pode também dar conta das restrições quanto aos modificadores exemplificadas em (6). Se definidos fracos denotam espécies, então os nomes que os encabeçam devem também se referir a espécies e não a indivíduos ordinários. Adjetivos como ‘velho’ são predicados de indivíduos, o que significa que eles são incompatíveis com nomes que se referem a espécies. Assim, um definido como ‘o velho hospital’ pode apenas se referir a um indivíduo ordinário. Essa explicação leva à seguinte predição: definidos fracos se combinam apenas com adjetivos que operam no nível da espécie. Nesse caso, o adjetivo se combina com um nome que se refere à espécie, gerando um NP que também denota o conjunto unário de espécies cujo único membro pode ser referido pelo artigo definido. Seguindo, McNally e Boleda (2004), um exemplo desse tipo de adjetivo seria ‘psiquiátrico’. A ideia é que em um definido como ‘o hospital psiquiátrico’, o nome ‘hospital’ se refere a um conjunto de espécies de hospital, que o adjetivo então toma e mapeia para o conjunto unário da espécie hospital psiquiátrico. A predição que definidos fracos podem se combinar somente com adjetivo do nível de espécie é confirmada pelo resultado de alguns experimentos apresentados em Aguilar-Guevera e Schulpen (2013). Esses experimentos mostram que definidos fracos modificados por adjetivos de espécie em sentenças com elipse de VP permitam leituras fajutas (sloppy) significativamente mais vezes do que definidos regulares e do que definidos fracos modificados por adjetivos de objetos.

É interessante também notar que a proposta de que os definidos fracos, assim como os definidos genéricos, se referem a espécies únicas explica a semelhança entre esses dois tipos de sintagma. Contudo, isso também leva à constatação de um problema inicial com a proposta. Compare as sentenças com definidos fracos em (38) com as seguintes sentenças genéricas:

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(40) a. The newspaper is a rich source of information.

a. O jornal é um rica fonte de informações.

b. The violin in its present form emerged in the early 16th century in Northern Italy.

b. O violino em seu formato atual surgiu no começo do século XVI, no norte da Itália.

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As sentenças genéricas em (40) contêm os predicados (supostamente) de espécie ‘fonte de informações’ e ‘surgir’ que, como tal, podem simplesmente se aplicar às espécies denotadas pelos definidos genéricos. Por outro lado, as sentenças com definidos fracos em (38) contêm os predicados de objeto (i.e., predicados nível do indivíduo ou stage-level predicates) ‘ler’ e ‘tocar’, que, como tal, não podem se aplicar a espécies. Esse problema nos leva à próxima etapa de nossa análise: determinar como as espécies denotadas por definidos fracos podem ser realizadas para poderem se combinar com predicados do nível do objeto.

3 A instanciação das espécies

Toda análise semântica que faz uso da noção de espécies precisa também considerar como essas espécies são instanciadas por indivíduos particulares. No caso dos definidos fracos, isso é necessário porque a sentença ‘Lola pegou o trem’, no fim das contas, predica sobre um evento no qual Lola interagiu diretamente com (pelo menos) um indivíduo da espécie trem e não com a própria espécie, que é uma entidade abstrata. Seguindo Carlson (1977), assumimos que essa instanciação de espécies ocorre através de uma relação de realização R, que relaciona indivíduos e as espécies das quais eles são a realização:

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(41) Relação de Realização

R(a, A) se o objeto a pertence à espécie A.

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Assim, se A é a espécie trem, então R(a, A) significa que o indivíduo a é uma realização dessa espécie, i.e., um trem. Crucialmente, essa espécie pode ser instanciada não apenas por uma entidade, mas também por uma soma de entidades. Portanto, no caso da espécie T, não apenas todo indivíduo trem é uma realização de T, mas também o é toda soma plural de trens. Isso faz com que seja possível que a sentença (42) se refira a uma situação em que Lola, na verdade, tenha tomado dois trens para ir de Amsterdam a Nijmegen. Embora haja uma pluralidade de trens no nível mais baixo de realizações, há ainda unicidade no nível mais alto das espécies:

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(42) Lola took the train from Amsterdam to Nijmegen.

Lola pegou o trem de Amsterdam para Nijmegen.

