Resumo

O artigo discute algumas instâncias das chamadas “sentenças donkey”, como a clássica ‘Todo fazendeiro que possui um burrinho bate nele’. Propõe-se que essas sentenças contem uma descrição definida plural de situações no escopo de um sujeito quantificado em suas formas lógicas. O núcleo da argumentação baseia-se numa comparação que revela uma série de similaridades interpretativas entre tais sentenças e sentenças que contêm explicitamente em suas estruturas superficiais descrições definidas plurais de indivíduos e aponta para vantagens da análise em relação a outros tratamentos propostos na literatura.

Introdução

Neste artigo, discuto algumas instâncias das chamadas sentenças donkey, como as mostradas em (1), e proponho que tais sentenças contêm uma descrição definida plural situacional em suas formas lógicas.

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(1)

a. Todo fazendeiro que possui um burrinho bate nele.

b. Nenhum fazendeiro que possui um burrinho bate nele.

c. A maioria dos fazendeiros que possui um burrinho bate nele.

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Essa descrição plural é interpretada no escopo de um sujeito quantificado e a parte central da argumentação que apresentarei está baseada em uma comparação que revela diversas similaridades interpretativas entre sentenças como as em (1) e sentenças contendo descrições definidas explícitas em suas estruturas superficiais sob o escopo de um sintagma quantificador. Além disso, a análise mantém que determinantes quantificadores como todo, nenhum e a maioria dos introduzem quantificação sobre uma única variável de cada vez, evitando assim o conhecido problema da proporção, que discutiremos mais adiante na seção 2. A análise é também compatível com abordagens e-type dos pronomes que aparecem na posição de objeto direto em (1) sem incorrer no problema da unicidade, discutido na seção 1.

O artigo está organizado da seguinte forma: na seção 1, apresento as sentenças de que trata o artigo e os problemas que elas colocam tanto para as abordagens e-type (EVANS, 1980, inter alia) quanto para as baseadas em ligação não seletiva (KAMP, 1981; HEIM, 1982, interalia). Na seção 2, retomo a tentativa em Heim (1990) de se resgatar a abordagem e-type dentro de uma semântica de situações e os novos desafios que a autora coloca em relação a esse resgate. Na seção 3, apresento minha proposta de que a forma lógica das sentenças donkey contém uma descrição definida plural de situações e mostro como essa proposta enfrenta os desafios de Heim. Na seção 4 explicito a proposta anterior mostrando que descrições definidas plurais desencadeiam uma pressuposição de homogeneidade (LOBNER, 1985) que se projeta no contexto de expressões quantificadoras. Na seção 5, retomo as sentenças donkey mostrando como a pressuposição de homogeneidade afeta seu significado e sintetizando as virtudes da proposta. Por fim, na seção 6, apresento uma breve conclusão.

1. Sentenças Donkey

Comecemos com o exemplo clássico em (2) na leitura que veicula que os donos de burrinhos batem em seus burrinhos.

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(2) Todo fazendeiro que possui um burrinho bate nele.

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Se tratarmos pronomes como expressões referenciais, está claro que a referência do pronome ele em (2) deve covariar com os fazendeiros. Dessa forma, se o fazendeiro José possui o burrinho A de acordo com (2), ele baterá em A; se o fazendeiro Pedro possui o burrinho B, ele baterá em B; e assim por diante. Na visão das abordagens que fazem uso de ligação não seletiva (KAMP, 1981; HEIM, 1982 e vários outros após eles), o pronome ele em (2) corresponde a uma variável ligada. Isso é possível graças à hipótese de que sintagmas indefinidos como um burrinho não tem força quantificacional própria, sendo interpretados como variáveis restringidas, e que determinantes quantificadores como todo podem ligar múltiplas variáveis de uma só vez. O significado de (2) pode então ser representado como em (3):

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(3) Para todo par em que x é um fazendeiro e y um burrinho que x possui, x bate em y.

