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        <article-title>FALA E ESCRITA: </article-title>
        <subtitle>CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES SOBRE DADOS DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL</subtitle>
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            <given-names>Cátia de Azevedo </given-names>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="22/05/2017" />
      <volume>6</volume>
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      <issue-title>FALA E ESCRITA: CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES SOBRE DADOS DA EDUCAÇÃO INFANTIL E DO ENSINO FUNDAMENTAL</issue-title>
      <fpage>235</fpage>
      <lpage>252</lpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-16775dbe3d688c4eddf65b6da2b017cd">Neste artigo apresentar-se-ão dados de fala de um estudo longitudinal, iniciado em junho de 2004, com crianças cuja idade inicial era 2 anos. Será explicitado também o andamento de coletas de fala e de produções textuais de crianças de 6 a 10 anos, realizadas de julho a novembro de 2005.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-94f8d08f0114a8f524d598dd532e26c1">
          <italic id="italic-1">This paper presents the speech data from a longitudinal study involving children from two years old on, initiated in June 2004. A follow-up report on a collection of speeches and text productions of six to ten-year-old children, which took place from July to November, 2005, will be shown.</italic>
        </p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-961cc2eccbaebfdb020bd777632a9a76">linguagem</italic>
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          <italic id="italic-5bddd29aaaaac1f9ab25ce107097d22a">fala</italic>
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          <italic id="italic-120d0dc06481e029024f508855994962">escrita</italic>
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          <italic id="italic-9e44d785aeaa5f1ec2a94f8f276f6ba4">ensino</italic>
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    <sec id="heading-b65c2f677fe4f7fcdfa188bb077795c9">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-bf4c7dcdc30ecb6d5f2d2cf38c47155f">A aquisição da linguagem é, sem dúvida, um dos mais férteis campos de estudo da Lingüística. Investigar como se constrói a relação que o falante estabelece com a sua língua é um desafio estimulante e, ao mesmo tempo, inquietante devido à investigação de como a criança se vale de estratégias para dominar a linguagem. Nesse contexto, tem-se como objetivo aprimorar e detalhar estudos a respeito da aquisição de fala e de escrita. Entende-se que ambas as modalidades de aquisição são como processos que pressupõem etapas de construção de conhecimento e podem apresentar características comuns. Assim, a necessidade de se averiguar a produção de palavras no momento de aquisição da fala concomitantemente ao de escrita faz-se imprescindível para verificar como se dá ou não a relação entre ambas as modalidades. Por este motivo, em 2004, deu-se início ao estudo <italic id="italic-fd84b8bd9c97a5c5f9523d498158a243">Produção de vogais e de consoantes por crianças de 2 a 10</italic> <italic id="italic-1d2566ba4bce19fa7c70c10415697792">anos: evidências de fala e de escrita</italic>. Esta investigação partiu de considerações<italic id="italic-3"> </italic>sobre pesquisas voltadas a textos escritos de crianças de 1ª a 4ª séries do ensino fundamental (Varella, 1993;<xref id="xref-39d2bd6e0f0de202f9cba0bb6e4cc9b0" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-3ededdf8cd535abaa14cc2e1ba115380">[1]</xref> Fronza, 2000, 2003a, 2003b;<xref id="xref-c1f21ad897b8a117fb836717c65e50d4" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-6a9a85e001497ec936654d0450454362 chapter-ref-0624a2fa2e9735d1ef743d3328f22cc7 conference-paper-ref-f68a9f7a358ac85060f36b8bc74ed0c9">[2-4]</xref> Fronza e Geremias, 2002;<xref id="xref-082d6b2acc7a859f302b3f5d89b79b5b" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-17fe540730c13c6accc05c6c03e74700">[5]</xref> Fronza e Varella, 2003a, 2003b)<xref id="xref-5ca65dc5bc0d30a9d638dc5ca7d2f7f0" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-d57bb6ce31745a4427ec022798e38a84 journal-article-ref-f8632d6f369ad9eaa04c30b73c4ae292">[6,7]</xref>, em que se verificaram ocorrências de palavras muito semelhantes às faladas por crianças de 2 a 4 anos, no uso de encontros consonantais, como em a<bold id="bold-1">br</bold>aço→a<bold id="bold-2">b</bold>aso, <bold id="bold-3">pr</bold>esentes→<bold id="bold-4">p</bold>esentes,<bold id="bold-5"> fl</bold>orzinha→<bold id="bold-6">f</bold>orsinha. Exemplos de escrita como esses<bold id="bold-7"> </bold>motivaram o estudo em que estão sendo analisadas amostras longitudinais de fala de crianças de 2;0 a 3;7, cuja idade corresponde à faixa etária em que a maior parte de processos fonológicos operam (Ingram, 1989)<xref id="xref-00f5fc17a196db3a56556012045f9696" ref-type="bibr" rid="book-ref-5cef1bf7119b3c008c2e58abf5af63ff">[8]</xref>, acompanhado de um estudo transversal que se voltará à fala e/ou escrita de crianças de 3;8 a 10;0, para verificar como evolui a produção de vogais e consoantes e se os mesmos aspectos fonético-fonológicos presentes na fala dos informantes de 2;0 a 3;7 ocorrem na escrita dos sujeitos mais velhos. Neste artigo destacam-se, então, procedimentos metodológicos da pesquisa e resultados preliminares.</p>
      <p id="paragraph-4"> .</p>
      <sec id="heading-da9487772ecb951342f71564f1857b7b">
        <title>1. O contexto da pesquisa</title>
