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        <article-title>A NATUREZA V2 DAS ESTRUTURAS DE TOPICALIZAÇÃO DO PORTUGUÊS CLÁSSICO</article-title>
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            <given-names>Alba Verôna Brito</given-names>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="22/05/2017" />
      <volume>6</volume>
      <issue>2</issue>
      <issue-title>A NATUREZA V2 DAS ESTRUTURAS DE TOPICALIZAÇÃO DO PORTUGUÊS CLÁSSICO</issue-title>
      <fpage>117</fpage>
      <lpage>138</lpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-7155c216f624b6eac923331a22417487">Este artigo apresenta o resultado da investigação do uso das estruturas de topicalização do português clássico. O resultado revela a atuação de uma gramática de natureza V2 no licenciamento das diferentes formas de manifestação desse fenômeno. Nessas estruturas V2, o constituinte topicalizado é um adjunto e/ou um elemento fronteado.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-47691350610431494b8eff285280344c">
          <italic id="italic-1">This paper presents the result of an investigation about the use of objects in the topic position in Classical Portuguese. The result shows a V2 nature grammar licensing different forms of this phenomenon. In these V2-structures, the constituent in topic position is an adjunct and/ or a fronted-element.</italic>
        </p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-e213dc4274851da255e9a90258fb0de0">português clássico</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-d367762da1018d89aad2c2f49e4a8fce">gramática-V2</italic>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-afcf889384958ab4b38f8fee40c82ccb">constituinte-fronteado</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-d5832a25b78004fcffda51b0b5c4510d">estrutura de tópico</italic>
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          <italic id="italic-0e360b5bf40c49362a6f7a69d5af2825">mudança diacrônica,</italic>
        </kwd>
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    <sec id="heading-fde139d719ab857fa049e412087c727c">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-fc4cc6555f9af35feda5b4860ba01bc6">Os dados levantados de textos de autores portugueses nascidos entre 1502 e 1845, pertencentes ao acervo do Corpus Tycho Brahe<xref id="xref-76839b7d45c146f8c4309305d5c0574d" ref-type="fn" rid="footnote-839235cbe0483875002e4382277576b3">1</xref>, mostram que o português clássico faz uso recorrente de estruturas de tópico em orações raízes, coordenadas e subordinadas; havendo tendência maior de sua formação em orações raízes. Nessas orações, as construções de tópico exibem ordens superficiais variantes no que se refere à disposição de um ou mais de um constituinte em posição pré-verbal, configurando as ordens superficiais V2/V3/V4. Em posição pré-verbal, o constituinte topicalizado é um elemento fronteado, integrando a estrutura prosódica da oração e/ ou um adjunto, realizado em posição anterior à fronteira da frase. A freqüência predominante de ocorrência de estruturas de tópico com um elemento em posição pré-verbal e uso de sujeito expresso posposto ao verbo, configurando a inversão germânica, reflete o comportamento sintático atestado em gramáticas de natureza V2, que se caracteriza pelo deslocamento do verbo para o núcleo C<sup id="superscript-1">0</sup> e de um constituinte da oração para o Spec de CP (cf. Adams, 1987;<xref id="xref-c7c1c75752552eed2f6b6cfe181a2936" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-32cb061f7f8992259abf967409193639">[1]</xref> Roberts, 1993)<xref id="xref-45ab7e4725fe2f69b401395400a31509" ref-type="bibr" rid="book-ref-f89bf429223ba49de8046677bbcf344b">[2]</xref>.</p>
      <p id="paragraph-98df57e374acf45fd858fe948afab753">O fato ressaltado na investigação desses dados é a mudança de comportamento sintático no licenciamento de estruturas de tópico nos textos dos autores nascidos a partir do século 18, com respeito à ordem estrutural de disposição do clítico e do sujeito e à tendência de uso maior dessas estruturas na categoria de adjunto.</p>
      <p id="paragraph-019fc57515ff7e652e489d53e60d29ea">Nos dados dos autores nascidos entre 1502-1696, a freqüência maior de manifestação de estruturas de tópico na ordem superficial V2, em sentenças com clítico, é atestada com esse pronome disposto em próclise. Dentro das considerações de Galves (2004)<xref id="xref-b4f1a40c71500f776b8f18a98d9c14f8" ref-type="bibr" rid="book-ref-68562badb836873408cdda3589fba75f">[3]</xref>, Paixão de Sousa (2004)<xref id="xref-61ae0866da8037a5fc497f5a8de98590" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-395fa4eec17bb15892d0798419bac7ab">[4]</xref> e Galves; Britto e Paixão de Sousa (2005)<xref id="xref-c7b64c774371662fa273b45e5ef02621" ref-type="bibr" rid="book-ref-0ee1306e4bc92c6020e512f03acd87d1">[5]</xref>, a posição de realização do clítico nas estruturas do português dos séculos 16-17 define o estatuto de elemento fronteado e/ou adjunto do constituinte deslocado para a posição pré-verbal. O uso da próclise define a posição interna de tópico ocupada pelo sintagma pré-verbal; o uso da ênclise, por seu turno, sinaliza a posição de tópico externa à oração de realização desse elemento.</p>
      <p id="paragraph-c93907a4ea0d0fe542d07bbcc4eff922">Em se tratando de objetos em posição de tópico, os dados de minha pesquisa mostram que o português dos séculos 16-17 os legitima em duas formas distintas que se assemelham, respectivamente, às construções descritas na literatura como estruturas de Deslocada à Esquerda Clítica e Topicalização (Cinque, 1990;<xref id="xref-7f95a86840b20bcc2710648237a80cc3" ref-type="bibr" rid="book-ref-48492e23e085460820084ee2b64a78f2">[6]</xref> Duarte, 1987)<xref id="xref-28266e852ca21a561aa8aba9e632927d" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-c6cc49899bb19359a5a66525a1194cf9">[7]</xref>. Na forma de Deslocada à Esquerda Clítica, o objeto em posição de tópico é retomado por um clítico com a mesma função sintática na estrutura da frase; na forma de estrutura de Topicalização, não há presença de um clítico com essa função na oração.</p>
      <p id="paragraph-515d55552ac091e2c69496ab1d23c77e">Uma das propriedades intrínsecas do português dos séculos 16-17, revelada na pesquisa, é a legitimação de objeto em posição de tópico na forma de Deslocada à Esquerda Clítica, com o clítico disposto em próclise em ambientes sintáticos não categóricos<xref id="xref-49bf956dcc4f8930b87233aa2cd3be58" ref-type="fn" rid="footnote-1fd4d3004868e7a459e8040daae1e61f">2</xref>, em sentenças de ordem V2:</p>
      <p id="paragraph-810f4e28aafe7cc83a8cdb36d5122959">.</p>
      <p id="paragraph-baddd0d562dec2e062ab4c39f8296744">(1)</p>
      <p id="paragraph-3eaaa7ed3b54f0e7a3ccfb62d8f17613">a) <italic id="italic-fa1f8c70f9f3326b220c3a9f6ceaba11">yso mesmo volo </italic>aguardeço muyto; (CTB-D_001_1502-1557)</p>
      <p id="paragraph-3">b) <italic id="italic-2">A as pessoas pera quem levaaes minhas cartas de crença</italic>,<italic id="italic-3"> lhas </italic>dareys;<italic id="italic-4"> </italic>(CTB-D_001_1502-1557)</p>
      <p id="paragraph-5">c) <italic id="italic-5">Aos Turcos lhes </italic>pezou muito da morte de Dom Christovão, (CTB-C_007_1542-1606)</p>
      <p id="paragraph-c106f651804cc1cc507aa91d34bb6629">.</p>
      <p id="paragraph-ba4ef84aed28980b1c2df74c4aa3fa71">A disposição do clítico em próclise em ambientes sintáticos não categóricos, como propriedade do português clássico, é reafirmada no licenciamento dessas construções em sentenças de ordem superficial V3:</p>
      <p id="paragraph-3b96e5e63d6e9fd19ef825daffd48641">.</p>
      <p id="paragraph-bdebe44ba6c5af65a43f20e22b45785c">(2)</p>