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Tendo a relação de realização ao nosso dispor, é possível ser ainda mais específico quanto à interpretação de definidos genéricos em sentenças nas quais os definidos se combinam com predicados do nível do objeto:

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(43) a. The violin has no frets to stop the strings.

a. O violino não tem trastes para parar as cordas.

b. The newspaper comes in a plastic bag when it rains.

b. O jornal vem em sacos plásticos quando chove.

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De acordo com Krifka et alii (1995), podemos dizer que a sentença (43a) veicula uma generalização sobre indivíduos que são realizações da espécie violino, ou seja, que esse indivíduos não têm trastes para parar suas cordas. Do mesmo modo, a sentença (43b) veicula uma generalização tanto sobre indivíduos que são sua realização quanto sobre a espécie jornal, e as situações nas quais suas realizações vêm quando está chovendo. A generalização, nesse caso, é que essas realizações vêm em sacos plásticos.

Para representar os significados de (43a) e (43b), usamos o operador genérico GEN, concebido como um tipo de quantificador adverbial invisível, com um significado próximo ao de ‘geralmente’. Novamente, de acordo com Krifka et alii, adotamos a representação simplificada de GEN que aparece em (44). Segundo tal representação, GEN pode atuar tanto sobre indivíduos (representados por x1... xi) quanto sobre situações (representadas por s1... si), e, como outros quantificadores adverbiais, tem um restritor e um termo matriz:

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(44) GEN [x1... xi, s1... si] (Restritor; Matriz)

.

Na representação semântica parcial de (43a), dada em (45), GEN toma realizações da espécie violino como restritor e os indivíduos que não têm trastes para parar suas cordas como matriz. Do mesmo modo, na representação de (43b), dada em (46), realizações da espécie jornal bem como situações em que eles vêm e está chovendo são parte do restritor, e indivíduos que vêm em um saco plástico são parte da matriz:

.

(45) a. The violin has no frets to stop the strings.

a. O violino não tem trastes para parar as cordas.

b. GEN [xi] (R(xi, V); xi não tem trastes para parar as cordas)

.

(30) a. The newspaper comes in a plastic bag when it rains.

b. O jornal vem em sacos plásticos quando chove.

b. GEN [xi, s] (R(xi, J) Ù chove em s Ù xi vem em s; xi vem em sacos plásticos em s)

4 Forma lógica de sentenças com definidos fracos

Vamos agora combinar os insights das seções 2 e 3 para desenvolver uma representação semântica de sentenças com os definidos fracos. Essa proposta é inspirada, em parte, pela abordagem que Dayal (2003, 2011) e Espinal e McNally (2011) dão para sentenças com singulares nus em hindu e no espanhol e no catalão, respetivamente. Dayal e Espinal e McNally tratam singulares nus como casos de pseudo-incorporação, que é o que temos quando um nome singular nu, que ocorre na posição argumental interna, compartilha propriedades semânticas com nomes sintaticamente incorporados (e.g., obrigatoriedade de escopo estrito, incapacidade de introduzir referentes discursivos, neutralidade para número e significado enriquecido), mas, ao mesmo tempo, se comportam sintaticamente de modo mais livre que esses outros nomes (e.g., eles não necessariamente ocorrem em estrita adjacência ao verbo, podem carregar marcações de caso, o verbo pode concordar com o nome, e certos tipos de modificações são permitidas). A incorporação e a pseudo-incorporação foram estudadas por inúmeros autores em diversas línguas (e.g. Baker, 1988; van Geenhoven, 1998; Carlson, 2006; Chung e Ladusaw, 2003; Dayal, 2003, 2011; Farkas e de Swart, 2003; Espinal e McNally, 2011; Massam, 2001; Mithun, 1984; Sadock, 1980; Stvan, 2009; Vázquez-Rojas Maldonado, 2009). A análise de Dayal e de Espinal e McNally são ambas baseadas na ideia de que os singulares nus denotam propriedades e não entidades. Sendo assim, eles funcionam como modificadores verbais. Os verbos, por sua vez, têm seus argumentos internos apagados por meio de um mecanismo que é diferente para cada abordagem. A semântica especial dos singulares nus, somada às condições sob as quais o apagamento do argumento interno ocorre, explica as propriedades especiais dos singulares nus.

