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        <article-title>Argumentos dativos</article-title>
        <subtitle>um cenário para o núcleo aplicativo no português europeu</subtitle>
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            <given-names>Maria Aparecida C. R. Torres</given-names>
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        <institution content-type="orgname">Universidade de São Paulo</institution>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="22/05/2017" />
      <volume>5</volume>
      <issue>1/2</issue>
      <issue-title>Argumentos dativos: um cenário para o núcleo aplicativo no português europeu</issue-title>
      <fpage>239</fpage>
      <lpage>266</lpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">O objetivo deste artigo é discutir argumentos que justifiquem a inclusão do português europeu no conjunto das línguas que apresentam propriedades sintáticas e semânticas das construções aplicativas. A discussão baseia-se principalmente nas idéias desenvolvidas por Pylkkänen (2002) e Cuervo (2003).</p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-724244f096a3fc9effde5a6f9578a864">
          <italic id="italic-1">In this article the main goal is to discuss the applicative construction in European Portuguese. </italic>
          <italic id="italic-2">The discussion will be based on ideas developed by Pylkkänen (2002) and Cuervo (2003).</italic>
        </p>
      </abstract>
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        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-e5d48daa43db269feda67087c3d0a056">ditransitivo</italic>
        </kwd>
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          <italic id="italic-40add17ea228d2a6f3bc813ef26aafdc">núcleo aplicativo</italic>
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          <italic id="italic-fd28e0b82e2802cf484c907a8df09fa4">dativo</italic>
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          <italic id="italic-d88d24f0ac7250d42bf351e135a80891">português europeu</italic>
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    <sec id="heading-61b09443504c2c933e78035d61f20964">
      <title>1. Palavras iniciais</title>
      <p id="paragraph-4064dcebb82810cf6e7a45fd1b9310c7">Neste artigo tenho um objetivo: apresentar argumentos para justificar a inclusão do português europeu (PE) no conjunto das línguas que exibem as propriedades sintáticas e semânticas das construções de objeto duplo, também denominadas construções aplicativas. O contexto verbal relevante inclui os predicados ditransitivos que expressam eventos dinâmicos de transferência ou movimento. Ou seja, eventos que se constroem com dois argumentos: objeto direto (OD) e objeto indireto (OI). Como veremos, essa propriedade da estrutura de argumento deve envolver complexidades que não estão previstas no estudo das sentenças transitivas com um só argumento interno.<xref id="xref-dd7bab20f8f7aa12ede72544ed4aae22" ref-type="fn" rid="footnote-addb98650fa8ffc7a9b88727dd800866">1</xref></p>
      <p id="paragraph-d048e0a9c39e711e452dcdedd3bd6170"> Muitos autores enquadram o estudo dos predicados ditransitivos no fenômeno conhecido como “alternância dativa”. Há muitas propostas de análise da alternância dativa disponíveis na enorme literatura sobre os fatos do inglês. Curioso é que, por um bom tempo, foi consensual a idéia de que o inglês, no conjunto das línguas germânicas e românicas, possuía o monopólio na manifestação do fenômeno, em particular, na sua variante de objeto duplo. As línguas, no entanto, de modo geral, apresentam meios para adicionar um argumento ao verbo. Isso foi demonstrado de forma reveladora na literatura sobre as línguas bantas<xref id="xref-f3b23d69248138b0e6042aa2e76be79f" ref-type="fn" rid="footnote-d7b9243ff23f16f6fd02cd04861997e4">2</xref>, em que o argumento adicional é chamado de argumento aplicado ou aplicativo e as construções nas quais ocorre são chamadas construções aplicativas.</p>
      <p id="paragraph-6bb95bb5315d701e75d3e7d12d21155a">Marantz (1993)<xref id="xref-61be4190cee16af19e7b436bf301e877" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-2e80de25c1fdeb9924e4bc9b3cf19b7a">[1]</xref> propôs tratar a construção de objeto duplo do inglês como uma construção aplicativa. Pode-se dizer que a proposta do autor constitui um marco importante na medida em que tem sido fundamental para o reconhecimento de um ponto: o território dos núcleos aplicativos é muito mais amplo e complexo do que se pôde entrever no início. Além disso, a nova perspectiva permite reconhecer que a alternância dativa se manifesta em línguas diversas, entre elas, o espanhol, romeno, grego, japonês, coreano, búlgaro. Observa-se ainda que há várias assimetrias na sintaxe e semântica das construções aplicativas. Um fato, porém, é essencial para a sua identificação: o de que um dos argumentos na estrutura de argumentos do verbo é introduzido por um núcleo aplicativo.</p>
      <p id="paragraph-c61b610d76fca98090a85357fabc88d7">O artigo vai se desenvolver da seguinte forma: na seção 2 apresento alguns aspectos da expressão da alternância dativa no inglês, destacando a contribuição de Pylkkänen (2002)<xref id="xref-cd4a51cb69dab3a612e9d79e9443e1b6" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-179c4e41b7d6fb217ee65cfb4bcbcb1e">[2]</xref> para a elaboração de uma tipologia universal dos núcleos aplicativos. Um paralelo é feito entre o núcleo aplicativo e o núcleo que introduz o argumento externo na sintaxe. Destaco ainda fatos relevantes do espanhol, na visão de Cuervo (2003)<xref id="xref-91b57aa851897e7ffe4d7848814e633b" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-5b3391daa59089288436b0afe1519d24">[3]</xref>.</p>
      <p id="paragraph-02310e5ed1dcfcefc2a7cf98abbddd3b">O quadro teórico assumido pelas autoras vai ser fundamental para as reflexões sobre o PE, ao longo da seção 3, na qual busco retomar questões que Cuervo elaborou no seu estudo sobre os dativos, entre elas:</p>
      <p id="paragraph-6f03e459fcb60f1272f9aa7c4774b5f4">(i) Que tipo de argumento são os argumentos dativos?</p>
      <p id="paragraph-9881635d6177d71078195ef8f8516564">(ii) Que papel temático podem receber?</p>
      <p id="paragraph-46425c5e732a849af59868a4867c84b4">(iii) Como são licenciados na estrutura sintática?</p>
      <p id="paragraph-e1672a3bbbee079a8d9d0a16b2fd04ca">(iv) Têm eles um significado estrutural ou idiossincrático?</p>
      <p id="paragraph-7d4b2a238a31b2840dafb03e45b7f1b8">(v) O caso morfológico que os distingue em algumas línguas corresponderia a alguma classe sintática ou semântica específica?</p>
      <p id="paragraph-54b128cae6e8ae31379ee532ba969dd2">As respostas que encontro para essas questões me levam a propor que a gramática do PE instancia as variantes da alternância dativa, em especial, a construção aplicativa nos moldes do que foi proposto para o espanhol. Parece-me que é a primeira vez que tal proposta é feita para o português, tanto na variante européia como na variante brasileira. Por fim, a conclusão da seção 4 inclui alguma discussão sobre o português brasileiro (PB).</p>
      <p id="paragraph-0d1cd403ed754d9034ba17c87d971834">_</p>
      <sec id="heading-3b3f5f2a7a25caf44780d7efee4e48a3">
        <title>2. Introduzindo argumentos</title>
        <sec id="heading-fe3e0f0d67b305be31e9087142c76a5d">
          <title>2.1. O núcleo “voice” na derivação das sentenças transitivas</title>
          <p id="paragraph-54657141abdb58a14e7b7eed06ab1741">Um dos grandes desafios para as teorias da estrutura de argumentos do predicado é entender como os elementos que constituem peças importantes na construção dos eventos são projetados na estrutura sintática, e como obtêm o seu significado. Ou seja, como podem ser licenciados sintática e semanticamente. Hale e Kayser (1993 e 2002)<xref id="xref-cb8c2ebad2f896c8a4a3658411df6ee4" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-ad27b763afa4084a44e258d17d3977d9 book-ref-e8304fdcf2abcb757bab1eca13d1f192">[4,5]</xref>, por exemplo, elaboram o seu projeto de pesquisa nesse campo, propondo que a estrutura sintática é que determina os significados possíveis dos verbos e argumentos.</p>
          <p id="paragraph-8b897a28e7bb4d32f355543bd7dfaa8e">No estágio atual da pesquisa nessa área, repleta de divergências, tornou-se consensual a proposta de que há uma assimetria entre os significados possíveis do argumento externo e os significados possíveis do argumento interno (OD) nas sentenças transitivas. Sabe-se que a discussão inicial sobre o assunto parte de Marantz (1984)<xref id="xref-cca39f1381d40494dfda6d0c5c757071" ref-type="bibr" rid="book-ref-0f67c1a7a3a5d37899796f303ce52347">[6]</xref>, com base na observação de que, enquanto os objetos são argumentos dentro do domínio do VP, assinalados com um papel temático pelo verbo, os sujeitos não têm o mesmo estatuto, constituindo um argumento “adicional”, embora exigido em muitos ambientes sintáticos.</p>
          <p id="paragraph-15881dd07e82d94b1ca986f9d2975695">Numa sentença transitiva o verbo e o objeto direto podem formar um significado especial excluindo o sujeito, como fica claro em expressões idiomáticas: <italic id="italic-47b211a1178066ae872241ff41d12c45">tirar o pai da forca</italic>, <italic id="italic-cbc2764db044d1a09f374f0e0a1e4ce6">chutar o balde</italic>, <italic id="italic-bf11e469cb3603e03386bbdc2a981d49">bater as botas</italic> e tantas outras. O mesmo dificilmente ocorre entre o sujeito e o verbo. Ora, se o argumento externo não é um verdadeiro argumento do seu verbo, é preciso determinar o seu licenciamento sintático. Tomando como pressuposto básico que os argumentos são sempre introduzidos por núcleos na sintaxe, o sujeito deverá ser argumento de outro núcleo. Kratzer (1996)<xref id="xref-59f7dac1a4073e5d4e42e29712078c11" ref-type="bibr" rid="book-ref-b1a1545ccec49aa14d1efd754a29b82f">[7]</xref> foi pioneira na tarefa de formalizar a intuição de Marantz. Em suas palavras: “<italic id="italic-fc13dfece675aceaedd67f03f174c483">Marantz</italic> <italic id="italic-e234681325ec9a16c9f27eba975a5fc6">is not explicit about how to execute his proposal</italic>” (p. 12). Portanto, como<italic id="italic-c37f868eeff64f0cb7b2a8325f25662f"> </italic>realizá-la na sintaxe? Como adicionar o argumento externo nas línguas naturais? Por que nem todos os verbos adicionam um argumento externo? Por que ele é obrigatório com vários verbos? O que determina o papel temático do argumento externo? Nem todos são agentes.</p>