      <p id="paragraph-d8cac832bee3be648ffd9806f1ca119b">a) <italic id="italic-bea51333a5aa4a77deb2e6dc018db4a9">Esta deferemça vos a </italic>conheçereis e sabereis mui bem fazer, no modo<italic id="italic-8248eaf2dcc83710925955ef365e4088"> </italic>que se deve e que eu seja de vos mui bem servido.(CTB-D_001_1502-1557)</p>
      <p id="paragraph-726a29f26eedd7104609c234fe47c5cb">b) Mas <italic id="italic-9c1d1081387500bcb95f1fa0a316b78a">o corpo do homem d’esta arte o</italic> compos a natureza (CTB-H_001_1517-1584)</p>
      <p id="paragraph-cce3613a41a2c75df2962a1b775cbfe8">.</p>
      <p id="paragraph-3b325e96225dd8a85669ab3548c00425">Por outro lado, os dados por mim investigados mostram que o português dos séculos 16-17 licencia a forma variante com o clítico disposto em ênclise; havendo tendência maior de sua formação em ambiente sintático de paralelismo estrutural. Nessas construções, o objeto deslocado carrega a função de tópico em contraste:</p>
      <p id="paragraph-72e3ec4351ec1ea43639535bd2561fe5">.</p>
      <p id="paragraph-354f830ccbde8737ef77f51067f804d3">(3)</p>
      <p id="paragraph-abb5b04c592df0eb6d665193d4243728">a) E <italic id="italic-3b18b46fe7857fddc1a3438ac7c776e1">isto</italic> sabe-<italic id="italic-8ea2b34b27185009aea1f5e42e5c3bcb">o</italic> Deos e sabe-o Roma (CTB-H_001_1517-1584)</p>
      <p id="paragraph-a00ef1c05f111a22d1fd31498ee4285e">b) <italic id="italic-b6b98c92992f2e49e49ff3afc5e65092">ao austinado </italic>move-<italic id="italic-6aa437a96a85af9f5e308286b03c6eae">o </italic>á compunção; o mundano á penitencia; o<italic id="italic-cf89c34a893f356243ce3eacc35407fb"> </italic>contemplativo á contemplação e medo e vergonha. (CTB_ H_001-1517-1584)</p>
      <p id="paragraph-229da191bcb64c76f33704f303e0ee46">c) <italic id="italic-6">Ao gigante </italic>derrubou-<italic id="italic-7">o </italic>a pedra, e a David o sonido. (CTB-V_004<italic id="italic-8"> </italic>-1608-1697)</p>
      <p id="paragraph-7">d) <italic id="italic-9">A uns </italic>levava-<italic id="italic-10">os</italic>, ou a prudência, ou a política humana:<italic id="italic-11">a outros </italic>arrastava-<italic id="italic-12">os</italic>, ou a emulação,ou a cobiça, cedendo tudo em ruína espiritual dos Portugueses, e estrago dos Índios. (CTB-B_001_1675-1754)</p>
      <p id="paragraph-675120d222cb498497e72c2e98359d17">.</p>
      <p id="paragraph-9ba45211e5c470a98ef05d9aa3c9746b">Com respeito ao licenciamento de objetos topicalizados na forma de estrutura de Topicalização, em sentenças com clítico, o uso desse pronome em forma de próclise é generalizado. A ordem V2 prevalece na formação dessas construções:</p>
      <p id="paragraph-fae9c8fce0949f1b67898cdc9f226146">.</p>
      <p id="paragraph-2315942b9c37f507c0e5842795f9bc98">(4)</p>
      <p id="paragraph-6e6d7b2105c21e3fc96b6511011416b7">a) <italic id="italic-bacc7a2e040e1e8a846eacc322a13f37">O aviso do triguo vos </italic>agardeço muyto.(CTB-D-1502-1557)</p>
      <p id="paragraph-8331e7b5550545084c2d3d7efec373af">b) <italic id="italic-e9f91bd55f885c6a80126ff3e91ab476">Isto nos </italic>afirmou muito um homem Polaco, chamado Gabriel,<italic id="italic-d1866ad45c8d09657c6971bc7c514abf"> </italic>(CTB- C_007-1542-1606)</p>
      <p id="paragraph-77c73d2e8199af0260a60183f16476f7">c) <italic id="italic-e671c33cc14c55f8d62f98f91e6b2303">Hum conselho vos </italic>déra eu mais saudavel para vós, do que esse<italic id="italic-078137537f3b3717d9fe10e108c7bd56"> </italic>vosso he para nós: (CTB-C_006_1601-1667)</p>
      <p id="paragraph-2bc038fc9621e52995fc430f2e85b173">.</p>
      <p id="paragraph-cae08bddfe531db6616985e95bf88739">As ocorrências desse tipo de estrutura em sentenças de ordem V3 com clítico são mais restritas:</p>
      <p id="paragraph-dc75454ecf7747a6cff3ca9ec95ff023">.</p>
      <p id="paragraph-d05791c68ad2630bd1ef1c6accc71d2c">(5)</p>
      <p id="paragraph-9202f4bf89420eb1100f4203b5c07d5f">a) <italic id="italic-ec15a7f2f3ff847e5cc5d1dee9a35ca1">Tôda a outra dor eu </italic>lhe perdôo e o mais que disserem de<italic id="italic-1f64fa7285e4e9a1d0693dcd8f7f2332"> </italic>mim;(CTB-C_003_1631-1682)</p>
      <p id="paragraph-c1f243e0b2e9095f6e593152c90de94f">b) E <italic id="italic-fb4ccfcd7d2fe3bef2f58d1d405aff44">ultimamente a mesma mercê nos</italic> ofereceu, e concedeu el-Rei Dom Filipe I quando entrou na sucessão desta Coroa, e a instância das primeiras Cortes, a confirmou em Tomar. (CTB-F_001_1583-1665)</p>
      <p id="paragraph-061cb131212eeda8d5718c7ae9d09e24">.</p>
      <p id="paragraph-36c751f8127601a21be0a7104ca49c17">Esse mesmo comportamento é assinalado no licenciamento de estruturas de tópico de constituintes diferentes de objetos em sentenças com clítico. Ainda que haja variação no uso de sintagmas diferentes de objetos em posição pré-verbal em sentenças de ordem V2 com clítico disposto em ênclise, a freqüência maior dessas construções é verificada com o clítico em configuração de próclise. A próclise, nessas construções, é desencadeada com o clítico em ambientes sintáticos não categóricos:</p>
      <p id="paragraph-833c80c069ae6b48d60300804338f9f5">.</p>
      <p id="paragraph-c5a119df4e6472b35cba5a9f234eec88">(6)</p>
      <p id="paragraph-139f0e528efdb77e1892f0517fef4529">a) <italic id="italic-352a259d2bfe3316856b7737cacdb8d9">Neste tempo me </italic>cercaraõ ja outros quinze ou vinte daquelles<italic id="italic-4b0f97389f2ac86b406d18b3c1d21a0c"> </italic>armados, &amp; me tiveram todos fechados no meyo: (CTB-P_001-1510-1583)</p>
      <p id="paragraph-20be8d47e4ae6c061adf643307c62e00">b) <italic id="italic-7733d1472dadfc75774bf823a8252081">Em uma minha doença me </italic>escreveu um amigo e dizia: (CTB-L_001_1579-1621)</p>
      <p id="paragraph-7d2bf4d1bf94f4eba891e3450c0c1eb1">c) <italic id="italic-764cc32d8da407051254a8d806a02fbe">no Concelho o </italic>apellidaraõ por serviço, (CTB-C_006_1601-1667)</p>
      <p id="paragraph-aa24c572e0092dfeb317c0991a378291">.</p>
      <p id="paragraph-3bc9fd21045996654662a5a850c38ee1">E/ou com o clítico em ambientes sintáticos categóricos de uso desse pronome em posição pré-verbal:</p>
      <p id="paragraph-8eb3188ec54803deb1c1bb095d824d2b">.</p>
      <p id="paragraph-76e458a438cf1ee802b1e50cd9514b68">(7)</p>
      <p id="paragraph-4aea717a5f8b5743833c1fa8fde10ba2">a) e <italic id="italic-bb1281dcd603109ca2aac2e8d15b60d7">muito vos</italic> encomendo que isto mandeis ffazer com toda a brevidade que ffor posyvell, (CTB-D_001_1502-1557)</p>
      <p id="paragraph-3615e7af4c7169229d3e193ca2edfb2e">b) Mas <italic id="italic-56e24e92e4ae9a2655c34ba48fd5d4dd">pouco lhes</italic> durou a tyrannia, (CTB-B_007_1569-1617)</p>
      <p id="paragraph-e17a885bdb56515402553d540c340f76">c) Muytas vezes a visitou neste Convento, adonde separada sò com ella, a communicaua muytas horas. (CTB-M_002_1658-1753)</p>
      <p id="paragraph-9fe432bedfb5b582eda90d62166b717e">.</p>
      <p id="paragraph-694950c0500ae518a2eac3bf7867b671">A realização de sintagmas dessa natureza em sentenças de ordem V3 com clítico apresenta também freqüência maior de ocorrência com o esse pronome disposto em próclise:</p>
      <p id="paragraph-19d20734799c146503a391954455f4df">.</p>
      <p id="paragraph-c07b2037134d09edd0d66451738bcc74">(8)</p>
      <p id="paragraph-c1964cf7f04fff347ef8fe0edbfc1545">a) Porém, <italic id="italic-55b12c8ae65edee0176c4ead10f4e032">hoje por muitas razões vos</italic> parecerá que ainda ha outro Juiso mais terrivel, ainda ha outro Juiso mais rigoroso, ainda ha outro Juiso mais estreito que o Juiso de Deus. (CTB-V_004-1608-1697)</p>
      <p id="paragraph-dcf3b44bafc93ac4a4ee64b173941934">b) <italic id="italic-efe1d97eaf7d998ea233b32cd8b28e3e">Sôbre aquilo do convento</italic>,<italic id="italic-f386d25c88455f0410942fe9d91fa4f2"> cedo nos </italic>veremos e então falaremos (CTB-C_003-1631-1682 )</p>
