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          <subject content-type="Tipo de contribuio">Ensaio teórico</subject>
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        <article-title>
          <bold id="bold-1">A TRAJETÓRIA DO FUTURO PERIFRÁSTICO NA LÍNGUA PORTUGUESA</bold>
        </article-title>
        <subtitle>
          <bold id="bold-8aebae2121255e36ce026b7514b56f5d">SÉCULOS XVIII, XIX E XX</bold>
        </subtitle>
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            <given-names>Sílvia Rita Magalhães de </given-names>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="17/05/2017" />
      <volume>7</volume>
      <issue>2</issue>
      <issue-title>A TRAJETÓRIA DO FUTURO PERIFRÁSTICO NA LÍNGUA PORTUGUESA: SÉCULOS XVIII, XIX E XX</issue-title>
      <fpage>93</fpage>
      <lpage>117</lpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1"><italic id="italic-1">Analisa-se a variação do futuro verbal na Língua Portuguesa escrita ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX. A partir de dados de cartas e de jornais, verifica-se a trajetória da gramaticalização e da implementação da perífrase </italic>ir<italic id="italic-2"> + infinitivo, identificando-se os contextos lingüísticos do seu espraiamento, tendo como base a sociolingüística variacionista.</italic></p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-a88c997bc88156fe7951602b72eb3d77"><italic id="italic-2db9a8f66b8770958493471212b37fec">With variationalist sociolinguistics as a framework, we analyze variation in the use of different forms of the future tense in written Portuguese from the XVIII</italic><sup id="superscript-1"><italic id="italic-63a874813d0dc247ca640f68ce66e210">th</italic></sup><italic id="italic-3">, XIX</italic><sup id="superscript-2"><italic id="italic-4">th</italic></sup><italic id="italic-5"> and XX</italic><sup id="superscript-3"><italic id="italic-6">th</italic></sup><italic id="italic-7"> centuries. Using data from letters and newspapers, we observe the process of grammaticalization and use of the </italic>ir<italic id="italic-8"> + infinitive form and identify the specific contexts involved in its expansion.</italic></p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-9774a8ebdc86661611fd450e918e42ff">Futuro verbal</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-d64b9b2be7668cf575d1cd1a58915c22">Variação</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-8e3f13a2d1d01b563d277deed53dff8c">Mudança</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-0d0aad767cbd1897c56ffcaa73180503">Sociolingüística</italic>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-95ad60eb64a5f556859896e59244e941">Gramaticalização</italic>
        </kwd>
      </kwd-group>
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    <sec id="heading-d6f47f279a061198e9b97df6abb53bdd">
      <title>Introdução</title>
      <p id="heading-7369927ec7c9ecf1d7db08298e07d159">A expressão do futuro verbal na Língua Portuguesa é um fenômeno variável tanto sincrônica como diacronicamente, processo, aliás, não exclusivo do português, mas, antes, característico de línguas românicas e até de línguas que pertençam a outras famílias, como o Inglês. Todavia, os manuais da língua (gramáticas e livros escolares) apresentam apenas a forma de futuro simples.</p>
      <p id="paragraph-3">Ao longo da história da Língua Portuguesa, há, pelo menos, quatro formas variantes para a expressão do futuro verbal, embora o futuro simples seja a forma preferida na escrita:</p>
      <p id="paragraph-f9c8105285e5397515259a453a0d3e24">.</p>
      <p id="paragraph-55cdeeb0f3068d2b8b3a6abb37881972">Futuro simples:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-13d8c985b965c03f8b8a9ee54840f6b1">
        <list-item>
          <p>(1) Assim os terroristas não <underline id="underline-1">encontrarão</underline> condições para agir. <underline id="underline-2">Saberão</underline> que <underline id="underline-3">terão</underline> de enfrentar, muito mais ainda, a antipatia popular, porque, em cada cidadão, <underline id="underline-4">encontrarão</underline> um inimigo decidido a defender o Govêrno de que participa. (séc. XX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-9fb50e4349211c4d1c7ae90113e676fd">Perífrase com <italic id="italic-a4856a9c54a7afff4ce34ca1e5d8fcfa">haver de</italic> + infinitivo:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-01af36d328581438b1642f432e41097b">
        <list-item>
          <p>(2) [...] porém eu digo-lhe que não quero, e se você tornar a S.M. <underline id="underline-30598d7a14193e3cc955db0dd1e21f9a">hei de remettel-o</underline> para bordo de um navio de guerra preso. (séc. XIX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-673869d03ed8c924c04b690cd1cd382b">Perífrase com <italic id="italic-faf9ab375a69e7007f5d7be2faf1c4fc">ir</italic> + infinitivo:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-4bf457a7b76255334d203458539d894a">
        <list-item>
          <p>(3) [...] spelunca ou quartel general da boreal Aurora, bolorento armazem de Alfarrabios ou carcomidos livros, da qual sahem empestados vapores, que <underline id="underline-935b481d1b197aa3edb260b1664b3c40">vão acabar de matar</underline> a nossa moribunda pátria. (séc. XIX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-ff00e3ba3773179fb0a969afad70d4cb">Presente do indicativo:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-e66d9eedccfd9d85c725dc700500d0ee">
        <list-item>
          <p>(4) Nos dias 11 e 12 a Conferência Espacial Européia se reunirá para decidir da participação da Europa no programa pós-Apolo, que <underline id="underline-104665f62bfcdbf9a0b363820f5c22f2">se inaugura</underline> com o lançamento do Skylab [estação experimental] a 30 de abril de 1973 e se seguirá, possivelmente, com o táxi espacial. (séc. XX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-51c52bdf8a41b5419a80c2c2eb4b1461">.</p>
      <p id="paragraph-74bac703f9de85509ee036705d9f4990">Sabe-se que a construção <italic id="italic-9584b9ce739273cda4596add050ef86f">ir</italic> + infinitivo se gramaticaliza como futuro perifrástico em concorrência com o futuro simples em português (Santos, 1997; Gibbon, 2000; Silva, 2002; Malvar, 2003; Oliveira, 2006), assim como ocorre com construções semelhantes em outras línguas (inglês, francês, espanhol e italiano). Esse processo de auxiliarização do verbo de movimento <italic id="italic-58cf4856a4b9a94d26c9f9d7a24293e6">ir</italic> pode ser explicado por uma passagem do sentido espacial intrínseco a essa forma verbal para um sentido prospectivo temporal. Essa hipótese, fundamentada numa relação cognitiva entre as categorias de espaço e tempo (Bybee &amp; Pagliuca, 1987; Hopper &amp; Traugott, 1993/ 2003), pode ser confirmada por dados tanto de fala como de escrita, inclusive na sua modalidade “culta” ou padrão.</p>
      <p id="paragraph-6bfb6e1dd9be1132f275a87978760b7b">A forma perifrástica com <italic id="italic-dc35881ac8ce8115c7459e3a8d9e0216">ir</italic> + infinitivo, embora documentada já no século XIV, parece ganhar espaço no século XIX e só no século XX passa a ser mais utilizada, pelo menos na língua falada, ocupando o espaço antes preenchido pela perífrase com <italic id="italic-02051c809ad1e28d6f3133c7cef2b634">haver de</italic> + infinitivo, principal concorrente do futuro simples até o século XIX (Oliveira, 2006).</p>
      <p id="paragraph-2">Por meio da análise controlada de dados dos séculos XVIII, XIX e XX, verifica-se a trajetória da gramaticalização, nos moldes propostos por Hopper &amp; Traugott (1993/2003), Heine (1993) e Bybee et <italic id="italic-6eeaefde7b0db6771fab5bf461ce113f">alii</italic> (1994), e da implementação da perífrase com <italic id="italic-b5cdb444db37a8ede83e3050d02b9496">ir</italic> + infinitivo, identificando-se os contextos lingüísticos do seu espraiamento. Neste artigo, em particular, observa-se esse fenômeno num estudo de tempo real, com base em dados recolhidos de cartas oficiais, cartas de comércio, cartas de editores, cartas comuns, cartas pessoais e de editoriais de jornais, tendo como base a sociolingüística variacionista (laboviana) e considerando o papel de alguns grupos de fatores (medido em termos de percentuais e de pesos relativos – a partir da ferramenta GoldVarb): a) a extensão fonológica do verbo principal; b) o paradigma verbal; c) a pessoa verbal; d) a animacidade do sujeito; e) o papel temático do sujeito; f ) a natureza semântica do verbo; g) a projeção de futuridade; e h) o tipo de documento.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-44b6934510a07e63bd139c1d29c07df1">
      <title>1 A trajetória da gramaticalização de <italic id="italic-a3689f099e892daa5b619df4bb8c4f6f">ir</italic> + infinitivo</title>
      <p id="paragraph-f54b1bfe4bab9f0c659aece29066cb6e">O funcionalismo lingüístico analisa a língua como fenômeno comunicativo e discursivo. Sendo a noção de tempo uma categoria lingüística e suas relações com o tempo cronológico uma função da comunicação e do discurso, uma abordagem funcionalista pode embasar teoricamente a análise da expressão de futuro no português, que pode ser realizada por meio de formas simples (futuro simples ou desinencial e presente) ou de formas analíticas/perifrásticas (<italic id="italic-0e02e4f241a8552755c3b76827de35a6">haver de</italic> + infinitivo e <italic id="italic-7177fe50e0184d79182bc0b135b5905c">ir</italic> + infinitivo).</p>
