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        <article-title>POR ONDE ANDAVA O <italic id="italic-1">TU</italic> NO FINAL DO SÉCULO XIX?</article-title>
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            <given-names>Eliana Pitombo </given-names>
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        <institution content-type="orgname">Universidade Estadual de Feira de Santana - UEFS</institution>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="22/05/2017" />
      <volume>7</volume>
      <issue>1</issue>
      <issue-title>POR ONDE ANDAVA O TU NO FINAL DO SÉCULO XIX?</issue-title>
      <fpage>161</fpage>
      <lpage>175</lpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-22720fa8e12afe886d66af0376d37d0c">A partir dos pressupostos da chamada Lingüística Sócio-histórica, este estudo trata da variação tu-você na Bahia, no final do século XIX, com base em um corpus constituído de gêneros textuais diversificados. Os resultados apontam para uma preferência da variante inovadora –“você” – já usada em grande parte como tratamento íntimo.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-c743ac62466e25c1f4a41736046d6ac8">
          <italic id="italic-95db650f1c4fa783b70457afaedf5691">Starting from the framework of the socio-historical linguistics, this study deals with the variation “tu-você” in the State of Bahia, at the end of the nineteenth century, based on a corpus constituted of different textual genders. The results show a preference for the new variant – “você” – already used for intimate treatment.</italic>
        </p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-c8e662692255d76f8a53916e06649388">Pronome você</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-96971b27a6549584bf14fc55d03006a6">História social</italic>
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          <italic id="italic-d85bcbc334b70094300d0d29b808cbd0">Mudança lingüística</italic>
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    <sec id="heading-25f2dcbd83f77bb6029e2efc77caec79">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-3">Tarallo (1993)<xref id="xref-b21511e44e934f77fb840624468d83c3" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-ca91dd69bc0a892b209da7d713cb8fd3">[1]</xref> constatou que mudanças drásticas na gramática do português brasileiro teriam ocorrido no final do século XIX. Segundo Galves (1993)<xref id="xref-92497f667bb7815fc55de1617f9b1501" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-8bdea8cb69920e02a86d951df0643ceb">[2]</xref>, tais mudanças teriam tido sua causa profunda no enfraquecimento da concordância, motivada pela entrada do pronome <italic id="italic-b4bc311f45cd40573ef6be93ba609ce0">você </italic>no sistema. A morfologia flexional foi alterada tornando a concordância<italic id="italic-dcfefd92a6efc10c9226c12f6ab5d75c"> </italic>fraca, o que afetou a ordem dos constituintes, aumentou consideravelmente a expressão de sujeitos referenciais, entre outras mudanças. Diante desses fatos, pode-se dizer que o pronome <italic id="italic-3">você</italic> é o grande vilão da história. É a própria Galves (1993, p. 403)<xref id="xref-9662f237ebf0fba0c6bdfc9a86f0a72b" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-8bdea8cb69920e02a86d951df0643ceb">[2]</xref> que chama a atenção para o fato de que “ainda está por ser feita uma análise da mudança nas formas de tratamento do português do Brasil...”. Essa observação nos motivou a empreender um estudo sobre o uso dessa forma de tratamento do interlocutor nas décadas finais daquele século, buscando comprovar a hipótese levantada por Galves (1993, p. 403)<xref id="xref-27cb2f8063abd2178749e5a118d8bbe9" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-8bdea8cb69920e02a86d951df0643ceb">[2]</xref> de que “a mudança [tu → você] não se realizou de forma regular em toda a sociedade, mas pode ter tido a sua origem em certas camadas e se expandido pouco a pouco.”</p>
      <p id="paragraph-feef88b4c19ab85bb9431e8e85cb8085">Nesse estudo, utilizamos uma abordagem que combina procedimentos metodológicos da sociolingüística laboviana – análise quantitativa dos dados e consideração a fatores sociais – com os pressupostos da lingüística histórica tradicional, como proposto por Romaine (1982)<xref id="xref-876fcb7b2971944c43c48b6a0c5dba00" ref-type="bibr" rid="book-ref-63573903c2eb0eae5283146a21e90bce">[3]</xref>, denominada lingüística sócio-histórica.</p>
      <p id="paragraph-4">.</p>
      <sec id="heading-d4174afd2fafae0e63a941e4ce9f189b">
        <title>1. O paradoxo da Lingüística histórica</title>
        <p id="paragraph-7">O final do século XIX foi marcado por acontecimentos ímpares que influíram profundamente na vida social, política e econômica do país. A abolição do regime escravista, a insatisfação geral com o desempenho político de D. Pedro II, a consciência da necessidade de uma mudança para um regime mais democrático foram fatos decisivos para a Proclamação de República em 1889. Como observa Martins (1978-1979)<xref id="xref-d3e21e9fe81170153b6a2cf35c0e8974" ref-type="bibr" rid="book-ref-988b84bcdf89bdd31095fa49aaf3cfe7">[4]</xref> a metamorfose social iniciada em 1875 com a implementação pela Coroa de ações, ainda que pálidas, de cunho socialista, da qual a própria república é conseqüência, influenciou até mesmo os usos lingüísticos, fato assinalado por Rui Barbosa na sua <italic id="italic-4">Réplica</italic> (apud MARTINS, 1978-1979, v. 4, p. 325)<xref id="xref-19c6c2bf6d7e366e9fdc3357aff7fbbb" ref-type="bibr" rid="book-ref-988b84bcdf89bdd31095fa49aaf3cfe7">[4]</xref>.</p>
