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        <article-title>PROCESSOS METONÍMICOS NA EVOLUÇÃO DO ALFABETO</article-title>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="22/05/2017" />
      <volume>6</volume>
      <issue>2</issue>
      <issue-title>PROCESSOS METONÍMICOS NA EVOLUÇÃO DO ALFABETO</issue-title>
      <fpage>23</fpage>
      <lpage>39</lpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-879a26f3e396507242bc7d751c1e78ce">A partir das contribuições da Lingüística Cognitiva ao papel da metáfora conceitual, examinaremos um tipo de metonímia, a sinédoque, aplicada à invenção do alfabeto, desde a fase pictográfica, ou seja, a escrita das coisas, passando pelos ideogramas, até se chegar à escrita fonográfica, silábica ou alfabética, que representa a fala.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-8e1c2d7387f05801daa9eeced49a564d">
          <italic id="italic-1">The contributions of Cognitive Linguistics to the role of conceptual metaphor are considered in this paper when analyzing one type of metonymy, the synecdoche, applied to the alphabet invention, from the pictographic stage, i.e., the writing of things, through ideograms and up to phonographic, syllabic and alphabetic writings, which represent speech.</italic>
        </p>
      </abstract>
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          <italic id="italic-a370df0a4b15cd80617e471ea944b09a">lingüística cognitiva</italic>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-aa901577c89d1df9dfebf458263602f1">sinédoque</italic>
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          <italic id="italic-da353e632e836acb27e78f8ebdbd7eaa">alfabeto</italic>
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          <italic id="italic-974eb2f527659298935dbb468d113938">invenção</italic>
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    <sec id="heading-5bf356764bdef4e4f54b24367155ff06">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-1aca54dcdb20a83f6804968969e42745">Neste artigo, a partir das contribuições da Lingüística Cognitiva (LAKOFF; JOHNSON, 1980;<xref id="xref-b6f9e962832fcbda20deef63d6357cc8" ref-type="bibr" rid="book-ref-43ffa88747d3e91183d451d102241835">[1]</xref> LAKOFF, 1987;<xref id="xref-c9213ffc327fd6b117365bb37c02d162" ref-type="bibr" rid="book-ref-adc9c197c174662004e7838bee97e767">[2]</xref> LANGACKER, 1987)<xref id="xref-713f3f0ec60bd9b7936adb7dff655e48" ref-type="bibr" rid="book-ref-ed4e758cadab8f67f9cb3ffca72eea43">[3]</xref> ao papel da metáfora conceitual como estruturante do modo como percebemos, pensamos e agimos, deslocando o foco das análises lingüísticas que examinavam os tropos dentro da poética (JAKOBSON, 1960)<xref id="xref-95745c72d93f8ad08db34a33e2b033a8" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-8ae0b783a2e4f7258b821a6bf6535c82">[4]</xref>, daremos ênfase ao papel da metonímia, mais especificamente, a um tipo de metonímia, à sinédoque, como também desempenhando tal papel. </p>
      <p id="paragraph-3">Justificaremos por que tal papel vem sendo negligenciado (apesar, dentre outros, dos estudos de Lakoff (1987)<xref id="xref-0d0eca2d96020f63f17dd3d981285ced" ref-type="bibr" rid="book-ref-adc9c197c174662004e7838bee97e767">[2]</xref>, Gibbs Jr. (1995: 319-358)<xref id="xref-77a6eae5af40663d8c5ddda7369d5f6d" ref-type="bibr" rid="book-ref-57e74b28336de3b559269cb10831d2c5">[5]</xref>, de Panther e Radden (1999)<xref id="xref-b8dd45f4b6ad9d2337b489e672e6647a" ref-type="bibr" rid="book-ref-e420272e4cdb878ae2a90102e59d2231">[6]</xref>, de Basílio (2006)<xref id="xref-b73058cfabd1219d8a9ee4e5660feef0" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-e7905518ef8b4a42d2e32b61497c821b">[7]</xref>), tal como outro processo estruturante do modo como percebemos, pensamos e agimos, a sinestesia (sem diminuir a importância que vem sendo atribuída ao papel dos esquemas imagéticos cinestésicos (LINDNER, 1983)<xref id="xref-4a78110c86f7884abb49dd93db52005a" ref-type="bibr" rid="book-ref-52708ce333cc17a2acf2996c9889ab30">[8]</xref>). Passaremos a algumas definições de metonímia e seus processos. Em adendo, assinalaremos que o papel da metáfora conceitual, como estruturante do modo como percebemos, pensamos e agimos, ainda vem sendo aplicado a um número restrito de linguagens, como a verbal, a teatral, a pictórica e a cinematográfica, com ênfase na linguagem verbal, seja ela oral ou dos sinais: pouca atenção tem sido dada a outras linguagens, abordando tais processos como ferramenta de que o homem se utiliza como ser semiótico. Exemplificaremos nossa linha de raciocínio com a análise dos processos sinedóquicos que precederam a invenção do alfabeto, examinando o proto-alfabeto que deu seus primeiros passos no Monte Sinai, por volta de 1.500 a.C.</p>
