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        <article-title>UM ESTUDO SOCIOINTERACIONISTA DA EMOÇÃO, NA EMERGÊNCIA DA INTERNET COMO CONTEXTO DE PRODUÇÃO TEXTUAL</article-title>
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        <institution content-type="orgname">UNISINOS/RS</institution>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="22/05/2017" />
      <volume>6</volume>
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      <issue-title>UM ESTUDO SOCIOINTERACIONISTA DA EMOÇÃO, NA EMERGÊNCIA DA INTERNET COMO CONTEXTO DE PRODUÇÃO TEXTUAL</issue-title>
      <fpage>215</fpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-d20af96cefeff5eeb750849fff4507fc">O texto coloca em debate, dentro do interacionismo sociodiscursivo (ISD), a inserção de temas relacionados com práticas lingüísticas no ciberespaço, com ênfase no lugar teórico da emoção. Trabalha as significações psicossocioculturais, através de hipóteses heurísticas, com o objetivo de estudar o efeito desse particular contexto de comunicação sobre o funcionamento da língua.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-4d11c3ac120a800deb1b43f7dc9950dc">
          <italic id="italic-1">The text discusses, within sociodiscursive interactionism (SDI), the insertion of topics related to linguistic practices in cyberspace, emphasizing the theoretical place of emotion. It works on psychosociocultural meanings through heuristic hypotheses, aiming at studying the effect of this particular context of communication on language functioning.</italic>
        </p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-22a7bd6b2ba57a53e335c3a25891b55b">ambiente virtual</italic>
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          <italic id="italic-70dc389318f149688d7d1a3515eec121">interacionismo sociodiscursivo</italic>
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          <italic id="italic-916d062085b7ab63031ce29469ab3ee0">situação de comunicação</italic>
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          <italic id="italic-bcd66e698eb8edbf299efe31105fffd7">emoção</italic>
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    <sec id="heading-02d7b983db881f9d9db22011037f81a5">
      <title>1. Introdução</title>
      <p id="paragraph-26c20e6eba3d2cfedc25141bfb24face">Em Fraga (2004)<xref id="xref-463ad026c8fd6e7a698c2a6c080b44a8" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-85254b3e107ee3434d44f68380cded75">[1]</xref> <xref id="xref-d218d751ef3904c7bff276f2c5a6d652" ref-type="fn" rid="footnote-ac392fc454f88eeb58619b30f0b9e8b3">1</xref> foi postulada a necessidade da inserção de temas relacionados à emergência das práticas textuais no ciberespaço,<xref id="xref-a38be158a80f7dd2421eb7d6728bd051" ref-type="fn" rid="footnote-d55ceb707ce3601eeda604f01781a39b">2</xref> no corpo epistemológico, teórico e metodológico do interacionismo sociodiscursivo (ISD), tal como tem sido desenvolvido por Jean Paul Bronckart, junto ao grupo do ISD, (interacionismo sociodiscursivo) principalmente nos anos de 1997, 1999, 2004, 2005 e 2006. Isso significa não somente tomarmos os textos produzidos nesse ambiente para análise, mas considerá-los como condições específicas de produção que esse contexto envolve, que são paradigmáticas porque envolvem nova percepção da realidade, resumida aqui como a crise da representação.<xref id="xref-c8c6b84171f3cbd8dd6da5333bbd53bc" ref-type="fn" rid="footnote-6631f591f02f1a72d42287dd48b15caf">3</xref></p>
      <p id="paragraph-3">Buscaremos construir um texto que, longe de apresentar, ainda, uma incursão autoral de maior aprofundamento no tema, se caracteriza pela identificação de teorias julgadas convenientes para esses fins, no caso, a teoria psicológica, particularmente Vygostky, (2003)<xref id="xref-557fb8519434a172e7832e96f3fc5898" ref-type="bibr" rid="book-ref-21ebfafdd54a6e4fb8ee2fd758f2d858">[2]</xref> da teoria do ISD (cf. Bronckart, 2004)<xref id="xref-d3c791697f3c5a45629eeb6896696e65" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-f1b715404fbc979c0300743d0dc31211">[3]</xref>; e da teoria semiótica, Greimas (1990); Greimas e Fontanille (1993)<xref id="xref-b63fc16503e96647830ab56138903b20" ref-type="bibr" rid="book-ref-226b106ab457d53b8a5075e176cdb9a5">[4]</xref>, seguido de uma aproximação entre tais teorias, visando a reunir condições teóricas para a análise da produção verbal e não verbal, segundo o ISD, nesse contexto de produção de linguagem, particularmente a rede mundial de computadores (www), a Internet.</p>
      <p id="paragraph-4"> .</p>
      <sec id="heading-e7152f0932dfbc6d72f8d09c0151d442">
        <title>2. Um começo</title>
        <p id="paragraph-7">O holodeck (MURRAY, 2001)<xref id="xref-ed3b8badf08761225dae8b1bde652808" ref-type="bibr" rid="book-ref-5650a767c56fe3154f18751b3d25d029">[5]</xref> consiste num cubo negro e vazio coberto por uma grade de linhas brancas sobre a qual um computador pode projetar elaboradas simulações, combinando holografias<xref id="xref-a48384a9fe07a240e4cab633fa78d3c2" ref-type="fn" rid="footnote-d3f7dacfc2f76fdb72c9d13ca707e3b8">4</xref> com campos de força magnética e conversão de energia sutil em matéria. O resultado é um mundo ilusório, que pode ser parado, iniciado e desligado à vontade – inclui bebidas, lareiras e outros personagens.</p>
