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        <article-title>NÚMERO E A DISTINÇÃO CONTÁVEL-MASSIVO EM KARITIANA</article-title>
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        <institution content-type="orgname">Universidade de São Paulo </institution>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="22/05/2017" />
      <volume>5</volume>
      <issue>1/2</issue>
      <issue-title>NÚMERO E A DISTINÇÃO CONTÁVEL-MASSIVO EM KARITIANA</issue-title>
      <fpage>185</fpage>
      <lpage>213</lpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-95106bd079befc6cd78bc0fd2ef1e026">Este artigo investiga a semântica do sintagma nominal na língua Karitiana e avalia suas implicações para uma teoria semântica sobre a expressão do número e da distinção massivo/ contável nas línguas naturais. O artigo também investiga a possibilidade de ocorrência de argumentos sem a presença de material funcional. Defendemos a tese de que os nominais nus na língua Karitiana possuem denotações cumulativas. No entanto, defendemos também que esta língua faz uma distinção lexical entre nomes massivos e contáveis. Finalmente, o artigo argumenta que os argumentos nominais em Karitiana não possuem constituintes funcionais.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-f18b0f4f3cdae53ec8763fdc31161be0">
          <italic id="italic-1">This paper investigates the semantics of the Noun Phrase in Karitiana, and assesses its implications for a semantic theory concerning the expression of number and of the mass/ count distinction in natural languages. The paper also aims to assess the possibility of occurrence of arguments without the presence of functional material. We argue that bare nominals in Karitiana have denotations of a cumulative nature. However, we also affirm that Karitiana makes a lexical distinction between mass and count nouns. In addition, we maintain that nominal arguments in Karitiana do not have functional constituents.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-e71ce62b00815ef69314658225fa3ea8">Karitiana</italic>
        </kwd>
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          <italic id="italic-1e9f263f7e8f1396f4572438acb9af23">número</italic>
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          <italic id="italic-9e5903f4f93277821eee11e9247577b9">nomes massivos</italic>
        </kwd>
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          <italic id="italic-a40f11dca3f10cca966d38233309ff34">contabilidade</italic>
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          <italic id="italic-27193a81c16318f32bd63b0327aea264">nomes nus</italic>
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    <sec id="heading-00e48549c589629fd82f3cb63f55effa">
      <title>1. Introdução</title>
      <p id="paragraph-a7f7622348bc2864ea85225ff8321942">O Karitiana é a única língua sobrevivente da família Arikém (Tronco Tupi), falada atualmente por aproximadamente 330 pessoas, que vivem numa reserva indígena demarcada, localizada a 95 km ao sul de Porto Velho, no estado de Rondônia, Brasil.</p>
      <p id="paragraph-0c4f79b5b6826510cac2af14194acef9">O Karitiana é uma língua de verbo-final, que apresenta movimento obrigatório do verbo principal para a segunda posição da sentença matriz. Existe uma distribuição complementar entre as sentenças matriz e sentenças encaixadas com respeito à posição do verbo. As sentenças matriz são verbo-inicial (VOS, VSO) ou têm o verbo na segunda posição (SVO, OVS), porém, as sentenças subordinadas são invariavelmente verbo-final (OSV, SOV). O movimento do verbo na sentença raiz está associado à presença de concordância e tempo, que nunca estão presentes em sentenças dependentes (Storto, 1999, 2003)<xref id="xref-5f3aa0c1dfbc8ddeb44728098fb14abd" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-f889ab81b77918a75ecc34cb66749cea journal-article-ref-12e42a5c2d7832ed8c17d8ef8ff111ed">[1,2]</xref>. A ordem de constituintes nos sintagmas vai ao encontro da análise do Karitiana como uma língua verbo-final: o complemento precede a posposição no Sintagma Posposicional, o possuidor precede o possuído no SN e a oração subordinada precede a principal (Storto, 1999)<xref id="xref-66a1b72d4f9ca47be8927a30534ccec2" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-f889ab81b77918a75ecc34cb66749cea">[1]</xref>. Apesar de os sintagmas nominais não serem marcados para Caso em Karitiana, o padrão de Caso da língua é ergativo-absolutivo, o que se espelha na concordância verbal: verbos intransitivos concordam com seu sujeito, ao passo que verbos transitivos concordam com seu objeto direto (ou seja, os argumentos absolutivos). O padrão ergativo-absolutivo de morfologia de pessoa no verbo, a ausência de tempo nas sentenças subordinadas e a ordem complemento-núcleo são características do tronco Tupi em geral (Storto, 1999)<xref id="xref-1042295b9bb11d6ab26d5d89ef3d9ecb" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-f889ab81b77918a75ecc34cb66749cea">[1]</xref>.</p>
      <p id="paragraph-8c5ec403dfa3df2abfa298824235f1ed">Os sintagmas nominais em Karitiana ocorrem nus como argumento, sem presença aparente de material funcional como artigos, quantificadores, classificadores ou marcação morfológica de número.<xref id="xref-82dadd5bea36cc7c8f6e13105c42c1b8" ref-type="fn" rid="footnote-96737af4fd226ff8f22a5d19375e2bda">1</xref> Por exemplo, o nome nu <italic id="italic-9e09599d2c8a76b82b4cc725ae2d4b97">gooj</italic> (‘canoa’) na sentença (1) e o nome nu <italic id="italic-681aa00876fdc96f1f78536ca2da1dd2">õwã</italic> (‘criança’) na sentença (2) podem ser usados para se referir a entidades singulares, plurais, definidas ou indefinidas, como se pode perceber pelas várias traduções possíveis.<xref id="xref-9a4e3fe79a79398fea5ce3f4ede477cc" ref-type="fn" rid="footnote-9551eb058eaacb91d500a7a6cc7d50ce">2</xref></p>
      <fig id="figure-panel-0fc9720b8e74c64f89beee0789be1a71">
        <label>Figure 1</label>
        <caption>
          <p id="paragraph-d1adb5377ceeca24a3253f2f61994ce7" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-dff3ad84dd57468d54c40da01de2c02c" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-08-51.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-78db5f1e02dea70e6b2931577d86cb09">Este trabalho tem como objetivos investigar a sintaxe e a semântica do sintagma nominal em Karitiana e avaliar as implicações do comportamento de seus nominais nus<xref id="xref-4112386093cce6b685cd24f92634e8da" ref-type="fn" rid="footnote-d037cb8a4cee1615f33bf064a4478b1c">3</xref> para uma teoria semântica sobre a expressão da noção de número e da distinção massivo-contável nas línguas naturais. Pretende também avaliar a possibilidade de argumentos ocorrerem nus, isto é, sem a presença de material funcional.</p>
      <p id="paragraph-dfb1675ae79c03a072cad069529569fa">Neste trabalho, argumentamos que os nominais nus em Karitiana possuem denotações cumulativas. Contudo, também afirmamos que a língua Karitiana possui uma distinção lexical entre nomes massivos e contáveis. Defendemos também que argumentos nominais em Karitiana não possuem constituintes funcionais.</p>
      <p id="paragraph-0665081d0d86f42cdc3dc8701b804d43">_</p>
      <sec id="heading-a3f32c879956ee8968949e4323a42e1a">
        <title>2. Sintagmas nominais em Karitiana</title>
        <p id="paragraph-55a47258f58ddaff804bc875dba5a5f0">Nesta seção, apresentaremos os dados relevantes sobre o sintagma nominal em posição argumental em Karitiana. Veremos que, nessa língua, o sintagma nominal é, pelo menos superficialmente, desprovido de qualquer operador funcional, como flexão de número, marca de determinação ou de indeterminação, ou de operadores quantificacionais.</p>