        <p id="paragraph-74830a30771fc4b6b51b2e9d06f53dd1">O movimento de 15 de novembro, que dura ainda, fez do neologismo política. A subversão da coroa repercutiu até no idioma, que falamos. Os homens de 1889 no Brasil tomaram aos de 1789 em França o barrete frígio, o título universal de cidadãos e a senha de fraternidade. Mas uma de suas mais extraordinárias aspirações foi a de substituírem o tratamento em terceira pessoa, nativo à índole da nossa língua, pelo de <italic id="italic-a41255da07205e5a32a157cfa73ed725">vós</italic>, generalizado a todos os estilos, a todas as situações e a todas as classes. Como a antiga maneira de correspondência verbal, ou escrita, se achasse associada à <italic id="italic-590bbda479ba439ce38ed5920ba19e80">mercê</italic>, à <italic id="italic-d081bfee24718e20dda1dfc62b9da965">senhoria </italic>e à<italic id="italic-41bc0f48b0337927ee28185bc08d53ea"> excelência</italic>, com que a democracia indígena supunha<italic id="italic-5"> </italic>deslustrar os seus foros, imaginou-se que aquele pronome, convertido em instituição republicana, eliminaria estas desigualdades suspeitas, livelando todos os graus da escala social, desde o chefe de Estado até os serventes, sob uma fórmula de cortesia comum. Só o <italic id="italic-6">vós</italic> poderia desempenhar semelhante missão, entendendo-se, talvez, que para ela a sem-cerimônia do <italic id="italic-7">tu</italic>, ou do <italic id="italic-8">você, </italic>exprimiria familiaridade exagerada. Era o neologismo arvorado<italic id="italic-9"> </italic>em regime de governo.</p>
        <p id="paragraph-079ca02bd42f896b97cdbf709d6a0334">Em que pese a preocupação de Rui Barbosa com o retorno de uma forma de tratamento já se arcaizando, em se tratando de questões lingüísticas, o famoso jurista, como, aliás, a maior parte dos letrados brasileiros, não admitia inovações. Martins (1978-1979)<xref id="xref-2ac46f9b1b38e4ae9d91d63da7f24948" ref-type="bibr" rid="book-ref-988b84bcdf89bdd31095fa49aaf3cfe7">[4]</xref> observa que, enquanto portugueses, a exemplo do filólogo Adolfo Coelho, assumiam as diferenças lingüísticas existentes na variedade brasileira em relação à lusitana, a elite letrada do Brasil à essa época, incluindo aí gramáticos como Ernesto Carneiro Ribeiro, salvo raras exceções, primava pela conservação da “pureza” da língua tanto no nível do léxico como no da sintaxe, seguindo subservientemente a norma européia. A esse respeito, veja-se Pagotto (1999)<xref id="xref-718c562155b2c8cb8bb02bdb0cf0964f" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-15cc65056b1f8b9312f2f6bcfd1003c3">[5]</xref>, que, ao comparar os textos das constituições brasileiras do século XIX (a do Império e a da República), constata a predominância da ênclise no texto da última a despeito da preferência pela próclise que caracteriza o português brasileiro.</p>
        <p id="paragraph-b54a07394b9d888745dace67e6075279">Essa postura subserviente em relação à língua, que reflete uma compreensão equivocada do fenômeno lingüístico, é responsável pelo paradoxo enfrentado por pesquisadores que se dedicam ao estudo histórico da língua: é desses textos que nos servimos para constatar mudanças lingüísticas.</p>
        <p id="paragraph-3910522bde428920fc0a5e0da22108f7">.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-3d4b256448f5387d6e9da7eb12240638">
        <title>2. O <italic id="italic-26385be6a465d50d2985622a30cace81">corpus</italic></title>
        <p id="paragraph-0a1076cc102b793248f24042dda2f694">O estudo histórico das formas de tratamento impõe limitações de diversa ordem. Primeiro, o pesquisador enfrenta restrições em relação aos próprios documentos que deverão servir de fonte de dados, já que as formas de segunda pessoa raramente aparecem na documentação arquivística: os documentos notariais são, na sua maioria, escritos na terceira pessoa; as cartas depositadas em arquivos são geralmente dirigidas a autoridades, o que leva ao uso de tratamentos formais. Resta então a literatura. Contudo, a minha experiência nesse sentido, pelo menos no que se refere à literatura baiana, foi simplesmente desestimulante. A literatura da época, além de escassa, apresenta uma peculiaridade: uma sensível preferência pela narração e pela descrição em detrimento do diálogo. Em segundo lugar, os valores sociais e formas de comportamento peculiares à época restringem drasticamente a possibilidade de ocorrência de díades diversas. Um exemplo: os filhos adolescentes raramente conversam com os pais, a eles não é dado o direito de voz, e o mesmo ocorre com os empregados domésticos. As peças de teatro, gênero marcado pela presença do diálogo, pelo menos as que tivemos acesso na Bahia no final do Oitocentos, tendem para o teatro de revista, apresentando uma infinidade de personificações, a exemplo da peça de Boccanera <italic id="italic-c2d9693969667b567d5b3a3ef7ce85cd">No meio do mundo,</italic> em que a bandeira brasileira é uma personagem. Por essas razões, o número de dados que constitui a amostra é modesto.</p>
        <p id="paragraph-5">Tomamos como fonte de dados dois romances do escritor baiano Xavier Marques, quais sejam <italic id="italic-af90489fcf29ab4a2c4c8b931aa76ce8">Uma família baiana</italic>, escrito em 1888, e <italic id="italic-74e81ac86576c70190bd61b6167be80f">O</italic> <italic id="italic-8f3da38481154b6255591facc6aa268e">feiticeiro, </italic>de 1897. O primeiro é um retrato dos costumes e valores da sociedade da época. A personagem principal, o chefe da família, tratado por um amigo de “Coronel”, pertencente à alta sociedade baiana, canaliza todos os seus esforços para preservar o <italic id="italic-83505b22414cb4ec9a31d076c6f77818">status</italic> da família: casa a filha bem jovem com um homem mais velho e bem sucedido e controla o comportamento do filho rebelde que se envolve com jogo, bebida e mulheres de reputação duvidosa. O romance oferece também uma fotografia da cidade, tanto no que se refere a aspectos físicos (ruas, bairros elegantes, meios de transporte usados na época) como no que diz respeito a aspectos culturais, a exemplo das formas de lazer, da música e do folclore.</p>
        <p id="paragraph-a37c0d05028d7b1553acde94fa0e14f6">Já o segundo romance, <italic id="italic-13cd54fcfed4c11ed08d14720e33a86f">O feiticeiro,</italic> focaliza uma família da classe média que tenta ascender socialmente através do comércio e da educação. Seus personagens discutem a política local e a vida dos vizinhos e amigos mais bem sucedidos. A obra focaliza também a presença da cultura africana na vida de pessoas da classe média no que tange à crença religiosa, evidenciada pelas constantes consultas de alguns personagens a pais de santo.</p>
