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        <article-title>DEMOÇÃO DE FIDELIDADE NA EVOLUÇÃO DO PORTUGUÊS</article-title>
        <subtitle>UMA ABORDAGEM BASEADA EM RESTRIÇÕES</subtitle>
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        <institution content-type="orgname">Universidade Estadual da Paraíba</institution>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="22/05/2017" />
      <volume>6</volume>
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      <issue-title>DEMOÇÃO DE FIDELIDADE NA EVOLUÇÃO DO PORTUGUÊS: UMA ABORDAGEM BASEADA EM RESTRIÇÕES</issue-title>
      <fpage>57</fpage>
      <lpage>83</lpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-f5c0989614c5d686ea0400127935b7c0">Um problema que a fonologia gerativa clássica nunca foi capaz de resolver de forma satisfatória diz respeito à tendência de fenômenos aparentemente distintos buscarem uma direção ou objetivo comum. No caso da evolução da Língua Portuguesa, parece possível propor a existência de uma conspiração (Kisseberth, 1970) de determinados fenômenos (nomeadamente a queda das geminadas, maior restrição a coda silábica e simplificação de grupos consonantais) na direção de padrões silábicos não marcados. Esta hipótese torna-se viável, neste artigo, ao se lançar mão da Teoria da Otimalidade (Prince &amp; Smolensky, 1993; McCarthy &amp; Prince,1993, 1995), tomando por base a hipótese de que as mudanças históricas são vistas comouma modificação na hierarquia de restrições. Observou-se que, em todos os fenômenos analisados, houve uma demoção da restrição de fidelidade MAX-IO na hierarquia de restrições, ocasionando uma reestruturação da língua e simplificando certas estruturas silábicas.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-56f7cfd65cf16b8b68b904273b872c93">
          <italic id="italic-1">Standard generative phonology has never been able to satisfactorily solve the problem concerning the tendency of apparently distinct phenomena to develop towards a common goal or direction. As for the evolution of the Portuguese language, it seems plausible to propose the existence of a conspiracy (Kisseberth, 1970) of certain phenomena (namely the deletion of geminates, coda restriction and cluster simplification) in the direction of unmarked syllable patterns. This hypothesis can be raised in this article if Optimality Theory is taken into account (Prince &amp; Smolensky, 1993; McCarthy &amp; Prince, 1993, 1995), assuming that historical changes are seen as a reranking of constraints. It has been observed throughout the analyzed phenomena that there has been a demotion of MAX-IO, a faithfullness constraint, causing a re-arranging of the language and, as a result, the simplification of certain syllable structures.</italic>
        </p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-3f85cffd654757d082bcb8b65e518d8b">fonologia histórica</italic>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-a7da5001dca7c0a233e2a4e2a442fc36">conspiração</italic>
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          <italic id="italic-a8cd45470629e10248313f013b581bac">demoção</italic>
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          <italic id="italic-4fccbb15130b8a5fa727a63fab188e14">teoria da otimalidade</italic>
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    <sec id="heading-9f319cf239667728784ce82a93574c86">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-c2286b3efd76e9ed2ce8559589ce4260">Gilberto Freyre, talvez o maior antropólogo brasileiro, escreveu, certa vez, que o Português do Brasil tem uma das falas mais doces do mundo. Sem “RR” ou “SS”, escreve ele (1990, p. 331)<xref id="xref-13aed71cc4ee6e431620faa276e0660e" ref-type="bibr" rid="book-ref-d2c44f1a289ea50b463fb147885bb875">[1]</xref>, e com as sílabas finais moles, as palavras só faltam se desmanchar na boca. Essa visão poética de Freyre a respeito do Português Brasileiro (PB) parece ser o resultado da percepção de uma língua que evita as sílabas travadas e que prima por padrões silábicos não marcados, muitas vezes mais melódicos. Neste trabalho, é aventada a hipótese de que existe um processo no Português Brasileiro (PB) que o direciona para a simplificação de estruturas silábicas, possibilitando um falar mais doce, como bem colocou Gilberto Freyre.</p>
      <p id="paragraph-560a5d87a75427411f3832f9bd62c676">Alguns fenômenos históricos que ocorreram na Língua Portuguesa e certos fenômenos sincrônicos característicos de sua variante brasileira parecem atestar uma conspiração (Kisseberth, 1970;<xref id="xref-ee1202611576801e7c84d55350846373" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-20cf05ce5ab77ea370c168caa0bb75ca">[2]</xref> Crist, 2001)<xref id="xref-74e75b20967b7330f95ffd5fed4f1247" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-614492f13186fb2ea1f005b01a0aab8d">[3]</xref> de fenômenos na direção de sua simplificação silábica ou uma aversão desta língua por sílabas travadas. Evidências históricas surgem em transformações como <italic id="italic-9c199c8458e38ea80f0d0e105288189a">poenna</italic> &gt; <italic id="italic-5d4a95f19f71e71868e75c3069c988b2">pena</italic>; <italic id="italic-c7a98415afb5113e0ccfbd6a938ca7f5">pluvia</italic> &gt; <italic id="italic-4">šuva</italic>; <italic id="italic-5">dat</italic> &gt; <italic id="italic-6">dá.</italic> A supressão de segmentos foi um fenômeno bastante freqüente na transição do Latim para o Português, o que produziu, na maior parte dos casos, sílabas abertas.</p>
      <p id="paragraph-ea2f83e9474f5dd78e7646134c8d81fa">Alguns argumentos sincrônicos também parecem suficientes para que se proponha a idéia da conspiração por estruturas silábicas não marcadas, como em <italic id="italic-764af9e59aaff814bbf659af16b2c774">peixe</italic> &gt; <italic id="italic-96c3e639e1828e1f2c94b2b4de898f51">pexe</italic>; <italic id="italic-a8db52e45e25b1be899b6028e43e4ed9">jovem &gt; jóvi</italic>; <italic id="italic-0974b1795d6412a3e24db3ea598bf723">comer &gt; comê</italic>.</p>
      <p id="paragraph-2f5731840958a7b341d442d77d5fbc8b">Câmara Jr. (1997, p. 26)<xref id="xref-59f3663935f874234162ff059cc132f3" ref-type="bibr" rid="book-ref-abab5069e2a5725127a7ca9cda552a0d">[4]</xref> já afirmava que a Língua Portuguesa se caracteriza por uma grande predominância de sílabas livres ou abertas: “sílabas travadas ou fechadas são muito menos freqüentes e com uma limitação muito grande das consoantes que podem figurar no aclive, isto é, como decrescentes”. É justamente este o objeto de estudo deste artigo: a tendência do PB em primar por estruturas silábicas não marcadas.</p>
      <p id="paragraph-a2a6868b0c58b2b451f68c3a65584287">Neste trabalho, será mostrado que várias mudanças ocorridas na Língua Portuguesa e outras que estão por acontecer podem ser atribuídas às diferentes hierarquias de um número limitado de restrições. Observar-se-á que a história do Português pode ser vista como uma série de estágios, exibindo, cada um deles, uma hierarquia de restrições diferenciada. Leves mudanças no posicionamento destas restrições provocariam variação na estrutura silábica e nas formas fonéticas e fonológicas do Português.</p>
      <p id="paragraph-6b21bcbe3c246087fdeed7e35ead0696">Alguns fenômenos diacrônicos e sincrônicos da Língua Portuguesa parecem caminhar na direção da simplificação da estrutura silábica da língua. Estes fenômenos, aparentemente diferentes entre si, demonstram possuir, no entanto, um traço em comum: em todos eles, a simplificação</p>
      <p id="paragraph-2">é resultado de um mesmo processo – a demoção da restrição de fidelidade MAX-IO. Para entender esta hipótese, porém, faz-se necessário deixar claro o que se entende por conspiração.</p>
      <p id="paragraph-5ae68dbb8ee050fdc13811aaa92ce7ec">.</p>
      <sec id="heading-cb29744b65631154ad52bef64fd7f3d8">
        <title>1. A idéia de conspiração</title>
        <p id="paragraph-ff099be45ff8f4f4792d798043175688">A idéia de conspiração não é nova dentro da ciência lingüística. De fato, ela já surge nos primeiros escritos de Jakobson (1929)<xref id="xref-4b172682ef031a6ecaabccd9f440ac39" ref-type="bibr" rid="book-ref-cc021cb41fc265736e11be176c85c587">[5]</xref>, já no final da década de 1920, que discutia a conspiração pela sílaba aberta no Eslavônio. Jakobson acreditava que algumas regras diacrônicas, aplicadas ao longo dos séculos, tinham uma aparente direcionalidade ou objetivo; no caso em questão, a eliminação das codas silábicas.</p>