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Essa fórmula representa uma alternativa à abordagem conhecida como e-type (Evans 1980), que mantém visão tradicional de que indefinidos tem força quantificadora e que determinantes como todo ligam apenas uma variável de cada vez. Tal abordagem trata pronomes como ele em (2) como uma descrição definida – o burrinho que ele possui. Covariação nesse caso resulta da presença de uma variável dentro da descrição e que é ligada pelo quantificador na posição de sujeito. Uma possibilidade de implementação da proposta é assumir que um pronome e-type é a realização fonológica de um determinante definido com um complemento elíptico (ELBOURNE, 2002). Tal complemento corresponde a uma função contextualmente saliente aplicada a uma variável de indivíduo. No caso de (2), teríamos a representação em (4) e essa função seria a função burrinho que x possui (COOPER, 1979, HEIM; KRATZER, 1998):1

(4) para todo fazendeiro x, tal que x possui um burrinho, x bate no burrinho que x possui

Uma vantagem da abordagem baseada em ligação não seletiva sobre a abordagem e-type é que aquela não incorre no problema da unicidade. Esse problema é que descrições definidas singulares desencadeiam a pressuposição de que um único indivíduo satisfaz o conteúdo da descrição. Mas se o pronome ele em (2) for interpretado como o único burrinho que x possui sob o escopo do quantificador universal para todo x, espera-se que (2) só possa ser usada adequadamente em contextos nos quais todo fazendeiro que tem um burrinho tenha somente um burrinho (cf. Todo fazendeiro que tem um burrinho bate no único burrinho que ele tem). Entretanto, essa não parece ser uma pressuposição que associamos a (2).2 Imagine que haja vários fazendeiros que possuem mais de um burrinho cada e que batem em todos os burrinhos que possuem. A sentença (2) parece perfeitamente adequada, sendo que falantes julgam-na verdadeira de maneira consistente. Exemplos com outros quantificadores levam à mesma conclusão, como no exemplo abaixo retirado de Rooth (1987):

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(5) Nenhum pai com um filho adolescente empresta o carro pra ele no final de semana.

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Usos adequados dessa sentença não são incompatíveis com a existência de pais com mais de um filho adolescente. Em havendo tais casos, a sentença será considerada verdadeira apenas se nenhum pai tiver emprestado o carro pra nenhum de seus filhos adolescentes. Novamente, a abordagem baseada em ligação não seletiva fornece o resultado correto: nenhum par em que x é pai e y é um filho adolescente de x, x empresta o carro pra y.3

De consequências ainda mais dramáticas para a abordagem e-type são os seguintes exemplos (HEIM, 1982):

(6)

a. Toda mulher que comprou uma planta aqui comprou outras oito junto com ela

b. A maioria das pessoas que possuíam um escravo possuíam também seus filhos e netos.

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Obviamente, essas sentenças não deveriam nunca ter usos adequados se os pronomes em questão fossem interpretados como a única planta que a mulher comprou e o único escravo que a pessoa possuía, conforme discutido à exaustão em Heim 1982.

2. Resgatando a Abordagem E-Type

Heim (1990), tomando emprestadas ideias de Berman (1987), reconsidera a abordagem e-type à luz da semântica de situações (KRATZER, 1989) e mostra como se pode evitar o problema da unicidade. Situações são concebidas como partes de mundos. Uma situação na qual um fazendeiro possui um burrinho conterá um fazendeiro, um burrinho seu e possivelmente outras coisas. Já uma “situação mínima” em que um fazendeiro possui um burrinho não conterá nenhum indivíduo além do fazendeiro e de seu burrinho. Uma situação pode ainda ser parte de uma outra situação. Diz-se nesse caso que essa é uma extensão daquela. Por exemplo, uma situação mínima em que um fazendeiro possui um burrinho pode ser estendida em uma outra situação contendo talvez outros fazendeiros e burrinhos.

A ideia básica na proposta de Heim (1990) é assumir que determinantes quantificadores introduzem quantificação sobre indivíduos e situações. Uma maneira de implementar essa ideia é permitir que tais determinantes quantifiquem sobre pares formados por indivíduos e situações. Uma sentença como (2), por exemplo, significaria que para cada par em que x é um fazendeiro e s é uma situação mínima em que x possui um burrinho, existe uma extensão s’ de s em que x bate no burrinho que ele possui em s. Como a variável s recai sobre situações mínimas contendo um único burrinho, a pressuposição desencadeada pela descrição definida se torna inócua.