        <p id="paragraph-9">Em O beijo de Lorde Burleigh, (IN MURRAY,2001)<xref id="xref-a96ca59e0bc7fa6507a6969fe0f7ce95" ref-type="bibr" rid="book-ref-5650a767c56fe3154f18751b3d25d029">[5]</xref>, vemos que num distante ponto do século XXIV, Janeway, capitã da nave estelar Voyager, lê sua holonovela favorita. Ao ler, troca seu uniforme por um vestido vitoriano e entra, através de sua leitura, numa holosuíte (equivalente a uma sala feita em um texto impresso). Em seguida, vê o belo Lorde Burleigh e, na figura, a partir desse momento, de Lucy, aproxima-se, conversa e, repentinamente, é abraçada e beijada. Nesse instante ouve a expressão “interromper programa”. Lucy ou Janeway afasta-se de Burleigh. Sua imagem, agora, está congelada. Ao receber nova tarefa de guerra, olha, como Janeway, para seu amante-holograma congelado e diz que o dever a chama. O que os recursos do holodeck permitem mediante o desenvolvimento da tecnologia de imagem e som, possíveis devido aos avanços da Física microscópica, da ordem dos campos quânticos, com todas as suas implicações sobre tempo, espaço e ação sobre a matéria, produzida pela ação do pensamento ou mesmo do corpo, é um exercício de projeção para o futuro do que, hoje, as tecnologias digitais nos proporcionam. Trata-se da mais absoluta expansão das possibilidades de criação de mundos,<xref id="xref-80c3dc06949e0af479bfb9a3729aa3ed" ref-type="fn" rid="footnote-c3e838793fd6a7475bc92e731b53ab2a">5</xref> através de processos tecnológicos de expressão digital.</p>
        <p id="paragraph-daf6629169d634b29c6abfcc254b5f5c">Outro contexto virtual de textos é o filme <italic id="italic-cca282978479741a22c3fc4e11cce583">Eu Robô</italic>, inspirado na coleção de contos de Isaac Asimov e dirigido por Alex Provas. No ano de 2035, robôs são eletrodomésticos presentes em quase todas as residências. Um detetive investiga um crime que crê ter sido praticado por um desses robôs. È um filme que utiliza efeitos visuais que os críticos chamam de vanguarda, no caso, a comunicação dos humanos com personagens em hologramas. Atualmente, essa é uma tecnologia comum nos filmes de ficção científica, como <italic id="italic-2">Stars Wars.</italic></p>
        <p id="paragraph-7918e3d6f2eb715f5b957cbcd64cf80e">Outro exemplo de contexto virtual na literatura com amplo consumo no meio de pesquisadores em Comunicação – principalmente – e entre jovens com escolarização superior é o romance <italic id="italic-3">Neuromancer</italic> (Gibson, 2003)<xref id="xref-57f92f154e79b737b3481e1b9aaca155" ref-type="bibr" rid="book-ref-428d62a1f79694c3fc43f0593c9fd64b">[6]</xref>, que deu origem ao filme <italic id="italic-4">Matrix</italic> (outro exemplo no cinema). Vejamos um trecho:</p>
        <p id="paragraph-7aefa841ab364b5407d3dab2f7ab6737"> .</p>
        <p id="paragraph-10">O BAMA, o Sprawl<xref id="xref-e3af4c8e796058ba1e357cd9fc727826" ref-type="fn" rid="footnote-c0f1f32a9b7d1b7b910df880bc98d178">6</xref>Se alguém programar um mapa que mostre a freqüência da troca de dados numa tela muito grande, com cada nível de <italic id="italic-5">pixel</italic> valendo mil <italic id="italic-6">megabytes</italic>, Manhattan e Atlanta aparecerão como duas manchas brancas sólidas. Deixe que elas comecem a pulsar e a velocidade das transações vai sobrecarregar a simulação. O mapa está prestes a explodir como uma <italic id="italic-7">supernova</italic>. Melhore isso. Aumente a escala. Cada <italic id="italic-4af81b83618905be720136bbb27639e3">pixel</italic>, um milhão de <italic id="italic-fa0b90ab4b4926e0b235c8f1cb5261a9">megabytes</italic> por segundo, começa a dar para reconhecer determinados quarteirões no centro de Manhattan, e os contornos de parques industriais centenários fazendo bater o velho coração de Atlanta. (Gibson, 2003 p.73)<xref id="xref-8ba4b4ee096dd331441b97ca4d9b756e" ref-type="bibr" rid="book-ref-428d62a1f79694c3fc43f0593c9fd64b">[6]</xref></p>
        <p id="paragraph-1f9005c28ccf14e348bb5a6636d37a28"> .</p>
        <p id="paragraph-5dfd555d101ff1a7bf57bf52012b94b0">Uma das intuições deste texto, mais que hipótese de trabalho, é a de que não é possível pensarmos em qualquer prática em ambiente informatizado sem pressupormos nossa entrada nesses mundos virtuais, com todas as implicações físicas, psicológicas e sociais, para o fazer da linguagem, que isso acarreta. Por oportuno, trazemos Bronckart (2004: 115)<xref id="xref-ca80b480ed31903e5e83a83e0394ea6d" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-f1b715404fbc979c0300743d0dc31211">[3]</xref></p>
        <p id="paragraph-3f51c01b89f5d3b7c1d143c001e636b3"> .</p>
        <p id="paragraph-7a69687bfcfa61896cdd84a33b05b436">dans cette logique en effet contrairement à I ‘implicite des positions flXistes cognitivistes, les proprietés de Ia pensé telles que nous pouvons apprehender actuellement, ne constitue q ‘une etape d ‘un processus developpemental permanent: aprés un ou deux siécles d’explicitation des ressources de l’informatique, des mondes virtuels, etc, les capacités mentalles et Ia consscience de nous descendensts seront dans doute “outres que les notres.<xref id="xref-5762ad726cc896a8d65548ee1dbbe1dc" ref-type="fn" rid="footnote-096e69da3d2b9206809c357594168481">7</xref></p>
        <p id="paragraph-c1639cddab335b193e88fd92e1b8116f"> .</p>
        <p id="paragraph-33b38eb586c122a7c4d79927767d2a4e">Em nosso entendimento, as práticas de linguagem em ambientes virtuais, como implicação possível do pensamento de Bronckart, representam um momento de desenvolvimento de processos comunicacionais situados na ontogênese humana, devido às características físicas (eletrônicas) do dispositivo semiótico (a linguagem digital e o computador), que organizam e materializam a produção de linguagem nesse ambiente, onde uma característica importante e nova é a retomada da importância do corpo.</p>