          <p id="paragraph-325559e8a2e718abc533bff0b5c2ca40">A resposta de Kratzer é uma teoria formal de <italic id="italic-5969af2c56190fcf4819d006aa3b99bc">voice</italic>, um núcleo sintático que licencia o argumento externo. O papel semântico de <italic id="italic-927bee1992783c7e5ca87e0cc445fc09">voice</italic> é relacionar o argumento externo ao evento descrito pelo verbo através da operação <italic id="italic-24227726e0ffed4a34aab69859907adc">Identificação do Evento</italic>. O argumento externo é gerado como especificador<italic id="italic-d0adc0ef4a03896d0bba2594987a1b0a"> </italic>de <italic id="italic-d15b449309a6ab360fbbc549bded0db1">voice</italic> que toma o VP como complemento. Se o evento expressa uma atividade, o argumento externo é interpretado como <italic id="italic-9ca231248b729b6297f8196145a53502">agente</italic>. Se é causativo, o argumento é interpretado como <italic id="italic-d6d95c6a106e766d2e49ca8815427685">causador</italic>. Se é um predicado estativo, ou inacusativo, o argumento externo pode ser interpretado como <italic id="italic-12fa1bfd459fba05f12cc90e384de09e">tema</italic>, <italic id="italic-6d1e37de58030afeab0cf5ad42ce3758">experienciador</italic>, ou<italic id="italic-10"> possuidor</italic>. Em outras palavras, uma vez que<italic id="italic-11"> voice </italic>está<italic id="italic-12"> </italic>sempre acima do VP, a variação no significado do argumento externo é determinado pela natureza ou propriedades da frase verbal. Conclui-se, portanto, que o argumento externo tem um significado estrutural. Vejamos a representação de uma sentença transitiva <italic id="italic-13">O José ama a Maria</italic>.</p>
          <fig id="figure-panel-e67d1eb063347da09fa2adf3a542eefc">
            <label>Figure 1</label>
            <caption>
              <p id="paragraph-bd0845fb52c960cb6b76577674e39f95" />
            </caption>
            <graphic id="graphic-e3dbb3c176f3fb2fd4a57f16e48eac07" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-49-00.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-06d864c5eb477ae71bb4cc9e8805492d">Acrescente-se que, na derivação de uma sentença transitiva, o núcleo funcional Voice atribui Caso acusativo ao DP-OD gerado na posição interna ao VP e papel temático <italic id="italic-ecc46f600fe7b8932d95e267fb7d4cbe">agente</italic> ao DP em seu especificador. O DP-<italic id="italic-c1909de76504f3af6a9b4a60806f2e43">agente</italic> tem seu traço de Caso valorado na relação com T (cf. CHOMSKY, 2001)<xref id="xref-50c03e4abbd1adf0fe2aad7d53d99a42" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-a46e74a6e42f578660845c5ebc482caa">[8]</xref>. A suposição de que o argumento externo não é um argumento selecionado na representação lexical do verbo, não foi posta em questão dentro do Programa Minimalista. Assim, Chomsky (1995 e 2001)<xref id="xref-dbfb2c77f4cbd813ba57a6a8d24150e6" ref-type="bibr" rid="book-ref-e39397f4ee1d50ee0407b914c7885d72 chapter-ref-a46e74a6e42f578660845c5ebc482caa">[8,9]</xref>, Collins (1997)<xref id="xref-3fdb77cb5dba544eedced0f8398bb934" ref-type="bibr" rid="book-ref-e260c7b32d7293686d63b784ccd72036">[10]</xref> e muitos outros, assumem o verbo leve (<italic id="italic-d4861a04c427d8a751912d19ef5b2555">v</italic>) como núcleo funcional introdutor do argumento externo. Esse é gerado no seu especificador e interpretado semanticamente nesta posição.</p>
          <p id="paragraph-afb9c1b8dd642d09ba2416bf9db25b33">_</p>
        </sec>
        <sec id="heading-abf2a6f34519118ddacf417cd5e37546">
          <title>2.2. O núcleo aplicativo e a alternância dativa no inglês</title>
          <p id="paragraph-f674dea11e31c4d35ccc20d0a77ff7df">O termo aplicativo ou aplicado é muito antigo, mas só se tornou conhecido na literatura lingüística corrente através do estudo das línguas bantas. Em algumas delas, como chaga e chichewa, o núcleo aplicativo se manifesta morfologicamente através de um afixo ou morfema específico <italic id="italic-c9bcf918799bf92b49d369241916c82b">(-i</italic>;<italic id="italic-57f100fb58868c18cd823ca9617bed00">-ir</italic>) que licencia um objeto indireto (OI) ou oblíquo (OBL), vistos<italic id="italic-bf7e217ef334b64f76ba2c1db8ce5484"> </italic>como argumentos extras, adicionais, “afetados”, que não poderiam, de outra forma, ser considerados elementos da estrutura de argumento do verbo. Normalmente, os argumentos aplicados são interpretados como <italic id="italic-62cc71a2a952c92e3ffd83f47e2aa52a">beneficiário </italic>e<italic id="italic-e76f5f2b0898a7c154738c0518082c99"> instrumental</italic>:<xref id="xref-4feae8c1fdace3fb52150cea2b4ffc3b" ref-type="fn" rid="footnote-d6473e17e8a6e38d06a290d34793fc60">3</xref></p>
          <fig id="figure-panel-9656dc2aeacd878c8f8212f9089e9d8a">
            <label>Figure 2</label>
            <caption>
              <p id="paragraph-54133757a83cdf1eef292149810b76f9">
                <xref id="xref-a23b665dcfc2337f0484a53f2771328b" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-179c4e41b7d6fb217ee65cfb4bcbcb1e">[2]</xref>
                <xref id="xref-fdea4b9e0d76a82a332b2a22d1400d42" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-8f0671e352be8821222599bdcfa435ca">[11]</xref>
                <xref id="xref-15c7d307d10b07e6fb55b31b085bbe85" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-037f0df04cec7c919901c11ae78a59bf">[12]</xref>
              </p>
            </caption>
            <graphic id="graphic-27d9ae3e829cc32523bf1e96ba26e809" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-49-19.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-3bc36f723de1655a771e3ec4d2f5087f">Marantz (1993)<xref id="xref-cc8c2beaf1318874d9ccfe6b681cada6" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-2e80de25c1fdeb9924e4bc9b3cf19b7a">[1]</xref> reconhece similaridades entre as línguas bantas e o inglês e propõe tratar a construção de objeto duplo do inglês como uma construção aplicativa, mesmo na ausência de expressão morfológica do núcleo aplicativo, ou seja, do marcador aplicativo lexical. Como se sabe, o fenômeno da alternância dativa manifesta-se em duas estruturas básicas: (i) <italic id="italic-fab3687f318e29fdf94ef3b2f766494a">Construção ditransitiva preposicionada</italic>, em que o objeto indireto é<italic id="italic-fd195b1d7b95f67d65324f7e00534c3e"> </italic>introduzido por uma preposição lexical, realizando-se como um sintagma preposicional (PP)<xref id="xref-c2c54bf9e792a66bb75c4bf5a764a384" ref-type="fn" rid="footnote-05795e0f7819c1eb4ae818a1faf83e86">4</xref>; (ii) <italic id="italic-d3094e349a316f744fa00877b89d4731">construção de objeto duplo</italic>, em que o objeto indireto não é um PP, mas um DP. O argumento é interpretado como <italic id="italic-a0368d0b64ee5d5ba190f62c8049a4f9">recipiente/meta </italic>ou<italic id="italic-c65418895a03f9f4e47c87c92f9327c9"> beneficiário</italic>.</p>
          <fig id="figure-panel-36b8c7e3955b1d14071f7d05142fa3b1">
            <label>Figure 3</label>
            <caption>
              <p id="paragraph-6316e36c29197d31de87258c178dbb1b" />
            </caption>
            <graphic id="graphic-9c8a899d07540db71281487c93577c4c" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-49-45.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-7124e82ee6b22b07dd610f20f192dc8a">Na derivação da construção ditransitiva preposicionada, o DP-<italic id="italic-a216b056bd9da37d32505fd67f484c41">tema</italic> é inserido acima do PP. Na construção de objeto duplo é o oposto: o DP dativo é inserido acima do DP-<italic id="italic-5d6476d239d6fb87b1b84fbead84ef7d">tema</italic>. Neste caso, segundo Marantz, nos moldes do que se afirmou para o núcleo <italic id="italic-61e96d3aba5e0fa20f21cfb167f5b189">voice</italic>, ou <italic id="italic-f4bebf0e8731430927fc7dc9b66520ea">v</italic>, que introduz o argumento externo, o núcleo aplicativo é um verbo leve (<italic id="italic-b2385d9bcbd02475bdae5693c5735d4b">v</italic>Appl) que toma um evento como argumento e licencia sintática e semanticamente o DP-OI em seu especificador, relacionando-o como participante do evento.</p>
          <p id="paragraph-5247e95999a3571fb94c7e45ed452300">Pylkkänen (2002)<xref id="xref-3045bcfc92b61dc2e18cb68f677bc57c" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-179c4e41b7d6fb217ee65cfb4bcbcb1e">[2]</xref> observa que, embora o inglês e chaga apresentem a construção de objeto duplo com um argumento <italic id="italic-5ed3fefac4f2ed4767dd705f84789c10">beneficiário</italic> aplicado, as suas propriedades semânticas, aparentemente similares, diferem, assim como as suas propriedades sintáticas. Uma delas é que, apenas em chaga, um participante <italic id="italic-f0d506f7d15326f2e7dbbc25b88ce1e1">beneficiário</italic> pode ocorrer com um verbo inergativo, como no exemplo (2-b). A outra, é que não seria possível, no inglês, um núcleo aplicativo relacionar um argumento aplicado a um evento, como se viu em (2a) e (3) para as línguas chaga e chichewa, respectivamente. Os exemplos em (6a) e (6b) ilustram o ponto:</p>
          <fig id="figure-panel-4aab92db5045332457b8d980ccea317b">
            <label>Figure 4</label>
            <caption>
              <p id="paragraph-eaba0081ac549103b3e66b56451ff4d9" />
            </caption>