      <p id="paragraph-eee8e9e50925a54b6de7080e5a5a9aca">O tempo futuro expressa a expectativa de alguma ação (processo ou evento) a ser verificada mais tarde, após o ato de fala. Ele tem um valor temporal que não permite expressar uma modalidade factual, pois só aceita asserções segundo a avaliação feita pelo falante da (im)possibilidade de ocorrência de um estado de coisas. Assim, há um valor modal aliado ao fator temporal no futuro que compromete a determinação do valor de verdade da proposição enunciada. Segundo Câmara Jr. (1957, p. 223), a categoria de futuro não ocorre “pela necessidade da expressão temporal; concretizam-no certas necessidades modais, de sorte que o futuro começa como modo muito mais do que como tempo”.</p>
      <p id="paragraph-5">O ciclo de alternância entre formas simples e formas perifrásticas de futuro é uma constante na história das línguas românicas. Já no próprio latim, o futuro desinencial adveio de formas modais analíticas (<italic id="italic-a4a0cb2afee0d652b2e8dc600dcc8780">cantare</italic> <italic id="italic-c93bcd5e424ccf1736e563b392d35fe0">habeo </italic>&gt;<italic id="italic-cdccbd03d266dec4b528152d126a9956"> cantar hei </italic>&gt;<italic id="italic-0a51013177f37106adbf08978f38a548"> cantarei</italic>). Para Câmara Jr., a nova forma de futuro<italic id="italic-c2717ffb92d5ebb533504073a3039142"> </italic>criada ainda no latim desempenha três funções na língua: a) marca o modo; b) marca tempo com matiz modal; e c) marca tempo. O autor fala em gramaticalização do futuro modal em futuro temporal.</p>
      <p id="paragraph-7">Neste trabalho, admite-se a hipótese de que o processo que aconteceu no latim (forma analítica &gt; forma sintética) está sendo invertido no português atual (forma sintética &gt; forma analítica) a partir da gramaticalização do verbo <italic id="italic-823f390c3d6bf68b0878bf64df97c4d4">ir</italic>, que passa, já em estágios anteriores da língua, de forma plena a marca morfossintática de futuro.</p>
      <p id="paragraph-9">A perífrase é a forma verbal inovadora, que convive com a forma simples (conservadora). Trata-se, pois, de um fenômeno variável no português em que a variante perifrástica, concorrente da forma sintética para codificar a função que situa a ação ou o processo à direita do ponto da fala, é muito pouco discriminada. E a entrada do verbo <italic id="italic-ddd4e8573ca8ca663072008a1332722d">ir</italic> como auxiliar para expressar o futuro vem encontrando resposta positiva entre os falantes.</p>
      <p id="paragraph-28ce526e56da179382fa1c9443d98c46">Os verbos de movimento, em geral, são polissêmicos e superpõem, dentre outras, as noções de espaço e de tempo. O verbo <italic id="italic-fa84eb8d62a26717e86b667fd76439c2">ir</italic> é um dos verbos mais polissêmicos e, pois, um dos mais “gramaticalizáveis”. Na construção perifrástica com o infinitivo, ele tende a se transformar em auxiliar (Heine, 1993; Bybee <italic id="italic-c563f083a7bce20dc938465516578de2">et alii</italic>, 1994; Heine &amp; Kuteva, 2002), quer dizer, num instrumento gramatical para a expressão do tempo futuro. Essa tendência, bem conhecida no inglês, no francês e no espanhol, pode ser constatada também em português, em que, na fala, o processo de substituição da forma de futuro simples pela forma perifrástica <italic id="italic-f6945095830d266ce0b7d26ebcc398df">ir</italic> + infinitivo está quase concluído (Oliveira, 2006).</p>
      <p id="paragraph-5c0829d968f3b89a2576fea592de61d7">Lima (2001), estudando a gênese e a evolução do futuro com <italic id="italic-aa5a67a42f7660c42b5205afc846b370">ir</italic> em português, trabalha com as hipóteses de metáfora e metonímia para esse processo. Ele situa o início do processo de gramaticalização desse verbo como auxiliar de futuro no século XIV, a partir do indício sintático de unidade da perífrase em que o traço de intenção está ausente, pois o sujeito é não-humano:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-5c177baaa31167375f72d03e27572ce9">
        <list-item>
          <p>(5) E ha em ella muytos ryos, dos quaes o primeiro he o Ebro que <underline id="underline-62ab23c14cc8a2f8db042801d7ee33b0">vay entrar</underline> ? no mar Terreno (<italic id="italic-021849b3f4438d6faf4b4a6dbc36da21">Crónica Geral de Espanha</italic>, séc. XIV).</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-061f9cc0d7440a7f6a959286319a406b">Conclui pela atuação de um processo metafórico para esse uso do verbo <italic id="italic-6acb14e218d30b5ee9dca3ae52c0fb32">ir</italic>, já que há uma idéia de “tempo posterior”. E encontra as primeiras ocorrências da forma perifrástica <italic id="italic-51f76f6baabc0d2c8a2c820a4df28209">ir</italic> + infinitivo já em cantigas de amigo de D. Dinis, no séc. XIII, embora ainda sem valor de um “tempo futuro”:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-32fed972a22a51aa43211236a16410ef">
        <list-item>
          <p>(6) Levantou-s’a velida, / levantou-s’alva / e <underline id="underline-2ac3da483d102b400ed1a8a996e1e70c">vai lavar</underline> camisas / eno alto: / <underline id="underline-719a3e0d822ac9f1d4021b4184962e07">vai</underline>-las <underline id="underline-b58459cea1006b273bdbda8e0f35bf89">lavar</underline> alva.</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-fbe7ee5861481d2762597e9c21514955">Embora utilize apenas dados literários, afirma que o progressivo incremento dessa perífrase se dá gradualmente a partir do século XVI.</p>
      <p id="paragraph-6831d44527a5ca9061ab9f75619fac74">A partir da análise de dados do século XVIII ao século XX, de acordo com o quadro teórico-metodológico da sociolingüística e com a hipótese da gramaticalização, os resultados obtidos indicam que a trajetória desse verbo – de lexema pleno a auxiliar – é possível em função de uma polissemia do verbo de movimento <italic id="italic-e4ddf2b20f5b303c1e786b26fd3d435a">ir</italic>, que acumula traços compatíveis com as categorias de espaço e de tempo.</p>
      <p id="paragraph-8bfd289c8cbb89d991dbd644b9a3ab82">O verbo <italic id="italic-5f75d545484dcc5ffcbd18d23355c31f">ir</italic> é um verbo vicário e possui vários sentidos, vários conteúdos (do mais concreto ao mais abstrato). Eis alguns exemplos de sua polissemia:</p>
      <p id="paragraph-f9bc8680a42d133edd196104e23d26b0">.</p>
      <p id="paragraph-4119d2ef8c773a8329fec11bdffc5cbf">Movimento no espaço (verbo pleno)</p>
      <list list-type="bullet" id="list-c2e5c6f6839f291029ba42f3518cc191">
        <list-item>
          <p>(7) Carta do Marquez do Lavradio Vice-Rei do Brasil ao Capitão Engenh<italic id="italic-19265c1d87862b3da99493887e09da95">e</italic>iro F<italic id="italic-e93c70f56ae19dad1141f0e353796f48">rancisco</italic> João Roscio, accusando a recepção da sua participação de viagem á Ilha de S<italic id="italic-fc83714ea49e457df9cf93b3e9250cb9">an</italic>ta Catharina, recommendando-lhe <underline id="underline-9284c75478520ef63e1605013608e6e6">fosse</underline> Continente do Rio Grande [...] (séc. XVIII)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-41ab49229cc97ed74825648b3c098a8f">Progressão, aumento, continuação (verbo aspectual):</p>
      <list list-type="bullet" id="list-5b5d5223ca5d76df9413dc3f743a020e">
        <list-item>
          <p>(8) [...] achey jornal de quarto de ouro por pessoa, que lavrandosse <underline id="underline-773020841c353a8abdbc633856e59a3f">hirá em crescimento</underline>, como se vio nasminas [...] (séc. XVIII)</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>(9) O povo <underline id="underline-64516bad081a0a5ccc974decb07930e6">vai compreendendo</underline> que o país não pode prosperar [...] (séc. XIX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-5df758686901c7444f3cb835f7b58634">Intenção (verbo modal):</p>
      <list list-type="bullet" id="list-ad01a2d15cec1062c19e02982c9f514e">
        <list-item>
          <p>(10) Por meyo destas <underline id="underline-a561f1dfc0664af2416caa0edac86735">Vou bejar</underline> os pes a V<italic id="italic-7f445202737f939eb2a8b2ff1312e364">oss</italic>a e Ex<italic id="italic-42b76b5a5bf5bba93bfd544750ee10de">celênci</italic>a e <underline id="underline-152a6f12be1eb630896009b314e305fc">agradecer</underline> a V<italic id="italic-87e17c58d2f5e4683ff232c8c80ffaf0">oss</italic>a Ill<italic id="italic-d9a8f07a66166b7e209926a4ac78df69">ustríssi</italic>ma o beneficio q<italic id="italic-a3ff6cfc1e07974bb1f26a4e9c20383c">ue</italic> Resseby asi que cheguey a esta V<italic id="italic-c547461049eac7930ab34d60737fbf1b">il</italic>a [...] (séc. XVIII)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-c597153ec0c070ecdc9e25fb36fc25c3">Futuridade (verbo auxiliar):</p>
      <list list-type="bullet" id="list-4eb525eb22aafd16372b7c3c5cfcd57c">
        <list-item>
          <p>(11) Tal comissão <underline id="underline-25dc79cbc59ea6027238556a99fb1556">vai fazer</underline> uma espécie de radiografia do INPS para apontar ao Sr. Júlio Barata os males que afetam o mastodôntico instituto. (séc. XX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-9f25abd3a48d4695b40435ce416ccaa1">.</p>
      <p id="paragraph-f6d7a6907620f2a1e066c116b41ef124">É, pois, a polissemia do verbo <italic id="italic-01ae6ab985b4f289fc43a294c211ca8b">ir</italic> – espaço, intenção, tempo [...] – que desencadeia uma mudança semântica, fonte da gramaticalização desse verbo como auxiliar que exprime futuridade (Martelotta, 1998).</p>