        <p id="paragraph-a5f23996aea985221d0a454177f996dc">Na língua Karitiana, não há marcação morfossintática de número no sintagma nominal. Nas sentenças (3) e (5), os sintagmas <italic id="italic-e5d151daad76a7e23dd0fc3578e5aaf7">myhint pikom</italic> (‘um macaco’) e <italic id="italic-78265802e159c8a6c79846662f261257">myhint ‘ejepo</italic> (uma pedra) são semanticamente singulares. Já nas sentenças (4) e (6) os sintagmas <italic id="italic-d9c0b2a5f284f1b6612989d6e2df9c9d">sypomp pikom</italic> (‘dois macacos’) e <italic id="italic-4ac7383c03ce50f32554161d84aaf72d">myj</italic>)<italic id="italic-57b35beff73167b2f316cd691bef3c6a">ymp ‘ejepo </italic>(‘três pedras’) são semanticamente plurais. Contudo, os<italic id="italic-a6509c7349084d854d2cf0347970f5ea"> </italic>sintagmas nominais de ambas as sentenças permanecem não flexionados para número em ambos os contextos. Uma sentença como (7) significa que o falante comeu um número indefinido de macacos (um ou mais), o que é expresso pelo nome nu sem flexão <italic id="italic-4">pikom</italic>. As sentenças de (3) a (6) mostram também que Karitiana não é uma língua que exige classificadores numerais em sintagmas de contagem, pois os numerais ocorrem ligados diretamente ao nome comum sem exigir a presença de classificadores.</p>
        <fig id="figure-panel-95433089385eac6848f041eca92a244f">
          <label>Figure 2</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-e52ab9308145beae4e7d2d9a79e9bbbb" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-e404e9b9e91ed4cca56708c767556f52" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-09-17_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-3bd6051a1969e2dd698906e7d7a33470">Em Karitiana, não há marca de definitude/indefinitude e/ou determinantes definidos/indefinidos. Nomes nus são entendidos como definidos ou indefinidos a partir do contexto. Na sentença (8), por exemplo, tanto <italic id="italic-2bf27735ea8b241bbf2b9b671fd8ff47">taso</italic> (‘homem’) quanto <italic id="italic-f027ca817e5dd5fcfbbb9ebe3faef0f8">boroja</italic> (‘cobra’) podem ser compreendidos como definidos ou indefinidos, singulares ou plurais dependendo do contexto em que as sentenças forem pronunciadas. A mesma sentença mostra que a denotação dos nomes comuns em Karitiana é indiferenciada para número, pois a sentença (8) significa que uma ou mais cobras foram comidas por um ou mais homens. Os nominais nus j?onso (‘mulher’) e kinda haraj?ty (‘coisa boa’) na sentença (9) também não possuem qualquer marca para (in)definitude ou número.</p>
        <fig id="figure-panel-5646b28e9cbec8e5ff430b6836f3f63b">
          <label>Figure 3</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-4db8370bcbf9933aaa7f0088b49b0b0d" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-51927e2d02a40ab860dfdfb01eb37f65" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-09-31_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-ea8e7082a7f0f49ce5eec00f974d8617">Mesmo a função expressa por demonstrativos como <italic id="italic-f4672b93825f92a32b7e166f1245deaf">este, esse</italic> e <italic id="italic-ff883d90b0d8661635613c13bd3a6f02">aquele</italic> em português é expressa de outra forma em Karitiana. Expressões do português como <italic id="italic-0b1344532ee5cc74c547dcd4aa890d64">aquele homem</italic> ou <italic id="italic-fac7ef801bc5b9cd08b8e3e631c92e98">aquele</italic>(<italic id="italic-5">s</italic>) <italic id="italic-6">porcos</italic>(<italic id="italic-7">s</italic>) são traduzidas por orações subordinadas que equivalem a <italic id="italic-8">homem/porco que está lá</italic> ou <italic id="italic-9">porcos</italic> <italic id="italic-10">que estão se movendo</italic>, como ilustrado pelas sentenças em (10)-(12). As<italic id="italic-11"> </italic>evidências de que se trata de orações subordinadas, e não de sintagmas nominais simples, são: (i) o fato de o auxiliar <italic id="italic-12">aka</italic> ocorrer na última posição da sentença, sem flexão de concordância ou tempo, como em todas as subordinadas em Karitiana; (ii) o fato de estas construções demonstrativas especiais exigirem morfologia (por exemplo, <italic id="italic-13">ka</italic> em (12)) que codifica a posição do corpo do argumento relativizado, morfologia esta que acompanha todos os predicados progressivos na língua.</p>
        <fig id="figure-panel-024650fe375281ec7b940668e96a78e3">
          <label>Figure 4</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-7a29949a44aa689a4da73033843837bf" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-cc71ec3d0781570ef4f28e2ac6ed09a3" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-09-50_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-2f8d95fa5b9f50a9e0170f4181d48062">Em línguas como o português e o inglês, quantificadores como <italic id="italic-fa9b1bcb245185327aab28b55899f21e">todos</italic>, <italic id="italic-3e45b4543347d536b8d7d93ea65857fd">muito</italic>,<italic id="italic-52945b369c7dc0ea1bec545b7b74d7b4"> ninguém</italic>, bem como os numerais, determinam o sintagma nominal<italic id="italic-392e1a499f25a327709497a17ba53e29"> </italic>como ilustrado em (13)-(14) para o inglês e em (15)-(16) para o português. Essas expressões quantificadoras ocupam posições funcionais no sintagma de determinante. A correspondência voz ativa-voz passiva e a alternância entre as posições de sujeito e objeto ilustram o fato de que quantificador e nome comum formam um único constituinte nessas línguas.</p>
        <fig id="figure-panel-111044fdda07e50d043321b7de8c1df5">
          <label>Figure 5</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-53bf8978e73afcc3f0fb7caeee067a74" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-acc5ce428e1cc813cef5a92e01d2aa32" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-10-10_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-9f5dcb775c9c1b5246a73d2807b2c23e">A língua Karitiana não parece possuir quantificadores nominais como o português ou o inglês. Expressões quantificadoras alternam-se entre um comportamento adverbial e um comportamento nominal. O informante usa indiferentemente a mesma palavra <italic id="italic-4ac0657f7833c71b6bf3d060d0a71719">si’i</italic>)<italic id="italic-a3a391ee4d28ab3b17dbbe8c1ea82697">rimat par</italic>a significar ninguém ou nu<italic id="italic-48cfe678813a97e351afb4efb6899afd">nca, c</italic>omo se pode ver nas sentenças (17) e (18). Nas sentenças (19) e (20), a palavra kandat (‘muito’) é usada tanto para expressar a quantificação sobre um nome (‘muitos homens’) em (19) como uma quantificação sobre um verbo (‘trabalhar muito’) em (20).</p>
        <fig id="figure-panel-2c8467ff8827a13d5953f16675250b7d">
          <label>Figure 6</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-4fa1a5d3f75e8989d378466543196d2e" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-a0bf60aa3e98f1f1adb6cd0ef4bd3419" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-10-24_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-88309ee65404cfd72ec4f5151ed62c85">Os numerais poderiam tornar-se um contra-exemplo potencial para nossa afirmação de que o sintagma nominal em Karitiana é despido de operações funcionais, pois eles parecem ocorrer em posição funcional típica de quantificadores nominais, como vimos nas ocorrências (3)-(6), repetidas abaixo como (21)-(24). A língua Karitiana possui um sistema numérico com unidades de 1 a 3 (ver Tabela 1), sendo o número 4 derivado da palavra <italic id="italic-0441606bb1da897eace029fd77616822">ota</italic> (‘outro’) e 5, da palavra <italic id="italic-9ea4d96776b4a57923eca609d3df9e38">mão</italic>. Numerais maiores são compostos a partir desses numerais básicos, como ilustrado na Tabela 1. No entanto, esses numerais, quando acompanhando um nome, sempre ocorrem com o sufixo oblíquo -t. Sypomp pikom (‘dois macacos’) em (22), por exemplo, deve ser entendido aproximadamente como ‘macacos em dois’. E myjymp) ‘ejepo (‘três pedras’) em (24) deve ser entendido como ‘pedras em três’.</p>
