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          <subject content-type="Tipo de contribuio">Ensaio teórico</subject>
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        <article-title>A AMBIMORFEMIA DE CRUZAMENTOS VOCABULARES</article-title>
        <subtitle>UMA ABORDAGEM POR <italic id="italic-0ba4de74da56aa3d1095b95706298a5d">RANKING </italic>DE RESTRIÇÕES</subtitle>
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            <surname>GONÇALVES</surname>
            <given-names>Carlos Alexandre </given-names>
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        <institution content-type="orgname">Universidade Federal do Rio de Janeiro</institution>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="22/05/2017" />
      <volume>5</volume>
      <issue>1/2</issue>
      <issue-title>A AMBIMORFEMIA DE CRUZAMENTOS VOCABULARES: UMA ABORDAGEM POR RANKING DE RESTRIÇÕES</issue-title>
      <fpage>169</fpage>
      <lpage>183</lpage>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-f76d03e1c29bdc07a5024dbbabfc9559">Neste texto, analisamos o cruzamento vocabular em português (‘forrogode’, ‘paitrocínio’) a partir de uma hierarquia de restrições, procurando mostrar, mais especificamente, o papel da ambimorfemia nessas novas construções morfológicas do português.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-91ab5403e5e50672efa16444e0b4cfdb">
          <italic id="italic-3eefa522b67d718762434111f2b0d5e3">In this paper, We analyze lexical blend in Brazilian Portuguese within the framework of Optimality Theory. The aim of this paper is to show that lexical blends optimize ambimorfemic segments, in order to preserve the metrical and phonological structure of the source bases.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-a4e1da37c37f51632d285d5e5e34d0b5">cruzamento vocabular</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-cdc130b2d8a657f876fe6b848a84dc59">teoria da otimalidade</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-0dbfa89cd0b3090a2c766ec361db603c">ambimorfemia</italic>
        </kwd>
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    <sec id="heading-4ff056c123e85e7c6e848e51b04e0c79">
      <title>1. Introdução</title>
      <p id="heading-c391683fc949cdfd1d41756c499d7fc0">Tradicionalmente, o cruzamento vocabular – doravante CV – vem sendo definido como um processo de formação de palavras que consiste na fusão de duas bases, como em ‘mautorista’ (junção de ‘mau’ com ‘motorista’, “motorista sem perícia”) e ‘craquético’ (mistura de ‘craque’ com ‘caquético’, “craque com péssima aparência física, geralmente em função da droga <italic id="italic-9bbb78eb4d20338e0e799fea57668114">crack</italic>”). Apesar da relevância do fenômeno tanto para a análise de questões fonológicas quanto para a descrição de fenômenos semânticos, o CV tem recebido pouca atenção nos estudos morfológicos contemporâneos, merecendo não mais que menções em notas de rodapé. Bauer (1988, p. 39)<xref id="xref-227edc283ef9e922d94a714fc5c7997a" ref-type="bibr" rid="book-ref-fd5743f548aedb8acf2d9c7595cce317">[1]</xref> sumariza o <italic id="italic-8ba69dfafa41f92820934a196c2715d1">status</italic> periférico do CV da seguinte maneira</p>
      <p id="paragraph-304a4c251ff3530a29378b699883b4d4">_</p>
      <p id="paragraph-b34d68ab7e157273682cda83982afcb2">
        <italic id="italic-2352f642624e8e450569f953ac58af41">é extremamente duvidoso se tais palavras podem ser analisadas em morfes e mais duvidoso ainda se elas formam uma parte real da morfologia.</italic>
      </p>
      <p id="paragraph-1ad893dbb9cd7e80a7e3b0d4d0bb96c5">_</p>
      <p id="paragraph-68890ac1648ae651e7df15c45f41cb5f">Em modelos morfológicos do tipo <italic id="italic-2bdfcc69e77c49ef50938ba0ce63bc53">buiding-block</italic>, morfemas são concatenados em unidades maiores – as palavras –, que, por sua vez, são concatenadas em frases sintáticas. Dessa maneira, processos como o CV, que não necessariamente operam com o estreito encadeamento de peças morfológicas, não são bem acomodados nesse tipo de abordagem e, certamente por isso, sua relevância para a morfologia foi posta em xeque durante anos.</p>