      <p id="paragraph-fb820c92a877c9655a63f1bdf2f4132b">Um estudo em tempo real, utilizando instrumentos heurísticos da sociolingüística, permite identificar uma reorganização dos traços preponderantes dessa polissemia, no sentido de que um traço mais baixo ganha maior evidência, em função da intervenção de condições contextuais específicas. Ou seja, esse processo não pode ser analisado somente do ponto de vista lexical. É preciso considerar também as construções que esse verbo integra, já que se trata de um processo de auxiliarização. Segundo Lehmann (1982), Bybee <italic id="italic-ebd5e40de3a990b556e584e2db210fd2">et alii</italic> (1994), Traugott (2003) e Hopper &amp; Traugott (1993-2003), o processo de gramaticalização é fortemente contextualizado.</p>
      <p id="paragraph-521f85f87f3c6f51f53a8c5b39a09cc3">Lehmann (1982, p. 7) diz que a gramaticalização não se limita a um item lexical. Ela envolve toda a construção formada pelas relações sintagmáticas do item em questão:</p>
      <p id="paragraph-069de5af90630257484b771fa8571991">.</p>
      <p id="paragraph-1155ae2a792fbc16f8437966a32229aa">One cannot properly say that a given element as such is grammaticalized or lexicalized. Instead, it is the construction of which the element is a constituent which may embark on either course.</p>
      <p id="paragraph-58a2fd8747b445aa242a86aff2588ac1">.</p>
      <p id="paragraph-ee4aa1c4058dfadb05e5b4c41ab0d51b">Hopper &amp; Traugott (2003, p. 99-100) enfatizam que um lexema se gramaticaliza apenas em contextos morfossintáticos bastante específicos e sob condições pragmáticas particulares:</p>
      <p id="paragraph-a5b44d6722bf3de2f9c408c8c3f48a11">.</p>
      <p id="paragraph-07bcfd989b6ec5dca56682e2d3858bf4">The path is not directly from lexical item to morphology. Rather, lexical items or phrases come through use in certain highly constrained local contexts to be reanalyzed as having syntactic and morphological functions. Schematically, this can be characterized as: lexical item used in specific linguistic contexts &gt; syntax &gt; morphology.</p>
      <p id="paragraph-97437dc138aa5dbd1ce9e86835473454">.</p>
      <p id="paragraph-054d1bfae4737c91f2c03c6b5e1a90fb">Daí a necessidade de ser considerado o contexto de ocorrência dessa forma e, por isso, a escolha dos grupos de fatores anteriormente apontados.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-820696601570a3cd30baea395c35a89f">
      <title>2 Análise do processo de mudança em tempo real de longa duração</title>
      <p id="paragraph-4cd7d9a4e13f91a3dd2c9f9bcabe4143">Com o intuito de verificar a distribuição das variantes no tempo real, foram analisados 393 dados, distribuídos entre os séculos XVIII e XX. A hipótese aventada é a de que se trata de um processo de mudança em que a forma simples de futuro é gradualmente substituída pela forma perifrástica <italic id="italic-0e3a52712eaf67f8cf4c7d548ca2f278">ir</italic> + infinitivo. Foram encontradas seis variantes, exemplificadas a seguir: (12) futuro simples; (13) perífrase com <italic id="italic-700afab7987663df701475d5f7766aab">haver de</italic> + infinitivo no presente; (14) perífrase com <italic id="italic-af0a496e0ed2a36116ef111fcdec0402">haver de</italic> + infinitivo no futuro; (15) perífrase com <italic id="italic-3ff6d86f300ebb9c72179298c79054a9">ir</italic> + infinitivo no presente; (16) perífrase com <italic id="italic-26fbcf0ff7564cf352964e7563e38211">ir</italic> + infinitivo no futuro; e (17) presente.</p>
      <list list-type="bullet" id="list-083f4efebccfe73a28dec958e66d1b46">
        <list-item>
          <p>(12) Pelas Copias incluzas dos avizos que tive dePernambuco, eRyo, deJaneyro, <underline id="underline-443c46d583d37277405c96415f44418c">comprehenderâ</underline> V<italic id="italic-297238ccc3d1ef7cd78a425348262a94">ossa</italic> S<italic id="italic-746cae3de297405645f79bb79e852574">enhori</italic>a aimportante materia dequeell[<italic id="italic-afb2c0a9e7f86ae5dcc87448677f08dd">a</italic>]s tratão [...] (séc. XVIII)</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>(13) V<italic id="italic-9">ossa</italic> M<italic id="italic-10">er</italic>cê tenha paçiençia q<italic id="italic-11">ue</italic> eu NaRainha de Nantez estou Carregando humas Pipas deAgoard<italic id="italic-12">ent</italic>e tão bem lhe <underline id="underline-4e415d40c1fc1ff2f16bbad4dd3c7243">heide</underline> <underline id="underline-9446e2129f5fd2429fde0c6702d896b7">Remeter</underline> alguma p<italic id="italic-13">ar</italic>a aCabar deaJustar a Conta das 2 Letras [...] (séc. XVIII)</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>(14) Mas a própria necessidade, ditada, inclusive, pelas condições que um país em desenvolvimento cria, <underline id="underline-db82e3c836fc67bf345c6a00ec2bcf0b">haverá de causar</underline> a mudança benéfica de mentalidade. (séc. XX)</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>(15) Ignacio Fran<italic id="italic-14">cis</italic>co Bastos <underline id="underline-5">vai sofrer</underline> hu’a violencia, ehum insulto – isto basta à justica eagenerosid<italic id="italic-15">ad</italic>e do Coração de V<italic id="italic-16">ossa</italic> Ex<italic id="italic-17">celênci</italic>a. (séc. XIX)</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>(16) A Galera, eSumacas, que a impulso da minha recomendação, agora partem, conduzem 2395 alqueires defarinha, 558 defeijão e 797 de milho, os quaes unidos aos primeiros fazem asomma de 8837 alqueires de farinha 1680 de feijão, e 3673 de milho, q<italic id="italic-5728c3f9469cf0b3eb6c39d816291e04">ue</italic> certamente <underline id="underline-b95e48b62de7ded947ba30974e51dda7">irão servir</underline> dehum sufficiente soccorro, especialmente pa<italic id="italic-9813a849adfe3265ed5bdc7364270b98">r</italic>a a Esquadra deSua Magestade. (séc. XVIII)</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>(17) Nos dias 11 e 12 a Conferência Espacial Européia se reunirá para decidir da participação da Europa no programa pós-Apolo, que <underline id="underline-dd793ffa471ac7a1707831cafb934546">se inaugura</underline> com o lançamento do Skylab [estação experimental] a 30 de abril de 1973 e se seguirá, possivelmente, com o táxi espacial. (séc. XX).</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-897c8b7372f7c6aeee7cf40c7e29fc56">Como as ocorrências das perífrases com <italic id="italic-c85597736e32296d1980db26704b17be">haver de</italic> + infinitivo e com <italic id="italic-a2088b1172ba21fbc5415911c487cc74">ir </italic>+ infinitivo, ambos no futuro, foram muito baixas (uma no séc. XX – da primeira; e cinco – uma no séc. XVIII, uma no séc. XIX e três no séc. XX – da segunda), estas foram computadas juntamente com as formas de <italic id="italic-b0475c809bc5e45cc4cabb1393c3d557">haver de </italic>+ infinitivo e<italic id="italic-ba5204cd9612ee3ec2a07614aae9689e"> ir </italic>+ infinitivo, ambos no presente, respectivamente.</p>
      <p id="paragraph-2fefa1d4a6466e47664d115d378d7074">Assim, os resultados encontrados estão apresentados na Tabela 1:</p>
      <table-wrap id="table-figure-3f2137d7d13e831eda2595ed9c5c13be">
        <label>Table 1</label>
        <caption>
          <title>TABELA 1 - Distribuição das variantes na língua escrita por séculos.</title>
          <p id="paragraph-eb4b696183a1b1b23bd2212406a63229" />
        </caption>
        <table id="table-f77ba68d347e684dca89155b335d1319">
          <tbody>
            <tr id="table-row-ed73f787b277696ae6bb22d549e02438">
              <td id="table-cell-4d4a5ffa26ff60c8a377e3c4c4299177" rowspan="2">
                <bold id="bold-a3042ea5695762e9dedb4fe00490bfcd">Variantes</bold>
              </td>
              <td id="table-cell-ed7a381421176896c2964dc9274dea45" colspan="3">
                <bold id="bold-7d362dfdc3756054b23b5cef05c3f2a7">Séculos</bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-6ae11cc2e2a4bb76a0760610cde6d8f4">
              <td id="table-cell-7083b6fe6b9450f049ce8f7a5ae81cb2">
                <bold id="bold-d1e77b031a367443fa5ab9d6e4f24b36">XVIII</bold>
              </td>
              <td id="table-cell-3ef246fb5daa13ff8642e0b5d31f5422">
                <bold id="bold-a1038aac1942e1a21f32322821a6d238">XIX</bold>
              </td>
              <td id="table-cell-145186c79db39ace2f495ac8062f5c8a">
                <bold id="bold-00c9a8272775de44a8d850d51718ea0f">XX</bold>
              </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-2efe54c3498e045dc1535445a78c1e2e">
              <td id="table-cell-379deed2ba4cac51efb2a7435caa0d57">Futuro Simples</td>
              <td id="table-cell-f3f9f2424651bbffb9096ce08ce4dc47">104 -&gt; 84%</td>
              <td id="table-cell-5629baab509337509688173594a74325">93 -&gt; 86%</td>
              <td id="table-cell-4a23a44f02c9751e6b021b3bca73bab3">123 -&gt; 76¨%</td>
            </tr>
            <tr id="table-row-4d0d25ef676096cb33a7a3b56716fb1e">
              <td id="table-cell-291cb4aaf3a875696ff03ea09b5270e0"><italic id="italic-fb1bc1f43d83d9dc1d37e6164559533b">Haver de</italic> + infinitivo</td>
              <td id="table-cell-b1197114ad1a34af4b9a6f530f2268a2">13 -&gt; 11%</td>
              <td id="table-cell-8da762f594ea139cb12fe5d5fec38d7a">6 -&gt; 6%</td>
              <td id="table-cell-c88a19f5ff8e7ee8313b15aab3b33c0b">3 -&gt; %</td>
            </tr>
            <tr id="table-row-2eaefb96c7d6dfcd208eb9de5887744e">
              <td id="table-cell-1da67c71776ae659e11ace02d0e84cde"><italic id="italic-39f8cd6c4023685713b6ca23d1959e4d">Ir</italic> + infinitivo</td>
              <td id="table-cell-a9a5264e1cad632b80591dff7258e4a0">5 -&gt; 4%</td>
              <td id="table-cell-4a21ea045325a836b2332defe3510539">8 -&gt; 7%</td>
              <td id="table-cell-94780caae09a5d09cce424ed4a523502">25 -&gt; 15%</td>
            </tr>
            <tr id="table-row-64fcc8260d40c36953485a702631759c">
              <td id="table-cell-a17eb0bbe9fc531e5e9f78da15348a98">Presente</td>