        <fig id="figure-panel-9b41f7e4757ff6828c9a4c5f3a4ebeb6">
          <label>Figure 7</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-e0ff0936c1024c160ab3d9f2b36941ff" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-e9fd18ee9962c8d2bdeac4708e075ec1" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-10-44.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-5a1b93b31e59431bd51eb52550e5ec52">
          <label>Figure 8</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-69206c485ce1d3c3c145203035997458" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-edb597d367469800df6ffe56665623e0" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-11-22_2.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-e93059a9fa14a763e1545b2555af87f8">Mesmo quando não são usados acompanhando um nome, os numerais acompanham o sufixo oblíquo <italic id="italic-f41d9d6330e3747dfc4a5fc46df90b7e">–t</italic>, como exemplificado na terceira coluna da Tabela 1. O único ambiente identificado até o momento em que numerais podem ocorrer sem o sufixo oblíquo é em resposta a um pedido de repetição do tipo <italic id="italic-f12b8c888e0979d98a6104d55af9d920">o que?(não ouvi bem)</italic>. A resposta teria a forma <italic id="italic-c6adb3294e2e2ac453327b780618cd80">myhino</italic>, <italic id="italic-1dfdbec6105563681a40532f77cb3ccb">sypomo</italic>,<italic id="italic-380c63a47e03d894d3f634077715c775"> myjymo,</italic>)<italic id="italic-a204fea24f722a23222b34048f3b8ff8"> </italic>com o sufixo enfático –o, que sempre acompanha nomes<italic id="italic-37b0906235ccb405b8bae8ca94acc543"> </italic>neste contexto pragmático. Estes fatos sugerem que os numerais em Karitiana não são sintagmas posposicionais, ou seja, sintagmas cujo núcleo é uma posposição.</p>
        <p id="paragraph-ff796d23e89fadc23c91b811f7481e2e">Já a quantificação universal não é expressa por um quantificador. A expressão que traduz a quantificação universal – <italic id="italic-956de733d811da7e5766ba2c611c2b84">(ta)akatyym</italic> – é composta por uma anáfora de terceira pessoa (o prefixo <italic id="italic-1d87fa0a5aa5c43c14f91d69c3a912bd">ta-</italic>), o verbo ser/estar (<italic id="italic-306787bdc17462425ee63c6e27c98593">aka)</italic> e a partícula subordinadora <italic id="italic-779e759978237e8386be7160e002bee1">tyym</italic>. Literalmente essa expressão significa algo como <italic id="italic-3e1f554137c60b2f4b0c5d5c0c43856c">os que são/estão</italic>. O anafórico <italic id="italic-259f4e9f2b63eebc9374143972fba708">ta-</italic> parece ser usado quando a expressão quantificadora não está adjacente ao nome que modifica. Em (25)-(26), vemos que <italic id="italic-e5b1e7c7ec256099aec19a1dc7d03839">taakatyym</italic> ocupa a mesma posição e pode aplicar-se tanto ao objeto (25), como ao sujeito (24). A sentença (27), por outro lado, mostra que a expressão quantificadora pode ocupar outra posição na sentença, no caso, adjacente ao sintagma que determina o domínio sobre o qual se dá a quantificação (a restrição). Nesse caso, não necessita do prefixo anafórico <italic id="italic-42e5757f8a07123b8950a878fc05bc88">ta-</italic>.</p>
        <fig id="figure-panel-40893316c54f9cf909aa48d1ebde3e79">
          <label>Figure 9</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-83174a5db2d5770eec759ddcd80d7399" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-999defc4bb938a1bf6a2b106a4fe80d9" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-11-43.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-4c37e19327dab4456a98839b57b1c85d">Vimos então que o sintagma nominal em Karitiana ocorre totalmente despido de constituintes funcionais, como flexão de número, determinantes ou quantificadores. Esses sintagmas nominais são interpretados como neutros em relação ao número, podendo referir-se a entidades singulares ou plurais. São também neutros em relação à definitude. Na próxima seção, discutiremos a denotação dos nomes comuns nas línguas naturais. Veremos que nem todas as línguas expressam a distinção singular-plural e a distinção massivo-contável do mesmo modo.</p>
        <p id="paragraph-59206daedaa76c7def99ee89da78f6dc">_</p>
      </sec>
      <sec id="heading-b948a126e3d8b0d1fa836637471312c8">
        <title>3. Criando indivíduos: Número e a distinção massivo-contável</title>
        <p id="paragraph-bb702924cc3e0417ad1a2bc69b8c9c6c">Nesta seção, veremos como a semântica formal relaciona os diferentes padrões de comportamento sintático e morfológico dos nomes comuns a suas denotações, ou seja, ao tipo de entidades a que esses nomes podem se referir. Tradicionalmente, nomes comuns são subdivididos em contáveis e massivos. Intuitivamente, a diferença está em que nomes contáveis se referem a entidades conceitualizadas como discretas, e nomes massivos se referem a entidades conceitualizadas como contínuas. Quine (1960)<xref id="xref-1226b625eaa1612bf79d4579d5a21d0c" ref-type="bibr" rid="book-ref-5139106259d5020d1af0d08f8fdf063f">[3]</xref> apresenta claramente essa intuição:</p>
        <p id="paragraph-1486cb756f5d45d7d8bbf1abe1cf6f26">_</p>
        <p id="paragraph-a4e04a658d8430ab2edc27de9e423cc8">
          <italic id="italic-190d255bd60424d545ff099cb37cf5d0">To learn “apple” it is not sufficient to learn how much of what goes on counts as apple; we must learn how much counts as an apple, and how much as another. Such terms possess built-in modes, however arbitrary, of dividing their reference (…) Water is scattered in discrete pools and glassfuls (…) still it is just “pool”, “glassful”, (…) not “water” (…) that divide their reference.</italic>
        </p>
        <p id="paragraph-01efabf3ddec4a4cfbb2e048ae14d6ae">[Para aprender ‘maçã’ não é suficiente aprender que quantidade do que ocorre conta como maçã; nós precisamos aprender que quantidade conta como uma maçã, que quantidade conta como outra. Tais termos possuem modos internos, mesmo que arbitrários, de dividir sua referência (...) Água está espalhada em poças e copos (...) ainda assim é apenas ‘poça’, ‘copo’, (...) não ‘água’ (...) que divide sua referência (Quine, 1960, p. 91; tradução nossa).]<xref id="xref-46c3ccdd6098d0acae9a916c03790e7b" ref-type="bibr" rid="book-ref-5139106259d5020d1af0d08f8fdf063f">[3]</xref></p>
        <p id="paragraph-418474d50227b106e8fd1854dcc46914">_</p>
        <p id="paragraph-ce8a95dccb5ada5a35849dc8c52227c2">Essa divisão se manifesta gramaticalmente em várias línguas. Vamos ilustrá-la para o inglês, que é a língua mais exaustivamente discutida pela literatura sobre o assunto.<xref id="xref-8c468fb7962ea6d995bc8d7f91548205" ref-type="fn" rid="footnote-28c644033c59a7e0b48fecc363f0a1ae">4</xref> No inglês, nomes contáveis possuem uma forma plural e uma forma singular, como ilustrado pelas sentenças em (28). Uma outra característica dos nomes contáveis é a de poderem ser diretamente combinados com numerais. Essa propriedade também é ilustrada pelas sentenças em (28).</p>