        <p id="paragraph-d23c39f789432565129b80efa83dc2f8">Nascido em Itaparica em 1861, o escritor era também político, professor primário e redator. Era, portanto, um falante da norma culta como também o era Rui Barbosa, cujo conjunto de cartas endereçadas a sua mulher e a amigos, datadas de 1880 a 1894, também integra o <italic id="italic-9103ede900323a7ba766fba476cd4242">corpus</italic>. A escrita do famoso jurista, mesmo num estilo informal, como não poderia deixar de ser, prima pela obediência à norma culta do português europeu. Parte dessas cartas é escrita à época do seu auto-exílio em Buenos Aires e se caracteriza por relatar sua vida naquela cidade, seus receios, dificuldades e sua preocupação com a família, dele tão distante. Isso implica o uso abundante da primeira pessoa.</p>
        <p id="paragraph-bf6ef0d7937d8ba2e7017b81a23f167f">Além dessas amostras, constituímos duas outras. A primeira, retirada da peça teatral <italic id="italic-685e6707357d9b40cf21baac9f77b6fa">No meio do mundo</italic>, também de 1897, assinada por Sílio Boccanera e Alexandre Fernandes. Boccanera, baiano nascido em 1863, apesar de engenheiro por formação, dedicou-se às causas culturais e foi um escritor prolífero de peças teatrais. Apesar de ter escrito dramas, elegeu a comédia como o gênero por excelência, já que através dela dava vazão a sua veia crítica e denunciativa. A comédia <italic id="italic-8a71d5e021f8e7efc8ac96bbb411e564">No meio do mundo</italic> é uma revista cômica em que aparecem personagens de classes sociais diversas. Através de seus personagens, os autores satirizam as instituições e o comportamento social dos vários segmentos da sociedade. A segunda amostra é uma coleção de diálogos publicados no jornal A F<italic id="italic-1666fe8eb8ddd5a990875a357964c65c">ôia do Rocêro</italic>, periódico baiano de vida breve, em números datados de 1899. Nele também aparecem personagens da classe baixa, o que permitiu estabelecer um <italic id="italic-f01100eba8bdcae3db645a1665722fbe">continuum</italic> classe alta/média/baixa. Nessa época, o jornal era dirigido por José de Sá Róris, baiano de Curaçá que também colaborava com o jornal fazendo humorismo e caricatura. Ainda bem jovem, matriculou-se na Escola de Belas Artes da Bahia e, em 1928, parte para o Rio de Janeiro onde ensinou em vários colégios, a exemplo do D. Pedro II. A coluna selecionada para integrar o <italic id="italic-f7a7fc73b5f00c4fafbb0b0c580a95c6">corpus</italic> apresenta diálogos entre pessoas simples do interior, retratando a sua cultura como também o seu vernáculo.</p>
        <p id="paragraph-526fc47d41cc39b0be0fc6bfe2595c9e">O <italic id="italic-cb57666cdbac3f51362af58308fc4e41">corpus</italic> é constituído de 173 dados. Este número sofre alterações para menos em algumas células em função da não consideração de certas ocorrências cujo contexto não ofereceu pistas para classificá-las como foi o caso da classe social de algumas personagens da peça teatral e do grau de aproximação entre elas.</p>
        <p id="paragraph-6f0ff3da03d56f69da4ff971d52a8a3b">Estabelecemos como variáveis extralingüísticas o valor de <italic id="italic-d9fecd2e0bec12a5ca1654286cee47ee">você</italic>, a classe social dos personagens e dos remetentes das cartas, variedade lingüística, autoridade relativa, tópico do discurso e grau de aproximação dos locutores.</p>
        <p id="paragraph-b9ff030f9aa448ec6a0a446f5c6ffe62">Usamos a dicotomia marcado/não-marcado para determinar o valor semântico de <italic id="italic-0c006018324b38bc029f00164a4b2424">você.</italic> O primeiro termo refere-se a um pronome de tratamento de valor intermediário entre <italic id="italic-95c74e4648a20bcc197879c06dd994f7">tu</italic> e <italic id="italic-51905442d924871146860727ae4ff6d2">senhor,</italic> usado pela camada letrada da população, entre iguais, tomado de empréstimo ao português europeu provavelmente na segunda metade do século XVIII. Esse pronome é muitas vezes grafado em sua forma abreviada, o que mostra tratar-se de um pronome de tratamento, como se pode ver no exemplo a seguir:</p>
        <p id="paragraph-d6bbb8428d9abdcd6ad177186e7b1fad">.</p>
        <p id="paragraph-ea455a7b01c746b5f676bfcf2180e592">(1)  ...seja V. o intermediário das minhas cartas para Maria Augusta. (Rui Barbosa, 1893)</p>
        <p id="paragraph-3c269f113946701d056d18e6fe22acd3">.</p>
        <p id="paragraph-906220f62c8b1f0bbdd766a0c7526c3b">A respeito do novo estatuto do pronome em Portugal, veja-se o que diz Basto (1931, p. 193)<xref id="xref-0bbee281388994fac8dedacf1ade68d2" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-8c6ba8383346520efb7828b9fda3f568">[6]</xref>: “Dantes vòcê – assim como vossemecê – evitava-se com pessoas de cerimônia. – ‘Vòcê’ é estrebaria! – exclamava-se. Agora é moda, é de bom tom, é chic o tratamento de você”</p>
        <p id="paragraph-2">O segundo <italic id="italic-231ecf7a544d681c6fe40ece13cf9bd9">você</italic> (não-marcado) refere-se a um pronome pessoal, digamos, neutro, que pode ser usado entre não-íntimos iguais e íntimos, em substituição a <italic id="italic-c33d5f4ad8ee5f2a7fc8a18abcf432cf">tu.</italic></p>
        <p id="paragraph-6a4928126279de8e8213a5fa54cef327">Os últimos três fatores acima arrolados foram estabelecidos considerando-se a natureza do fenômeno em estudo. As formas de tratamento, como se sabe, são uma função do tipo de relação que se estabelece entre os participantes de evento comunicativo (Cf. BROWN; GILMAN, 1960;<xref id="xref-79361e67fb430db852fc962c907087a2" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-dd432900f980b08cc840aed6282e005d">[7]</xref> FRIEDRICH, 1986)<xref id="xref-6bb75d6fc8f9a0f6a45b487e8288b00b" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-bd33ce28407e5ef1f3badc6b14808150">[8]</xref>. São, portanto, fatores pragmático-discursivos.</p>
        <p id="paragraph-6">A escolha de duas obras escritas pelo mesmo autor em épocas distintas visa a verificar o avanço da mudança, isto é, o possível aumento da freqüência de uso do pronome <italic id="italic-7176b7cb00067f54d38ebf0d0e3f2916">você</italic> em díades em que tradicionalmente usava-se o <italic id="italic-01b0c02d06f604df13b0c9eaeca70707">tu.</italic></p>