            <graphic id="graphic-79c497c42e48694750a2ace2ee6484c3" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-50-16.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-055fb71f2cfbf856fc545ead16985745">Note-se que a agramaticalidade de (6a) e (6b) revela que uma interpretação em que o argumento aplicado (OI) não estabeleça nenhuma relação com o OD é impossível na construção de objeto duplo. Na sentença <italic id="italic-f8542ebf9eb5099b9ce83de22d53fffb">John baked Bill a cake</italic> não se entende que John assou um bolo ao Bill de modo que este não tivesse o bolo. Ao menos a intenção de que Bill tenha a posse do bolo está presente. Se um relacionamento entre o objeto aplicado e o OD é obrigatório não se obtêm sentenças gramaticais onde tal relacionamento não possa ser construído.</p>
          <p id="paragraph-209a3737dacba5ba9a4d9d58899dd95e">Portanto, um tipo de construção, normal em chaga (2a), não vai ser expressa no inglês com a estrutura de objeto duplo (6a), mas na estrutura da ditransitiva preposicionada (<italic id="italic-df51ca63003b02ac3b619943659a23db">He is eating food for his wife</italic>). Não é possível que <italic id="italic-529117c40ccd68c4a734b81b24aaaa4a">esposa</italic> e <italic id="italic-1744ab8fdec3f5118256b9012b9776eb">comida</italic> estejam em um relacionamento de posse, mesmo tendo a esposa se beneficiado do evento do marido ter digerido a comida. O mesmo se pode dizer da construção aplicativa em chichewa (3), em que <italic id="italic-b098d6a575e7976f636a6e7456a55335">faca</italic> mantém uma relação <italic id="italic-ad8aa9f04d32d18f7075f54e178c08b4">instrumental</italic> com o evento de <italic id="italic-95bac5c100e1e09dfc9272d4b6d7317d">moldar o pote</italic>, mas não uma relação direta, ou de posse, com <italic id="italic-8799ceea06607d3d358652608cc13367">pote</italic>. A mesma observação esclarece o fato de que apenas em chaga um participante <italic id="italic-46d0f8ff6f850a75d4da29ca7576ed4e">beneficiário</italic> pode ser adicionado a um verbo inergativo como <italic id="italic-24c5ad32509087e11a08f39ce5244250">correr</italic> (<italic id="italic-726ea9b21d9b2f23e31ef8173204aa08">to run</italic>).</p>
          <p id="paragraph-5e27f9bc4c43479dd92da5ee93a8d8d0">Segundo Pylkkänen, o inglês e chaga são línguas que revelam uma tipologia universal dos núcleos aplicativos que introduzem argumentos. A sua proposta é que, semanticamente, há dois tipos distintos de núcleos aplicativos: o <italic id="italic-be923637214204d287d0fbd00780da51">aplicativo alto</italic>, que denota uma relação entre <italic id="italic-2afab46383924dd7bc52d08b2ce96de5">evento</italic> e <italic id="italic-f002af2caff19fd8a4b178534e17687c">indivíduo </italic>e o<italic id="italic-143acd0db8bf7295c21d264dc30759bb"> aplicativo baixo</italic>, que denota uma relação entre<italic id="italic-6ef1d11904d71dc3679625d221a5035b"> dois indivíduos</italic>.<italic id="italic-a676d5fd9b4ed9d59dba4937213ef19c"> </italic>Os núcleos aplicativos altos são inseridos acima da raiz verbal ou VP. Os núcleos aplicativos baixos, abaixo do VP, como se vê, respectivamente em (7a) e (7b):</p>
          <fig id="figure-panel-042b5063ad9377881b6669b3d593c288">
            <label>Figure 5</label>
            <caption>
              <p id="paragraph-55da16784992d23105e4ee201cd4410a" />
            </caption>
            <graphic id="graphic-9e69681b02b6616c547c571d9eebe97b" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-50-43.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-8c38892a5877ea76f2a9f16ca6e1f624">O núcleo aplicativo baixo toma um DP-<italic id="italic-6ff968c7096a7e2cadd53a3d03746ad5">tema</italic> como seu complemento e o relaciona ao DP licenciado em seu especificador. Em seguida, a frase aplicativa (ApplP) combina com o verbo. O núcleo aplicativo baixo denota uma <italic id="italic-aa1d8f9dd84c26ef29688ea57be115c0">relação dinâmica de transferência de posse</italic> em que o DP mais alto se relaciona ao DP-<italic id="italic-2b7a4f6ecbda6ca4bfdc545692803e37">tema</italic> mais baixo.</p>
          <p id="paragraph-6acf8403b0953cd8c594a3a16149b92a">Fica claro que, no inglês, os núcleos aplicativos baixos modificam o OD, sendo interpretados como relações possessivas direcionais <italic id="italic-f04bcc03251ec14b964641b82dec4be0">to-the-possession-of</italic>, ou seja,<italic id="italic-72d38957dd73a8176665d0a9f48f875a"> para a posse de</italic>, como expresso em<italic id="italic-b3feaec950cc294ce0307ec9a43ecc81"> John baked Bill a cake </italic>e<italic id="italic-3d532611ba76fbf13f9444ac115769be"> John sent Mary a letter</italic>. A construção de objeto duplo do inglês<italic id="italic-6db4086c56b298c87b47c730e54e7fe1"> </italic>está restrita a esse tipo de aplicativo baixo, em que o argumento aplicado é interpretado como <italic id="italic-cac16d545c74f9d80b5f42512256a062">recipiente</italic> ou <italic id="italic-02fede8e932a09ac7a6104bd5fb8def7">beneficiário</italic>.</p>
          <p id="paragraph-be5938ef6cf3d9ec16623c9add6d5649">Nessa seção mostrou-se, portanto, que os núcleos aplicativos adicionam um argumento ao verbo nas línguas bantas e no inglês. Marantz (1993)<xref id="xref-221b1d4c1e79bf5eaf24d8f75546ef98" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-2e80de25c1fdeb9924e4bc9b3cf19b7a">[1]</xref> dá conta da sua semântica afirmando que eles são elementos que tomam um evento como argumento e introduzem um elemento que está tematicamente relacionado ao evento. A teoria dos núcleos aplicativos e as suposições correntes sobre o argumento externo proporcionam uma estrutura das ditransitivas em que tanto o <italic id="italic-ef10478566e287edde02a768317371d5">v</italic>APPL quanto <italic id="italic-372e3f931974574ee4d39960c5483f62">voice</italic> – o núcleo que introduz o argumento externo – são elementos funcionais acima de VP. Pylkkänen<italic id="italic-18652b932b2b3a402aa5d5e058bbca36">,</italic> argumenta, porém, que a estrutura proposta por Marantz não pode ser universal.</p>
          <p id="paragraph-a990dc16b7dd611b9d0d0811801bc287">Uma tipologia universal dos aplicativos deve incluir núcleos aplicativos altos e núcleos aplicativos baixos. O núcleo aplicativo alto (fig.7) relaciona o argumento aplicado e um evento (nos moldes de Marantz). O núcleo aplicativo baixo (fig.8) relaciona dois indivíduos, o OD e OI, e expressa um relação de posse entre eles. Nesses termos, a construção de objeto duplo do inglês é uma construção de aplicativo baixo.</p>
          <p id="paragraph-24e669b3a7230759c538012a5ee51831">_</p>
        </sec>
        <sec id="heading-2031cdbf74dd9b10655e2a2f14589625">
          <title>2.3. O núcleo aplicativo e a alternância dativa no espanhol</title>
          <p id="paragraph-34fad7b6d6096e64d1bf2f9bcb4a1ac1">Com base principalmente nas idéias de Pylkkänen acima apresentadas, Cuervo (2003)<xref id="xref-dcf5dbafb71e5a282901240a16bd53a2" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-5b3391daa59089288436b0afe1519d24">[3]</xref> assume que o espanhol apresenta as variantes estrutura de objeto duplo e estrutura preposicionada da alternância dativa, nos moldes do inglês, conforme exemplificado abaixo:</p>
          <fig id="figure-panel-5a42ddc683f958adeea1b767d7d2cd43">
            <label>Figure 6</label>
            <caption>
              <p id="paragraph-414668e83db0a0491846c9eb79a6f048" />
            </caption>
            <graphic id="graphic-26b6463fff8c6f0983c82c239753698c" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-51-20.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-fd4b817e0fecbaea141ec50fba5edefd">Uma constatação de longa data feita pelos gramáticos espanhóis refere-se à opcionalidade do redobro do clítico nos contextos ditransitivos em que o a-DP-OI é interpretado como <italic id="italic-279fe1acb5334b0a733bad03833ea3fe">recipiente/meta</italic> (8a), em oposição aos predicados que recebem outras interpretações, entre elas, <italic id="italic-f1399f925ca49191cdbf438fce7d1de2">fonte</italic> (9a) e <italic id="italic-e9f8f0cd094b52f4077d9091039ee875">beneficiário </italic>(10a). A mesma obrigatoriedade se verifica em predicados<italic id="italic-1165a709e234161802d8ce37231c1937"> </italic>psicológicos e inacusativos.</p>
          <p id="paragraph-321860926523309b5dff8cb468f7c5e8">Cuervo, porém, sustenta que a opcionalidade do redobro do clítico é de fato aparente mesmo no conjunto dos verbos ditransitivos em que o OI é <italic id="italic-18bc685d3688e868f6546c1bbce6d3af">recipiente</italic>. A sua proposta é que a presença <italic id="italic-00505a419639d519bf573cd01f09e899">versus</italic> ausência do clítico dativo nas construções ditransitivas tem efeitos sintáticos e semânticos que evidenciam as duas variantes da alternância dativa. Assim, a configuração de objeto duplo corresponde a um predicado transitivo com um argumento aplicado. O clítico dativo é a realização lexical ou morfológica do núcleo aplicativo. Isto permite dar conta da obrigatoriedade do redobro do clítico na presença de um dativo “real” (exs. 8a; 9a; 10a). Sem o clítico, o que se tem é uma ditransitiva preposicionada em que o DP<italic id="italic-0e050d3a3d3ac04bf183a0e644b562fd">-tema</italic> assimetricamente c-comanda o argumento <italic id="italic-ccea03bfffe56ec27d7f442ef797aeed">meta/locativo</italic>. (exs. 8b; 9b; 10b).</p>
          <p id="paragraph-328db617cb142c16fd6a1ebd891f461e">Tomando como base a teoria de <italic id="italic-b0bc1ec7bde4ec3f89cb1bbe820ac6a8">voice</italic>, e a hipótese de Marantz (1997)<xref id="xref-de55568165fa4abd26d503100a02133c" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-7bae2b2d27cb1da7069fdce2bbc43a46">[13]</xref> de que o verbo é formado na sintaxe pela combinação de uma raiz (<italic id="italic-373b4e72cc7fab66cabd5ae7665d3cdc">root</italic>) e de um núcleo verbalizador (<italic id="italic-76e4bbbfaf0a8e186955e07f0bb837ab">v</italic>) com o qual a raiz combina para a expressão dos diferentes tipos de eventos, Cuervo propõe que a construção de objeto duplo no espanhol tem a estrutura em (11a); a construção ditransitiva preposicionada, a estrutura em (11b):</p>
