Resumo

Com base em revisão bibliográfica sobre o conceito de letramento, discutimos a emergência do conceito de letramento digital como uma necessidade para a delimitação de pesquisas em Linguística e Educação. Propõe-se aqui a formulação do conceito de letramento digital e certa delimitação do âmbito que ele atinge nas pesquisas atuais, além de se tentar justificar uma “desagregação” do conceito mais amplo de letramento. 

Considerações iniciais

O conceito de “letramento”, bastante difundido no meio acadêmico brasileiro, mesmo sendo empregado em inúmeros trabalhos, especialmente naqueles que tratam da educação e das práticas de leitura, não encontra homogeneidade e estabilidade. São várias as obras que problematizam o conceito e é impossível estudar o tema sem percorrer uma trajetória que inclui pensadores como Ângela Kleiman (1995), Vera Masagão Ribeiro (2003), Magda Becker Soares (especialmente 2004), entre outros que têm refletido sobre o assunto. Na obra de Soares intitulada Letramento: um tema em três gêneros, que o título deste texto respeitosamente parodia, é possível obter um panorama bastante completo do conceito de letramento.

O livro Letramento no Brasil (Ribeiro, 2003) aponta uma série de posicionamentos teóricos e aborda os problemas de pesquisa e de reflexão que têm como objeto o estudo da relação que as pessoas / comunidades / sociedades têm com a escrita. Na mesma obra, a análise dos dados do Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF, 2001) sugere certos aspectos do letramento que têm relação com novas tecnologias, tais como o uso da Internet como fonte de leitura. Com os novos meios de comunicação e as novas tecnologias de leitura e escrita, outras formas de travar contato ou de interagir por meio da escrita surgiram e foram apropriadas por muitas pessoas, que se tornaram leitores de telas e escritores com acesso a meios de publicação sem ou quase sem mediação. Outra parte da população, ainda sem acesso à World Wide Web ou ao computador, passou a se relacionar com esse mundo de novas possibilidades, mesmo sem acessá-lo. Os “excluídos digitais” passaram a sofrer a pressão de “ter de” empregar as novas tecnologias, já que não basta mais ter competência apenas para lidar com o impresso. Um outro grupo de pessoas que mal tivera acesso ao letramento no impresso passou a ser duplamente excluído, já que as possibilidades tecnológicas aumentam, mas as respostas sociais e políticas não acontecem no mesmo ritmo. A essa apropriação gradativa dos novos meios pelas pessoas deu-se o nome de “letramento digital”. É interessante considerar, também, que não apenas os computadores dão acesso ao mundo digital da informação, mas as mídias móveis (aparelhos celulares e outros minidispositivos) também deixaram de ser apenas objetos para a comunicação ponto a ponto (caso do telefone fixo) e se tornaram mídias, já que também servem para obter notícias, propaganda, livros feitos para mini-telas, etc.

Este trabalho traz um breve histórico do conceito de “letramento” e tem como objetivo central problematizar o conceito de “letramento digital”. A discussão que se propõe sobre o conceito passa pela necessidade de se questionar quais habilidades um leitor deve ter para ler textos na tela. Essas habilidades são muito diversas daquelas desenvolvidas e empregadas para a leitura e a escrita em materiais impressos? Estes questionamentos disparam uma série de propostas para a sustentação da pesquisa em letramento digital.

1 Letramento, letramentos

A palavra letramento não está no dicionário Aurélio. Segundo Soares (2004), há registro do termo no dicionário Caldas Aulete, mas não com o sentido que as pesquisas acadêmicas têm atribuído a ele nas últimas três décadas. O letrado de que falamos aqui não é só o indivíduo culto, mas também aquele indivíduo que domina poucos recursos da língua escrita. Para alguns pesquisadores, até mesmo uma pessoa analfabeta (isto é, que não domina as técnicas de ler e escrever) pode ser letrada se conviver em meios e em uma sociedade em que a escrita faça parte do cotidiano. Enquanto o alfabetizado é o indivíduo que domina uma tecnologia, o letrado pode até não dominá-la individualmente, mas sabe que o domínio da língua escrita (ou da língua oral de alguém letrado) implica certos usos e muitas possibilidades. O letrado analfabeto pode saber quais são essas possibilidades e pode até agir por meio delas, embora indiretamente.

Tfouni (2004) afirma que “não existe, nas sociedades modernas, o letramento ‘grau zero’, que equivaleria ao ‘iletramento’. Do ponto de vista do processo sócio-histórico, o que existe de fato nas sociedades industriais modernas são ‘graus de letramento’”. Para corroborar a afirmação de Tfouni, Ribeiro (2003, p. 15) afirma, muito bem-ancorada em dados de pesquisa, que “saber ler e escrever não é uma questão de tudo ou nada, mas uma competência que pode ser desenvolvida em diversos níveis”. Esses níveis podem ser os mais intuitivos e ligados à vida cotidiana, ou aqueles ligados ao trabalho e aos estudos, por exemplo, até níveis mais complexos, como o dos leitores contumazes de obras difíceis ou os escritores profissionais, autores de teses, comunidades que lidam com as letras de maneira ainda mais íntima.