        <p id="paragraph-1b23daac581a99e913d28c91035d2a1c">.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-637adeac9852caef99ef9301ba0594a7">
        <title>3. A análise</title>
        <p id="paragraph-10">É bom salientar que o <italic id="italic-aae13f81dbec1dbcfd6091e3933d4376">tu</italic> e o <italic id="italic-c7caffeaeb58bef163cbb5f6905590b4">você</italic> são aqui tomados como macroformas, podendo ser representados pelo pronome sujeito, por um morfema a eles associado na morfologia verbal, um possessivo ou um clítico.</p>
        <p id="paragraph-12">Os grupos de fatores testados comportam os seguintes fatores: autoridade relativa (mais poderoso X poderes iguais), variedade lingüística (culta X popular), valor de <italic id="italic-e27726587a6cb4b13d05f8d8a5e537ed">você</italic> (marcado X não-marcado), grau de aproximação dos interlocutores (grau 1 -muito próximo; grau 2 – pouco próximo; grau 3 – distante), tópico do discurso (assuntos íntimos X assuntos não-íntimos) e classe social (alta, média e baixa). A tabela 1, a seguir, mostra os resultados.</p>
        <table-wrap id="table-figure-85bf1e3b844c899b500af502a75a05a8">
          <label>Table 1</label>
          <caption>
            <title>TABELA 1</title>
            <p id="paragraph-bd5069c7cd4f60da114858dbf8c07855">Número e percentual do pronome v<italic id="italic-273e0a022d0ca42ce34a14acbe712f06">ocê</italic> em relação a <italic id="italic-73a257e7efbe84a13aab9fc31ca2b10c">tu.</italic></p>
          </caption>
          <table id="table-afbdb4a4f29a6dd324cdbef30c3b5fab">
            <tbody>
              <tr id="table-row-8a879bef71c29cc156ec5a520a110505">
                <th id="table-cell-29cdd8d54b31530bf4a4caee4bb1238e">Grupo de fatores</th>
                <th id="table-cell-334fd5a65562634b613d45714c61494e">Fatores</th>
                <th id="table-cell-6e88f0192939de27363e4af721bc9781">Apl/N</th>
                <th id="table-cell-1b895412ac1b0453e64cf4965573a068">%</th>
              </tr>
              <tr id="table-row-893d2726cf674b0bae3dc1ce973d3907">
                <td id="table-cell-36d91fe02a45bc1c01318678cfe10eb2" rowspan="2">1. Variedade lingüística</td>
                <td id="table-cell-5591850231631661278de250fb76f361">-popular</td>
                <td id="table-cell-fbccf01cf15ce30655b8aa72caf0b74c">74/141</td>
                <td id="table-cell-36853f052b9c8503f3930439a1b68c0d">52</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-f3311dd64a2860b18d8f2c4e39f62907">
                <td id="table-cell-411598955cacdf026231fe426e8f4cf8">+popular</td>
                <td id="table-cell-cbaf351d69b8042dc9b34c9923eb9a31">32/32</td>
                <td id="table-cell-441b750d8f7c27bca4a9c6fd909501e6">100</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-995aef64d7c3514ac407f7d73b04fca8">
                <td id="table-cell-6f8e71776cdcb11af566404d2d1fc7df" rowspan="2">2. Valor de <italic id="italic-151ae0d3e7bb18003c85e61721b066d2">você</italic></td>
                <td id="table-cell-320cf930f5fdd5abe2be225c4fbc8e16">marcado</td>
                <td id="table-cell-9d2bc551e843b1594c3f81351f0806d5">14/42</td>
                <td id="table-cell-337dd77b2460bdbff60389f59ad067c4">33</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-492157ad1da1813b6622dec41b4c0502">
                <td id="table-cell-8efe8e37f1072d80e1e4c9c8b7090bd5">não marcado</td>
                <td id="table-cell-adddaba121db21f3c3f277082eaf69d8">92/121</td>
                <td id="table-cell-89bf34b458ea6894e738a7dc779ae322">76</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-2c3342efb5881b868d22c1be36d169e3">
                <td id="table-cell-4a0e28553aef11c4b802502601b105d0" rowspan="3">3. Grau de aproximação dos interlocutores</td>
                <td id="table-cell-21547188816312f17e0cd21c60a14507">1 - muito próximo</td>
                <td id="table-cell-771ea5469e9f5c2e58c65b43e4e92931">61/118</td>
                <td id="table-cell-e7f24d996fa27d61265a9e3c967bef84">52</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-2668442d9c07503cdf10b28856cc28fe">
                <td id="table-cell-a305edd5a0660077949ff194c21d6a21">2 - pouco próximo</td>
                <td id="table-cell-5250d79ed39e00af4dd293c2a5f55f6a">22/23</td>
                <td id="table-cell-a020c04719c33ddd43f3c54fddf28069">96</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-f5ece0813fb0778f2cd8bcb2791f5745">
                <td id="table-cell-0ae451f7e5c83a997d0fe65468f3ce7c">3 - distante</td>
                <td id="table-cell-8595b3a2e70a3e320e85d19b19694573">17/18</td>
                <td id="table-cell-9771ce1de70fdc328f1e1a2eb2aa771a">94</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-f00c43814fc5e07eb791ea2a2bcb8554">
                <td id="table-cell-3279a3b3c82407a4a6f2484a6437d509" rowspan="2">4. Tópico do discurso</td>
                <td id="table-cell-ed64e18ed5628d60e156bbc7f08a9e81">assunto íntimo</td>
                <td id="table-cell-218a24ee3d983a9ff257acc2ad8bb381">6/23</td>
                <td id="table-cell-e03700218b0a1691835cce80b9a37e0f">26</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-2d065059a0ba8a3d570ba61cc9332578">
                <td id="table-cell-c3d42c0acf2346ee42b7f7aa15c46a73">assunto não-íntimo</td>
                <td id="table-cell-c009f21bab146e8720bf58df43f943bd">98/150</td>
                <td id="table-cell-a10ebdc2c0bb1a3a026ba2feae5d9545">65</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-bced940164f7d245eb646ada67c640d9">
                <td id="table-cell-2c0c87d63efb0024d70dae6ca35b1f5e" rowspan="2">5. Autoridade relativa</td>
                <td id="table-cell-23be2252177636f1135ee1d33e3c7299">mais poderoso</td>
                <td id="table-cell-b023d7a45a7f6a41f842e18748d46061">21/39</td>
                <td id="table-cell-92ca44f08f7c652c43d6b1c5e4297c33">54</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-27775fda5256728782b5a42c59829745">
                <td id="table-cell-36ed3076258d98da9870a17ac0e48263">poderes iguais</td>
                <td id="table-cell-967382bbbe5f39fad8908813e54a4599">81/130</td>