        <p id="paragraph-65cbc33be990eebcb550946d5906b0c4">Assim, e esse aspecto é muito importante para a intuição iniciada neste texto, expandem-se os processos intelectivos. O corpo, no sistema nervoso central, gera significações que não são, num primeiro momento, traduzidas no cérebro, para conceitos, gerando, antes, os instintos e as emoções. No nível intelectivo mais elaborado da consciência, as emoções se transformam em sentimentos.<xref id="xref-2b58481f279c6bcb8f037dd35f5cecc1" ref-type="fn" rid="footnote-974530bf403cc0c5b078991e378c4d99">8</xref> Em última análise, estamos diante de um importante momento de enfraquecimento, nas concepções e práticas científicas, da visão dicotômica entre sentir e pensar. Renegados pelo predomínio dos processos intelectivos, herdados da ciência moderna, a emoção e o sentimento, nos ambientes virtuais, retomam seu lugar de destaque na produção dos significados constituídos pelas linguagens. A questão mais geral é a assumida pelo ISD, segundo o qual a conduta humana se apresenta como resultante de um processo histórico de socialização, possibilitado pelos instrumentos semióticos. Se o pensar revela capacidades novas, auxiliando o ser humano na sua autonomização frente à natureza, o ressurgimento de contextos que desencadeiam, mais facilmente, processos afetivos nos mostra que estamos vivendo, na retomada do conhecimento e de sua expressão pelas linguagens, um momento de relativização da racionalidade dentro da concepção da ciência moderna. Reside, aí, parece-nos, um lugar para o princípio dinâmico da linguagem, responsável pela interação entre todas as formas de expressão do corpo humano, visando à produção de sentidos estésicos,<xref id="xref-0ba6d8e2238185e086ba6c6d036fdcd7" ref-type="fn" rid="footnote-8b4343f8aec44d1cb223666349915b6e">9</xref> característicos do ambiente informatizado (como, por exemplo, os <italic id="italic-5129d15f87453cba9cb15f7fbdf9c5a1">emoticons </italic>ou as modalizações como mecanismos de configurações ao lado<italic id="italic-ce6c4810fc07c71eb852bbd21d421272"> </italic>dos processos seqüenciais, dentro da planificação textual.)</p>
        <p id="paragraph-3749c65dccd694a52e3ad53f33cf833d"> .</p>
      </sec>
      <sec id="heading-13a1224dd0c765c06fdeb2f0f7e2a289">
        <title>3. As modalizações como um dos lugares lingüísticos de constituição dos significados afetivos da linguagem verbal</title>
        <sec id="heading-233bcd3260ce920bd7fe4f0fceede5a8">
          <title>3.1. Dimensão psicológica</title>
          <p id="paragraph-3e65780b4ef02ed5dc1d9d14f302d166">Queremos pensar que é no quadro da ontogenia que podemos propor um diálogo entre Vygotsky, Piaget e, atualmente, Antônio Damásio (2003). E, mais, propomos que tal linha de continuidade é necessária para podermos pensar que nesse contexto físico e sociopsicológico de produção de linguagem fazemos voltar para o corpo o lugar da linguagem, lugar que a ciência moderna reduziu para as operações intelectuais representadas por sistemas lógico-matemáticos. Num diálogo possível, colocamos uma linha de continuidade entre Piaget e Vygotsky, conforme segunda nota deste texto. Um dado importante é a mudança do ponto de vista de nossa percepção de espaço e tempo. Onde estamos, quando estamos na Internet? A mão que faz uma <italic id="italic-3c2ae482ce75736c922e16d93616d66f">flanêrie</italic><sup id="superscript-09e6fc9ed564bcaed7f18d589843f5d1">10</sup> com o <italic id="italic-5f2da9b867ff76a806e228ae8c78ba0a">mouse</italic>, na tela do computador, nos remete a todos os tempos e espaços. O corpo, sentado na cadeira, em absorta atividade de contemplação, perde, por instantes ou horas, seu sentido material. No ciberespaço esse “desnortear-se” pode ser explicado porque, em última análise, estamos escrevendo com a luz e nos comunicando à velocidade da luz.</p>
          <p id="paragraph-fb850f84b4dbe73aa4af4f4d392e9112"> .</p>
          <p id="paragraph-5000d870bad6c2a13e52940cf87d1b32">Em algum lugar, lá em baixo, nas profundezas de ferro e concreto de ferro, um trem deslocava uma corrente de ar pelo túnel. O trem deslizava silenciosamente pelo leito de indução, mas o ar fazia o túnel soar num tom baixo, atingindo os subsônicos. A vibração chegava até o quarto onde estava deitado e fazia saltar poeira entre as fendas do chão. (Gibson, 2003: 58)<xref id="xref-ad9b22eba5a70a08513211231e932ccf" ref-type="bibr" rid="book-ref-428d62a1f79694c3fc43f0593c9fd64b">[6]</xref></p>
          <p id="paragraph-3765154aabe2ce0ff8e925b1300bad21"> .</p>
          <p id="paragraph-83528b9ef43129479fda992b4005166d">Torna-se urgente projetar sobre as dimensões físicas, socioculturais e subjetivas da produção textual aspectos que vamos chamar de <italic id="italic-ce547b6cf74a3aa8502d53c363af0622">estésicos</italic>, que, em última análise, são os. constituintes, nas linguagens, dos sentidos físicos e psicossocioculturais dos mundos virtuais (mas não apenas desses) possíveis de serem construídos pela linguagem digital. Entendemos que a linguagem digital potencializa o descompromisso com a representação (a chama crise da representação), porque não opera com código analógicos. Aproveitamos, para situar esse tema nos mecanismos afetivos do ser humano: Retomamos o que Bronckart (1997) nomeia de linguagem, pensamento e consciência,perguntando, então:</p>
          <p id="paragraph-261295b5d9eb24ad986ce0fbfe427310"> .</p>
          <p id="paragraph-d8b2006fe7118757119f90e0e66e967b">Por meio de quais processos o funcionamento biológico e comportamental, dando origem a um funcionamento das ações, acompanha o pensamento consciente na condição de mecanismos afetivos, considerados como um processo do desenvolvimento permanente das formas de o humano conhecer? (Bronckart, 2006: 93)</p>
          <p id="paragraph-ed60ae978f3f1a00f192816c36ff4d8f">.</p>