        <p id="paragraph-f0267c35f377d143183a87a04781bb93">No entanto, o entendimento mais sistemático do fenômeno conspiratório se dá com o texto de Kisseberth (1970)<xref id="xref-1afa37a7f76a0f25b48cc2dd4f24d5bf" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-20cf05ce5ab77ea370c168caa0bb75ca">[2]</xref>. Nesse trabalho, ele observou que várias regras fonológicas em Yawelmâni, uma língua extinta falada por índios da Califórnia, possuem um propósito semelhante: elas eliminam ou deixam de criar seqüências de três consoantes adjacentes (do tipo CCC). Kisseberth (1970, p. 291)<xref id="xref-bd5dacb0d9c78b06ec52da55a743042f" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-20cf05ce5ab77ea370c168caa0bb75ca">[2]</xref> afirmava que para a teoria gerativa padrão, a conspiração era um sério problema, pois não havia um mecanismo para fazer conexões entre as diversas regras que coexistiam na gramática das línguas.</p>
        <p id="paragraph-efe0519fcd8d0f6a2d0bddcdc87ffc61">A Teoria da Otimalidade (TO) (Prince &amp; Smolensky, 1993;<xref id="xref-35866f5b3215288d22a98b7c838e1f40" ref-type="bibr" rid="book-ref-abd4548e0bf165c2f1826fd42f893dcb">[6]</xref> McCarthy &amp; Prince, 1993;<xref id="xref-6c77935430a3d8991265b1c1bccf7a60" ref-type="bibr" rid="book-ref-a0b4064a919dc32a8f056a02ba83af7c">[7]</xref> McCarthy &amp; Prince, 1995), como se verá mais adiante, em virtude de seu caráter inerentemente interativo, dá conta mais satisfatoriamente desse aspecto particular da conspiração. McCarthy (2002, p. 93)<xref id="xref-9a038e0ae76c3ee15b8c9b4fb43753da" ref-type="bibr" rid="book-ref-8ec98fd1d9807060aed9102e60a3388f">[8]</xref> afirma que a mesma configuração do <italic id="italic-1a8153e44574418e935b5a683f50cd67">output</italic> pode ser alcançada de diferentes maneiras entre as diferentes línguas e até mesmo dentro de uma mesma língua. O autor chama esta propriedade da TO de <italic id="italic-e715848b8c3306d7579b4fe4c737e9e4">homonegeidade do alvo/heterogeneidade do processo</italic>, isto é, ele defende que<italic id="italic-e604c122c316b21c868926a25790e712"> </italic>existem diversas maneiras de se atingir o mesmo objetivo dentro das línguas. Dentro da Teoria da Otimalidade, o conjunto da gramática – no caso em questão, o conjunto da fonologia da língua, – consiste de uma hierarquização das restrições. Isto significa que não existem processos isolados. Todos os processos interagem potencialmente entre si. A situação na TO, desta forma, é diferente da teoria gerativa padrão, em que cada regra é completamente autônoma das demais.</p>
        <p id="paragraph-47f6b819fc3db25d6457b72bb248e92d">Crist (2001)<xref id="xref-94b208d1dd384986dd8a878bd19409f7" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-614492f13186fb2ea1f005b01a0aab8d">[3]</xref> defende a idéia de conspiração na fonologia histórica por intermédio de três línguas distintas: o grego, o germânico ocidental e o Eslavônio. Para o grego, Crist (2001, p. 34) apresenta as seguintes regras que culminaram na eliminação do /j/:</p>
        <p id="paragraph-534268fb11e2bee06de246cec69a24c0">.</p>
        <p id="paragraph-4f95627d8b4fec3b84b95f6e3e213aeb">(1)</p>
        <p id="paragraph-3">*-anj- &gt; -ain- (através de metátese)</p>
        <p id="paragraph-5">*-onj- &gt; -oin- (através de metátese)</p>
        <p id="paragraph-c413b15282de5410a6eb8a687b0fe12f">*-unj- &gt; -u:n- (através de apagamento e alongamento compensatório)</p>
        <p id="paragraph-ed5a48c651589ddb950f2c7e1d829350">*-enj- &gt; -e:n- (através de apagamento e alongamento compensatório)</p>
        <p id="paragraph-d09b98789919306ce11261d698b04f38">*-inj- &gt; -i:n- (através de metátese ou apagamento e alongamento compensatório)</p>
        <p id="paragraph-8">*-lj- &gt; -ll- (através de geminação)</p>
        <p id="paragraph-67c15966fb3b078fa98b343dc2ef789e">.</p>
        <p id="paragraph-73d32ca0d6f495b2492ec2e250e02127">Por meio das regras em (1), o autor acredita que diferentes processos (metátese, apagamento e alongamento compensatório, geminação) resultaram em um objetivo comum: a eliminação de /j/.</p>
        <p id="paragraph-a7741e6a67aee8ee2b84929b62b9e40b">Para o germânico ocidental, Crist (2001, p. 88-144)<xref id="xref-091f53e67d52cd0ae17bbb92e09ff9eb" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-614492f13186fb2ea1f005b01a0aab8d">[3]</xref> utiliza-se de algumas regras que culminaram com o desaparecimento de fricativas sonoras naquela língua. Assim:</p>
        <p id="paragraph-8c61a39160f978abf9798b055a363c89">.</p>
        <p id="paragraph-254d38196be97bd867d6057f54a59418">(2)</p>
        <p id="paragraph-1adea466eba6b7064eb51f028d6330ae">*/z/ &gt; Ø (através do apagamento total)</p>
        <p id="paragraph-d770b6c8bf30d4c43119df7d8c684b55">*zw, *dw &gt; *ww (através de assimilação)</p>
        <p id="paragraph-7">*/β /, /γ/ &gt; /χ/ (atraves de assimilação)</p>
        <p id="paragraph-b1673f26c21d40aea68b1f29b13100f4">.</p>
        <p id="paragraph-6315a61b6c84a0c5685c5145736243ba">Em (2), a heterogeneidade do processo (apagamento e assimilação) resultou em uma homogeneidade do alvo (eliminação de fricativas sonoras na língua), o que corrobora a hipótese de conspiração sustentada pelo autor.</p>
        <p id="paragraph-d688b445522c8724efc74e1653c50a65">Por fim, Crist ainda traz evidências do Eslavônio, em que diferentes regras conspiram na direção de sílabas abertas. Segundo o autor (2001, p. 149), a partir de um determinado ponto na história, o Eslavônio sofreu uma série de mudanças sonoras cujo efeito cumulativo foi essencialmente eliminar codas silábicas. Este processo foi o resultado de apagamentos, metáteses e coalescências. Em (3), são apresentadas as regras utilizadas na análise de Crist (2001, p. 150):</p>
        <p id="paragraph-3be0181b12d18d520e18d19200e56cb3">.</p>
        <p id="paragraph-7ea36dc21a32797ef0340e5ff2e6e7be"> (3)</p>
        <p id="paragraph-0158faee790ab96bd9b1e68e546c3ed8">Apagamento de nasais em posição final de palavra e após vogais curtas;</p>
        <p id="paragraph-acc06ec09af06bbf757018be71e72021">Apagamento de *-t, *-d em posição final de palavra;</p>
        <p id="paragraph-f99a50d05dbfdb7a42e108fab4b4d45d">Apagamento da primeira consoante nos grupos obstruinte + fricativa e obstruinte + obstruinte;</p>
        <p id="paragraph-99554287741b7f7c00e7eadd87eb2b9f">Apagamento de *s, *x finais</p>
        <p id="paragraph-1fc3dcdbf40f6cfcda5f7c79e88c2b09">Monotongação dos ditongos *Vj e *Vw, tais como: *ai &gt; ĕ, *ei &gt; ī, *au &gt; u; eu &gt; u;</p>
        <p id="paragraph-89ab9fea935a014c97f11d654f5f8fb1">Apagamento de codas nasais; Eliminação dos grupos *tl, *dl. </p>
        <p id="paragraph-314861a66393199beb7bbb3152d98f3d">.</p>
        <p id="paragraph-f7992fad1d23fa9915a328f7aa20ef36">O autor novamente atesta, por meio de dados históricos, a hipótese de que existe uma conspiração, no Eslovênio, para reduzir a estrutura silábica para o padrão não marcado, isto é, com sílaba aberta.</p>
        <p id="paragraph-5f69cfb4001674413e00873a8fdd4ed3">Embora se reconheça a possibilidade da aplicação da idéia de conspiração exposta acima a fenômenos diacrônicos e sincrônicos na Língua Portuguesa, aqui serão tratados apenas os diacrônicos. Assim posto, serão analisados: o apagamento das consoantes geminadas na evolução do Latim para o Português; a maior restrição a coda silábica; e a redução de alguns grupos consonantais latinos.</p>
        <p id="paragraph-df4d60d4b1900cb926d19c82a25128bf">Em todos os processos citados acima, existe um denominador comum: todos produzem uma simplificação da estrutura silábica e todos eles vêm à tona como o resultado da demoção de uma restrição de fidelidade denominada MAX-IO.</p>
        <p id="paragraph-11">Será demonstrado nas próximas seções como o PB parece ter uma tendência (ou uma conspiração, como será explicado mais adiante) a um movimento para adequar sua estrutura silábica a padrões não marcados. Os fenômenos de reestruturação silábica analisados neste trabalho são:</p>
        <p id="paragraph-9139971567f954e7bc2ffbca27e0471b">.</p>
        <p id="paragraph-a00a2894fe709d2390663fedaab15472">a) CC &gt; C → no caso da eliminação das consoantes geminadas do Latim para o Português, como em <italic id="italic-7bac17d996f6f9f54aff4f3d3061fbdc">anno &gt; ano</italic>;</p>