Analfabeto, para Soares (2004, p. 20), é “aquele que não pode exercer em toda a sua plenitude os seus direitos de cidadão, é aquele que a sociedade marginaliza, é aquele que não tem acesso aos bens culturais de sociedades letradas e, mais que isso, grafocêntricas”. Nessa definição de analfabeto há aspectos de suma importância. Para Soares, a pessoa alfabetizada tem mais condições de atuar em sociedade, de ser cidadã. Não é preciso depender de ninguém para votar, opinar, fazer-se ler ou ouvir. O analfabeto também é cidadão, mas não exerce plenamente seus direitos. As sociedades grafocêntricas excluem quem não domina o que está escrito, e às vezes é necessário estar bem-escrito, ou seja, são sociedades em que a escrita tem importância central, e nem sempre qualquer escrita. Ser alfabetizado, portanto, não é o bastante. É preciso dominar mais linguagens e técnicas do que apenas isso. É preciso ser letrado.

1.1 Graus de letramento

Quando Kleiman (1995) e Tfouni (2004) mencionam os graus de letramento, oferecem mais uma chance de se refletir sobre o conceito de letramento e de repensar sua relação com o de alfabetização. Quando dizemos que alguém é analfabeto, queremos dizer que o indivíduo não é capaz de ler e escrever porque não domina a técnica necessária para fazê-lo. Se dissermos que alguém é alfabetizado, aí sim, sabemos que se trata de uma pessoa que pode ler e escrever. Essa relação dicotômica entre analfabeto e alfabetizado, no entanto, não mostra em que medida o alfabetizado se apropria do que sabe. Os termos alfabetizado e analfabeto dão uma noção falsa: a de que possa existir uma divisão clara e abrupta entre aqueles que dominam e aqueles que não dominam a escrita. O conceito de letramento embaça essa divisão e, no lugar dela, propõe um continuum em que faz sentido falar em graus, como mostram Kleiman (1995) e Tfouni (2004).

Pessoas que lêem Camões e escrevem teses têm um grau de letramento diferente das pessoas que escrevem um bilhete por ano e lêem apenas os rótulos das latas no supermercado. Todos esses graus são importantes, a diferença é que graus mais elevados podem ampliar as possibilidades de atuação das pessoas e das comunidades. Alcançar os graus mais elevados de letramento depende de vários fatores. Entre eles estão as necessidades profissionais de cada um, as influências do ambiente familiar, a escolaridade, a participação em grupos como igrejas, sindicatos, partidos políticos e outras agremiações, etc. Não há um limite para o letramento, ele é infinito. A razão disso é que a humanidade sempre inventará formas novas de escrever, novos gêneros de texto, suportes de leitura, etc., de acordo com as infinitas necessidades que temos e teremos, fazendo com que nosso horizonte de letramento esteja sempre em expansão.

2 Letramento e ferramentas

No sistema de mídias (BRIGGS e BURKE, 2004) atual, o computador está entre as alternativas disponíveis para muitas comunidades de cultura escrita. Essa máquina, entendida como ambiente de leitura e escrita, ampliou as possibilidades de atuação por meio de textos. Se há alguns séculos o sistema de mídias era composto por poucas opções, tais como o livro impresso e a oralidade, mais recentemente o incremento desse sistema deu-se com a emergência de mídias como a televisão, o rádio e a Internet. O sistema ficou mais complexo, acarretando uma ampliação de práticas para o leitor/escritor.

A Internet e as máquinas digitais estão entre as opções mais recentes do letramento. Por isso uma preocupação com os usos das novas tecnologias surgiu entre aqueles que investigam leitura e escrita. Os computadores foram inventados em meados do século XX, nos Estados Unidos, como parte do desenvolvimento tecnológico provocado pela Segunda Guerra Mundial, com a função primeira de serem grandes e potentes calculadoras. Depois da guerra, outros usos foram destinados a essas máquinas e alguns esforços começaram a ser feitos para que elas diminuíssem de tamanho e pudessem ser usadas por pessoas leigas em programação e linguagens de computador.

A Internet tem um percurso parecido: inicialmente, foi uma rede militar, em seguida entrou nas universidades, começou a ser utilizada como mídia (para a comunicação entre pesquisadores, alunos, etc.) e depois ficou pública, tornando-se mídia num sentido mais amplo, ao alcance das pessoas comuns como ambiente de leitura e escrita. Atualmente, qualquer pessoa pode ler jornais, fazer pesquisas e bater papo via Internet, desde que tenha um computador diante de si. E o mais interessante é que esse ambiente também proporciona, a depender do “lugar” em que se esteja, que qualquer pessoa escreva e publique na rede.

Mais de 30 anos se passaram até que as primeiras máquinas compactas chegassem às empresas, às escolas e à casa dos usuários de computador que não conheciam linguagens especiais. Junto com o computador e com a Internet surgiram muitas palavras e novos usos para várias delas. Digitar tornou-se o correspondente da antiga palavra datilografar, só que no teclado de uma máquina eletrônica. Digital passou a ser o adjetivo empregado para se referir a máquinas que funcionam com microprocessadores que transformam informações em números. Bits e bytes passaram a ser a essência das operações de computadores e da informação que trafega por cabos e fios (e mesmo sem eles).