                <td id="table-cell-9b5ad535c211b32c2306daaa67d0a4b8">62</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-419ca07710b9056d693caa7ce1b70af3">
                <td id="table-cell-7d55e4ea3a7376cb79ca434e14783114" rowspan="3">6. Classe social</td>
                <td id="table-cell-3e16e03500095797935252098b8ab66d">alta</td>
                <td id="table-cell-8585fb7017e17a5782adbc95a2a111a5">43/84</td>
                <td id="table-cell-73cd795e713db2e650627007b249830b">51</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-49cd41ff590045fce92ae13371fdcc7a">
                <td id="table-cell-f52a795d9faa1030f2e5add4296c60dd">média</td>
                <td id="table-cell-a181c8d8e073aacf60bad2cd4eaee143">27/42</td>
                <td id="table-cell-937d3fe62a32637c32a6733874ca6db6">64</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-45fe153db40868b376b52ef70e59bd00">
                <td id="table-cell-89d9237845b6f04323507d9510dc379a">baixa</td>
                <td id="table-cell-e25e88dbaad6b8188dfe7e8a7e4ec259">30/30</td>
                <td id="table-cell-fe9cd0e81ac7665802b33c4f68c375ec">100</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-5a79553cc7321ca2cd0c4164348b5ffe">Observa-se que os grupos de fatores variedade lingüística e grau de aproximação são os que apresentam maior porcentagem. No primeiro grupo, o fator [+ popular] mostrou-se categórico: os usuários da norma popular não utilizam o pronome <italic id="italic-f5835c74d9b1d6f6a04d31663feba9f8">tu</italic>. </p>
        <p id="paragraph-a1de423a5f2a0b8ff916b3557f636386">Nos enunciados em (2) e (3) uma mulher do povo dirige-se ao marido e um homem, também do povo, se dirige a sua mulher, respectivamente.</p>
        <p id="paragraph-cc91f9a774d3ba2886f2397519a124c9">.</p>
        <p id="paragraph-0abc572779f3c831a590b0cc09532e88">(2) Você leva asdespois (sic) a mala e a cumida.</p>
        <p id="paragraph-d672d63e9bbff4d6fa485397c8dd8619">(BOCCANERA, 1897, p. 43)</p>
        <p id="paragraph-7197bb33c3a85178484bc37397fe7853">(3) Não, Niqueleta, você tenha carma.</p>
        <p id="paragraph-621b6518b1cf62996d32d0d0713904c2">(FÔIA DO ROCÊRO, 1899, p. 10)</p>
        <p id="paragraph-53aa8bb0fc838454a0c5c4eef5cb992c">.</p>
        <p id="paragraph-504f97204e012e01379fba1ee1e5627d">Quanto ao fator grau de aproximação, o grau 1 é o que exibe a menor percentagem (52%) o que contraria nossas expectativas de que o pronome <italic id="italic-50620c64ec75503a2d6fc7d5e6178dee">você </italic>já estaria sendo usado nas interlocuções entre pessoas iguais e muito próximas, isto é, como tratamento íntimo como, por exemplo, na díade marido e mulher. Esse resultado deve-se aos dados referentes às cartas de Rui Barbosa a sua mulher, nas quais ele usa categoricamente o pronome tu. Observe-se, porém, que o jurista se tornou notável, entre outros predicados, por seu profundo domínio da norma culta portuguesa, chegando mesmo a travar um acalorado debate com o gramático Ernesto Carneiro. Veja-se o exemplo (4) a seguir:</p>
        <p id="paragraph-1308d37e12664e33b02ab07dd78010c6">.</p>
        <p id="paragraph-a3aebc6a75557cc2a7b82f56cb4d08e3">(4) Não mandes nossas filhinhas ao colégio. [...] Elas precisam agora de ti e tu delas. (1893)</p>
        <p id="paragraph-126922d8fb55e96eff5bcd4391bfd9e6">.</p>
        <p id="paragraph-12e08d28109ebe4fa1d4e0cd3365667a">Ao contrário, no romance de Xavier Marques de 1888, já se observa o uso do pronome <italic id="italic-41f79b77ad80af6a7ea7494e6e9d1599">você</italic> nesse tipo de díade:</p>
        <p id="paragraph-825b0d7cbde656bd3cff72b2248f2ff9">.</p>
        <p id="paragraph-3516adff9c42e6f98203f481fbb86401">(5) Você sabe quando ele parte? (Mulher se dirigindo ao marido, p. 71)</p>
        <p id="paragraph-80255771eb6d904d70724cbcf3a77abd">.</p>
        <p id="paragraph-06ebb26a01c6f73dd2e5fe037c58b4c4">Um fato chama a atenção: o percentual do grau de aproximação 3 (94%). Isso nos pareceu muito estranho. Contudo, ao cruzar as variáveis grau de aproximação e classe social desvendamos o mistério: classes sociais distintas se comportam diferentemente em relação ao tratamento do interlocutor. A tabela 2, a seguir, mostra esse comportamento.</p>
        <table-wrap id="table-figure-bc7182d2447bbe36785fc31341bf2046">
          <label>Table 2</label>
          <caption>
            <title>TABELA 2</title>
            <p id="paragraph-1e9e11b20e689bd7bbdb83c2dd3584dd">Cruzamento das variáveis classe social e grau de aproximação dos interlocutores. Porcentagens de uso de <italic id="italic-b7186f328e5ddd29d0dbc05059adb669">você</italic></p>
          </caption>
          <table id="table-44db0f5300679a58f21b32b7ddca5709">
            <tbody>
              <tr id="table-row-64bf189cc4c06ac28ff69c7e0ea5c8e9">
                <td id="table-cell-1fbc5e3d9ad449eaaddbd80c5f703b7c" rowspan="2">Grau de aproximação</td>
                <td id="table-cell-78aa1d61217700f1b1931fa8ffca5da5">1</td>
                <td id="table-cell-10b12ad2cf85618adc1cc8476a0278a0">2</td>
                <td id="table-cell-e9b514c1effd6ae5311fc853299c27b5">3</td>
                <td id="table-cell-7fefb4492df1dcb313c4647227bee91e">4</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-203b5ef2d8749f8f51107ffb65ee8e9e">
                <td id="table-cell-e83c04e53e744470c13e83c70e1bd5ab">Nº / %</td>
                <td id="table-cell-8a008799a07a2748da55257bfabf251f">Nº / %</td>
                <td id="table-cell-30a1685fedac37e92464c50d90134aa5">Nº / %</td>
                <td id="table-cell-8dd39f1b2d6ca528e5bda84bf7894afc">Nº / %</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-1a6e2c5de7f836a7e87130b16ab40dff">
                <td id="table-cell-072717a45b6ca09022674c4f371d4e63">classe social</td>
                <td id="table-cell-f4a21ba02c8e511cdaef85ae85b3abed" />
                <td id="table-cell-03f36ebdacce5f25ad568d39795d83f3" />
                <td id="table-cell-f4cbab21205515c80c9dea629c7ec555" />
                <td id="table-cell-1fb4fd96b6159f318143aa8c5f487071" />
              </tr>
              <tr id="table-row-fa7886fe3ca7e6032584a37156c563e9">