      <p id="paragraph-1482cfe824153928a632184f98a098b1">Neste texto, analisamos o CV com os instrumentos da Teoria da Otimalidade em um de seus desdobramentos mais recentes – a Teoria da Correspondência (McCarthy e Prince, 1995;<xref id="xref-059054340f3e15328ac8cc73911d840c" ref-type="bibr" rid="book-ref-1daeca6a95795b998c63f3bcfef6dfbf">[2]</xref> Benua, 1995)<xref id="xref-eccc291bdab54c4910f244d6cf328e8f" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-a981b9abe1327ad4304f07aafaecee07">[3]</xref> –, a fim de mostrar quais restrições são responsáveis pela seleção das melhores formas de fusão vocabular. Em especial, analisamos o papel da restrição morfológica MORPHDIS, que milita contra relaçõesde um-para-muitos entre formas de superfície e formas subjacentes. Pretendemos mostrar que cruzamentos ótimos tendem a minimizar o número de perdas segmentais a partir do que Gonçalves (2004)<xref id="xref-f9d611cceab1958521962ff4667290ae" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-192a76bb6addcab9ac26bf6933b77d0e">[4]</xref> e Piñeros (2000)<xref id="xref-30d10a93aa4a9f0c985f8828bcf7a54e" ref-type="bibr" rid="book-ref-ef8906726015e4e9db006aa752269dc8">[5]</xref> denominam de ambimorfemia.</p>
      <p id="paragraph-5af039d48b78ab3adec600fb44dc5fcf">_</p>
      <sec id="heading-e6231a01b442e70e74aca62aa1729bef">
        <title>2. As restrições utilizadas</title>
        <p id="paragraph-dc14a28545cd74738ec6e52e98af0c80">Para analisar o CV no português do Brasil, são utilizados três conjuntos de restrições: (a) a família Fidelidade; (b) a família Alinhamento; e (c) um restritor de natureza morfológica. As restrições de fidelidade conspiram contra qualquer tipo de mudança segmental e fazem com que <italic id="italic-018cb827503f19eb94dd56be8620022f">outputs </italic>destoem minimamente dos<italic id="italic-eaffc33367d133b5168a39de0a470d88"> inputs </italic>lexicais, proibindo, por<italic id="italic-3"> </italic>exemplo, inserções, apagamentos e inversões. As três restrições de fidelidade utilizadas na descrição do CV são as seguintes:</p>
        <p id="paragraph-c5d935ee9b3d484ef7016b625972d0fb">_</p>
        <p id="paragraph-35634add81f0ac9a94d979425ac13c07">(1) MAX-FB (BL): MAXimização das Formas de Base (FB) no <italic id="italic-436659129ebc53e048b3fb34a27602ff">Blend</italic> Lexical (BL). Os segmentos que aparecem nas palavras-matrizes devem estar presentes nos cruzamentos vocabulares. Não pode haver apagamento do domínio FB para o domínio BL. Essa restrição é violada sempre que o cruzamento resultante suprimir segmentos de uma ou das duas palavras-matrizes.</p>
        <p id="paragraph-4ba3ce79e1bc79b23ee06b1d4fcde84e">(2) MAX-FB[min]: MAXimização da Forma de Base (FB) mais curta ([min]). Essa restrição faz parte da família MAX (Fukazawa, 1997)<xref id="xref-9a60ad80980526bcaea4daf89f493bec" ref-type="bibr" rid="book-ref-b7de55fb6a27bfe9bd2c88d44fca2494">[6]</xref>, que proíbe deleções, e focaliza a menor Forma de Base, isto é, aquela que apresenta menor número de segmentos fônicos. Em outras palavras, devem ser preservadas as estruturas métrica e fonológica da menor forma que aparece no <italic id="italic-b0f3a2f0035645b71ef2d26490902468">input</italic>.</p>
        <p id="paragraph-4b9fa3c5993a843408903e40bb4172d3">(3) HEAD-MAX: MAXimização das cabeças (HEADs) de palavras prosódicas. Também da família MAX, tal restritor sanciona apagamentos, mas tem foco no acento, isto é, devem ser preservadas as sílabas tônicas das palavras-matrizes.</p>
        <p id="paragraph-f625c652a4f5f08bdefe30f1cb0b796d">_</p>
        <p id="paragraph-8ab8928f19f0ec29d200d981ca07af58">Como se vê, os três restritores de fidelidade impedem que ocorram apagamentos fortuitos no CV, de modo a assegurar a recuperabilidade das formas subjacentes. Como o rastreamento das formas de base fica extremamente prejudicado com grande número de deleções, as restrições de fidelidade controlam a quantidade de material fônico que pode ser suprimida. Os dados a seguir comprovam que (a) pouco material fônico é apagado das palavras-matrizes mais longas; (b) todos os segmentos das palavras mais curtas são preservados; e (c) as sílabas acentuadas são levadas para o cruzamento:</p>
        <fig id="figure-panel-b049320f98d9d92cd7eafdccb8cebaee">
          <label>Figure 1</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-8c1f866bf397e8efa267c02150e67918" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-9079b01890db3391f7384396a9457ed7" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_12-35-08.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-58e941067f9dacac39795899a59a2568">Além das restrições de fidelidade, são necessários, na análise do CV, dois restritores de alinhamento, como se define em (04) e (05) a seguir:</p>
        <p id="paragraph-a0e0cf60882b74e1d775a6605212610a">_</p>
        <p id="paragraph-c7fc117f14bfdb0b7aa5b98541f19776">(4) ALINH-MP: ALINHamento de Margens de Palavra. A margem direita da palavra prosódica deve coincidir com a margem direita da palavra morfológica. Da mesma maneira, a margem esquerda da palavra prosódica deve coincidir com a margem esquerda da palavra morfológica. ALINH-MP, portanto, preconiza que haja estrita coincidência entre as margens da categoria ‘palavra prosódica’ e as margens correspondentes da categoria ‘palavra morfológica’.</p>