          <fig id="figure-panel-e731fb0023e178640250098cf464f1e1">
            <label>Figure 7</label>
            <caption>
              <p id="paragraph-d4113172d47ca3393e9fd37bb6c717b7" />
            </caption>
            <graphic id="graphic-2e433cc366373978cad927302faacf4b" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-51-45.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-d8ae2aa55777b1bd331129ad042268b9">Observe-se, porém, que propriedades morfossintáticas muito particulares diferenciam o aplicativo baixo do espanhol e o aplicativo baixo do inglês, decorrentes principalmente do redobro do clítico. A primeira é a presença obrigatória da preposição <italic id="italic-9da5564e616946c570a64e74ffd3ab68">a</italic> no argumento aplicado. Cuervo assume que os argumentos dativos redobrados são <italic id="italic-64b35af02dbeb8e8e6321a59d44c7027">a</italic>-DPs, com Caso dativo inerente na posição que são gerados. A preposição <italic id="italic-3547f098acb0826b122986eb276583eb">a</italic> é analisada, pois, como marcador de Caso dativo. Na alternante preposicionada, ao contrário, <italic id="italic-964081de2829fc9432e8cf7cc5222a97">a</italic> é uma verdadeira preposição que contribui com o sentido direcional.</p>
          <p id="paragraph-e7be372074933c1c64ab81571cd3442a">A segunda propriedade é que no espanhol, ao contrário do inglês, o núcleo aplicativo não é nulo fonologicamente. Na estrutura representada em (11a), os clíticos dativos <italic id="italic-e9d07f890a812407fed23946cdfdff33">le/les</italic> não se originam numa posição de argumento, mas representam a expressão morfológica ou lexical do núcleo aplicativo, realizando os traços de número e pessoa do a-DP, licenciado em seu especificador. Constituem, portanto, uma marca de concordância. Isso explicaria a obrigatoriedade do redobro do clítico. Se o redobro do clítico não ocorre, não se tem um verdadeiro dativo, mas um PP introduzido pela preposição <italic id="italic-a8fadfcd7fb2d5e08ca85cd512cee4f1">a</italic> ou outra preposição lexical. Mesmo quando o clítico aparece sozinho na frase, está associado a um pronominal nulo (pro), inserido na mesma posição do argumento pleno (ex: <italic id="italic-be8356892b323519a635db2ab461ad5c">Pablo</italic> <bold id="bold-1d4521a7a68ef60a18c11a1b46d6a077">le</bold> <italic id="italic-4104b3d5f66f385e14698f5840cc7680">(pro)</italic> <italic id="italic-1b4e9cdaf690f7711995a5abd27f738a">envio um diccionario</italic>).</p>
          <p id="paragraph-525cc6c27547a64d7af9bcb995e4dddb">Há outra assimetria importante entre os núcleos aplicativos baixos do inglês e espanhol. No inglês os núcleos aplicativos são interpretados como relações possessivas direcionais <italic id="italic-610206d33ddb2707abd21ddc8cf5aa1b">to the possession of</italic>, ou seja, <italic id="italic-0130d7e397d865d4de0617b6d74df3b9">para a posse de</italic>, em que o argumento aplicado é interpretado como <italic id="italic-d6afad03acd6a3e49d41c536fb691b4d">recipiente</italic> ou <italic id="italic-458ac2acad81fe447e1bb11e4c35045b">beneficiário</italic>. O mesmo se verifica no espanhol (exs.8a e 10a). No espanhol,<italic id="italic-1479f1cc293e8c389e05bf154433b000"> </italic>porém, ao contrário do inglês, o aplicativo baixo não está restrito a esse tipo de relação. A semântica dos aplicativos expressa ainda a relação <italic id="italic-592d7dc2ffbe5708b011dca0f2cce8f1">from-the-possession-of</italic>, ou seja,<italic id="italic-41003c7fdb57b3df491835911bd142d8"> da posse de</italic>, em que a direcionalidade da relação<italic id="italic-4598ad734b74c5c5643c33cc82365f3b"> </italic>aplicativa é oposta. Nesse caso, o argumento dativo é interpretado como <italic id="italic-a693cfffe92ab5a2be3259e2f7667d5b">fonte </italic>(ex. 9a).</p>
          <p id="paragraph-e1fd97d67746c54c5ed4e0fe5de74b04">_</p>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="heading-4939e8512fe620eaa80420ebe6c9c0fc">
        <title>3. Alternância dativa no português europeu: a variante aplicativo baixo</title>
        <p id="paragraph-b50abc4cbe55700a3d0631694410b52f">Na discussão sobre o português europeu (PE) é importante lembrar primeiramente que, ao lado do espanhol, o argumento dativo/objeto indireto pode ser adicionado a um amplo conjunto de contextos verbais, sendo interpretado como: <italic id="italic-caaf2a583ab9be7365ca385f3a3212c5">recipiente</italic>, <italic id="italic-6b2d764f1a5d66c8bbe1bdc2461cf421">fonte</italic>, <italic id="italic-eff0fee3eb92649bb7311cd19b4ec960">experienciador</italic>, <italic id="italic-9a7652df6433483772e4c6a244b97f40">possuidor</italic>, <italic id="italic-11b3a45335356911b2d58db4144ec733">afetado</italic><xref id="xref-2afe44ae1c43debe8486cdce55f4ae58" ref-type="fn" rid="footnote-563ae3a0b8c5fac0d86383f07e4238e6">5</xref></p>
        <fig id="figure-panel-73aed77a063c92d1075da1c8cbb22d3c">
          <label>Figure 8</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-b320c3246dab29b46131d4eefb095c49" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-37ab105ffc5a9e3602ac10c0465dbb29" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-52-34.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-cfc5bb93553a9361dede04bf964ba86e">Entretanto, como foi dito, o objetivo deste artigo é bastante modesto e se restringe a uma discussão dos argumentos dativos em contextos que expressam eventos dinâmicos de transferência ou movimento, entre eles, <italic id="italic-a2782d3139bebbaf6a33f30a89f6305a">dar</italic>,<italic id="italic-ed56cc7202ec80cc85f6f410bd622078"> levar</italic>,<italic id="italic-ab8f6cb2eeac49647c965c0edf33895f"> mostra</italic>r,<italic id="italic-bb8bb56fe07f09bd64f9182786864e08"> dizer </italic>(12a) e (12b), incluindo os chamados verbos de<italic id="italic-8b59c61b502d9c25f4d37ec479095766"> </italic>construção ou criação, como <italic id="italic-a2ec73bfed6a87dd2d70ae0e945eb325">bater/fazer</italic> (um bolo, um jantar), <italic id="italic-ec3649ad85c938c75bcb61f293c628ea">pintar</italic> (um quadro), <italic id="italic-2d16718e12ef2777b0e88eab84fb39de">desenhar</italic> etc. O argumento dativo nesses contextos é particularmente interpretado como <italic id="italic-05252176cf3c1f818a0289295b6bec64">recipiente/fonte/beneficiário</italic>.</p>
        <p id="paragraph-77aecb38b018bb3bd56c5b3f85277f3c">Partindo das afirmações feitas para o inglês e espanhol, tais contextos vão constituir uma base empírica para a hipótese de que o PE apresenta a alternância dativa, nos seguintes termos: na variante ditransitiva preposicionada, o OI é um sintagma preposicionado introduzido por uma preposição lexical, <italic id="italic-a4233ae255aac76e8fb708e4b9efcfc5">a</italic>, <italic id="italic-de9b051b69a9910d9685d3e53e8efed9">de</italic>, <italic id="italic-b8eec81ca78cc7055bc15d86adfad5a1">para</italic>, que contribui com o sentido direcional ou locativo (exs. 22b; 23b; 24b). Na variante com objeto duplo o argumento dativo se realiza como um item lexical (a-DP) ou como clítico dativo de 3ª pessoa, <italic id="italic-024eb63cd1bf4f1954d81942647852ea">lhe/lhes</italic>. As duas formas estão em distribuição complementar (exs. 22a; 23a; 24a).<xref id="xref-2e423edee76b0ce16661406e5174de0b" ref-type="fn" rid="footnote-58d079bb67d2aa049334334738ed09a1">6</xref></p>
        <fig id="figure-panel-c95e0d4ca061309b072a99703290a7ce">
          <label>Figure 9</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-5620885a2f95a649f0fe9a391ffe523f" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-673ed781ec12fda26b8549f640647564" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-52-56.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-438ab10e7ddc2cacc906f4ff59915869">Os exemplos (22a) e (22b) são similares aos do espanhol (8a) e (8b) uma vez que mostram o estatuto ambíguo da preposição <italic id="italic-70318329aabaccfc578279456bd2f935">a</italic> entre um marcador de caso e preposição plena. Observe-se que a distinção categorial DP <italic id="italic-2e2ec006ff09c007ced19b51c46398ef">versus</italic> PP que caracteriza a alternância tem um efeito semântico.</p>
        <p id="paragraph-d85c433ad7b141e796f9bc18646e7b01">Quando o argumento preposicionado é um <italic id="italic-be70b1e56dd7ce9ed235c6e15609c670">locativo</italic>, como em (22b), sentenças como <italic id="italic-4c750c27f1a8e5bd29e18bf4dab2bc25">enviou</italic> / <italic id="italic-e83335f5de33b1cf8d8c7931da152208">mandou</italic>/ <italic id="italic-116cc7db22c0181bcb52be412c03bdb0">entregou uma carta</italic> <bold id="bold-7a55d799f0d29a96ce944cdf3185de37">ao/ para o Banco</bold> <bold id="bold-110e891948004d8e50aa824e7bb545d4">de Portugal </bold>são boas. O<bold id="bold-841ede2ea47249029f65aed23695aed0"> lhe</bold>, porém, não é possível em contextos como<bold id="bold-cf963e5ff7764fc30b13ab36032e17fb"> </bold>esses. Mas será possível com o plural <bold id="bold-e7d0701881d7e00e579677324653cffd">lhes</bold>. Assim: <italic id="italic-b9996b8e4c41eb8b970361663fad7f87">Estou furiosa</italic> <bold id="bold-d1fdde3485a645a62474ab08707010eb">com o</bold> <bold id="bold-e8ef107064b329c29e3c1adde79853b9">Banco de Portugal</bold>.<bold id="bold-3ae0b291bd69c6f643c9e3a5aa968132"> </bold><italic id="italic-a70ab7f1aaca0395e7524c18dd8ef458">Enviei-</italic><bold id="bold-3f3593fef9d0f526f54fce51ea58ab64">lhes </bold><italic id="italic-c364dfb6442478135aa8454104da58a1">uma carta a reclamar</italic>. Observe-se ainda a<bold id="bold-270dfe84a9605b377914b2539d53d382"> </bold>expressão <bold id="bold-2068dd9e076c5a7acd993b171f25476a">para Lisboa</bold>. Nesse caso não se tem como recuperar a relação de posse que identifica a estrutura de objeto duplo, de modo que as formas pronominais <bold id="bold-c54dce82ec2b487c26a2ce70c9bf1c42">lhe</bold> ou <bold id="bold-19c17b33b7433710db7af0b03b4ed4d3">lhes</bold> não são possíveis. Não se trata, porém, de uma restrição de animacidade. Se for possível construir a relação parte-todo entre os dois argumentos, a sentença é boa. Ou seja, o que está em jogo é a interpretação dinâmica direcional de posse entre o OI e OD, que não pode ser construída se o argumento dativo for um <italic id="italic-709354bbbd56e3c322e407640d55b326">locativo puro</italic>.<xref id="xref-b3140ff65a366072917237b08c73c14a" ref-type="fn" rid="footnote-6b26a5348c77776adf02b4ae4113a32d">7</xref></p>