                <td id="table-cell-340f5ee55b360408f274edb421761159">Alta</td>
                <td id="table-cell-ed9b542093c104e46ece91a4efd272e1">29/41</td>
                <td id="table-cell-8f1d27b62a5cfceab40cbbe85b83ac67">14/100</td>
                <td id="table-cell-eb5420834de548d156b9eead3f39a3bd">-</td>
                <td id="table-cell-1065a4385bf9891ee4d10bbb8959c924">43/51</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-ab720879845d15b2a7b84e599a81f0f1">
                <td id="table-cell-892a04921325c991a806a5a68c88b200">Média</td>
                <td id="table-cell-86864af4817c7b7809bbd426a479fd9b">18/55</td>
                <td id="table-cell-9f16b0d84709bff1ae8b03f226435dbe">5/100</td>
                <td id="table-cell-e21401a95f5803b928c4433459a6cfdc">4/100</td>
                <td id="table-cell-cd956dbaa62038c47a3eedc8b8962fce">27/64</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-039cc563086ec16b8e94c3e63fb0b43f">
                <td id="table-cell-08eb5ef6cba84c57557b055886f05949">Baixa</td>
                <td id="table-cell-7eed1c555e89dfd6b4991a3d6d010f96">14/100</td>
                <td id="table-cell-7eadbb36bfb9373ea18a75408d57b9d4">3/100</td>
                <td id="table-cell-d205574d35ed32acae8a8b20ab75d6b1">13/100</td>
                <td id="table-cell-df56c399bf1860dc2dc9bf2b635ccccd">30/100</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-1a83c203382874beedbe21e21c1351f5">
                <td id="table-cell-8e951de4188ec3e8b9d18ced85ace07f">Total</td>
                <td id="table-cell-30a5e7f4f38f0b51e77190b94671f2b7">61/52</td>
                <td id="table-cell-ed432bf7c6415cfc46f5f4b1ccbc9f04">22/96</td>
                <td id="table-cell-98aa80c16737c97f72b4019440106953">17/100</td>
                <td id="table-cell-c83683c5272f9654a2f65f9a79e84f99">100/63</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-e74a372790b334939cedf3ac8cfad1e0">As 30 ocorrências de <italic id="italic-f1764fe900e7cb77564503c4b3d23830">você</italic> na classe social baixa distribuem-se nos três graus de aproximação. Deduz-se daí que os membros da classe baixa, dentro do seu próprio grupo, usam indistintamente o pronome <italic id="italic-5a6ce916f8834824041dfa3e638b8e1f">você</italic> para qualquer pessoa, excluindo-se a díade jovem X velho em que os tratamentos corteses <italic id="italic-73a4be17014298e76be3b13f9b1bebab">Senho</italic>r e <italic id="italic-41c8a078934177ad13cde4d0e3312623">Vosmecê</italic> são usados. Pode-se dizer, então, que a classe baixa não mantém as distâncias que as classes superiores costumam manter. Friedrich (1986, p. 284)<xref id="xref-02eb11cf8df2676cd2e27c243e41c5a2" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-bd33ce28407e5ef1f3badc6b14808150">[8]</xref> também constatou esse fato na Rússia, no século XIX: “[...] todos os membros das classes baixas tendiam fortemente a usar o T recíproco,<xref id="xref-b979ddd9cf9688829e7f1dab339bc5f5" ref-type="fn" rid="footnote-91062bfd1844a3f251b78de2e9b87b33">1</xref> mesmo se tratando de pessoas totalmente desconhecidas.” Seriam os membros da classe baixa mais solidários entre si?</p>
        <p id="paragraph-0754bfd4cfd537601c8cc2a273c4f991">O uso categórico de <italic id="italic-cdf6ffa4cdceee104df7fd60731193ac">você</italic> entre iguais na classe baixa indica que essa parcela da população já usava essa forma de tratamento do interlocutor há muito tempo. Talvez tenha sido a forma preferida por essa classe desde o século XVIII, pois, pelo que se pode extrair dos poemas dialogados de Gregório de Matos, no século XVII, <italic id="italic-861d35f1fa8105f7a4d5aeb884bc8ab8">você</italic> era um pronome de cortesia, usado especialmente pelo contingente negro-mestiço da população, portanto, desprestigiado.<xref id="xref-e86a4acafd8cd1c73cb0266cf5021a04" ref-type="fn" rid="footnote-8cee02743abedd57968595f9c694c425">2</xref> Como as formas de tratamento corteses se desgastam rapidamente,<xref id="xref-fb726f39914f875685d52d66b368be41" ref-type="fn" rid="footnote-e19fa3b3467feefac607f56173d039c3">3</xref> é possível que essa parcela da população o tenha transformado em uma forma não-marcada, de uso extensivo a íntimos e não-íntimos.</p>
        <p id="paragraph-d3b5b162b409d51552426ba4a1fdede4">Observa-se que o fator não-marcado da variável valor de <italic id="italic-61c2f19b7dc4e2c2e93b8c6b54ffbc63">você</italic> apresenta um percentual de 76%, em significativa polarização com o valor marcado – 33%. Esse <italic id="italic-7b66cd75376a733e4e6b7a80022e8d8f">você</italic> marcado é observado nas cartas de Rui Barbosa a amigos. No conjunto das cartas de Rui Barbosa, dois fatos chamaram a nossa atenção: a) em cartas ao amigo Victor Esmeraldo, datadas entre 1882 a 1890, usa o tratamento de <italic id="italic-c3dc999ca90eda1e9c92a574615251bd">tu,</italic> mas numa carta de 1894 ao mesmo destinatário, é usado o tratamento de <italic id="italic-10">você,</italic> escrito por extenso; b) em uma carta de 1890 a um velho amigo da família,<xref id="xref-78a8683a57c0d69a5f7a2e352f0511f7" ref-type="fn" rid="footnote-2948ae4e9c2177b547a70d467647e677">4</xref> Rui mistura o tratamento de <italic id="italic-11">tu</italic> com uma forma verbal e pronome possessivo de terceira pessoa, indicando o tratamento de <italic id="italic-12">você.</italic> Isso significa que o “novo” pronome já invade o terreno de <italic id="italic-13">tu</italic>.</p>
        <p id="paragraph-59c517f60642846dc61bc863e348fa76">.</p>
        <p id="paragraph-c69be62a7b4bd651b6fd013bfb7b7e26">(6) a. Faço questão de que venhas para esta tua casa, seja como for. (Carta de Rui a Victor, 1888)</p>
        <p id="paragraph-44ca88f927ab13dd89dbb1b10cbfea12">b. Entretanto, para que você não tome à má parte as minhas palavras, supondo que me quero furtar à sua amizade, ...</p>
        <p id="paragraph-5e8a42eedff260e228e157c186de29ad">(Carta de Rui a Victor, 1894)</p>
        <p id="paragraph-71970365f6deac786c2c6084d0a07f31">(7) a. Podes acreditar que literalmente não disponho de cinco minutos por dia...</p>
        <p id="paragraph-8">(Carta de Rui a Olímpio Chaves, 1890)</p>