        <fig id="figure-panel-58d56b594b370181c67fc3b219db1889">
          <label>Figure 10</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-0f1a92df69416e02088714029f076142" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-9c488d2304935dc2cfebc2aba618fbbe" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-12-02.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-4bef55257f63ac4a649fd706f2a6711d">Já nomes massivos não podem ser diretamente contados, como ilustram as sentenças em (29). Esses nomes necessitam de classificadores ou de sintagmas de medida para serem apropriadamente contados, como se pode ver pelo contraste entre a agramaticalidade de (29a-b) e a gramaticalidade de (30a) com a inserção de expressão de medida <italic id="italic-a05885c834c72cd6eaaa5d75d87197a8">bars</italic> (‘barras’). Nomes massivos também não aceitam a marcação de plural, como se pode ver em (30b).</p>
        <fig id="figure-panel-89e89b4f409ac1c49e00c6fc70d49760">
          <label>Figure 11</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-e36bd857db98446360c9b9edf7027b47" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-6e78d614625446eea85b940e541708ec" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-12-20.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-89a1ceafdad12bb6848bd9f01c953731">Certos quantificadores combinam-se apenas com nomes contáveis, outros apenas com nomes massivos. A expressão quantificadora <italic id="italic-dbd7299d4faf1c3424f660ed14fb7d88">little</italic> (‘pouco’), por exemplo, combina-se apenas com nomes massivos. Essa propriedade está exemplificada nas sentenças (31). Em (31a) o uso de <italic id="italic-1084978ce4e83d7df398b5d8dce9a5a6">little </italic>(‘pouco’) com o nome contável<italic id="italic-21a2be11631c18db6a360a2a90e8f28b"> apple </italic>(‘maçã’), torna a sentença<italic id="italic-41d20e09630ef4c1e598ec3609a05072"> </italic>agramatical. Em (31b) o mesmo quantificador é usado com o nome massivo <italic id="italic-d05261b3f9f2a06bb9b0d99606783024">gold</italic> (‘ouro’), e a sentença torna-se gramatical. <italic id="italic-c41bdd0ad1a6cacfe8a14ca9a53ee188">A</italic> expressão <italic id="italic-1cd20e7545dab4faf63a537c3adffb1f">several</italic> (‘vários’), por outro lado, só é possível com nomes contáveis. Nomes contáveis podem ser ordenados (ver sentença (32a)), ao passo que nomes massivos não são ordenáveis (ver sentença (32b)).</p>
        <fig id="figure-panel-9619c5fca511acf910fa9105862da0a3">
          <label>Figure 12</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-e6e6407d5f09c1e18acd1820c88ead37" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-efc29bb135cb2bd18c47ae30806cd3c5" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-12-35.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-43da2c5e707c47e7f90d614b2065a62c">Link (1983)<xref id="xref-cf50cf47588ff4f6965ab1b60ad86017" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-ef5d653078c94a23c94c1c1d364424c2">[4]</xref> propõe que as denotações dos nomes massivos e dos nomes contáveis pertencem a domínios ontológicos diferentes. Segundo ele, a linguagem descreve o mundo como contendo dois tipos de entidades distintas: (i) entidades discretas ou atômicas; e (ii) matéria indiferenciada ou substância. Essa distinção pode ser ilustrada da seguinte forma: se você parte uma maçã ao meio, cada uma das partes não é mais uma maçã; mas, se você separa uma quantidade de ouro em duas quantidades de ouro, cada uma delas ainda é uma quantidade de ouro. Da mesma forma, se você junta uma maçã a outra maçã, o que você obtém são duas maçãs. Mas se você adiciona uma quantidade de ouro a outra quantidade de ouro, as duas juntas ainda formam uma quantidade de ouro. A essa propriedade das denotações dos nomes massivos chamamos de cumulatividade.</p>
        <p id="paragraph-e5fde1c206757d41bbf5f8d82e8d3fd1">Uma vez assumida essa ontologia, a flexão de número é interpretada como uma operação sobre o domínio das entidades discretas, pois apenas nesse domínio a distinção entre entidades atômicas (unidades) e entidades plurais (grupos formados por duas ou mais unidades) faz sentido. Explica-se, assim, porque apenas nomes contáveis podem ser pluralizados. Nomes comuns contáveis são analisados como denotando conjuntos de indivíduos atômicos.<xref id="xref-8d58cf8ed7768783c8c9e763430ad51e" ref-type="fn" rid="footnote-384d530df2581959c53478c64131f7c7">5</xref> A denotação de um nome comum singular como <italic id="italic-9bfee1e0eedcd422dc70507b911688f7">porco </italic>é o conjunto de todos os porcos, o que está ilustrado em (33).<italic id="italic-f29359169ce4db8f4dbf4fee043e0fce"> </italic>Nomes comuns plurais, por outro lado, são descritos como denotando tanto indivíduos atômicos quanto indivíduos plurais, ou seja, conjuntos de mais de um indivíduo, como ilustrado em (34) para o nome contável plural <italic id="italic-622facce6a6e85fc9243f7dc2912ea09">porcos</italic>.</p>
        <fig id="figure-panel-e732b57fd73eb0b7532c1cfc30f49e0c">
          <label>Figure 13</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-d86d5ae5aed95d7562070dc8f6d43757" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-f1125f0ec345f7db277fee8fc5f68fdf" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-12-59.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-a97a282b9df3422b6287c2812a449c12">O tratamento semântico dos nomes comuns descrito acima pode ser chamado de clássico e é a posição tradicionalmente apresentada pelos manuais de introdução à semântica formal.<xref id="xref-e7ce5b209d8c9eae03ffd64ec5d24ebb" ref-type="fn" rid="footnote-33170682d50492f116a048716100f3c7">6</xref> Ele se estabeleceu com base no comportamento da maior parte das línguas românicas e germânicas. Nessas línguas, nomes singulares não podem ocorrer em contextos semanticamente plurais. Nomes plurais, por outro lado, podem ocorrer tanto em contextos plurais como em contextos neutros. Em inglês, por exemplo, nomes contáveis singulares podem ocorrer apenas em contextos singulares. O contraste de gramaticalidade entre (35) e (36) ilustra esse fato. A explicação corrente é que a sentença (36) é agramatical porque o significado do nome comum singular <italic id="italic-cd92753f44f02104259de2ad2d6f8043">boar</italic> (‘javali’) entra em choque com o significado plural do numeral <italic id="italic-ffc56c3b752c5576ef0030f50c4fa3b1">two</italic> (‘dois’). Nomes contáveis plurais, por outro lado, podem ocorrer tanto em contextos plurais quanto em contextos neutros em relação ao número de entidades denotadas. A sentença (37) mostra que um nome contável singular em inglês não pode expressar neutralidade em relação a número, enquanto um nome contável plural como o da sentença (38) está apto a fazer isso. Note-se que a sentença (38) será verdadeira se João comprou apenas uma ou duas ou mais maçãs.</p>
        <fig id="figure-panel-8fa78ceb950a1e7d9b6a858b5aa6d398">
          <label>Figure 14</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-e3bd998dc9ef5acb3ddf549784483c92" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-ad79d83e2e639133d300b4fc04919633" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-13-14.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-5cf5a09ca3820261d0070985b52e3120">Existem, entretanto, línguas como o chinês, o japonês e o tailandês que não possuem flexão de número (ou esta é opcional) e, ao mesmo tempo, possuem classificadores cuja presença é obrigatória em contextos de contagem. Em chinês, por exemplo, a presença de um classificador é exigida tanto para a contagem de um nome aparentemente contável, como <italic id="italic-784b1cafd09ca676c267a9234ce41e27">bi</italic> (‘caneta’), quanto para a contagem de um nome aparentemente massivo, como <italic id="italic-ed6eef6eadff1491e2de700b718cd72f">mi</italic> (‘arroz’), cujas unidades de contagem não são claras. Observe o contraste de gramaticalidade causado pela presença de classificadores nas expressões em (39a) e (40a) e pela sua ausência nas expressões em (39b) e (40b). O mesmo ocorre com o exemplo do tailandês (41a e 41b).</p>