        <p id="paragraph-19607d7e534c5a272ce48ea9574d7da4">(5) MWd=PWd: A categoria ‘palavra morfológica’ (MWd) deve coincidir com a categoria ‘palavra prosódica’ (PWd). Dito de outra maneira, toda palavra morfológica deve estar vinculada a uma palavra morfológica, sendo licenciada por essa unidade da hierarquia prosódica.</p>
        <p id="paragraph-86f503eb2dd7d336f28c905a95d3e6d1">_</p>
        <p id="paragraph-c837290b679d00569230d6cc85bace1c">Por fim, uma restrição de natureza morfológica deve ser incluída na hierarquia. Trata-se de MORPHDIS, um restritor que inibe correspondência de muitos-para-um do <italic id="italic-8fb27f8ecef36e8ae0d3aac6d007ab34">input</italic> para o <italic id="italic-9daadf6ad8befa46c939f73ebd5e1ae5">output</italic>:</p>
        <p id="paragraph-104080180834081221383ea199b3e3a9">_</p>
        <p id="paragraph-ee1b2c5c8b691124569c13dd1186710f">(6) MORPHDIS: DISjuntividade MORFológica. Segmentos ambimor-fêmicos, isto é, vinculados a mais de um morfema, são proibidos. Nenhuma porção morfológica deve estar relacionada a dois morfemas. Não pode haver compartilhamento de material fonológico.</p>
        <p id="paragraph-57f36a870dc5746d7c6ad9111d6e48d6">_</p>
        <p id="paragraph-331fa4eec9e4013687a267e4129335ac">À exceção do restritor definido em (05), todos os demais podem ser violados no CV. De fato, a única imposição sistematicamente satisfeita é a que regula a vinculação de uma palavra morfológica a uma palavra prosódica. Cruzamentos, que constituem palavras morfológicas, realizam-se em uma única palavra prosódica, já que se subordinam a um único acento lexical, como mostra Gonçalves (2004)<xref id="xref-c1fea3786a3ba873aef027cfe8cc5a13" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-192a76bb6addcab9ac26bf6933b77d0e">[4]</xref>. Aliás, de acordo com o autor, essa é a principal diferença entre cruzamentos e compostos: enquanto os últimos admitem recursividade no nó PWd, os primeiros sempre se realizam numa única palavra prosódica, o que comprova ser a restrição formulada em (05) a mais alta na hierarquia.</p>
        <p id="paragraph-c0b0228f4202ee18fb894887ae392f56">Como todas as demais restrições podem ser infringidas, cruzamentos emergem a partir da noção de violabilidade mínima (Prince e Smolensky, 1993)<xref id="xref-37e28c1cbca508794d6a5761709ca476" ref-type="bibr" rid="book-ref-cb1c4c8a09dfcf066f018f4ef288c24f">[7]</xref>: constituem formas ótimas aquelas que otimizam, da melhor maneira possível, a exigência imposta pelas restrições. Tal é o caso de ALINH-MP, que controla o alinhamento de margens.</p>
        <p id="paragraph-71cff55dc6a89bc16fdc060f13a30f45">De acordo com Gonçalves (2004)<xref id="xref-bfdb98e2def3fadc94c08b469835bc03" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-192a76bb6addcab9ac26bf6933b77d0e">[4]</xref>, cruzamentos se realizam em uma única palavra prosódica, satisfazendo PWd=MWd, mas apresentam três palavras morfológicas em seu interior: a forma cruzada propriamente dita e as duas formas de base. A representação abaixo mostra que apenas uma das seis margens de palavra morfológica<xref id="xref-d62d17e31cb8c99f303d12195ce41d1d" ref-type="fn" rid="footnote-e3f6f34462334c8310b2c7ac6a883c24">1</xref> aparece desalinhada no interior do cruzamento. A fusão da sigla PT (soletrada [pe‘te]) com ‘pentelho’ (metaforicamente interpretado como ‘chato’ ou ‘intransigente’) resulta em ‘petelho’ (“partidário do PT considerado intransigente”). Somente a direita da forma de base ‘PT’ não se encontra alinhada; todas as demais coincidem com a esquerda ou com a direita da palavra prosódica ‘petelho’, o cruzamento. Nessa representação, { } sinaliza margens de palavra morfológica e [ ], margens de palavra prosódica:</p>
        <fig id="figure-panel-655e99f6462040b7a225d0e36a3c0271">
          <label>Figure 2</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-2d6e5757144a7e9b6401135b1a064b95" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-c0bc25eecf7cf43d908b43e0c8a8ec1e" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_12-36-24.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-e2a6b492702f91d19a6c3d93fb85a6a1">O <italic id="italic-8696c12d4a45a3d75de4d905ecf76fcd">ranking</italic> completo aparece formalizado em (08) a seguir. Perceba que só hierarquizamos crucialmente (&gt;&gt;) as duas primeiras restrições; deixamos as demais sem lugar definido na hierarquia ( , ) para discutir o comportamento de MORPHDIS.</p>