Dado que definidos fracos compartilham propriedades com os singulares nus incorporados, parece razoável tratar os definidos fracos como casos de pseudo-incorporação. Essa sugestão foi feita por Carlson (2006) e detalhada em Schwarz (2013). Contudo, a abordagem para sentenças com definidos fracos que apresentamos aqui não envolve esse processo. Uma razão importante de não investirmos numa análise baseada em pseudo-incorporação é que ela não nos permitiria, de modo simples, atribuir um papel significativo à presença do artigo definido em definidos fracos. Outra razão é que tal análise não nos permite capturar o paralelismo entre definidos genéricos e definidos fracos. Para um argumento mais elaborado contra a análise baseada em pseudo- incorporaçaão, ver Aguilar-Guevara (2013).

Voltando à forma lógica das sentenças com definidos fracos, considere mais uma vez o exemplo de Lola lendo o jornal, repetido em (47). Pensando em termos neo-davidsonianos, podemos dizer que essa sentença expressa que Lola está envolvida em um evento de leitura com, ao menos, uma instanciação da espécie jornal. Isso pode ser representado por cada uma das duas formas apresentados em (47a) e (47b). Note que, seguindo Parsons (1990), assumimos que verbos são predicados de eventos e que papéis temáticos são funções de eventos para participantes (átomos ou somas). Por razões de simplicidade, omitimos informações sobre tempo e aspecto.

.

(47) Lola read the newspaper. Lola leu o jornal.

a. Ǝe[Ler(e) ʌ Ag(e) = lola Ù R(Th(e), N)]

b. ƎeƎxi[Ler(e) ʌ Ag(e) = lola Ù Th(e) = xi Ù R(xi, N)]

.

Tanto (47a) quanto (47b) correspondem a conjuntos de eventos de leitura em que Lola é o agente, e instanciações da espécie jornal são o tema.10 A diferença entre essas representações é que (47a), ao contrário de (47b), evita a quantificação existencial sobre realizações da espécie jornal, usando a expressão funcional Th(e) diretamente como primeiro argumento da relação de realização. Em geral, assume-se que a presença de um quantificador existencial sobre indivíduos é suficiente para o estabelecimento de referentes no discurso (Heim, 1982; Kamp, 1981; Groenendijk e Stokhof, 1990, 1991). Espinal e McNally (2011) fazem uso direto de Th(e) como o primeiro argumento da relação de realização para evitar esse tipo de quantificação e ser consistentes com a deficiência referencial de singulares nus em espanhol. A mesma estratégia é adotada em (47a), predizendo que definidos fracos não instauram referentes discursivos no nível dos indivíduos. Ao contrário, (47b) prediz que definidos fracos são referenciais nesse sentido. Assim, mesmo sendo equivalentes do ponto de vista veri-funcional, as representações em (47a) e (47b) têm propriedades discursivas diferentes, supondo que quantificadores existenciais normalmente introduzam referentes discursivos. Como o exemplo em (13) mostra, a predição de que definidos fracos são deficientes com relação aos referentes discursivos é satisfeita. Sendo assim, optamos pela forma lógica em (47a).

As características da forma lógica adotada podem ainda dar conta de outros dois aspectos dos definidos fracos. Esses aspectos são as leituras fajutas em construções com elipse de VP e interpretações de escopo estrito em sentenças com expressões quantificadas. A característica relevante da forma lógica é que as realizações individuais das espécies estão ligadas à variável de evento de modo local. Como a sentença e a forma lógica em (48) mostram, a identidade fajuta em elipses de VP ocorre porque a função Th é local com relação a cada uma das duas proposições expressas nessa sentença e porque cada uma tem seu próprio quantificador existencial de eventos:

.

(48) a. Lola read the newspaper and Alice did too.

a. Lola leu o jornal e Alice fez o mesmo.

b. Ǝe[Ler(e) ʌ R(Th(e), J) ʌ Ag(e) = lola] ʌ Ǝe’[Ler(e’) ʌ R(Th(e’), J) ʌ Ag(e’) = alice]

De modo similar, o efeito de escopo estreito se deve ao quantificador de evento ter sempre escopo estreito com relação a outros operadores que têm escopo e ao papel temático depender da variável de evento:

(49) a. Every librarian read the newspaper.

a. Todo bibliotecário leu o jornal.

b. Ɐy[Bibliotecário(y) → Ǝe[Ler(e) ʌ R(Th(e), J) ʌ Ag(e) = y]]

Apesar das vantagens da forma lógica que atribuímos às sentenças com definidos fracos, essas fórmulas ainda não são suficientes para dar conta da interpretação completa dessas sentenças. Em particular, essas formas lógicas ainda não capturam os enriquecimentos de significado. Isso nos leva ao próximo passo de nossa análise.