          <p id="paragraph-3ab71a452e4128b333051da7b5de0866">O que nos importa é dizer que os ambientes virtuais nos colocam, necessariamente, diante da retomada do afeto como companheiro do pensamento, sem o qual, este, o pensamento, gerará conhecimentos que nada mais gerarão senão um seco eruditismo. Considerando que a tese centrada no interacionismo sociodiscursivo é de que a ação constitui o resultado da apropriação do organismo humano das propriedades da atividade social, podemos acrescentar aí a expressão das propriedades afetivas das atividades psicossociais, mediadas pela linguagem. A proposta de eleger as emoções como conteúdo a ser desvelado na linguagem verbal (objeto maior deste texto) e não verbal (texto a ser construído), considerando antes a natureza estésica das produções em ambiente informatizado – como foi justificado –, notadamente a Internet, exige abordagens teóricas e metodológicas, ou ênfase em aspectos dos estudos lingüísticos, que permitam procedimentos de análise textual que insiram essa ordem de questão. Isso será feito através, num primeiro momento, de uma abordagem psicológica, orientada principalmente por Vygotsky (2001), envolvendo algumas relações com Jean Piaget (1971).</p>
          <p id="paragraph-9e58f9983442257027cc29db1862f8cc">Vygotsky destaca que os sentimentos ou as emoções são sinônimos. Os tradutores destacam que o vasto e rico campo da afetividade humana – emoção, paixões, afetos e sentimentos – teve sua acepção reduzida na psicologia do século XX para apenas o termo <italic id="italic-dc2a294afbcc16c73d61f56d433d0b2b">emoção</italic>. Vygotsky lembra dois psicólogos, James e Lange, que relacionam emoções às amplas modificações corporais que as acompanham, concepção da qual participa na atualidade António Damasio. Vygotsky aponta que a psicologia e o pensamento comum destacam três momentos no sentimento: a percepção, com sua representação e designação (o encontro com um assaltante, por exemplo); o sentimento que isso provoca (temor, pena); e sua designação e as expressões corporais desse sentimento (como tremor e lágrimas). Todo sentimento possui sua própria expressão corporal. Esses parâmetros corporais dividem-se em três grupos: o primeiro são os movimentos mímicos, das contrações dos músculos, olhos, boca, mãos e troncos – são reações motoras emocionais; o segundo são os sentimentos que isso provoca – temor, pena e suas designações; e o terceiro envolve as expressões corporais que isso provoca. No texto, aqui brevemente resumido, Vygotsky se ocupa de uma interessante discussão sobre a sucessão desses três momentos. O importante talvez seja a ênfase que o autor dá para o fato de que os sentimentos não surgem sozinhos. Trata-se de um sistema de reações vinculados ao ambiente externo. Interessa-nos o argumento do caráter subjetivo dos sentimentos, para o qual a pessoa que os experimenta e a pessoa que os observa têm noções totalmente diferentes. Isso porque as pessoas envolvidas observam dois momentos diferentes de um mesmo processo.</p>
          <p id="paragraph-2f6bef7cf7b51fd80c9a3280febc2d17">Quem olha de fora registra as reações emocionais em si. Quem olha de dentro registra a excitação proprioceptiva que parte das próprias reações. Quando Vigotsky se refere à natureza biológica das emoções, chamada de sentimentos inferiores, examina dois deles – a ira e o temor.</p>
          <p id="paragraph-384946e3022319fac33e29f439a0a693">O temor é forma superior de fuga instantânea e impetuosa do perigo. As reações mímicas apresentam os olhos muito abertos, as fossas nasais dilatadas, as orelhas tesas. Depois aparecem músculos tensos, como se estivessem preparados para a ação – saltar, fugir, por exemplo. Quanto às reações somáticas, apresentam-se, entre outras, a palidez e a diarréia. A respiração torna-se profunda, ofegante. Os processos internos se adaptam à tarefa fundamental do organismo para fugir do perigo. Assim, também, a ira, que se apresenta como um instinto de não conservação. A mímica da ira são punhos cerrados prontos para bater, dentes apertados, avermelhamento no rosto e posturas ameaçadoras. Do ponto de vista biológico, ressalta Vygotsky, seria plausível pensarmos que as emoções desempenham papel de órgãos rudimentares e que, agora, devido às mudanças das condições de vida, representam um elemento desnecessário. Contudo, nos diz que esse pensamento de base biológica é profundamente errôneo. Após, desenvolve sua argumentação sobre a natureza psicológica das emoções.</p>
          <p id="paragraph-720cf958003dfcbbece7418c76e1d124"> .</p>
          <p id="paragraph-f0da6fc558148787f593f4bdc8b5bed5">Mediante a simples observação, sabemos de que modo os sentimentos tornam o comportamento mais complexo e diverso e até que ponto uma pessoa emocionalmente dotada, sutil e educada está, nesse sentido, acima de uma pessoa carente de educação. Em outras palavras, até mesmo a observação cotidiana evidencia um certo novo sentido que a presença do sentimento proporciona ao comportamento. A mesma conduta, dotada de um aspecto emocional, adquire um caráter totalmente diferente da incolor. As mesmas palavras pronunciadas com sentimento, agem sobre nós de maneira diferente que as pronunciadas sem vida. (Vygotsky, 2001: 113)</p>
          <p id="paragraph-88f53edaa92f35d1647e9600f7216768"> .</p>
          <p id="paragraph-c7dea265fc4f44852c3d381c26fe6a0a">Trata-se, então, de perguntar-nos de que maneira a emoção modifica o comportamento. Vygotsky apresenta três possibilidades: quando o ambiente exterior não apresenta dificuldades, quando o organismo sente que predomina sobre o ambiente; quando existe o contrário, isso é, quando o ambiente predomina sobre o organismo. Esses três casos são básicos para o desenvolvimento do comportamento emocional. As emoções positivas estão no primeiro momento. As correspondentes às sensações de angústia, fraqueza e sofrimento estão no segundo grupo, e há um estado de equilíbrio no terceiro caso. Por esse motivo, a emoção deve ser considerada uma reação do comportamento. O que Vygotsky atribui à velha psicologia, como ele chama, ensina que há um tom emocional nas vivências mais simples, relacionadas, por exemplo, à cor, ao som, ao odor. Eles não têm um aspecto emocional único que lhes pertençam unicamente. Sabemos que há cores que nos tranqüilizam, outras excitantes, outras provocadoras de ternura e outras, ainda, provocadoras de repugnância. Isso nos lembra a teoria tridimensional do sentimento proposta por Wundt. (in Vygotski)</p>