Quantificar sobre pares, entretanto, expõe a análise à ameaça conhecida como problema da proporção na literatura. Considere a seguinte sentença:

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(7) A maioria dos fazendeiros que possui um burrinho é rica

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Críticos da abordagem baseada em ligação não seletiva apontaram que tratar o indefinido um burrinho como não quantificador e o determinante a maioria dos (most nos exemplos originais do inglês) como um quantificador sobre pares fazendeiro-burrinho gera uma leitura para (7) de acordo com a qual para a maioria dos pares em que x é um fazendeiro e y é um burrinho de x, x é rico. Como consequência, faz-se a previsão de que a sentença seja verdadeira em um cenário em que um fazendeiro rico possui 100 burrinhos e 99 fazendeiros pobres possuem apenas um burrinho cada, já que nesse caso haveria mais pares fazendeiro-burrinho em que o fazendeiro é rico do que pares em que o fazendeiro é pobre. Mas isso é contraintuitivo e os falantes são categóricos em julgar (7) como falsa nessas circunstâncias.

Tal problema da proporção (assim chamado em Kadmon (1987)) seria evitado se mantivéssemos as abordagens mais tradicionais, de acordo com as quais sintagmas indefinidos são interpretados como quantificadores existenciais, e determinantes como a maioria dos quantificassem sobre indivíduos. A sentença (7) então significaria que o número de fazendeiros que têm (pelo menos) um burrinho e que são ricos é maior que o número de fazendeiros que têm (pelo menos) um burrinho e que não são ricos.

Note que quantificar sobre pares formados por indivíduos e situações mínimas incorreria no mesmo problema. Como as situações relevantes nesse caso contêm exatamente um burrinho, haveria uma correspondência um a um entre pares formados por um fazendeiro e um burrinho que ele possui e pares formados por um fazendeiro e uma situação mínima na qual ele tem um burrinho. A conclusão é que enriquecer a abordagem e-type com quantificação sobre pares de indivíduos e situações cria uma tensão entre a solução para o problema da unicidade e a solução para o problema da proporção.

Heim (1990) menciona algumas tentativas de lidar com o problema da unicidade com exemplos envolvendo orações relativas, que não abandonam a quantificação sobre indivíduos ao invés de pares e que, portanto, não incorrem no problema da proporção. A ideia é atribuir a essas sentenças formas lógicas com dois quantificadores em cascata. Seguem algumas paráfrases de Heim (1990) para algumas das sentenças apresentadas mais acima e que representam o espírito da abordagem:

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(8) Todo fazendeiro que possui um burrinho bate nele.

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Para todo fazendeiro que possui um burrinho: para todo burrinho que ele possui: ele bate nele.

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(9) A maioria das pessoas que possuíam um escravo também possuíam os descendentes dele.

=>

Para a maioria das pessoas que possuíam um escravo: para todo escravo que elas possuíam: elas também possuíam os descendentes dele.

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(10) Nenhum pai com um filho adolescente empresta o carro pra ele.

=>

Para nenhum pai com filho adolescente: existe um filho adolescente dele: ele empresta o carro pra ele.

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Tal estratégia pode ser aplicada igualmente bem em uma abordagem e-type acoplada a uma semântica de situações, conforme apontado por Heim (ver Elbourne (2002) e Buring (2004) para análises desse tipo):

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(11) Todo fazendeiro que possui um burrinho bate nele.

=>

Para todo fazendeiro que possui um burrinho: para toda situação mínima s em que ele possui um burrinho: ele bate no burrinho que ele possui em s.

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(12) A maioria das pessoas que possuíam um escravo também possuíam os descendentes dele.

=>

Para a maioria das pessoas que possuíam um escravo: para toda situação mínima s em que elas possuíam um escravo: elas também possuíam os descendentes do escravo que possuíam em s.

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(13) Nenhum pai com um filho adolescente empresta o carro pra ele.