      <p id="paragraph-f6989986ff9d83fc3c1852baaba02be2">.</p>
      <p id="paragraph-f15dd0f858fd44cb4e132c8911752b95">A forma variante com ênclise é registrada, no corpus, em ocorrências restritas, estando o seu licenciamento atrelado a contextos específicos, basicamente, a contextos de clítico com o estatuto de pronome possessivo ou do pronome <italic id="italic-6f430e319910f509997b7c5c692df651">se</italic> reflexivo e/ou inerente:</p>
      <p id="paragraph-e65ee991cbabbcf94da72fdc600706f8">.</p>
      <p id="paragraph-2be66d3c2c972f112557242ac23d2d89">(9)</p>
      <p id="paragraph-9825cdb0d0fbeb8afd79269d34374794">a) e ao terceiro tornou-<italic id="italic-fa1441c5754d8475c7e200103eb1e04f">se</italic> pera o exército, (CTB-C_007-1542-1606)</p>
      <p id="paragraph-eff5bf63c3cfe1b44937adfeda652cf2">b) Entre estas fadigas da Corte levava-<italic id="italic-1f38600b898e66119094f63dfd900d4e">lhe</italic> toda a alma o aumento da Missão.(CTB-B_001-1675-1754)</p>
      <p id="paragraph-818b8a3d453d2af49e18c22474627103">c) a este posto foy a Madre Elena, a sacrificar<italic id="italic-15f7a5048d421c14400c159b8e90c9a8">se</italic> à violenta cura, (CTB-C_002-1658-1753)</p>
      <p id="paragraph-cf3fc4210ed8ba53e94a29b8775b7148">.</p>
      <p id="paragraph-fee84c0b119e893c08a6488a889b220b">Considerando a proposta de Galves (2004)<xref id="xref-192d590ab3fd3f53b9b0242528125a53" ref-type="bibr" rid="book-ref-68562badb836873408cdda3589fba75f">[3]</xref>, Paixão de Sousa (2004)<xref id="xref-c68c68750839e93b8ebc34bac47c093b" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-395fa4eec17bb15892d0798419bac7ab">[4]</xref> e Galves; Britto e Paixão de Sousa (2005)<xref id="xref-4db13518ee64e4576877a2402c477c27" ref-type="bibr" rid="book-ref-0ee1306e4bc92c6020e512f03acd87d1">[5]</xref>, referida acima, do uso do clítico em forma de próclise como fator que define a natureza V2 dessas construções, na medida em que, nesta disposição, o clítico assegura a realização do elemento que precede imediatamente o verbo em posição de tópico interna à oração, a questão que se impõe na investigação desses dados é justificar, nas bases dessa proposta, a realização da ordem subjacente canônica V2 nas construções de tópico em sentenças sem clítico. É em sentenças sem clítico que os objetos com a função de tópico, manifestados na forma de estrutura de Topicalização, se apresentam com maior freqüência nos dados dos autores nascidos nos séculos 16-17. Ainda que essas estruturas de tópico em sentenças sem clítico sejam manifestadas nas ordens superficiais V2/V3/V4, a tendência maior de sua formação é constatada em sentenças de ordem V2:</p>
      <p id="paragraph-64895198449df258532446a20ee4888f">.</p>
      <p id="paragraph-f1d03803bbf81860e934c37c34606fb2">(10)</p>
      <p id="paragraph-c756a8339aaceb25058083c786899598">a) <italic id="italic-b58647e2115ec094c6939611dbd0a514">A gloria do desenho e perfil ou traço </italic>concederão<italic id="italic-e0755afd5c7beecf3f39e7701d157198"> os antigos </italic>a Parrhasio,<italic id="italic-32430aa81f6e9e5d8fe1b32789caf26d"> </italic>(CTB-H_001- 1517-1584)</p>
      <p id="paragraph-a7962df601836c4c12bb592a6ab4ae39">b) <italic id="italic-4db643dd02af6f728c262be82ddfae3c">Outro género de esmola </italic>inventou, que em parte merece este nome,<italic id="italic-8d46d1d562242ee629fd7701badf6a02"> </italic>porque abrangia a muitos pobres e, em parte, era virtude de hospitalidade dos Santos antigos tão estimada. (CTB-S_001_1556-1632)</p>
      <p id="paragraph-d4788ba52c343e264913e4136fe1d744">.</p>
      <p id="paragraph-6d1a82bf06989502b05892c376dacf3f">A freqüência de ocorrência de estrutura de tópico em sentenças de ordem superficial V3 é mais restrita:</p>
      <p id="paragraph-d5e13b37bb04eac69eceb0f211f54e7e">.</p>
      <p id="paragraph-742cf351314ba918c76249fad1967ee2">(11)</p>
      <p id="paragraph-1a8aaa44631393a76532a7be341b306b">a) e <italic id="italic-6a6c3a3a7867b66da351bf3dc83f3790">a dõ Pedro ysso mesmo</italic> estprevy. (CTB_D_001_1502-1557)</p>
      <p id="paragraph-b4bb3dd51731076a5677000924d88358">b) <italic id="italic-bdc8950caef66024f6dd924220e83d15">nenhuma cousa o avaro </italic>faz boa senão quando morre (CTB-L_001_1579-1621)</p>
      <p id="paragraph-1134b721c3dc6d0765971ecede4b61ac">.</p>
      <p id="paragraph-01a0ac95604e5cc0d021f7b78d810594">Em se tratando de sintagmas diferentes de objeto em posição de tópico, a freqüência maior de ocorrência é atestada também em sentenças de ordem V2 sem clítico:</p>
      <p id="paragraph-131ea91e827923bcd0c92420991b4f72">.</p>
      <p id="paragraph-b652f8475bfa4f7097b8f2017a81d682">(12)</p>
      <p id="paragraph-a7bb8319de519467438be6361fcdb108">a) <italic id="italic-679f54e58d8db07c5df7aed247b780b8">Com êste recado </italic>despedio Martim Affonso de Mello Juzarte, logo<italic id="italic-980ffc75d25446e19f155c3e98331883"> </italic>Belchior de Sousa, homem Fidalgo, e bom Cavaleiro, com setenta portugueses pera se ir meter naquela fortaleza (CTB-C_007_1542-1606)</p>
      <p id="paragraph-fb5fcccf6713eda43eebde2008e4de19">b) <italic id="italic-00cbc969ea50b6d90611f476cdc07e8c">Della </italic>ouve Nino hum filho, a quem deu seu proprio nome,<italic id="italic-67b2317ff206dbce301976915d8c06ae"> </italic>(CTB_B_007_1569-1617)</p>
      <p id="paragraph-08a84dceb4538f3ef525a3832e697ab5">c) mas <italic id="italic-17af6f1ce644aead0af2e66c690962eb">em Lacedemonia</italic> cortarão os romãos a huma pintura da parede de tigiolo ao redor, e a trouxeram a Roma em caxas feitas de madeira. (CTB-H_001_1517-1584)</p>
      <p id="paragraph-d784aa0b3706a2421f0cf0dfdf4c46da">.</p>
      <p id="paragraph-12d29dde96365f30e9b58a78718a5223">As ocorrências dessas estruturas de tópico em sentenças de ordem V3 sem clítico são encontradas com menor freqüência no corpus:</p>
      <p id="paragraph-a819dcdd2e96c672f7b1b564ea94b15d">.</p>
      <p id="paragraph-6c30862d05ad85729b472a0177b46e8a">(13)</p>
      <p id="paragraph-005842c3af079a6fe76a7b0d215675e2">a) <italic id="italic-d2a1dd41c8797b173cf351afb05e3353">Depois de seu falecimento pelo mesmo respeito </italic>fez mercê a sua mulher<italic id="italic-f135996d3d16172dfae6bc3d48456e1b"> </italic>da quantia de quinhentos mil réis. (CTB- F_001_1583-1655)</p>
      <p id="paragraph-dc743a8de0576b675b62b4b12e687499">b) E <italic id="italic-fc0118d1d620458173f10d6ce8522b1d">muitas vezes</italic>, <italic id="italic-2aa2e419d725987825386bc4caca293c">com ímpeto do espírito</italic>, levantava os olhos ao Céu e como arrebentando dizia com grande afecto: (CTB-S_001_1556-1632)</p>
      <p id="paragraph-89b23994ed9d4e41da4b0cd95e5c39bc">c) <italic id="italic-d889d17c2ef1c5528ed1c231514e3810">A esta causa</italic>,<italic id="italic-34acb51712c0a0794994dbfb9adb6f89"> com alta providência</italic>, fingiram os poetas cuja arte foi<italic id="italic-f2931d9acd80490975235c938a8b778d"> </italic>mestra do mundo, que aquele seu Anfion se convertera em corvo. (CTB-M_004_1608-1666)</p>
      <p id="paragraph-f1312c6da580711781e2db6f9517a0d0">.</p>
      <p id="paragraph-0615409aab89cf58e622e1b0e377f0bd">Neste artigo, apresento as evidências empíricas encontradas no corpus que vêm garantir a ordem subjacente canônica V2 das construções de tópico do português dos séculos 16-17, realizadas em orações de ordem superficial V2/V3/V4 sem clítico. Apresento também os fatores estruturais envolvidos nas mudanças que emergem no licenciamento dessas construções nos textos dos autores nascidos entre 1702-1845. Com esse propósito, organizo o artigo em duas partes. Na primeira parte, apresento o resultado obtido na quantificação dos dados dos autores nascidos entre 1502 e 1696. Na segunda parte, apresento as mudanças de comportamento sintático atestadas nos dados dos autores nascidos entre 1702 e 1845, que revelam a participação de um sistema gramatical de natureza diferente do sistema V2 na formação das estruturas de tópico no português desse período.</p>