        <p id="paragraph-e7154dad152070716b8792e9bfbde485">b) CVC &gt; CV → no caso da maior restrição à coda silábica do Português. O Português eliminou quase todas as possibilidades de ocorrência de coda silábica, como em <italic id="italic-05b403e7ebf2937fef14e553d6e51b24">caput &gt; cabo</italic>. Também é possível observar em fenômenos sincrônicos como <italic id="italic-ca1e781d283380cfffd106a28cd7b115">brincar &gt;</italic> <italic id="italic-c755ff2041ad0ad7edb2f803408c3eb2">brincá</italic>.</p>
        <p id="paragraph-4">c) CCV &gt; CV → no caso da eliminação de vários grupos consonantais latinos que desapareceram no Português, como em <italic id="italic-adb15707e1c93a83fe88a129fd19e14b">clave &gt; šave</italic>.</p>
        <p id="paragraph-a95f694278b372f2b8fcb4dc4eb53713">.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-aa287f645002d3427f3b1d52c19ac3e1">
        <title>2. Evidências diacrônicas da conspiração de processos</title>
        <p id="paragraph-74e97754f1ba3bb34344d482152595ae">Já nos primeiros trabalhos da TO, Prince &amp; Smolensky (1993, p. 93)<xref id="xref-da0fbc374c51ddea64a4f84434b6cf99" ref-type="bibr" rid="book-ref-abd4548e0bf165c2f1826fd42f893dcb">[6]</xref> discutem a taxonomia de Jakobson dos tipos silábicos e mostram que os tipos de sílaba observados nas línguas humanas correspondem às possíveis permutas no ranqueamento das restrições ONSET, -COD, PARSE e FILL (nos trabalhos mais recentes, ONSET, NOCODA, MAX-IO e DEP-IO). Assim, uma língua em que a restrição NOCODA é ranqueada em uma posição baixa na hierarquia permite codas silábicas opcionais; porém, se NOCODA domina MAX-IO ou DEP-IO, as codas são eliminadas com apagamento das consoantes ou com epêntese de um núcleo silábico seguinte.</p>
        <p id="paragraph-f7cbed28c54816dc4e9322c806fd704d">Seguindo esta linha de raciocínio, seria razoável propor que as mudanças fonológicas históricas correspondessem a uma re-hierarquização das restrições, o que produziria uma constante mudança nas formas lingüísticas. Assim, admitindo diferentes estágios diacrônicos de uma mesma língua, seria possível encontrar, em um primeiro momento, codas silábicas (quando NOCODA estivesse ranqueada abaixo na hieraquia) e, alguns séculos depois, a língua passar a ser mais restrita com relação a esta posição silábica, tendo em vista que NOCODA tenha subido de posição no ordenamento das restrições. De fato, a TO permite o entendimento de que o mecanismo da mudança lingüística opera por intermédio do re-ranqueamento de restrições em conflito. É esta a hipótese adotada aqui.</p>
        <p id="paragraph-a935866a8c2cc95db062440c6ecc8a87">Embora se saiba que a variação é um estágio anterior à mudança (Labov, 1966), não há como capturar essa variação na diacronia. Desta forma, os tableaux mostrados neste trabalho refletem estágios históricos estanques, baseados nos estudos de Williams (1961)<xref id="xref-7788996467b5bc806bd1db0191419c45" ref-type="bibr" rid="book-ref-2daaf4be214640d53ee24d709931572c">[9]</xref>, Said Ali (1965)<xref id="xref-8b6b82ecf31d5fb9aef2c3f67095638a" ref-type="bibr" rid="book-ref-eff18d0bbcb7bd0f109893b8cca2c08b">[10]</xref>, Lausberg (1981)<xref id="xref-3a4fd26d1da89aa2c218fb22a740b592" ref-type="bibr" rid="book-ref-13e1b716b55f1f05b7d6078d8ae3f145">[11]</xref>, Mattos e Silva (1996)<xref id="xref-b4f62d830d804fb1da07bdbb8e72eec4" ref-type="bibr" rid="book-ref-b2b25b20c3af4a3a5b24a32c26d96e38">[12]</xref> e Teyssier (2001)<xref id="xref-8d85de7382dd1ff9724d85ba3cd623b6" ref-type="bibr" rid="book-ref-ccfa8ea301b267f847254132ddc9fe5b">[13]</xref>.</p>
        <p id="paragraph-015bbb9f30f065bda1b22c37623f80e2">Além de entender as mudanças históricas como um reordenamento de restrições, parte-se também da hipótese de que alguns processos históricos, aparentemente distintos (e tratados anteriormente de maneira separada e desconexa), parecem atingir um objetivo comum, por meio da demoção de uma restrição de fidelidade. Neste artigo, serão analisados três processos diferentes (mas com desdobramentos semelhantes) que simplificam a estrutura silábica na evolução do Latim para o Português. Os processos analisados são: a) o desaparecimento das consoantes geminadas; b) a maior restrição a coda silábica; e c) a redução de alguns grupos consonantais.</p>
        <p id="paragraph-3cca47861d5b0b33898b2fc173668a70">.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-ca3f30dbdffc9759924fce467087cbf1">
        <title>3. Desaparecimento de consoantes geminadas</title>
        <p id="paragraph-8f7513fde91681a0eac27e7de53e936d">Este artigo parte da hipótese, sustentada por Holt (1997, p. 41)<xref id="xref-c6de4b2433b7aad592098fafcce8d937" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref>, de que o desaparecimento das consoantes geminadas do Latim Clássico ocorreu como conseqüência da perda de contraste entre vogais curtas e longas. Teyssier (2001, p. 9)<xref id="xref-dcfc843227a8b3daa3d6c60b155a03ad" ref-type="bibr" rid="book-ref-ccfa8ea301b267f847254132ddc9fe5b">[13]</xref> afirma que o Latim Clássico possuía cinco timbres vocálicos, com uma vogal breve e uma longa para cada timbre, o que perfazia um total de 10 fonemas vocálicos (ă, ā, ĕ, ē, ĭ, ī, ŏ, ō, ŭ, ū). Com o passar do tempo, a língua foi perdendo as oposições de quantidade, mas conservou as oposições de timbre, o que resultou em um inventário vocálico de 7 fonemas, ainda conservado, com certas modificações, na Língua Portuguesa. Isto deve ter ocorrido ainda nos primórdios de nossa era, como atestam algumas inscrições encontradas em Pompéia (Holt, 1997, p. 47)<xref id="xref-f9c2b9b440ebb7ba827b123798644948" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref>. Holt (1997, p. 41)<xref id="xref-3bcca07723e45ef08558d3c4294d0383" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref> advoga que o colapso da duração das vogais se deveu ao fato de que os contrastes de qualidade da vogal passaram a ser suficientes para distingui-las. Assim, a distinção tão-somente com base na duração passou a ser menos eficiente do que a distinção por meio de altura e tensão.</p>
        <p id="paragraph-43d561d3d15c5758eb15c06cbfde7ac8">É sabido que o Latim Clássico possuía consoantes geminadas, como / pp/, /bb/, /ff/, /tt/, /dd/, /ss/, /kk/, /gg/, /mm/, /nn/, /ll/ e /rr/. A geminação não consistia em uma simples marcação ortográfica (como durante muito tempo houve na Língua Portuguesa, por razões de conservadorismo da grafia histórica), mas uma combinação de fonemas semelhantes. Segundo Lausberg (1981, p. 218)<xref id="xref-e1be1771bf0138a2b14419d1fe59add3" ref-type="bibr" rid="book-ref-13e1b716b55f1f05b7d6078d8ae3f145">[11]</xref>, as consoantes geminadas eram realizadas nos sons contínuos (/ff/, /ss/, /mm/, /nn/, /ll/ e /rr/) por meio de uma articulação mais prolongada; nos sons oclusivos (/pp/, /bb/ , /tt/, /dd/, /kk/ e /gg/), por meio de um retardamento da explosão.</p>
        <p id="paragraph-9b77e7d68009134ee240654b86853c3b">Na TO, a não-preferência por segmentos longos pode ser entendida por intermédio de duas restrições: *LONG-V ou *Vµµ (Holt, 1997, p. 43;<xref id="xref-5b2f1ae87a3a027534ffcc6f4dd8ca61" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref> Crist, 2001, p. 136)<xref id="xref-571cd6c39d79d0f32bd1d90eb27dcd6f" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-614492f13186fb2ea1f005b01a0aab8d">[3]</xref> e * LONG-C ou *Cµ (Holt, 1997, p. 43;<xref id="xref-c405040658a16475f774c5b1f53d1485" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref> Crist, 2001, p. 137)<xref id="xref-4a79a3406f27efa8afeef1c751caa845" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-614492f13186fb2ea1f005b01a0aab8d">[3]</xref>. *Vµµ e uma restrição que evita vogais bimoraicas, isto é, vogais longas. *Cµ milita contra a presença de consoantes moraicas, isto é, consoantes geminadas.</p>
        <p id="paragraph-c5334072add44919c38cafd33089ebe1">Como o Latim Clássico permitia tanto vogais como consoantes curtas, a gramática desta língua deveria apresentar a seguinte hierarquia:</p>
        <fig id="figure-panel-b20f18c9f9a811848fe45ebac5999b91">
          <label>Figure 1</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-37cc2f410a44b972bb781343153566c3" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-d741d618c25d225aaf80b49239a5bf12" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-46-06.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-ed90a9260ca672af826ab5df64718985">
          <label>Figure 2</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-b1c04c88055538e3fafe6906a4e5d4d9" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-18d5285adef0e34e919af31ef83342dd" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-46-34_2.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-7e8e46baa38b83f82c080f22280421fe">