=>

Para nenhum pai com filho adolescente: existe uma situação mínima em que ele tem um filho adolescente: ele empresta o carro para o filho que ele tem em s.

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Note que as paráfrases contêm um quantificador secundário implícito cuja força varia de acordo com a natureza do determinante presente na estrutura superficial da sentença: todo e a maioria dos aparecem com um universal sob eles, enquanto que nenhum aparece com um existencial.

Conforme Heim (1990:163) aponta, “há duas grandes questões à respeito desse tipo de abordagem: uma é se há alguma maneira não arbitrária de prever a força do quantificador secundário implícito. […] A segunda questão é como implementar a análise sem manobras ad-hoc tanto na sintaxe quanto na semântica”. No que segue, abordarei a primeira questão, afirmando que as paráfrases dadas acima são enganadoras e que não há quantificadores secundários, mas sim descrições definidas plurais de situações. A aparente disparidade na força quantificacional é explicada como consequência da maneira com que descrições definidas em geral se comportam no escopo de diferentes quantificadores. Quanto à segunda questão, argumentarei que as entradas lexicais de determinantes quantificadores como todo, por exemplo, exigem a presença de uma descrição situacional em seu escopo e que descrições definidas situacionais implícitas são necessárias em outras construções gramaticais.

3. Quantificação e Descrições Definidas Plurais

Retomemos o desafio enfrentado por teorias que atacam o problema da unicidade postulando um quantificador secundário nas formas lógicas das sentenças donkey, como visto em (8)-(10) e (11)-(13). Tal quantificador secundário era, às vezes, universal (quando o quantificador primário era todo ou a maioria dos) e às vezes, existencial (quando o quantificador primário era nenhum) e essa variação parece arbitrária, resistindo a uma explicação não estipulativa.

Minha proposta é que tais quantificadores secundários não existem e que, de fato, o que aparece imediatamente sob o escopo dos determinantes quantificadores é uma descrição definida plural de situações. Desse modo, as paráfrases mais fiéis às representações lógicas das sentenças em questão não são (11)-(13), mas sim (14)-(16) abaixo:

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(14) Todo fazendeiro que possui um burrinho bate nele.

=>

Para todo fazendeiro que possui um burrinho: as situações mínimas s em que ele possui um burrinho são tais que ele bate no burrinho que ele possui em s.

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(15) A maioria das pessoas que possuíam um escravo também possuíam os descendentes dele.

=>

Para a maioria das pessoas que possuíam um escravo: as situações mínimas s em que elas possuíam um escravo são tais que elas também possuíam os descendentes do escravo que possuíam em s.

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(16) Nenhum pai com um filho adolescente empresta o carro pra ele.

=>

Para nenhum pai com filho adolescente: as situações mínimas s em que ele tem um filho adolescente são tais que ele empresta o carro para o filho que ele tem em s.

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Note em todas as paráfrases acima a presença da descrição definida plural de situações no escopo imediato do sujeito quantificado (quantificador primário). Note ainda a quase sinonímia entre (11)- (13) e (14)-(16). Vamos tomar esses fatos como indicativos de uma uniformidade na representação lógica das sentenças e assumir que a variação antes observada era apenas como uma ilusão criada por paráfrases como (11)-(13).

Mas por que tais paráfrases pareciam tão adequadas? A explicação reside na maneira como descrições definidas plurais se comportam no escopo de expressões quantificadas. Considere, por exemplo, o seguinte cenário: um grupo de garotos ganhou presentes de Natal, sendo que cada um deles ganhou vários brinquedos. Mais tarde, eles se reuniram na casa de um parente comum para o almoço. Imagine, agora, as seguintes observações sobre esse encontro:

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(17)

a. Todo garoto levou os presentes que ganhou.

b. A maioria dos garotos levou os presentes que ganhou.

c. Nenhum garoto levou os presentes que ganhou.

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(17a) passa a ideia de que todo garoto levou todos os brinquedos que ganhou. (17b) passa a ideia de que a maioria dos garotos levou todos os brinquedos que ganhou. E (17c) passa a ideia de que nenhum garoto levou nenhum brinquedo que ganhou, ou seja, para nenhum garoto, existe um brinquedo ganho que ele tenha levado para o encontro.