      <p id="paragraph-ab8b594c79017fbeaaddadaf5a5cc7cd">.</p>
      <sec id="heading-064ae70f3c26f172f75e3a8cf58fab33">
        <title>1. Resultado da pesquisa</title>
        <p id="paragraph-4c9c5e605696bdf20e29cdaa5214480a">Para a efetivação deste trabalho, levantei 6048 sentenças com sintagmas em posição de tópico em orações raízes, coordenadas e dependentes, realizadas em sentenças de ordens superficiais V2/V3/V4, compreendendo: 1048 ocorrências de objeto em posição pré-verbal na forma de estrutura de Topicalização; 217 ocorrências de objeto em posição pré-verbal na forma de Deslocada à Esquerda Clítica, com o clítico disposto em próclise/ ênclise; 4598 ocorrências de sintagmas diferentes de objetos em posição pré-verbal na forma de estrutura de Topicalização.</p>
        <p id="paragraph-501461dc3438e51b64d1b9d4e4543199">Tendo o objetivo de mostrar as diferenças de comportamento sintático no licenciamento das estruturas de tópico na diacronia, apresento o resultado obtido na quantificação dos dados dos autores nascidos entre 1502-1696 separadamente do resultado obtido na quantificação dos dados dos autores nascidos entre 1702-1845.</p>
        <p id="paragraph-4d920d0cb7c7c0b26b6ed089d5ec7aaf">Conforme ressaltei na introdução deste artigo, o português dos séculos 16-17 apresenta a propriedade de formação de estruturas de tópico em posição interna e/ou externa à oração, com o sintagma pré-verbal na categoria de elemento fronteado e/ou adjunto, em sentenças de ordem V2/V3/V4. O resultado da quantificação das ocorrências de objetos com a função de tópico na forma de estrutura de Topicalização, formadas em orações sem clítico e/ou com clítico disposto em próclise, levantadas dos dados dos autores nascidos nos séculos 16-17, confirma a tendência do português daquele período de licenciar estruturas de tópico em sentenças de ordem V2.</p>
        <table-wrap id="table-figure-c0d35f36274e0178d8510cf788e202de">
          <label>Table 1</label>
          <caption>
            <title>Tabela 1</title>
            <p id="paragraph-843c7b340a6abc6c766d00f8d83b0498">Freqüência de ocorrência de estruturas de Topicalização de objetos em sentenças ordem superficial V2/V3/V4 sem clítico e/ou com clítico disposto em próclise.</p>
          </caption>
          <table id="table-b6c5cee3316dc1f5e5b20bcfec0d69c4">
            <tbody>
              <tr id="table-row-9f238a3f9e1a06c1fefd3db5ab212f9c">
                <td id="table-cell-9e6cc1e0a641b9636e63aa45258ec038">Ordem superficial</td>
                <td id="table-cell-be7726168d1e13516e0ca103becdde76">1502-1597</td>
                <td id="table-cell-3fe706f942aa647860ef4084322f0fd0">1601-1696</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-5035c9b6a9a6562dca0cd8867eb4e9f5">
                <td id="table-cell-21f7bb1a7b1b853a05431f1ee18b7ac5">V2</td>
                <td id="table-cell-e2ac2ff0f1eaa32cd4ba8bbb6c8d0f88">96,5</td>
                <td id="table-cell-a921dcd987c48701cdfc1331cf0591cd">94,7</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-375fc7aeadd4f154e7e23d4b5bbc3fba">
                <td id="table-cell-7c17621dde20e038706c4b1e9734a8ee">V3</td>
                <td id="table-cell-dcfc0bc1c3d7d244cc32f0b04f96f380">2,5</td>
                <td id="table-cell-3087339dd6bbc435d3d268da9dc2edaa">5,1</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-d53b73cb9bfa90ae69725fde2345feaf">
                <td id="table-cell-6f95192552aa975fa10f092cf6b396cf">V4</td>
                <td id="table-cell-09f198cf1d518acfa98522169ebfdea0">1</td>
                <td id="table-cell-0b9cc592cbfa8cd67eef3c3801a01783">0,2</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-409840ccd14d7c57aca86c59aa11d660">Este mesmo resultado é obtido na quantificação das ocorrências que legitimam advérbio/locução adverbial, sintagma preposicional e/ou predicativo com a função de tópico.</p>
        <table-wrap id="table-figure-c5a052a59f737317d55d7be7ede2b9b4">
          <label>Table 2</label>
          <caption>
            <title>Tabela 2</title>
            <p id="paragraph-e9645c0258722caee090c5f6971faa02">Freqüência de ocorrência de estruturas de Topicalização de advérbio/ locução adverbial, sintagma preposicional e/ou predicativo em sentenças de ordem superficial V2/V3/V4</p>
          </caption>
          <table id="table-ef39885b732901a3959718f9083e2183">
            <tbody>
              <tr id="table-row-90f07d91bab780507a559ca5ce9eff2b">
                <td id="table-cell-61f826cd2f32a09313da543322f01c20">Ordem superficial</td>
                <td id="table-cell-748c41bd6ad1d9b63ea13139dd813341">1502-1597</td>
                <td id="table-cell-95aee65da830b2bc83fd2443a822fc9d">1601-1696</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-9bd96e4edad4f6af40f7fb55d1022cd1">
                <td id="table-cell-33988e0d7dc505612ac360cd6d3059fd">V2</td>
                <td id="table-cell-7b0f32d0c5c71866a4a89ed151a90d7a">92,5</td>
                <td id="table-cell-bf282c4748ee0d790947d0de80c95b1d">90,2</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-6af6bcfea6f6d01badf370b9eb1a08bd">
                <td id="table-cell-27f539e6f0c3df22a068580d5d20e9c2">V3</td>
                <td id="table-cell-fbb937f3a3b3329701025067cad6b97b">6,7</td>
                <td id="table-cell-6e2a86d9655525bac2c89ecd37757184">9,3</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-47f7ff443d56d231ab2967f9cbcc89a7">
                <td id="table-cell-e9d1179607b9578c87daf2a9cd890d0f">V4</td>
                <td id="table-cell-5ec1ec386efc9bca7612ab3e2660f05b">0,8</td>
                <td id="table-cell-430758fbf8320146c8fa923059b16f94">0,5</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-f04e0cb0a512eb62e7eadc7c45c6c84c">Assumindo a proposta de Galves (2004)<xref id="xref-e8844f09d7a296dc94d315fbb2474f9d" ref-type="bibr" rid="book-ref-68562badb836873408cdda3589fba75f">[3]</xref>, Paixão de Sousa (2004)<xref id="xref-aa84384a9a5677b0a28b1b7df2f95ba8" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-395fa4eec17bb15892d0798419bac7ab">[4]</xref> e Galves; Britto e Paixão de Sousa (2005)<xref id="xref-01981b955614a3fc505652fa4787f1b6" ref-type="bibr" rid="book-ref-0ee1306e4bc92c6020e512f03acd87d1">[5]</xref>, referida acima, proponho que, nas ocorrências de estruturas de Topicalização, em sentenças com clítico disposto em próclise, o sintagma pré-verbal é um elemento fronteado, realizado na posição de tópico interna à oração. O verbo é o segundo elemento da oração. Assim considerando, argumento que nas estruturas de Topicalização, formadas em sentenças de ordem V3/V4 com clítico disposto em próclise, a ordem subjacente V2 é definida pelo elemento que precede imediatamente o verbo, realizado na posição de tópico interna à oração. A realização de sintagma na posição de tópico interna à oração é, portanto, o fator que define a ordem subjacente V2 nas estruturas de Topicalização em sentenças sem clítico do português dos séculos 16-17. Por outro lado, a restrição licenciamento de objetos na forma de estrutura de Topicalização em sentenças com clítico disposto em ênclise, revelada na pesquisa, resulta da tendência daquela gramática de realização desse constituinte com a função de tópico na categoria de elemento fronteado, realizado em posição de tópico interna à oração.</p>