        <fig id="figure-panel-00fa09b3ef0c6920306d2be143db08d7">
          <label>Figure 15</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-ef1d007b873f49e5c2e2097aed49ae12">
              <xref id="xref-c29e011b64f9221d390960122cf1e227" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-c674ae006b72f9b4b765bfa76c36c512">[5]</xref>
              <xref id="xref-344df6e33838ccb795a6caea423e8254" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-df6fb1da821e6a12b07318eb097ebbb4">[6]</xref>
              <xref id="xref-d36dc5c4bd0a43f9f6f7e5824d8406de" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-443aeb01602f8b7f28b63531688107dd">[7]</xref>
            </p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-69851cac656202409ddfdb5f1f8d8c33" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-13-34.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-dd12ea0e87eca0a719001e418a60f77a">Línguas de classificadores têm sido analisadas pela literatura como línguas nas quais os nomes comuns são todos massivos (ver Chierchia, 1998a, 1998b;<xref id="xref-f3c75eeb73b083afc06627e548e8a05a" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-c61bc94093fcfa3cb08d27b4a81038be journal-article-ref-c674ae006b72f9b4b765bfa76c36c512">[5,8]</xref> e Krifka, 1995;<xref id="xref-93e37eaced1d20f343897c511d2200af" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-f195551d4ac734a4ace4e5f21a4224c0">[9]</xref> entre outros). Nessas línguas não haveria uma distinção entre nomes massivos e nomes contáveis. Nelas, a função dos classificadores seria a de transformar a denotação massiva dos nomes comuns em uma denotação composta por entidades atômicas e, conseqüentemente, tornar esses nomes passíveis de contagem.</p>
        <p id="paragraph-93a60226ba29a1ffa49a0f5d0e5e557c">Se este tratamento dos fatos fosse apropriado, em línguas de classificadores esperar-se-ia que esses fossem obrigatórios (ou pelo menos opcionais) em todos os contextos de contagem, uma vez que sua suposta função é a de criar indivíduos. No entanto, em contextos de quantificação universal, o seu uso torna a expressão agramatical (Gil e Tsoulas, 2005)<xref id="xref-03d7a13c21b25d868718e79b9116be03" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-60e872bfd734baeab58d88d94be0b4ec">[10]</xref>. Note que, nos exemplos do Japonês, as expressões quantificadas sem classificadores em (41a) e (42a) são gramaticais, ao passo que as expressões quantificadas com classificadores são agramaticais.</p>
        <fig id="figure-panel-e84e439413b2f09276e1cd3e5b1b7a7f">
          <label>Figure 16</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-bcb8e4d5c918f8065a3cd71e83180cb7">
              <xref id="xref-1cf8c2a556a3a688beaf5e72e461524f" ref-type="fn" rid="footnote-f51d9f60949a53bb719205c2cbdee374">7</xref>
              <xref id="xref-821f333167f4092d71571dea791fd9eb" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-60e872bfd734baeab58d88d94be0b4ec">[10]</xref>
              <xref id="xref-78a074fcdf35beda244a907a9cd78065" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-60e872bfd734baeab58d88d94be0b4ec">[10]</xref>
              <xref id="xref-302de16c494e45e0ad21705274b26308" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-60e872bfd734baeab58d88d94be0b4ec">[10]</xref>
            </p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-0ec6b4d78ba5316e315d5d7e61838a7c" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-13-47.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-456f7494ddcf2782e161709c2a232cdb">E quando se examina uma maior variedade de línguas, a aparente dicotomia entre classificadores e flexão de número não se sustenta. Existem línguas como o Yágua – língua da família Peba-Yágua, falada no Noroeste do Peru – e o Totonac – língua da família Totonac-Tepehua, falada em Sierra Norte, México – que possuem tanto classificadores como flexão de número. Os exemplos (44)-(46) mostram a existência de flexão de número em Yágua. Já o exemplo (47) ilustra o uso de classificadores em contextos de contagem.</p>
        <fig id="figure-panel-d20aa4377ab2643859484afc80bea0b2">
          <label>Figure 17</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-ed0d6abad9d914acb20abab99164b77e">
              <xref id="xref-c55f07bba691046648c60fef94c8373d" ref-type="bibr" rid="book-ref-1cbce02af081458d141f178576af3946">[11]</xref>
              <xref id="xref-97dc263adb34468f43cddeeb778836e8" ref-type="bibr" rid="book-ref-1cbce02af081458d141f178576af3946">[11]</xref>
              <xref id="xref-e6974cbc38a1db016f64ec021fa40d08" ref-type="bibr" rid="book-ref-1cbce02af081458d141f178576af3946">[11]</xref>
              <xref id="xref-ad6fd0aa9c8e3b86893f7e897094bbe1" ref-type="bibr" rid="book-ref-1cbce02af081458d141f178576af3946">[11]</xref>
            </p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-1983e90aee1f68c0d6ac759abf06e83d" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-16-29.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-92f99db13630e1431c0267f209db04cc">Como vimos para o Karitiana, existem também línguas que não possuem nem classificadores nem flexão de número. Esse é o caso de Dëne Suliné, uma língua nativa do Canadá da família Athabaskan (cf. Wilhelm, 2005)<xref id="xref-409aaff789e515f5f012a644a1fe7ffd" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-19f33073ec99231e3a52f1f3967a23dc">[12]</xref>. Os exemplos (49) e (50) ilustram a ausência tanto de quantificadores como de classificadores em contextos de contagem em Dëne Suliné.</p>
        <fig id="figure-panel-3ac3d940dec92b332fcc05fa22022f83">
          <label>Figure 18</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-71b4848f5d0fa4380a349e06629eaa2d">
              <xref id="xref-5df2aeada4c3c832bf64094a7171794b" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-19f33073ec99231e3a52f1f3967a23dc">[12]</xref>
              <xref id="xref-5b0df9c632aa1e76f7ea62763b22bf1a" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-19f33073ec99231e3a52f1f3967a23dc">[12]</xref>
            </p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-98801b9f4d933ff216c83065c217fae9" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-17-30.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-9d28b4916867aa02732192a89f7be6dd">Existem também línguas em que a flexão de número é opcional. Línguas como húngaro e turco não fazem uso de classificadores ou de flexão de número para contagem e, no entanto, possuem flexão de singular-plural. Sentenças como (50) e (52) mostram a existência de marcação de pluralidade nessas línguas. As ocorrências em (51) e (53) mostram que nomes podem ser contados sem o uso de flexão.</p>
        <fig id="figure-panel-ba42b14deb58be3c92c712af37d7733a">
          <label>Figure 19</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-9dcad138632825b40e20e7aff37d4f0e">
              <xref id="xref-1c254b09e14fdc14f94503df2f505637" ref-type="bibr" rid="book-ref-6bf771695831840e9189c1fc0ae73add">[13]</xref>
