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          <subject content-type="Tipo de contribuio">Ensaio Teórico</subject>
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        <article-title>Português Brasileiro:</article-title>
        <subtitle>“Última flor do Lácio inculta e bela”</subtitle>
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            <surname>KATO</surname>
            <given-names>Mary Aizawa </given-names>
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        <institution content-type="orgname">Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)</institution>
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      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="09/04/2019" />
      <volume>17</volume>
      <issue>1</issue>
      <issue-title>Português Brasileiro: “Última flor do Lácio inculta e bela”</issue-title>
      <fpage>52</fpage>
      <lpage>80</lpage>
      <page-range>52-80</page-range>
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        <date date-type="accepted" iso-8601-date="25/01/2019" />
        <date date-type="received" iso-8601-date="17/10/2018" />
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">Para Kato (2011, 2013) o brasileiro letrado se comporta como um bilíngue fazendo uso da gramática inovadora do PB falado com aspectos gramaticais de sincronias passadas, em um processo muito similar ao de “<italic id="italic-b78093a7dc50d48ab9c8f937b28bda04">code- </italic><italic id="italic-2">switching</italic>” que o bilingue faz entre sua L1 e sua L2. O presente estudo procura verificar como se dá a aquisição/aprendizagem dos clíticos de terceira pessoa, perdidos na diacronia, mas preservados na norma escrita e, até que ponto, podemos dizer que essa aquisição/ aprendizagem se assemelha à aquisição bilíngue em L2.</p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="paragraph-4a86fb82682144274e465c4c7c4b33a7">According to Kato (2011, 2013) the literate Brazilian behaves like a bilingual making use of the innovative grammar of spoken Brazilian Portuguese (BP), with grammatical aspects of past centuries, in a process very similar to the code-switching presented by L2 bilinguals mixing his L1 and his L2. The present study tries to verify how Brazilians recover the lost third person clitics in their writing and tries to see to what extent this learning process is similar to that of a bilingual acquiring his L2.</p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">português brasileiro</kwd>
        <kwd content-type="">língua falada</kwd>
        <kwd content-type="">língua escrita</kwd>
        <kwd content-type="">L2</kwd>
        <kwd content-type="">clíticos</kwd>
        <kwd content-type="">diacronia</kwd>
        <kwd content-type=""><italic id="italic-1">code-switchin</italic>g</kwd>
        <kwd content-type="">aquisição</kwd>
      </kwd-group>
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    <sec id="heading-e3ff4c283248a4b0fcab6c51f9d2dd4e">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-1">Utilizei essa linha do poeta parnasiano Olavo Bilac em um artigo meu (KATO, 1999, p. 201), para dizer o seguinte:</p>
      <p id="paragraph-580b2a0198a2e5ebc131622e84a1bec1">.</p>
      <p id="paragraph-2">somente um poeta poderia fazer, na época, a apologia de uma língua “não-culta”, profetizando a lógica do português não padrão, a ser demonstrada, meio século mais tarde, pelos linguistas estruturalistas, principalmente pelos sociolinguistas de orientação laboviana, e, mais recentemente, pelos linguistas da linha gerativa.</p>
      <p id="paragraph-3"> .</p>
      <p id="paragraph-4">Considerando-se que o português europeu (PE) é até hoje considerado uma das línguas românicas mais conservadoras (cf. URIAGEREKA, 1995), com traços de línguas germânicas, e que as normas brasileiras da língua escrita mantém ainda muito das normas dessa variedade, pode-se calcular a enorme tarefa da escola de ensiná-las ao aluno brasileiro, cuja Língua-I<xref id="xref-41822a432d21c6aaa175d2826e4e837c" ref-type="fn" rid="footnote-598bcf3090dcb02b4a2a3ce918eacfbc">1</xref> tem sido modernamente descrita como tendo não as propriedades do PE, mas características de línguas que perderam o sujeito nulo, como o francês (ROBERTS, 1993; DUARTE, 1993; KATO, 1999), mas mais ainda, como línguas de <italic id="italic-ef56c33908d2ad969a5b776acc3d1a67">proeminência de tópico</italic>, do tipo chinês ou japonês (PONTES, 1987; KATO, 1988; GALVES, 1993; NEGRÃO &amp; VIOTI, 1999) ou ainda uma língua de influência africana (cf. AVELAR &amp; GALVES, 2014).</p>