        <p id="paragraph-10bc0ef7fcedbbbb9b705d39957bb836">Por fim, há uma outra observação interessante: a sentença <italic id="italic-261cd77cea7bad467d1095a07d6ed5b9">O José enviou</italic> <italic id="italic-5076ea3ace40b200d1bb60201c1d7b7a">uma carta </italic><bold id="bold-25ae6c8335bd6c0e6b5420fa1f3ac0dc">para a Maria</bold><italic id="italic-f2d5416a201f95c6917dc8b2736d4fb2"> </italic>só é boa num contexto em que se pode obter a<italic id="italic-bac8b6c693e97772b8b4f984da470eec"> </italic>seguinte interpretação: <italic id="italic-a1787eb6812cb04c60665abf5b0ee28e">O José enviou/entregou</italic> <bold id="bold-ce37f37dc61f4d450dfad47d228131c8">ao João</bold> <italic id="italic-95182a15f3014dfe307886ec848414e2">uma carta</italic> <bold id="bold-1950d1382be55105e63a842e49dcf4b0">para a</bold> <bold id="bold-5d606adad7ac8bcbc9fd1fdc1175cb7e">Maria</bold>, ou seja,<bold id="bold-4793d4c53a30189e758cb217e606de21"> </bold><italic id="italic-a57d51f5ee2cc11ccc1302ac5b563118">enviou</italic>/<bold id="bold-256089b4659e531e02d8d2ad90247d90"> </bold><italic id="italic-a7fd7912227c752ff44e98acae0149f2">entregou-</italic><bold id="bold-adecfac10047aeacbd82581289089928">lhe </bold>(<italic id="italic-8403cb9a5edf71010f3dddc0fb0bf37a">ao João</italic>)<bold id="bold-828de80bb1d5087dcfff2b371d138c7f"> </bold><italic id="italic-adb64aa18ba1877ce865b4ccac6505fd">uma carta para que este a</italic><bold id="bold-840b449171dc8a128ed473bd4902b90b"> </bold><italic id="italic-9c17856b6fc86625d6858b8452936742">entregasse </italic><bold id="bold-2f208628bbda72a2665ad8d1fa421315">à Maria</bold>. Tem uma interpretação aproximável de:<italic id="italic-f44e6ed212a01cb95c2177a39f8873da"> Ele deu </italic><bold id="bold-844726e03b65ffe01e89df0444919249">ao</bold><italic id="italic-82117a1ed7ce83eecb8d6d1c08e5d57e"> </italic><bold id="bold-5890fb9e2c9236dd698958d831e00dd2">Paulo </bold><italic id="italic-14">uma carta</italic><bold id="bold-a92ddd5a44778663cae8c0fcbd3baf9f"> para a Maria</bold>. Assim,<bold id="bold-14"> </bold><italic id="italic-15">levar a</italic><bold id="bold-15"> </bold>e<bold id="bold-16"> </bold><italic id="italic-16">levar para</italic><bold id="bold-17"> </bold>são diferentes.<bold id="bold-18"> </bold>Se <italic id="italic-17">levou a</italic>, entregou-a diretamente; se <italic id="italic-18">levou para</italic>, pode não tê-lo feito. Conclui-se, pois, que a preposição <italic id="italic-19">a</italic> locativa é uma verdadeira preposição nas ditransitivas preposicionadas e alinha-se à preposição <italic id="italic-20">para</italic>.</p>
        <p id="paragraph-381abcf470bac0a9ac1be47ed9c630e9">Com verbos como <italic id="italic-d04d80f2fa88a63cf41fdf7090a89eeb">roubar</italic>, a alternância dativa se manifesta como uma oposição entre o dativo de posse (23a) e o genitivo (23b). Assim, numa construção como (23a), expressa-se a relação dinâmica de posse em direção oposta à que caracteriza sentenças como (22a). O argumento dativo é interpretado como <italic id="italic-70cf60c8d8405f32948cf2bc58b92cc6">fonte</italic>. Nesse caso, embora o relógio não tenha que estar, necessariamente, com o Pedro no ato do roubo, esse sentido pode ser computado, de modo que Pedro é, de alguma forma, mais diretamente afetado pelo evento; ou seja, é o indivíduo que é despojado do objeto. No caso de (23b), tal interpretação não ocorre, embora Pedro seja o possuidor do objeto roubado.</p>
        <p id="paragraph-84fc801878a41e83c18250343181554e">Na alternância apresentada em (24a) e (24b), a sentença <italic id="italic-730211ad3cbc179df3940da7ebb640eb">O José fez o</italic> <italic id="italic-815b8c29894f31e5362426d91283de72">jantar </italic><bold id="bold-726a8ee3204f99cf8e381e1ea6e4e4c0">à Maria</bold><italic id="italic-3039ff79de7cfa8691fd6fa936b7ddd9"> </italic>pode ser interpretada como<italic id="italic-7dc5675cbef17cda2e3f61846c969f21"> fez</italic><bold id="bold-312e34ddfcebccb8aa123c6cde7f7d35">-lhe</bold><italic id="italic-843ece612e3003fe0a98475b98cb1c4d"> o jantar porque ela não <italic id="italic-fe9bd6728dcc2394654240e4da1d9ffd">o podia fazer</italic>, mas esta interpretação não pode ser atribuída à frase<italic id="italic-b0ea3a612fe0938c68c6e6bf11a38996"> O José fez o jantar </italic><bold id="bold-cba01623af905f81d1ac3719a3f2a6c7">para a Maria</bold>. No primeiro caso, pode até acontecer que não<italic id="italic-e4fcf770ad076b944a43f5559a6addc0"> </italic>seja a Maria a comer o jantar (o José é um amigo da Maria; a Maria tem um braço partido/quebrado; o jantar é para os filhos da Maria), mas, no segundo caso, na perspectiva do José, a Maria é necessariamente a comedora do jantar (ainda que possa acontecer que, por algum motivo, ela falte ao jantar). Ou seja, a ditransitiva preposicionada tem um sentido direcional com certos verbos, que pode estar ausente na contraparte de objeto duplo.</italic></p>
        <p id="paragraph-2fc7cd76200329fa21f54b73a89cfbc8">A argumentação até aqui apresentada parece deixar claro um ponto que é fundamental para a gramática do português e intimamente relacionado à alternância dativa: o de que a construção de objeto duplo do PE é uma construção de aplicativo baixo.</p>
        <p id="paragraph-c2f01a8712b4d1c119fb3d0c4cbdac6f">É esta a base para que se possa responder às questões mencionadas na introdução desse artigo, e originalmente formuladas por Cuervo (2003)<xref id="xref-a9f5545735de91cdb5419ea80214982b" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-5b3391daa59089288436b0afe1519d24">[3]</xref> para os fatos do espanhol:</p>
        <p id="paragraph-dfc6434c877a7bdf7ab54781b2f1dabb">(i) Que tipo de argumento são os argumentos dativos?</p>
        <p id="paragraph-79f86b6de9d0d09b5b8ab10b6b5527f9">(ii) Que papel temático podem receber?</p>
        <p id="paragraph-cf5e496012bfd31b79b6bd38bc4c3b2d">(iii) Como são licenciados sintaticamente e semanticamente na estrutura sintática?</p>
        <p id="paragraph-91ec82ac4acba8f3a270f357bb516b83">(iv) Têm eles um significado estrutural ou idiossincrático?</p>
        <p id="paragraph-25eee663a71f1d77395e860f7b1044cc">Não é demais nos lembrarmos de que, embora essas questões digam respeito a um amplo conjunto de contextos (cf. exs. 12-21), o artigo apresenta um recorte que inclui somente verbos transitivos dinâmicos, entre eles, os verbos dinâmicos de movimento ou ação e construção.</p>
        <p id="paragraph-52c7a999ddd0932708a30ae3d1f783da">As respostas a tais questões decorrem da afirmação principal feita no artigo: a de que o argumento dativo realizado como clítico, ou como um a-DP, é introduzido pelo núcleo aplicativo baixo. Nesses termos, tem significado estrutural, ou seja, o papel temático que recebe <italic id="italic-a10b116587c53fea09dfdcccfcebba28">recipiente</italic>, <italic id="italic-f587b9a7f37d988407382bd930685ae7">fonte</italic>,<italic id="italic-55fae5b57dda143f254631bc659aa94d"> beneficiário </italic>decorre tanto da posição em que o argumento é gerado<italic id="italic-112d6dfa994f789fc8ed52e83184e6db"> </italic>como dos diferentes tipos de eventos que selecionam as frases aplicativas.</p>
        <p id="paragraph-a0dcf18601176ee46418ac6b129499c8">Em outras palavras, os argumentos dativos não são licenciados como argumentos do verbo, mas, sintática e semanticamente, por um núcleo especializado, um introdutor de argumento, aqui denominado núcleo aplicativo por influência da literatura das línguas bantas. Essa afirmação tem importantes conseqüências para a teoria sintática da estrutura de argumentos.</p>
        <p id="paragraph-822eede4d6fca8ed4fb89ed526f1bfcc">Vejamos as estruturas:</p>
        <fig id="figure-panel-a091f791fb4ee73b9980d89fc41cfb23">
          <label>Figure 10</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-8eed69cdb47e93fe17874cc1f1e2aa87" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-c9d7614b3869e5156b4086a1556593a7" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_15-16-46.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-d428b3d2b7d37a1b33b5bf5160998d9f">A estrutura em (25a) mostra que o DP-<italic id="italic-8669adfd96c76d43ebc3fe77f1eeab8a">dat</italic> assimetricamente c-comanda o DP –<italic id="italic-1390a29383e6efb33dbfe371524e6f52">tema</italic> complemento. Paralelamente ao espanhol, o núcleo aplicativo baixo denota uma relação dinâmica de posse na qual o argumento dativo é interpretado como <italic id="italic-8839f2ba6328413cc1a0ce67bcbf0ea5">fonte/recipiente/beneficiário</italic>. O núcleo aplicativo licencia o argumento dativo e o relaciona ao DP-<italic id="italic-5832147a475ed3a14ff277756f30729d">tema</italic>. A preposição neste contexto é um marcador de caso dativo, e não uma verdadeira preposição.<xref id="xref-d5dc296ed51803ba73012b85f1b60230" ref-type="fn" rid="footnote-0aa5ef64878282d89bc98241ea95a52f">8</xref> O argumento dativo recebe Caso inerente na posição em que é gerado.<xref id="xref-67443e2afc0ca8257fd0928336a775be" ref-type="fn" rid="footnote-68d0d9a448b749e7e9f2b2c57bbb96e9">9</xref></p>
        <fig id="figure-panel-e4b5bc9abc87416ff575639216b01ce2">