5 Usos estereotípicos

A sentença (50) expressa mais do que apenas ter havido um evento em que Alice vai a um local que pode ser qualificado como um hospital. Ela expressa também que, nesse evento, o propósito típico dos hospitais – providenciar serviços médicos – foi cumprido. Do mesmo modo, a sentença em (51) expressa não apenas que houve um evento em que Alice examina um objeto que é classificado como um calendário. Veicula, além disso, que o que ela fez foi se beneficiar do propósito estereotípico dos calendários: fornecer informações com relação à disponibilidade de uma pessoa ou instituição nos dias, semanas e meses de um ano em particular:

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(50) Alice went to the hospital = Alice went to a hospital + to get medical services.

Alice foi para o hospital = Alice foi para um hospital + ter serviços médicos.

.

(51) Lola checked the calendar = Lola checked a calendar + to check availability.

Lola checou o calendário = Lola checou um calendário + checar a disponibilidade.

Em geral, podemos dizer que as sentenças com definidos fracos fazem mais do que predicar sobre um evento em que um agente interage com instanciações de uma espécie. Crucialmente, esses eventos envolvem o propósito mais tipicamente associado à espécie. Em outras palavras, o evento sobre o qual se predica é parte da mais típica das circunstâncias sob as quais objetos de uma espécie em particular são usados. Chamamos essas circunstâncias de usos estereotípicos (USs). Aguilar-Guevara (2013) caracteriza os USs em detalhes e motiva sua participação na interpretação de definidos fracos, baseada na semântica lexical dos nomes que os encabeçam. O que é relevante agora é que, para podermos capturar os USs formalmente, precisamos assumir uma restrição adicional sobre os eventos que são quantificados. Fazemos isso através da Relação de Usos Estereotípicos, U, que é definida como abaixo:

.

(52) Relação de Usos Estereotípicos

U(e, K) se o evento e é um uso estereotípico da espécie (kind)K.

.

Através da relação U, uma espécie K, é associada ao conjunto de eventos no qual suas instanciações funcionam de modos que são estereotípicos para K. Note duas propriedades relevantes desse predicado. Primeiramente, o predicado U relaciona eventos estereotípicos com espécies e não com indivíduos ordinários. Isso está de acordo com a suposição de que estereótipos são construções sobre tipos de objetos e não sobre os próprios objetos (Aguilar-Guevara, 2013). Em segundo lugar, incorporar o predicado U na forma lógica das sentenças com definidos fracos tem como consequência que a especificação que esse predicado faz (i.e., os eventos sobre os quais se quantifica correspondem a USs de uma espécie) é parte das condições de verdade da sentença e não uma implicatura conversacional ou uma pressuposição. Aguilar-Guevara e Schulpen (2011) e Aguilar-Guevara (2013) fornecem evidências empíricas a favor desse tratamento. Elas mostram que, diferentemente de outros significados não assertados, os significados enriquecidos que as sentenças com definidos fracos têm são, entre outras coisas, significados não-destacáveis e imediatos (at-issue).

Uma vez tendo o predicado U à nossa disposição, é possível fornecer uma análise completa das sentenças com definidos fracos. Assim, por exemplo, a sentença sobre Lola checando o calendário (repetida em (53a) e traduzida em (53b)) denota uma conjunto não-vazio de eventos de checar o calendário cujo agente é Lola e cujos temas são realizações da espécie calendário, tal que esse conjunto de eventos é parte do conjunto de eventos em que calendários são usados de modo que são estereotípicos para a sua espécie. De modo semelhante, a sentença sobre Alice indo para o hospital (repetida em (54a) e traduzida em (54b)) denota um conjunto não-vazio de eventos de movimento direcionados a um fim que têm Alice como agente e como local, a realização da espécie hospital, de modo que nesse eventos a espécie hospital cumpre sua função estereotípica. Com relação à sentença (54), é importante notar que, por conveniência, fizemos duas simplificações na análise. Primeiro, a combinação ‘ir para’ é analisada como um único predicado de eventos. Segundo, usos estereotípicos estão diretamente conectados com esse evento, embora, estritamente falando, eles estejam conectados com o evento estar no hospital.