        <p id="paragraph-4233c5ec78f67c1ebe52216abfa2e44c">_</p>
        <p id="paragraph-66ebb70f80cf38149494417ae2e1cedf">(8) MWD=PWd &gt;&gt; ALINH-MP &gt;&gt; MORPHDIS , </p>
        <p id="paragraph-6db70cb216624552984cb885c8169e93">MAX-FB (BL) , MAX[min] , HEAD-MAX</p>
        <p id="paragraph-ea5a2ab366ea9f18128724e6c33bec9a">_</p>
        <p id="paragraph-d9aab6c56ed6ec5dad3783e9fd075ec1">Com a finalidade de induzir à formação de novos cruzamentos e de analisar as formações do corpus,<xref id="xref-5a324f97ae532de4a8f29fbb248d2cda" ref-type="fn" rid="footnote-faaae1f9821f1b5fc6624c9974f0f753">2</xref> elaboramos dois testes. O primeiro deles focalizou as formações já consagradas pelo uso, como ‘forrogode’ (“mistura de forró com pagode”) e ‘macarronese’ (“salada de maionese à base de macarrão”), e teve por objetivos: (a) observar a posição da cabeça lexical; (b) checar o grau de opacidade das formações; e (c) verificar se o item lexical cruzado é do conhecimento do informante.<xref id="xref-2772e2a3cd40b1e3244a7d7cd3ed324b" ref-type="fn" rid="footnote-1a66f215ca1aa97dc2e66b173cc618a3">3</xref> Um outro teste foi constituído de palavras passíveis de combinação, mas com fusão (ainda) não atestada na língua. Por exemplo, solicitamos que o informante denominasse um suco de frutas composto de ‘melancia’ e ‘maracujá’ a partir de uma única palavra. O mesmo aconteceu para um possível produto caracterizado simultaneamente como ‘perfume’ e ‘sabonete’. A aplicação dos testes teve o propósito de confirmar os dois padrões de cruzamento propostos por Gonçalves (2004)<xref id="xref-1320d36954a521d5c52b102ea4ae5179" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-192a76bb6addcab9ac26bf6933b77d0e">[4]</xref>: um para as formas com algum grau de semelhança fônica (como ‘boilarina’, “bailarina gorda como um boi”) e outro para os casos sem semelhança fônica (como ‘brasiguaio’, “brasileiro que vive/trabalha na fronteira com o Paraguai”).</p>
        <p id="paragraph-bc4c16893da7ce3967bfdf4ac866ebec">_</p>
      </sec>
      <sec id="heading-a027e6e607037107eeca7e23f16f7cc9">
        <title>3. Os <italic id="italic-4e751622796850d228f9938765faf534">tableaux</italic></title>
        <p id="paragraph-03e4718a506fe36c04c557668a4a2b92">Neste artigo, analisamos dois cruzamentos vocabulares: (a) ‘sacolé’ (“picolé em forma de saco”), cruzamento vocabular já consagrado pelo uso; e (b) a forma resultante da combinação de ‘caneca’ com ‘copo’, a partir das respostas dos informantes que participaram do teste. Comecemos com ‘sacolé’. No <italic id="italic-7e2a14da7ac4be76b56be546858f1d4a">tableau</italic> abaixo, cinco candidatos disputam a seleção à forma que resulta da fusão de ‘picolé’ com ‘saco’, as duas palavras-matrizes que constam do <italic id="italic-d8f6a050577827c4bedbd98506613eda">input</italic>.<xref id="xref-f3ed17ea65002ee8481a649376307478" ref-type="fn" rid="footnote-21cf3b688f1f992420ea9e1adbe257c6">4</xref></p>
        <fig id="figure-panel-a7c07e5a5bb41cfb10aefc71e3203630">
          <label>Figure 3</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-d2ad86efea9005809043847d39fc5cd5" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-0b76a8c282d1281eaaa8544a60d6b276" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_12-39-13.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-3fda19f2ac22c9fca746d72d7c3c9914">Pelo <italic id="italic-17a8e7a4f5fcb856aade2aa63746fd4d">tableau</italic>, percebe-se que o quarto candidato é sumariamente eliminado da disputa por PWd=MWd, já que se realiza em duas palavras prosódicas, caracterizando-se, assim, como um composto. A segunda restrição é igualmente violada pelos concorrentes que seguem na disputa, uma vez que todos deixam duas margens de palavra prosódica desalinhadas no interior do cruzamento. O quarto candidato, apesar de apresentar um alinhamento exemplar de margens, não consegue passar ileso pela restrição dominante e, por isso, mesmo satisfazendo integralmente a segunda restrição da hierarquia, não constitui boa forma de cruzamento.</p>
        <p id="paragraph-deec268dedb5e3707f89d9a9352fd9ec">Dos quatro candidatos remanescentes, somente um é eliminado da disputa – o terceiro (‘salé’). Sua eliminação se deve a MAX-FB (BL). Ao contrário dos demais, que apagam apenas dois segmentos de uma das bases, esse candidato cancela duas sílabas de ‘picolé’ (‘pi’ e ‘co’) e uma de ‘saco’ (‘co’), apagando, no total, seis segmentos. Apesar de as restrições não estarem crucialmente hierarquizadas, de modo que inversões não alteram o resultado, essa forma não consegue superar as demais, que violam duas vezes dois restritores. Como os demais, ‘salé’ infringe duas restrições, mas comete múltiplas violações a MAX-FB (BL), que o descarta, portanto.</p>