              <xref id="xref-5d3482c5e9ced52b7094b1ee470d5e33" ref-type="bibr" rid="book-ref-6bf771695831840e9189c1fc0ae73add">[13]</xref>
              <xref id="xref-98ded789a0df19c01e01f5910db2f26c" ref-type="bibr" rid="book-ref-6bf771695831840e9189c1fc0ae73add">[13]</xref>
              <xref id="xref-e4e5c3942c11aff7c927403728ef1f68" ref-type="bibr" rid="book-ref-6bf771695831840e9189c1fc0ae73add">[13]</xref>
            </p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-52267f4155ea0ac31f221f81f9e1939b" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-18-03.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-1a375d9263f6893acc0300d499bd5691">Por outro lado, vários trabalhos têm argumentado a favor da existência da distinção massivo-contável tanto em línguas de classificadores (sobre o chinês, ver Cheng e Sybesma, 1999;<xref id="xref-62b2ebabd56616b6ee4fbf5a8a4fa3e9" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-df6fb1da821e6a12b07318eb097ebbb4">[6]</xref> e Doetjes, 1979)<xref id="xref-618a76d2587e90e6bdd927be746bca35" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-e430a275b4eae9915bea190ae9265d37">[14]</xref> quanto em línguas que não possuem nem classificadores nem flexão de número (sobre Dëne Suliné, ver Wilhelm, 2005)<xref id="xref-a97851d36470353b633c60d126395bf7" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-19f33073ec99231e3a52f1f3967a23dc">[12]</xref>. Esses trabalhos colocam em questão a existência de uma correlação necessária entre a presença de classificadores e a presença de uma denotação massiva. Em Dëne Suliné, por exemplo, a distinção contável-massivo se manifesta pelo fato de que nomes contáveis podem ocorrer diretamente com numerais (ver (54)), ao passo que nomes massivos são agramaticais na ausência de algum tipo de classificação ou sintagma de medida (ver (55)).</p>
        <fig id="figure-panel-f3d03ecd1da68d3598945b34b8a62046">
          <label>Figure 20</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-df67ee7ddc651caf87e1567174e4e882">
              <xref id="xref-696e72b67244a20e0146bd2ac346245d" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-19f33073ec99231e3a52f1f3967a23dc">[12]</xref>
              <xref id="xref-6048266e64ba29026dd66268d52e9a92" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-19f33073ec99231e3a52f1f3967a23dc">[12]</xref>
            </p>
          </caption>
          <graphic id="graphic-b4786637d0ac545c3f1dc3fd5f432e21" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-18-24.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-165f7f21059931316f63f79706e36917">Vimos, então, que não existe uma correlação obrigatória entre flexão de número e presença de classificadores. Vimos também que não existe uma correlação entre ausência de flexão de número e denotação nominal massiva. Na próxima seção trataremos da expressão do número de da distinção massivo-contável em Karitiana.</p>
        <p id="paragraph-0edda3c95851df1e4e59bd200634d793">_</p>
      </sec>
      <sec id="heading-58d72117b434423f7a5dfd528786a354">
        <title>4. Nominais nus, número e a distinção massivo-contável em Karitiana</title>
        <p id="paragraph-51d06a72d65cea5690a1d5d5b4a72ad7">Vimos na seção 2 que a marcação da distinção singular-plural é totalmente ausente dos sintagmas nominais da língua Karitiana. Mostramos também que esses sintagmas nominais são semanticamente neutros em relação ao número de entidades sob sua denotação. A sentença (1), repetida abaixo como (56), significa que Maria construiu um ou mais barcos. Sendo assim, não podemos atribuir uma denotação composta simplesmente por indivíduos atômicos aos nomes comuns em Karitiana, embora seja essa a denotação tradicionalmente postulada para os nomes comuns contáveis. O comportamento do Karitiana nos leva a concluir que seus nomes comuns possuem denotações que são neutras em relação ao número das entidades sob sua denotação.<xref id="xref-d27277adbe1a4b52e0e6d23c50f55c00" ref-type="fn" rid="footnote-e7722ecaa345e1cfcd9b58029acb13b2">8</xref> Concluímos que a denotação de um nome comum em Karitiana engloba tanto indivíduos singulares como indivíduos plurais. Ilustramos em (57) a denotação do nome comum <italic id="italic-188582b5bae108344ef14a1012bfab10">gooj</italic> (‘canoa’). Essa denotação contém tanto barcos individuais (átomos) como grupos de dois, três ou mais barcos.</p>
        <fig id="figure-panel-19a05f063e3d72801c19063b4dead88b">
          <label>Figure 21</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-23898133712edfcf5456e7305b4aa69c" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-49beb97beb7b93a6d804309f5adf24ae" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-18-41.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-13f39d32a65ca6352ccfdb608b243ad4">A ausência de número permeia todo o sistema nominal da língua Karitiana. Mesmo os pronomes pessoais não fazem diferença entre singular e plural. O paradigma dos pronomes pessoais é apresentado na Tabela 2. A terceira pessoa é claramente invariante. Já os pronomes que corresponderiam às nossas primeira e segunda pessoas do plural incorporam a forma anafórica de terceira pessoa <italic id="italic-b749b4dfdf341b0ec157e372f266949d">ta-</italic> ou o pronome de terceira pessoa <italic id="italic-e539147106a38d8e3e9384acf03f8a7f">i</italic> em sua composição, como explicitado pela segunda coluna da Tabela 2. Em (59), ilustramos o funcionamento anafórico de <italic id="italic-6e439e06a06fbbdaec9cee50e418e076">ta-</italic> e também o fato de que o pronome de terceira pessoa é indefinido em relação ao número.</p>
        <fig id="figure-panel-de06f111fb6959e13e1f5b6fd1bd2b7e">
          <label>Figure 22</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-d359d883dac5a07bbbf5e0001c84c656" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-9a743bc4aee63c05023fe6a4eec386b0" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-21-45.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-1619874a609c75fba40ab13da01f3cbc">
          <label>Figure 23</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-143a5006b5e8f9627d5ed5738f0d4c67" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-dc619159a03a1e3218f6c9d2e06f2b1f" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-21-58.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-1a4189ac2c3e24afca88b14091c9bf35">Note-se que em nenhum dos pronomes “plurais” existe uma marcação de pluralidade, algum morfema que signifique ‘mais de um’. A interpretação de que temos mais de uma pessoa é efetivada pela listagem dos participantes. A primeira pessoa do plural inclusivo yt<italic id="italic-c278f036642d736f7d1a601f25c6d9c1">a-,</italic> por exemplo, significa algo como ‘eu + outro(s) como eu’.</p>
        <p id="paragraph-157999c4455ee757cc2fe8a87342606e">A flexão verbal também não incorpora nenhuma informação sobre o número de seus argumentos. Karitiana é uma língua de concordância ergativo-absolutiva: verbos intransitivos concordam com seu sujeito e verbos transitivos concordam com seu objeto (os argumentos absolutivos). Na Tabela 3, temos um verbo intransitivo que concorda com seu sujeito. Na Tabela 4, temos um verbo transitivo que concorda com seu objeto. Note que, em ambos os casos, as flexões verbais são idênticas aos pronomes pessoais e, portanto, não são flexionados para número. Karitiana tem concordância zero para a terceira pessoa no modo declarativo (marcado com os alomorfes na(-ka) e ta(ka)).</p>
        <fig id="figure-panel-087e30eb72bb9a4e72521cb58c8d4282">