(53) a. Lola checked the calendar.

a. Lola checou o calendário.

b. Ǝe[Checar(e) ʌ Ag(e) = lola ʌ R(Th(e), C) ʌ U(e, C)]

(54) a. Alice went to the hospital.

a. Alice foi para o hospital.

b. Ǝe[Ir-para(e) ʌ Ag(e) = alice ʌ R(Loc(e), H) ʌ U(e, H)]

A inclusão de U dentro da forma lógica de sentenças com definidos fracos é vantajosa não apenas porque ela captura o enriquecimento de significado que a sentença mostra. Mais que isso, ela nos leva a uma explicação direta das restrições lexicais às quais os definidos fracos estão sujeitos. Lembramos que, como os exemplos em (55), em comparação com (53a), mostram, não é todo nome que pode ocorrer num definido fraco e não é todo verbo que pode governar um definido fraco:

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(55) a. Lola read #the calendar.

a. Lola leu #o calendário.

b. Lola checked #the book.

b. Lola checou #o livro.

c. Lola read #the book.

c. Lola leu #o livro.

.

Para facilitar nossa explicação, representamos graficamente a forma lógica da sentença sobre Lola checando o calendário. A Figura 1 mostra que essa forma lógica corresponde à intersecção não-vazia entre o conjunto de eventos de checar, o conjunto de eventos dos quais Lola é agente, o conjunto de eventos em que tema é a realização da espécie calendário, e o conjunto USs associados com essa espécie. Tal representação está de acordo com o espírito da semântica neo-davidsoniana, que analisa sentenças como uma conjunção de condições sobre a variável de evento.

Figure 1.

FIGURA 1: Lola checou o calendário.

Vamos agora pôr nosso foco na intersecção entre o conjunto de eventos λeV(e), que corresponde ao verbo ‘checar’, i.e. λe.Checar(e), e o conjunto de eventos λeU(e, K) associado com os USs da espécie calendário, i.e. λeU(e, C). Nossa proposta é que é exatamente a existência de uma intersecção entre λeV(e) e λeU(e, K) que, no fim das contas, dispara a leitura fraca de um definido que se refere a espécies. Compare a interação desses dois conjuntos em ‘checar o calendário’ (na Figura 2(a)) com a interação entre esses dois conjuntos em ‘ler #o calendário’ (na Figura 2(b)).11 Nesse caso, o verbo ‘checar’ foi substituído por ‘ler’, que não permite que seu objeto definido seja interpretado de modo fraco. Ainda de acordo com nossa proposta, a ideia é que, no caso de ‘ler’, não há intersecção entre λeU(e, K) e λeV(e), dado que ler não é parte dos USs de calendários. De modo análogo, poderíamos dizer que o VP ‘checar #o livro’, em que o nome ‘calendário’ foi substituído por ‘livro’, não dispara nenhuma leitura fraca porque não há intersecção entre o conjunto de eventos de checar e o conjunto de USs atribuído à espécie (kind) livro. Contudo, há ainda um problema potencial com esse argumento: o VP ‘ler #o livro’ também não dispara nenhuma leitura fraca, apesar de livros serem coisas feitas para serem lidas. Como ler é provavelmente parte das ações tipicamente associadas a livros, não parece intuitivo atribuir a ausência de uma leitura fraca a uma intersecção vazia entre λeU(e, K) e λeV(e). É por isso que, nesse caso, precisamos assumir que simplesmente não há nenhum US associado à espécie livro (ver as Figuras 2(c) e 2(d)). Essa assunção, relacionada ao fato de que conceitos como ‘livro’ são gerais demais para serem identificados com estereótipos, é defendida em Aguilar-Guevara (2013). Para uma discussão sobre as restrições lexicais de nomes em definidos fracos no contexto de frames, ver Zwarts (2013).

Figure 2.

FIGURA 2: Interação entre os conjuntos U e V em diferentes sentenças.

6 Combinando verbos com definidos fracos

Vamos agora voltar à estrutura composicional de sentenças com definidos fracos. Começaremos derivando o significado dos VPs que contêm definidos fracos. Para tanto, vamos adotar as assunções de Kratzer (1996), de acordo com as quais os argumentos externos são introduzidos independentemente e não são parte da semântica lexical dos verbos, e o quantificador existencial sobre eventos é introduzido pelo sistema tempo-aspectual. Em outras palavras, o sujeito pode ser tratado simplesmente como a adição de uma condição temática ao evento. Assumimos isso principalmente porque torna a análise do verbo mais fácil. Assim, o significado de VPs com definidos fracos pode ser ilustrado como abaixo:

.