      <p id="paragraph-90c39d854c89787652eff5206ec93f1f">_</p>
      <sec id="heading-74ea10b54b1c478a85b7cd7319dc7c96">
        <title>1. O deslocamento da perspectiva</title>
        <p id="heading-b94f147deb48626915ff2a75547c9111">A primeira classificação das metáforas, posteriormente aplicada à retórica, deve-se a Aristóteles, enquanto no séc. V, o filósofo neoplatônico Proclus incluiu a metáfora no estudo das mudanças semânticas (ULLMANN, 1967: 10-11)<xref id="xref-686ee1b734696d296c3be256bbd7a495" ref-type="bibr" rid="book-ref-31c798879edc37c91d242a6f4c25cf4f">[9]</xref>.</p>
        <p id="paragraph-177c06004dee96944b2e69c45df45678">Até o lançamento da teoria cognitivista da metáfora em 1980 (LAKOFF; JOHNSON, 1980),<xref id="xref-5e3cb7c95b71914c375c0fb758ad0789" ref-type="bibr" rid="book-ref-43ffa88747d3e91183d451d102241835">[1]</xref> pode-se afirmar que o estudo da metáfora, na lingüística, era aplicado principalmente à poética, destacando-se a proposta de Jakobson (1960, 1971 [1955])<xref id="xref-3e3b28501c61e59bc645ddedf6dc7510" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-8ae0b783a2e4f7258b821a6bf6535c82 chapter-ref-ae734aae4a1659eb483a1bc2ff2a8730">[4,10]</xref>, que utilizou a dicotomia saussureana das relações sintagmáticas na metonímia (relações por contigüidade, <italic id="italic-68dd692d0578e5616c70a600f23edbac">in praesentia</italic>, ou predicativas, ou por combinação) e das relações paradigmáticas (associativas ou <italic id="italic-dbe568c9f78cf8412a1377729a1b9db1">in absentia</italic>, ou de seleção, ou substitutivas, ou de semelhança) na metáfora. Na parte II da obra editada em 1971, Jakobson, na verdade, dedica mais espaço à aplicação da dicotomia saussureana à tipologia das afasias, o que eu considero uma forma reducionista de classificá-las. É no texto editado em 1960, que faz parte dos anais da <italic id="italic-3">Conference on Style</italic>, realizada na Universidade de Indiana, na primavera de 1958, que Jakobson desenvolve sua proposta, aplicando-a à poética, quando afirma:</p>
        <p id="paragraph-fdef6920c81ddb9caac09899ed887301">_</p>
        <p id="paragraph-708351888f560ce2dd960908de9c86f0">qual é o traço inerente, indispensável em qualquer peça de poesia? Para responder esta questão, precisamos lembrar os dois modos básicos de arranjo utilizados no comportamento verbal, a <italic id="italic-532aa91843892fb9292b9060bd43a0b1">seleção</italic> e a <italic id="italic-3b1e5c00dec2d02897a4eab476e41249">combinação</italic>.<xref id="xref-2fe97b0acabfbb50137bc1017502d4b2" ref-type="fn" rid="footnote-47e791906c3debb8895e21d8b358ba51">1</xref> (JAKOBSON, 1960: 358, trad. da autora)<xref id="xref-eed691e07071395e5f334bce9703145a" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-8ae0b783a2e4f7258b821a6bf6535c82">[4]</xref>.</p>
        <p id="paragraph-c80c1490e18271da18e7abbdb38ab5d3">_</p>
        <p id="paragraph-178c469a5ca678af344517aed4c2bae5">A partir da proposta de Lakoff e Johnson (1980)<xref id="xref-47c591227a1b9f4b896635fe552f2022" ref-type="bibr" rid="book-ref-43ffa88747d3e91183d451d102241835">[1]</xref>, há uma reviravolta no tratamento dos chamados tropos, pois a análise se desloca da descrição lingüística para aplicá-los à forma como percebemos, pensamos, imaginamos e agimos: não se trata mais de um produto, portanto, mas sim do processo empregado para compreender e para produzir a linguagem, bem como para agir sobre o mundo, refletindo um modo particular de pensar. Eles afirmam (1980: 4)<xref id="xref-b12a13f45aa051c8d6ed7c6d24011230" ref-type="bibr" rid="book-ref-43ffa88747d3e91183d451d102241835">[1]</xref>:</p>
        <p id="paragraph-d8b4a173e0a2bba315490b32022cc7bd">_</p>
        <p id="paragraph-5a6b832626784fac299d9f0bbdbd9767">Descobrimos que a maioria de nosso sistema conceitual é metafórico, por natureza. E descobrimos uma forma de começar a identificar em detalhe o que as metáforas exatamente são de tal modo que estruturam como percebemos, como pensamos, e o que fazemos.<xref id="xref-5a8752cf38cc81f7f91a197f4a6a064f" ref-type="fn" rid="footnote-dea49fd7895ab93493c28499f62a7142">2</xref></p>
        <p id="paragraph-2"> _</p>
        <p id="paragraph-189e04c7d8ca0e04cd31a88cb629b56c">É interessante constatar que este papel conferido aos tropos já comparece subjacente em um autor do século 17 que, em 1678 escreve</p>