No final da década de 1970 e nos anos 80, estudos de Shirley Brice Heath, Sylvia Scribner & Michael Cole, Brian V. Street e Harvey J. Graff, entre outros, analisavam e rastreavam o que era, então, um problema em suas sociedades: aumentar o letramento (literacy) de uma população que já havia alcançado alfabetização quase irrestrita (para não dizer total, em países muito desenvolvidos). Nos contextos em que a questão se colocava, as nações já haviam alcançado estágio posterior às campanhas de alfabetização, além de terem trajetórias históricas privilegiadas em relação à cultura escrita. Países da Europa viram nascer o comércio do livro, a imprensa de Gutenberg, as universidades e o acesso à escola para grande parte da população, assim como viram emergir os primeiros públicos “de massa”.

No século XX, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos da América reconfiguraram nosso sistema de mídias (BRIGGS; BURKE, 2004) com a invenção do computador e da Internet, além de todos os aplicativos empregados para ler, escrever, fazer cálculos, desenhar e navegar por mares de informação. Soares (2003) inclui, entre as habilidades que se precisa desenvolver para ampliar o grau de letramento, ferramentas digitais. Para ela, além da transcodificação grafema/fonema e vice-versa, é necessário ter:

(...) habilidades motoras de manipulação de instrumentos e equipamentos para que codificação e decodificação se realizem, isto é, a aquisição de modos de escrever e de modos de ler – aprendizagem de uma certa postura corporal adequada para escrever ou para ler, habilidades de uso de instrumentos de escrita (lápis, caneta, borracha, corretivo, régua, de equipamentos como máquina de escrever, computador...), habilidades de escrever ou ler seguindo a direção correta da escrita na página (de cima para baixo, da esquerda para direita), habilidades de organização espacial do texto na página, habilidades de manipulação correta e adequada dos suportes em que se escreve e nos quais se lê – livro, revista, jornal, papel sob diferentes apresentações e tamanhos (folha de bloco, de almaço, caderno, cartaz, tela do computador...). Em síntese: alfabetização é o processo pelo qual se adquire o domínio de um código e das habilidades de utilizá-lo para ler e para escrever, ou seja: o domínio da tecnologia – do conjunto de técnicas – para exercer a arte e ciência da escrita. (SOARES, M. In: RIBEIRO, 2003, p. 91)

A definição de Soares (2003) considera, como se viu, a alfabetização como um “conjunto de técnicas” que alguém aprende e que são “necessárias para a prática da leitura e da escrita”. Entram aí, além do conhecimento da relação entre fonemas e grafemas, as habilidades motoras que devemos aprender para segurar um lápis, utilizar uma caneta e usar um equipamento como um computador. Este último recurso só entrou no rol das possibilidades de escrita e leitura recentemente. Há pouco mais de 40 anos o computador foi inventado e há pouco mais de 10 entrou nas casas das pessoas, nas escolas e passou a fazer parte de nosso cotidiano. É muito recente, portanto, o emprego do computador como ferramenta de leitura e escrita, assim como a Internet como ambiente de publicação (também de leitura e escrita).

Inúmeros autores abordam o letramento muito relacionado ao objeto impresso: livro, jornal, revista, todos nos formatos tradicionais, mais antigos e mais conhecidos no mundo, até hoje, mas e o computador? Onde fica esse objeto entre as práticas de leitura e escrita das pessoas? Será que essa máquina já entrou no rol das possibilidades mais próximas de leitura e escrita? Para isso, é preciso pensar em outro conceito, tão controverso quanto o de letramento, que é o de letramento digital. Será que este é mesmo um outro conceito? Para que fins ele serve? Qual é sua abrangência? Que objeto de investigação está em foco quando se observa o letramento digital?

Se o conceito de letramento é problemático, o de letramento digital é ainda mais controverso, uma vez que traz, junto ao substantivo já tornado objeto de debate, um adjetivo que transforma e constrange seu sentido. Letramento digital é expressão ainda não empregada irrestritamente. Há ocorrências de letramento informacional, letramento computacional, letramento midiático, letramento multimidático e outras, todas traduzidas do inglês computer literacy ou information literacy, e nem sempre são sinônimas ou referem-se aos mesmos problemas e objetos. Em Portugal, por exemplo, o professor Manuel José Damásio (2000) menciona a literacia visual e a literacia mediática, que embora se complementem, não têm o mesmo sentido. O professor João Carlos Correia, também em Portugal, em artigo de 2002, relaciona a literacia mediática à cidadania. Mas como fazer isso sabendo que apenas uma pequena parcela da população brasileira tem acesso à Internet, mesmo que o tenha a algum computador?

3 Letramento digital ou apenas um dos letramentos?

O computador das décadas de 1960 e 70 não se parece com a máquina de hoje em dia. As interfaces gráficas só apareceram na década de 1990, sob muita controvérsia. O que seria uma linguagem gráfica do computador? Vale a pena imitar o impresso? Esta é a pergunta de vários pesquisadores. O sistema de mídia é esse emaranhado de mídias em que vivemos; mídias que se influenciam reciprocamente, a ponto de muitas características da Internet se parecerem com o impresso, outras serem imitações da televisão, etc.