              <td id="table-cell-c92d74d6166dcd1bc16d8e9129f84d7f">1 -&gt; 1%</td>
              <td id="table-cell-d06f681ab81bd7763234c414c9bf17a1">1 -&gt; 1%</td>
              <td id="table-cell-4d4f695e36386757a33ad9b56415895f">11 -&gt; 7%</td>
            </tr>
            <tr id="table-row-51447f4d4c08a33a817a069dd27b7be4">
              <td id="table-cell-5774c8ad28db57179d35815cbc907a97">Total</td>
              <td id="table-cell-1c5ed7e6a540adc10bc4114d5f32747e">123</td>
              <td id="table-cell-4e5a13d0db82982f3d6fcff3e729e929">108</td>
              <td id="table-cell-198fdd53b6fe6e45fa91062e87975cbd">162</td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-21905e049d778783e7236a553fb1b0b6">Nos textos do século XVIII, documentos da administração pública (<italic id="italic-b25de8665d924f9df2947da16083f42c">Cartas Oficiais</italic>), documentos da administração privada (<italic id="italic-51f5312e0a1750ebcd9c537d9af36148">Cartas de</italic> <italic id="italic-f1fb7f801520663320d8fb75ddc22317">Comércio – Brasil</italic>) e<italic id="italic-2915c71b58c5337da8f16c05228e299c"> Cartas Comuns</italic>, foram encontrados 123 dados. Desses,<italic id="italic-9905be1674a4ffec5f27f60153a9c974"> </italic>104 são de futuro simples (84%), a variante mais utilizada:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-b37f6031cd6acd568c1bab443b08f21f">
        <list-item>
          <p>(18) Queira Vossa Excelência recomendarme á nossa Rita com huma terna saudade, segurando-lhe que sempre concervo della, e na primeira occazião lhe <underline id="underline-5ef66765345193d4b1f849073fd986f4">escreverei</underline>, que lhe <underline id="underline-8b6460d32590db063f2ccf9e30925b0d">mandarei</underline> hum barril de meláço. (séc. XVIII)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-b8f45394481d2bb2ebcba482cb6c4c08">A perífrase com <italic id="italic-aa6263279039157631e93eb48866b4cd">haver de</italic> + infinitivo ocorreu 13 vezes, atingindo 11% dos dados, sendo a segunda opção para indicação do futuro. Eis um exemplo com essa variante:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-d20ad8292a44b7d6051b3840b2ba0514">
        <list-item>
          <p>(19) <underline id="underline-c4b07f27dccdddde6fce5bd5578484b2">Hei de estimar</underline> vá em tudo amedida doseu dezejo, e q<italic id="italic-14089172557356075b3ebd0f58613cfb">ue</italic> igual mente partecipe o nosso am<italic id="italic-fdaacb5d164bd001b8cdfd4bc86c6329">i</italic>go Fernando Pinto. (séc. XVIII)<xref id="xref-802c5e078cab5043a2b84290d1afdead" ref-type="fn" rid="footnote-75c7f36f362895f62d517bd623c91972">1</xref></p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-67875522cb9f97813303d97847269e58">A forma perifrástica com <italic id="italic-18a9a91495a4ab9f46dcddbfd94ed1a2">ir</italic> + infinitivo alcança 4% dos dados, ou seja, 5 dados, sendo que um deles com o verbo <italic id="italic-2c134bfd5924f6414c65be4d40cc9516">ir</italic> no futuro, única ocorrência em que o sujeito não é humano nem de 1ª pessoa. Seguem dois exemplos, o primeiro com o verbo <italic id="italic-e767bf72387125afb4c62bfa712ebc47">ir</italic> no futuro, em que a idéia de movimento já está completamente ausente, e o segundo com o verbo <italic id="italic-d492ec865b0e4ba35b25c213500c61b6">ir</italic> no presente, que pode até conter uma idéia de movimento, mas, com certeza, não implica deslocamento físico literal do sujeito autor da carta:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-6ca78822f7ea49e583e1e14a28321ca3">
        <list-item>
          <p>(20) A Galera, eSumacas, que a impulso da minha recomendação, agora partem, conduzem 2395 alqueires defarinha, 558 defeijão e 797 de milho, os quaes unidos aos primeiros fazem asomma de 8837 alqueires de farinha 1680 de feijão, e 3673 de milho, que certamente <underline id="underline-17ad37813dd8338dc2a1c10d0d0af7f3">irão servir</underline> dehum sufficiente soccorro, especialmente para a Esquadra deSua Magestade. (séc. XVIII)</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>(21) Por meyo destas <underline id="underline-67e8f0d578d38ae822c8d0c700302047">Vou bejar</underline> os pes a Vossa e Excelência e <underline id="underline-056b028b0ffe663ae851d1c111053301">agradecer</underline> a Vossa Illustríssima o benefício que Resseby asi que cheguey a esta Vila... (séc. XVIII)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-80b48aa57d79b20ce1b1a17d8444cd10">A única ocorrência de presente (1%) nos dados do século XVIII possui sujeito [+ humano] e o verbo é o próprio <italic id="italic-52383ef7f75708e4fe880e6f986f552e">ir</italic>, que, como se tem podido constatar, seleciona ou o futuro simples ou o presente.<xref id="xref-197d93a2682eb247ea61ffaaeae5228e" ref-type="fn" rid="footnote-5698d6ddb05deb14fb77541bb1506c5a">2</xref> Segue-se abaixo o exemplo em que essa variante foi empregada:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-54cf0254faf87b6ba66124c865b13323">
        <list-item>
          <p>(22) Estimei muito ver carta sua namão de seu mano, elle fica de saude esolteiro dis que <underline id="underline-7104f28f93712f314873c0677d5d8de8">vai</underline> para Lixboa para ooutro Comboio. (séc. XVIII)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-55ce774def4b4c1249f2d61bb34c4df9">Do século XIX, foram trabalhadas <italic id="italic-43cb7423293c1696f423e5c768fbf7cb">Cartas Oficiais</italic>, <italic id="italic-c881146e195bc5fbda0fb584c0a6c251">Cartas Pessoais</italic> e <italic id="italic-6a84dc077f1ccafd2c769772ed14b484">Cartas de Editores</italic>. Nesse material, foram encontrados 108 dados, sendo<italic id="italic-30866278105015df3140e4f96ccc9e74"> </italic>93 de futuro simples (86%), 6 de perífrase com <italic id="italic-2023ccc6ddf05496ee4af96a07b2474a">haver de</italic> + infinitivo (6%), 8 de perífrase com <italic id="italic-16f5e46668749e7f01cdfe2aeb0757a6">ir</italic> + infinitivo (7%) e 1 de presente (1%).</p>
      <p id="paragraph-d1ee6936c45854433ed19a2cbf2daf17">Pela primeira vez na história, com base nos dados desta pesquisa, é claro, a forma perifrástica com <italic id="italic-0c3ed8450906ebd016b0508c1efedec9">ir</italic> + infinitivo supera a perífrase com <italic id="italic-48e8d5614c52b5ba9f9977d0186f8fef">haver</italic> <italic id="italic-2dc78cc425398738e0013217ad6bd7d3">de </italic>+ infinitivo. Mas é ainda o futuro simples a variante majoritária:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-08c1da18088ea4da762506838af47692">
        <list-item>
          <p>(23) <underline id="underline-1d3027fd7d8380442d8e47187e5ba08a">Passaremos</underline> agora a objectos de maior interesse porque elles interessão ao Brazil, e tu como seu filho não <underline id="underline-2162d13ae1a8bc4c053a68f5ac798de6">serás</underline> a isso indefferente. (séc. XIX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-2a12a1530552a165807189d0d534c810">A variante <italic id="italic-8aff3e3ba56e22a36692e1f58739ac05">haver de</italic> + infinitivo, agora não mais a segunda forma mais utilizada, ocorreu em exemplos do tipo:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-9832e19056272a07999a547040a7a660">
        <list-item>
          <p>(24) [...] porém eu digo-lhe que não quero, e se você tornar a S.M. <underline id="underline-8d6100c396e16b6600bc14912812a4da">hei de remettel-o</underline> para bordo de um navio de guerra preso. (séc. XIX)</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>(25) Em summa seja o que for, só nós cumpre resignarmo-nos e appelarmos para a consciencia dos Brasileiros, e da nação em geral que os <underline id="underline-eba4040cb22129c348ec45147984c65e">há de julgar</underline>. (séc. XIX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-fb1e29ef38be03826b02a2f881900d72">Quanto à forma perifrástica com <italic id="italic-f7ee6df64dd6a9c99681db19ba5cdf6c">ir</italic> + infinitivo, que começa a ser a principal concorrente do futuro simples, uma das 8 ocorrências apresenta o verbo <italic id="italic-0d4d915808a47f20efd0ab4213d024aa">ir</italic> no futuro:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-e990f38e6727a59850d082a718f0bbe8">
        <list-item>
          <p>(26) [...] e conta com a minha invariavel amizade logo que posso eu <underline id="underline-ad988e7d993b6324cecf4fab0d07638b">hirei ver</underline> tua família o que ja não tenho feito pella razão expendida. (séc. XIX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-6f8667060b83fee18dcbb1166bd31deb">Em um único dado, o sujeito da perífrase é inanimado, o que mostra que o seu antigo contexto, restrito a sujeito [+ humano], começa a se ampliar:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-d586d2ac2a1e029670cdd22c5c1a574c">
        <list-item>
          <p>(27) [...] spelunca ou quartel general da boreal Aurora, bolorento armazem de Alfarrabios ou carcomidos livros, da qual sahem empestados vapores, que <underline id="underline-1de947c5d35e3c444ab8e1813273fc8a">vão acabar de matar</underline> a nossa moribunda patria. (séc. XIX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-8497105749be134219206aa34812c1a6">Um outro fato interessante, ainda em relação a essa variante, é que até então ela aparecia isoladamente, ou seja, como única ocorrência de uma frase, em geral curta e absoluta, mas agora começa a ocorrer reiteradamente, num certo paralelismo sintático-discursivo. É o que mostra o exemplo a seguir:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-a8096378eeb895f191e1296939248ba8">
        <list-item>