No presente contexto, (17c) merece atenção especial. Note que dado um garoto g qualquer, uma descrição como os brinquedos que g ganhou refere-se a totalidade dos brinquedos ganhos por g. Isso fica claro em sentenças como os brinquedos que g ganhou são caros, que veicula a ideia de que todos os brinquedos ganhos por g são caros e que parece sinônima de todo brinquedo que g ganhou é caro. Em (17c), entretanto, a descrição definida plural os brinquedos que ele ganhou não parece se comportar como um quantificador universal. Compare-a, por exemplo, com (18):

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(18) Nenhum garoto levou todos os brinquedos que ele ganhou.

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(18) nega apenas a existência de garotos que tenham levado a totalidade dos brinquedos ganhos, sendo compatível com garotos que tenham levado apenas alguns dos seus brinquedos. De (17c), entretanto, infere-se que nenhum garoto levou nenhum dos brinquedos ganhos.4

A lição que tiramos desses exemplos é que descrições definidas plurais no escopo de determinantes quantificadores como todo ou a maioria dos se comportam como quantificadores universais, enquanto no escopo de quantificadores como nenhum comportam-se como existenciais. Buscaremos elucidar mais abaixo a razão para tal.

Note ainda que esse comportamento persiste mesmo quando a descrição plural é interpretada distributivamente:

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(19)

a. Todo garoto mandou um cartão postal para os amigos (dele) na Europa.

b. A maioria dos garotos mandou um cartão postal para os amigos (dele) na Europa.

c. Nenhum garoto mandou um cartão postal para os amigos (dele) na Europa.

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Imagine agora que cada garoto de que estamos falando tenha vários amigos na Europa, cada um morando em um país diferente. (19a) pode ser usada para dizer que cada garoto enviou um cartão postal diferente para cada um dos amigos na Europa. Já (19c), veicula a ideia de que nenhum garoto mandou cartão para nenhum amigo na Europa.5 Uma vez mais, sentenças como (19c) contrastam com sentenças como (20) em que a descrição definida plural é substituída por um quantificador universal:

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(20) Nenhum garoto mandou um cartão postal para todo amigo (dele) na Europa.

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Em (20), nega-se apenas a existência de garotos que tenham mandado cartão para a totalidade dos amigos europeus, sendo, portanto, logicamente mais fraca que (19c).

Resta-nos agora a tarefa de explicar a origem desse comportamento das descrições definidas plurais quando no escopo de um quantificador. É o que faremos na próxima seção.

4. Pressuposição de Homogeneidade

Para entender o alcance do que proporemos logo a seguir, considere o par de sentenças abaixo:

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(21)

a. Pedro aprovou os candidatos.

b. Pedro não aprovou os candidatos.

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(21a) nos dá a ideia de que todos os candidatos foram aprovados, parecendo ter as mesmas condições de verdade da sentença Pedro aprovou todos os candidatos. (21b), entretanto, nos dá a ideia de que Pedro não aprovou nenhum candidato, parecendo ter condições de verdade distintas de Pedro não aprovou todos os candidatos, que nega apenas a aprovação da totalidade dos candidatos, sem sugerir reprovação em massa.6 Esse mesmo efeito tudo ou nada permanece diante de interpretações tipicamente distributivas, como no par abaixo:

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(22)

a. Pedro mandou um cartão para as ex-namoradas.

b. Pedro não mandou um cartão para as ex-namoradas.

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De acordo com (22a), Pedro mandou um cartão para cada namorada. Já (22b) nos dá a ideia de que Pedro não mandou cartão para nenhuma ex-namorada, sendo, portanto, semanticamente mais forte que Pedro não mandou um cartão para todas as ex-namoradas.7

Para manter uma interpretação unificada para as descrições plurais nos exemplos acima, vamos assumir que a aplicação de um predicado a uma descrição definida plural desencadeia uma pressuposição de homogeneidade (Lobner 1985), que pode ser descrita assim:

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(23) Pressuposição de Homogeneidade8,9

Se um predicado não coletivo P se aplica a uma descrição definida plural X, então ou P se aplica a todas as partes da denotação de X ou P não se aplica a nenhuma das partes da denotação de X.