          <label>Figure 3</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-1838f11ef35a75f51f15073e2e0df3cf" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-00da95e74024d069ea66f32c11d59d45" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-46-49.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-ec31b1370a9e5e58ccdf2b2a74ad0b93">
          <label>Figure 4</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-683c0a6b90cc5590ace7efe8f387d6a2" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-a32aec88a49258f880ca11eb5e86c4bd" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-47-06.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-919bf7dc5e5f035ea53ed83b0af5a6b7">Como é possível perceber nos tableaux acima (adaptados de Holt, 1997, p. 43)<xref id="xref-96b5df31b2e262db66a4d390aea66737" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref>, o <italic id="italic-ded084d10d78b933e66cda1e563856ce">status</italic> moraico subjacente das vogais e das consoantes é mantido. Em (4), observa-se que a mora da vogal curta subjacente é mantida e a adição de uma outra mora é gratuita, o que viola fatalmente a restrição de fidelidade DEP-IO (não insira elementos). Além disto, [Vµµ] tambem viola a restrição *Vµµ. No tableaux (5), a vogal longa subjacente se mantem pelo fato de que a restrição de fidelidade MAX-IO está em posição hierarquicamente superior, dominando as restrições de marcação, como se percebe através da linha sólida.</p>
        <p id="paragraph-dbe30cc6ee34eb8ef7ecc6c2d75541bd">Com relação às consoantes, a situação é praticamente a mesma: visto que consoantes simples não são moraicas. A adição de moras é proibido pela restrição DEP-IO, em posição mais importante na hieraquia [tableaux (6)]. No caso da consoante dupla, a mora subjacente irá aparecer na superfície [tableaux (7)], pois ela apenas viola restrições de marcação, que, no caso em questão, são dominadas pelas restrições de fidelidade.</p>
        <p id="paragraph-92498c1acb9067f62c2118391724bfae">Com o passar do tempo, o Latim Clássico foi perdendo o contraste entre vogais curtas e longas. Holt (1997, p. 50)<xref id="xref-ebce42a788039acd9ec1db90304799ae" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref> sustenta a hipótese de que isto pode ter sido o resultado de uma re-hierarquização das restrições, em que *Vµµ e deslocada para o início da hierarquia, dominando MAX-IO e DEP-IO. Desta forma, o tableaux (5), mostrado acima, ficaria da seguinte forma [tableaux (8)] no Latim Vulgar:</p>
        <fig id="figure-panel-8e068cee1ed4cdab0c7da257196984b8">
          <label>Figure 5</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-7691dcc4c4bcecf15b40a4ee85bdf1e0" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-ebf82de1767be88da0d050434e9fb212" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-47-46.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-da9a6e6f15a9e60c0bbdebb76a1bdf3d">Em (8), a forma subjacente da vogal longa viola fatalmente *Vµµ, agora em posicão de dominância, que impede a presença de vogais bimoraicas. Desta maneira, o candidato ótimo aparecerá, na superfície, como uma vogal curta.</p>
        <p id="paragraph-2ae96eefd898262c32278404f8068c29">Após este segundo estágio, em que as vogais longas seriam desfavorecidas, o terceiro passo seria em direção ao desaparecimento das consoantes geminadas, motivo principal desta seção. Ainda seguindo o raciocínio de Holt (1997, p. 53)<xref id="xref-b4667ada678f0fd36fbec5fa1dc7b131" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref>, este estágio se caracterizaria pelo deslocamento de *Cµ (é proibido consoantes moraicas), para o início da hierarquia, por meio de uma mudança gradual e consistente, que ilustraria o desenvolvimento da língua, desembocando na Língua Portuguesa. Baseado nestas hipóteses, é possível imaginar um tableaux referente ao estágio atual da Língua Portuguesa com relação às vogais e consoantes [tableaux (9) a (12)] e compará-lo com o do Latim Clássico [mostrado em (4) a (7)]:</p>
        <fig id="figure-panel-e46f6c18da9575313a7517fed4d149c5">
          <label>Figure 6</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-020628cac80b82349cfe8318ce5dbf0b" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-34effbe23ecadd939138d17c8afe6c9a" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-48-10.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-6c380ae1ffedc692c4e75d3e8def4862">
          <label>Figure 7</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-d9f9d43039180aaf64e18a7fed15199c" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-a5d876f4ead62a6cb524b6456d37967b" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-48-26.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-16e5380c56940a8641f5ee5cc4ae26ad">
          <label>Figure 8</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-cb672c0231d8ba26cb2bf3c6c26278d1" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-d1ea79c44ce19a81738ac80b56661c32" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-48-56.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-5ac98dc9eba6e0c1361a164807dc71f0">
          <label>Figure 9</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-ee69fd9160a28d6a32f1b9fe3157a4d5" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-041b5fc484fb7c05fc7185179726c082" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-49-17.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-2775f1c0aae63cf6ff043d714cdb81c2">Como é possível perceber pelos tableaux (9) a (12), houve uma inversão do ordenamento das restrições entre o Latim Clássico e o Português. A hipótese proposta aqui é a de que esta inversão deve ter compreendido três estágios distintos: a) um primeiro momento, caracterizado pela hierarquia MAX-IO; DEP-IO &gt;&gt; *Vµµ; *Cµ, um estagio em que a língua permitia vogais e consoantes longas; b) um segundo momento do tipo *Vµµ &gt;&gt; MAX-IO; DEP-IO &gt;&gt; *Cµ, quando apenas consoantes longas eram permitidas; e c) um ultimo momento, *Vµµ; *Cµ &gt;&gt; MAX-IO; DEP-IO, em que vogais e consoantes longas são proibidas.</p>
        <p id="paragraph-e8700eb3548c7e8a43671d41a63310ce">É possível observar, nestes três estágios distintos, que as restrições de fidelidade (MAX-IO e DEP-IO) são, a cada momento, transferidas para uma posição mais abaixo na hierarquia. Como se poderá perceber, por meio da análise de outros fenômenos diacrônicos, este comportamento será recorrente, o que reforça a idéia de uma conspiração.</p>
        <p id="paragraph-3faaa65fcd66fa60db7b276a62272fc0">A perda do <italic id="italic-a8e2b5ba7b83fdbf058c796d5d2fb51d">status</italic> moraico das consoantes longas, no entanto, teve uma seqüência e não ocorreu de maneira imediata para todos os segmentos. Para melhor explicitar o caminho percorrido do Latim Vulgar até o apagamento completo de todas as geminadas da Língua Portuguesa, faz-se necessário ter em mente a escala de sonoridade proposta por Clements (1990, p. 294)<xref id="xref-51ce3929c5109ffe254614a979671f83" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-13dc3be122b55bd52d4035601d9973fa">[15]</xref>. Para incorporar esta escala de sonoridade à TO, é preciso propor uma série de subdivisões à restrição *Cµ, subdivisões estas que militem contra o <italic id="italic-cd34be2ab19077f9372dc9a48ca2efff">status</italic> moraico de cada tipo de segmento consonantal. Assim, a concepção da hierarquia de sonoridade dentro da TO, aplicada aos propósitos da queda das geminadas em Português, seria a seguinte:</p>
        <p id="paragraph-2fe3df7efb1cf8f249f07d40d3e0069f">.</p>
        <p id="paragraph-c3f7b559e597ef172cf876ab2dd8f84d">(13) Escala de sonoridade dentro da TO:</p>
        <p id="paragraph-d48dd83e1bfa127296a690ed9fb72f64"> *Oµ &gt;&gt; *Nµ &gt;&gt; *Lµ &gt;&gt; *Gµ &gt;&gt; *Vµ</p>
        <p id="paragraph-b5d36cab6e975c493332aa6a2cd1eb40">.</p>
        <p id="paragraph-96daf3c463639ad70cdabf02feb86e27">Cada uma das restrições em (13) evitaria segmentos consonantais moraicos particulares. Assim, *Oµ proibiria obstruintes longas; *Nµ, nasais longas; *Lµ, liquidas; e *Gµ, glides. Esta subdivisão de *Cµ captaria a ideia principal de que obstruintes são as mais desfavorecidas para carregar <italic id="italic-67bfe90ebc53b623698eb7c737a7c08a">status </italic>moraico, seguidas das nasais, e assim por diante.</p>