          <label>Figure 24</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-b3c6d6fa5f0adfe617a61f2bfcb9f21d" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-d19cdaeb68d9afce69a50018f0538d10" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-22-50.png" />
        </fig>
        <fig id="figure-panel-11805afee51d19f6ce749b25c74a4f16">
          <label>Figure 25</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-4a8ac802b08cd16199fd4f8ef54cf50c" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-11ebe0ddcef2378b016c55b62dcd1caf" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-23-05.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-c92532c21c843db1b2b5a13c23332e61">Como já mencionamos na seção 3, nomes comuns que são invariantes em relação à distinção de número são comumente assimilados a nomes massivos (ver Chierchia, 1998a, 1998b;<xref id="xref-f19608fde417fa250f07f1e30e1e5ed5" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-c61bc94093fcfa3cb08d27b4a81038be journal-article-ref-c674ae006b72f9b4b765bfa76c36c512">[5,8]</xref> Krifka, 1995;<xref id="xref-6425560c3c7a01195dcb63bdb2f259b3" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-f195551d4ac734a4ace4e5f21a4224c0">[9]</xref> e Borer, 2005;<xref id="xref-fa9524a245c308abe1b18c0bc6060b45" ref-type="bibr" rid="book-ref-af3434c1af5bfab48a47f3e0ab8d6bbe">[15]</xref> entre outros). No entanto, a língua Karitiana faz uma distinção entre nomes massivos e nomes contáveis: alguns nomes podem ser diretamente contados, como ilustrado pelas sentença (6), repetidas abaixo como (59); enquanto outros necessitam de sintagmas de medida para serem contabilizados. O contraste de gramaticalidade entre (60) e (61) e entre (62) e (63) mostra que certos nomes só podem ser contados após a inserção de um sintagma de medida.</p>
        <fig id="figure-panel-f58bbf4cbe9a7f299a20f852891cf5e2">
          <label>Figure 26</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-b8c64e8570834998bde202d0a76a0cf7" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-b6291b4a8f7b7dd82e324b973f56c884" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_19-23-32.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-282dce50b146f16eeca4a9218e55c840">Vemos então que, se por um lado os nomes em Karitiana são neutros em relação à marcação de número, por outro, eles não são todos massivos. Existe uma propriedade usualmente atribuída aos nomes massivos que é também partilhada pelos nomes contáveis que possuem uma denotação neutra para número: a cumulatividade. Um constituinte P possui referência cumulativa se a soma de duas intâncias de P é também P (cf. Krifka, 1992)<xref id="xref-835c3b358b874842ea5b13982cf7185b" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-f195551d4ac734a4ace4e5f21a4224c0">[9]</xref>. Assim, se dissermos em português padrão <italic id="italic-2d4a592dbb6f6a1454363626d1e1312a">isto é ouro</italic> e <italic id="italic-db52b6a96d7aec51551b9cd9c67a5ccc">aquilo é ouro</italic>, a soma das duas quantidades também será chamada<italic id="italic-c3db26767207c25c78ec40382c59615b"> ouro</italic>.<italic id="italic-d83790d1fd131dc78827ad1ae5a732b7"> </italic>O mesmo padrão não se mantém para nomes contáveis. Se <italic id="italic-e48ec54a15035eb3b6750f12c4921de3">isto é uma</italic> <italic id="italic-48b6d596cf1dfbcbc9c8480626914e7b">cadeira </italic>e<italic id="italic-ec2d494c7846451140aa01ffca8292da"> aquilo é uma cadeira</italic>, os dois objetos juntos serão<italic id="italic-25009ef6b9a54532eb295294a9a61998"> cadeiras </italic>e não<italic id="italic-a7907136fe591ae68ccc6fa98c5f590d"> cadeira</italic>.</p>
        <p id="paragraph-742dda23536b048723b7b28c2369b87e">Em Karitiana, a denotação dos nomes nus, sejam eles massivos ou contáveis é cumulativa, de modo que, se um animal <italic id="italic-7400bdd49daeff887b807cb02b204eda">pikom</italic> (‘macaco’) é somado a outro animal <italic id="italic-b078b46d822ccbd7ab9c20d9bfee6425">pikom</italic>, dizemos que os dois animais são <italic id="italic-6e88a387547be91495967a478aa516b6">pikom</italic>. E se isto é <italic id="italic-4a691b6feba70f1a1f9cd5097c0ae0d2">ese</italic> (‘água’) e aquilo é <italic id="italic-9efcc26f6f5f2b748f079801d8b33b1b">ese</italic> (‘água’), as duas quantidades também são <italic id="italic-c6a34afdaf2f42c8b860e514329c8a55">ese</italic>. Vemos assim que a cumulatividade não é uma propriedade exclusiva dos nomes massivos. A denotação de um nome pode ser cumulativa, sem ser necessariamente massiva.</p>
        <p id="paragraph-ed36cdecd661f4be00b49285f0cad27c">A separação entre denotações contáveis, porém neutras em relação à expressão de número, e denotações massivas, também neutras em relação à expressão de número, possibilita-nos compreender a existência de línguas como o chinês, coreano, indonésio, húngaro, e turco, nas quais a marcação de plural é opcional (cf. Chung, 2000;<xref id="xref-de23e5be7e7f37c25cbf4c8317f2a119" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-f6d7caa01abdb4364e9b4d4fdee14425">[16]</xref> Kang, 1994;<xref id="xref-82101b10a3c4ab4685000962b71546d7" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-eed63ec8114493c1f908cc4785de7d78">[17]</xref> Ortmann, 2000;<xref id="xref-59f2b25cb4596356c9e4e63ec711c46a" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-bdb6280785b89c36a6fc85ea8fb6b435">[18]</xref> Rullmann e You, 2003)<xref id="xref-840eceef1868cdb63e0d0426c4d876d6" ref-type="bibr" rid="book-ref-6bf771695831840e9189c1fc0ae73add">[13]</xref>. Essa opcionalidade é possível porque as denotações dos nomes nessas línguas são neutras e incluem tanto singularidades como pluralidades. Assim, o plural só é usado em contextos em que se faz necessário explicitar que a denotação de uma expressão nominal é estritamente plural.</p>
        <p id="paragraph-8f0b741c112952678284114226ecaf21">Borer (2005)<xref id="xref-89abe245c938f05374212c9c9d6e2dbe" ref-type="bibr" rid="book-ref-af3434c1af5bfab48a47f3e0ab8d6bbe">[15]</xref> propõe que a distinção contável-massivo é sintática. Para ela, nomes comuns não são marcados como massivos ou contáveis no léxico. Eles possuem uma interpretação massiva <italic id="italic-2b8505608afe84f3bc4e47211c1daa32">default</italic> na ausência de mecanismos funcionais de individuação, tais como flexão de número, determinantes ou classificadores. Porém, vimos que em Karitiana os nomes contáveis possuem a mesma sintaxe dos nomes massivos. Eles ocorrem nus, como os nomes massivos, e a língua não possui flexão de número, determinantes ou classificadores para atomizar sua denotação. Assim, concluímos, <italic id="italic-306561333acd82f1df6d5baed6e16fb3">contra</italic> Borer, que o significado contável desses nomes é lexical.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-48e3043f5931b70a570763d00d894134">
        <title>5. Conclusões</title>
        <p id="paragraph-de5a6f30444ee8f38661aa781426a585">Primeiro, mostramos que os nomes comuns em Karitiana são neutros em relação a número, isto é, suas denotações incluem tanto singularidades como pluralidades. Baseados nesse tipo de evidência, concluímos que, ao contrário do que se tem tradicionalmente afirmado, denotações de nomes comuns não flexionados não são necessariamente atômicas.</p>
        <p id="paragraph-f48ad9d33e70f2c4871783f9ac3971c5">Segundo, mostramos que os nomes em Karitiana são diretamente contáveis sem a necessidade de flexão de número ou classificadores (exceto para nomes massivos). Dessa forma, podemos concluir que, quando um nome é neutro em relação a número, ele não está impossibilitado de possuir contabilidade ou de ser individualizado, ao contrário do que se tem tradicionalmente afirmado na literatura.</p>