        <p id="paragraph-79f769e797bbfa9e538b4c2f662dec7e">uma peça com fins pedagógicos, na qual um dos atores, justamente Tropo, afirma que ele e a Figura governam “não apenas tais coisas balbuciadas chamadas palavras, mas as maneiras e as mentes”. <xref id="xref-a49502e7c26c9a54d37682fcb5fa02bf" ref-type="fn" rid="footnote-e31e808b27fd3fd7384b3079ab7af9ac">3</xref> (CHRISTIANSEN, 2000)<xref id="xref-ac12bcc2ca72c217978c58d1f8a4c5c9" ref-type="bibr" rid="webpage-ref-e884c4f1d1ef8e9e43436d11b0692a10">[11]</xref>.</p>
        <p id="paragraph-152c808b67b61a276f239bb6c29b685c">A proposta de Lakoff e Johnson (1980)<xref id="xref-02103bb8d1c3dd719055c9f866b563c6" ref-type="bibr" rid="book-ref-43ffa88747d3e91183d451d102241835">[1]</xref> implica uma reviravolta epistemológica, uma vez que eles postulam que a significação lingüística é criada a partir de experiências corporais pré-conceituais mais básicas (GODDARD, 1998: 77)<xref id="xref-81b45ec81cb2e9250a1bc0c32f53dd72" ref-type="bibr" rid="book-ref-e85b7df22f08e85de9cf5fce35ffbf00">[12]</xref>, através do mapeamento que as metáforas conceituais operam entre tais experiências e domínios mais abstratos. A metáfora assume, então, o estatuto de faculdade mental. Conforme Gibbs (2006: 2)<xref id="xref-cfa51f8da0fd3663fbb05660e372d066" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-dff416c5959b8af7d6494d4ce8e9e30b">[13]</xref>, “a metáfora serve para iluminar as relações temáticas que definem o mundo e nossas experiências sobre ele.” <xref id="xref-bb9b687ee0bf79544e89c26b9df05f48" ref-type="fn" rid="footnote-0a9629e774d821021bed113e1f830107">4</xref></p>
        <p id="paragraph-1e26ecc7f80002196b807dafa85b6a1d">_</p>
      </sec>
      <sec id="heading-9f023c0f1b753cb256785c1526f84436">
        <title>2. A metonímia como forma de perceber, pensar e agir</title>
        <p id="paragraph-2de431989df042615587d8fc4cfd5dbf">Conforme se pode depreender do acima exposto, em seu início, a Lingüística Cognitiva privilegiou a metáfora.</p>
        <p id="paragraph-3bfaa59ca1cad5d35a7fdcec743919d2">A subestimação da metonímia já havia sido assinalada por Jakobson: “Não é por acaso que as estruturas metonímicas são menos exploradas do que o campo da metáfora”<xref id="xref-56e9a262f6084934fe5da61771524e35" ref-type="fn" rid="footnote-f7536f76b0300ca1be31ca9d2bde3212">5</xref> . (1960: 374-5)<xref id="xref-1ddd039fbc694602c553d064ceedbffb" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-8ae0b783a2e4f7258b821a6bf6535c82">[4]</xref>. Neste trabalho, Jakobson exemplifica sua constatação, mencionando que foram realizados inúmeros estudos sobre o Romantismo e o Simbolismo, correntes que empregaram, sobretudo, a metáfora em detrimento do Realismo que em suas descrições de personagens, ações e cenários deu preferência à metonímia.</p>
        <p id="paragraph-56b2aaca29b9a1d250d33327ae776c64">Algumas definições dos processos metonímicos podem nos ajudar a esclarecer as razões da preferência pela metáfora, inclusive o fato de alguns autores incluírem aqueles nesta.</p>
        <p id="paragraph-fb110f585317c6654de9fd2658fec6d1">Na lingüística cognitiva, a metonímia se refere ao uso de uma única propriedade para identificar uma entidade mais complexa e é uma das características básicas da cognição: toma-se uma característica mais fácil de perceber ou bem entendida para representar ou estar em lugar da coisa como um todo (GIBBS, 1995: 358)<xref id="xref-f55faaa74a4296011e3e79874d89901a" ref-type="bibr" rid="book-ref-57e74b28336de3b559269cb10831d2c5">[5]</xref>, ou outros aspectos, como no exemplo “Ela prepara ótimos pratos”, em que o continente passa a designar o conteúdo. Lakoff e Johnson (1980: 38)<xref id="xref-540db34732133f34e569e527d0460a05" ref-type="bibr" rid="book-ref-43ffa88747d3e91183d451d102241835">[1]</xref> dão exemplos de um tipo de metonímia, a do controlador pelo controlado, como em “Nixon bombardeou Hanói”, em que Nixon está em lugar das forças armadas.</p>
        <p id="paragraph-a2c8094d5afbd0d6d78d7e036b8cb0e9">Uma das definições mais recentes dentro do marco da lingüística cognitiva nos é proporcionada por Panther e Radden (1999)<xref id="xref-a90255eeb22d6ea073e022131124c247" ref-type="bibr" rid="book-ref-e420272e4cdb878ae2a90102e59d2231">[6]</xref>, conforme explica Basílio (2006: 69)<xref id="xref-bdbcf4fefb4bc99831405c48c4993460" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-e7905518ef8b4a42d2e32b61497c821b">[7]</xref>:</p>
        <p id="paragraph-3dd2a4454309208d56dd17dc1d1fb9b4">_</p>