          <p>(28) Elle conhecendo o que tendes feito, <underline id="underline-cb5fa5415ec1bda2d5df470736882ca0">vai</underline> sem dúvida <underline id="underline-0cb335b6dafc252a7e8679ad9353c73f">olhar</underline> por essa Provincia, que está expirante com tanta expedição: elle conhecendo a justiça, dezejos, e a necessidade da Provincia, <underline id="underline-68bd869fd5bd23dbc6e640b714d7397b">vai</underline> sem dúvida <underline id="underline-19fb92fd6d563aeaa891c263ef5520a0">cumprir</underline> vossos votos apoiado em Decretos; elle <underline id="underline-42e6c4452cad2cf9f6214f75b266bb69">vai</underline> <underline id="underline-6">mandar</underline> recolher do Sul vossas Tropas todas, a ver se assim vos subtrahis de mizeria tanta. (séc. XIX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-aba7fcd0d40b0232b66250169c69a91d">Um dos dados com essa variante apresentou a preposição <italic id="italic-5bac27928b7efff69c7e4943501ea326">a</italic> entre os dois verbos, como nas construções perifrásticas de futuro documentadas para o espanhol e para o italiano. Esse dado foi único em todo o material analisado nesta pesquisa. Ei-lo:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-7485175343d3d19cddf0d9e3787a5032">
        <list-item>
          <p>(29) Pela denuncia incluza, não pense Vossa Senhoria que em mim he huã total materialidade porque Com efeito, eu penso ser tudo hu’a asneiras mas unicamente <underline id="underline-c2ed0b903ace46ff05a7dfdebe9cdd7d">vou a salvarme</underline>, emdata a Vossa Senhoria assim como amim maderão... (séc. XIX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-142082e8346e84b08e95afacc6bd01e3">O presente ocorreu uma única vez, como se disse, num contexto bastante semelhante aos considerados como condicionadores do presente. Observe-se o exemplo a seguir, que pode ser comparado a expressões como “no ano que <italic id="italic-a8c057be47516f7eb26520220bc85e5e">vem</italic>”, “no correio que <italic id="italic-a62e2e69e89afd2e6e4fde037569035e">vem</italic>”, expressões correntes em Salvador (BA) e também em Portugal:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-56d66e8cf8f2b66bf78b3aa26a68d149">
        <list-item>
          <p>(30) [...] mas faltão 7 dias para se fixarem os trabalhos legislativos, e por tanto penso não terei ainda este anno esse prazer. A [Ds] amigo para o Paquete que <underline id="underline-ab25c41713dc8f421fd07cffc3cae6e8">vem</underline> serei mais extenso... (séc. XIX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-f5fd35279000d57398f71a67f15954f7">Na escrita do século XX (em dados de editoriais de jornais de Salvador e do Rio de Janeiro das décadas de 70 e de 90), ainda há predomínio do futuro simples. Ele é usado em 123 dados (76%) –, mas pode-se ver que ele decresce em cerca de dez pontos percentuais em relação aos dois séculos anteriores e já aparece variando com a forma perifrástica com <italic id="italic-2cf33245070e33b6bf7e39b7a1f45a2c">ir</italic> + infinitivo no mesmo enunciado (e ambas as variantes se referem ao mesmo sujeito!), como no exemplo:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-914089d633aee8cbf1c2f105d6ee4e47">
        <list-item>
          <p>(31) Mas o povo que <underline id="underline-60323d770153387e6697a36e0fc53002">vai ficar</underline> amargando uma temporada de novas dificuldades para dar folga à execução de um programa restaurador da economia ainda <underline id="underline-26e84f92f28f67d7f3e31ebfc47fa17d">terá</underline> muitas razões para amaldiçoar o Sr. Maílson. (séc. XX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-1dd15c0308d95ee2971bb57df3dffcbf">A variante <italic id="italic-ad78545cdda68f7b95ebf3eb7fed4e52">haver de</italic> + infinitivo, nesse século, é muito rara. Ela tem apenas 3 ocorrências (2%), uma delas com o verbo <italic id="italic-b2d7a36bdb0f14eee19a0ebacde07924">haver</italic> no futuro, e todas aparecem na década de 1970. Ou seja, vinte anos depois (nos dados da década de 1990), a sua ocorrência é nula. Comprova-se, pois, o declínio do seu uso na história da língua, pelo menos como forma de expressão do futuro. Pode-se observar que essa construção guarda ainda a idéia de injunção (talvez também a de volição), remetendo para a modalidade deôntica. Vejam-se os exemplos a seguir:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-5c3cc6abff36ab6ca0c03af5b3814c77">
        <list-item>
          <p>(32) Morto, Bertrand Russel, inegàvelmente uma das maiores cerebrações do nosso tempo, <underline id="underline-e6d851775f4039cd8222855bc49253d4">há de ser</underline> sempre <underline id="underline-8492e4d3d4635eb769d3935438e15d92">lembrado</underline> por essas grandes virtudes de humanista que sempre nortearam sua obra múltipla e sempre voltada para o bem da humanidade. (séc. XX)</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>(33) Mas a própria necessidade, ditada, inclusive, pelas condições que um país em desenvolvimento cria, <underline id="underline-b72fcb0a2860211bbdb92c971d152006">haverá de causar</underline> a mudança benéfica de mentalidade. (séc. XX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-2d1642416e707ff369423c3a38423c39">Já a perífrase com <italic id="italic-0fafdd17bd9b5c3e358ac667a24e00a9">ir</italic> + infinitivo dobra estatisticamente o seu uso. Ela aparece em 25 dados, atingindo a casa dos 15% dos dados. E se estabelece como a concorrente mais forte do futuro simples, passando a ocupar o lugar da antiga forma com <italic id="italic-e0455198c6c7ad5178ec447863249d4b">haver de</italic> + infinitivo. Em três dos dados, o verbo <italic id="italic-313f9226729bbae6faa0093860b2e8b9">ir</italic> está no futuro, como no exemplo a seguir:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-14a10ce6099f2ff5eb752a44e4f754f3">
        <list-item>
          <p>(34) Na correta visão do ministro do Planejamento, é preciso articular politicamente as mudanças que <underline id="underline-4b68a231f63b2c4bd86824c879dcda97">irão permitir</underline> vigorar, no mais tardar no exercício de 1997, um sistema tributário e fiscal compatível com uma economia moderna. (séc. XX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-2e471025ef2bfb3a9aa47d613f136cdb">Note-se que em metade dos dados com essa variante, dentre os quais está o exemplo anterior, o sujeito já não tem o traço [+ humano], antes característico do contexto favorecedor do uso dessa forma perifrástica. Isso mostra o seu espraiamento, já que começa a aumentar o seu uso em contextos cada vez mais amplos, atingindo, inclusive, verbos que não indicam processo ou movimento, como nos exemplos abaixo:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-c96013339572d40015ae0e45de44041c">
        <list-item>
          <p>(35) Nossas exportações vão se tornar mais competitivas. Mas tudo isso pouco <underline id="underline-88d168347758d2a13732c3a3679fd0c8">vai significar</underline> para o brasileiro se não houver feijão na panela. (séc. XX)</p>
        </list-item>
        <list-item>
          <p>(36) O projeto <underline id="underline-8f84ee7697fc025ced5cfb7994373e86">vai permitir</underline> uma economia de 12 a 13 milhões de dólares no programa espacial até o ano de 1992. (séc. XX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-a579f64f0930f760765181e43390a96a">Quanto à forma de presente, que é empregada em 11 dados, também se verifica um aumento no seu uso, pois atinge quase 7% dos dados, um bom crescimento em relação aos séculos anteriores. Das ocorrências encontradas, 10 estão na década de 1990. Seu contexto, entretanto, ainda se mostra muito particular, pois o presente é selecionado em casos bastante específicos, como por exemplo:</p>
      <p id="paragraph-fdddc3eb089e47643e9b405a4040f1ac">a) quando há uma indicação mais ou menos precisa do tempo futuro:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-418d12d87e056a73d0a8075978fd37d0">
        <list-item>
          <p>(37) Nos dias 11 e 12 a Conferência Espacial Européia se reunirá para decidir da participação da Europa no programa pós-Apolo, que <underline id="underline-dac93c42818d3662af652d5008bf7e19">se inaugura</underline> com o lançamento do Skylab [estação experimental] a 30 de abril de 1973 e se seguirá, possivelmente, com o táxi espacial. (séc. XX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-4ab2e84112032ef8c2fde3f20b4c97fe">b) em expressões idiomáticas cristalizadas:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-c78d32338e1ef05ffd7ca03cad695a78">
        <list-item>
          <p>(38) Desse jeito a vaca <underline id="underline-3132504a9918448ddd33b084870b9f01">vai</underline> pro brejo. (séc. XX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-52b52a7c5891ff83dfa431efd36aa161">c) quando há verbos modais, como <italic id="italic-e4bbbc8148820f7b69478dc6cbcf05ae">poder</italic> ou <italic id="italic-56ca5acd1e359e901e0e1448a061f7ee">passar a</italic>, que asseguram a idéia de probabilidade / possibilidade / momento posterior, intimamente ligada à idéia de futuridade:</p>
      <list list-type="bullet" id="list-c0672361c7f3f786e01d1fa330f99754">
        <list-item>
          <p>(39) Quem está ganhando, e ganhando muito com a inflação, trata de raspar o fundo do cofre e levar o que for possível, porque, a partir do dia 15 de março próximo, <underline id="underline-1b47cba1003ecc2c21094d780a1d3eb3">pode passar a viver</underline> uma temporada de pão dormido e água fria. (séc. XX)</p>
        </list-item>
      </list>
      <p id="paragraph-03a94c83101a78c949535c03063d5391">Pode-se verificar, então, que o futuro simples é a variante preferida ao longo da história, sendo a mais utilizada em todos os séculos, pelo menos na língua escrita formal, anuladas as diferenças entre os textos analisados (textos notariais, cartas e editoriais).</p>