          <p id="paragraph-b02cf59f69d7dddf10a6019aade31ec9">O autor aponta que todo sentimento possui três dimensões, e cada uma possui duas direções. Tais dimensões e direção serão retomadas por nós na perspectiva das modalidades, visando à proposta de teorias de análise produção e interpretação de textos pelo ISD: “o sentimento pode fluir na direção (1) do gozo e do desagrado; (2) da excitação e da inibição; (3) da tensão e do relaxamento.”</p>
          <p id="paragraph-a2bfbb62d57ccb336ca625a696b85776">Interessa aqui ressaltar, de forma particular para o interesse deste estudo, o uso da expressão fluir e as direções marcadamente compatíveis com tal expressão. Notemos que toda a semiótica européia, proposta desde Hjelmslev (1976) até nossos dias, com Fontanille e Zilberberg (2001)<xref id="xref-06323d7a2d0d7db8ca96b0fbad9e051c" ref-type="bibr" rid="book-ref-a3449cf961a8898a6486978d35faaa57">[7]</xref>, passando de forma marcante por Greimas (1987, 1990), se utiliza, igualmente, de direções semelhantes, onde o fluir tem seu lugar na concepção do contínuo, dentro da construção da <italic id="italic-1ddb13bacb2bf3b318bac6822854f9d9">estesia</italic>, conceito que dá um lugar analítico para os conteúdos afetivos das linguagens, incluindo a linguagem verbal, que tradicionalmente, exceto o caso da literatura, é concebida para expressão de conteúdos racionais. Através da teoria de linguagem sobre <italic id="italic-8c6d3aeea5778e0d8fe21ceb30ed9961">estesia</italic>, conhecida como <italic id="italic-12547eb420024cd47bdccb7c77bd0a49">semiótica das paixões</italic>, poderíamos ter uma importante teoria de análise das significações da ordem do emocional em contraposição ao descontínuo, característica racional da linguagem verbal.</p>
          <p id="paragraph-d84c9fc9ebd7ca9c91b14f2bc9b3b75e">Devido à importância dos estudos psicológicos para o ISD, com repercussões nas possibilidades de análises lingüísticas, deter-nos-emos na apresentação que Vygotsky faz de Wundt. Ele começa afirmando que a tensão poderia coincidir com a excitação, assim como a inibição coincidiria com o relaxamento. Também a expectativa de um prêmio ou a antecipação de uma decisão favorável (veredicto) provocam uma excitação de prazer, relacionada ao desaparecimento da tensão.</p>
          <p id="paragraph-c312345d7be617085831184d0643e319">Vygotsky afirma, a partir daí, que o sentimento possui um caráter ativo. Tal afirmação é igualmente importante para este texto, considerando que, atualmente, no ISD, o caráter ativo da linguagem, para efeitos de estudos teóricos e metodológicos, é um desafio, conforme nos aponta Bronckart (2004: 120)<xref id="xref-6eb9e48dca8fccdaaa27bba6b5582c68" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-f1b715404fbc979c0300743d0dc31211">[3]</xref>:</p>
          <p id="paragraph-9fa9bb130d9621facbbe0958267baf4e"> .</p>
          <p id="paragraph-509d85d5ba304f2c64b4cd34b2ee2dd5">...nous n ‘avons pas pris en compte la dimension fondamentale du cours temporalisé de l’action, qui engendre necessariement des modifications sucessives de ces representations initiales ; et nous avons encore moins, bien, sur, tenu compte de Ia distinction posée par Schultz (1998) entre Ia dynamique de /’actins , tellequ ‘elle est saisie par un observateur externe d’une parto Par les acteurs eux mêmes d’autre part”.12. Bronckart (2004: 120)<xref id="xref-7aa0c706bb5d9c6ab356dd8aa174e506" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-f1b715404fbc979c0300743d0dc31211">[3]</xref>:</p>
          <p id="paragraph-06438cbd0215a9f17fa736f13d9725de"> .</p>
          <p id="paragraph-ff59904ca398d10c8ee02081864c2926">Na continuação dessas preocupações Vygotsky (2001: 116) afirma:</p>
          <p id="paragraph-90a8553f289ef6ac27491289daeeed42"> .</p>
          <p id="paragraph-b8f87eb855abbc2c6994f1f03594e300">Toda a emoção é um chamado à ação ou à rejeição à ação. Nenhum sentimento pode permanecer indiferente e infrutífero no comportamento. As emoções são, precisamente, o organizador interno de nossas reações; [o organizador] que coloca em tensão, excita, estimula ou freia todas as reações. Portanto as emoções conservam o papel de organizador interno de nosso comportamento.</p>
          <p id="paragraph-c00841dd21de378c3a6e3c94437a1529">Daí porque a proposta de Bronckart de substituir o foco da ação de linguagem para contexto de produção de linguagem é altamente para os fins desse estudo que fazemos.</p>
          <p id="paragraph-541a24763da96fc49860794ffe131d5b"> .</p>
          <p id="paragraph-2b3282a7af3b79e1ddc6f39428b2cc3a">Isso significa que, por exemplo, se fizermos algo com alegria, as reações emocionais de alegria vão significar que a partir daquele momento tentaremos repetir a ação;ao contrário, fazer algo com repulsão nos leva a interromper o que estivermos fazendo. Então esse novo componente introduzido pelas emoções em nosso comportamento se reduzirá, totalmente, à regulação pelo organismo de cada uma de suas reações<italic id="italic-368b92ee8013ddcf77e08a825ba18eee">.</italic> Sobre o fato de ligarmos nossas emoções ao coração, Vygotsky assinala que as reações emocionais são acima de tudo reações do coração e da circulação. Lembrando Lange, diz que os conteúdos emocionais de nossa vida são devidos ao nosso sistema vasomotor. Se tudo aquilo que exerce influência sobre nossos órgãos externos não colocassem esse sistema em ação, seríamos indiferentes e impassíveis, dizendo, ainda – e isso é importante para este texto –, que nesse caso as impressões do mundo exterior aumentariam nosso saber, mas tudo se limitaria a isso; não despertariam em nós nem alegria, nem ira, nem preocupação, nem temor.</p>