        <sec id="heading-cfafbe1ec57d9fda735cb2a4947c2aa6">
          <title>1.1 Estudo longitudinal</title>
          <p id="paragraph-9">O estudo longitudinal iniciou em 2004, quando foram identificados os informantes que atendiam aos seguintes critérios: ter 2 anos de idade, pertencer ao nível sócio-econômico cultural de classe média, ser falante monolíngüe do português e não ter limitações físicas ou cognitivas com influência sobre a produção de fala. As crianças foram observadas durante atividades realizadas nas suas escolas, com o intuito de avaliar sua produção lingüística, verificando como usavam a língua em situações cotidianas. A partir disso foi possível planejar as coletas e elaborar o instrumento que seria utilizado. Optou-se por estimular a nomeação espontânea através de brinquedos, jogos, livros infantis, cujos nomes remetem a estruturas significativas do ponto de vista fonético-fonológico. </p>
          <p id="paragraph-67df1c944e3ae7d2ab8e99aee3b4773b">As coletas, que tiveram início em junho de 2004, são realizadas a cada três semanas e têm, aproximadamente, 20 minutos de duração. Durante esse tempo, o informante é estimulado a falar, através de questionamentos feitos pelas pesquisadoras, em momentos de brincadeira e interação. A pesquisa conta com 12 informantes. As coletas são gravadas digitalmente através de aparelho de Mini Disc<xref id="xref-b3e340c090645828eebdccf58ed402d6" ref-type="fn" rid="footnote-14ca84b0f51b9dc4f8dd00ce686519de">1</xref>. Depois de gravadas, inicia-se a transferência para o formato <italic id="italic-5997ca72536bfaea9142c434f4dea5c3">wave,</italic> a fim de que se possa lidar com esses dados no software de análise Multi-Speech. Depois das edições, as coletas e os dados selecionados são salvos em arquivos de CD-ROM. </p>
          <p id="paragraph-ff80b3c987b84a7ec31e657c4aa787b5">Inicialmente, estão sendo consideradas para análise as produções nas quais deveriam ser realizados onsets complexos, a seqüência CC [pR] da primeira sílaba, como na palavra [<bold id="bold-85478188e612aa0aff5539181b4cd6b9">p</bold>Ratu]. Mais dados serão discutidos na seção 2.</p>
          <p id="paragraph-c36bf7ca7c340df0ed03bc402b70d897">.</p>
        </sec>
        <sec id="heading-f7d85c33f5d90050edbcfee2cbebd171">
          <title>1.2 Estudo transversal</title>
          <p id="paragraph-a4f933a41a1fc0ab36bcd0b3014fe020">Para o estudo transversal foram identificados, em escolas da rede privada que atendem a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, 57 informantes que estavam na faixa etária entre 3;8 e 10;0. </p>
          <p id="paragraph-acf156808ac8a22b6c8aea3a8cbbcbfe">As coletas de escrita foram iniciadas em julho de 2005, nas dependências das escolas, e concluídas em novembro de 2005, totalizando 4 produções. Nessas atividades, junto com sua turma, o informante escrevia, em sala de aula, uma narrativa espontânea, cuja produção era estimulada pela professora titular da turma. A(s) pesquisadora(s) presenciava(m) a situação de produção do texto. Assim que concluía e revisava sua produção, a criança era convidada a ir a uma outra sala, onde conversava sobre a história que escrevera, lia seu texto e contava outra(s) história(s). Os livros “A menina e o dragão”, “Catarina e Josefina”, “Ritinha Bonitinha”, de Furnari (1990)<xref id="xref-fc66b43536b831e228af4b029211992b" ref-type="bibr" rid="book-ref-68e39d0f38bd39e6c0bc257be7028028 book-ref-58a7c7a656170be5463d0bbf3b585b4a book-ref-3507b122505ae396a1861823f136ca11">[9-11]</xref>, e “Truks” (Furnari, 1992)<xref id="xref-c133917eb6e84f73e89d6d8b4b2ded56" ref-type="bibr" rid="book-ref-46ed4f92b6a74ef7d0ed0f227853dc57">[12]</xref>, considerados em ordem crescente de complexidade narrativa, foram os motivadores na 1ª, na 2ª, na 3ª e na 4ª coletas, respectivamente. A criança recebia o livro, folheava-o para conhecer as gravuras e organizar sua narrativa e, depois, fazia a sua versão oral, espontaneamente, ainda manuseando o livro. Essa conversa fora da sala de aula foi gravada em Mini Disc para análise, como é feito com as produções das crianças em fase de aquisição de fala: as gravações são editadas em um laboratório específico para que as falas da criança sejam selecionadas e salvas em arquivos adequados. Assim como o que vem sendo feito nas coletas de fala, estarão em CD as entrevistas e as respectivas edições com as produções das crianças. </p>
          <p id="paragraph-df99539481d01993665c8231194a6f48">Na escola SJ, considerando as 4 coletas, há 74 textos produzidos da 1ª à 4ª série. Quanto às produções de fala, há 116 gravações, lembrando que se inserem as falas das crianças da Educação Infantil, mas não os textos, uma vez que ainda não os produzem. Na outra escola, SD, contabilizando as 4 coletas, têm-se 60 textos produzidos por alunos da 2ª e da 3ª séries e 100 gravações de fala, incluindo as crianças da Educação Infantil. É necessário dizer que os dados de escrita oriundos das produções textuais da 1ª à 4ª série, além de serem comparados com as ocorrências de fala de todos os informantes, serão considerados a partir da proposta de Fronza (2004a, 2004b)<xref id="xref-e1f08f55bbedd87ec9682a5f310e8108" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-51cce4fec9fce380235007bc28771aaf conference-paper-ref-7e87517d474561e0531f174aa79ebc35">[13,14]</xref>, que destaca as ocorrências de Modificação na Estrutura Segmental (Fala/Escrita) e de Modificação na Estrutura Seqüencial (Fala/Escrita). </p>