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Com o auxílio da pressuposição de homogeneidade, podemos manter que a interpretação semântica (assertiva) de uma descrição definida plural em contextos distributivos é sempre a mesma de um quantificador universal. Para as sentenças em (21), por exemplo, temos o seguinte:

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(24) a. Pedro aprovou os candidatos.

Asserção: Pedro aprovou todos os candidatos

Pressuposição: Ou Pedro aprovou todos os candidatos ou Pedro não aprovou nenhum candidato.

Ass+Press.: Pedro aprovou todos os candidatos

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b. Pedro não aprovou os candidatos.

Asserção: É falso que Pedro aprovou todos os candidatos

Pressuposição: Ou Pedro aprovou todos os candidatos ou Pedro não aprovou nenhum candidato.

Ass+Press.: Pedro não aprovou nenhum candidato.

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Note que em (24a) a pressuposição não acrescenta nada ao conteúdo assertivo e o resultado final é semelhante significado da sentença Pedro aprovou todos os candidatos. Já em (24b), como a pressuposição se projeta sobre a negação (KARTUNNEN; PETERS, 1979, HEIM, 1983, inter alia), a adição da pressuposição à asserção faz diferença e o resultado final é mais forte que o significado da sentença Pedro não aprovou todos os candidatos, exatamente o resultado que queríamos.10,11

Um raciocínio análogo se aplica às sentenças em (22), como se pode ver abaixo:

(25) a. Pedro mandou um cartão para as ex-namoradas.

Asserção: Pedro mandou um cartão para todas as ex- namoradas.

Pressuposição: Ou Pedro mandou um cartão para todas as ex- namoradas ou Pedro não mandou um cartão para nenhuma ex-namorada.

Ass+Press.: Pedro mandou um cartão para todas as ex- namoradas.

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b. Pedro não mandou um cartão para as ex-namoradas.

Asserção: É falso que Pedro mandou um cartão para todas as ex-namoradas.

Pressuposição: Ou Pedro mandou um cartão para todas as ex-namoradas ou Pedro não mandou um cartão para nenhuma ex-namorada.

Ass+Press.: Pedro não mandou um cartão para nenhuma ex-namorada.

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Com o que vimos acima em mente, reconsideremos agora a sentença (19a), repetida abaixo por conveniência, em sua leitura distributiva, de acordo com a qual cada amigo recebeu um cartão personalizado:

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(26) Todo garoto mandou um cartão para os amigos dele.

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Em (26), a descrição definida está no escopo de um quantificador universal e a sentença veicula que todo garoto mandou um cartão postal para todos os amigos dele. A pressuposição de homogeneidade parece vácua nesse caso. Isso é de se esperar se assumirmos que a mesma projeta universalmente, ou seja, se a pressuposição associada a (26) for a de que para todo garoto x, ou x mandou um cartão para todos os amigos ou x não mandou cartão para nenhum dos amigos.12

Tal assunção de projeção universal é motivada pelo comportamento de gatilhos pressuposicionais (presupposition triggers) no escopo de quantificadores discutido em Heim (1983), que apresenta exemplos como (27), em que o pressuposto é que toda nação tem um rei.13

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(27) Toda nação idolatra seu rei.

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Considere agora (28):

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(28) Nenhum garoto mandou um cartão para os amigos dele.

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Nesse caso, a descrição definida aparece no escopo de um quantificador negativo. A sentença veicula que nenhum garoto mandou um cartão pra nenhum de seus amigos, sendo, portanto, mais forte que o conteúdo da sentença nenhum garoto mandou um cartão para todos os amigos (dele). Podemos derivar esse resultado se assumirmos que a pressuposição de homogeneidade projeta universalmente também nesse caso:

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(29) Nenhum garoto mandou um cartão para os amigos.

Asserção: Para nenhum garoto x, x mandou um cartão para todos os amigos de x.

Pressuposição: para todo garoto x, ou x mandou cartão para todos os amigos de x; ou x não mandou cartão para nenhum dos amigos de x.