          <p id="paragraph-11">Os estudos feitos por Antônio Damásio confirmam a afirmativa de Lange (<italic id="italic-aea70c81bfb55df478564371166f9c9b">apud</italic> Vygotsky (2001: 119). Na continuidade da discussão propomos, duas contribuições da teoria piagetiana (1971) para o pensamento de Vygotsky.</p>
          <p id="paragraph-82442f80de2784e2a8ad624562da6e11"> .</p>
        </sec>
        <sec id="heading-db63beaf06fa63ed37b676aedc0b5d70">
          <title>3.2. Socialização da emoção e indissociabilidade entre emoção e pensamento</title>
          <p id="paragraph-40271dc0e2584184e12597acee9181a1">A relação entre emoção e pensamento pode ser vinculada à socialização da emoção,que auxilia a compreender como a socialização repercute na vida afetiva. Por sua vez, como refere Piaget (1971), afetividade e intelecto são indissociáveis da ação. Não há ação puramente intelectual, alerta Piaget. Essa é uma idéia, do ponto de vista epigenético, importante para justificarmos a retomada da relação pensamento e emoção nas novas ações sociais e afetivas, através dos instrumentos semióticos que o dispositivo comunicacional que os contextos digitais colocam ao nosso alcance. Num pressuposto da possibilidade de diálogo com Vygotsky, Piaget afirma que, em toda conduta, as motivações e o dinamismo energético vêm da afetividade; além disso, não há atos puramente afetivos. Essa indissociabilidade entre pensamento e afetividade na ação é importante para superarmos a visão dicotômica com que costumamos pensar o assunto.</p>
          <p id="paragraph-6bb8564ad13cba77dabf89a8c4d4659e"> .</p>
        </sec>
        <sec id="heading-c12a4d2245c137264cd0a05b01e30986">
          <title>3.3. Surgimento dos sentimentos interindividuais</title>
          <p id="paragraph-1dd045ea0c2d0b4f04f7979c99b18958">Enquanto em Vygotsky e Damásio há a elucidação das emoções no sujeito, Piaget aponta os sentimentos interindividuais de extrema importância para o ambiente informatizado, ligados à socialização das ações, que acontecem com as relações entre adultos e crianças. Os sentimentos entre pessoas nascem de uma troca, cada vez mais ricas. A comunicação em um dado contexto, por mais sutil que seja, faz aparecer simpatias e antipatias. A simpatia acontece quando há trocas com pessoas que valorizam os interesses do sujeito. A antipatia nasceria da ausência de gostos comuns. Entre os valores interindividuais, temos aqueles que a criança e o adolescente reservam para os que julgam superiores, como é o caso do respeito, da obediência. Assim, vemos surgir e se desenvolver o processo de socialização na adolescência. Surge a possibilidade da coordenação dos pontos de vista, numa reciprocidade que assegura a autonomia, o respeito mútuo, o que acontece quando os sujeitos atribuem para si valor pessoal equivalente. Decorrente disso, surge o sentimento de justiça. Um aspecto que interessa especialmente para a educação lingüística em ambiente informatizado é o que se refere, a partir daí, à vida social do adolescente. A sociedade que interessa ao adolescente é aquela que ele quer reformar. Sua sociabilidade se afirma, segundo Piaget (1971), com o contato que mantém com outros jovens (daí a importância do uso de fóruns, <italic id="italic-a8a7d881fb568917610f531ec7058faf">chats</italic> e jogos eletrônicos em ambientes escolares). Interessa-nos, particularmente, neste trabalho, devido ao tema atualmente em estudo, o que Piaget afirma sobre atividades coletivas. As sociedades dos adolescentes têm por finalidade essencial o jogo coletivo ou o trabalho concreto em comum. Sobre o jogo, Piaget alerta que as escolas não sabem tirar deles o proveito que deveria. As sociedades dos adolescentes são de discussão. Esses, os adolescentes, fazem crítica mútua das soluções, embora concordem sobre a necessidade de reforma.</p>
          <p id="paragraph-26153b459419c4a74fcf3a2f5d7fe596">Retornando à busca de pensarmos a relação complementar com Piaget, considerando seu estudo sobre emoções, Vygotsky nos diz que o jogo é o instrumento mais precioso para a educação do instinto. Aparece em todas as etapas da vida cultural dos povos e também dos animais. Entre os seres humanos, aponta os construtivos, relacionados ao trabalho com os materiais, ensinando exatidão e acerto. Também propõe o jogo com regras, à semelhança de Piaget. Estão, em geral, ligados à solução de problemas de condutas complexos, exigindo do jogador tensões, conjeturas, sagacidade, engenho e ação conjunta.</p>
          <p id="paragraph-f6a8d0a3e874e9316b5dab00cfc7ac24"> .</p>
        </sec>
        <sec id="heading-2bdf632adc317ecb3ccc0a5ef3593b0e">
          <title>3. 4. Dimensão semiolingüística</title>
          <p id="paragraph-9ab185b7e52d39a5c898bce03927e710">Começamos situando o estudo lingüístico da emoção na produção de sentido nos contextos virtuais na lingüística enunciativa, uma vez que esta permite o estudo da posição do enunciador em relação a seu discurso. Há decorrências positivas deste fato: permite assumir, nas teorias de produção e análise textuais, a crítica da modernidade em relação aos valores de verdade e falsidade da linguagem, através substituição desses valores por outros valores epistêmicos, nos seguintes termos: passa-se da verdade para a dimensão do dever. O dever é uma modalidade de estado do ser. Surge, então, um dever ser. Com isso, gera-se uma categoria modal, que é o necessário. Tal categoria, por sua vez, produz uma crença no destinatário de que o mundo é como parece ser, como está se mostrando a ele. Tradicionalmente, na visão da modernidade as coisas são como parecem e, por isso, são verdadeiras ou falsas. Na crise da representação, o que se apresenta aos nossos sentidos é um parecer-ser, resultado de um trabalho de produção e interpretação, possível pela linguagem.</p>