        <p id="paragraph-2172a337a3549a24cca62d978e036b9d">Outro fato atestado na pesquisa que vem assegurar a ordem V2 subjacente nas construções de tópico licenciadas nessas ordens variantes, em sentenças sem clítico, é a freqüência predominante de formação dessas estruturas com o sujeito expresso em posição pós-verbal, configurando a inversão germânica. A inversão germânica, como propriedade intrínseca do português dos séculos 16-17, é regularmente desencadeada em estruturas de tópico formadas em sentenças com verbos transitivos:</p>
        <p id="paragraph-80f79c1947e005d084e6f88dbf76a397">.</p>
        <p id="paragraph-ab2ada047cebe0823c97e032b42d688a">(14)</p>
        <p id="paragraph-aec904236d1edcd94195bdd099c96fbe">a) <italic id="italic-597af0e53b6dd875bf3cd8fd47738763">Com êste recado despedio Martim Affonso de Mello Juzarte</italic>, logo<italic id="italic-a9430d32017cc8c9bd0ae43a04e2075f"> </italic>Belchior de Sousa, homem Fidalgo, e bom Cavaleiro, com setenta portugueses pera se ir meter naquela fortaleza (CTB-C_007_ 1542-1606)</p>
        <p id="paragraph-d3dd86d84b5531702a552f4e36add733">b) mas, <italic id="italic-aeb407b006f36098424a02c58a48eea4">depois de horas de véspora</italic>, <italic id="italic-bcdfc95b699c6175d122df541f419052">visitou o Estudante</italic> em companhia de Píndaro ao Doutor Lívio (CTB_L_001_1579-1621)</p>
        <p id="paragraph-5e6f317bee7a707266816630c5516bb5">c) <italic id="italic-24005d41fe6b5e80f5d52d074b85c7da">Della ouve Nino </italic>hum filho, a quem deu seu proprio nome,<italic id="italic-7bb1ed31673e6e3959b5d9a74b69b88e"> </italic>(CTB_B_007_1569-1617)</p>
        <p id="paragraph-02b6724c2f853002371da62c8c487d6e">.</p>
        <p id="paragraph-c6783b047b2883e42e1a226ca9438a1a">e/ou com verbos intransitivos/inacusativos</p>
        <p id="paragraph-333b8129cab6998d7f3061c53285bd94">.</p>
        <p id="paragraph-47a2199c58d4e15c64fcf0329825d4c9">(15)</p>
        <p id="paragraph-8dc19a1b3b7102da2fe81c9c5911f17c">a) E <italic id="italic-cc47c9c00d685e34553b36b2e1d54715">esta noyte</italic> veyo <italic id="italic-e9048b9114fc8631d7ee552e1530a72f">Recado d’Ayres da Cunha</italic>, (CTB-D_001_1502-1557)</p>
        <p id="paragraph-fcd0d457321ec77c66961fd2a0313aac">b) <italic id="italic-9a6b13fc22d5a48ea0c036d566d17589">Da fonte da pintura e primeira causa </italic>será o começo de nossa obra;<italic id="italic-664c7ed96c039de9b7814e228e13adc3"> </italic>(CTB_H_001_1517-1583)</p>
        <p id="paragraph-0fd539c8715e8fecc5a6e36ae8b3d231">c) <italic id="italic-2e1c81cdd52558ff92ecc2e7de26aba1">Neste tempo </italic>faleceo<italic id="italic-012c38c8c7e7d72fdea4884f818030e5"> ElRei Dom Manoel</italic>, que se estava fazendo<italic id="italic-a70591ab50d94965aa413bfb20103569"> </italic>prestes pera se ir pera o seu Reino.(CTB-C_ 007_1542-1606)</p>
        <p id="paragraph-9">d) <italic id="italic-e727613053cbf4e6160cd6871aa6979f">Contentissimos </italic>vivião<italic id="italic-0e7f57654e5e39f777e372dae855ce0c"> os Pays primeiros</italic>, ornados com o dom da<italic id="italic-c9eb1d488e6711591a213c314f70ab3b"> </italic>justiça original, que na criação lhe fora dado, goardando todas as potencias inferiores, (CTB_B_007_1569-1617)</p>
        <p id="paragraph-d17764e041235883aa9f0f724b41a981">.</p>
        <p id="paragraph-8dca7a86b4dd49e41c7175c85009fec5">A quantificação das ocorrências de advérbio/locução adverbial, sintagma preposicional e/ou predicativo em posição de tópico, em sentenças de ordem V2 com verbos transitivos e/ou intransitivos/ inacusativos, pertinentes aos dados dos autores nascidos nos séculos 16-17, mostra o resultado que apresento na tabela a seguir.</p>
        <table-wrap id="table-figure-78c35c16d887a737a504ee2051ebd1bc">
          <label>Table 3</label>
          <caption>
            <title>Tabela 3</title>
            <p id="paragraph-85fd393bb8a024aedabfc92926102b85">Freqüência de ocorrências de advérbio/locução adverbial, sintagma preposicional e/ou predicativo em posição de tópico em sentenças de ordem V2 com verbos transitivos e/ou intransitivos/inacusativos</p>
          </caption>
          <table id="table-6eaf8732ea1bd2039a304cf34ae5e8d4">
            <tbody>
              <tr id="table-row-e834afad25c0b0af19e48c63878ba3b8">
                <td id="table-cell-53f0c33db6c56a08c3aa27087385c130">Natureza dos verbos</td>
                <td id="table-cell-493b0ff567637038a5c23e934e78aaf9">1502-1597</td>
                <td id="table-cell-ebc732b454d1742d9ff262786046ebd8">1601-1696</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-cccc42e66e00334426fa091c99b5a4fc">
                <td id="table-cell-511a9702144deaa6f0dff087602764db">Transitivo</td>
                <td id="table-cell-b4dde04f6903c6b7865229e9c3ddc96d">47,5</td>
                <td id="table-cell-3d21009da73b389f81dd5ec250534e5a">53,8</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-16cd42e69d39b74458a8613e208497f6">
                <td id="table-cell-ae2f23ec07915d261c5dd1c564f5bf33">Inacusativo/Intransitivo</td>
                <td id="table-cell-b3910ac5950f5c902909a1e4c449b86e">52,5</td>
                <td id="table-cell-c05cda3f4ee2524641791311f9da9aa1">46,2</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-ddb1cde46c5de6a93b154b885874003f">Outros fatores, observados no nível estrutural das sentenças, são evidências que caracterizam a natureza V2 da gramática que licencia as estruturas de tópico do português desse período. Um dos fatores que vêm confirmar a natureza V2 da gramática que atua na formação dessas construções é o licenciamento de DPs descontínuos em posição de tópico, fenômeno este comum às línguas V2 (cf. De Kuthy, 1998;<xref id="xref-9ff3c62387640a6cee2f4ccbc18a4325" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-ebca2e7733acb83eb7a37791d448d4e5">[8]</xref> M<sup id="superscript-9322953d80e4373165d619a7ec253cc1">C</sup>Nay, 2005b)<xref id="xref-6b454fd1d1baac8ced34e05ceba38def" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-28f65e487b7e6b1df9beb01fb029317f">[9]</xref>. Os dados dos autores nascidos entre 1502-1696 apresentam ocorrências de topicalização de objetos diretos na forma de DPs descontínuos. Nessas ocorrências, o complemento nominal do núcleo do objeto direto é deslocado para a posição de tópico interna à oração, permanecendo o núcleo desse constituinte in situ, dentro do VP.</p>
        <p id="paragraph-480a14ad9860c3d3383760cfc66a6551">.</p>
        <p id="paragraph-b1a54894e9bdaf41f80fe386dc3025e0">(16)</p>
        <p id="paragraph-9dbef920fbb4002b4731842b399d0b46"><italic id="italic-cbc3b9314c1947237b5dc91884d6341c">Da morte desta Senhora </italic>teue a veneravel Madre<italic id="italic-7b012aef42a2781ebe8f57088133297e"> mysteriosos sinaes </italic>(CTB-C_002- 1658-1753)</p>
        <p id="paragraph-6f6c704ab65c4d31ec073c3f0fbe781b">.</p>
        <p id="paragraph-91523890e1d36ac75d9f2317e109bc8e">Esta propriedade do português dos séculos 16-17 de topicalizar partes de sintagmas é reafirmada no contexto de mini-oração. Os dados dos autores nascidos nesse período apresentam ocorrências nas quais apenas o sujeito da mini-oração é deslocado para a posição de tópico, ficando o seu predicado no VP.</p>
        <p id="paragraph-4ec5587b4337a90c722b591cc9fa4c3c">.</p>
        <p id="paragraph-8dd3e308fdbcde9485b87d8af5783914">(17)</p>
        <p id="paragraph-3b5eb0d5d85458ebb1326cabaec5c254">a) <italic id="italic-874b3f9fdf7619bade8aab6de3478ec6">Razões </italic>tinha o nosso Arcebispo<italic id="italic-a2c869b91ee09c58beb38661d79e04e9"> bem suficientes </italic>pera poder furtar o corpo<italic id="italic-a7a9a578f7cdbfadb063c45db08c801a"> </italic>ao trabalho de tão comprida jornada.(CTB- S_001- 1556-1632)</p>