        <p id="paragraph-b357daf03c79f9c9776bf820f782e793">Holt (1997, p. 57)<xref id="xref-7bbcb644c5eab4274c734ae027bfbd19" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref> propõe que o <italic id="italic-dd56e32e7137910ec1b27b5f8b41127c">status</italic> moraico das consoantes seria um embate entre as restrições apresentadas em (13) e MAX-IO, o que corrobora a hipótese apresentada neste artigo. Assim, em línguas que permitissem consoantes moraicas como o Latim Clássico, MAX-IO dominaria todas aquelas restrições. A evolução para o Português seria o resultado da demoção da restrição MAX-IO para um lugar mais baixo na hierarquia. A visualização desta evolução seria a seguinte:</p>
        <p id="paragraph-00e82922133c7d4945102d339e7aed3f">.</p>
        <p id="paragraph-96777371b7a070a80774b44de983cf86">(14) MAX-IO &gt;&gt; *Oµ; *Nµ; *Lµ; *Gµ (Latim Classico)</p>
        <p id="paragraph-8c537f99de05befb4717252362d2d813">(15) *Oµ &gt;&gt; MAX-IO &gt;&gt; *Nµ; *Lµ; *Gµ (Latim Vulgar)</p>
        <p id="paragraph-e131650747901b7c01f020bb8c9e74d1">(16) *Oµ; *Nµ &gt;&gt; MAX-IO &gt;&gt; *Lµ; *Gµ (Latim Vulgar)</p>
        <p id="paragraph-1c69bafe76cc8cc759c36abe233bc8bc">(17) *Oµ; *Nµ; *Lµ &gt;&gt; MAX-IO &gt;&gt; *Gµ (Latim Vulgar)</p>
        <p id="paragraph-9">(18) *Oµ; *Nµ; *Lµ; *Gµ &gt;&gt; MAX-IO (Português) </p>
        <p id="paragraph-c27f2ec7ca71ed5c6711cca0d6237703">(adaptado de HOLT, 1997, p. 58)</p>
        <p id="paragraph-057c4e5925bd744924c958471f551717">.</p>
        <p id="paragraph-c37be378f6839c9946f9b31b29c41dc1">Portanto, o apagamento das geminadas deve ter sido um processo lento e gradual, cujo primeiro passo foi o desaparecimento das geminadas menos soantes, isto é, das geminadas obstruintes. É possível observar esta evolução a partir de exemplos concretos do Latim Clássico:</p>
        <fig id="figure-panel-44a4ddbdfdf2ccdfa27b3361dc4586b4">
          <label>Figure 10</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-af81ec7aa22b80740a2e7db1a8f784b6" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-ec8ff0060a714fc2f16c0e93ceb64ade" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-49-50.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-04369cd6dce5c05979ad16204d52471f">Neste estágio da evolução, o que deve ter acontecido foi o deslocamento da restrição *Oµ para o início da hierarquia, dominando as outras restrições:</p>
        <fig id="figure-panel-c1d3d2355b169b440f034bb891bd0a19">
          <label>Figure 11</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-da698fed097a69a7876ad237b432a135" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-fc94150c93197904f93d6742b45e40a4" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-50-05.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-b12222172554506cf68b9e2f52341833">Em (20), a geminada na subjacência é realizada como consoante curta na superfície, pois esta é considerada a forma ótima pela hierarquia das restrições. A forma [bucca] viola fatalmente *Oµ que, neste estágio da evolução, está em posição de dominância. Embora [buca] viole MAX-IO, esta restrição de fidelidade já não é tão importante como no estágio anterior da evolução, o Latim Clássico.</p>
        <p id="paragraph-7ab4ae4611255febcaa5acaf719a1f1c">O próximo passo na redução das geminadas deve ter ocorrido entre os séculos X e XI (Holt, 1997, p. 91)<xref id="xref-4d7d7798e791ab60f6c456d314c819d0" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref>. Houve, então, uma nova re-hieraquização das restrições, demovendo MAX-IO para uma posição ainda mais abaixo na hierarquia. Como conseqüência do reajuste de *Nµ e de *Lµ, as nasais e laterais perderam sua capacidade de carregar mora e sua quantidade foi afetada. Assim:</p>
        <fig id="figure-panel-ea2e12f73adebdea29faaabe099ad754">
          <label>Figure 12</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-139b63aefcc56c318f87733bb2fccc55" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-3eb7895fc05a67872dbe7fc3098cd6cc" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-50-32.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-86fcd57a164941a0b7990de3a09f7c78">
          <label>Figure 13</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-75e8b8ed885ee0c61c9ca92b562ef156" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-a94f7c5be8ae05ced58446a24fe785ea" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-50-48.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-c09e3f449ce5cd5cc02c97bf1c5ce138">Nos tableaux (21) e (22), as formas de superfície já não possuem mais consoantes moraicas, pois *Oµ, *Nµ e *Lµ estao em posição de dominância com relação a MAX-IO e proíbem a permanência do <italic id="italic-1560adee5c222e8c6b031467655aabfe">status </italic>moraico das consoantes. Outros exemplos na evolução do Latim Clássico para o Português:</p>
        <fig id="figure-panel-0ed0a606905db4b8ffdb12b454f7e9b2">
          <label>Figure 14</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-5e512932cbeb25db44125e26527fe120">
              <xref id="xref-da4e32a1aab8d28c1c2575db305b57ed" ref-type="fn" rid="footnote-597220419cf2cf44d4d7c2bc0104651d">1</xref>
            </p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-b8288bc00c9bc3dd965263f1fe715bed" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-51-03.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-784f97a5a82ab41a8f4748e02cce6563">Com este estágio, a demoção de MAX-IO com relação a *Cµ (*Oµ, *Nµ e *Lµ) fica completa, isto e, o Português, neste estágio, já não admite mais consoantes longas ou geminadas, possuindo unicamente um inventário de consoantes curtas e não-moraicas. Em Português, apenas as vogais podem ser moraicas.</p>
        <p id="paragraph-7215a5ebe222d381f8d779756220598e">.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-b66df1bb7b4bc325c0dd6edda86bef0e">
        <title>4. Maior restrição a coda silábica</title>
        <p id="paragraph-18c917535b1dffdc02e1800c69918a07">Um outro argumento a favor da simplificação da estrutura silábica na evolução do Latim para o Português se refere a maior restrição a coda silábica. De fato, o Latim Clássico permitia quase todas as consoantes travando sílaba. Já no Português, o inventário, na posição de coda silábica, é bem mais restrito, limitando-se a /S/, /L/, /R/, /N/ e glides. São exemplos deste processo:</p>
        <fig id="figure-panel-f9cbc27d9fbaf6adac2c0b506a39499f">
          <label>Figure 15</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-b7a86739054fd496e7622052bf952f93" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-0ac05a7a19d9b30631afa228fb44e928" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-51-05.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-4f9a3539208596fe798df86b7abd78cc">Lausberg (1981, p. 226)<xref id="xref-e2d3fa0d9893bb27f79e6902240c4ec6" ref-type="bibr" rid="book-ref-13e1b716b55f1f05b7d6078d8ae3f145">[11]</xref> afirma que o Latim Vulgar já tinha a tendência de evitar a consonância em final de palavra e de fazer terminar as palavras, sonoramente, em vogal. O autor denomina esta tendência de <italic id="italic-949d0e861cbabc4d6d79136525a3ccba">horror vacui</italic>, isto é, um receio por posições vagas. Essa tendência à queda das codas acentou-se na evolução para o Português, desembocando em um sistema que permite tão-somente quatro travamentos silábicos.</p>
        <p id="paragraph-2e250f211bd8aaa4bcf7143bdb0459ed">A maneira mais recorrente de se abordar a maior restrição a coda dentro dos pressupostos teóricos da TO é valendo-se da restrição NOCODA. Esta restrição foi proposta, pela primeira vez, por Prince &amp; Smolensky (1993, p. 34)<xref id="xref-834c69b569401e397d6c875a6d661d37" ref-type="bibr" rid="book-ref-abd4548e0bf165c2f1826fd42f893dcb">[6]</xref> como –COD, e reformulada por McCarthy &amp; Prince (1993, p. 11)<xref id="xref-0cffdaf4b918dd96dd03c991f5571667" ref-type="bibr" rid="book-ref-a0b4064a919dc32a8f056a02ba83af7c">[7]</xref>. Ela evita a formação de sílabas travadas, corroborando a hipótese de que a sílaba ótima é formada apenas por ataque e núcleo. Crist (2001, p. 171)<xref id="xref-2896a35b4508c940bea1058e4df43fac" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-614492f13186fb2ea1f005b01a0aab8d">[3]</xref> utiliza-se desta restrição para propor uma explicação para a conspiração pela sílaba aberta do eslavo. Para o autor, na evolução do eslavo, houve um reordenamento das restrições da seguinte forma:</p>
        <p id="paragraph-80ab12bc855d257b0d9bafc9ff6bc3e6">.</p>
        <p id="paragraph-2a9109a53f1b7554382ec5a399fb1ca0">(25)</p>
        <p id="paragraph-cc147772e7cdad8f9506bf4e445cb688">Pré-proto-eslavo: MAX-IO &gt;&gt; NOCODA</p>