          <label>Figure 11</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-0592c72112c463589573a7ecbc9f1b45" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-7b2e77dc01f4448f0aef186d860027c3" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_15-17-02.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-0534de1c58a43a3cf4acc3f39cc7668b">A estrutura acima mostra que o DP-<italic id="italic-c0ac94954df0fc6ff4f12f734cb3498d">tema</italic> assimetricamente c-comanda o DP complemento da preposição. Há um relacionamento semântico entre os dois argumentos através da preposição.<xref id="xref-a21a069f3b0c5aed305b86ad9cadab75" ref-type="fn" rid="footnote-b652ea630aadeb667fc0e597182b51b4">10</xref> A preposição <italic id="italic-6ccf0aca074dc95e3ad71aa578432970">a</italic>, <italic id="italic-47daf8a9f817d66dc9e6f5d5bf3d9643">para</italic> ou <italic id="italic-4d28fab6ed6272617177e4343c8982bf">de</italic> pode ser definida como uma verdadeira preposição, com conteúdo semântico que proporciona o sentido direcional. Em outras palavras: na variante aplicativa, a estrutura de objeto duplo expressa necessariamente uma relação de posse entre o OD e OI. Na ditransitiva preposicionada esta interpretação pode ser construída, mas está subordinada a uma interpretação direcional ou locativa.<xref id="xref-59282686db4ba91de3541b32a389ab7e" ref-type="fn" rid="footnote-a8012bc84c6e8823799f217b2b099f1d">11</xref></p>
        <p id="paragraph-e92cd7dd862d4b36942940d5fe72af08">_</p>
        <sec id="heading-6de4fbadb5268133c56e55afdab85f02">
          <title>3.1. O redobro do clítico</title>
          <p id="paragraph-fd4bdc45c57afc4acaa8ce12ac374c06">Como é fato conhecido de todos, o português europeu, ao lado do francês e do italiano, diferencia-se do espanhol por não permitir o redobro do clítico nos contextos dativos (cf. Kayne, 1999, para uma discussão do francês)<xref id="xref-f70475656069054aaca6272c7f041494" ref-type="bibr" rid="book-ref-6095a0713dd7c3bf3dcbcb6dd4ceb400">[14]</xref>:</p>
          <fig id="figure-panel-238c40b11c73ced918837a91a527e0f2">
            <label>Figure 12</label>
            <caption>
              <p id="paragraph-8aaf06599f158f722351a4c7ed8c40ec" />
            </caption>
            <graphic id="graphic-e26e4ade80bcf29188ce3585247c5cfd" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-57-09.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-ce4cd13f931e35c74357589277768e4f">Com argumentos dativos o redobro ocorre, porém, obrigatoriamente, na presença das formas pronominais <bold id="bold-500a9495c997d64cc0fe93a5bb98573b">a ele</bold>, <bold id="bold-00c92e83a5d40587488d131542cab2da">a ela</bold>, <bold id="bold-58284dadf83f949313fc9b7fea573684">a eles</bold>, <bold id="bold-7597a0b9cb1ef194cc6216178936f877">a elas</bold>:<xref id="xref-5c5d6002b3816992df24ecb340e04cf0" ref-type="fn" rid="footnote-fc01f53910dc4fc59455ecc79fa4ead8">12</xref></p>
          <fig id="figure-panel-81f3fcaf3a64e7c1f98bc15198a2fcb0">
            <label>Figure 13</label>
            <caption>
              <p id="paragraph-a4dd4f45337564a967694033654a80af">
                <xref id="xref-6ec2b03fb1e149555453363e39091c38" ref-type="fn" rid="footnote-f0011929b9e85fb9c5ed2ae981ad19aa">13</xref>
              </p>
            </caption>
            <graphic id="graphic-60db34cbf0c72edbf555212fbcfa278e" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-57-18.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-532aeaade67b2fd3788cadd67bb6d180">O fato de as formas pronominais <bold id="bold-6c12ca1d32a834de3940c93e261b37f0">a ele, a ela, a eles, a elas</bold> estabelecerem uma relação anafórica com os clíticos <bold id="bold-e770caba6225be42953a08d9eca9fafa">lhe/lhes</bold> é bastante revelador, uma vez que dá suporte para um ponto importante da análise ora apresentada: a de que o argumento dativo é um <italic id="italic-f5562a1a722aa8d1afdb8b3937041fb2">a</italic>-DP e não um PP. De fato, a relação anafórica expressa em (27a) não pode ser estabelecida quando as formas pronominais são argumentos preposicionados (PPs), requeridos lexicalmente pelo verbo:</p>
          <fig id="figure-panel-e655e16870ab5eba95be68bab48dc626">
            <label>Figure 14</label>
            <caption>
              <p id="paragraph-680c0a1f6a86aa05a202059b116ca186" />
            </caption>
            <graphic id="graphic-4e88e982685beb1bfdb9d4a9290ed9aa" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-57-28.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-23bc4d51019e8d0b9a506c732a48714f">O redobro das frases preposicionadas tornaria as sentenças desviantes (cf. 28b). Da mesma forma, a sua pronominalização pelo clítico dativo (cf. 28c). O contraste entre <italic id="italic-646432534a91bbc45174699fa98df90c">a</italic> e <italic id="italic-5bd9f3fccccd9ba79e9f30f70c3611ed">para</italic> nos exemplos a seguir reforça a argumentação de que a preposição <italic id="italic-b486f4abb6853c61b0ed01646186ad35">a</italic> é marca de dativo, e não uma verdadeira preposição nos contextos de redobro obrigatório.</p>
          <fig id="figure-panel-41f146adb2c6321b531648dd18c6610f">
            <label>Figure 15</label>
            <caption>
              <p id="paragraph-81bc28743f34e2276abefdbdb253113d" />
            </caption>
            <graphic id="graphic-5d8f5565c168c3bcc4defba1af4bee0f" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-22_14-57-35.png" />
          </fig>
          <p id="paragraph-de607cf10d13634a34ccb678ec583ac0">No espanhol os clíticos dativos <bold id="bold-8775ea84a1cf4394de2da7f0683527ad">le/les</bold> não se originam numa posição de argumento; ao contrário, compõem-se inicialmente como núcleos e realizam os traços de número e pessoa do a-DP, lexical ou nulo, licenciado pelo núcleo aplicativo em seu especificador (cf. fig. 11a) Ou seja, os clíticos são a expressão morfológica do núcleo aplicativo. Portanto, constituem uma marca de concordância. Eles redobram, não “substituem”, um argumento correspondente. Daí o fenômeno obrigatório do redobro do clítico.</p>
          <p id="paragraph-b499fd8c27a5c9366c3667cb99bd8b4e">No português europeu, ao contrário, os fatos do redobro mostram que os clíticos dativos <bold id="bold-8408414bdb1d4a5f67c367707a125edf">lhe/lhes</bold> podem ter um estatuto ambíguo: de um lado, assemelham-se ao espanhol e comportam-se como morfemas de concordância. Isso fica evidenciado no redobro obrigatório com as formas pronominais fortes (ex: 27).<xref id="xref-86f14e628c7f11c2f1775dd23814ae22" ref-type="fn" rid="footnote-f182c414e22f41f83e56b74f8e9e8a57">14</xref> De outro, são argumentos DPs, gerados na posição de especificador do <italic id="italic-0758586dbe892493e59f7e01850ad0d9">v</italic>Appl.<xref id="xref-bbea28b1e8b7b27ffeb401e7b8791068" ref-type="fn" rid="footnote-cdb357574cce0a1b59c6595904c4a1fa">15</xref> Isso explica a distribuição complementar na estrutura de objeto duplo entre as formas clíticas <bold id="bold-8a4b9daac2c88d3ae8b1e0208cbfad18">lhe</bold>, <bold id="bold-30dbc0c7f5147716950dcc65e51ee85b">lhes </bold>e a forma plena<bold id="bold-ab778cb8d1747540f6be94d82ed5a38e"> </bold><italic id="italic-9ff7daa92515b558a19ea41c7035373e">a</italic>-DP do argumento dativo. Nos contextos sem o<bold id="bold-cfd4d26e83871168a41cff81aadd5722"> </bold>redobro, portanto, o núcleo aplicativo não é realizado lexicalmente (cf. fig. 25a).</p>
          <p id="paragraph-91cd70df1ced45d21872ca236436605a">_</p>
        </sec>
      </sec>
      <sec id="heading-cbd5a99b36ede6567f1acf1b39f1de92">
        <title>4. Conclusão</title>
        <p id="paragraph-3afc2bba568e4144a98a728bf4f1208a">Neste artigo, procurei mostrar que os argumentos dativos no PE constituem uma classe distinta morfologicamente. Nos moldes de Cuervo (2003)<xref id="xref-bf399ee166076beb35e575f02bacb845" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-5b3391daa59089288436b0afe1519d24">[3]</xref>, adotei uma abordagem em que esses elementos não são requeridos ou licenciados pelo verbo, mas adicionados como participantes não nucleares, extras, aos eventos descritos pelo verbo. Requerem, portanto, um núcleo especializado para seu licenciamento. Além disso, obtêm um significado estrutural, decorrente da posição em que são gerados, que limita o número de papéis temáticos que podem expressar.</p>
        <p id="paragraph-c9aedb5ea2d1c2d806b4ff55c3443141">Assumi que, no PE, as construções com argumento dativo são aplicativos baixos que expressam uma relação de posse entre dois indivíduos. São duas as direcionalidades da posse expressas pelo núcleo aplicativo baixo: a relação <italic id="italic-b896ce884802b88cfc8228926b6469a7">para a posse de</italic>, em que o argumento dativo é interpretado como <italic id="italic-bdcff2be5beec9fec5f7d784e538db5b">recipiente</italic> ou <italic id="italic-502780488a7e8087e0fbc6219329625f">beneficiário</italic>. E a relação <italic id="italic-ef29466969b5b6ac132e09196ef0b3c0">da posse de</italic>, em que o argumento dativo é interpretado como <italic id="italic-e9d2cb1e08c4b9eca07c393bbbee4141">fonte</italic>.</p>
        <p id="paragraph-84eefcd356eb0c1d1c6dcc007b75180a">Recentemente, muitos estudos que tomam como base o PB falado e escrito menos formal revelam a gradativa perda dos clíticos dativos de 3<sup id="superscript-b5ff007bcf8d8beadff30f14bc94c8b9">a</sup> pessoa e o aumento de freqüência no uso da preposição <italic id="italic-ef74f92a9a0eee44a4c7157557e486dc">para</italic>, em detrimento da preposição <italic id="italic-c329c150fba60bf4fa4b7c7b33995dd9">a</italic>.<xref id="xref-9990953cf14d3f37266129af86c22bce" ref-type="fn" rid="footnote-62bb5eb70f9ba0cfbffb085d281d80ef">16</xref> Tais estudos revelam ainda que os clíticos <bold id="bold-0da092ae22140bdc550db1ef69c82773">lhe/lhes </bold>em seu uso de 3ª pessoa vêm sendo substituídos pelos pronomes<bold id="bold-8e4c2b2a3adcd5c6620458f440662b30"> </bold>fortes <bold id="bold-1afe1f52fa374f94028a22c05b505ae3">ele/ela</bold>/<bold id="bold-77917eeacd1a4d5412f1ed4f50838910">eles/elas</bold>, introduzidos por <bold id="bold-7378f03cf742ae90f1a746e8ac944135">a</bold> ou <bold id="bold-c6f2250347a3a3c6ca73638038c547e7">para</bold>, sem o redobro do clítico.</p>