          <p id="paragraph-67eeb25e7a877d95965bb4554ab15c55">Tais produções estão em fase de levantamento. Serão analisados de acordo com as alterações em relação às convenções de escrita, os grafemas que representam o segmento ou seqüência de segmentos, considerando o tipo de segmento/seqüência, posição na estrutura da sílaba e da palavra, como critérios lingüísticos. Nos critérios não lingüísticos, incluem-se, inicialmente, idade dos informantes, número da coleta e sexo.</p>
          <p id="paragraph-a718cc56491a2291049244e67ecd0182">Os usos evidenciados pelas crianças na fala e/ou escrita serão comparados a fim de também verificar quais estratégias cognitivas são utilizadas e em que medida elas revelam “um modo de operação caracteristicamente lingüístico”, conforme Corrêa et. al. (2003, p. 48)<xref id="xref-8735e9dffce09bbf963b65715d8c60c7" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-32d58cd108a5123a0216054d6cdb6c43">[15]</xref>. Devido ao andamento da pesquisa, não é possível apresentar neste artigo mais dados. </p>
          <p id="paragraph-9b24f62aef876e6f548a100e0d556856">Para poder entender melhor o objetivo do estudo evidenciado aqui, no quadro 1 apresentam-se exemplos de palavras com alterações relacionadas aos encontros consonantais (cf. Fronza 2005)<xref id="xref-18f627ff4be2307ccc79be000acd7eaf" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-483c55465e3ed0fa277feb61f4e0a2eb">[16]</xref>, verificados nos textos de alguns alunos, de acordo com séries e escolas. Percebe-se a ocorrência de apagamento da consoante líquida, mudança de posição de algumas letras no contexto da palavra (metátese), entre outros casos. É interessante observar que há apenas um registro de não realização de consoante plosiva (grande → rãnde). Tal ocorrência também é rara na fala. Apesar de não representarem o maior número de alterações nos textos das crianças, o que se verifica nessas produções, nas quais deveriam aparecer onsets complexos, remete a dados bem característicos de aquisição de fala. </p>
          <fig id="figure-panel-6d2071ec97b88f2a92610cf88fb6013d">
            <label>Figure 1</label>
            <caption>
              <title>Quadro 1 – Exemplos de alterações envolvendo onsets complexos</title>
              <p id="paragraph-8ef41c07508062811f479ee68a3798f8" />
            </caption>
            <graphic id="graphic-67ddb3cc611d8a02d5372dcdcb81140a" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-02-09_12-42-55.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-5b77f40b5094c8b54bb873a937d26c77"> Os dados estão organizados a partir do que os informantes da 1ª à 4ª série, em 3 escolas, manifestaram. Como pode ser visto, os textos dos alunos da escola SJ foram os que mais alterações mostraram. Isso não significa dizer que esses alunos têm mais dificuldades que outros. Precisam ser considerados fatores como tipo de texto e freqüência de palavras. Uma observação inicial poderia indicar que esses dados registram meras trocas de posição das letras. Como destaca Abaurre (1999: p.176)<xref id="xref-cecc653c32a9ae26d3c6139e9ccd7c28" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-576ca7f410a905cdde7dfc422e9b15ba">[17]</xref>, são exemplos “absolutamente normais, representativos da complexa relação existente entre as estruturas da oralidade e aquelas da escrita”. O professor deve refletir a respeito dessas ocorrências, não simplesmente ignorá-las ou acentuar tais casos como “erros” de escrita, que mostram que os alunos “não sabem escrever”. Para isso, o professor precisa estar consciente das relações que se estabelecem na escrita de seus alunos. Este estudo pretende dar subsídios que possibilitem tal entendimento. </p>
          <p id="paragraph-8b1893463d7752a177486214c816ffcf">As ocorrências apresentadas no quadro 1 surgiram nos textos dos alunos, apesar de eles não apresentarem casos de substituição, reorganizações, não realizações e inserções desse tipo em sua fala: a idade mínima das crianças era 6 anos. Então, tais produções motivaram o estudo voltado à fala e/ou escrita de crianças de 3;8 a 10;0 (mencionado na seção 1.1), que tem como meta verificar como evolui a produção de vogais e consoantes, se os mesmos aspectos fonético-fonológicos presentes na fala dos informantes de 2;0 a 3;7 ocorrem na escrita desses sujeitos mais velhos e, ainda, observar e explicitar como estes falam e escrevem. </p>
          <p id="paragraph-c8766d5527e4ac281d302b1d8e245a59">Apresentam-se, na seção 2, reflexões sobre a uma parte dos dados de fala já coletados. </p>
          <p id="paragraph-d07b44ad9290f54d99da6eb2484d1231">.</p>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="heading-7504aee16d2145d02b1d57dd9d90941f">
        <title>2. Dados preliminares sobre a aquisição da fala </title>
        <p id="paragraph-1a2c9858ea95e0a45635534310e18025">Em razão das ocorrências de alterações de escrita, como as que estão no quadro 1, optou-se por considerar, inicialmente, as palavras que apresentaram consoantes em posição de <italic id="italic-e1bcbfb0e153f3e45ee935dd1f02786b">onset</italic>, numa estrutura <bold id="bold-022cc77c7c33ef2a77b10dfa9d387553">C</bold><bold id="bold-012e5647b326753fc5ade922b54da913"><sub id="subscript-1">1</sub></bold><bold id="bold-e2fc34e8e7036899a877b51db2862a5c">C</bold><sub id="subscript-2">2</sub>V (<bold id="bold-0e67a207db7510de0f0333cd73ad03f0">Consoante 1+Consoante 2</bold>+vogal), a qual, conforme Ribas (2004)<xref id="xref-784e3bc71dd40b491ea7be8d4ec95640" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-784e64b2bc6916c615c469f8880e645c">[18]</xref>, é a que possui mais complexidade e é a última a ser adquirida em português. Retoma-se o estudo de Gomes (2005)<xref id="xref-f1cdd6cd91d938a5405b398758e7bb8d" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-6fc77f392b5aca825badaa3283be8537">[19]</xref>, que