O objeto impresso também não fica de fora disso só porque é um dos mais antigos do mundo. Revistas, jornais e livros “brincam” de se parecer com a televisão, o videoclipe, a Internet. Não apenas na linguagem que utilizam, mas também na aparência. Revistas que trazem fios que imitam links, cores e sublinhados, ícones e caixas. Sites que imitam páginas de livros, programas de tevê que “rodam” na rede. O contrário também acontece e, aliás, a rede foi prioritariamente feita de transposições e imitações.

No início da Idade Média, o sistema de mídia contava com as opções da época: livros em formatos de rolo, de códex, escritos à mão, aparecendo mais tarde a opção pela imprensa tipográfica. Um público-leitor muito menor do que hoje. Com relação às práticas, esse público ainda vivia o conflito entre a leitura em voz alta e a silenciosa. Também convivia com a proibição de obras, os preços altíssimos, a dificuldade de circulação, bibliotecas em que os livros ficavam acorrentados. Enfim, um sistema bem diferente do nosso.

O leitor da atualidade dispõe de mais formatos de texto, em suportes ainda mais diversos do que o leitor medieval. Além do livro, o cinema, a televisão, a Internet, os telefones celulares, entre outras possibilidades. Se alguns conflitos desapareceram, outros surgiram: ler no papel é mais fácil do que ler na tela? Copiar e colar à mão ou nos editores de texto? Aceitar ou não o computador na sala de aula? (Talvez isso já nem caiba mais perguntar...) Fazer dele uma máquina produtiva, imitar ou não objetos impressos?

Do ponto de vista das pessoas que produzem aplicativos ou trabalham no ambiente digital, tais como os webjornalistas, o computador alterou muito a rotina de trabalho. Do ponto de vista do leitor, as práticas também se alteraram. E para aqueles que isso ainda não aconteceu, ao menos eles podem saber que os horizontes certamente se alargaram.

Roger Chartier, historiador das práticas da leitura, afirma, em entrevista inédita, que, se existe uma “nova legibilidade”, por conta dos novos suportes do texto, também será necessário pensar e executar o que ele chama de “nova alfabetização”. Se antes convivíamos com a separação entre alfabetizados e analfabetos, minorada pelo surgimento das preocupações com o letramento, agora novas questões são postas. Uma delas é aquela relacionada aos analfabytes, pessoas que, embora saibam ler e escrever, e por vezes dominem os suportes tradicionais de escrita, não dominam novas mídias, mais especificamente o computador e a Internet. Mais uma vez, podemos afastar a dicotomia entre analfabytes e alfabytizados para que emerja uma nova discussão: a do letramento digital.

4 Letramento digital

Se letramento é um conceito tão amplo e controverso quanto o que se pôde expor, não é possível que exista um “conceito único de letramento adequado a todas as pessoas, em todos os lugares, em qualquer tempo, em qualquer contexto cultural ou político”. Na atualidade, há uma tendência a se formarem conceitos de letramento “desagregados”, ou para especificar um domínio do letramento ou para mostrar uma função com que leitura e escrita podem ser utilizadas. Soares (2004) dá exemplos tais como “letramento básico e letramento crítico, letramento adequado e inadequado, letramento funcional e integral, letramento geral e especializado, letramento domesticador e libertador, letramento descritivo e avaliativo, etc.”. A autora cita o conceito de letramento funcional proposto por Gray (1956) e reforçado por Scribner (1982) com o nome de letramento de sobrevivência:

A necessidade de habilidades de letramento na nossa vida diária é óbvia; no emprego, passeando pela cidade, fazendo compras, todos encontramos situações que requerem o uso da leitura ou a produção de símbolos escritos. Não é necessário apresentar justificativas para insistir que as escolas são obrigadas a desenvolver nas crianças as habilidades de letramento que as tornarão aptas a responder a estas demandas sociais cotidianas. E os programas de educação básica têm também a obrigação de desenvolver nos adultos as habilidades que devem ter para manter seus empregos ou obter outros melhores, receber o treinamento e os benefícios a que têm direito, e assumir suas responsabilidades cívicas e políticas. (SCRIBNER, 1982, p. 9 citado por SOARES, 2004, p. 73)

Heath (citado por SOARES 2004) trata dos letramentos em vários domínios, entre eles os da escola e do trabalho. Diante de tantos domínios em que a execução de ações acontece por meio de textos em uma gama imensa de formatos e suportes, é natural que a teoria sobre tudo isso também fique mais complexa. Daí, com a chegada do computador como máquina de ler e escrever, o surgimento de mais uma subcategoria do letramento.