        <p id="paragraph-7ac0b594630512871d7996c3c409c08c">Mostramos também que os nomes em Karitiana fazem uma distinção lexical entre massivos e contáveis. Nomes neutros em relação a número têm sido apontados como nomes massivos na literatura. O fato de a língua Karitiana possuir tantos nomes neutros em relação a número que podem ser contáveis ou massivos permite-nos concluir que ser neutro em relação a número não é necessariamente equivalente a ser massivo.</p>
        <p id="paragraph-3126574b2f74d92cde0e013dd309e5cd">Quarto, visto que nomes contáveis neutros em relação a número são diferentes de nomes massivos, concluímos que uma ontologia para as línguas naturais requer um domínio separado para denotações contáveis e massivas.</p>
        <p id="paragraph-c63cb65f2f16715ef7c39359bc716aa6">Finalmente, a ausência superficial de projeções funcionais em Karitiana nos leva a questionar propostas, como a de Longobardi (1994, 2000)<xref id="xref-35b786837ada7d14fa32a75d17092db2" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-d052f35c7583218e6a295954caa73f22 journal-article-ref-1f82ccacc7b2902a1d6699e69fe66c04">[19,20]</xref>, em que se defende que argumentos são necessariamente sintagmas de determinante.</p>
      </sec>
    </sec>
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  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-027ec635e89404d931ecf65bdfa48d3e">
        <p id="paragraph-dd7073bf6a0b4515e365e8e06f57419e">* Ana Müller é professora de Semântica no Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo, co-organizadora do livro <italic id="italic-e82ae4d8d86312ab74dfbc77aede11a3">Semântica Formal</italic> editado pela Contexto em 2003, e autora de diversos artigos sobre a sintaxe e semântica dos pronomes possessivos, anáfora e correferência em Português, e sobre a genericidade, nominais nús e expressão de número nas línguas naturais.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-643c95042b5b0da8ece03309af24fccc">
        <p id="paragraph-78427f78e745f2e1ba7091d3929182f5">** Luciana Storto é professora de Lingüística Descritiva no Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo e autora de diversos artigos sobre aspectos da fonética, fonologia, morfossintaxe e semântica da língua indígena Karitiana. Trabalhou em projetos comparativos de línguas Tupi, especializando-se nos temas movimento verbal, caso, concordância e estrutura argumental.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-6e7eeb1fc91d7618fd2227c3e81004ef">
        <p id="paragraph-215bc5bacd37179988b99661919fc350">*** Thiago Coutinho-Silva é estudante de mestrado do Departamento de Lingüística da Universidade de São Paulo.<bold id="bold-1"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-96737af4fd226ff8f22a5d19375e2bda">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-604765a1d62f2330687c1932056faeb5">Usaremos a expressão <italic id="italic-ba94dc443c60e893fd87ee52ade6fca1">sintagma nominal</italic> para nos referirmos ao constituinte cujo núcleo é o substantivo comum.<bold id="bold-03e7c152c36997de2b73a72a5a53e36d"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-9551eb058eaacb91d500a7a6cc7d50ce">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-179cdf6b6a07dfae4ee829e800477f83">Forma de apresentação dos enunciados: 1<sup id="superscript-1">a</sup> linha- transcrição ortográfica; 2<sup id="superscript-2">a</sup> linha-s<bold id="bold-f03920b2b9e1f214c51d12ef74853227"/>egmentação morfológica. Simbolos usados: nf = não futuro; aux = auxiliar; part = particípio; redupl = reduplicação; decl = declarativo; caus = causativo; <bold id="bold-3"/>s = singular; pl = plural; 3anaf = anáfora de 3<sup id="superscript-3">a</sup> pessoa; nomlzr = nominalisador; sub = subordinador, assert = assertivo.<bold id="bold-5"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d037cb8a4cee1615f33bf064a4478b1c">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-d446cc326d0f87f08440b41e1e5189f1">Vamos usar os termos <italic id="italic-9f1816bb6ee205394110ae0c90873477">nomes nus</italic> ou <italic id="italic-2">nominais nus</italic> para nos referirmos a expressões nominais despidas de operadores funcionais, como determinantes, flexão de número, classificadores ou quantificadores.<bold id="bold-ba05d349d81accbf1c80b09558e82627"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-28c644033c59a7e0b48fecc363f0a1ae">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-36bf79c45b427ce0d3f1521b9d8f7be1">Como o português coloquial aceita expressões como ‘três banana’ e ‘duas água’, optamos por não utilizar o português para ilustrar a distinção gramatical entre nomes massivos e contáveis (sobre a questão, ver Paraguassu, 2005)<xref id="xref-3dc8ede5d237cb9cc85522d31a120cc3" ref-type="bibr" rid="thesis-ref-72bb2592f9625e74d4a21bc09a2dae06">[21]</xref>.<bold id="bold-2e5d8fef16110301b4017e099475ffba"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-384d530df2581959c53478c64131f7c7">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-43d7c42c2a2d74f0db78f93495e2b8b1">Na verdade, nomes comuns são considerados funções de mundos possíveis a conjuntos de indivíduos. Neste artigo, focaremos estritamente uma descrição extensional das denotações. Não faremos uso de denotações intensionais, isto é, não trabalharemos com funções que tomam mundos possíveis como argumentos (sobre a diferença entre extensão e intensão e sobre a denotação dos sintagmas nominais, ver Chierchia, 2003;<xref id="xref-d7d38ee44e5b7a1e5a4f8cf0c7e5f3b5" ref-type="bibr" rid="book-ref-cc708c10b4f06fa6954177e541abc624">[22]</xref> ou Oliveira, 2000;<xref id="xref-51eb305281cc3584c9eda78376c2cf5b" ref-type="bibr" rid="book-ref-cac2c42e465521fb58c23e1afc612812">[23]</xref> entre outros).<bold id="bold-3cb4addf05c29b6106c7732259e3bf8a"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-33170682d50492f116a048716100f3c7">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-133ee93c8729cf04931883ac9cbe333f">Ver, por exemplo, Chierchia, 2003;<xref id="xref-e2f4269531c355502f3a24a8ac2a0840" ref-type="bibr" rid="book-ref-cc708c10b4f06fa6954177e541abc624">[22]</xref> De Swart, 1998;<xref id="xref-209c55768f0e85e1c14d91077de8b67c" ref-type="bibr" rid="book-ref-a3e36cda798e025860853c15da29c253">[24]</xref> e Portner, 2005.<xref id="xref-eb2c561ef587c874f2689bc87e0cc453" ref-type="bibr" rid="book-ref-7ab938bd64873b0398b1d296b936208a">[25]</xref></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-f51d9f60949a53bb719205c2cbdee374">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-6234813557ff471a53139bbb8b551c76">Q: marcador de pergunta</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e7722ecaa345e1cfcd9b58029acb13b2">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-097edf149427ee03bf5fc12e74151690">A existência de denotações neutras em relação ao número tem sido postulada para outras línguas (ver Rullmann e You, 2003,<xref id="xref-4a2a738eef7d4464078532fe115dcf69" ref-type="bibr" rid="book-ref-6bf771695831840e9189c1fc0ae73add">[13]</xref> para o chinês; Müller, 2001,<xref id="xref-1dda113d0bd09fd753ae74a2ba272f57" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-fe0546602ac8538277f4068d63229863">[26]</xref> para o português brasileiro; e Wilhelm, 2005,<xref id="xref-8c294abe59238ba23a8c3b0e438aff56" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-19f33073ec99231e3a52f1f3967a23dc">[12]</xref> para o Dëne Suliné).</p>
      </fn>
    </fn-group>
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