selecionou 4 crianças, das 12 que integram o estudo longitudinal: dois meninos e duas meninas. Nesta discussão, então, apresentam-se dados de 12 coletas para cada informante, totalizando aproximadamente 1.800 minutos de gravação e 452 possibilidades de produção. Com o objetivo de preservar a identidade dos informantes, foram-lhes atribuídos os seguintes códigos: “L”, “M”, “J” e “C”. Devido às limitações de espaço para este texto, destacam-se os dados a partir do primeiro uso de onsets complexos pelas crianças. Isso ocorreu com o informante L, aos 2;7, na coleta 7, de onde inicia a ilustração do gráfico 1. Como a estratégia de reparo mais utilizada pelos informantes foi a não-realização da consoante líquida, decidiu-se apresentar apenas esta alteração e as realizações da estrutura CCV. Verificaram-se outras estratégias, mas em quantidade inferior às que são indicadas no gráfico. É necessário definir “estratégia de reparo”, a qual, segundo Lamprecht (2004)<xref id="xref-1b1fbfecfc1e6974b93519d50a32c33f" ref-type="bibr" rid="book-ref-144574dd89b1336a5c126c10f55c65df">[20]</xref>, caracteriza as estratégias usadas pelas crianças com o objetivo de adequar a realização do sistema-alvo (língua falada pelos adultos em seu contexto social), aos seus sistemas fonológicos, que indicam o que elas realizam no lugar de segmento(s) e/ou de estrutura(s) silábica(s) que desconhecem ou ainda não dominam. </p>
        <fig id="figure-panel-837c9e093524435181f985a4800f7c24">
          <label>Figure 2</label>
          <caption>
            <title>Gráfico 1- Apagamentos C2 x Realizações (C7 a C12)</title>
            <p id="paragraph-f2789b95c300282ad73fab8bb5f638d7" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-a3bb4774239aab487e2ca1de3784f723" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-02-09_12-43-51.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-dd0d0a858de13024dc683e6a3811ab45">Conforme o gráfico, cada coluna (4 na cor mais clara e 4 na cor mais escura) indica um informante, na ordem L, M, J e C para cada cor. Esse gráfico mostra que a estratégia de apagamento da líquida, como nas realizações de cobra → [‘kçba], foi a mais adotada pelos informantes no contexto de onset complexo. As coletas 9, 7 e 8 são as que evidenciam mais casos. É importante ressaltar que o informante L continuou fazendo usos adequados nas coletas 9, 10 e 11, apesar de menos ocorrências em relação às outras crianças. Considera-se relevante dizer que essa criança sempre foi muito falante, com vocabulário rico.</p>
        <p id="paragraph-59bf7568b5ed28946dfee7703f41c525">O informante L também mostrou casos de alongamento da vogal, logo após o apagamento da consoante líquida, em palavras como gr<bold id="bold-404e8a949886bf3f78d56db934f054a7">a</bold>nde → [‘g´<bold id="bold-2c6191ab87c6217327ac5f3b60250903">:</bold><sup id="superscript-d8e43c5aad2b33917bb59248e1bc6743">n</sup>dZi] e quebrou → [ke’b<bold id="bold-3bf06747f59cef19944dc3e6dc7a6583">o:</bold>] (nas coletas 10 e 12), e de substituição de líquida, na posição de C<sub id="subscript-606b24447f21884ef3c5b889634501ff">2</sub> (coletas 9, 10, 11 e 12), como em <bold id="bold-13acb62b6330ccd2e564a81c0c4d7c6a">fl</bold>orzinha → [<bold id="bold-bd2eb8aa620d774dff54e3c7f49a16eb">fw</bold>o’ziNa] e i<bold id="bold-1cf571d61753f685d868257cf76f8a0c">gr</bold>eja → [i’<bold id="bold-711b46c1e792ca5b64a9e60f9446fb5b">gl</bold>eza], em que há uma semivocalização l →w e a substituição r →l, respectivamente.</p>
        <p id="paragraph-a953ae9bc6e24eec973c7c7953432fe0">O informante M (segunda coluna de cada grupo de cores) apresentou menos variações nos usos dos onsets. Nas coletas 10 e 11, a realização da estrutura <bold id="bold-a2d81b46f2c4ac6bb6d299387c2bec3d">CC</bold>V ocorreu em maior quantidade que os apagamentos. Na coleta 7, houve casos de apagamento da sílaba com onset complexo e a substituição da líquida.<xref id="xref-f4cd718d63ac55ed12ab2b7315efd3c6" ref-type="fn" rid="footnote-de86cd059e5bf0768b0837dc3f4ea1f6">2</xref> Esse informante produziu a estrutura pretendida somente na coleta 9, ocasião em que estava com a idade de 2;9. Entretanto, a freqüência com que a realizou nas coletas seguintes foi muito mais intensa do que o informante L. Esta criança sempre foi muito falante também.</p>
        <p id="paragraph-11">Os dados de J apresentam mais variações que os dos outros informantes. Na coleta 11, os apagamentos são seguidos pela realização do onset complexo; na coleta 12, pela realização e pela epêntese, como [‘kçb<bold id="bold-1c67a961df2fab39b64c9e6079cdb9de">a</bold>Ra], para a palavra <italic id="italic-939cb1b16ce49eb53c4da901a1d209e3">cobra</italic>; na coleta 3, por substituição de C<sub id="subscript-622c03bf63ca85b64c47cf916e3df28c">1</sub>, como na palavra a<bold id="bold-10">br</bold>e→ [‘a<bold id="bold-11">p</bold>i], em que há o apagamento da C<sub id="subscript-3">2</sub> e a substituição da plosiva sonora [b] pela surda [p]; substituição da líquida e assimilação, como no exemplo de bicicleta → [ba’tEta], que mostra a influência do /t/ postônico sobre o tônico /k/, transformando-o em [t]; as coletas 7 e 8 mostram apagamento do encontro consonantal; a coleta 2 apresenta substituição de líquida e assimilação; e a coleta 4, a substituição da C<sub id="subscript-12328fbcdd06d4706807d514ab81a0d7">1</sub>. A coleta 12 é a única em que as realizações superam os apagamentos, com alguns casos de epêntese.</p>