        <p id="paragraph-79ab7a9743ea940d822c9f3e7b94b4c5">A minha expectativa é de que o quadro teórico assumido permita uma abordagem dos rumos distintos que as duas variedades do português tomaram nesse aspecto de suas gramáticas. Em particular, as hipóteses e suposições discutidas parecem indicar que a reanálise relevante que se manifesta no PB é a perda da propriedade gramatical de expressar morfologicamente o argumento dativo. Ou seja, perde-se a possibilidade de introduzi-lo através de um núcleo aplicativo. Com isso, as outras propriedades se manifestam. Uma delas é a reanálise do dativo como um PP, tanto nos casos em que se apresenta realizado como um item lexical pleno, quanto nos casos em que é uma forma pronominal forte.</p>
        <p id="paragraph-34994eacd854517a9ab3f5af7f0a626c">Seguindo Pylkkänen (2003)<xref id="xref-46176c86ebbc6c9a397c07ce4de60b0e" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-179c4e41b7d6fb217ee65cfb4bcbcb1e">[2]</xref>, adotei a hipótese de que os aplicativos pertencem a um inventário universal dos núcleos funcionais. As línguas particulares variam nas suas escolhas. Ativar ou não um determinado núcleo aplicativo parece, pois, ser uma opção paramétrica.</p>
      </sec>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-12ac05250b5fdd59f763f54a6f9f8aaf">
        <p id="paragraph-50082a1235653004f05392bcc2853c98">* Maria Aparecida C. R. Torres Morais é professora na Área de Filologia e Língua Portuguesa do Departamento de Línguas Clássicas e Vernáculas da Universidade de São Paulo (USP). É doutora em Lingüística pela Universidade de Campinas (UNICAMP), com pós-doutorado na University of California, Santa Barbara. Atualmente participa como pesquisadora nos projetos <italic id="italic-2950ebbd9688c67a1fcc994d580d784c">Para a História do Português</italic> <italic id="italic-24e8f1cc1cebd8734b3f9fe6d4ecb8dd">Brasileiro </italic>(PHPB) e<italic id="italic-3"> Projeto de História do Português Paulista-Projeto Caipira </italic>(PHPP).<bold id="bold-1"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-addb98650fa8ffc7a9b88727dd800866">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-aae0a9fa1cb5178493c7f32e8376ee05">Uma tipologia dos verbos dinâmicos de transferência ou movimento foi apresentada em Berlinck, 1996.<xref id="xref-c96dd67bd1682d3bc0144e8bc77c158a" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-e84f2575e7ba11952d36141498734679">[15]</xref> Alguns exemplos: a) verbos de transferência material: <italic id="italic-84adc9ec6307b811e04e4b3dfb5b76c6">atribuir, confiar, dar, devolver, roubar, subtrair, tirar, suprimir</italic> etc.; <bold id="bold-1c9ec0649c1c9b645229576a4d4a3b51"/>b) verbos de transferência perceptual: <italic id="italic-0082416d73e3050ae3505928d5c71aff">aconselhar, dizer, escrever, falar, narrar</italic> etc.; c) verbos de movimento físico: <italic id="italic-c2829979aacf01b99ce741cf0b3ec5f0">acrescentar, dirigir, levar, mandar, pôr</italic> etc.; d) verbos de movimento abstrato: <italic id="italic-4">adaptar</italic>, <italic id="italic-5">dedicar, submeter, trazer</italic> etc.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d7b9243ff23f16f6fd02cd04861997e4">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-c79607c1f95600cab10c0857988fa8c2">O termo <italic id="italic-e38f3ca926d6c6c4d0417252f65517ff">línguas bantas</italic> não é o único usado na literatura e co-ocorre com o termo <italic id="italic-91250970bcad4f6fb3cbec062fc161f6">línguas Banto</italic>.<bold id="bold-c27173036e303f928c63ac6d85540e20"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d6473e17e8a6e38d06a290d34793fc60">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-6f12881a9e0cf875466aa0e7d8b05d6f">2a. Ele está comendo comida para sua esposa<bold id="bold-9fb198b1bd82d132afae2817ae4fec57"/></p>
        <p id="paragraph-3">2b. Ele está correndo por um amigo.<bold id="bold-3"/></p>
        <p id="paragraph-5">3. Mavuto moldou o pote de água com a faca.<bold id="bold-5"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-05795e0f7819c1eb4ae818a1faf83e86">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-e5a6f3f98f1803448abb2b160ffce61c">Serão usadas as seguintes abreviaturas e termos: DP- Determiner Phrase (Sintagma Determinante); NP - Noun Phrase (Sintagma Nominal); VP- Verbal Phrase (Sintagma Verbal); PP - Prepositional Phrase (Sintagma Preposicional); Voice (Voz); ApplP- Applicative Phrase (Sintagma Aplicativo); APPL - Applicative head (núcleo aplicativo); Root (raiz)<bold id="bold-ae12308eed9483f009b2b6862bd2999a"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-563ae3a0b8c5fac0d86383f07e4238e6">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-6ce8851cf9c00d187d88bc85b493ef56">As sentenças discutidas no texto tomam como base os juízos emitidos pela profa. Ana Maria Martins, da Universidade de Lisboa. Portanto, referem-se aos usos cultos do PE.<bold id="bold-b4b29b76ee824352c86cc90959b8c8ab"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-58d079bb67d2aa049334334738ed09a1">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-d485ab16b6fd9650a512ca279e41338e">Talvez fosse importante esclarecer que o termo ditransitivo não é muito usado na tradição gramatical no Brasil. Alguns gramáticos usam o termo <italic id="italic-63e176c3ada0356ab4006b7963f36402">bitransitivo</italic> (cf. Rocha Lima, 2003). Em gramáticas como a de Cunha e Cintra (1984)<xref id="xref-a483890c9f07935dc7ab599d0d15f431" ref-type="bibr" rid="book-ref-def2913a4b74340fc6f2090aa575c474">[16]</xref>, o termo para nomear verbos que formam predicados com dois complementos é verbo transitivo direto e indireto. Observe-se, porém, que no rótulo de objeto indireto, os autores incluem complementos introduzidos por diferentes preposições. Mateus <italic id="italic-40ed45948a7472d0bc6d76ee86b1b15a">et al</italic>., por sua vez, não só utilizam o termo ditransitivo em sua descrição das relações gramaticais, como fazem uma distinção entre o complemento objeto indireto introduzido unicamente pela preposição <italic id="italic-0963cd6762cf0af8d4ff1744db695eb9">a</italic> e complementos oblíquos. Os ditransitivos têm um esquema relacional SU V OD OI, como mostram os exemplos:<bold id="bold-f4fd97684c76e17dd4972bf993ecd425"/></p>
        <p id="paragraph-74523436849b8d331c9308c63b9adf33">(i) O João deu um livro ao Pedro.</p>
        <p id="paragraph-6dad100005e091314259ade90297db8b">(ii) Os miúdos pediram uma bicicleta aos pais.</p>
        <p id="paragraph-7">(iii) Os meus primos compraram o apartamento a uma imobiliária muito conhecida.</p>
        <p id="paragraph-9">(iv) Todos os convidados trouxeram flores à anfitriã (cf. Mateus <italic id="italic-d9869fe7bc26b48d1f3f428da64b5237">et al</italic>., p. 296)<xref id="xref-7e7437495bc102a2a660e1b4e71a4d1a" ref-type="bibr" rid="book-ref-09307b869bc4f5146c5897f361de7649">[17]</xref>.</p>
        <p id="paragraph-11">Os verbos que selecionam um objeto direto e um argumento preposicional são denominados verbos transitivos de três lugares. O esquema relacional se realiza como SU V OD OBL:</p>
        <p id="paragraph-13">(i) Ele partilhou o almoço com o amigo.</p>
        <p id="paragraph-15">(ii) (ii) O helicóptero transportou os feridos para o hospital.</p>
        <p id="paragraph-17">(iii) (iii) O caixa depositou o dinheiro no cofre.</p>
        <p id="paragraph-19">(iv) (iv) O cirurgião retirou uma agulha do estômago do doente.(cf. Mateus <italic id="italic-b0561c87ab9e22e531c6d5f39abc70d4">et al</italic>., p. 297)<xref id="xref-5408fc0bd2b5f9cdc591dfeb888a206d" ref-type="bibr" rid="book-ref-09307b869bc4f5146c5897f361de7649">[17]</xref>.</p>
        <p id="paragraph-21">Por sua vez, Mattoso Câmara (1975)<xref id="xref-8b5845bc413e7b35f564c3c8e8dcc98b" ref-type="bibr" rid="book-ref-4378b726d15582bfa58d7828ebe597fd">[18]</xref> faz uma distinção entre objeto indireto <italic id="italic-6">stricto sensu </italic>e<italic id="italic-7"> lato sensu</italic>. Só o primeiro admite ser substituído pelo clítico dativo.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-6b26a5348c77776adf02b4ae4113a32d">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-2">Também em línguas como o inglês e espanhol, observa-se a mesma restrição na construção de objeto duplo:<bold id="bold-ea882e559f44b31f0195b81dc8a5e25e"/></p>
        <p id="paragraph-4">(i) John sent <bold id="bold-9f134b025931286fc62a10517bd064c6">Mary</bold> a letter vs. *John sent <bold id="bold-4">Boston</bold> a letter.</p>
        <p id="paragraph-6">(ii) Juan <bold id="bold-8dae6ab624c10155fa22571331e2633b">le</bold> envió una carta <bold id="bold-6">a Gabi</bold> vs. *Juan <bold id="bold-7">le</bold> envió una carta <bold id="bold-8">a Barcelona</bold>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-0aa5ef64878282d89bc98241ea95a52f">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-56b3f9d33a61cf7b70d730f9ed5a23fe">A preposição <italic id="italic-d70421eba55135ff0815f5252c6c7d6b">a</italic> como marcador de caso dativo estaria etmologicamente relacionada à preposição <italic id="italic-4483e53e8d283aac6783fdfec48c65b2">a</italic> espacial, embora dela se diferencie. A distinção pode ser demonstrada nos testes de pro-formas para os complementos. Com <italic id="italic-afa2719a6cc6abe92850813ce8f7a537">a</italic> espacial as pro-formas são advérbios do tipo <bold id="bold-3a518f9246d6fda1f61c71e9161295ad"><italic id="italic-15a5f8fd06ba1daea57064ff32050d20">lá</italic></bold>, <bold id="bold-2"><italic id="italic-a104f5b43434c9ae891cd20e0ec42e61">ali</italic></bold>, ou as preposições <bold id="bold-89658cd5664c5fa648aa8f336a59e5cc"><italic id="italic-c5c239565afe2f84f2bf33a81821a884">em</italic></bold>, <bold id="bold-7c5f6994738dcedf524786d1a9767fe1"><italic id="italic-31ff9a3c688c569bcf1630a64574992e">sobre</italic></bold>, <bold id="bold-02033cc3fd0303cb0ca04ca75070ecb0"><italic id="italic-8">sob</italic></bold> etc.<bold id="bold-7ed75a17533936207e62f5792c4e143e"/><bold id="bold-042b63f12da66906e7d12a61be64380c"/></p>