          <p id="paragraph-70b34d549e52e7958f1ab3ce077af3ab">Tal concepção nos esclarece que os fatos afirmados não são verdades, mas possibilidades, necessidades. Abrem-se, assim, as portas para mundos possíveis, fato extremamente pertinente para as características dos mundos virtuais, construídos pela linguagem digital, embora o aparelho formal lingüístico-analógico possibilite a criação desses sentidos através do sistema verbal e adverbial, principalmente. A partir dessa construção de sentidos pelos sujeitos de linguagem, a emoção, situada no domínio do psicológico, passa a ser projetada para o domínio do semiolingüístico e colocada no âmbito das modalidades. A seguir, situamos outro conceito importante para o objetivo do trabalho, que, em última análise, é o de apresentar um modelo semiolingüístico de estudo da emoção. Trata-se do conceito de contínuo complementar ao descontínuo, que tem sido utilizado para estudo dos aspectos lingüísticos das linguagens. Os procedimentos seguintes serão: a) desenvolvimento das modalidades situadas na ordem do contínuo; b) relações iniciais no campo teórico do ISD.</p>
          <p id="paragraph-b5081b51c4399147a4e6e6ac925151d6"> .</p>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="heading-c6754337cf0dee884b06d5fce39d6dba">
        <title>4. As modalidades e o contínuo na análise semiolingüística da emoção</title>
        <p id="paragraph-b58761bc22ed76d152e7c7f99e3944b2">Greimas (1993) vincula as modalidades a modos de existência virtual, envolvendo as dimensões do dever e do querer; modo de existência atual, envolvendo as dimensões do poder e saber e o modo de existência do real, envolvendo as dimensões fazer e do ser. As modalidades têm a função de exprimir a posição do enunciador em relação a seu discurso. Assumem, também, a possibilidade de crítica aos valores de verdade e falsidade. A noção lingüística de modalidade designa a classe dos predicados que traduzem as condições prévias do fazer. Se relacionarmos as modalidades entre si, seriam possíveis combinações como a) implicação: se querer, poder, saber... então fazer ou ser; b) concessão, do tipo embora querer, dever, etc.; no entanto – não fazer, não ser etc. A implicação seria da ordem do devir. Haveria uma modulação pontual dada pela pontualidade (aspecto chamado tensivo), seria algo do tipo – agora faço, sinto. Porém, essa pontualidade pode ser modificada pela modalidade do querer, gerando uma abertura,uma distensão. Já a modulação tensiva da ordem poder geraria uma possibilidade de duração, enquanto que o encerramento de um processo, gera um saber. As modalidades na construção de um texto seriam estudadas na teoria do ISD através de mecanismos de configuração, envolvendo análise dos estados do ser e das transformações de suas configurações e não das transformações de ações, que é o caso da narrativa e de seu processo de seqüencialização. Esclarecemos que o que foi trazido brevemente sobre modalidade tem o intuito quase simbólico de, pela brevidade, propor a necessidade de inserção no escopo teórico do ISD de uma abordagem semiolingüística, visando à possibilidade de dar conta dos sentidos dos mundos virtuais. Isso significa dizer, de uma forma mais alargada, que há necessidade de envidar esforços para inserir os mecanismos configurais, nas bases téoricometodológicas de analise textual do ISD, ao lado dos mecanismos de seqüencialização.</p>
        <p id="paragraph-8a297519b207946776e5fd460bd1736b"> .</p>
      </sec>
      <sec id="heading-8aeea54229d2e643a828417d32fc0ada">
        <title>5. Explicitação de algumas possíveis relações com o ISD</title>
        <p id="paragraph-1188f61d91ef87f6e055059101562413">Queremos trazer Bronchart (1999), sobre as condições de produção dos textos, para tentar algumas aproximações, abaixo apontadas, com o ISD, a partir do que foi desenvolvido.</p>
        <p id="paragraph-a4619fb00f781f3775fea57b89a03d10">1. A emoção é inserida no contexto de produção de linguagem porque se constitui em parâmetro necessário para a organização dos textos. Institui -se como uma dimensão do mundo sociosubjetivo, transposto pela enunciação, para a organização dos textos; é, também, proposta como comportamento verbal.</p>
        <p id="paragraph-00e41e67c5a9e8327c53e160b0b50eaa">2. Na dimensão semiolingüística, e considerando a enunciação, a emoção não é da ordem do agente, mas do enunciador, narrador ou expositor, como instâncias fonais de gerenciamento de vozes.</p>
        <p id="paragraph-7236ff84f8cbd7354a6dbb219c8c8b79">3. A emoção não está vinculada a objetivos de ação da linguagem que podem lhes parecer mais próprios, como o de divertir, nem na linha de recuperação de autores como Jakobson, que propõe funções da linguagem, em que, no caso da emoção, as mais próprias seriam a conativa e a expressiva. Enquanto vinculada a um contexto de produção de textos empíricos, é um aspecto que faz parte de todo e qualquer objetivo de interação, a que, em última análise, todo o texto se propõe.</p>
        <p id="paragraph-f8717130487eb6dcfa4066ceee190fef">4. No contexto físico inserimos o computador, propondo na classificação dada o item dispositivo, entendido não apenas como uma máquina que produz fisicamente o texto, mas todos os processos que resultam da interação do ser humano com ela; como é o caso em que o hipertexto criaria modificações conceituais de planificação do texto, abalando a exclusividade dos processos lineares, nos quais se baseia todo o estudo das teorias lingüísticas da atualidade; entendemos que a atualização teórica e epistemológica da lingüística é uma condição de sua sobrevivência, na medida em que a geração nova que aí está buscará em outras áreas do conhecimento o lugar mais aprazível para seus anseios transdisciplinares;</p>
        <p id="paragraph-17e936c203ff9089248947db8d4817db">5. No caso de jogos digitais, <italic id="italic-a1b3f7bbf377e1b8170075f2a8833253">multiplayers</italic>, do uso de <italic id="italic-4ba73c042be90be14210c2626e1911c7">chats</italic> e fóruns etc., estamos diante da figurativização de vozes sociais, lugar da monologia, devido à comunicação sem interlocutores presenciais;</p>