        <p id="paragraph-2">b) <italic id="italic-4d20ef1e40866c97586a58e678c761e1">Ao Conde de Gebrian General do exercito, que venceu a Lamboi</italic>, fez<italic id="italic-5b6652b0f5cc96ef88095137681eaf74"> </italic>elRey <italic id="italic-bc8596ab7c2c312d1b216ed142b63598">Christianissimo Mariscal</italic>, e a Monsiur de la Mota de Ancour. (CTB-G_001- 1597-1665)</p>
        <p id="paragraph-4">c) <italic id="italic-4262f0fb652129c9fca5a1c44c3852a2">A Hercules </italic>pintou a Antiguidade<italic id="italic-80a0ba6686dd0ad6ca115441f818d8f0"> ornado com huma Clava, que lhe arma as maõs</italic>, e com cadeas, e redes, que lhe sayem da boca, e<italic id="italic-34c6502008d6791bdc391354a6163d12"> </italic>levaõ preza infinita gente.(CTB-006-1601-1667)</p>
        <p id="paragraph-6">d) <italic id="italic-62d67cca5d6308368e3cf928c346dd13">As ruínas </italic>veria Vossa Mercê<italic id="italic-9a3fb28499a44be422f5b6483a8b6a47"> lastimosas, </italic>se agora aqui se achasse,<italic id="italic-016f5c5df3fb741349d004a6c85384e7"> </italic>no estrago que fez um depósito de pólvora, (CTB- G_006- 1695-1724)</p>
        <p id="paragraph-03dfaa6d27b486d17cdd6dd0cd3f855c">.</p>
        <p id="paragraph-06e91eef35fd4dcd21281fee0b601629">Outros dados mostram ocorrências nas quais o complemento do núcleo do predicado de mini-oração se apresenta em posição de tópico; o sujeito e o núcleo do predicado dessas estruturas permanecem no VP.</p>
        <p id="paragraph-d45c341cfd7ea468067c72cc28d2e5f9">.</p>
        <p id="paragraph-b478d45b1b28dd135be464cc4a90b3a0">(18)</p>
        <p id="paragraph-a361c3799e432499f4fa3eab86145bed">a) <italic id="italic-75ff0af85925c29453e33c18593e7651">De armas, e sabedoria </italic>vemos<italic id="italic-3ac91270c491ae29815b80141582aab0"> ornado, e fortalecido </italic>a Vossa Alteza<italic id="italic-dc4d12bf93ce4e25ee601d3f2580ac7d"> </italic>(CTB-C_006- 1601-1667)</p>
        <p id="paragraph-ae5d5f1a55356df6764a7fe2ee6768e5">b) <italic id="italic-7589eb5fbebf1219bf0beed05a906fa7">De boas rezões </italic>vinha Frei Bertolameu<italic id="italic-7ab5c25a1bddcbe371f29df524b85426"> armado</italic>, se houvera de ser<italic id="italic-1398db667ca5421797ab41def6938a88"> </italic>ouvido, como inda esperava.(CTB-S_001- 1556-1632)</p>
        <p id="paragraph-3898a43a147fb59b343de2e4505cdff0">.</p>
        <p id="paragraph-a88270c3f0d36dbfd302cc66b0f4db7d">Este fenômeno, como propriedade do português dos séculos 16-17, é confirmado no contexto de mini-orações licenciadas com verbos intransitivos. Nessas ocorrências, o predicado da mini-oração é o elemento que se apresenta em posição de tópico.</p>
        <p id="paragraph-7c43b32ed85820b2c5fd39b88053e117">.</p>
        <p id="paragraph-044fc9411a4ce5ad44449677fe3faf72"> (19)</p>
        <p id="paragraph-6147ae6e9643aaf5a92b0cacdf59bcbb">a) <italic id="italic-2e864fe2a6e22c78a74fd7ddf462aaaf">Contentissimos </italic>vivião<italic id="italic-e2e0b198c12d79ee18c649600f1b5390"> os Pays primeiros</italic>, ornados com o dom da<italic id="italic-ea4c1730e84f20cb079922d0ae5714fd"> </italic>justiça original, que na criação lhe fora dado, goardando todas as potencias inferiores, (CTB-B_007-1569-1617)</p>
        <p id="paragraph-13e5d8f737a3915016fd199350697b62">b) <italic id="italic-90e27339a8761bb67cc7782cbd8f0ee1">Muito magoado </italic>andava<italic id="italic-775e75c251f04171ba202bf91d5835e3"> o Governador Martim Affonso de Sousa </italic>de<italic id="italic-42ac8a73b17d2334a85cd57ea9aa3634"> </italic>Coge Cemaçadim o ter enganado no negócio do tesouro do Accedecan, (CTB-C_007-1542-1606) </p>
        <p id="paragraph-515a0b310d6993686ad8e804f2838825">.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-35abbcf7ebfcbbffb06adf6940285910">
        <title>2. O licenciamento das estruturas de tópico do português a partir do século 18: mudanças de comportamento sintático</title>
        <p id="paragraph-904388d304608c6e06aba3c6c838ed53">A investigação dos dados dos autores nascidos a partir do século 18 revela mudanças de comportamento sintático no licenciamento de estruturas de tópico. O primeiro fato implicado em mudança de comportamento sintático, atestado em seus dados, é a queda acentuada da freqüência de uso de objetos topicalizados na forma de estrutura de Deslocada à Esquerda Clítica com o clítico disposto em próclise em ambientes sintáticos não categóricos:</p>
        <p id="paragraph-00feb643f81a47ba125c71ae1d3a2618">(20)</p>
        <p id="paragraph-862970123e52c7d02515830d82a27b51">a) <italic id="italic-babe2f916930ee963f2093281756e9bb">Esse destino lho </italic>pedi eu muitas vezes.(CTB-B_004_1825-1890)</p>
        <p id="paragraph-b166caeca199dbb728f2100cacdc6608">b) b) <italic id="italic-dd14a4a4fcd7365649417bb582cb1dcd">Aquilo lá o</italic> arranjaste tu com essa tua cabecinha! .(CTB-B_004_1825-1890)</p>
        <p id="paragraph-74edcb2985c2f719bc83dc1af9a2a94d">.</p>
        <p id="paragraph-343694b40ac9465ca607312fe1f665d5">O uso maior da próclise nesse tipo de estrutura é assinalado em sentenças que apresentam o clítico em ambiente categórico:</p>
        <p id="paragraph-a7bab0b78c399b4df6a1e44e5f4e4019">.</p>
        <p id="paragraph-4605ef428491c33b6539a06347c467c6">(21)</p>
        <p id="paragraph-24f4c6e5772988af4c829a4890caacbe">a) <italic id="italic-af3d1c9b877097fa3e8a6f939b15c6bf">Notícias da Corte não as </italic>tenho.(CTB-C_001_1702-1783)</p>
        <p id="paragraph-93217f3bd7ec673ece236fe0cd2c1940">b) <italic id="italic-3e6c8ae80bc4471d6f2d44c7417b2cbb">Esmolas só as </italic>recebo daquela mulher.(CTB-B_004_1825-1890)</p>
        <p id="paragraph-61e0b827013bd2520a65b66c0532b2a1">c) Esta condecoração não a porei absolutamente nunca em Portugal a não ser dentro da legação de Espanha, que é território espanhol. (CTB-O_001-1836-1915)</p>
        <p id="paragraph-57ecc2d220dbcd52051a995ae5d67c83">.</p>
        <p id="paragraph-77561350ee75f466423cb9924dfbfb11">Em ambiente não categórico, a freqüência maior de objetos topicalizados na forma de Deslocada à Esquerda Clítica apresenta o clítico disposto em ênclise. Por outro lado, outro fato vem acentuar a mudança de comportamento sintático no licenciamento dessas estruturas de tópico no português a partir do século 18: o uso da ênclise, nessas construções, deixa de estar condicionado à natureza de tópico em contraste do objeto deslocado para a posição pré-verbal.</p>
        <p id="paragraph-b2df3fa5be4a8c4c3dd8f646a98f8214">.</p>
        <p id="paragraph-25838540677d8d8b6ae8f4bc60f5465f">(22)</p>
        <p id="paragraph-c1bb81e89deacd32d6b3a24efaef6f7a">a) <italic id="italic-d36ea27c54ef6893bb892be7bbe9e92d">Ao amigo que prega os guardanapos grandes</italic>, sucedeu-<italic id="italic-c290e5a404a9eb2bcdea4857b2392a50">lhe </italic>neste dia<italic id="italic-3a91d2d5b7da4f0d385989120345941c"> </italic>uma desgraça.(CTB-C_001_1702-1783)</p>
        <p id="paragraph-cfb1ff8508f7bfaa187a7c14cf789c97">b) <italic id="italic-c74110957518a800b9b590adf06ced69">O despotismo</italic>, detestava-<italic id="italic-7296623e0b5945a66c8f5106c1ff89f7">o </italic>como nenhum liberal é capaz de o<italic id="italic-49f4f217d90739737e0b2f5dee295f29"> </italic>aborrecer; (CTB-G_005_1799-1854)</p>
        <p id="paragraph-90ec2dca9188701efc6b11dbeda84dec">c) <italic id="italic-f42f76cd987cdb8a816cf62c13046074">O Prado </italic>espero-<italic id="italic-8b402b79c48d7e52fad7322cc28137d5">o </italic>aqui todos os dias, solteiro creio eu.(CTB-E_001_1825-1890)</p>
        <p id="paragraph-da484886f297f48c5f94c32827f04120">.</p>
        <p id="paragraph-86106bd6a03170bf05a793836c970d42">Uma mudança maior de comportamento sintático ressalta no levantamento dos dados dos autores nascidos entre 1702-1845: evolui, a freqüência de uso de objeto topicalizado na forma de Deslocada Clítica, com o clítico disposto em ênclise, em ambientes neutros, e/ou em próclise, em ambientes categóricos; ocorrendo queda na freqüência de uso de objetos com a função de tópico na forma de estruturas de Topicalização.</p>