      <p id="paragraph-2b1ee7b189e72ebb86a1b6444fa2b2c5">O exame da língua falada em comparação com a língua escrita no século XX, realizado por Oliveira (2006), revela que esse fato não é válido para a modalidade oral, mesmo formal. Pode-se, então, levantar a hipótese de que a escrita selecionaria o futuro simples ao passo que a fala selecionaria o futuro perifrástico com <italic id="italic-997e3b6c3da3ef43411fa011aab5d700">ir</italic> + infinitivo, o que corrobora o fato de que a mudança acontece primeiro na fala e só mais tardiamente atinge a língua escrita.</p>
      <p id="paragraph-b0500450097fac7de7641d44665f9561">Os resultados aqui encontrados, porém, suscitam a questão de haver, de fato, uma inversão, ainda que parcial, dessas duas variantes, a forma simples para a escrita e a forma perifrástica para a fala. Se a escrita, até hoje, mantém o futuro sintético, talvez também a forma perifrástica com <italic id="italic-895c29140b904e50605e53791160d7c4">ir </italic>+ infinitivo já fosse usual na fala em séculos anteriores.</p>
      <p id="paragraph-506fecb2d053511d7184b13163830fb7">A forma perifrástica com <italic id="italic-720e4f99e791ac2128b7f85b9e8cc1dd">haver de</italic> + infinitivo, que disputava acirradamente espaço na preferência dos usuários no século XIII (Oliveira, 2006), decresce em uso e chega quase a desaparecer no século XX. O acentuado decréscimo dessa forma pode estar relacionado a outro fenômeno de mudança no português: o verbo <italic id="italic-418dd81e3a9264d453229ea7473353fe">haver</italic> disputou com o verbo <italic id="italic-57111f5c3daa4cb67c33fd7b1c2b0dc6">ter</italic> durante muito tempo (e ainda disputa, mas bem menos fortemente) a formação de tempos compostos (“Eu <italic id="italic-b8b6456ea2a7e3772b987d1d35fc93ce">havia</italic> feito” ∼ “Eu <italic id="italic-52575e341304e36cc94e2dd849f65b27">tinha </italic>feito”, por exemplo), a expressão de existência (“<italic id="italic-9fa03e92813d17ff45ff33dacd6c10e6">Há </italic>muita gente na<italic id="italic-8ee4a279d42688a9a02b7ef3be3a3b7d"> </italic>rua” ∼ “<italic id="italic-c52fa01e1606a45551e67c464817def6">Tem</italic> muita gente na rua”, por exemplo) e a indicação da modalidade deôntica (“Eu <italic id="italic-039598f60d1da9f6f5c22c01f41d8a7e">hei</italic> de/que fazer isso” ∼ “Eu <italic id="italic-ee9072816b7fda7b1641a6781d4bed45">tenho</italic> de/que fazer isso”, por exemplo). O verbo <italic id="italic-d61b144e29a6fc4b7450dcb744407c6d">ter</italic>, que antes indicava apenas posse, amplia, com o decorrer do tempo, a sua matriz semântica e vem substituindo o verbo <italic id="italic-b40cef7e92c355feaab8f42b500cf9d2">haver</italic>, ainda utilizado, mas em menor escala, e com o estigma de erudição e formalidade, como evidenciado em Mattos e Silva (1989, 1996 e 1997), em Viotti (1998) e em Callou e Avelar (2002 e 2003).</p>
      <p id="paragraph-16ac0ec10170d204c460349fc6e984fe">A forma perifrástica com <italic id="italic-3c427fea5b41a3fc840f75137ff904c1">ir</italic> + infinitivo, inexistente no século XIII, parece ganhar espaço no sistema lingüístico a partir do século XIX, e só no século XX começa a ser mais utilizada, ocupando o espaço antes preenchido pela perífrase com <italic id="italic-54ae4c6b61a3745737c1541b8270adf6">haver de</italic> + infinitivo e passando a concorrer, ainda que com baixa incidência, com o futuro sintético na expressão do futuro verbal em português.</p>
      <p id="paragraph-5fe93ca1c3df8eca5823a7fd79b670cb">O presente, por sua vez, também nulo no século XIII, se mantém estável, com baixíssimo uso, durante o eixo do tempo, elevando o seu índice de freqüência apenas no século XX, pelo menos na escrita formal, gênero que representa os dados aqui analisados.</p>
      <p id="paragraph-6f32898b129b6a324642130ab2d27c79">Os resultados deste estudo em tempo real de longa duração pode ser melhor visualizado no Gráfico 1, gerado a partir da Tabela 1:</p>
      <fig id="figure-panel-ad80ae9012a71cdc6b0992cdb4a32771">
        <label>Figure 1</label>
        <caption>
          <title>GRÁFICO 1 - Distribuição das variantes na língua escrita por séculos (percentuais).</title>
          <p id="paragraph-d6cd5af2b04250600d4cc477aeefbcfb" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-61b0bbd0de8ae3d0dd55a1713ed0554f" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-05-06_18-51-23.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-df88b1b8dd3d0f9b1bc86be65bc4d258">Observando o Gráfico 1, vê-se que as colunas referentes ao futuro simples e ao futuro com <italic id="italic-db26923b629ad1ac615312074a678c2e">haver de</italic> + infinitivo não mostram uma simetria na distribuição dessas variantes no eixo do tempo. A partir do século XIX, observa-se que a redução no uso do futuro simples se faz mais sensível. No caso do futuro com <italic id="italic-c6dbb455fd6919eaf2d2282c8e64de92">haver de</italic> + infinitivo, já a partir do século XVIII, verifica-se uma descendência regular. As oscilações nos índices do futuro simples ao longo do tempo podem ser apenas uma decorrência da heterogeneidade da amostra, que contém textos de gêneros distintos, mesmo sendo todos representativos de uma escrita mais formal.</p>
      <p id="paragraph-2831c796b4a27832c3bdbfd7d33edaef">A forma perifrástica com <italic id="italic-7cba1ee27f7c4c4a6ad630c62a5c66e5">ir</italic> + infinitivo faz uma trajetória inversa à do futuro simples, porém sincronizada com a de <italic id="italic-b5fff7be4cc70e3796e71e8408861468">haver de</italic> + infinitivo. No ponto em que se verifica o decréscimo de <italic id="italic-5bc434c99687e72e6ef717877a3e7850">haver de</italic> + infinitivo (séc. XIX), observa-se o aumento de <italic id="italic-3641dd79891cc0d98705971a5c577e78">ir</italic> + infinitivo, o que reforça uma possível relação, na origem, entre as duas variantes perifrásticas. A forma <italic id="italic-ffc766d1f2064393b8bb380d297f8ae5">ir</italic> + infinitivo, no século XIX, passa a concorrer, de forma nítida, com a variante <italic id="italic-e4ec4fae28e0562fd9e7c3a16fd8279e">haver</italic> <italic id="italic-e4be5fc6ae1e948cb5c1530040fc8ebb">de </italic>+ infinitivo.</p>
      <p id="paragraph-af9ef1bf72cd50e817e549ab666446a7">A forma de presente apresenta uma linha de evolução pouco transparente, aumentando seu percentual de uso apenas no final da escala considerada.</p>
      <sec id="heading-c392351a24cdbc51d6a4d29eeced826a">
        <title>2.1 Papel dos grupos de fatores</title>
        <p id="paragraph-013c73d9c5ecfd24be871bd1ac142c6c">Considerando as rodadas do GoldVarb para os dados dos séculos XVIII, XIX e XX, separadamente, vejam-se os grupos selecionados para cada século, tendo como regra de aplicação a variante futuro perifrástico com <italic id="italic-fb2188818bfecb0c2be7fce66bb9e9e1">ir</italic> + infinitivo em oposição ao futuro simples. Foram retiradas das rodadas (por conta da sua baixa ocorrência e por se querer verificar a implementação da perífrase com <italic id="italic-8ca187662ab3879c62de7b355e4ba7cc">ir</italic> + infinitivo) as variantes <italic id="italic-b06b18ca3ba8bfd5744062ba60f92857">haver de</italic> + infinitivo e presente.</p>
        <p id="paragraph-3ca6f3da925540bbf4516c52973dcc6c">Para o século XVIII, foi selecionado o grupo “Tipo de documento”; para o século XIX, foi selecionado o grupo “Paradigma verbal”; e para o século XX, foi selecionado o grupo “Papel temático do sujeito”.</p>
        <p id="paragraph-4">Nota-se que, no século XVIII, com apenas 5 ocorrências de futuro perifrástico, nenhuma variável lingüística foi selecionada, o quê indica um estágio bastante inicial de implementação da forma inovadora. A Tabela 2 mostra os resultados encontrados:</p>
        <p id="paragraph-78437cb31dec67b9612e869ba17bf30e" />
        <table-wrap id="table-figure-8e430d15178f742e49c12abede3bbf39">
          <label>Table 2</label>
          <caption>
            <title>TABELA 2 - Uso da perífrase e tipo de documento no séc. XVIII.</title>
            <p id="paragraph-a00d3144ec69f63f7086ea1a7ad2517f" />
          </caption>
          <table id="table-eb535e496c0f5b7094201738bc2a6295">
            <tbody>
              <tr id="table-row-8bfa7c082119cacdce4f40df9fd807ed">
                <td id="table-cell-28a397121937bc78a0d9c2bcaf4ae941">
                  <bold id="bold-555a54f461ac4845b5d92cbcfc5d4556">Fator</bold>
                </td>
                <td id="table-cell-1a92db336b1d0110536423d204e7c197">
                  <bold id="bold-debdfe747d1f3e8edca42e1d498cd8ad">Ocorrências/Total</bold>
                </td>
                <td id="table-cell-0d6d820c87147ad1029df2456626b31f">
                  <bold id="bold-82eca66d182acf5ebc229639a4074416">Percentual</bold>
                </td>
                <td id="table-cell-8ab6862e799c5509c30b2d7ada8efcab">
                  <bold id="bold-13a80fbaf5bde2c18f5704d4fff6350a">Peso Relativo</bold>
                </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-41d06d0efe560932175380aaf78370a6">
                <td id="table-cell-78c2061244b7098e33bf08f9315023cd">Cartas Oficiais</td>
                <td id="table-cell-a3a9b6777b00bbe3f81e914239708411">3/13</td>
                <td id="table-cell-6e9bab983a9221b8c1168ebd906e15a9">23%</td>
                <td id="table-cell-6a3128f23e5c3f2a6d8f3015b635790b">.92</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-688d2bdb08d9923f8114516b4672b5ef">
                <td id="table-cell-f8cfdf6b927a320a872934e92fd5f8f5">Cartas de comércio</td>
                <td id="table-cell-11c28ca3f7973fcbce142ff783fc3191">1/76</td>