        <p id="paragraph-32177d781dd6cf8b2c9f0c5f7470d76a">J foi o único informante que sempre produziu onsets complexos desde a coleta 9, em que esta estrutura apareceu pela primeira vez. Somente na fala de J encontram-se casos de assimilação e epêntese. Esta ocorreu em uma situação bastante peculiar: na coleta 11, ao realizar essa estrutura pela primeira vez, [‘kçbRa[u1]], despertou a surpresa e o interesse da entrevistadora, que o estimulou a produzir a mesma palavra novamente; a criança, então, percebendo que havia conseguido realizar o onset complexo, tentou pronunciá-la outra vez, mas realizou a epêntese [‘kçbRa[u2]], transformando uma palavra dissílaba em trissílaba. Devido ao interesse nesse fenômeno, a entrevistadora estimulou o informante a produzir a palavra mais uma vez, e, a exemplo do caso anterior, a criança usou outra estratégia de reparo: o apagamento da consoante líquida, [‘kçba]. Isso pode indicar o quanto a criança vai percebendo e lidando com o sistema da língua.</p>
        <p id="paragraph-c53aeb52616d833ccba60629b16a7d98">O informante C, conforme observado no gráfico, realizou o onset complexo pela primeira e única vez durante a coleta 9, quando estava com 2;9. Sua estratégia de reparo preferida é, como os outros 3, a não-realização da C<sub id="subscript-d1c3ba6d19a814b5162eb5ede28bb59c">2</sub>. Produções semelhantes aos demais informantes também ocorreram em pequena quantidade e em coletas anteriores à de número 9.</p>
        <p id="paragraph-54815a997edb89de9b1fe83f5098ad6d">Os dados discutidos referem-se ao que foi produzido nos contextos em que deveriam ocorrer onsets complexos, considerando a estratégia de reparo mais utilizada e as realizações da estrutura. Então, como indica o gráfico 1, a produção da estrutura CCV ocorreu, pela primeira vez, na seqüência: L, aos 2;7, &gt;&gt; M e C, aos 2;9, &gt;&gt; J, aos 2;11.</p>
        <p id="paragraph-44470bda1595d8b1f3c0ba4302f3636e">É importante dizer que, para esses dados, realizou-se uma experimentação das ferramentas disponibilizadas pelo VARBRUL (Pintzuk, 1988)<xref id="xref-2a78eb2ead109b3ad42750a55b71e4fe" ref-type="bibr" rid="book-ref-67535515860deb2ba6bfe3276b3963d7">[21]</xref>. O uso de tal programa possibilita um tratamento estatístico dos dados, também baseado em variáveis lingüísticas, que será aprimorado para o levantamento e para a análise dos dados deste estudo, dando-lhe maior confiabilidade quantitativa. Apresentam-se aqui alguns resultados das rodadas estatísticas, que serão retomadas assim que forem inseridos os dados dos outros informantes. Após as rodadas determinadas pelo programa, foram consideradas, na aplicação da regra variável (a produção do onset complexo) as seguintes variáveis estatisticamente relevantes: os diferentes Informantes (L, J, M e C); vozeamento C<sub id="subscript-399fe1f89971ac7af1f05b44e052e771">1</sub> ([+vozeado] e [-vozeado]); e o contexto precedente na produção do onset complexo, na posição de onset medial, destacando as vogais /i/ e /e/.</p>
        <p id="paragraph-b7ba2f637bfa6b96d1a1247d19fcce6e">Com relação ao peso relativo, que indica a relevância de cada fator das variáveis, lembramos que ele se refere a todas as 452 ocorrências. As tabelas 1, 2 e 3 apresentam informações sobre o peso relativo de acordo com cada fator para cada variável selecionada pelo programa.</p>
        <table-wrap id="table-figure-d61bd80a16042d35c2160003102b6347">
          <label>Table 1</label>
          <caption>
            <title>Tabela 1 – Informantes e produção de onset complexo</title>
            <p id="paragraph-e8d8a0bc088c06d6112c6a67cb199248" />
          </caption>
          <table id="table-e4a7a5667401ccf64bc293acc79b3978">
            <tbody>
              <tr id="table-row-9bd6bbddd6f037dc48344ff0bafead68">
                <th id="table-cell-0fed389ec592427c4994dfd8d21de80a">Informantes</th>
                <th id="table-cell-1592a23e6fa323f98ad4729fa9e3d637">Aplicação/Possib.</th>
                <th id="table-cell-70181ad0a12503e96799a5c63bbb0f52">% de aplicação</th>
                <th id="table-cell-b4df586e6c6a932880f1f8624e6443d8">P. R.</th>
              </tr>
              <tr id="table-row-b331c8cc98a5214f2618a9251b6a6ca7">
                <th id="table-cell-b171cb00d2ce3ed50fef9290893f0afe">L</th>
                <td id="table-cell-3350a377a017b9b3422dcf651d7e378d">6/110</td>
                <td id="table-cell-c5da39697a54516cbf949472671dfd60">5%</td>
                <td id="table-cell-773d3d0465ef53f15875707be74a5b7d">0.57</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-315fd2a814c36e8c4c29528116e58ba8">
                <th id="table-cell-a4e4e11d6c72665ee7eea1a6eb2476c5">J</th>
                <td id="table-cell-f3fa2fead819beadc1510bd9555b65c9">11/82</td>
                <td id="table-cell-26c0a5c74f7651b82bf27c85a1853017">13%</td>
                <td id="table-cell-d198ff38d4554c667633ba1757384d30">0.78</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-506a27c3b67b72428e80f86944dc8e18">
                <th id="table-cell-46a0f4f1ee90205945eebd9f11f6450a">M</th>
                <td id="table-cell-ad01b9c9f18f0b505ecf17d1bb1ecb0d">22/94</td>
                <td id="table-cell-1a4452322469338887b32273eb2375de">23%</td>
                <td id="table-cell-05cba9c55c9fae5518f8289a7b75de5f">0.88</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-79ea218766454c58709df0b94a4a4377">
                <th id="table-cell-1f3b08c9f1a7b749237693a2b713f653">C</th>
                <td id="table-cell-afa83112fedfcf07a5d3a4c8e0716b51">1/166</td>
                <td id="table-cell-c828cb54335c7660090a4ca9ec385649">1%</td>