        <p id="paragraph-2f1541356a62f834327d5a2304175bb9">Proto-eslavo: NOCODA &gt;&gt; MAX-IO</p>
        <p id="paragraph-a9dd226aa178a8232070b107dabbda76">.</p>
        <p id="paragraph-4d5d5ff9b0dcad5d56fc1c6878870184">Para ilustrar esta evolução, ele apresenta o seguinte tableaux:</p>
        <fig id="figure-panel-597cff3c4f0e6b235ebbb6fa381b1f1d">
          <label>Figure 16</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-6dcdc74edf6d40d2ac7bf9eb784a971a" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-cae7933dea6c0b46b9b3a52ae056bf14" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-56-49.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-236a1c44edc5b76cdcce7148b3d6c767">A hipótese aventada neste artigo é a de que um processo semelhante ocorreu na evolução do Latim Clássico para o Português, na direção de proibir sílabas fechadas. A gramática do Latim Clássico, referente ao travamento silábico, seria a seguinte:</p>
        <fig id="figure-panel-70a75fad0d0b1c064dcc3e7499f28eb9">
          <label>Figure 17</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-75cb01c99fec42f1a984df319b908fee" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-87dd915d69ed3cbc117c6dd6b34979b9" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-57-05.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-7cff08f414938a9cba06fd55d3c53f72">Em (27), [<italic id="italic-5379a86b2c0c4b42beecd0fbd45e5b4c">caput</italic>] viola NOCODA, porém ainda é considerada a forma ótima, pois não a contradiz de maneira fatal. [<italic id="italic-aa63167e5fa4e9a4595653f4d8537074">caput</italic>] é eliminado da disputa por violar a restrição de fidelidade, que está em posição de dominância.</p>
        <p id="paragraph-6636d71fcbe4779318b5c306351de371">Na evolução para o Português, parece ter havido uma re-hierarquização das restrições, com a demoção de MAX-IO, para uma posição abaixo na hierarquia (semelhante ao processo de apagamento das geminadas), produzindo uma gramática do tipo:</p>
        <fig id="figure-panel-e2082b4b6558b830092c347d271092ca">
          <label>Figure 18</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-87022facdeee90871082e7da3079a9d1" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-49dab988158918a4684e84d1bfe73a48" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-57-24.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-a5334373b8942168ff44a7a7143f3d6b">Em (28), o estágio da língua promoveu NOCODA (demovendo, em conseqüência, MAX-IO) para uma posição acima na hierarquia, o que impossibilita o sucesso de [<italic id="italic-e60ca705cde4a540458623ebc9875ef7">caput</italic>].</p>
        <p id="paragraph-9d7598f2fa25483cc1ce145500134439">Há, no entanto, dois problemas neste tipo de análise que devem ser considerados mais adiante: a) o fato de a Língua Portuguesa ainda permitir certos tipos de coda silábica, nomeadamente /S/, /L/, /R/, /N/ e glides; e b) o fato de algumas codas do Latim para o Português não terem sido completamente eliminadas, e, sim, modificadas, como é o caso de OCTO &gt; oito.</p>
        <p id="paragraph-c0a4f103b119a1ca9dcd722674056f79">Para eliminar o primeiro problema, faz-se necessário lançar mão de um subtipo da restrição NOCODA, que seja menos abrangente: CODACOND(ITION). Esta restrição foi inicialmente proposta por Prince &amp; Smolensky (1993, p. 109)<xref id="xref-4c44c961271baa6b4a5670a5d082e32c" ref-type="bibr" rid="book-ref-abd4548e0bf165c2f1826fd42f893dcb">[6]</xref>. Analisando os exemplos de coda silábica na língua Lardil, os autores chegaram à conclusão de que seria impossível explicar certos fenômenos particulares daquele idioma sem proporem uma nova restrição que licenciasse certos tipos de segmentos naquela posição. Desta forma, propuseram CODACOND que, no caso do Lardil, permite consoantes coronais e consoantes que tenham o mesmo ponto de articulação com outras consoantes. CODACOND é uma restrição que é ajustada de acordo com as regras fonotáticas de cada língua. Desta forma, para o caso específico do Português, ela irá licenciar, em posição de coda silábica, segmentos do tipo /R/, /S/, /L/, /N/ e glides.</p>
        <p id="paragraph-8b397adedb6029e741b7d9c73ea597bb">Com esta nova restrição, é possível entender como alguns segmentos em coda silábica do Latim continuaram a existir no Português moderno. Nos tableaux (29) e (30), é possível observar duas palavras latinas e suas respectivas evoluções para a Língua Portuguesa:</p>
        <fig id="figure-panel-a86682b578bbc29a331aee22e348f0a7">
          <label>Figure 19</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-8c0533ddd1e644597dfb59988702fe1b" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-0e5614e80eaf3605234c8b4db74da40b" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-57-50.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-2c2bb6c918ee65046ae3104514c3b06f">
          <label>Figure 20</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-f59b68ee55af30b4adb76306f1237583" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-7d180e6362770c1f846f1cd83fa855e1" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-58-12.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-61eb8565ff7718c60103efca3afb8ae7">Em (29), o vocábulo latino /ad/ é realizado, na superfície, como [a], pois a hierarquia da gramática do Português proíbe codas com obstruintes. Desta maneira, apesar de violar MAX-IO, ela ainda é considerada sua forma ótima, pois o outro candidato viola fatalmente CODACOND, melhor posicionada na hierarquia.</p>
        <p id="paragraph-df1e4a434dddf84ce43fe35da730100a">Em (30), [locusta] é o candidato ótimo, pois a Língua Portuguesa permite este tipo de fricativa em posição de coda. Neste tableaux, é possível perceber que MAX-IO tem um papel primordial na escolha do melhor candidato, visto que nenhuma das formas viola CODACOND. A escolha entre elas se dá tão-somente porque [lo.cu.ta] viola fatalmente a restrição de fidelidade.</p>
        <p id="paragraph-d63c56cec9a09429fd1748c491ed9e8e">O outro problema a ser considerado nesta análise é um pouco mais complexo. Diz respeito a certos vocábulos que, ao invés de perderem sua coda, na evolução para o Português, modificaram-na para outro tipo de segmento, como:</p>
        <p id="paragraph-2c4047f7aebd01e6e389ed512fda76cf"> .</p>
        <p id="paragraph-a4d622eed54c6ab34eafee1b6b0303be">(31)</p>
        <p id="paragraph-f55fa993f192a2af9888b1dd320354b0">OCTO &gt; oito</p>
        <p id="paragraph-db7f4dba0f3c47cdd89f3a98162cbfc8">NOCTE &gt; noite</p>
        <p id="paragraph-af9a12306774c22298d68329bf01a1a5">LACTE &gt; leite</p>
        <p id="paragraph-1aa115b0915970b32628c305c310f1fa">STRICTU &gt; estreito</p>
        <p id="paragraph-6e69f3b9b0b33d361fc7784290f23451">.</p>
        <p id="paragraph-3077617c14caa930f179e9594cd4ae61">A hipótese sustentada aqui parte de uma idéia de Holt (1997, p. 65)<xref id="xref-ecca8d174580bde606d3499559ef29ae" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref>. Segundo o autor, a promoção de *Cµ na hierarquia das restrições e a conseqüente queda do <italic id="italic-075694ae1fcee17831f4c8488b10901f">status</italic> moraico das obstruintes geminadas também afetou alguns tipos de grupos consonantais, principalmente /kt/, /ks/ e /gn/. Visto que a geminadas /kk/ e /gg/ passaram a /k/ e /g/, era possível esperar que os grupos perdessem suas obstruintes. O que ocorreu, no entanto, foi o fato de que elas foram vocalizadas como /j/.</p>
        <p id="paragraph-f10e5f9935c86a9bc3bfe1abdd1ddd59">Para Holt (1997, p. 67)<xref id="xref-4341d71efd038b2a70e3cf89b632eb63" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref>, há uma solução para este fenômeno: subdividir a restrição *Oµ em duas sub-restrições. Como as obstruintes são [+consonantal] e [-soante], seria possível propor duas restrições *[-soante]µ (que proibiria segmentos [-soantes] moraicos) e *[+consonantal]µ (que militaria contra segmentos consonantais moraicos). Alem destas restrições, seria necessário utilizar-se de uma nova restrição de fidelidade: IDENT-IO-[F]. IDENT-IO-[F] obriga a que os segmentos do <italic id="italic-00112c6f0e2197e855a90f6a5bd47c8c">input</italic> e do <italic id="italic-000b9d47aa1820d801444af086aeedc6">output</italic> tenham valores idênticos em relação a determinado traço fonológico. No caso em questão aqui, os traços seriam [+consonantal, -soante]. Esta restrição foi primeiramente proposta por McCarthy &amp; Prince (1995, p. 16).</p>