(56) a. [[ler o jornal]] = λe[Ler(e) ʌ R(Th(e), J) ʌ U(e, J)]

b. [[ir para o hospital]] = λe[Ir-para(e) ʌ R(Loc(e), H) ʌ U(e, H)]

.

Abstraindo o argumento espécie dos VPs, obtemos os seguintes significados para os verbos:

.

(57) a. [[ler]] = λxk λe[Ler(e) ʌ R(Th(e), xk) ʌ U(e, xk)]

b. [[ir-para]] = λxk λe[Ir-para(e) ʌ R(Loc(e), xk) ʌ U(e, xk)]

.

O que temos em (57a) e (57b) são denotações enriquecidas do nível da espécie para os verbos ‘ler’ e ‘ir para’. Propomos que esses significados são derivados dos significados ordinários do nível do objeto dos verbos através de uma regra lexical, definida abaixo:

.

(58) Regra de Elevação para espécie

Se V é um verbo transitivo (ou uma combinação verbo- preposição) com um argumento interno Arg e V tem o significado λxiλe[V(e) ʌ Arg(e) = xi)], então V tem também o significado λ xk λe[V(e) ʌ R(Arg(e), xk)) ʌ U(e, xk)].

Essa regra lexical pode ser vista como uma função geral de elevação de tipo (ou melhor, função de elevação de categoria) à la Partee (1986). Isso implica que essa regra é um mecanismo produtivo de geração de predicados, ou seja, em princípio, ela pode ser aplicada a qualquer verbo e combinação verbo-preposição, resultando numa função que pode tomar qualquer espécie atômica. Contudo, isso não significa que a ocorrência de definidos fracos é prevista como produtiva. Como vimos nas seções anteriores, duas circunstâncias devem co-ocorrer para que os predicados enriquecidos elevados disparem leituras fracas. A primeira delas é que o predicado se aplique a espécies associadas a USs. A segunda circunstância é que a intersecção entre o conjunto de eventos correspondentes aos USs e ao predicado não seja vazia. Apenas se essas duas circunstâncias coincidirem é que teremos leituras fracas. Para capturar a confluência dessas circunstâncias, propomos a segunda condição da aplicabilidade da REK.

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(59) Regra de aplicabilidade da REK

Um verbo ou uma combinação verbo-preposição V com o significado λxiλe[V(e) Ù Arg(e) = xi)] pode ter o significado λ xk λe[V(e) ʌ R(Arg(e), xk)) ʌ U(e, xk)] e então se combinar com um DP que se refere a uma espécie atômica K sse λeV(e) ∩ λeU(e, K) ≠ Ø.

Conclusão

Propusemos que definidos fracos denotam espécies que combinam com predicados de objeto através da REK. Essa regra lexical eleva predicados de objeto para predicados de espécie, indica que as espécies com os quais os predicados elevados se combinam são instanciadas através da relação de realização R, e incorpora a relação U na denotação dos predicados elevados, o que corresponde aos usos estereotípicos das espécies.

Virtudes da proposta

Vamos agora resumir como nossa proposta dá conta das propriedades dos definidos fracos listadas na seção 1. Em primeiro lugar, a assunção de que um definido fraco é um definido ordinário, mas que se refere a espécies, explica tanto a presença do artigo definido nessas construções quanto a falta da pressuposição de unicidade no nível dos indivíduos ordinários. Dado que a unicidade se aplica no nível das espécies e dado que instanciações da espécie podem ser entidades ou somas, as sentenças com definidos fracos são boas em contextos nos quais mais de uma entidade satisfaça o conteúdo descritivo (1). A natureza de referir-se a espécie dos definidos fracos também explica a semelhança entre eles e os definidos genéricos (9). Além disso, a natureza de referir-se a espécies explica por que modificadores que operam no nível dos indivíduos são incompatíveis com leituras fracas (6a), e prediz que apenas modificadores que atuam no nível de espécies são capazes de manter as leituras fracas (6b). A forma lógica atribuída às sentenças com definidos fracos, que não envolve quantificação existencial sobre indivíduos, é consistente com a incapacidade dos definidos fracos de estabelecerem referentes discursivos (13). A identidade fajuta em elipses de VP se deve ao papel temático ser específico para cada evento nesse tipo de representação (2). A interpretação de escopo estreito se deve à mesma razão, porque o quantificador de evento tem escopo estreito com relação a outros operadores que têm escopo (3). O fato de que leituras fracas se devem à aplicação da REK dá conta do fato de que definidos fracos tipicamente ocorrem como objetos e não como sujeitos (8) porque essa regra afeta os argumentos internos, que em geral correspondem a objetos e não a sujeitos. A presença do predicado U, que a REK incorpora nos predicados elevados, e que relaciona USs às espécies, captura o significado enriquecido das sentenças com definidos fracos (12). A associação com USs também dá conta das restrições lexicais desses definidos: apenas certos nomes, que sustentam padrões de usos estereotípicos, disparam leituras fracas (4). Do mesmo modo, apenas verbos e combinações verbo-preposição associados com esses padrões dão vez a leituras fracas (5).