        <p id="paragraph-8a48bb74bc1593223c09d24138d394b9">b. E creia-me seu verdadeiro amigo. (Idem)</p>
        <p id="paragraph-ac58d2b796a9cb176b2bcd65aba10ebc">.</p>
        <p id="paragraph-107c70bbf25d5d2137a34ef23d816b60">Quanto aos grupos de fatores tópico do discurso e autoridade relativa, a tabela 1 acima nos mostra os seguintes resultados: a) nesse período, o uso de <italic id="italic-215cedb5bc4aa3ee6cffcf6bfd1ea739">você</italic> é mais freqüente quando se trata de assuntos não-íntimos (65%). Uma evidência disso encontra-se no texto de Xavier Marques (1888). Uma personagem, que costumeiramente trata a sua mulher de <italic id="italic-aac747d7768c331bea2abed3ba682ca6">você</italic>, trata-a de<italic id="italic-76ba0b632bccede065cd9b01476db823"> tu </italic>num momento de intimidade:</p>
        <p id="paragraph-aa7674b1d912142528c7b599f8da6e6a">.</p>
        <p id="paragraph-697dc141b296c78f5915160cb9217c94">(8) Então, não gostas que te acarinhe? (p. 52)</p>
        <p id="paragraph-1b907f19c4d888ecd824e187f406b97a">.</p>
        <p id="paragraph-658de30231cecceb8cbd3bc54b6c9443">Em relação ao fator autoridade relativa, os resultados mostram que <italic id="italic-ce3e51e2fd3806f1a4018ee260474a23">você </italic>é o tratamento mais freqüente entre pessoas com poderes iguais<italic id="italic-f60f480efc4954f00673f3cf9212c493"> </italic>(62%). Nota-se, entretanto, o uso variável desse pronome nas relações assimétricas em que prevalece a autoridade, como é o caso de pais dirigindo-se a filhos. Isso significa que, na língua vernácula, <italic id="italic-f887e6e2afbe5f574897291c32bb8258">você</italic> já adquiriu o mesmo valor de <italic id="italic-64e424d3cf2317404413d6a250e88f56">tu.</italic> Os enunciados em (9) e (10) a seguir ilustram essa variação.</p>
        <p id="paragraph-831e1caf3889db1833960179803a9547">.</p>
        <p id="paragraph-7a48b2d600a49b26bca89972da748d8e">(9) Veja se temos das costumadas. Olhe que não estamos sozinhos. (XAVIER MARQUES, 1888, p. 111)</p>
        <p id="paragraph-ba4f76c295520bd5ad876b92d548a6e5">(10) Não me faças cahir essa cara no chão. (Idem, p. 175)</p>
        <p id="paragraph-3a0aa3aeb1a9bc502ad1da35bebfbaee">.</p>
        <p id="paragraph-0a60cf2f9660b0c19b1a090790c8b819">No texto de 1897, do mesmo autor, já não existe essa variação; filhos e genros são tratados categoricamente de você. No exemplo (11), a seguir, assim se dirige a sogra ao genro:</p>
        <p id="paragraph-6bf780d5b1dc3e57e4809bf746cae4fc">.</p>
        <p id="paragraph-7505c12adf12c9940638eeba0fc6f50d">(11) Você tem bastante juízo e sabe o que são negócios. (p. 111)</p>
        <p id="paragraph-86412958fca647bc86950599e48b13c9">.</p>
        <p id="paragraph-a0e8e9c5139e844ba7235526f8e52354">Finalmente, cruzamos também o grupo de fatores classe social com o grupo valor de <italic id="italic-fc8d9ebfcaddea9cd7f359a2d75367b5">você.</italic> O resultado já era esperado. Somente a classe alta mantém o <italic id="italic-388a07d38e1e2b3eb204fdd8d4e36c8f">você</italic> marcado, a classe média e a classe baixa urbana e rural não o usam absolutamente. A tabela 3, a seguir, mostra os resultados.</p>
        <table-wrap id="table-figure-e4742d752f3fcf997e3d7e35c275ac72">
          <label>Table 3</label>
          <caption>
            <title>TABELA 3</title>
            <p id="paragraph-5c6f67855ec823784830b815b7d21dcf">Cruzamento das variáveis valor de <italic id="italic-069f7a410aae7f71c82c97f68abec38b">você</italic> e classe social: percentagem de uso de <italic id="italic-e8e6c4fac9f5dc8776831765a3daec85">você.</italic></p>
          </caption>
          <table id="table-ec86460271bcf437cf22a854dfe6e1b2">
            <tbody>
              <tr id="table-row-6027a4671439798a3b3e42337037afe3">
                <td id="table-cell-6268c56f82d8fc9bb9bf601834e3237d" rowspan="2">Classe Social</td>
                <td id="table-cell-bdfe29f66799cbccd76a5bf3a8670ba3">Alta</td>
                <td id="table-cell-7dcd43f8e1b8814348a410b1b5e81d53">Média</td>
                <td id="table-cell-1d75bd492e2d496226a922aded22cb5b">Baixa</td>
                <td id="table-cell-7753eb2c0d7e618a1411aa004e1a8721">Total</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-c2a422526a9d9916f144b5d549877e6e">
                <td id="table-cell-ec99fa2d7b2ed1f00f7109adcc38c8a5">Nº / %</td>
                <td id="table-cell-d5935acae356543d8bbc21709f3489a3">Nº / %</td>
                <td id="table-cell-50510b88d7028b7a73a408c431ecd9af">Nº / %</td>
                <td id="table-cell-ca4c8dc609a5a34d8c7af5c79560170d">Nº / %</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-adc0146cbf33b2c729bfffac8bfdf17b">
                <td id="table-cell-27315cc33537ca66a1b06bc318b33259">Valor de <italic id="italic-de76dc5a693b9a445615c86e0e4e2a02">você</italic></td>
                <td id="table-cell-b7fdb841da01a1585322122b4dcfdd01" />
                <td id="table-cell-af0453175cdc761d41c728b4fd6691b0" />
                <td id="table-cell-4b167273024a7278f5072b673feb3a3f" />
                <td id="table-cell-1d9b918f552d8fab8bc1be674b1983ed" />
              </tr>
              <tr id="table-row-67c8f6c80039b572fd9d50aa68e41461">
                <td id="table-cell-06a7bf60f0367b7e95b48ceb3828a91b">Marcado</td>
                <td id="table-cell-4dc08367459bd0c061b5dccffa92aa93">10/50</td>
                <td id="table-cell-86f2fa11b4befc1f2451b68b4d638e15">-</td>
                <td id="table-cell-ed3248c0e2b5ae7f7a8743d168016fad">-</td>
                <td id="table-cell-e423f592f53492b078c437b225cf1e45">10/13</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-9cfa76dd2c7de885c3a9f0ee73c34341">
                <td id="table-cell-18f745ce9f61458becfc33a5fcf81c36">Não-marcado</td>
                <td id="table-cell-8d2cd12a6af9f72f2e5924bb72e18a11">30/53</td>
                <td id="table-cell-55bdd724534f37b8e7bf2e301fdd4a90">30/97</td>
                <td id="table-cell-8018ed01925400daf07e8c0625e400a8">30/100</td>
                <td id="table-cell-e192f91d3a8063ad66b2f5d3ab3f9ce5">90/87</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-0209f2ba8f97650cac6e4263c3d73028">