Há um amplo leque de possibilidades de pesquisa. O pesquisador precisa, portanto, fazer um recorte dentro do tema mais amplo dos letramentos e chegar a um ambiente que deseje observar. O ambiente digital exclui impressos em geral, embora se possa comparar uns e outros. Escolher esse ambiente ainda é muito vago. Ele oferece tantas possibilidades quanto o mundo fora do virtual. Daí que seja necessário escolher, ainda, um ambiente sobre o qual trabalhar: sites (um jornal on-line não é o mesmo que uma loja virtual, mas são sites), blogs (que também suportam desde diários adolescentes até coberturas de guerra seriíssimas), chats (em que se pode bater papo à-toa, paquerar e entrevistar personalidades importantes da política ou das artes), etc. Como se vê, não é simples tratar dos letramentos que alguém domina quando se move na Internet ou no computador desconectado (uma boa apresentação de PowerPoint não é um gênero?).

Emília Ferreiro, em obra de 2002, menciona a expressão computer literacy. Em trabalhos das áreas de educação, comunicação ou linguística, é possível encontrar outros nomes para o que nos parece ser o mesmo problema: informational literacy, digital literacy ou multimedia literacy. Em Portugal, fala-se na literacia mediática. No Brasil, vários pesquisadores parecem ter optado pela tradução de letramento digital, muito embora isso tenha ocorrido sem muito debate sobre a adequação desses nomes aos objetos.

Afinal, o que essas palavras querem nomear? Pensamos que seja o domínio (ou não), pelo leitor, dos gestos e das técnicas de ler e escrever em ambientes que empregam tecnologia digital. Quais seriam as impropriedades da adjetivação do conceito de letramento? O incômodo que isso causa deve-se ao fato de que o letramento deveria ser um conceito suficientemente amplo para abarcar todo tipo de uso da leitura e da escrita. No máximo, poder-se-ia aderir à proposta de Street (citado por SOARES 2004) e admitir o plural: letramentos. Mas aí surge a questão: se os letramentos são vários, de qual ou de quais estou tratando agora? Dependendo do foco da pesquisa, o pesquisador passa a observar subdivisões do letramento. Quanto mais amplo for nosso sistema de mídia, maiores serão nossas possibilidades de ler e escrever e atuar por meio da escrita. Se assim acontecer, então nosso espectro de domínios de uso, com funções as mais diversas e suportes diferentes, também se ampliará, o que aumenta as chances de precisarmos de um recorte.

Pensando assim fica mais fácil compreender o que deva ser o letramento para o trabalho, por exemplo. É só pensar quais textos lemos ou escrevemos nesse contexto, quais são os usos mais comuns, mais necessários, mais encontrados e que práticas desempenhamos nesse contexto. Se estivermos tratando dos textos, leituras e escritas do dia-a-dia em seu sentido mais prosaico, falaremos então do letramento de sobrevivência, proposto por Gray e reforçado por Scribner (citados por SOARES, 2004). Mas sobreviver no trabalho não demanda letramentos?

Mais adiante, num sistema de mídia composto por livros, tevês, computadores e seus aplicativos, teremos que tratar do letramento... digital. “Letramento digital é o nome que damos, então, à ampliação do leque de possibilidades de contato com a escrita também em ambiente digital (tanto para ler quanto para escrever)”. (COSCARELLI; RIBEIRO, 2005, p. 9) Por que digital? Por que não empregamos a tradução de computer ou de multimedia literacy? A opção parece, mais uma vez, depender do escopo do problema a ser tratado.

Letramento em multimídia ou no computador é um conceito que poderia considerar apenas computadores e suportes que admitissem várias mídias (som e imagem, por exemplo) em apenas um dispositivo. Não seria de todo inadequado, mas o adjetivo digital admite, com facilidade, qualquer dispositivo que empregue tecnologia digital, bits e bytes. A televisão, por exemplo, estaria excluída disso enquanto for analógica. A tevê do futuro, com opções de programação, trajetos e formatos, talvez entrasse neste conceito.

Mas por que tratar apenas de gestos de leitura e escrita executados em computadores? Mesmo dentro desse domínio, as funções não podem ser diferentes? O que é de sobrevivência nos usos do computador (desconectado)? E nos usos da Internet? O que se usa na rede que está diretamente relacionado ao mundo do trabalho? Desta forma, parece que letramento digital é um conceito amplo demais e que necessitaria de mais subcategorias, como, por exemplo, a depender da pesquisa: o letramento de indivíduos que usam a Internet no domínio do trabalho. Recortes dentro de recortes, à maneira de um hipertexto.

5 O que faz alguém ser letrado digital?

Pessoas letradas “analógicas” puderam tornar-se, recentemente, letradas digitais em vários domínios. No trabalho, os e-mails e o envio de arquivos à distância podem ser fundamentais. Assim como na escola a Internet pode servir para a pesquisa, o acesso a documentos e a entidades oficiais que estão fisicamente distantes do usuário, a leitura de jornais e de revistas, etc. O uso do computador e da Internet é tão sócio-histórico quanto os usos que se fizeram do livro, do jornal, da revista ou da televisão. A diferença parece estar na natureza do meio, que permite ações antes não facilitadas pelo papel. Os textos “blocados” planejados de maneira que cada fragmento seja ligado por articuladores chamados links são potencializados na Internet, mas já existiam em suportes impressos, que não permitiam a navegação como ela se dá no ambiente digital.