        <p id="paragraph-f3b9260c5195a0526fa706cea6a03815">o processo metonímico consiste em acessar mentalmente uma entidade conceitual (o alvo) através de uma outra entidade (o veículo), como nos sempre citados exemplos dos lugares pelos agentes e assim por diante.<xref id="xref-7200648c445699847ff64b0ae7c29405" ref-type="fn" rid="footnote-fffbf1fbd2d3c57417bde703595a1f8f">6</xref></p>
        <p id="paragraph-da4c857cc5660402baadebd59cc82c06">_</p>
        <p id="paragraph-587e6257e2e236e267dafc677fdd6029">Em suma, o que caracteriza a metonímia é que tanto o alvo quanto o veículo pertencem ao mesmo domínio, enquanto na metáfora ocorre um distanciamento entre ambos. Por outro lado, conforme assevera Gibbs (1995: 358)<xref id="xref-7c740d63316af2b892ce48b011dee06c" ref-type="bibr" rid="book-ref-57e74b28336de3b559269cb10831d2c5">[5]</xref>, os ouvintes estão aptos a entender tanto as metonímias convencionais quanto as novas, porque as inferências necessárias para interpretá-las fazem parte das operações mentais corriqueiras de nosso sistema cognitivo.</p>
        <p id="paragraph-761a00fb63b8e39eb43fe98c8c76da4b">Dentre os modelos que melhor têm dado conta do processamento da metonímia, podemos citar o modelo de competição (MacWHINNEY, 1987, 1988)<xref id="xref-c87442034bb3c85134dc4169747d0c4a" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-108eac2186237fa55b41680856d7bd6e">[14]</xref>, um modelo de processamento distribuído em paralelo que envolve uma contínua tomada de decisões para a escolha entre vários candidatos possíveis (palavras ou conceitos) para uma dada categoria dentro de um nicho ecológico semântico. O modelo postula que os processos para a criação do sentido e os da seleção de sentidos operam simultaneamente, talvez em competição, o que foi comprovado em experimentos psicolingüísticos: as expectativas contextuais conduziram os sujeitos a recuperar o sentido figurado ao mesmo tempo em que rejeitavam o significado literal.</p>
        <p id="paragraph-b4cefbd80ba192993d3f3db444bb1c8c">Vamos mais adiante: podemos afirmar que, na base da construção dos perceptos, para o reconhecimento e identificação de tudo o que nos cerca, aplicam sempre processos metonímicos: reconhecemos e identificamos quem fala ao telefone, pelas qualidades da voz; reconhecemos e identificamos os objetos, ao processarmos os sinais luminosos de superfícies parciais, sejam quais forem as partes ou lados exibidos; reconhecemos e identificamos uma música ao ouvir os primeiros compassos; reconhecemos e identificamos a palavra escrita, quando bem alfabetizados, sem a necessidade de decodificar todos os grafemas que a constituem e assim por diante.</p>
        <p id="paragraph-61509eaab0fe158d7e38d3df40d7727f">Um dos tipos de metonímia que foi particularmente utilizado na invenção do alfabeto que se originou no Monte Sinai é a sinédoque, que consiste numa relação entre a parte e o todo, sendo os termos da referência concretos, como vimos em relação a prato como um dos componentes da refeição. Trata-se de um processo largamente empregado no cinema, com a técnica dos <italic id="italic-6dd806faae188b193828f0976ec7ac41">close-ups</italic>. Jakobson (1971 [1951]: 92)<xref id="xref-f5f1315ac67cd29d0d30c2a629615375" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-ae734aae4a1659eb483a1bc2ff2a8730">[10]</xref> dá um exemplo dos processos sinedóquicos empregados na literatura, mencionando a topicalização por Tolstoi da bolsa de Ana Karenina, na cena do suicídio; cita ainda a decomposição sinedóquica da figura, no cubismo e o uso dos <italic id="italic-dec2ceb20f7661ebce088bf20aff9181">close-ups </italic>por Chaplin.</p>
        <p id="paragraph-b6545964549e09121d4d890e1f9e5818">_</p>
      </sec>
      <sec id="heading-95f41c489079b0f36247f7462304d6b1">
        <title>3. A origem não lingüística dos processos metafóricos e metonímicos</title>
        <p id="paragraph-37c23bca637c82718b882a2fca5cea50">A partir do pressuposto de que os processos metafóricos e metonímicos estruturam como percebemos, como pensamos e como agimos, eles não se limitam àqueles usados exclusivamente na linguagem verbal e, portanto, se existe uma organização conceitual, princípios de categorização e mecanismos de processamento gerais (GIBBS, 2006: 3)<xref id="xref-b240ccb1793df2171b48bb1b6d72cd33" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-dff416c5959b8af7d6494d4ce8e9e30b">[13]</xref>, tais como o metafórico, o metonímico (incluindo o sinedóquico), o sinestésico e o cinestésico, defendemos sua aplicabilidade ao processamento de todas as linguagens, o que justifica o concurso de várias disciplinas, dentre as quais a psicolingüística (GIBBS, 2006: 3)<xref id="xref-332162fa33984d7c72e190b825d4516a" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-dff416c5959b8af7d6494d4ce8e9e30b">[13]</xref>.</p>