        <p id="paragraph-bfdcecb9b41a99c2996c00a781bbfd3f">Há necessidade de um ranqueamento crucial entre as quatro restrições mais baixas da hierarquia, uma vez que, com essa hierarquização, três candidatos emergiriam como ótimos – o que não constituiria problema caso realmente houvesse variação. No entanto, como ‘sacolé’ é a única forma atestada de cruzamento, necessitamos providenciar um <italic id="italic-fc8a9ea83ea2d83e3b83cd602a88a247">ranking</italic> que garanta sua melhor satisfação aos restritores. Tendo em vista que o segundo é a único candidato que viola MORFHDIS, por vincular a sílaba ‘co’ às duas palavras-matrizes, é fundamental que essa restrição seja dominada por pelo menos duas outras, para que ‘sacolé’ venha a emergir como a melhor forma de cruzamento.</p>
        <p id="paragraph-1d7ea74b1d1287f6052f35b063eec8fa">Podemos propor, seguindo Gonçalves (2004)<xref id="xref-fb06697622373aa0f890661230ab4927" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-192a76bb6addcab9ac26bf6933b77d0e">[4]</xref>, que MORPHDIS seja violada para satisfazer MAX-FB (BL), uma vez que atenua a gravidade dos apagamentos necessariamente sancionados por essa restrição: se não houvesse compartilhamento da sílaba em questão, comum tanto a ‘sa<bold id="bold-144b03fc5985ffaea78bf9792600b17e"><underline id="underline-1">co</underline></bold>’ como a ‘pi<bold id="bold-2"><underline id="underline-2">co</underline></bold>lé’, ‘sacolé’ seria caracterizado por quatro apagamentos.</p>
        <p id="paragraph-68a4a245c22737ed79a6b9248ed11e3d">Dos três remanescentes, apenas o último é sancionado por MAX[min]. Podemos pensar, portanto, que essa restrição é mais bem cotada na hierarquia que HEAD-MAX. Se adotarmos o <italic id="italic-022c2b1e505ab60fa6211e1202acac25">ranking</italic> MAX-FB (BL) &gt;&gt; MAX[min] &gt;&gt; MORPHDIS &gt;&gt; HEAD-MAX, o primeiro candidato, ‘picossaco’, será o vencedor, como se vê no <italic id="italic-192ffa2784fb6ce5086cbd9095cef994">tableau</italic> a seguir.</p>
        <fig id="figure-panel-060bc75f7338503ca65c26d5008848c1">
          <label>Figure 4</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-114c8a4b2f188fe4e5a40adba30bcb7e" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-b81730834665b5fe0c44aaed37cbe743" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_12-39-25.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-6a11bf114a9250b932c89fadb0d6467a">Por outro lado, se deixarmos as duas últimas restrições sem hierarquização crucial, ‘sacolé’ resultará em forma ótima, mas também o primeiro candidato virá à superfície, já que tanto ‘sacolé’ quanto ‘picossaco’ violam, cada um, duas vezes ou MORPHDIS (‘sacolé’) ou HEADMAX (‘picossaco’). O resultado dessa relação de dominância pode ser visto em (11), no qual se observam dois <italic id="italic-d49cd9283a0e998ef6810114d4b9ccc0">outputs</italic> ótimos:</p>
        <fig id="figure-panel-83cb0711bd97373739eaff635e11db53">
          <label>Figure 5</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-7900acec7f6d0fd63da8e2d4a999f609" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-46553c2e6ae22578e55febf0f770d55c" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_12-39-38.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-c020abb1c4dfa2ed499ee6f55b4b27d9">A única solução para o impasse será o ranqueamento de MORPHDIS na última posição, como se vê no <italic id="italic-eba39f36fd3772085ce81a2fe35e7e23">tableau</italic> seguinte. Qualquer outra hierarquização leva à escolha de um candidato indesejável:</p>
        <fig id="figure-panel-933b5b5dd5e1747b4056c21c806f3fd0">
          <label>Figure 6</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-2ca0f7c2fe402b8137519114b2cd5407" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-1cf5e9f820f64530b9a7fc231cb6dcd4" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_12-39-46.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-76d83ff066a66399c035cdb312aa3cad">Sem dúvida alguma, é possível chegar à escolha do candidato ótimo a partir de uma reorganização no <italic id="italic-a6b5e191ec027632e8e7ae89216ef72e">ranking</italic>. Nesse caso, a escolha caberia a HEAD-MAX, não atendida pelo primeiro candidato, que apaga justamente a sílaba tônica de ‘picolé’. Com isso, MORPHDIS, uma restrição morfológica, ocuparia a posição mais baixa na hierarquia e seria inativa, já que o destino dos demais candidatos é selado pelas restrições mais altas.</p>