As virtudes da presente análise podem ser resumidas em três pontos. Em primeiro lugar, essa proposta dá um primeiro passo firme em direção à análise dos ainda mal compreendidos definidos fracos, e abre novos modos de olhar para o papel do aspecto funcional do significado dos nomes, da referência a espécies e do uso do artigo definido. Em segundo lugar, ela dá conta das propriedades peculiares dos definidos fracos por meio de mecanismos bem motivados na literatura, como a referência a espécies, a relação de realização, mudança de tipos e o operador iota. Em terceiro lugar, ela trata os definidos genéricos e os definidos fracos como diferentes faces de um mesmo fenômeno, o que é empírica e metodologicamente satisfatório.

Questões em aberto

Nossa teoria é desafiada por uma série de questões. A primeira delas é a existência de definidos fracos plurais, conforme ilustrado pelos exemplos abaixo:

(60) a. Alice went to the mountains.

a. Alice foi para as montanhas.

b. Joan watered the plants.

b. Joan regou as plantas.

c. I am doing the dishes.

c. Eu estou lavando a louça.12

.

É interessante notar que alguns definidos genéricos plurais também são possíveis em inglês:

.

(61) The mountains are the perfect place to get away from the hustle and bustle of the city.

As montanhas são o lugar perfeito para se escapar do agito e do barulho da cidade.

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Definidos genéricos e definidos fracos plurais são problemáticos para nossa análise porque a pluralidade é, em princípio, incompatível com a natureza atômica das espécies a que ambos esses tipos de definidos supostamente se referem. Uma alternativa para explicar esses casos seria assumir que os nomes presentes nesses definidos são um tipo de nomes pluralia tantum que não se relacionam composicionalmente com suas contrapartes singulares. Em outras palavras, esses nomes, em vez de apenas se referirem a somas de indivíduos atômicos às quais suas contrapartes singulares se referem, designam outros indivíduos que certamente são plurais, mas de um modo mais próximo ao que acontece com nomes de coletivos. Sendo assim, o nome plural ‘montanhas’ não se refere a uma soma de montanhas, mas sim a uma coleção que, entre outras complicações, não inclui apenas montanhas, mas também qualquer coisa na superfície entre as montanhas (i.e., vales e lagos).

Um problema potencial para essa solução é que os nomes plurais que ocorrem nos definidos fracos diferem dos exemplos clássicos de pluralia tantum, como ‘confins’. Em primeiro lugar, as versões singulares desses nomes, diferentemente de plurais como ‘montanhas’, são malformadas (compare *‘confim’ com ‘montanha’). Em segundo lugar, os nomes que são pluralia tantum como ‘confins’ podem, em princípio, se referir a indivíduos ordinários (62a) e a espécies (62b). Contudo, no caso de ‘montanhas’, precisaríamos assumir que a leitura de pluralia tantum aparece somente quando o nome opera no nível da espécie.

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(62) a. I love the new scissors I bought from your website.

a. Eu amei os novos óculos que eu comprei do seu website.

b. The scissors is one of the most ingenious and useful tools ever devised.

b. Os óculos são um dos dispositivos mais engenhosos e úteis que foram inventados.13

.

Deixamos para pesquisas futuras a busca pela resolução desse e de outros problemas que podem resultar de tratar os nomes que encabeçam as descrições definidas genéricas e fracas plurais como pluraria tantum.