        <p id="paragraph-ef4395bfdb09a2b469e1ec5d2cda830a">Explicitadas as restrições, já é possível propor um tableaux para a evolução de palavras do tipo OCTO &gt; oito, em (32):</p>
        <fig id="figure-panel-3e3f141619badcdbb36c76e650993e98">
          <label>Figure 21</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-d38b70434bf3716c270e87713b665e21" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-807e6e2f5765e6b705cba288ef8a4cb0" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-58-36.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-37f56b2584da7d13b0f0b32a8bd3553c">Em (32), o candidato [ok.to] é eliminado da disputa por violar fatalmente *[-soante]µ. O candidato [o.to] viola MAX-IO que, embora tenha sido demovido para uma posição mais abaixo na hierarquia, ainda domina IDENT-IO. Só resta o candidato [oj.to] que, apesar de violar duas vezes IDENT-IO (por ser [-consonantal, +soante]), não a viola de maneira fatal.</p>
        <p id="paragraph-aee06b1a4cca179d9dcda80f86b47f39">.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-6a54b92d1bf614d8ad9a56386983f078">
        <title>5. Redução de grupos consonantais</title>
        <p id="paragraph-d47e8fdaa0867871613ff0db72c2e1b8">Um último fenômeno diacrônico a ser considerado neste trabalho diz respeito ao apagamento de alguns grupos consonantais, nomeadamente os formados por consoante desvozeada e /l/. Como é possível observar em (33), grupos formados por /k, p, f/ e /l/ sofreram uma simplificação na evolução para a Língua Portuguesa:</p>
        <fig id="figure-panel-f7af12b2e20d6c844bd4b75169728abf">
          <label>Figure 22</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-b0c98fb214cbed87ef689fdd76e5761e">
              <xref id="xref-3fe33a9eff5bca7f74ac3fd33dad122c" ref-type="fn" rid="footnote-f479f3f75d991102c958bf1ea856aaa1">2</xref>
              <xref id="xref-bef788369c3a7d13035705fcfd04b436" ref-type="fn" rid="footnote-0c486c8d64da69bc347ec44106a78a41">3</xref>
              <xref id="xref-4c4f001418db7c4cbbd5091209e629a2" ref-type="fn" rid="footnote-21cb474b97d2060b345bc44cbbe95d64">4</xref>
            </p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-a8d4aded78ce9226ac3e0bcb1be13d1e" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_17-59-31.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-c33f2b1a82bb7351287a2c70435f78d6">Alguns autores já abordaram, de distintas maneiras, a transformação do grupo consonantal /k, p, f/ + /l/ para o /š/ na Língua Portuguesa. Williams (1961, p. 75)<xref id="xref-394a011421a3ec7e98fbdc5b678c0bbe" ref-type="bibr" rid="book-ref-2daaf4be214640d53ee24d709931572c">[9]</xref>, por exemplo, acredita que o desenvolvimento para o Português seguiu um processo do tipo:</p>
        <p id="paragraph-54b062359b4448d487189d292a2ad379">.</p>
        <p id="paragraph-53d2cfb7a608fa87ce9380dc2136574f">(34)</p>
        <p id="paragraph-51baa0eb7e1c1ba37a357f2fa3e171d1">(/k,p,f/ + /l/) &gt; (/k,p,f/ + /j/) &gt; (tš) &gt; (š)</p>
        <p id="paragraph-709450a3be18f9ca3b5f672ce264f824">Assim:</p>
        <p id="paragraph-bd5b54d4eb06c89c0b9035aabfd9c977">(35)</p>
        <p id="paragraph-e22805831584f3da9fc9ebf5593f61b1">[klave] &gt; [kjave] &gt; [tšave] &gt; [šave]</p>
        <p id="paragraph-6d13f3af26528665e74f539cd7d03830">.</p>
        <p id="paragraph-32820ecf183c8ffa16d06cfccad54146">Holt (1997, p. 118)<xref id="xref-d7cf6485d25b3ca1686b55c5c2b17ac4" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref>, apoiado em estudos de Bourciez (1967)<xref id="xref-0cb672dca74742acbb7efda02a09c408" ref-type="bibr" rid="book-ref-ebbac2f0f435f307cb2cd948ec609961">[16]</xref> e Lloyd (1987)<xref id="xref-a1b7982658dc2b482b84a6190b30eb9c" ref-type="bibr" rid="book-ref-de8f831d1ac5e026f7acc9aec72959f7">[17]</xref> e em dados empíricos do Aragonês, propõe uma evolução diferente, que será a adotada neste trabalho:</p>
        <p id="paragraph-9886e0aeb0430062e56e755562f62069">.</p>
        <p id="paragraph-e39e1e0f0ee1335190f3631f20472385">(36)</p>
        <p id="paragraph-649e35bc517f73313b8341fd55e55c7b">(/k,p,f/ + /l/) &gt; (/k,p,f/ + /λ/) &gt; (tš) &gt; (š)</p>
        <p id="paragraph-f1168771d4b829317785d39e1a834205">.</p>
        <p id="paragraph-101eced6e0d2cc6358a822aad0303f53">Holt propõe que o primeiro estágio na evolução foi uma assimilação regressiva do /l/ com o /k/. Segundo o autor, o /l/ começou a ser pronunciado mais perto da região velar, por influência do /k/ e, conseqüentemente, um som palatal foi surgindo: /kl/ &gt; /kλ/. O segundo estágio, nesta evolução, foi o fato de /pl/ e /fl/ tornarem-se /pλ/ e /fλ/, por influência de /kλ/.</p>
        <p id="paragraph-c2396034da4c7c8c11f9323fafd00de6">Assim:</p>
        <fig id="figure-panel-79793e4fe9de64ca7b2fda4843b00419">
          <label>Figure 23</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-06f1ce5bafb79cf21680bc9677271543" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-12858ab02adcf040531ee24cae150da1" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_18-00-47.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-4efb823d210e363f136c95ed8076c064">O terceiro movimento proposto, nesta evolução, é o da simplificação dos grupos consonantais (kλ, pλ, fλ &gt; λ), simbolizado dentro do arcabouço teórico da TO, por intermédio da restrição *COMPLEX-ONS(ET). Esta restrição, proposta por Prince &amp; Smolensky (1993, p. 96)<xref id="xref-b32a7db7a1f71218485bbb2d5086a5e1" ref-type="bibr" rid="book-ref-abd4548e0bf165c2f1826fd42f893dcb">[6]</xref>, evita a formação de grupos complexos no ataque silábico. Entre outras evidências da tendência, para simplificar ataques complexos na Língua Portuguesa, é possível citar:</p>
        <p id="paragraph-a5854206b9dd7f527f593bce3c32967c">.</p>
        <p id="paragraph-d071ac3229ca1a96efa0d111db24ab17">(a) a simplificação de /kλ/ em posição intervocálica: AURICULA &gt; [orekλa] &gt; [oreλa];</p>
        <p id="paragraph-113fc2174c3445eb865a02bbf1707bf2">(b) a simplificação de /gλ/ em posição intervocálica: COAGULU &gt; [koagλo] &gt; [koaλo];</p>
        <p id="paragraph-9d7d846bba7dfbb1780f6996b2522f70">(c) a simplificação de /kλ/ em posição inicial: CLAMARE &gt; [kλamar] &gt; [š];</p>
        <p id="paragraph-0da8e44af9d439785638622848affce0">(d) a simplificação de /bl/ e /gl/: FABULARE &gt; [fablare] &gt; [falar]; GLATTIRE &gt; [latir].</p>
        <p id="paragraph-ab44ba89c0e0cf6eb93dc1d026fffcc9">.</p>
        <p id="paragraph-1525a5ffc2c93540e29cff9406d2d3e0">Dentro da TO, essa evolução da perda dos grupos consonantais pode ser explicada pela demoção de MAX-IO, para uma posição mais baixa na hierarquia. Assim, a evolução se deu exatamente da mesma forma que a maior restrição a coda silábica e a queda das geminadas: com a demoção desta restrição de fidelidade. O tableaux (38) ilustra a evolução sob a ótica da TO:</p>
        <fig id="figure-panel-2454bd6ad186b16223b2c0bc17e93862">
          <label>Figure 24</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-1d301df293399726adce380dd27b61e3" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-8521bb48afe8a2f3b9707313f40f5648" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_18-06-25.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-9e70e1b5384e2e328e46dacb13442a80">Em (38), foi necessário subdividir MAX-IO em duas restrições: MAX-IO (SOANTE), que impede o apagamento de segmentos soantes; e MAX-IO (OBSTRUINTE), que impede o apagamento de obstruintes. Pela posição na hierarquia destas duas restrições (com MAX-IO (SOANTE) dominando MAX-IO (OBSTRUINTE)), é possível escolher o candidato ótimo. Assim, é preferível apagar um segmento obstruinte a um segmento soante. Também é possível observar no tableaux que MAX-IO foi demovido mais uma vez (e em um outro fenômeno diacrônico distinto) para uma posição mais abaixo na hierarquia de restrições, o que corrobora a hipótese de que alguns processos na evolução do Latim para o Português (e que culminaram na redução e simplificação de estruturas silábicas) resultaram da demoção de MAX-IO na hierarquia de restrições.</p>
        <p id="paragraph-910b7cb05a13a17448ee625003f501c3">No entanto, esta evolução mostrada acima ainda não explica como, em algumas posições, o Português evoluiu do estágio λ &gt; š. Ainda segundo Holt (1997, p. 139)<xref id="xref-71b9f0596fd080fce2ee4ed41fc5880a" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-02cf75fec2f35fb2efbc125f3c839563">[14]</xref>, em determinadas posições, sobretudo quando kλ, pλ e fλ eram precedidos de nasal, o apagamento das obstruintes era muito custoso, pois afetaria tanto a obstruinte em si como a nasal precedente, e o que aconteceu foi uma crescente palatalização do λ. Este segmento palatal soaria muito similar a um outro segmento palatal desvozeado /š/ e, quando seguido de uma consoante desvozeada, seria acusticamente semelhante a [tš].</p>