        <p id="paragraph-b650f8ad74c6dd0b090d49359d0327ba">(i) Eu vou <bold id="bold-1ca0bd9ffac031306b576b5307b967ef">a Paris</bold>/ Eu vou <bold id="bold-a27f9f262fa9d36a8c87466c1a36ad0e">lá</bold>.</p>
        <p id="paragraph-f473fffd5b6d44c0e6e4d4348bc41c92">(ii) O José colocou o livro <bold id="bold-9">na estante</bold>/ Colocou o livro <bold id="bold-10">ali</bold>.</p>
        <p id="paragraph-8cff02434e75214c6512908a1dc37ba7">No caso do objeto indireto, as pro-formas são os pronomes dativos de 3<sup id="superscript-1">a</sup> pessoa <bold id="bold-11">lhe/</bold> <bold id="bold-12">lhes</bold>. Esta mesma distinção é que permite separar os complementos dativos da<bold id="bold-13"> </bold>gama dos complementos oblíquos, ou relativos (cf. Bechara, 1999;<xref id="xref-77536f8eb179bb316c5d9a786b14e662" ref-type="bibr" rid="book-ref-70829090e87d3dfa6bb8dabad4626ad4">[19]</xref> e Mateus <italic id="italic-9">et al</italic>., 2003)<xref id="xref-350349439a360417348be50befe7e155" ref-type="bibr" rid="book-ref-09307b869bc4f5146c5897f361de7649">[17]</xref>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-68d0d9a448b749e7e9f2b2c57bbb96e9">
        <label>9</label>
        <p id="paragraph-7928f1c11c2402ec9648e46b9b529b27">Para uma discussão de Caso estrutural / Caso inerente e natureza da preposição no PB, veja Salles (1997)<xref id="xref-581b6c3bdff8e062cfd996276126a728" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-4e78dcc5185fe68bfb7f4c960ac24912">[20]</xref> e Ramos (1992)<xref id="xref-f5dc56206889514f636b05d7b216ece8" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-113f6bee06613615dfd4adee3f4a8e6b">[21]</xref>.<bold id="bold-f46a4039890a4c1bd82718eb7d76d9fd"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-b652ea630aadeb667fc0e597182b51b4">
        <label>10</label>
        <p id="paragraph-b12f54f782a0dd430c9a8067044f698d">Em trabalho em preparação apresento testes sintáticos envolvendo relações de escopo, ligação, cruzamento fraco entre o OD e OI nas duas variantes da alternância dativa. Os testes mostram a pertinência das relações de c-comando que se estabelecem entre os dois constituintes. Os mesmos testes são tradicionalmente aplicados ao inglês.(cf. Barss e Lasnik, 1986;<xref id="xref-b385405ed4cfadd724defe92ce486143" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-b992d15a4c3fa5c09b6dd6bd7594bbb8">[22]</xref> Larson, 1988;<xref id="xref-3c62aae260238fde19d3232a18428b32" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-6c45a1be6351a29eae7a2e859afabd04">[23]</xref> Harley, 2000;<xref id="xref-0f999c173ab4210b9c4a04498f22f1c1" ref-type="bibr" rid="book-ref-f00603e0848b73e60e6d471da8e60303">[24]</xref> Pesetsky, 1995;<xref id="xref-3dbe7e66e0057a0dbfdde3a624f8cde2" ref-type="bibr" rid="book-ref-bf19468458ef138a44f4afe3ae359938">[25]</xref> Bruening, 2001)<xref id="xref-78a66841fc7e577411057e678ece7744" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-06ad6c5b7ec0443eaa3da289c4645125">[26]</xref>. Cuervo (2003)<xref id="xref-146cfaca176fcae70e6137d6c2c127b8" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-5b3391daa59089288436b0afe1519d24">[3]</xref> apresenta uma discussão detalhada dos testes para o espanhol.<bold id="bold-90f571f0dd7134465dc567a2240610d8"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-a8012bc84c6e8823799f217b2b099f1d">
        <label>11</label>
        <p id="paragraph-bd2cbb7f780742801ad5c3cea849c51e">Deixei de apresentar neste artigo, por falta de tempo e espaço, a questão da ordem final do argumento dativo e OD nas construções aplicativas ativas. Como se sabe, a ordem não marcada é OD-OI nas sentenças ditransitivas, tanto no espanhol quanto no português. Em trabalho em andamento vou propor que a ordem OD-OI resulta de movimento do OD para checar o traço EPP em <italic id="italic-f775302ed423127102dcd7f55c140abc">v</italic>. Este é um movimento legítimo uma vez que o OI, embora mais próximo a <italic id="italic-ff2f2c33274a4e41676f265096aa8010">v</italic>, está inerte para a operação, por ter um Caso inerente.<bold id="bold-f70e61b88090509578b182b7c7fdf4f8"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-fc01f53910dc4fc59455ecc79fa4ead8">
        <label>12</label>
        <p id="paragraph-2d45042a5e0ec6d47a9f0931db4f152c">Quando se trata do uso anafórico do argumento, a ocorrência do pronome forte dativo está associada a um valor contrastivo. O argumento dativo pode ser expresso pelos pronomes fortes, sem o redobro, quando estiver deslocado para o início da sentença (iia). Nesse caso, a retomada pelo pronome clítico é opcional. Pode ainda ser licenciado na presença de expressões como <italic id="italic-b34fa7b9af34aade4829cc96fd49a92a">só</italic>, <italic id="italic-9f97eade1140aca387f70247cb51ecfc">até</italic>, e outros. (iib)<bold id="bold-40ccac4e814be458079cdef696b300db"/></p>
        <p id="paragraph-b21a6aef82158455529e8a71b69fae77">(i) a. O José deu-<bold id="bold-3baeba69eb5992ab5f07f273ad97d447">lhe</bold> o doce <bold id="bold-5b90032d75748a12935ca1463355787f">a ela</bold> ( não <bold id="bold-8b5cea0ecd5385894d08577b2fb6915d">a ele</bold>)</p>
        <p id="paragraph-173d6bc41fe7f6c410075d2261c85fa8">b. *O José deu o doce <bold id="bold-0c5e96221da0f0734990e5660b3cfb67">a ela</bold>.</p>
        <p id="paragraph-ba7dd21fe8c34a4bc0e49a94d96f90c1">(ii) a. <bold id="bold-2d70511778a3c90ba3ce107607ce2ff5">A ele</bold> o João deu (<bold id="bold-28df8f46adf50257c41186298d9c9590">lhe</bold>) uma grande ajuda.</p>
        <p id="paragraph-bc19d4b33ca74cebe84f9c8f1c8b606e">b. Darei a notícia <bold id="bold-80bea5ef789cf0e6d98d28ec8effed8c">só a ele</bold>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-f0011929b9e85fb9c5ed2ae981ad19aa">
        <label>13</label>
        <p id="paragraph-c09e9d78a6256c8009b5900361dc00d7">Observe-se que a sentença é perfeita no PB. Mais do que isso, é a forma atualmente mais produtiva, uma vez que a expressão <bold id="bold-9fad97b1f63ee25c09aba019d5df4b67">a ele/s</bold>, <bold id="bold-b457c01abc30268ca5661148515bae9b">a ela/s</bold>, <bold id="bold-a8621ab0964b08aa4259ebf45c70ba8e">para ele s/ para ela/s</bold><italic id="italic-f67a4239bf8d54691a4fca0ba8594e8b">,</italic> sem o redobro, substituiu o pronominal clítico na língua falada e língua escrita menos formal nos contextos dos verbos ditransitivos de movimento e transferência.<bold id="bold-dd6b4d839ee3e31933a7f86ff05a905b"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-f182c414e22f41f83e56b74f8e9e8a57">
        <label>14</label>
        <p id="paragraph-b3920ca5c1ace5bf358d6da9f9ce6db1">Os clíticos dativos no português se comportam também como um tipo de marcador de concordância em certas configurações sintáticas bem definidas, as quais podem ser informalmente agrupadas no nome coletivo de dependências clíticas. Assim, podem atuar como pronomes resumptivos de complementos na periferia esquerda da frase, como na Construção de Deslocação à Esquerda Clítica<bold id="bold-4d4408f00aa44cce51b83b378a50013f"/></p>
        <p id="paragraph-36eb209399013a804fc5a642456a4d9a">(i) e Construção de Topicalização (ii). Como nota-se em (iii), os clíticos resumptivos são incompatíveis com constituintes focalizados (cf. Duarte, 1987)<xref id="xref-53b412afe5926daf71968e5ab8cf4e9d" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-3d8b83038b2caca9212a33e2575b133b">[27]</xref>.<bold id="bold-22377359dfd478501804a46579aed024"/></p>
        <p id="paragraph-e37e270bf5de049d191f39bdb54050a3">(i) Aos convidados, ofereci-<bold id="bold-02cd1e233dfc9f6a8b2e1603b83bd301">lhes</bold> vinho chileno.</p>
        <p id="paragraph-e069796630361b1cab693eff9124ab83">(ii) O vinho chileno, oferecei-<bold id="bold-1eb746e843df0653bef70903a5b760bf">lhes</bold> durante o jantar.</p>
        <p id="paragraph-7ba6f6e543fc4f550558708cb1499599">(iii) A nenhum convidado ofereci (*<bold id="bold-61af7769fd799a043b4ae81624ace65a">lhe</bold>) vinho chileno.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-cdb357574cce0a1b59c6595904c4a1fa">
        <label>15</label>
        <p id="paragraph-b48e3ce96c1dec4c243852dc75f1b62a">Raposo (1999)<xref id="xref-eb5e7acd95678f15c70019da71e9bb5f" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-f2ae997f5e2a0b324545cecd613dc13a">[28]</xref> afirma que<bold id="bold-52a6af7a08ef81a87c00944a8e660758"> ele </bold>e<bold id="bold-fc78ec5b54ccccefee8f13f7ae0aaea4"> lhe </bold>são determinantes complexos. Sob esta<bold id="bold-58eee347a3927392861959d2d0f4a505"> </bold>perspectiva, o DP dobrado é gerado no spec, DP que tem como núcleo o <bold id="bold-3cfbc81abfc75986b2caf8fa576ec1ff">lhe</bold>. A preposição <bold id="bold-e16a091a3028c9915459400570a890d2">a</bold> marca o pronome dobrado no spec, DP e não o DP todo. Para uma hipótese do DP-grande (big-DP), veja Belletti (2003)<xref id="xref-4f2d4eb964eda60b60c106c07055998d" ref-type="bibr" rid="book-ref-c9768b931640b0ee0abca0c4d0055e41">[29]</xref>. Veja também Kato e Raposo (inédito)<xref id="xref-50463cbf7c7ab9b9bba31c59c7e19457" ref-type="bibr" rid="book-ref-e68929b01308e8c373cead436f0f9cda">[30]</xref>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-62bb5eb70f9ba0cfbffb085d281d80ef">
        <label>16</label>
        <p id="paragraph-e37b4ee3830f0ebfbe55cd671270c207"><bold id="bold-8b0c683f7d2abe9438f6caa2d36c9d08">16 </bold>Cf. Torres-Morais e Berlinck (inédito)<xref id="xref-dde177aa580a6e1b7fa6e4b43799ae5b" ref-type="bibr" rid="book-ref-83d86b3a776db3d95c0b7a125964056c">[31]</xref> para uma revisão detalhada da literatura pertinente.<bold id="bold-027360f3535ad78bc8e413454799ab92"/></p>
      </fn>
    </fn-group>
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