        <p id="paragraph-72bfd4509c30e3abf93de92935849479">6. A presença dos <italic id="italic-e7316f2a4e525b2a19e24730773088d1">nicknames</italic> demonstram a potencialização de recursos diferentes da construção de identidades presas a idéia de verdade; alguém pode dizer-se, com tranqüilidade, ser moreno e de estatura alta, quando é loiro e jovem ou o contrário, gerando-se um a modalidade do crer-ser, próprio, como vimos, da emoção, o que ajuda no argumento de que a emoção impulsiona os estudos dos mecanismos figurativos de construção dos mundos discursivos.</p>
      </sec>
    </sec>
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      <fn id="footnote-ac392fc454f88eeb58619b30f0b9e8b3">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-77f358d052c3ac9e021cfb7b01fa6abd">1 No simpósio do INPLA, 2004, considerando o contexto de produção digital, foram propostos os seguintes aspectos a serem contemplados na teoria do ISD: instância afetiva, da ordem da emoção e sentimento, indissociável da natureza racional e social da linguagem; implicações teóricas da inserção desses aspectos nos procedimentos enunciativos; implicações sobre métodos de análise dos textos e possibilidade de diálogos do ISD com a semiótica e de Vygotsky com Piaget.<bold id="bold-1"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d55ceb707ce3601eeda604f01781a39b">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-1f20d0eaf8935aa20d212108fcde2615">2 Cultura tecnológica marcada por uma sinergia entre formas do viver contemporâneo e as tecnologias digitais, compreendidas como uma invenção comunicativa.<bold id="bold-06034317baf5ada21bd9e65058c170a3"/></p>
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      <fn id="footnote-6631f591f02f1a72d42287dd48b15caf">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-02c2b8ea1087860d85c8b8a36ff62a83">3 Crise da representação: possível a partir da linguagem digital, que prescinde do referente, em contraposição à linguagem analógica.<bold id="bold-cf7b30c97565fd8fca74e457c6019e77"/></p>
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      <fn id="footnote-d3f7dacfc2f76fdb72c9d13ca707e3b8">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-a0736c030610e04b438b59adbbf9c269">4 Holografia é um método de fotografia sem lentes no qual o campo ondulatório da luz é registrado numa chapa, sob a forma de um padrão de interferência. Quando o registro fotográfico – holograma – é exposto a um feixe de luz, como um <italic id="italic-8b6172ac4c971afb3b83126d2ea335e2">laser</italic>, o padrão ondulatório original é regenerado. Uma imagem tridimensional aparece (Pribam, 1993)<xref id="xref-5682caa03b3ddce4d3e6fbc928105d2d" ref-type="bibr" rid="book-ref-04198ec34f37a84b7e826ab2fdead54d">[8]</xref>.<bold id="bold-ef0fe84857acaea8198b3e027aab3130"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c3e838793fd6a7475bc92e731b53ab2a">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-4f68c5f0130bd237bacae56e1a923a29">5 Propomos o ciberespaço dentro dos mundos representados, conforme Popper e Habermas, desbobrados em mundos subjetivo, objetivo e social, e inserimos sua problemática na educação lingüística segundo a orientação psicológica de Vygotsky e Piaget, assumindo, de ambos, a relação entre aprendizagem e desenvolvimento: do primeiro, temos que a apropriação da língua pela criança possibilita o pensamento consciente; e do segundo, temos que a possibilidade de uma relação complementar com a função simbólica, anterior à imitação diferida, envolve outras linguagens que não a verbal (importante questão pelos aspectos multimídiaticos e intersemióticos, envolvidos nos dispositivos digitais).<bold id="bold-ba371328cfb2c40eef14b85d64b38782"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c0f1f32a9b7d1b7b910df880bc98d178">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-19753ed9acf4499d989acecc07e71f07">6 “Nesta lógica, contrariamente ao implícito das posições fixistas cognitivistas, as propriedades do pensamento consciente, tal como podemos aprender atualmente, constituem apenas uma etapa de desenvolvimento permanente: após um ou dois séculos de pesquisa da informática, do ciberespaço etc., as capacidades mentais e a consciência de nossos descendentes será, sem dúvida alguma, “outras”, que não as nossas (tradução da autora).<bold id="bold-3207db9bdc3c77378a60160383bce7ba"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-096e69da3d2b9206809c357594168481">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-c2e2fc9e762f31b5280ac6219fef6b29">7 Distinção feita por Antônio Damásio, adotada neste trabalho. Para o autor, a emoção transforma-se em sentimento quando transposta para a consciência, recebendo aí nomes como alegria, tristeza etc. Vygotsky não faz diferença entre emoção e sentimento, como veremos adiante.<bold id="bold-6a3f75c01ebc24963469c3eb99b8b89b"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-974530bf403cc0c5b078991e378c4d99">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-7d10e7bfb089c0077c59e6f4810fe8a9">8 De aesthesis = sensação<bold id="bold-9c777d061ca9cdf9c2ed5ba5d5511fa5"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-8b4343f8aec44d1cb223666349915b6e">
        <label>9</label>
        <p id="paragraph-7828e9c981a066b256bce1754c8d3f90">9 O termo apresentado por Walter Benjamim para designar os novos sentidos do caminhar, que surge com o nascimento das cidades modernas, significando caminhar sem destino. É mais ou menos isso que acontece conosco quando estamos na Internet. Temos uma intenção inicial, mas ela vai sendo transformada em outras, não pensadas de início, devido às características hipertextuais do computador como dispositivo digital.<bold id="bold-23e55a72d4ba775be4c50b462e9c4aa9"/></p>
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