                <td id="table-cell-017aa8ca43b49c79f95f421052247431">Total</td>
                <td id="table-cell-d7c7a64db1915c8537f5bc661a0f96af">40/52</td>
                <td id="table-cell-c965437dbcaf4e969916e7c64bf6fa1e">30/100</td>
                <td id="table-cell-7e8f13f2a911b520cd500a705e5d6d85">30/97</td>
                <td id="table-cell-cd8e52fabf3b7f2909e23a30b584a737">100/65</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-34cfa22fc58b5b4913f061ddaeada639">.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-f4164f0c3f16fdf0f1424c0574ef5856">
        <title>4 Considerações finais</title>
        <p id="paragraph-0bf5adf581d9892f366bced0973778ba">No <italic id="italic-c22b30c5473dccc81e6a1edf44fab765">corpus</italic> analisado, o número total de ocorrências do pronome <italic id="italic-7263413bdcb4c64c26c596f5eb2ad2e9">você</italic> já ultrapassa (61%) o de <italic id="italic-b31f0fba54dd7f77c09d25c5271e8677">tu</italic> (39%)<italic id="italic-c9aa8ed0369f4373ba6b2e968cd9dc91">.</italic> Na variante popular, essa já é uma forma categórica. Na variante culta, <italic id="italic-0a37267f614e0a9076a891cd477c8dc2">voc</italic>ê ocorre mais freqüentemente entre iguais, como um tratamento amistoso como era usado na mesma época em terras portuguesas. No entanto, no período estudado, já se observa o uso de <italic id="italic-18316d2f196e417194dc92e703579e93">você</italic> como pronome íntimo nas classes sociais média e alta. Essas constatações comprovam a hipótese de Galves (1993)<xref id="xref-797220853772d11282fbfdcaaf2d8113" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-8bdea8cb69920e02a86d951df0643ceb">[2]</xref>, segundo a qual a mudança <italic id="italic-a85997c54a14aba08077e8aeba9cebfc">tu</italic> → <italic id="italic-0b7de62a165a0997e25a090b39e3297d">você</italic> teria iniciado em certas camadas e se expandido paulatinamente.</p>
        <p id="paragraph-e55e254eb7fe33afe0b5142b42bc9a3a">Em Teixeira (2002)<xref id="xref-90fe0767fa156d83141a915ac89e86c0" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-3688b3e3b84ff999bc56e3afaf68be5a">[9]</xref>, propomos que o <italic id="italic-d0b7245df8357aece8689dd8b9e6dcaa">você</italic> europeu usado pelas classes letradas e o <italic id="italic-e1f4433b56bf1bbba44e019f948823d9">você</italic> da norma popular tenham confluído num só <italic id="italic-bda197ff855842e522eff5f7defcb7e9">você</italic> já no início do século XX.</p>
        <p id="paragraph-1712b0cc73dc74b9b3f3ce0394645408">Ressalte-se aqui a pertinência da investigação da dimensão social da variação lingüística no registro histórico da língua. Labov (1994, p. 11)<xref id="xref-4e2ed78abca979a25d42abea367d3f47" ref-type="bibr" rid="book-ref-f1591daecf63750adb4310a67d9486a0">[10]</xref> chama a atenção para as dificuldades de tal investigação, observando que as formas lingüísticas em documentos históricos nunca refletem o vernáculo e que “pouco se sabe sobre a posição social dos escritores e não muito mais sobre a estrutura social da comunidade”. Seguindo os ensinamentos de Romaine (1982)<xref id="xref-6796df4214f9077f55d3946eb83db366" ref-type="bibr" rid="book-ref-63573903c2eb0eae5283146a21e90bce">[3]</xref> e a nossa intuição, perseguimos o nosso objetivo, constituindo um <italic id="italic-c3e8750567cb098c2cffdd0cc27411a4">corpus</italic> que reúne gêneros textuais diversos, buscando, ao mesmo tempo, identificar os autores dos textos e conhecer a estrutura da sociedade e os valores sociais reinantes à época.</p>
        <p id="paragraph-fffa4c0dbfecf261963009c9f7d67b47">Em vista da impossibilidade de acessar registros escritos da classe social baixa, por serem seus representantes, na sua grande maioria, analfabetos, tivemos a preocupação de selecionar textos que retratassem a “língua do povo”, mesmo que fossem meras representações, como o são os textos teatrais e os diálogos do jornal <italic id="italic-048fa4b6ea38716d763538b95f1e19e0">Fôia do Rocêro</italic>. A busca, reconhecemos, foi árdua, mas valeu a pena.</p>
      </sec>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-91062bfd1844a3f251b78de2e9b87b33">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-a4d5b8a3eb58b72bdc86004a1136cfad">1 T e V são símbolos tomados do latim Tu e Vos, utilizados por Brown &amp; Gilman (1960)<xref id="xref-70961949e0b0297217094d5b289322d5" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-dd432900f980b08cc840aed6282e005d">[7]</xref> para representar os pronomes de intimidade e de polidez, respectivamente, em qualquer língua. No português atual do Brasil, T representa <italic id="italic-9c7382d48278677a2aa32a56a5aaeaf2">você</italic> e V, <italic id="italic-2">senhor.</italic></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-8cee02743abedd57968595f9c694c425">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-81e2afb42764a9bfcc1ecd3b83ec08c1">2 Segundo Miguel (2003)<xref id="xref-a455b6ccb153bc4827a94e5d0b244aac" ref-type="bibr" rid="book-ref-917b887ee72862a9c6184523e21b19b9">[11]</xref>, no português de Luanda, o pronome <italic id="italic-f1b8c5da7e7d955adf1facda3716a9fa">você</italic> é usado em variação com <italic id="italic-0088e0630756cc8b96287f0a8925f1e3">tu</italic> tanto na variedade popular, em que é muito comum utilizá-lo com a forma verbal correspondente à segunda pessoa direta, como também pelos falantes escolarizados, com a flexão de terceira pessoa, mas misturando os pronomes num mesmo enunciado tal como costumamos fazer aqui no Brasil.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e19fa3b3467feefac607f56173d039c3">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-d075290e2bd2d25b71a9bff9c7bc0e44">3 Cf. Santos Luz, 1956, p. 271 <xref id="xref-e6ffd93d34fcca590d5c04a12f59d5a7" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-0d9d5ef638181e20b89756a1bd303990">[12]</xref></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-2948ae4e9c2177b547a70d467647e677">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-a844d4253b37c619f4c4318f7ccdc756">4 Homero Pires anota que Victor Esmeraldo e Olímpio Chaves eram “amigos devotados” de Rui Barbosa e sua família.</p>
      </fn>
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