No entanto, não é assim tão fácil falar em multidões que usam computadores e a rede mundial que os conecta. Segundo dados do Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional, INAF, “dois terços da população brasileira maior de quinze anos não têm o nível mínimo de escolarização que a Constituição garante como direito a todos: as oito séries do Ensino Fundamental”. (RIBEIRO, 2003, p. 10) Isso quer dizer que o letramento digital soa como luxo para muitos cidadãos.

Os dados diretamente relacionados ao uso e ao acesso ao computador são enfáticos: das classes D e E, apenas 4% utilizam computador, eventualmente; das classes B e C, 15%; e a classe A usa computador, “ao menos eventualmente”, em 41% dos casos. É patente que o fato de pertencer a uma ou a outra classe social define o acesso à máquina e à rede. Letrados digitais, portanto, são mais raros nas classes menos favorecidas. Por que razão deveríamos, então, tratar o letramento digital como algo de alcance irrestrito? Para alguns pesquisadores, a preocupação com os usos do computador é precipitada em uma sociedade que mal conseguiu formar “leitores de papel”. Se não pudemos alcançar bons níveis de letramento em mídias tradicionais, como o livro e o jornal, por que gastar esforços com mídias que não chegam largamente à população?

Mas há outras formas de pensar. Os países em desenvolvimento não conseguem percorrer sem tropeço a trilha da evolução das mídias. No Brasil, então, temos uma situação ainda mais complexa. Somos um país que foi, durante muito tempo, proibido de ler e escrever, que teve sua primeira tipografia em 1808, quando a indústria editorial européia andava a largas passadas, e não pudemos constituir público-leitor nem mesmo para livros. O romance foi nossa primeira “febre” editorial, já no século XIX. A questão que se coloca para o letramento digital também poderia ser posta para o livro em meados do Oitocentos. Quando é que estaremos, finalmente, prontos para a utilização do computador?

Schapochnik (2003) afirma que, sobre certa resistência às novas mídias, nos dias atuais,

reverberam reações similares àquelas despertadas no contexto do advento da imprensa. Decerto, porque as mudanças no padrão tecnológico de comunicação alteram as práticas e representações culturais. Contudo, os investigadores insistem que uma perspectiva evolutiva e progressiva acaba por obscurecer o fato de que as normas, as funções e os usos da cultura letrada não são compartilhados de maneira igual, como também não anulam as formas precedentes. (SCHAPOCHNIK, 2003, p. 10)

Na Idade Média, após a invenção da prensa pelo ourives alemão Gutenberg, alguns editores e leitores chegaram a achar indigno que um livro fosse impresso por uma máquina mecânica. Até ali, todos os livros eram escritos à mão, muitas vezes em materiais luxuosos, como couro tratado e ouro. O glamour desse objeto ainda seduzia aqueles que viram no livro impresso um objeto insosso, padronizado e, dali em diante, industrial.

Os temores de hoje, em relação ao computador e à Internet, lembram certa nostalgia do papel e do lápis, mas a convivência entre as mídias num sistema de mídias é que torna o conceito de letramento pertinente. As pessoas, em sociedade, devem ampliar seus gestos de ler e escrever e isso não quer dizer que devam trocar uns pelos outros, embora isso possa ocorrer diante de certas técnicas facilitadoras. O ideal é que alarguemos nossos horizontes, nos apropriemos das possibilidades que existem e sejamos competentes na maior parte delas. Se há quem pense que é preciso ler e escrever primeiro no papel para depois chegar às telas, também há quem pense que nada disso tem regras rígidas. Se o mundo oferece as possibilidades de papel e de cristal líquido, então é bom que o leitor saiba que pode ter o domínio de todas.

São perguntas frequentes: Como fazer o leitor de papel aderir à leitura na tela? Como projetar a informação na tela de forma que o leitor não tenha dificuldades em encontrá-la? Como transferir gêneros e textos do impresso para a tela, resguardando as peculiaridades do novo meio? O que e como são os gêneros de texto que surgem na Internet? Responder a elas é uma tentativa de implementar o letramento digital.

Espera-se ter conseguido explicitar a pertinência de “desagregrar”, pelo menos para fins de pesquisa, o letramento digital do espectro bem mais amplo do letramento (ou dos letramentos). Letramento digital é a porção do letramento que se constitui das habilidades necessárias e desejáveis desenvolvidas em indivíduos ou grupos em direção à ação e à comunicação eficientes em ambientes digitais, sejam eles suportados pelo computador ou por outras tecnologias de mesma natureza.

6 Agências de letramento digital

A escola e o professor podem ser entendidos como os mais prováveis multiplicadores do letramento digital. Mesmo que a tarefa não seja escolar, o uso do computador para fins de sobrevivência no trabalho ou nas relações sociais é de suma importância para as comunidades. Isso sem falar nas possibilidades de atuação cidadã na rede: sites de busca a desaparecidos, entidades de classe, discussões sobre temas da sociedade, produção de notícias em jornais, escolha de prioridades nas listas dos orçamentos participativos de Prefeituras, etc.