        <p id="paragraph-f0af01251ed2abc0e4771301b2aca485">Passaremos a ilustrar as considerações feitas com a análise dos processos sinedóquicos recorrentemente utilizados na invenção do proto-alfabeto, no monte Sinai.</p>
        <p id="paragraph-6b1b4855065d0fb151bc2a8d9f902933">Começaremos por uma contextualização histórica.</p>
        <p id="paragraph-b4ad6b4dc496e52af1cf112bbd6e8254">_</p>
      </sec>
      <sec id="heading-69b1c0546a449d413c5446b2ffedea89">
        <title>4. Sistemas de escrita</title>
        <p id="paragraph-782b2ed477f1953b3fc1c0b14f7c151d">A trajetória para o registro escrito da experiência desenvolve um lento percurso desde a fase pictográfica (a tradução mimética da realidade do mundo), ou seja, a escrita das coisas, passando pelos ideogramas, até se chegar à escrita fonográfica, que representa a fala.</p>
        <p id="paragraph-ee0012ff60ebda8ff7659afef8b7a9a3">Um mesmo sistema de escrita pode utilizar fontes ou scripts diferentes, como é o caso do alfabético, nos alfabetos grego, cirílico, latino, gótico, hebraico ou árabe. Tais alfabetos podem ser aplicados a línguas diferentes. O que condiciona o uso de um dado alfabeto a uma língua determinada são as convenções ortográficas.</p>
        <p id="paragraph-78aed5db5b6a18ff437757313b09458c">Desde os primeiros desenhos nas grutas em Lascaux, há 20.000 anos, descrições do aqui/agora, num processo lento até o registro da fala, vamos acompanhando o surgimento da escrita cuneiforme sumério-acadiana (entre 4.000 a 3.000 a.C.), a ideográfica na China (há 3.000 anos a.C.) e a hieroglífica no Egito (há 3.000 a.C., 1ª dinastia tinita) até os sistemas alfabéticos.</p>
        <p id="paragraph-c3bc30069805ffd0e15de5f6c90d47ad">Deve-se esclarecer que alguns sistemas como o hieroglífico e o chinês incorporaram ao pictográfico e ideográfico signos fonográficos, bem como determinativos com a finalidade de desambiguar homógrafos, através da sinalização do respectivo campo semântico. Na verdade, os precursores da escrita se encontram na Ásia Menor: trata-se de pedrinhas ou pequenos blocos de barro, com registros, em geral, para contabilizar e coincidem com os pictogramas sumérios. Enquanto a escrita cuneiforme foi utilizada no início primordialmente para o registro de nomes e quantidades, necessário para as transações comerciais, a egípcia está vinculada às inscrições nos templos, com caráter sagrado. Os signos fonográficos no sistema egípcio, que serão reutilizados pelos judeus no Monte Sinai, são consonantais.</p>
        <p id="paragraph-b918f0223fb09bfa8278b3b8e550ab6c">Diferenciam-se os sistemas pictográficos dos alfabéticos, fundamentalmente, pelo fato de que cada signo, em sua totalidade, representa um referente. Observe-se, porém, como explicaremos, que os desenhos já utilizam processos metonímicos, registrando aspectos mais salientes do referente e desprezando outros. Na escrita ideográfica, os ideogramas representam conceitos e têm a 3ª articulação, porém não são fonográficos. Os sistemas alfabéticos ou fonográficos se caracterizam por operarem com três articulações, cada grafema, realizado por uma ou mais letras, representa um fonema ou som (segunda articulação), enquanto cada letra articula um, dois (o mais freqüente) ou mais traços, inclusive a rotação, em torno de uma linha imaginária (3ª articulação); a articulação dos radicais e afixos (1ª articulação) resulta nos itens lexicais, que representam conceitos.</p>
        <p id="paragraph-0de995f7c24c04fc0b354f89c18efd04">Em conseqüência deste salto cognitivo, a produtividade lingüística multiplicou-se e a economia para o léxico mental permitiu que o homem pudesse ler e registrar quaisquer estados de consciência e experiências pensáveis lingüisticamente, autônomas das contingências espaço-temporais. Os proto-sistemas alfabéticos e os alfabéticos originaram-se da escrita sumério-acadiana e dos hieróglifos, evolução esta que resultou nos alfabetos proto-sinaítico (1.500 a.C.), proto-fenício (1.300 a.C.), fenício arcaico (1.100), fenício ou páleo-hebraico (1.000 a.C.) , grego (800 a.C.); etrusco (800 ~700 a.C.); latino (600 a.C.). O alfabeto moderno data do séc. III.</p>
        <p id="paragraph-09f7c40a18070b4ac2ff7210d592d4da">Demonstraremos que a passagem dos hieróglifos para o proto-sinaítico, proto-fenício, fenício arcaico, fenício ou páleo-hebraico, grego, etrusco e latim vai ocorrer por dois processos paralelos: por um lado, um processo metonímico em que vão sendo eliminados pedaços do todo dos desenhos, até restarem traços arbitrários que se resumem a retas e arcos; por outro lado, o desmembramento da silaba, cuja unidade será fixada na escrita pela letra.</p>
