Resumo

Neste artigo, analisam-se na perspectiva da Historiografia da Linguística características do que foi percebido como ser linguista no Brasil em meio à pluralidade teórica da linguística do século XX. Em destaque a busca por tarefas da linguística, compreendidas de maneiras específicas a depender da inserção teórica do linguista que definia perspectivas para a atuação em ciência da linguagem. Para a elaboração de uma interpretação historiográfica, argumenta-se que uma das perspectivas privilegiadas a ser adotada em uma reconstrução histórica da ciência da linguagem é aquela que coloca como objeto de observação a retórica dos linguistas em busca de validação de suas práticas científicas.

Introdução

Na década de 1940, nos Princípios de Linguística Geral (reconhecidoaté pelo menos os anos 1960 como o melhor manual introdutóriopublicado na América Latina3), Joaquim Mattoso Camara Jr. (1904-1970) fez uma afirmação que, em meio a movimentos incipientes deuma docência brasileira em ciência da linguagem, possibilita-nosentrever posicionamentos que podem ser considerados como topoido discurso dos linguistas do século XX, a constituir uma retórica4científica elaborada em torno de uma imagem simbólica5 paraesses cientistas, isto é, uma identidade6 social: (i) a aproximaçãoda linguística com outros domínios científicos; (ii) a ruptura comsaberes sobre a linguagem que não se enquadram na percepção de2 Este texto foi escrito em homenagem a Cristina Altman pelos seus mais de trinta anos decarreira acadêmica. Pioneira na Historiografia da Linguística no Brasil, publicou em 1998uma fundamental história da linguística brasileira – A pesquisa linguística no Brasil (1968-1988). Desde essa interpretação historiográfica, é impossível analisar a linguística brasileirasem se apoiar nas suas análises. A narrativa historiográfica aqui proposta é devedora dessetrabalho e parte dele para analisar a presença histórica de três materiais que já estavam noamplo escopo analítico de Altman em 1998.3 “... surgiram os Princípios de linguística geral, de Mattoso Câmara (Rio de Janeiro, 1941),que desde a sua segunda edição (Rio, 1954) tornou-se o melhor manual para a introdução dalinguística até então publicado em país latino.” (COSERIU, 1976, p. 25).4 O termo retórica refere-se aos discursos de cientistas que pretendem persuadir seusdestinatários a respeito de posicionamentos intelectuais e sociais que assumem. Aproximase, portanto, do sentido clássico que a palavra retórica assume como arte da persuasão.Retórica também denota um objeto de estudo a partir do qual se pode fazer uma observaçãoanalítica dos proferimentos científicos (cf. GROSS, 1990).5 A expressão “imagem simbólica” é empregada como equivalente ao sentido atribuído aotermo ethos em análise do discurso, como imagens elaboradas discursivamente em buscada legitimidade de práticas discursivas (quem é o enunciador – seu estilo, tom e escolhasdiscursivas, qual seu estatuto social-discursivo, que imagem fazem dele seus alocutários,como ele elabora sua presença discursiva).6 Emprega-se o termo identidade em sentido discursivo como uma “identidade deposicionamento [que] caracteriza a posição que o sujeito ocupa em um campo discursivo emrelação aos sistemas de valor que aí circulam, não de forma absoluta, mas em função dosdiscursos que ele mesmo produz” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2008, p. 267).