        <p id="paragraph-68adfa3ff256e690d078499efd8d6b03">Embora dê conta dos dados, essa análise não é inteiramente satisfatória, porque a ambimorfemia, ou seja, o compartilhamento de segmentos fônicos, parece ser a força que rege o CV no português do Brasil.<xref id="xref-78a7602f2aed0716aacdee847739d40d" ref-type="fn" rid="footnote-f4555b177a10a07bca2df2246ff02db3">5</xref> A ambimorfemia minimiza os efeitos de opacidade no rastreamento das palavras-matrizes, já que diminui o número de apagamentos, como se vê no quadro a seguir:</p>
        <fig id="figure-panel-ecb2c348fd51566950ceb123bb22e0a5">
          <label>Figure 7</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-597116544bb24a9300efe41f627a95e7" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-ca47701c7756acc2c0b273219b05d49c" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_12-40-00.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-134ed7f0245666181923fc6e0484c3e9">Ao que tudo indica, a disjuntividade morfológica não é proibida nas construções de CV. Esse fenômeno, ao contrário, parece <bold id="bold-ba173ae8526f680421a92ec7d2a72909">requerer</bold> a ambimorfemia, ou seja, o compartilhamento de unidades fonológicas (sons, sílabas, seqüências) constitui a estratégia básica para a formação de cruzamentos no português do Brasil. Com base nessa evidência, propomos, aqui, uma restrição em espelho de MORPHDIS. Tal restrição aparece, a seguir, formulada em (14):</p>
        <p id="paragraph-03edc7872b48f6db35a7a80526738cfb">_</p>
        <p id="paragraph-41fe3cb60cbebe4bc58155dec43cab05">(14) MORPHCON: CONjuntividade MORFológica. Porções fonológicas devem estar relacionadas a dois morfemas. Deve haver compartilhamento de formas. Uma só forma tem de se vincular a mais de um morfema.</p>
        <p id="paragraph-2097cd5f662e0099684dc9140c2d54e9">_</p>
        <p id="paragraph-1ecf119b0c4e945d3c54e342d118407b">Se o restritor em espelho for criado, a seleção do candidato vencedor dependerá dessa mesma restrição, como pode ser conferido no <italic id="italic-04f048fa87353d4d3fc105e2f8505510">tableau</italic> que se segue. Observe-se que a restrição MORPHCON é a terceira da hierarquia. Dos quatro candidatos avaliados positivamente por ALINH, somente o segundo – isto é, ‘sacolé’ – respeita a conjuntividade morfológica, sendo, por isso mesmo, selecionado como ótimo:</p>
        <fig id="figure-panel-6a160194d89701b91fa05d1dbc3ed04c">
          <label>Figure 8</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-8848c0b4076e8751bade67b979f890c8" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-ec156f7ce1b489cb7fa3ea5fffc13aa4" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_12-43-00.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-fadbc839f71593b6c01b0cea7e095656">O efeito da ambimorfemia – analisada, neste artigo – pelo restritor MORPHCON, pode ser confirmado pela alta produtividade do padrão de formação que prioriza o compartilhamento de porções fonológicas. De acordo com Gonçalves e Almeida (2005), 80% dos cruzamentos vocabulares do português brasileiro são caracterizados pelo aproveitamento de pelo menos um segmento comum às palavras-matrizes. Dessa maneira, constituem formações mais isoladas ‘brasiguaio’ e ‘portunhol’, casos de fusão lexical sem acesso à ambimorfemia.</p>
        <p id="paragraph-3d977f256ce5037c86b46e7becacdfed">Para confirmar a importância da ambimorfemia nos cruzamentos em português, realizamos um teste com formas passíveis de fusão lexical, como mencionamos anteriormente. Dentre elas, destacamos a nomeação de um suco de frutas constituído de ‘melão’ e ‘melancia’; de um personagem folclórico que é um ‘índio’ com asas de ‘borboleta’; de um carro (‘fusca’) utilizado com fins de moradia (‘casa’); de um utensílio que funciona, ao mesmo tempo, como ‘caneca’ e ‘copo’; de um novo produto cosmético que funciona simultaneamente como ‘perfume’ e ‘sabonete’. A título de ilustração, observemos a avaliação de formas candidatas à fusão de ‘caneca’ com ‘copo’:</p>
        <fig id="figure-panel-948099a4583c9fb6cc62af6f6d264919">
          <label>Figure 9</label>
          <caption>
            <p id="paragraph-ff13947beb4185ee24f320efdc6e3ccc" />
          </caption>
          <graphic id="graphic-48cb4107e06801ede9f9b22e43ebdb3d" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2020-12-21_12-43-10.png" />
        </fig>