        <p id="paragraph-ce2f2cdc3771a737c5379c15d8c00c2f">Como adendos a esta construção, ocorrem a representação das vogais, fixada pelos gregos e a fixação da direção da escrita, no alfabeto ocidental, da esquerda para a direita, com repercussão no traço de rotação, conforme veremos.</p>
        <p id="paragraph-62cb0afb6a6e2a1cf0e11ee866b5720b">Assinalamos, pois, dois desenvolvimentos exponenciais para o surgimento do alfabeto: por um lado, o momento em que a um segmento, ou som, é fixado um desenho para representá-lo; o outro, a marcha para a simplificação e abstraimento do desenho que não guarda mais nenhuma relação com referentes externos, desenvolvimentos que resultam numa economia de custos para a memória, por um lado e, por outro, no aumento gigantesco da produtividade dos sistemas escritos.</p>
        <p id="paragraph-ab20136b7e678e4084832671814c6c1a">O primeiro documento encontrado da escrita proto-sinaítica foi uma pequena esfinge de arenito dedicada à deusa Hathor, no planalto de Serabit-el-Khadem, descoberta pelo arqueólogo F. W. M. Petri em 1905: a data de maior consenso atribuída às inscrições bilíngües (egípcio e proto-sinaítico) é em torno de 1.400 a.C. O filólogo que decifrou a escrita proto-sinaítica foi A. H. Gardiner, em 1916: ele constatou que a escrita era acronímica, servindo cada hieróglifo para o registro do primeiro som da palavra. Cada hieróglifo correspondia ao significado de uma palavra iniciada por aquele som que ele passou a representar. Assim, o som correspondente a [b] era representado pelo hieróglifo de casa à beit.</p>
        <p id="paragraph-b3d7a89a12303dfb0cb7e44e45ced7ec">Nos documentos encontrados em Serabit-el-Khadem não foram identificadas as 22 consoantes do hebraico, pois o sistema foi completado posteriormente.</p>
        <p id="paragraph-6b4e6b36f9da84bea8835232b377c810">Pesquisas recentes revelaram a existência de exemplos mais antigos de escrita semelhante, encontrada no Egito Central, datada ao redor de 1800 a.C.</p>
        <p id="paragraph-21d364d8ad289103b33aef08cf171022">O sistema alfabético que deu origem aos alfabetos grego, etrusco e latino foi disseminado pelos fenícios (observe-se que o fenício e o hebraico são línguas próximas, pertencentes à mesma família lingüística, as línguas cananéias).</p>
        <p id="paragraph-3dab92e5dea8bbf336f1f678f4fe67e9"> Vejamos a evolução da primeira letra do alfabeto hebraico, alef, que significa touro (Ilustração 1) e que deu origem à letra alfa do grego e à letra A, do alfabeto latino. Lembremos que o hebraico não registra as vogais na escrita: o alef funciona como um diacrítico. </p>
        <fig id="figure-panel-4c99a3ab54fcd17c3c2dea1eb66941d1">
          <label>Figure 1</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-b5a7b540ed4d87b4d6ccda886362785f" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-f18035ee70bb89514c00ebc6397ade72" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-20_00-18-41_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-c9f3ea6ec54dd3ae6f6efddca920157a">Observe que, por processos sinedóquicos, só ficou a cabeça do touro, e, posteriormente, do esquema da cabeça, apenas um traço horizontal, com um ângulo agudo, vestígio dos chifres. Vão ocorrendo rotações em que o ângulo passa a ser cortado pela reta, até assumir a posição de hoje. Note-se a evolução, tanto no alfabeto grego, inclusive na cursiva, com os chifres voltados para a direita, quanto no alfabeto etrusco, que originou o A maiúsculo do alfabeto latino.</p>
        <p id="paragraph-cdd4462e1e9e37258994568716452c3b">Observemos, por exemplo, os hieróglifos que representam a casa (beit), que dará origem à letra B. Ocorrem também processos sinedóquicos: a casa é representada por um quadrado (as quatro paredes, uma delas com a abertura da entrada). O hieróglifo que representa a casa é bastante freqüente, às vezes, representando a planta de um edifício (o hieróglifo egípcio era um fonograma, representando a fricativa glotal, como o /h/ do inglês). Champollion assinalou a cor azul nelas empregada.</p>
        <p id="paragraph-b5c46adc32df77757dcead93d75b41aa">No proto-sinaítico, encontramos variantes em que o(s) ponto(s) no centro representa(m) lareira(s), ou seja, a importância atribuída às velas acesas, no lar judaico.</p>
        <p id="paragraph-dc63ab1da03e1324d69ea0025c325abf">Posteriormente, o quadrado se abre, representando a porta e mostrando o equilíbrio entre o interior e o exterior. Com uma rotação de 90º, chegamos ao desenho de um nove invertido, tal qual aparece na inscrição de Nora (séc. 9 a.C.)</p>