As universidades têm sustentado diversas discussões sobre o letramento digital, desde aquelas que se atêm às condições técnicas em que isso poderia se dar até aquelas que debatem sobre conceitos e a formação de professores capacitados para lidar com um novo sistema de mídias. As escolas de ensino médio ou fundamental têm entrado na discussão, mas de forma muito tímida, ainda receosas de admitirem as máquinas na vida intelectual de crianças e adolescentes (mesmo que os jovens o estejam fazendo por conta própria). É bastante comum encontrar disciplinas de informática em colégios bem-equipados, mas não é fácil confirmar que essas aulas tenham mesmo impacto na formação letrada dos jovens. “Mexer” no Word só pode ser útil se ele for mesmo um aplicativo utilitário, que sirva para algum uso próximo do real. Para que são empregados os editores de texto? Para escrever, diagramar e produzir trabalhos de verdade. Da mesma forma acontece com aplicativos como Excel, Paint ou outros. Jogos são muito interessantes, mas eles precisam de objetivos claros para que não sejam confundidos com sessões de videogame, espécie de aulas-intervalo.

A Internet também tem suas armadilhas. Aulas de uso de chats, para muitos jovens, são “chover no molhado”. Talvez fosse mais significativo construir blogs com projetos editoriais claros (discussão de temas relevantes para a escola ou a comunidade), montar sites, entrar em discussões públicas da sociedade ou da comunidade local, publicar resenhas e comentários em jornais de verdade (nas seções de cinema, música, teatro, dança, televisão), entrevistar pessoas por e-mail ou chat, aprender a fazer pesquisas eficientes em máquinas de busca. Para que a escola se torne uma agência de letramento digital, é necessário refletir sobre o que isso quer dizer e ter claras as competências que precisam ser desenvolvidas nos alunos-usuários de computadores e da Internet.

Como já foi dito, embora as novas mídias tenham surgido recentemente, elas ainda se aproveitam de características de mídias impressas para se firmar e até para facilitar a adesão dos leitores. A distância entre o universo digital e o impresso não pode ser tão grande assim.

6.1 O que tem sido feito?

O letramento digital pode acontecer por meio de agências as mais diversas, independentemente da escola. Mas também a escola pode ser uma das agências fundamentais desse tipo de letramento. É comum que o espaço escolar demore mais para admitir alguns usos de determinadas mídias. Em um sistema de mídias menor do que o que temos hoje, já acontecia isso. Soares (2003) menciona a “pedagogização” de certos conteúdos ou de certas técnicas que acontecem, primeiro, fora da escola. Os usos do computador parecem ser uma delas.

“Pedagogizar” seria tornar parte do discurso e das práticas escolares algo que acontece na sociedade. Isso pode ser ruim, quando a escola “força” práticas e conteúdos a entrarem num enquadramento entediante e sistematizado como “regra” ou “proposta didática”; mas pode ser bom quando a escola admite que é necessário levar para dentro de seus muros as práticas da sociedade, desenvolver nos alunos o senso crítico, trabalhar com textos de circulação social, assim como lê-los em suportes que estão nas casas e no trabalho das pessoas. De certa forma, os “muros” da escola, que a isolam do “mundo lá fora”, podem ser mais frágeis e leves.

Foi Soares (2003) que elencou o computador (e a Internet, quem sabe?) entre as possibilidades da alfabetização e isso parece se estender ao letramento, já que o uso da máquina para práticas variadas de leitura e escrita se tornou parte das atividades das pessoas, em sociedade, no trabalho, em casa, na rua e na escola. Se o conceito de letramento é amplo a ponto de tratar das práticas todas que envolvem a cultura escrita, então se pode dizer que ele é suficiente para abarcar também os usos mais recentes de novas tecnologias e também as técnicas de leitura e escrita que ainda virão.

A necessidade de adjetivar os letramentos surge da necessidade dos pesquisadores de fazer “recortes”, de discernir que tipo de letramento e quais habilidades específicas desejam estudar ou ajudar uma comunidade a desenvolver. Eis nossa defesa do conceito de letramento digital, embora ainda seja necessário especificar em que domínios ele funciona quando o usuário utiliza sua conta do Orkut ou do MSN para bater papo, para entrevistar alguém ou para fazer uma investigação policial.

Para alcançar algum grau de letramento digital, as pessoas precisam aprender várias ações, que vão desde gestos e o uso de periféricos da máquina até a leitura dos gêneros de texto mais sofisticados que são publicados em ambientes on-line e expostos pelo monitor. O computador é um dispositivo de armazenamento e recuperação em que ficam armazenadas as informações trabalhadas pelo usuário; a Internet é um dispositivo remoto em que muitas pessoas, no mundo inteiro, arquivam suas informações, que ficam ali acessíveis a todos; a tela do computador funciona como um display, um mostrador que acessa o que o usuário pedir. A um comando do mouse ou do teclado, a tela exibe um site, um blog, uma página de acesso do e-mail. Dentro de cada um desses ambientes pode haver gêneros diversos de textos, alguns que já existiam antes da invenção do computador, outros que nos parecem novidades. Por exemplo: sites podem conter crônicas, anúncios de emprego, anúncios publicitários, notícias, reportagens, ensaios, resumos de artigos científicos, os próprios artigos, etc. Em muitos casos, a diferença entre as novas mídias e os livros, por exemplo, é que impressos são mídias unplugged, off-line. Mídias tradicionais também tiveram suas histórias, seus formatos, suas fases. O livro já foi um objeto grande e pesado, que devia ser lido em ambientes fechados, em cima de mesas ou cavaletes. A invenção dos formatos menores levou séculos, até que um italiano tivesse a “coragem” de publicar livros de bolso. Estes foram chamados de libelos, porque deixavam o leitor livre para ler na rua, na praça, num café. No entanto, nem todas as pessoas daquela época aprovaram esse tipo de publicação, que parecia desmerecer os textos clássicos e popularizar demais a leitura.