        <p id="paragraph-7cef9f49d3d13ce0a914b94b2c9a87a9">Como se vê, o candidato ótimo, que corresponde a 100% das respostas dos informantes, é selecionado no momento em que a terceira restrição avalia os concorrentes a <italic id="italic-97243f5d732e27d1271990dfa5f2a94a">output</italic>. Somente ‘canecopo’ consegue passar pelo crivo desse restritor, ao permitir que a oclusiva /k/ esteja vinculada tanto a ‘cane<bold id="bold-d3e3c9c750e8d40593da6ce30836cd9e"><underline id="underline-a9407ea1cdf990a48625fe51efc44644">c</underline></bold>a’ quanto a ‘<bold id="bold-d7162eebe6bb1e7fefc99835f3c9899b"><underline id="underline-003b1d9b67d0140ecc6ea776ae9414c2">c</underline></bold>opo’. Por isso mesmo, é a forma que melhor atende às demais restrições da hierarquia, apagando apenas dois segmentos (/k/ e /a/) de uma sílaba átona (‘ca’ é postônica em ‘caneca’) da forma de base mais longa (‘copo’ é inteiramente preservado).</p>
        <p id="paragraph-7e4b197982ddc41683c248c4dfbb2e6e">Como se vê, o candidato ótimo, que corresponde a 100% das respostas dos informantes, é selecionado no momento em que a terceira restrição avalia os concorrentes a <italic id="italic-8f24e0dc235503ec58e4931a444ae738">output</italic>. Somente ‘canecopo’ consegue passar pelo crivo desse restritor, ao permitir que a oclusiva /k/ esteja vinculada tanto a ‘cane<bold id="bold-fec84782f5157aa85d01dc5b0391180d"><underline id="underline-fa3b34702b4725314adfcb436448928b">c</underline></bold>a’ quanto a ‘<bold id="bold-e2dc066a23d69cf8526699646cb55018"><underline id="underline-e10b1c04237f326a5c36e8a302fe7b5c">c</underline></bold>opo’. Por isso mesmo, é a forma que melhor atende às demais restrições da hierarquia, apagando apenas dois segmentos (/k/ e /a/) de uma sílaba átona (‘ca’ é postônica em ‘caneca’) da forma de base mais longa (‘copo’ é inteiramente preservado).</p>
        <p id="paragraph-d259da31d39a88ccc04d3b813f76423b">‘Fuscasa’ – forma a que os informantes recorreram para nomear um automóvel (no caso, um fusca) que funciona como moradia – passa ileso pelas restrições subordinadas por ALINH, já que admite a ambimorfemia da sílaba ‘ca’, presente nas duas formas de base, e, com isso, não implementa nenhum apagamento. Com a inclusão de MORPHDIS na hierarquia, ‘fuscasa’ cometeria uma dupla violação a esse restritor. Se, por um lado, é verdade que nas operações concatenativas MORPHDIS é freqüentemente satisfeita, por outro, nas não-aglutinativas, como o CV, ao que parece, seus efeitos se observam em espelho.</p>
        <p id="paragraph-c33601a2bbf582d7c8ae5e132c051f5e">Mesmo quando as bases são mais afastadas fonologicamente, os informantes recorreram à ambimorfemia. Tal é o caso de ‘indioleta’ (“índio com asas de borboleta”), com aproveitamento da vogal [o]. Interessante ressaltar que a maior perda de segmentos das bases mais longas é compensada com a manutenção de sua estrutura métrica. Isso pode ser confirmado com ‘tristemunho’ (“testemunho triste”) e ‘esclitóris’ (“escritório só de mulheres”), nos quais o cruzamento otimiza a constituição silábica e acentual da forma de base mais longa: o CV é metricamente idêntico a ‘testemunho’ e ‘escritório’, formas que se caracterizam pelo apagamento de material fonológico.</p>
        <p id="paragraph-db408c161d3fbe73897df48d7f09c90a">_</p>
      </sec>
      <sec id="heading-fc5099f07e7e7d7d38da14b75c09e25e">
        <title>4. Palavras finais</title>
        <p id="paragraph-1750424c198bd74dc9a9c34cdbe97347">Com os instrumentos da OT (Teoria da Otimalidade), podemos concluir que a “gramática” do CV funciona da seguinte maneira:</p>
        <p id="paragraph-da2bad0c6ed441ed5a3cf0b853f3443f">_</p>
        <p id="paragraph-041b1c5e5cb3da67718ea46c96af698b">(1) para se realizar numa única palavra prosódica, de modo a satisfazer a restrição mais alta da hierarquia, as formas de base precisam se encurtar. Uma das estratégias para manifestar duas bases sob um único acento lexical é a sobreposição (fusão, interposição);</p>
        <p id="paragraph-ce16185dcbea0da72cb2c94b3d23c4b3">(2) a sobreposição será mais bem-sucedida se ela for feita numa das periferias da palavra prosódica resultante, já que, nessa situação, apenas uma margem de palavra morfológica fica desalinhada, como ocorre com ‘paitrocínio’ (“patrocínio pelo pai”) – [{{{pai}trocínio}}] – e ‘crionça’ (“criança rebelde”) – [{{cri{onça}}}]. A sobreposição nas margens esquerda (‘paitrocínio’) ou direita (‘crionça’) garante o melhor alinhamento, com apenas uma violação de ALINH;</p>