        <table-wrap id="table-figure-0f9891daa45f7e791c067b5cd28eb8e8">
          <label>Table 4</label>
          <caption>
            <title>Tabela 4</title>
            <p id="paragraph-79b2a87552b517d9ff5273ad16a739b5">Freqüência de ocorrências de estruturas objetos em estruturas de Topicalização/ CLLD</p>
          </caption>
          <table id="table-4ea85eafa8cc91dc8fc1891684558a1d">
            <tbody>
              <tr id="table-row-ade4e1b635893ae76f1c2d117b70713b">
                <td id="table-cell-34c2e663b50d3b2afd4fdd4efeeca932" />
                <td id="table-cell-5314034d2e8eadd70b511f6dfb30ead8">1702-1750</td>
                <td id="table-cell-c6b386078f82dd31edb2c8995bb7f0ae">1757-1799</td>
                <td id="table-cell-63fb60b5659af1d4bd92850debf38cd7">1802-1845</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-793567dc4b420a7d8532f77ce4f493f2">
                <td id="table-cell-9a9e97d1b4091730fcb94321a9cf14ff">TOP</td>
                <td id="table-cell-64c9091074b8d448fc33d13df3524c26">81,8</td>
                <td id="table-cell-6009398ddba70d37cfdfd001551a63d5">52,7</td>
                <td id="table-cell-67e4449c642611ff94d1b4a04c8c3c67">46,6</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-1abc48f0af6f13caf4058103d24ea016">
                <td id="table-cell-1b70bd0e95584b8915216c4f8e6b591b">CLLD</td>
                <td id="table-cell-e2ac136e44171b4b44b703b1546e6e6d">18,2</td>
                <td id="table-cell-50b77d5411c15075683e7f9c524eccd7">47,3</td>
                <td id="table-cell-e762635bd7954dc32847897f6c789647">53,4</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-1e9d537496aa85f09404c98ef379cae4">
                <td id="table-cell-99d1b80bec68a78feb19607413936d54">Total</td>
                <td id="table-cell-896be04c2a4b4c740ec36a3097db3ea4">100</td>
                <td id="table-cell-3d3386de06310c7e41fa23b1ac319523">100</td>
                <td id="table-cell-4288b752704d18da49259ef35148aa98">100</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-9815bee6f84f2eb447916833f1db0ba3">A queda da freqüência de ocorrência de objetos com a função de tópico na forma de estrutura de Topicalização, paralelamente à evolução de uso de estruturas na forma de Deslocada à Esquerda Clítica, com a realização da próclise restrita a ambientes categóricos, e/ou com a realização da ênclise não mais atrelada à condição de tópico em contraste do objeto em posição pré-verbal, revelam condições estruturais distintas das condições estruturais refletidas no licenciamento das estruturas de objeto topicalizado com retomada de clítico, nas formas variantes com próclise e/ou ênclise, do português dos séculos 16-17. Dentro da hipótese que estou assumindo neste trabalho, a realização de estruturas de tópico com clítico disposto em próclise no português dos séculos 16-17 implica na realização do sintagma pré-verbal na posição de tópico interna à oração. A presença da ênclise nessas estruturas, por seu turno, indica que o elemento em posição pré-verbal ocupa a posição de tópico externa.</p>
        <p id="paragraph-210ec85ecda81b11d165daab7be873a8">Assim considerando, proponho que as mudanças sintáticas, operadas no licenciamento de estruturas de tópico no português a partir do século 18, que resultam na restrição da freqüência de ocorrência de estruturas de Topicalização de objeto e concomitante aumento da freqüência desse constituinte em posição de tópico na forma de estrutura de Deslocada à Esquerda Clítica, são motivadas pela atuação de uma gramática de natureza não-V2, que não licencia a posição de tópico interna à oração. Conseqüentemente, a propriedade dessa outra gramática de não licenciamento da posição de tópico interna à oração justifica a evolução da freqüência da ocorrência de estrutura de Deslocada à Esquerda Clítica, atestada nos dados dos autores nascidos entre 1702-1845. Nessas estruturas, o objeto é um adjunto; o clítico, na condição de pronome resumptivo, ocupa a posição canônica de argumento do verbo.</p>
        <p id="paragraph-c4a11741175aa8d8520b0b8d445dbe66">Outro fato que vem confirmar a atuação de uma gramática que não projeta a posição interna de tópico é a diminuição da freqüência de uso de sintagmas preposicionais e/ou predicativos em posição pré-verbal, observada nos dados dos autores nascidos nesse período; havendo, em contrapartida, evolução da freqüência de uso de locuções adverbiais / advérbios nessa posição.</p>
        <table-wrap id="table-figure-737984020b0df3edbf0103afa9da9c8d">
          <label>Table 5</label>
          <caption>
            <title>Tabela 5</title>
            <p id="paragraph-c72eef0d5e4cced400a983cc1632d38a">Freqüência de ocorrência de advérbio/locução adverbial, sintagma preposicional e/ou predicativo em posição pré-verbal nas sentenças de ordem superficial V2 nos dados dos autores nascidos entre 1702-1845.</p>
          </caption>
          <table id="table-6bf624b6cb609e13f17d635ad2cea97a">
            <tbody>
              <tr id="table-row-edb4a12242e9d30da1dfe4d4881b1635">
                <td id="table-cell-57f8d4ea5fe4b9e2cc923c31a380322d">Natureza do sintagma</td>
                <td id="table-cell-9a14ca294e6f8afbd94a84da82bac3b3">1702-1750</td>
                <td id="table-cell-ec021922551bf7786ade67477093f827">1757-1799</td>
                <td id="table-cell-cd995a293ecaabc93283b8d3954d5db7">1802-1845</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-a908a5e95f3bf82de570c561e452dffa">
                <td id="table-cell-14c18b9c30810233ac7d8fc0e95ed1cd">Advérbio/locução adverbial</td>
                <td id="table-cell-e373b1422889b920264e9c0dc4b96f90">59,3</td>
                <td id="table-cell-5aea88960a70ba7501d929058626eea4">68,3</td>
                <td id="table-cell-15e49f7511ae51f196f90f818410bf67">81,2</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-7b75391c3b27b3b664dca693c6073c5b">
                <td id="table-cell-c7b6d42cc774e0d7dc071000f0edc1d2">Sintagma preposicional</td>
                <td id="table-cell-05f12b620a0970389788a55a037beceb">37,9</td>
                <td id="table-cell-f5014af095627c63c8e178291614e527">29,8</td>
                <td id="table-cell-32cce4977c40c5d1b6c7adf9430b090e">17,9</td>
              </tr>
              <tr id="table-row-45e3bfec1291bd906c6fb25d184d2c75">
                <td id="table-cell-7bb8e32ba1101fe3f3d5577f8d06b240">Predicativo</td>
                <td id="table-cell-71ccb8cf2c37f5addabc687d6347ad8d">2,8</td>
                <td id="table-cell-7a2d6dadd16773589d11ae1288d30214">1,9</td>
                <td id="table-cell-b94e676f20d4302dfb56f4039030fc42">0,9</td>
              </tr>
            </tbody>
          </table>
        </table-wrap>
        <p id="paragraph-c5245101f4cf5fcf296602fbcfe1cde5">Outra mudança de comportamento sintático, atestada nos dados dos autores nascidos entre 1702-1845, que pode ser explicitada em função da atuação de um sistema gramatical com propriedades não-V2 no licenciamento de estruturas de tópico no português desse período, é a restrição de uso de DPs - descontínuos em posição pré-verbal. As estruturas de mini-oração em posição de tópico, encontradas nos dados de autores nascidos nesse período, não se apresentam na forma de DPs-descontínuos. Nessas ocorrências, o DP-objeto, legitimado na forma de mini-oração, desloca-se como um todo do VP para a posição pré-verbal.</p>
        <p id="paragraph-a79701491de0894deaca6d75e85a66e4">.</p>
        <p id="paragraph-5acb34ca07c07b8df1f7dca7c218ab58">(23)</p>