No computador, o acesso aos textos depende do comando do usuário. Leitores de tela que acessam apenas chats têm letramento digital limitado, assim como leitores de jornais impressos que só vão até os textos do horóscopo. Para se chegar aos textos mais complexos, é preciso uma caminhada maior, independentemente dos ambientes.

Pessoas que ainda não têm letramento digital têm dificuldade de lidar com os equipamentos. É preciso saber como usar o teclado, o mouse, dar dois cliques para abrir programas, um clique para acessar links, usar logins e senhas, etc. Depois que ultrapassam essa fase “motora”, os usuários começam a conhecer a navegação em ambientes, a participação, a leitura, a publicação. Nos ambientes digitais, a distância entre ler e escrever é muito curta.

7 Finalmente, do manuscrito, à datilografia e à digitação

Já vimos que o sistema de mídia e a sociedade em que vivemos não permitem mais que fiquemos isolados em meia dúzia de usos da leitura e da escrita. É necessário, para fins cotidianos pelo menos, que dominemos alguns modos de ler e escrever mais tradicionais e outros bem recentes. Isso inclui dispositivos, como aparelhos de telefone celular, computadores e redes que se conectam por meio deles. O letramento mais geral inclui todas essas possibilidades.

Do ponto de vista do produtor de textos, muitas operações foram alteradas com a chegada das novas mídias. A sociedade também faz apropriações inesperadas de alguns suportes. Foi assim na história de vários dispositivos. O mais recente deles talvez seja o telefone celular, que de aparelho para obter ligações telefônicas passou a mídia móvel, ou seja, um dispositivo que recebe e envia textos de vários gêneros: recados, avisos, alertas, propaganda, notícias, newsletters, etc. O telefone fixo não se prestava a tudo isso, embora já fosse empregado para o telemarketing, por exemplo.

Do ponto de vista do receptor/usuário dos meios, é preciso transitar por várias possibilidades, ampliar o letramento, fazer vários usos de vários dispositivos.

Para os pesquisadores, pensamos que valha a pena segmentar os campos de estudo do letramento para que possamos enxergar melhor o que pode ser feito com relação a um ou outro meio, suporte ou gênero de texto. É como se, ao “desagregar” os letramentos, o estudioso passasse a vê-los através de uma lente de aumento. É com essa “ferramenta” que alguns se fixam no uso dos textos mais cotidianos (como cartas ou bilhetes), outros estudam textos literários, há quem se concentre nos textos do mundo do trabalho, do entretenimento ou nestes de que tratamos com mais afinco aqui, os que são lidos ou produzidos na/para a tela do computador, os que circulam ou que se produzem na Internet.

Nossa intenção é estudar o que é novo e o que é reconfiguração neste novo sistema de mídia, e estarmos sempre preparados para as reconfigurações desse sistema, que vai crescer, se remodelar, se rever. Também é preciso trabalhar pela facilitação do acesso das pessoas, o maior número delas às possibilidades da rede. Não basta saber digitar, é preciso saber ler, escolher, pesquisar, triar, selecionar, refazer, participar. Para isso, é necessário passar pela fase da “transposição” de aspectos do impresso para o meio digital e, só mais adiante, observar a navegação plena do leitor.

... o leitor, cada vez mais letrado, deve ganhar a versatilidade de lidar com todos os gêneros, de maneira que não tenha a sensação de completo estranhamento quando tiver contato com novas possibilidades de texto ou suporte. O letramento, além de significar a experiência com objetos de leitura, também deve possibilitar que o leitor deduza e explore o que pode haver de híbrido e reconhecível em cada gênero ou em cada suporte, e, assim, manipulá-lo como quem conquista, e não como quem tem medo. (RIBEIRO, 2005, p. 135-136)

A conquista dos ambientes e dos textos acontece na apropriação das ações pelas comunidades. O letramento digital está dentro do continuum do letramento mais amplo, não linearmente, mas numa rede de possibilidades que se entrecruzam. Ele pode começar no impresso e partir para os meios digitais, uma vez que muitas ações são semelhantes nesses ambientes. Ou fazer o trajeto no sentido contrário. O importante é compreender que a relação entre os dispositivos para a comunicação foi recentemente reconfigurada. Consequentemente, as possibilidades e as exigências do letramento também o foram.

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