        <p id="paragraph-703239b4e5e655f16123b021cea493c1">A quarta etapa desta evolução seria a reinterpretação da palatalização de λ como a africada [tš], assim:</p>
        <p id="paragraph-7a0240ece2419b1d8ebba1a4ef13c48d">.</p>
        <p id="paragraph-5fe60f0b7500d343c7dc93a8b4033ea5">(39)</p>
        <p id="paragraph-5f9f6dc7c5247153b1e944abb594a18d">/mankλa/ &gt; [mantša] ‘mancha’</p>
        <p id="paragraph-5d3862cd86333107908ebecfd3279252">.</p>
        <p id="paragraph-f8d8d027b25a64767909cdf28c7b544c">Na última etapa do processo, há novamente uma demoção de MAX-IO na hierarquia de restrições, que culminará em formas como ‘manša’, ‘šama’, ‘šave’, ‘inšar’, dentre outras. Em (40), pode-se observar este ordenamento:</p>
        <fig id="figure-panel-76ccf0755899a26a791e144be442d45d">
          <label>Figure 25</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-4d7b330ea5abfab7a4b6276b20943a3d" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-e9eb71bcb653305e2e2229883ff94133" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_18-07-31.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-31dde9b47a506b4dcfc11a59185b24eb">Em (40), [šama] é o candidato ótimo, pois não viola *COMPLEX-ONS, que está em posição mais acima na hierarquia. Novamente, neste fenômeno diacrônico, a restrição MAX-IO foi demovida de sua posição original, o que inviabiliza a escolha de [tšama].</p>
        <p id="paragraph-615405e5085454a6c57f1628a40316fb">.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-a95ba93cb3d4f06a33c50ae8c981145e">
        <title>6. Considerações finais</title>
        <p id="paragraph-e7f984c2a6f778d59d456a49e2dfefca">A investigação que resultou no presente trabalho possibilitou mostrar que um modelo fonológico baseado em restrições, em particular a Teoria da Otimalidade, pode contribuir significativamente para o entendimento das mudanças diacrônicas da Língua Portuguesa. Além disto, a análise por meio da TO também evidencia que o processo de mudança lingüística, ao longo da evolução de um idioma, pode ser encarado como um reordenamento na hierarquia de suas restrições.</p>
        <p id="paragraph-ae3eb1db433023785115acaaff5d1848">O principal objetivo deste trabalho foi mostrar que parece existir uma tendência, no PB, a simplificar estruturas silábicas, por meio de fenômenos fonológicos aparentemente distintos, o que caracterizaria uma conspiração (conforme denominado na literatura específica).</p>
        <p id="paragraph-f30a062306f23bc3e88b0f613c809aad">Observou-se que os três fenômenos apresentam, dentro da TO, uma explicação em comum: a demoção da restrição MAX-IO para uma posição inferior na hierarquia das restrições. Além disso, todos estes fenômenos caminham para uma simplificação do padrão silábico, corroborando a hipótese prevista neste trabalho.</p>
        <p id="paragraph-6">Em se tratando do apagamento das consoantes geminadas na evolução do Latim Clássico para a Língua Portuguesa, observou-se que a perda do <italic id="italic-2295bbc95db7de6d3c991c585d462d05">status </italic>moraico das consoantes longas foi o resultado do deslocamento da<italic id="italic-5c3ae1abe4323dc703dd574b842aed29"> </italic>restrição MAX-IO para uma posição inferior na hierarquia de restrições. Com isto, a Língua Portuguesa passou a admitir que apenas as vogais pudessem carregar <italic id="italic-87a101c726e1276b39476e1c047bce87">status</italic> moraico. Com o apagamento das consoantes geminadas, a estrutura silábica do Português foi conseqüentemente simplificada.</p>
        <p id="paragraph-d2d77451b44150c0912c8aa619c65694">Em relação à questão da maior restrição a coda silábica por parte da Língua Portuguesa, observou-se que o Latim Clássico permitia quase todas as consoantes travando sílaba, enquanto que o Português, nesta posição, só admite /S/, /L/, /R/, /N/ e os glides. A análise por meio da TO revelou que novamente a demoção de MAX-IO foi responsável pela reestruturação da língua, assumindo uma posição mais conservadora em relação a coda. Assim, o novo estágio do idioma promoveu CODACOND e demoveu MAX-IO, produzindo uma gramática do tipo CODACOND &gt;&gt; MAX-IO. Isto acarretou novamente em uma simplificação da estrutura silábica.</p>
        <p id="paragraph-5473413ea8398a139825d071fa647488">O último fenômeno diacrônico foi a redução de grupos consonantais, mais especificadamente /k, p, f/ + /l/. Como visto, o deslocamento de MAX-IO para uma posição inferior a *COMPLEX-ONS acarretou a simplificação dos grupos consonantais.</p>
        <p id="paragraph-d6433c09693aa9bc6583794e7152b02c">Assim, três fenômenos diacrônicos aparentemente distintos produzem resultados semelhantes, por meio de um processo idêntico: a demoção de MAX-IO:</p>
        <fig id="figure-panel-1a20833389dc6c1381dcc99ffc8dc236">
          <label>Figure 26</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-df28a96f83260da0c65d2157c0223555" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-e92098889d9d658b69877b534143aa13" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-21_18-08-41.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-e711782b5d8d5d415f0a1c0b71723731">A proposta apresentada não exclui a possibilidade de haver outras forças, dentro do próprio sistema do PB, contra a conspiração por padrões silábicos não marcados. Como é sabido, os sistemas lingüísticos são imbuídos de forças opostas (centrífugas e centrípetas, por assim dizer), em um estado de constante equilíbrio. A amostra utilizada aqui se restringiu a apenas três fenômenos e, certamente, muitos fenômenos importantes deixaram de ser tratados, embora um panorama geral tenha começado a ser esboçado.</p>
      </sec>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-597220419cf2cf44d4d7c2bc0104651d">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-d669a97d5ec0a66a774bde1a853a44f2">1 Não confundir a grafia “rr” em Português com uma consoante geminada. Neste caso, trata-se tão-somente de uma convenção gráfica para um único fonema.<bold id="bold-1"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-f479f3f75d991102c958bf1ea856aaa1">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-70fd28e6ce459487a0db1699c84d802f">2 Em palavras eruditas, o –kl– permaneceu inalterado: CLIMA &gt; clima; CLARU &gt; claro; CLASSE &gt; classe (Williams, 1961, p. 74).<bold id="bold-196bfc0f148c59c66372ce14ab161f52"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-0c486c8d64da69bc347ec44106a78a41">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-5e83ff316bb51ee08db18eeac2d9930d">3 Em palavras eruditas, o –pl– permaneceu inalterado ou foi restaurado: PLUMA &gt; pluma; PLANTARE &gt; plantar (Williams, 1961, p. 75).<bold id="bold-640cdb3b8e68676e169e61357dcebcca"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-21cb474b97d2060b345bc44cbbe95d64">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-d8871a6d674d4ca2f4051e200bae609c">4 Em palavras eruditas, o –fl– permaneceu inalterado ou foi restaurado: FLAUU &gt; flavo; FLORE &gt; flor; FLUIDU &gt; fluido (Williams, 1961, p. 74).<bold id="bold-22b74c824b3239e6c8ca1f54c657a965"/></p>
      </fn>
    </fn-group>
    <ref-list>
      <ref id="book-ref-ebbac2f0f435f307cb2cd948ec609961">
        <element-citation publication-type="book">
          <edition>5. ed</edition>
          <publisher-loc>Paris</publisher-loc>
          <publisher-name>Klinksieck</publisher-name>
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            <italic id="italic-6ba82599d85983e29b65f4bb2c009f66">Eléments de linguistique romane</italic>
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        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="book-ref-abab5069e2a5725127a7ca9cda552a0d">
        <element-citation publication-type="book">
          <edition>26. ed</edition>
          <publisher-loc>Petrópolis</publisher-loc>
          <publisher-name>Vozes</publisher-name>
          <year>1997</year>
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              <surname>CÂMARA Jr.</surname>
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            <italic id="italic-f466cb14624b3d4d1e0867dde2eb9fbc">Estrutura da Língua Portuguesa</italic>
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