Um segundo desafio para nossa teoria é o fato de que, embora os definidos fracos normalmente ocorram como objetos de sentenças episódicas, alguns poucos definidos em posição de sujeito podem também receber uma leitura fraca. Considere os seguintes exemplos:

(63)

a. I used to hear the newspaper arrive in the wee hours of the morning.

a. Eu costumava ouvir o jornal chegar de manhã bem cedinho.

b. The train passes through here twice daily and four times on weekends.

b. O trem passa por aqui duas vezes diariamente e quatro vezes no fim de semana.

c. I had the plumber repair the tank.

c. Eu fiz o encanador arrumar o tanque.

d. Despite the heavy rain, the window was open and the radio was playing loudly.

d. Apesar da chuva forte, a janela estava aberta e o rádio estava tocando alto.

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Se aceitarmos que os casos acima são exemplos de definidos fracos, então eles também representam um problema para nossa teoria. Lembre que, de acordo com nossa proposta, as leituras fracas dependem da transformação de predicados de objeto em predicados de espécie. Esses predicados são enriquecidos com a relação U, que relaciona o argumento interno do predicado, que é uma espécie, a um conjunto de eventos que são estereotípicos para a espécie. Definidos fracos em posição de sujeito, em princípio, correspondem ao argumento externo e, como tal, eles não podem depender da REK para gerar a leitura fraca porque argumentos externos não são parte do significado lexical do verbo. Para dar conta desses casos potenciais, uma alternativa seria tratar os definidos fracos em posição de sujeito como argumentos de verbos inacusativos, que, embora internos, ocupam a posição de sujeito por razões sintáticas (Perlmutter, 1978; Burzio, 1986; Levin e Hovav, 1995). Essa opção daria conta automaticamente de verbos como ‘chegar’, cujo argumento parece mais com um tema do que com um agente. No entanto, é bem mais complicado tratar como inacusativos verbos como ‘arrumar’, cujo argumento é agentivo. Deixamos essa questão para pesquisas futuras.

Um terceiro problema para nossa abordagem são os definidos fracos em sintagmas preposicionais não-argumentais, como aqueles ilustrados em (64). Esses casos são problemáticos porque a REK, como formulada em (58), aplica-se apenas a verbos e a combinações verbo-preposição.

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(64)

a. She juggles writing stories for children with writing articles about ladies who didn’t realize they were pregnant until they gave birth in the supermarket.

a. Ela se equilibra entre escrever histórias para crianças e escrever artigos sobre senhoras que não perceberam que estavam grávidas até darem a luz no mercado.

.

Para dar conta desses casos, uma solução seria estender a aplicação da REK para essas preposições. Um problema ao fazer isso é que, como a aplicação da REK envolve a incorporação do predicado U, seria necessário assumir que essas preposições, assim como verbos, incluem um argumento de evento em sua semântica lexical. Tal assunção não está bem fundamentada e por isso seria necessário substanciá-la com mais pesquisas.

Para além dos problemas mencionados, nossa teoria traz várias questões que gostaríamos de responder em trabalhos futuros. Uma delas tem a ver com a semelhança, que mencionamos anteriormente, entre definidos fracos e nominais nus. Como podemos dar conta da distribuição complementar, vista em várias línguas, desses dois tipos de expressão? Seriam elas expressões que se referem a espécies, como sugere Le Bruyn et alii (2011)? Se sim, como deveríamos lidar com a ausência do artigo definido?

Outra questão tem a ver com o alcance da nossa análise. Em princípio, tivemos por objetivo dar conta somente dos definidos fracos descritos por Carlson e Sussman (2005). Porém, nos perguntamos se poderíamos estender nossa análise para outras instanciações de definidos fracos, como os nomes possessivos e relacionais (e.g., ‘a esquina de uma intersecção movimentada’) (Guéron, 1983; Vergnaud e Zubizarreta, 1992; Ojeda, 1993; Poesio, 1994; Barker, 2005; Le Bruyn e S., 2013). O quão interessante seria tratar esses definidos como expressões que se referem a espécies? Seria tal tratamento uma alternativa melhor do que o que já foi proposto? Se sim, como poderíamos lidar com o fato de que os definidos fracos possessivos não compartilham algumas das propriedades dos definidos fracos, como o significado enriquecido e as restrições lexicais?

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