      <p id="paragraph-6">Neste trabalho, pretendo fazer primeiro uma incursão em pesquisas diacrônicas sobre o PB, tendo em vista a possibilidade de que as normas da escrita envolvam a recuperação de alguns aspectos da diacronia da língua. Em seguida veremos um experimento de recuperação dos clíticos via escolarização para verificar o que das perdas diacrônicas é mantido como propriedades convencionais da língua escrita brasileira. O trabalho conterá ainda uma discussão sobre a natureza da aquisição/aprendizagem da escrita.</p>
      <p id="paragraph-458f6fbb894f87294465f75d387f5138">Uma mudança que já foi descrita exaustivamente no português brasileiro (PB) é a mudança no paradigma dos clíticos e do seu comportamento sintagmático, e serão esses os tópicos de mudança que utilizaremos para ilustrar o problema de sua aquisição/ aprendizagem.</p>
      <p id="paragraph-f3ffa902a8bf558eb4bca3ec4214f22b">Em meus estudos recentes (KATO, 2011, 2013), venho mostrando ainda que o brasileiro letrado se comporta como um bilíngue fazendo uso da gramática falada atual/inovadora e da gramática da escrita de épocas anteriores, em um processo de <italic id="italic-a7fbb8b12af54aae3af6e26dddce3185">code-switching. </italic>Podemos ilustrar esse tipo de <italic id="italic-957a485fd1e4ef5313af6be9f5fa7580">code-switching </italic>em um texto de Mario Prata:</p>
      <p id="paragraph-f020e96dbf37f9d3e5ee41b12977e78d">.</p>
      <p id="paragraph-c59e8a6d383fabd49068d41585a5a017">(1) “Os adolescentes não entendem os adultos e acham que ninguém os entende. Nós envelhecentes, também não entendemos eles.</p>
      <p id="paragraph-5">“Ninguém me entende” é uma frase típica de envelhecente.”</p>
      <p id="paragraph-f40784fe41c6b5ca2b89e8b0c1c3ebca">(Mario Prata, <italic id="italic-3">Diário de um Magro, </italic>p. 32)</p>
      <p id="paragraph-7"> .</p>
      <p id="paragraph-8">Note-se que a alternância não é apenas do clítico com o pronome, mas a sintaxe está também envolvida, pois o clítico <italic id="italic-4">os </italic>vem antes do verbo, enquanto o pronome fraco <italic id="italic-5">eles </italic>vêm posposto ao verbo<xref id="xref-42c5dfdab027290acb32b506d60e5c97" ref-type="fn" rid="footnote-68f49aff4f3d16653c76007282c44114">2</xref>. Se a aprendizagem dos clíticos e de sua sintaxe na escrita envolve a aprendizagem/aquisição de uma segunda gramática, que teorias sobre aquisição de L2 podem nos iluminar sobre a aprendizagem dessa modalidade?<xref id="xref-9c7cfaa880ad48dc6c7f40de1ebecf40" ref-type="fn" rid="footnote-90f7fd245b23cdb7c6108c58bbbd0da5">3</xref></p>
      <p id="paragraph-9">A primeira parte será devotada à mudança no sistema dos clíticos, e a segunda parte será dedicada à natureza da aquisição bilíngue. Nas conclusões faremos considerações sobre o tipo de aquisição/ aprendizagem que parece estar envolvido naquele.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-5143fe18c98b45b3ae9c9c42c52762d7">
      <title>1. A diacronia dos clíticos</title>
      <p id="paragraph-346dc2a75a3b25e224e7c6cf1e7f1a63">Em estudos diacrônicos prévios, foram atestadas as seguintes mudanças relativas ao sistema de clíticos<xref id="xref-e6a12e5e367e0c1ef4bbd92254843655" ref-type="fn" rid="footnote-994c352cc53f783088d38afe174248b9">4</xref>:</p>
      <p id="paragraph-03541718c3c14f1baf00e34486c66f23">(a) Os clíticos perderam o movimento longo:</p>
      <fig id="figure-panel-ce9c0e3b4ce8531551e77f1111292f34">
        <label>Figure 1</label>
        <caption>
          <p id="paragraph-63d91495edfca2279e1f38f929aa1269" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-e80bb10700a914a08b603c954952cae8" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-08-25_22-49-25.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-447fa5dbec75e552114f6ba008b08cbd">(b) A cliticização mudou de direção: enquanto no Português Clássico a cliticização era para a esquerda, o PB no século XX passa a ser para a direita (cf. NUNES, 1993), enquanto o PE manteve o direcionamento do PCL.</p>
      <fig id="figure-panel-913419526a4fdc25aa909e19aed2555b">
        <label>Figure 2</label>
        <caption>
          <p id="paragraph-e4c12dacecc0b83a752362644f6c9bab" />
        </caption>