        <p id="paragraph-107129b3da819c6b8780c265522df2ad">É preciso considerar que a direção da letra era instável e o beit muitas vezes aparece invertido de cabeça para baixo, mas em todas as representações o braço aberto é curvo, fechando-se, posteriormente e dando origem ao B.</p>
        <p id="paragraph-01e57c2232733aa47160e2c390f63244">O ângulo superior duplica, no alfabeto etrusco e se arredonda. Nos 22 sonetos que escrevi (<italic id="italic-36aad3784c4e44ac11d93285f786436b">Sagração do alfabeto)</italic>, procurei fixar a trajetória desde o pictográfico até o alfabético, como se vê no soneto:</p>
        <fig id="figure-panel-4d111304674f93a708f054c887c4a0cb">
          <label>Figure 2</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-297e7b47454aca90c6bf34d2989fd779" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-1b60d224265b8496c3f24deeb6177d8a" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-20_00-18-59_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-d8155d383a285caea32f2bd7f0354390">Outro exemplo é o gimel (no grego, gama), que significa camelo e vai dar origem à letra C. Por sinédoque, só ficou a corcova (ou o pescoço e cabeça, segundo alguns) e, por último, apenas um ângulo reto que se alinha como um L maiúsculo. Das variantes assumidas no solo grego, onde passou a chamar-se gama, uma das três formas no dialeto de Corinto é exatamente a forma C, a mesma do alfabeto romano.</p>
        <p id="paragraph-8b3b0418e51cd93f4146ea39b2b464fa">No etrusco, de cujo alfabeto somos herdeiros, o fonema /g/ não existia: o fonema /k/ é representado pelo grafema “K” antes de /a/ e “C” antes das vogais [-post], enquanto o grafema “Q” é usado antes de /u/. Como vemos, a letra “C” resultou do arredondamento do ângulo, que proveio dos chifres, que estavam na cabeça do touro, cujo corpo sumiu:</p>
        <fig id="figure-panel-87d57973191462deb2eb489da6c0fb09">
          <label>Figure 3</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-bf9ebb5ac60231e2988cfd3245dc7dc1" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-c53b1fd01133c69c3922f7113878a5a6" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-20_00-20-23_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-fbaa3a6e3f178562af2847d7ef1eff58">A letra hê vai dar origem à letra “E” e significa o som do sopro na oração. O hieróglifo é um homem rezando com os braços para o alto. Depois ele se ajoelha, em seguida, desaparecem o corpo e a cabeça e, finalmente, muda a direção.</p>
        <fig id="figure-panel-13cfd3cefd57b46ec6d3611d6f314e66">
          <label>Figure 4</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-985fd493e286a7454a9ecfb7c93a7805" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-b42d6d0e75a0147f9ad32171310f2c3a" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-20_00-20-41_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-9f40ea0320125f92b320bedb4929e67d">Embora em sua origem no Monte Sinai, o <bold id="bold-b701e7801993bf3bf1169386b987ba28">CHET</bold> fosse representado pelo hieróglifo da flor de lótus, o desenho que lhe deu origem em registros posteriores foi o de uma grade, no sentido horizontal. Passou a representar a consoante aspirada como em /h/ do inglês, que não existia no etrusco e acabou dando origem a uma letra que funciona mais como diacrítico nos dígrafos.</p>
        <fig id="figure-panel-5fc2119a91e61a94638e59a2eab335fd">
          <label>Figure 5</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-015f2a17f383ba4856c3e5ce75796031" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-37ec31fa83df946a6d5d7e1992574c71" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-20_00-22-57.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-71de023695051b4b4a47f1de28999b36">Finalmente o shin, que significava dente ou arco, do qual resultarão o sigma grego e a letra “S” do alfabeto latino (por arredondamento e mudança de direção), a qual representa muitas fricativas. O desenho do dente passou por implementações no alfabeto hebraico, lembrando uma chama:</p>
        <fig id="figure-panel-110bec4148b1debf62937c6c8df769ce">
          <label>Figure 6</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-0a4b109a9f0969e06429e37be6845130" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-1676a103ba2fa57c2d4a9097dbd74656" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-01-20_00-24-28.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-6fb5781ac448988ca77018a9c2afaa52">_</p>
      </sec>