                <td id="table-cell-0df82f58ab1be47efbf84afb6b6b886a">0.12</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-878a1533e95f4627c9ac060aba7513de">
                <th id="table-cell-de8c8c3c3fd43c63ba7ec17e112f544e">TOTAL</th>
                <td id="table-cell-c978beb48ce2d05aebb438819fb91eca">42/452</td>
                <td id="table-cell-94b3b5e06946372b780ae788e93d4246">9,3%</td>
                <td id="table-cell-078fac3a665d1c63652fc284d2ed3d9a" />
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-9127002895101fd523df1c62470ed804">A tabela 1 apresenta, na primeira coluna, cada um dos informantes. A segunda coluna representa o total de palavras produzidas com a seqüência CCV (aplicação da regra) em relação ao total de possibilidades para essa produção. Os valores percentuais indicam o percentual de aplicação conforme os dados de cada criança. Por fim, a última coluna indica o peso relativo referente aos valores de aplicação da regra por cada informante. Assim, de acordo com esses dados, percebe-se que o informante M foi o que mais vezes realizou o onset complexo conforme o modelo pretendido: o peso relativo, de 0.88, foi o mais alto dentre os demais informantes. O informante J, com peso relativo de 0.78, foi o que, depois de M, mais aplicou o onset complexo. O sujeito L, cujos dados remetem ao peso relativo de 0.57, aparece em seguida, enquanto C, cujo peso relativo foi de 0.12, foi o que menos realizou a estrutura complexa de acordo com o alvo. Observa-se que esses valores são diretamente proporcionais à aplicação da regra de realização do onset complexo, não se referindo à quantidade de ocorrências de palavras com essa estrutura silábica em sua forma alvo. Indicam que os dados do informante M favorecem mais o uso da estrutura CCV que os dos outros informantes, em ordem decrescente, J &gt; L &gt; C. Vale a pena chamar atenção aos dados numéricos da última linha, que correspondem à quantidade de vezes em que se verificou o uso de onsets complexos pelas crianças, chegando a um percentual de apenas 9,3% de produção. Percebe-se, então, pelo que indicam os dados, que ainda há muito a ser alcançado pelos informantes até o domínio da produção de onsets complexos. Oportunamente, esses dados serão comparados aos de outros informantes e ampliados, a fim de verificar o momento de aquisição da estrutura e de acompanhar o processo das outras crianças que também fazem parte do estudo cujo recorte foi feito para este artigo.</p>
        <p id="paragraph-bee900dd314446a0ef8d232ced5c8307">A tabela 2 ilustra o peso relativo das consoantes que apresentam o traço [+vozeado] ou [-vozeado] quando em posição de C<sub id="subscript-531b4c406da719e56567eec391d2dede">1</sub> no onset complexo, ou seja, consoantes vozeadas, como em [‘<bold id="bold-973fe3ea2cf5eda2ee502c4c2edebaba">b</bold>Rasu], e desvozeadas, como em [‘<bold id="bold-9b88de6ad4bb9f7303817a9b1b309714">p</bold>Ratu].</p>
        <table-wrap id="table-figure-c96ee19ad875156214819b8ad711415b">
          <label>Table 2</label>
          <caption>
            <title>Tabela 2 – Vozeamento da C<sub id="subscript-356b1067720cb0341e240068f2737848">1</sub></title>
            <p id="paragraph-ee279078b39478fc88d570f7681248d8" />
          </caption>
          <table id="table-4938bb0a67ed14cdfba4ede111945fe3">
            <tbody>
              <tr id="table-row-25ce354bef952f41eb1ed8982b218489">
                <td id="table-cell-f75e86e4411559061065e009fd0bb6e4">Vozeamento</td>
                <td id="table-cell-253dce37dd42f80f822279d8818705ba">Aplicação/Possib.</td>
                <td id="table-cell-812fb371c543be89463048a6d768fd48">% de aplicação</td>
                <td id="table-cell-57e806420cfa6a93f79116eb033afdf9">P. R.</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-45d155c8b4ba02c55ac96b5133abacf5">
                <td id="table-cell-e39294cb9b597c023bab957c5984c90e">[+vozeado]</td>
                <td id="table-cell-90f7f10892ceb66f98dd2597b18fd983">29/212</td>
                <td id="table-cell-631b76337c1294a08ec2de4789306045">14%</td>
                <td id="table-cell-fa4aebc33bccaf4e4d465d2137c3b96a">0.68</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-2c63d2f30b7c28472902e174933939ef">
                <td id="table-cell-355e08e7d228e5db30277004320bd25d">[-vozeado]</td>
                <td id="table-cell-ac71189fab9ffc122c8145b68edf51df">13/240</td>
                <td id="table-cell-03738fd14f63ee5381bf82e26fb33536">5%</td>
                <td id="table-cell-620706c3a31a55057bc482a6a830743b">0.34</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-3d15efea4b6509c69a4ac9515fe1f5ef">
                <td id="table-cell-222b1b4ebf7f9b58de48e5049a9fdb0d">TOTAL</td>
                <td id="table-cell-ad65362593da7991fbdc37cf6404d6c7">42/252</td>
                <td id="table-cell-7b82431d1dd53f8376db85ba81469b74">9,3%</td>
                <td id="table-cell-6795dc039f158554254425f2683d7455" />
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-5f9a4549e5caaa271d0ce46c2ebcb834">Percebe-se, então, que o fator mais relevante da variável <italic id="italic-2a66d5cfbc0ec321c6e299b98c1d9d43">vozeamento</italic> <italic id="italic-7405aea1bde1150dd805d1f87d3481e9">da C</italic><italic id="italic-042e4ff8b73828a763e9e46d7ee2583a"><sub id="subscript-2d052fd62917d5dc141e5a2d8c99248a">1</sub></italic>, ou seja, aquele mais favorável à aplicação da regra de realização do<italic id="italic-4"> </italic>onset complexo, corresponde ao traço [+voz], pois seu peso relativo foi de 0.68, enquanto o fator representado pelo traço [-voz] teve peso relativo de 0.34. Então, conforme os dados, as consoantes vozeadas levam a uma maior produção de onsets complexos que as desvozeadas. É importante lembrar que não está sendo considerada aqui a quantidade de ocorrências dessas consoantes nos dados, mas, para uma posterior análise, isso deve ser tomado como relevante, pois o fato de haver mais consoantes vozeadas em relação às desvozeadas pode influenciar a quantidade de produção.</p>