        <p id="paragraph-a964040dc4fb9a19cbf44ad86bbc08fb">(3) o encurtamento requerido por MWd=PWd pode levar à perda de segmentos de uma (‘sacolé’) ou das duas palavras-matrizes (‘espanglês’, “mistura de inglês com espanhol”). Quando isso ocorre, violações de MAX-FB (BL) podem distorcer a identidade do <italic id="italic-b139f93a3a81261b919619402b4d0e52">blend</italic> para com suas formas de base. A fim de melhor atender à exigência imposta por MAX, o cruzamento deve fornecer correspondentes para todos os segmentos das palavras-matrizes, sendo fiel a ambas, uma vez que as duas fazem parte do <italic id="italic-04987e481584040d59526c0b7ff1d2f6">input</italic>. Para não prejudicar a associação do cruzamento com as formas que o originaram, a língua dispõe da conjuntividade morfológica, que garante associação de um-para-muitos do domínio do <italic id="italic-e2e14ae3066f29fa4251bad72eff155b">output</italic> (o cruzamento propriamente dito) para o domínio do <italic id="italic-4">input</italic> (as formas de base); e</p>
        <p id="paragraph-636ee9dae6fe1da80519c8abfc155f04">(4) a melhor acessibilidade ao <italic id="italic-59d0c834959d15ccd76d884f0b2a2e4a">input</italic> é garantida através da preservação das bases mais curtas, que tendem a se realizar plenamente nos cruzamentos, em função da exigência imposta por MAX[min].</p>
      </sec>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-5ecc7ca4bfa807027d3d9ee183028d80">
        <p id="paragraph-875d3bb291e988f9b37f0fc40a34fd54">* Carlos Alexandre Gonçalves é pós-doutor em Lingüística pela Unicamp, professor adjunto do Setor de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador-bolsista do CNPq.<bold id="bold-1"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e3f6f34462334c8310b2c7ac6a883c24">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-4a1ccb2bbc092d6c60c410ffbad4867f">Cruzamentos apresentam seis margens de palavra morfológica (esquerda e direita das duas formas de base e esquerda e direita da forma resultante) e duas margens de palavra prosódica (esquerda e direita da forma resultante). Em linhas gerais, as margens de palavra morfológica coincidem com as duas margens de palavra prosódica disponíveis para o alinhamento.<bold id="bold-aca3f6502d5fdabdefc92e62448f360f"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-faaae1f9821f1b5fc6624c9974f0f753">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-ae4a7b3602157771c8275129e2d2aa47">O <italic id="italic-041bc792c03bcb173dd4f8076f36bc0e">corpus</italic> apresenta cerca de oitenta formações, rastreadas a partir de fontes diversas, como jornais e revistas de grande circulação no estado do Rio de Janeiro e dicionários eletrônicos, como o Aurélio e o Houaiss, para formas já consagradas pelo uso. Ampliamos o <italic id="italic-2">corpus</italic> com palavras ouvidas em diferentes situações comunicativas.<bold id="bold-3ca9a397650e664d09ac0a568a893df5"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-1a66f215ca1aa97dc2e66b173cc618a3">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-4854b5280a6f835899455d89dfb629f1">Participaram do teste 20 informantes, 10 homens e 10 mulheres, de diferentes faixas etárias (de 10 a 60 anos) e escolaridade variada (desde o 1º. segmento do ensino fundamental até o nível superior).<bold id="bold-de83c084fb30808094ff7dcb78fee74d"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-21cf3b688f1f992420ea9e1adbe257c6">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-e05ba19de84e9db12dd886e94673e321">Neste e em outros <italic id="italic-cfb7b1cd8cf6e7e82adb614a2e17eb94">tableaux</italic>, o símbolo * marca uma violação ao restritor da hierarquia (quanto mais *, mais violação) e ! indica que a violação é fatal (elimina o candidato da disputa). Linhas sólidas representam hierarquização crucial e linhas pontilhadas, hierarquização parcial. O sombreado representa que as restrições seguintes são irrelevantes para o candidato, já eliminado por um restritor mais alto na hierarquia.<bold id="bold-77b8c6eb6b29b2b4952736a83d5c3166"/></p>
      </fn>
      <fn id="footnote-f4555b177a10a07bca2df2246ff02db3">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-dd11508487bc53a81bbdb0dadbf3defa">Ao que tudo indica, o CV é um processo de formação de palavras sem paralelo no português europeu, como enfatiza Gonçalves (2004)<xref id="xref-75e94b621819160d029df32fb7ce95bd" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-192a76bb6addcab9ac26bf6933b77d0e">[4]</xref>.<bold id="bold-eb314d917fa0ee620ea9ff9107090694"/></p>
      </fn>
    </fn-group>
    <ref-list>
      <ref id="book-ref-fd5743f548aedb8acf2d9c7595cce317">
        <element-citation publication-type="book">
          <publisher-loc>Cambridge</publisher-loc>
          <publisher-name>Cambridge University Press</publisher-name>
          <year>1988</year>
          <person-group person-group-type="author">
            <name>
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