                <td id="table-cell-995a6aba1bc323d15a80fc3f62d752ec">1%</td>
                <td id="table-cell-67cb1a0c49d029bb5c72e4a0d3731f70">.35</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-791d657db4f22a6181d4d163ea644013">
                <td id="table-cell-a00e2b91829e5915c3da2d7c8ea86e75">Cartas comuns</td>
                <td id="table-cell-30b5aedbd34ca390278db932be8d9353">1/20</td>
                <td id="table-cell-c2cfe404f529ab2d94b7573393f28b78">5%</td>
                <td id="table-cell-91d74a04ceff253fcd10aa8ac755206a">.68</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-27dd5403559fb982a0a15e4d8e60456f">A hipótese para esse grupo de fatores era a de que houvesse mais perífrase (a forma inovadora) nas cartas comuns, que representariam um estilo mais informal, ao passo que as cartas oficiais registrariam maior número de futuro simples (a forma conservadora), ficando as cartas de comércio em posição intermediária.</p>
        <p id="paragraph-a32beea35caed4fe050877751ad724ae">Estranhamente, porém, é nas cartas oficiais que a perífrase alcança a sua maior freqüência (23%) e o seu maior peso relativo (.92). Como ainda não havia, no século XVIII, uma normatização da língua, talvez não houvesse tanta diferença no que tange ao tipo de texto (mais formal ou mais informal) e o futuro perifrástico pudesse ser usado mesmo em documentos oficiais. Todavia, como se percebe claramente, os dados são muito poucos para que conclusões mais acertadas possam ser tiradas.</p>
        <p id="paragraph-614db95ecfe6091b672fe4c538453932">Já no século XIX, houve 8 casos de perífrase, também uma quantidade muito pequena de dados. Todavia, o programa selecionou o grupo “Paradigma verbal”. Os resultados estão apresentados na Tabela 3, a seguir:</p>
        <table-wrap id="table-figure-49dad57afc9c6741efbbd32dd88d5465">
          <label>Table 3</label>
          <caption>
            <title>TABELA 3 - Uso da perífrase e paradigma verbal no séc. XIX.</title>
            <p id="paragraph-eb6326361012d8f817ae42c8a6709c9a" />
          </caption>
          <table id="table-2fb9f45939fd9918f5e7a1bd52561a2e">
            <tbody>
              <tr id="table-row-8276574be4d1e920167f5d51121b7c79">
                <td id="table-cell-922afc015965decfbe8e2f6abda29ca5">
                  <bold id="bold-71480b69711e0f71a323d755c6fce269">Fator</bold>
                </td>
                <td id="table-cell-da3d96be54cab729f2ca6de0a88481da">
                  <bold id="bold-783b9ee6f7f215d9d48a8d3dd55be764">Ocorrências/Total</bold>
                </td>
                <td id="table-cell-f67967ac87956ed74fdaa4127a21cf6e">
                  <bold id="bold-2e9c32d7b9bda7804923eaa8e617597b">Percentual</bold>
                </td>
                <td id="table-cell-82794b6bcc820d48db43dfe1d3d5f819">
                  <bold id="bold-1c03c3934f05f5a3b230e1b300db6233">Peso Relativo</bold>
                </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-23406a2563f6063fe35dfb02de986001">
                <td id="table-cell-0a85781eac5ba005583c8884f0c9255c">Verbo regular</td>
                <td id="table-cell-52b76169d958634169da2e9c88698307">7/49</td>
                <td id="table-cell-af342a4baeef36496fe7c6f42f1c04e8">14%</td>
                <td id="table-cell-a8f56f20c0275e4e993b3d98d2943cac">.75</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-e332c7ac8b885ade6f978bddafbf2d9d">
                <td id="table-cell-951053df23ec9a3468125fb86efc9cb0">Verbo irregular</td>
                <td id="table-cell-b8dbfc41aca99e295e6fb68b6ca2fa79">1/52</td>
                <td id="table-cell-1c8d349545f62c64a38627ebedb29c1c">1%</td>
                <td id="table-cell-a8f502a0eabe85bd07db160ce6547801">.26</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-c2605240804f059e60604e9eb8dc871f">Este grupo de fatores distribui os dados em dois grupos: os que contêm um verbo que segue o paradigma geral (verbos regulares), e os que apresentam um verbo de padrão especial (verbos irregulares), considerando, pois, o critério morfológico.</p>
        <p id="paragraph-d7b58181da9543c0cf1598db0ab9ce92">Supondo que há uma mudança em curso no sentido de o futuro perifrástico substituir o futuro simples, aventou-se a hipótese de que esse processo avançaria primeiro nas formas regulares e depois nas irregulares, que, por serem mais marcadas, seriam estocadas individualmente na mente do falante. Essa hipótese confirma-se nos dados, pois o peso relativo para a perífrase foi de “.75” em verbos regulares e de “.26” em verbos irregulares, conforme mostra a Tabela 3.</p>
        <p id="paragraph-9b788ede8c3ddd933ff366ca88d73df4">Tanto nos dados do século XVIII como nos dados do século XX a perífrase teve seu maior índice percentual nas formas verbais regulares (7% e 21%, respectivamente).</p>
        <p id="paragraph-6">Embora o uso do futuro simples em verbos irregulares requeira um conhecimento mais controlado de desinências específicas, o fato de eles admitirem mais futuro simples do que os verbos regulares pode estar relacionado tanto à extensão vocabular, já que a maioria dos verbos irregulares em português possui uma ou duas sílabas, como propõe Câmara Jr. (1985), como à freqüência/estocagem, como propõe Bybee (2003).</p>
        <p id="paragraph-b45ec1f25eb953daa9652726180c48ab">Os verbos irregulares configuram um contexto de resistência da forma simples, sobretudo quando são também monossilábicos e de alta freqüência na língua. A forma de futuro perifrástico entra na escrita pelo contexto mais favorável (verbos de padrão geral). E a ação inibidora de um fator (verbos de padrão especial) torna-se mais evidente na modalidade escrita formal da língua, que implica um maior planejamento lingüístico.</p>
        <p id="paragraph-6637df38970ced2b617c38c2baa0ebd6">No século XX, o “Papel temático do sujeito” foi o grupo selecionado. Essa variável foi considerada neste estudo por se pressupor que o sujeito agente favoreceria o uso da perífrase, já que haveria um maior comprometimento em relação ao futuro e um maior grau de certeza da realização da ação num tempo posterior ao momento da fala, pois ele é quem realizaria essa ação. Já o sujeito paciente selecionaria o futuro simples, ficando o sujeito experienciador em posição intermediária, o quê se confirmou nos dados. Os resultados estão apresentados mais adiante, na Tabela 4. Seguem-se exemplos dos três tipos de sujeito segundo o papel temático:</p>
        <p id="paragraph-deaf235446b5ab291989d29a60f31ae2">.</p>
        <p id="paragraph-ec65975a3592299c625ddbad6b0ec4bc">Sujeito agente:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-e1544c713a567bcc499e6eaac167c994">
          <list-item>
            <p>(40) [...]ep<italic id="italic-f5fd745e99c0f865a4da750a358a0448">o</italic>r este modo <underline id="underline-1fddada3f57c4dada7cf83017093dd9a">vou procurar</underline> as suas ordens e a dizer lhe q<italic id="italic-25f4f9bdc9471db5bf915b99aec357d5">u</italic>e cheguei aeste R<italic id="italic-343740d10facd541be04223ad08ef5b4">i</italic>o com boa viagem, e deSaude, e que meacho nesta Cidade na Caza demeu Mano... (séc. XVIII)</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-33c07ca3ccfe14e3a3c89b317a678478">Sujeito experienciador:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-eee2b4a8da513b70ae8fde5db55945f6">
          <list-item>
            <p>(41) Ignacio Fran<italic id="italic-78109e91ad36a656f06f0516f49d873e">cis</italic>co Bastos <underline id="underline-0a8d4b65e27b7e99aecd3f6f2920a307">vai sofrer</underline> hu’a violencia, ehum insulto – isto basta à justica eagenerosid<italic id="italic-0c5b5f2792f82a5c30c36530631db0bb">ad</italic>e do Coração de V<italic id="italic-6cba25020e66540a7b76390ba4e2f5bd">ossa</italic> Ex<italic id="italic-34c037e9abeb266cc705b41a525057a0">celênci</italic>a. (séc. XIX)</p>
          </list-item>
        </list>
        <p id="paragraph-2c995722d4040c92fbb028279f3ef237">Sujeito paciente:</p>
        <list list-type="bullet" id="list-8d5850c8f4acd0a33fb97d8bd0c00681">
          <list-item>
            <p>(42) O Executivo, que <underline id="underline-52987fd8a9e28ef1c53d3a067fcbe6a2">vai ser fiscalizado</underline>, daria uma demonstração de apreço pela opinião pública – mais do que uma deferência formal ao Congresso – se providenciasse para que o Artigo 45 da Constituição se tornasse letra atuante. (séc. XX)</p>
          </list-item>
        </list>
        <table-wrap id="table-figure-1c8b7772b277a2507cd77475dd72b5f2">
          <label>Table 4</label>
          <caption>
            <title>TABELA 4 - Uso da perífrase e papel temático do sujeito no séc. XX.</title>
            <p id="paragraph-f9cb11b4d44909f2c1fe13446a08d720" />
          </caption>
          <table id="table-9333e0a97e8b18404da96b4c981abbef">
            <tbody>
              <tr id="table-row-357622982912d45d4552f11429a163b1">
                <td id="table-cell-050f40a29b3f4e5387440f668b94ec73">
                  <bold id="bold-fb60d45ae57b384ed0d985e0147f20e2">Fator</bold>
                </td>
                <td id="table-cell-87c3057c317e59cb125903522dfa72ce">
                  <bold id="bold-de47080350ad558a1e05221462f5d696">Ocorrências</bold>
                </td>
                <td id="table-cell-ba145561d25ab1c53df60a54676a75e2">
                  <bold id="bold-75586624f08f7dd9336dd436ec48625a">Percentual</bold>
                </td>
                <td id="table-cell-d81eb6db3bfbb5cfbd666e3e02b6ce9d">
                  <bold id="bold-23bf7584ec65ecd53ccb240f562fca38">Peso Relativo</bold>