        <p id="paragraph-32287223599476c82734fa3a79ec93ad">A tabela 3 ilustra a terceira variável apontada pelo VARBRUL como relevante para a aplicação da regra de realização do onset complexo. Para que o programa pudesse analisar essa variável, foi preciso “amalgamar”, ou seja, unir outros fatores encontrados inicialmente em posição seguinte ao encontro <bold id="bold-d464612d0e078d6556eaa3fcd23ac676">CC</bold> a outro semelhante dentro dessa variável. Isso ocorreu porque alguns fatores apresentaram 100% de aplicação ou não da regra, não caracterizando, portanto, variabilidade e, conseqüentemente, não possuindo significância considerável para o estudo em questão. Essa evidência justifica a soma dos valores encontrados na 2ª coluna da tabela 3, em que se encontram as ocorrências de palavras contendo a estrutura <bold id="bold-c53a1c93e6a4317eb9f8bd2d5c3dcc8e">CCV </bold>como alvo, não se igualar ao total de possibilidades existentes (452).</p>
        <table-wrap id="table-figure-3ef03c571d634a4a54f019ca132e9c98">
          <label>Table 3</label>
          <caption>
            <title>Tabela 3 – Contexto Seguinte</title>
            <p id="paragraph-1025e63de3a9dd424cc43e7ee24e5664" />
          </caption>
          <table id="table-46777f8258a261afdad0d972e30027b7">
            <tbody>
              <tr id="table-row-55bd9e2df9ffcb0e6fb83d905a1a4358">
                <td id="table-cell-debc7ccbdf925986694e00f1e9d0e381">Contextos</td>
                <td id="table-cell-79649de37d640d3a0869738fd6f7e9cf">Aplicação/Poss.</td>
                <td id="table-cell-651b75cc6cf1ba4b3113d06441e9b139">% de aplicação</td>
                <td id="table-cell-03061e5acd9f621a52364f3771bc3b81">P. R.</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-5dafb1c1586f5494e067ad435f83ee9f">
                <td id="table-cell-56f7f7d00b654a77057759c341afb83c">/i/</td>
                <td id="table-cell-0673d9c4e46b081262b72c2652521659">5/143</td>
                <td id="table-cell-ab9cef64fe5a06e68c318df6d69da59d">3%</td>
                <td id="table-cell-88c4081da20b677c5d0ffa4f9d192100">0.35</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-042b55f93c9e8a4c349058ac973fc6c6">
                <td id="table-cell-f9cf9218bb7bb6feb8062e3ce59db152">/e/</td>
                <td id="table-cell-001adcc54bc4c3f20dfa1174965e9368">11/87</td>
                <td id="table-cell-03cffcfccee14ba1cdb008ce550ada29">13%</td>
                <td id="table-cell-756f32b1b18c5cafa2f5a8b976b390d3">0.73</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-930ecf8298e535d184cc60d733617ecd">
                <td id="table-cell-66d7f3f9a17d08d2d31d60e2f7b10ffb">TOTAL</td>
                <td id="table-cell-a16884c47344e24613700ebb1e0f84cf">16/230</td>
                <td id="table-cell-7e679edc6f25398aa859f0289ec428d9">6,96%</td>
                <td id="table-cell-2c71a11b013e38387cdbbc1a940cacbd" />
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-424ea93721861c1f81c1dea3f50dfa69"> Dadas essas explicações, percebe-se que o fator (na variável que corresponde ao contexto seguinte) mais relevante para a aplicação da regra de realização do onset complexo foi a vogal /e/, como em [‘tRevu], pois seu peso relativo foi de 0.73, enquanto a vogal /i/, nesse contexto, apresentou peso relativo de 0.35, como na palavra [‘pRimu]. No estudo de Ribas (2004)<xref id="xref-4d032520eb259f6b9c286cc3a767e16a" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-784e64b2bc6916c615c469f8880e645c">[18]</xref>, apenas a vogal /i/ coincidiu com esta análise. Essa autora identificou também as vogais /u/ e /a/, em posição seguinte ao onset complexo, como relevantes para a realização dessa estrutura silábica.</p>
        <p id="paragraph-f9b0d5c9421d5b8c01c2f11ebfc45eba">Assim, segundo a análise do VARBRUL, a estrutura mais favorável à realização do onset complexo deve apresentar como C<sub id="subscript-ca0aba4eeb9c6388f6238f207562b293">1</sub> uma consoante vozeada e ter como elemento seguinte ao encontro <bold id="bold-8ed272ea6c45df6291017fd01d38f81f">CC</bold> a vogal /e/, como nas seqüências /bRe/, /gRe/ e /dRe/.</p>
        <p id="paragraph-3ab6729b20fb3200f8c2fe8c6d7def1c">Como se vê, os percentuais informam as produções de acordo com as possibilidades de ocorrências, mas valor do peso relativo não equivale a esses valores, pois varia de acordo com a influência estatística de um fator sobre outro, conforme o que é definido pelo pesquisador e considerado pelo VARBRUL.</p>
        <p id="paragraph-7a20ecb71c2dce7a3dec889c70000899">Percebe-se que o programa utilizado para a realização desta análise oportuniza uma visão estatisticamente mais aprimorada que os dados percentuais, uma vez que, para chegar aos valores de peso relativo, analisa todas as possibilidades de ocorrência, de maneira isolada e também em relação aos outros fatores das outras variáveis. Seu uso justifica-se pelo fato de avaliar um grande número de dados, inter-relacionando-os, além de apontar as variáveis relevantes para a aplicação da regra em questão e indicar o peso relativo de cada fator, dentro de cada variável, sob diferentes níveis de análise.</p>