Ass+Press.: Para todo garoto x, x não mandou cartão pra nenhum amigo de x.

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Nesse caso também a pressuposição de homogeneidade se comporta como outras pressuposições, como pode ser visto em (30), adaptado de Heim (1983), que também pressupõe que toda nação tem um rei:14

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(30) Nenhuma nação idolatra seu rei.

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Prosseguindo na mesma linha de raciocínio, vejamos o comportamento de um plural definido no escopo de um quantificador existencial:

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(31) Um garoto mandou um cartão para os amigos (dele).

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O que (31) veicula (na leitura relevante) é que há um garoto que mandou um cartão a todos os amigos. Nesse caso, se a pressuposição projetasse universalmente obteríamos um resultado inadequado, conforme mostrado abaixo:15

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(32) Um garoto mandou um cartão para os amigos.

Asserção: Existe um garoto x, tal que x mandou um cartão para todos os amigos de x.

#Pressuposição: para todo garoto x, ou x mandou cartão para todos os amigos de x; ou x não mandou cartão para nenhum dos amigos de x.

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O problema com a pressuposição acima é que ela veicula que não existem garotos que mandaram cartões para apenas alguns de seus amigos. Mas isso é muito forte. Para (32) ser verdadeira, basta que haja um garoto apenas que tenha mandado cartão para todos os amigos. Nada se conclui a respeito dos demais garotos. Tal fato seria um argumento contra a pressuposição de homogeneidade, se tivéssemos evidência de que pressuposições no escopo de um quantificador existencial projetam universalmente. Mas esse não é o caso, como pode ser visto através do seguinte exemplo (KARTUNNEN; PETERS, 1979, HEIM 1983):

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(33) Um homem gordo estava empurrando a bicicleta dele.

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O que essa sentença pressupõe é que o homem gordo que estava empurrando a bicicleta tinha uma bicicleta. Por analogia, devemos esperar que (31) pressuponha que o menino que enviou um cartão para todos os amigos ou enviou cartão para todos os amigos ou não enviou cartão pra nenhum. Tal pressuposição, entretanto, é vácua, já que não acrescenta nada ao conteúdo assertivo da sentença, o que está de acordo com o que vimos acima.

Por fim, consideremos um caso envolvendo um quantificador proporcional como a maioria dos garotos:

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(34) A maioria dos garotos enviou um cartão para os amigos (dele)

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Todos os falantes que consultei concordaram que para essa sentença ser verdadeira, é necessário que a maioria dos garotos x em questão seja tal que x tenha mandado um cartão para todos os amigos de x. Mas o que me pareceu mais importante foi o fato de que, quando solicitados a fornecer situações em que a sentença fosse verdadeira, todos descreveram cenários em que havia dois tipos de garotos: os que mandaram cartão para todos os amigos (a maioria) e os que não mandaram cartão pra nenhum amigo (a minoria). Ainda interessante foi o fato de que quando apresentados a sentenças semelhantes, porém com um quantificador universal no lugar da descrição definida, como em (35) abaixo, os cenários descritos continham garotos (pertencentes à minoria que não enviou cartão para todos os amigos) que mandaram cartão para alguns, mas não para todos os amigos:

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(35) A maioria dos garotos enviou um cartão para todos os amigos (dele).

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Assumindo tais julgamentos como representativos da maneira com que falantes do português brasileiro interpretam descrições definidas plurais, o contraste acima entre (34) e (35) constitui evidência adicional para a existência da pressuposição de homogeneidade desencadeada por descrições plurais definidas, e que tal pressuposição se projeta universalmente quando no escopo de um quantificador proporcional.

5. De volta às sentenças donkey

Estamos enfim aptos a retomar do ponto em que as deixamos as sentenças donkey que são o alvo deste artigo. Apresentamos abaixo três exemplos representativos com as respectivas paráfrases que correspondem (informalmente) às formas lógicas que postulamos para as sentenças:

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(36) Todo fazendeiro que possui um burrinho bate nele.

=>

Para todo fazendeiro que possui um burrinho: as situações mínimas s em que ele possui um burrinho são tais que ele bate no burrinho que ele possui em s.