                </td>
              </tr>
              <tr id="table-row-6b5600373c308ba6377bbf66ad43afec">
                <td id="table-cell-08a2741d30ae270e9ce6090461ff585a">Agente 1</td>
                <td id="table-cell-06228149bf5b5d286f2b5e353c909df4">5/59</td>
                <td id="table-cell-d486a356ee7d5e5fbd26078b70c69799">25%</td>
                <td id="table-cell-a87add7c206ea76ae3d0d491fdee597f">.67</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-beb06b419a58e7e2f5c8907ea5e284b9">
                <td id="table-cell-ebc4c99c4e59a8d47fab2241889f92d2">Experienciador</td>
                <td id="table-cell-11eb0f3cae13e40bca699f76cb9e99ed">6/51</td>
                <td id="table-cell-a6546cffa9259023b0d2974a2ee8bcbe">11%</td>
                <td id="table-cell-7f860c37dad9e30fa178c7a9bcc23a5e">.44</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-b2b268bd72326a50c89421c521914563">
                <td id="table-cell-4d537a48d604485710ee4725eadf7396">Paciente</td>
                <td id="table-cell-3a9e89d0fdd72546489b5c23cae0abcc">2/31</td>
                <td id="table-cell-d4952c275e1691d98ed150f26cfb39ec">6%</td>
                <td id="table-cell-dc8da25619f1c7b85391a944e1b3dc99">.29</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-f8854e60cb0a0893f4e7e5b3c4116435">Os resultados confirmam a hipótese inicial, pois o sujeito agente tem “.67”, favorecendo a perífrase com percentual de 25%. O sujeito paciente tem um peso relativo bastante baixo “.29” e o sujeito experienciador, embora não favoreça a perífrase, tem um peso intermediário “.44”.</p>
        <p id="paragraph-224bf714210cb5fe5b15f49b0c9495ac">O traço de agentividade desempenha um papel fundamental na trajetória do verbo <italic id="italic-c1cdb46bf0a8abfeec9f31f013172ecf">ir</italic> de pleno a auxiliar. No processo de gramaticalização do futuro perifrástico, a sua ocorrência com sujeitos [+ agente] pode indicar uma persistência de traços da forma fonte (Bybee <italic id="italic-531133771ec37c7c44dbfe239ec9fa33">et alii</italic>, 1994). O verbo <italic id="italic-10a6451d7da430696583484355b26203">ir</italic>, em seu sentido pleno, seleciona um sujeito [+ agente].</p>
        <p id="paragraph-bb6e7b517bbdd1a17db25028cde73cd5">Quanto aos grupos de fatores que não foram selecionados, considerando, portanto, apenas a freqüência, os resultados foram os seguintes: em todas as três amostras (séculos XVIII, XIX e XX), a perífrase alcança seus maiores índices nos verbos de maior extensão fonológica (medida em termos de quantidade de sílabas no infinitivo), na 1ª pessoa verbal, com sujeito [+ animado], com verbos que indicam processo e em contextos de futuro indefinido (quando não há projeção explícita de futuro, ou seja, não se sabe quando a ação se realizará).</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-092cba078b31e916070baf2c5b032d96">
      <title>3 Conclusões</title>
      <p id="paragraph-4c192f126301c13765978e319b8245cb">A reorganização distribucional das variantes de futuro, que já se delineia no século XIX, fica mais evidente no século XX, envolvendo o decréscimo da forma de futuro simples, a queda considerável no uso de <italic id="italic-f0f01b0d7521806d3164bf7f132a6fa6">haver de</italic> + infinitivo e o acentuado aumento da forma de <italic id="italic-f29ab33817e0eb7d4ae920f51b098b3a">ir</italic> + infinitivo. Assim, a passagem entre os séculos XIX e XX parece ser crucial.</p>
      <p id="paragraph-bdf988ce52f5969c31f4aa87c4e81417">Esquematizando os resultados, tem-se (&gt; = maior):</p>
      <p id="paragraph-a5997521b6531be1461493b28f795b56"><bold id="bold-7ecdae00225552e50ea116dbb6c87c49">Século XVIII</bold>: futuro simples &gt;<bold id="bold-2"> </bold><italic id="italic-7c58cbe737fd6e54d1277b374965066f">haver de</italic><bold id="bold-3"> </bold>+ infinitivo &gt; presente /<bold id="bold-4"> </bold><italic id="italic-59aadd36bdff30e4cb3390ebb48b812b">ir</italic><bold id="bold-5"> </bold>+ infinitivo</p>
      <p id="paragraph-5db1a87dd6d037779682526ea2d64ad4"><bold id="bold-6">Século XIX</bold>: futuro simples &gt;<bold id="bold-7"> </bold><italic id="italic-617f4ad59769619f084b1404a8a73347">haver de</italic><bold id="bold-8"> </bold>+ infinitivo /<bold id="bold-9"> </bold><italic id="italic-37df2cd2b89caca417d6cf524d617a5f">ir</italic><bold id="bold-10"> </bold>+ infinitivo &gt; presente</p>
      <p id="paragraph-478671a6bec144efdbfb0b8616f98f0a"><bold id="bold-11">Século XX</bold>: futuro simples &gt;<bold id="bold-12"> </bold><italic id="italic-3f7d7314d6808f34651a271a07006502">ir</italic><bold id="bold-13"> </bold>+ infinitivo &gt; presente &gt;<bold id="bold-14"> </bold><italic id="italic-77ea2c74b32b3cd52f1fc7c4fef03c4d">haver de</italic><bold id="bold-15"> </bold>+ infinitivo</p>
      <p id="paragraph-71b3260c29b7086a16347ba6499082d2">A reestruturação do sistema parece ser impulsionada, portanto, por uma luta evolutiva entre <italic id="italic-272ab88de32d305d3365cb0d51df7362">haver de</italic> + infinitivo e <italic id="italic-9a1cab9120c18d1d3b69c74192048505">ir</italic> + infinitivo, não envolvendo, num primeiro momento, competição com as formas simples. Essa redistribuição pode ser explicada pelo fato de a forma <italic id="italic-c47fc27d16fff1dc02bafe7dde5b1a4c">haver de</italic> + infinitivo possuir um forte componente modal superposto ao de tempo, realizado no seu sentido injuntivo de [+ obrigação].<xref id="xref-8a12d2b266d6dd93146d2e9dd01aa672" ref-type="fn" rid="footnote-717f5b740a209d0a3186e963864b4eb0">3</xref> Progressivamente, é possível que esse sentido tenha sido reforçado em detrimento do sentido de tempo. Este último é reforçado na perífrase com <italic id="italic-b9f79cd78a978688bb566eb0133bcb8c">ir</italic> + infinitivo, que se expande como forma de indicação de futuro.</p>
      <p id="paragraph-9fc3abcfa84f59bdfec2444ac4820218">Variáveis importantes que atuam nesse processo são o “Paradigma verbal” e o “Papel temático do sujeito”.</p>
      <p id="paragraph-610b562493113c76ed4d6ad0e159379d">Quanto ao “Paradigma verbal”, a perífrase é mais usada com verbos regulares, que seguem o padrão geral. São os verbos regulares os que favorecem a aplicação da regra de perífrase, ficando o futuro simples mais restrito aos verbos irregulares, ou seja, os que têm um padrão morfológico especial. Esses verbos, segundo Bybee (2003), por terem uma freqüência alta de uso na língua, resistem a mudanças e, sendo estocados na memória do falante como únicos (especiais), mantêm o futuro simples, pois não seguem padrões gerais.</p>
      <p id="paragraph-832726637436f2466d559c7cf734e27e">Quanto ao “Papel temático do sujeito”, o sujeito [+ agente] é o que mais seleciona a forma perifrástica, seguido do sujeito experienciador, ficando o sujeito paciente mais favorecedor ao uso do futuro simples.</p>
      <p id="paragraph-8">Como se pode perceber, ao analisar um fenômeno variável sob a perspectiva da mudança lingüística, muitos fatores devem ser considerados e têm cada qual um papel significativo. Merecem, portanto, ser aprofundados em estudos posteriores.</p>
    </sec>
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      <fn id="footnote-75c7f36f362895f62d517bd623c91972">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-f622f55dfd8c226f608f28acce42a6fa">A forma exemplificada corresponde à forma sintética “estimarei”, bastante freqüente nos documentos analisados, como, por exemplo, em: “<underline id="underline-c7e47750cd277eddcb444ab6fa671de6">Estimarey</underline> q<italic id="italic-b2f726af8e7435bdeb28d63cccfb4598">ue</italic> v<italic id="italic-b9ea02b4855f5d635f07f8a938d529d4">ossa</italic> m<italic id="italic-34a7788c85fd0029769bbf37bc066514">er</italic>cê tome aSeu Cuid<italic id="italic-920b77c13af6518910c4596d49e1e3a9">ad</italic>o as empertençias deSua Comadre etenha paçiençia, deme Lembr<italic id="italic-26ec097d4220f1d6c60467a7258455af">anç</italic>as aos am<italic id="italic-897bc357e711abf270601d7bafe5fa55">ig</italic>os eao Am<italic id="italic-034339ae07e58d1d11b6001afd8d780a">ig</italic>o Padre Fernandes [...]” (séc. XVIII).<bold id="bold-818e4b081a10f582591cd1564c2445b2"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-5698d6ddb05deb14fb77541bb1506c5a">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-267d76b4559ddc58cb8fdbf67c8ed3de">A forma “vou ir” ainda é discriminada em algumas regiões do Brasil. Assim, eis um contexto de resistência do futuro simples “irei” ou um contexto que favorece o uso do presente “vou”.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-717f5b740a209d0a3186e963864b4eb0">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-d10cd4d98cf5645ea0f5f78aa8b63446">Para Mattos e Silva (1989, 1996 e 1997), entretanto, <italic id="italic-c30c9bf81e7de9d28e5397d48b2308b2">ter de</italic> + infinitivo indica “obrigação” e <italic id="italic-4ceea3d7211130bbd38c8ec0b0aaa05d">haver de</italic> + infinitivo indica “futuridade”. Assim, pode-se dizer que, na luta histórica entre essas duas formas, <italic id="italic-7743260e3027d2087f4f9d4d2372a3eb">haver de</italic> + infinitivo (que possuía ambos os traços em um dado momento) perdeu o traço de “obrigação” para <italic id="italic-048958d0d5a13777e310483ebaad76ed">ter</italic> <italic id="italic-239fdd719db089f4bf69f2304c06516a">de </italic>+ infinitivo e, posteriormente, perdeu o traço de “futuridade” para<italic id="italic-e0c8fe1cfcc31618d6a26720cccb3412"> ir </italic>+<italic id="italic-a9ce7fd14b311881f36a18765495230a"> </italic>infinitivo.</p>
      </fn>
    </fn-group>
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