        <p id="paragraph-5232936952f12090368c33125bb101e4">Esses dados precisam ser retomados, e a análise, implementada, uma vez que os valores aqui apresentados são fruto de um contato bem inicial com o programa. Além disso, é importante lembrar que essas reflexões referem-se a 4 dos 12 informantes que integram a pesquisa. Esses resultados poderão mostrar alterações significativas quando forem comparados aos outros informantes.</p>
        <p id="paragraph-4faaf02e959370fa57b107f83aeb782d">Pretende-se, ainda, analisar os dados com base nos fundamentos da Teoria da Otimidade (Prince e Smolensky, 1993;<xref id="xref-7dc3b9d0dade627bb2f2dbf72d74a70f" ref-type="bibr" rid="book-ref-65ae89e90334bd35b0b9339c13225316">[22]</xref> McCarthy e Prince, 1993;<xref id="xref-06d52fa61d7c10ab8895889e2075eb8c" ref-type="bibr" rid="book-ref-ac95f0164c9bced0301256e2c7d23635">[23]</xref> Bernhardt e Stemberger, 1998;<xref id="xref-af8b1cafc231da22f2a8c13453997493" ref-type="bibr" rid="book-ref-0357a7f1c8ae252a3276e60e3e0712e7">[24]</xref> McCarthy 2002;<xref id="xref-6659850448df9e2107eaf52f027480bc" ref-type="bibr" rid="book-ref-f3909a9f8501031ea97de036b208d1cd">[25]</xref> Matzenauer e Bonilha, 2003)<xref id="xref-9efe96ac00545bb3d13ffb8ff5af1c4e" ref-type="bibr" rid="book-ref-ec478beda1bdf26c8aeff616d54b9bc6">[26]</xref>, pois acredita-se que tal arcabouço teórico tem muito a contribuir para o que se verifica na produção de onsets complexos dos informantes, e, quem sabe, em relação aos dados de escrita já coletados e aos que estão por vir.</p>
        <p id="paragraph-153ee69bb6f51b58f545f208ba22b901">.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-a11301bc4fdbfdbd485c3353644603a9">
        <title>3. Considerações Finais</title>
        <p id="paragraph-673639fc5b429dd0aca698a9060216e9">Nas coletas de fala das crianças, a observação mais importante a ser feita diz respeito ao avanço fonético/fonológico ao longo do tempo e a rapidez com que os informantes aprendem e manifestam seus conhecimentos lingüísticos. Pode-se perceber claramente, a cada coleta, o progresso das crianças em relação às estruturas complexas com que se deparam, mas que, rapidamente, não mais representam dificuldades para elas. O mesmo ocorre com as que estão em fase de aquisição de escrita. A cada coleta, percebe-se que elas aprimoram o seu uso da linguagem, tanto na forma oral quanto na escrita, conforme verificado também em estudos de Fronza (2000, 2003a, 2003b, 2004a, 2004b, 2004c)<xref id="xref-7ca23345434e07026ef7037e21a9a21b" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-6a9a85e001497ec936654d0450454362 chapter-ref-0624a2fa2e9735d1ef743d3328f22cc7 conference-paper-ref-f68a9f7a358ac85060f36b8bc74ed0c9 conference-paper-ref-51cce4fec9fce380235007bc28771aaf conference-paper-ref-7e87517d474561e0531f174aa79ebc35 chapter-ref-1b9ed7603ef085a9970f183cc5d9e762">[2-4,13,14,27]</xref>, Fronza e Varella (2003a, 2003b)<xref id="xref-79094b28d588b0d776937191dc03169d" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-d57bb6ce31745a4427ec022798e38a84 journal-article-ref-f8632d6f369ad9eaa04c30b73c4ae292">[6,7]</xref>, entre outros.</p>
        <p id="paragraph-3367bec0b2f87af22e4187b1ee4088a7">Uma das questões mais inquietantes nos estudos empreendidos no âmbito da aquisição de linguagem oral e escrita diz respeito ao envolvimento da criança com a língua em um processo sistemático. Mesmo assim, pergunta-se: por que a criança, ao entrar na escola, dominando fonética e fonologicamente as estruturas de sua língua, comete alterações de escrita que representam contextos inadequados no idioma, descartando-se os de natureza ortográfica, convencionais? Faz-se necessário estudar mais detalhadamente o processo de aquisição de escrita para que se possa chegar a uma resposta sobre o tema. Nesses estudos, procuram-se respostas para as seguintes questões: a) seria possível estabelecer uma relação entre os processos de aquisição fonológica e de escrita?; b) até que ponto as características da aquisição de fala são evidenciadas na aquisição de escrita, influenciando assim a produção ortográfica das crianças? Para responder a essas perguntas e a outras que surgem ao longo das análises, é necessário estudar e acompanhar simultaneamente os dois processos estabelecendo paralelos entre ambos. Nesse sentido, atribuiu-se especial atenção aos aspectos que cercam não apenas a produção de escrita, mas também ligados à produção de fala, como forma de resgatar uma espécie de histórico lingüístico dos futuros escritores em língua portuguesa. Esse resgate, ao mesmo tempo em que pode dar conta de muitos aspectos que dizem respeito ao momento da aquisição de fala, que continua merecendo pesquisas, também pode contribuir para a compreensão do processo de aquisição e do desenvolvimento da linguagem quer seja escrita, quer seja falada. As buscas por respostas não se encerram aqui! </p>
      </sec>
    </sec>
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      <fn id="footnote-14ca84b0f51b9dc4f8dd00ce686519de">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-a299fefdf9b5fec99697b15e813326da">1 O Mini Disc Sony MZR-900DPC, o <italic id="italic-580bb2cdab42aa1eed8c98e604f1dafb">software</italic> Multi-Speech e opcionais, que vêm sendo usados na pesquisa desde seu início, foram adquiridos através do Edital PROADE2, processo nº 01/1756-9 da FAPERGS, concedido em 2002.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-de86cd059e5bf0768b0837dc3f4ea1f6">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-5f45ba80157fc85be2f70775fb9c18e9">2 Não serão utilizados novos exemplos para as alterações que já foram mencionadas em comentários anteriores.</p>
      </fn>
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