      <sec id="heading-dc6c7bf8bb7b3cacf82f8d6fa233f884">
        <title>5. Considerações finais</title>
        <p id="paragraph-118cccc8d7b58e6e2946ee7fe5cb64d7">Neste artigo, a partir das contribuições da Lingüística Cognitiva (LAKOFF; JOHNSON, 1980;<xref id="xref-c16e6bca9d78fe7316c02fac938c270e" ref-type="bibr" rid="book-ref-43ffa88747d3e91183d451d102241835">[1]</xref> LAKOFF, 1987;<xref id="xref-d5a7b8837952b142c69c0dbe55aefea4" ref-type="bibr" rid="book-ref-adc9c197c174662004e7838bee97e767">[2]</xref> LANGACKER, 1987)<xref id="xref-af43d66aa677401d5f39515e12977001" ref-type="bibr" rid="book-ref-ed4e758cadab8f67f9cb3ffca72eea43">[3]</xref> ao papel da metáfora conceitual como estruturante do modo como percebemos, pensamos e agimos, deslocando o foco das análises lingüísticas que examinavam os tropos dentro da poética (JAKOBSON, 1960)<xref id="xref-031c51340bd7151c629512824774462d" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-8ae0b783a2e4f7258b821a6bf6535c82">[4]</xref>, procuramos dar ênfase ao papel da sinédoque na invenção do alfabeto. A trajetória para o registro escrito da experiência desenvolve um lento percurso desde a fase pictográfica (a tradução mimética da realidade do mundo), ou seja, a escrita das coisas, passando pelos ideogramas, caracterizados pela metáforas e metonímias, até se chegar à escrita fonográfica, que representa a fala.</p>
        <p id="paragraph-b00b91bcc3dda7747bc6a437824ced99">Assinalamos dois desenvolvimentos exponenciais para o surgimento do alfabeto: por um lado, o momento em que a um segmento, ou som, é fixado um desenho para representá-lo; o outro, a marcha para a simplificação e abstraimento do desenho que não guarda mais nenhuma relação com referentes externos, desenvolvimentos que resultam numa economia de custos para a memória, por um lado e, por outro, no aumento gigantesco da produtividade dos sistemas escritos.</p>
        <p id="paragraph-ab2af71f6eb5eab1f44ada16774921de">Ilustramos a trajetória com alguns sonetos de <italic id="italic-15f7e84fb0f107ba66dc9c53b141ab19">Sagração do alfabeto</italic> em que prestamos tributo a um dos maiores feitos do homem para se apossar do saber: a invenção do alfabeto.</p>
      </sec>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-47e791906c3debb8895e21d8b358ba51">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-370b564020fbb3e1a746fe5d0d214bc4">1 “What is the indispensable feature inherent in any piece of poetry? To answer this question we must recall the two basic modes of arrangement used in verbal behavior, <italic id="italic-a8706160fc2ec15e44526ec092d17794">selection</italic> and <italic id="italic-2">combination</italic>”.<bold id="bold-1"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-dea49fd7895ab93493c28499f62a7142">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-a8d3d4cadec453e212778b3976cd2eab">2 [W]e have found that most of our conceptual system is metaphorical in nature. And we have found a way to begin to identify in detail just what the metaphors are that structure how we perceive, how we think, and what we do.”<bold id="bold-94dc32b2cb297892ffc2ae959ffd3c93"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e31e808b27fd3fd7384b3079ab7af9ac">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-9281230489d1091bd015e2d928ac4a29">3 “Trope […] and Figure govern “not only in those babbling things call’d words[…] but in manners and minds””.<bold id="bold-0f8e29326c211f2fc422dc331ab6b2a6"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-0a9629e774d821021bed113e1f830107">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-9a0685bff7382c03fa2ec8f2c377b663">4 “metaphor serves to highlight thematic relations that define the world and our experience of it”.<bold id="bold-8ae23ce60fe71fd058e1f38a6aa65d43"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-f7536f76b0300ca1be31ca9d2bde3212">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-9f9d72c02df887abf3db1fb64fd36062">5 “It is no mere chance that metonymyc structures are less explored than the field of metaphor.”<bold id="bold-faa11474155175cea7af789de8350a7e"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-fffbf1fbd2d3c57417bde703595a1f8f">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-fdc7538839bd4bfac3cf1a7ef34227f4">6 “the metonymic process consists in mentally accessing one conceptual entity (the target) by means of another entity (the vehicle), as in the always quoted examples of places standing for agents, and so on.”<bold id="bold-0a9fd11ea03888f72d304a2c5df971bd"/></p>
      </fn>
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