        <p id="paragraph-f9c00865f949a56e4910516e612dcef8">a) <italic id="italic-af01ba0b8e1a8e98b1d32e9268cfb3e7">Thomé Palmilha lhe </italic>chamavam por alcunha, que d’outro nome<italic id="italic-fc04cd9946b6b8b2f0c338f611e1edec"> </italic>lhe não sube nunca; (CTB-G_004-1799-1854)</p>
        <p id="paragraph-30b87b964135ffe5ebaa989e193ed2cb">b) Salvo tal lugar! - retrucou - <italic id="italic-0402789f6f007e8c62cc88565c5f064a">Rebentada te</italic> veja eu a ti! (CTB- B_005-1825-1890)</p>
        <p id="paragraph-8aa50730616ffd05114c17f078ff794a">c) <italic id="italic-99fb41082757a1b847075f9e4de1b20d">Morta te </italic>veja eu antes de à noite! (CTB-B_005-1825-1890)</p>
        <p id="paragraph-4a11ca5084ce8c0cd02e46a7f41faf7f">.</p>
        <p id="paragraph-f6767b5047e163a1f38766e9eeb36de1">A restrição de uso de DPs-descontínuos em posição de tópico é extensiva aos complementos nominais de núcleo de objeto. No corpus, encontrei apenas duas ocorrências de estrutura de topicalização de complemento nominal de núcleo de objeto.</p>
        <p id="paragraph-64760fbfbeeeeabd1966aaee0a51114e">.</p>
        <p id="paragraph-fc4f28d5c149c3717c5c5902e98d1864">(24)</p>
        <p id="paragraph-f69ff1342340ca74d71dad765de93a45">a) <italic id="italic-f9e80f26536e36dab068e4d28522e891">Dos outros ministros </italic>só conheço<italic id="italic-63bdb37740eaa50a8aaeb7dd68a6658b"> alguns </italic>como pessoas – nenhum<italic id="italic-8e5d0e00e254fe907a37a3e7ee0267c7"> </italic>como político (CTB-E_001-1845-1900)</p>
        <p id="paragraph-e305b7abbd67b37e44dc3fc6e7c123c1">b) <italic id="italic-616156d7ec1b296316d9ee949607814e">Destes encantadores velhinhos</italic>, que eu vi e a quem dei palmas,<italic id="italic-73e895f8b6070c84f3d65494ea3b6dc3"> o mais novo </italic>tinha 90 anos. (CTB- O_001-1836-1915)</p>
        <p id="paragraph-88e874e6b567cb6db03725d772dbfda3">.</p>
        <p id="paragraph-8c546df91b7b5fbfb2ad40c8731e60d1">Estas sentenças, entretanto, mostram condições estruturais diferentes das condições assinaladas na topicalização de sintagmas descontínuos do português dos séculos 16 e 17. A ocorrência em (24a) licencia um complemento nominal de núcleo de objeto em estrutura de Foco; em (25b), o complemento nominal topicalizado é o complemento do núcleo do sujeito, realizado em posição pré-verbal.</p>
        <p id="paragraph-3cbda30b8ea79aec1173a2504d273473">.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-17d946a41105c32f6c655730e67f2eed">
        <title>Considerações finais</title>
        <p id="paragraph-3bce020c895d38f265320d7a15c827c6">Apresentei, neste artigo, o resultado da pesquisa sobre o uso das estruturas de tópico do português clássico. O resultado alcançado revela que o português clássico licencia este tipo de construção em orações raízes, coordenadas e subordinadas. A freqüência elevada de ocorrência de estruturas de tópico em sentenças de ordem V2, com um sintagma em posição pré-verbal, aliada às condições estruturais específicas no que se refere à realização de sujeito com material fonético posposto ao verbo e de clítico em forma próclise, me levam a tomar a ordem V2 como ordem canônica na formação dessas estruturas naquela gramática.</p>
        <p id="paragraph-4dd1c405f8adaa084ea903fbbf76e784">Assumindo a hipótese de Galves (2004)<xref id="xref-382078c02e684aea3135610808bb2fc1" ref-type="bibr" rid="book-ref-68562badb836873408cdda3589fba75f">[3]</xref>, Paixão de Sousa (2004)<xref id="xref-9632dba5ae13db263f96597c3d854be0" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-395fa4eec17bb15892d0798419bac7ab">[4]</xref> e Galves; Britto e Paixão de Sousa (2005)<xref id="xref-10e4394270bc4060f79b69d05380ba34" ref-type="bibr" rid="book-ref-0ee1306e4bc92c6020e512f03acd87d1">[5]</xref> do clítico como fator que define a posição estrutural de realização do elemento pré-verbal nas sentenças do português dos séculos 16-17, defendo que o português desse período legitima constituintes em posição de tópico na categoria de adjunto e/ou de elemento fronteado; nesse caso, inserido na estrutura prosódica da oração. Na condição de adjunto, os sintagmas com a função de tópico são realizados fora da estrutura da frase. Na perspectiva dessa proposta, argumento que, nas ocorrências de estruturas de Topicalização em sentença sem clítico e/ou clítico em forma de próclise, a ordem subjacente canônica V2 é garantida pelo elemento que precede imediatamente o verbo, tendo em conta a sua realização na posição de tópico interna à oração. Assim considerando, atribuo à propriedade do português dos séculos 16-17 de projeção da posição interna de tópico o fator que explica o licenciamento sintagmas diferentes de objeto em estruturas de Topicalização, bem como o uso de sintagmas descontínuos com essa função. Em ambas as construções, o elemento deslocado para a posição de tópico interna à oração está sob o domínio do verbo em C<sup id="superscript-0443825ed2e7e6df3e1c3310c88f7657">0</sup>.</p>
        <p id="paragraph-94f7ca3cb860992aec4920d57f199800">Em concordância com o resultado obtido na pesquisa, sustento que as mudanças estruturais processadas no licenciamento das estruturas de tópico a partir do século 18, emergidas na restrição da freqüência de uso de estruturas de Topicalização de objeto e concomitante evolução da freqüência de uso de estruturas de Deslocada à Esquerda Clítica se devem ao estabelecimento, no português daquele período, de um sistema gramatical de natureza não - V2, que não licencia a posição interna de tópico para elementos com essa função. Por outro lado, a não projeção da posição de tópico interna à oração justifica a evolução de uso menor de sintagmas preposicionais e/ou predicativos em posição pré-verbal, assinalada nos dados dos autores nascidos entre 1702-1845; justificando também a restrição, neles atestada, de licenciamento de sintagmas descontínuos topicalizados.</p>
      </sec>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-839235cbe0483875002e4382277576b3">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-ae15a1a70d7a35a18d69ce327a818e26">O Corpus Histórico do Português Tycho Brahe é um corpus eletrônico anotado, composto de textos portugueses escritos entre os séculos 16 e 19. Seu desenvolvimento é parte do Projeto Padrões Rítmicos, Fixação de Parâmetros e Mudança Lingüística, financiado pela FAPESP e dirigido pela profa Dra Charlotte. Marie C. Galves. O acesso a este Corpus pode ser feito através do endereço : www.ime.usp.br/~tycho/corpus<bold id="bold-1"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-1fd4d3004868e7a459e8040daae1e61f">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-166d1de47879c468d04d3db5d7c242ea">Na descrição dos dados que formam os corpora de minha pesquisa, são atestados como ambientes categóricos de próclise os mesmos contextos observados por Martim (1994) e Ribeiro (1992), para o português antigo; Paixão de Sousa (2004) e Galves, Britto e Paixão de Sousa (2005) para o português dos séculos 16 e 17 e Barbosa (2000), para o português europeu: o verbo da estrutura oracional precedido de quantificadores (alguém, ninguém, muito, pouco), partículas focalizadoras (só, até), advérbios modais (bem, mal, já, também), advérbios de negação (não, nunca, jamais).<bold id="bold-2ae308136d545a4374e131a52724ad65"/></p>
      </fn>
    </fn-group>
    <ref-list>
      <ref id="thesis-ref-32cb061f7f8992259abf967409193639">
        <element-citation publication-type="thesis">
          <publisher-loc>Los Angeles, USA</publisher-loc>
          <publisher-name>University of California</publisher-name>
          <year>1987</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
              <surname>ADAMS</surname>
              <given-names>M</given-names>
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