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(37) A maioria dos fazendeiros que possuem um burrinho bate nele.

=>

Para a maioria dos fazendeiros x, tal que x possui um burrinho: as situações mínimas s em que x possui um burrinho são tais que x bate no burrinho que x possui em s.

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(38) Nenhum fazendeiro que possui um burrinho bate nele.

=>

Para nenhum fazendeiro que possui um burrinho: as situações mínimas s em que ele possui um burrinho são tais que ele bate no burrinho que ele possui em s.

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O fato crucial é que as formas lógicas de todas elas possuem uma descrição definida plural no escopo de um quantificador. Dado o que vimos na seção anterior, uma pressuposição de homogeneidade será desencadeada por essa descrição e projetada universalmente em função da natureza dos quantificadores acima. Desta forma, ao se somar ao conteúdo assertivo da sentença, o resultado final será o de uma aparente variação na natureza do que chamamos anteriormente de quantificador secundário:

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(36) Todo fazendeiro que possui um burrinho bate nele.

=>

Asserção: Para todo fazendeiro que possui um burrinho: todas as situações mínimas s em que ele possui um burrinho são tais que ele bate no burrinho que ele possui em s.

Pressup: Para todo fazendeiro x que possui um burrinho: ou x bate em todo burrinho que possui ou não bate em nenhum.

Asserção+Pressup. = Asserção

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(37) A maioria dos fazendeiros que possuem um burrinho bate nele.

=>

Asserção: Para a maioria dos fazendeiros que possuem um burrinho: todas as situações mínimas s em que ele possui um burrinho são tais que ele bate no burrinho que ele possui em s. Pressup: Para todo fazendeiro x que possui um burrinho: ou x bate em todo burrinho que possui ou não bate em nenhum. Asserção+Pressup. = Asserção

.

(38) Nenhum fazendeiro que possui um burrinho bate nele.

=>

Asserção: Para nenhum fazendeiro que possui um burrinho: todas as situações mínimas s em que ele possui um burrinho são tais que ele bate no burrinho que ele possui em s.

Pressup: Para todo fazendeiro x que possui um burrinho: ou x bate em todo burrinho que possui ou não bate em nenhum Asserção+Pressup. = Para todo fazendeiro que possui um burrinho: nenhuma situação mínima s em que ele possui um burrinho é tal que ele bate no burrinho que ele possui em s.

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Como já havíamos antecipado, esses são exatamente os resultados que almejávamos, sendo que agora foi possível alcançá-los de uma maneira não estipulativa, valendo-nos de fatos independentes sobre a pressuposição de homogeneidade, descrições definidas plurais e a maneira como a primeira se projeta quando no escopo de quantificadores.16 A unificação nos mecanismos interpretativos responsáveis pelo cômputo do conteúdo dessas sentenças foi possível graças à nossa postulação de uma descrição definida plural implícita nas formas lógicas em questão, postulação essa que encontra respaldo na Semântica de Situações (KRATZER, 1989, ELBOURNE, 2002) em que determinantes quantificadores como todo, a maioria dos e nenhum tomam como argumentos não conjuntos de indivíduos, mas relações entre situações e indivíduos. É através das entradas lexicais desses determinantes que a descrição definida plural é introduzida na interpretação das sentenças que os contêm.17

Conclusão

A proposta central deste artigo foi a de que a forma lógica das sentenças donkey contém uma descrição definida plural de situações no escopo de uma expressão quantificadora. A partir dessa hipótese, mostramos como podemos derivar a aparente disparidade interpretativa que desafiava uma análise unificadora. Vimos que tais descrições plurais desencadeiam uma pressuposição de homogeneidade e que o efeito de disparidade aparecia como consequência da interação dessa pressuposição com o conteúdo assertivo das sentenças em questão, sem que precisássemos postular qualquer discrepância arbitrária na interpretação das expressões quantificadoras envolvidas. Uma abordagem e-type mostra-se então suficiente (ver HEIM, 1990, ELBOURNE, 2002), sem incorrer nos problemas da unicidade e da proporção.

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