        <graphic id="graphic-86bef5afd83e257d72f5b54801c5cb15" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="image_2021-08-25_22-51-40.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-e45ee67add241e8b0f4f0ad793241b28">(c) O PB perdeu os clíticos de 3a pessoa ao longo do século XIX, introduzindo, em seu lugar, as categorias vazias. Os clíticos no PE, por outro lado, mantiveram inalterado o seu paradigma (cf. CYRINO, 1993; KATO, 1994). Ilustramos aqui apenas com os clíticos relativos às pessoas do singular, mas o mesmo ocorre com o plural.</p>
      <table-wrap id="table-figure-1c4211db0d58f5d75e9f2a9cc7f84e09">
        <label>Table 1</label>
        <caption>
          <title>Quadro 1: Clítico acusativo, dativo e reflexivo nos séculos XVIII e XX do PB – Kato (1994)</title>
          <p id="paragraph-b859dfb358eae2f00dedcbf5f9d67388" />
        </caption>
        <table id="table-ed1dbdd7fae30842417fc81e46817ad5">
          <tbody>
            <tr id="table-row-bc0349b0de3532d5a8e46af28d03808b">
              <td id="table-cell-0b464c67912b30ff172b55256497f204" colspan="3"> Século XVIII e PE atual </td>
              <td id="table-cell-cdab9f663cf24b4840e09d1755ea51de" colspan="3"> PB Século XX </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-6e1be566b6a0ae831e5dbb8cff0b652c">
              <td id="table-cell-09084f66b77bd323f53d322984799bce"> Clitico Dativo </td>
              <td id="table-cell-b6654060a04a9f5cd8043da74084ce60"> Clitico Acusativo </td>
              <td id="table-cell-19d28596432a5c7cb79d2dec7ab1dfb0"> Clítico Reflexivo </td>
              <td id="table-cell-3035ab6032b21191356cc6d79aefc477"> Clitico Dativo </td>
              <td id="table-cell-f667adf2af4546edc42126955df48e1a"> Clitico Acusativo </td>
              <td id="table-cell-124af007dcc50ba58952052db6ba3fd3"> Clitico Reflexivo </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-41e3d79b1baa6909a880083cc1d2355d">
              <td id="table-cell-30a1165d56a7af208456e58a7cd0cf44"> me </td>
              <td id="table-cell-11a46e30f343fe34fcee12b4a4927aed"> me </td>
              <td id="table-cell-34f747d3a795ed40eed075c1519a1e79"> me </td>
              <td id="table-cell-53be257e3a7891b156e963c33763ec95"> me </td>
              <td id="table-cell-f3c746c9078de833df766b31fb64921e"> me </td>
              <td id="table-cell-081b3f3de1f73311259d9a9c4965a771"> me </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-a6bcb3fd4bad4d20496abe3f4e5a6eae">
              <td id="table-cell-1caf22beccb34b730b0b39dfd532eeb4"> te </td>
              <td id="table-cell-f1bf4f5747dd3a423f44edff0ab00e79"> te </td>
              <td id="table-cell-6aea4b3ce14c9bac3efa3e68ca2610a1"> te </td>
              <td id="table-cell-4ee20fdc5f4413aed76c5a80ad6696f7"> te </td>
              <td id="table-cell-4b635e83aa092eae618a8cb82f17c817"> te </td>
              <td id="table-cell-31ba3763c560a1c6854a64f413c603f1"> te </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-217768e2d5ca5473afda5e7d3374ab4a">
              <td id="table-cell-5dfc00fdce40ccfee275b23b675f6886"> lhe </td>
              <td id="table-cell-0c29cda9d26104bcea21d2fb667229be"> o </td>
              <td id="table-cell-b932b3ae41f255da08f3bbf418798829"> se </td>
              <td id="table-cell-b05e5ee12e214a47f73dfe12aaec2a7c"> Ø </td>
              <td id="table-cell-d03724f04cb213f7057bd35e27c45bf2"> Ø </td>
              <td id="table-cell-765584a840e623c7aa490550ef4907a3"> Ø </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-c333bf8f47835df657adb93db1563384"> Veja-se que, em lugar dos clíticos acusativos e dativos de terceira pessoa, o PB tem clíticos nulos<xref id="xref-412ad2848320330a89a3092304b9f5a7" ref-type="fn" rid="footnote-3d6ac2d7786a7df45f27cbb5d40d35cb">5</xref>:</p>
      <p id="paragraph-8b1077d226370e45fa60532d452cbdd9">(4) </p>
      <p id="paragraph-76f836e64434e9a7e44ed9a88af30dd8">(a) O Pedro, ele <italic id="italic-9b1376ecbfff623133c561a7c35c7d49">me </italic>encontrou na feira. PB</p>
      <p id="paragraph-1bb4a1415983175243ce74f2a049cfa1">(b) O Pedro, eu <italic id="italic-c24f13c57e3a4fed0008d52728ea436d">Ø </italic>encontrei na feira. PB </p>
      <p id="paragraph-559b995baa10901262bfe3e56d784566">(5)</p>
      <p id="paragraph-c143bcce402667f35187591c919ea465">(a) Pra mim, o João <italic id="italic-2e0e67895b0f131ac224f029409ad75e">me </italic>comprou um IPhone. PB</p>
      <p id="paragraph-baf1fb89185886d9f9ed0245f521e74e">(b) Pro meu pai, eu <italic id="italic-46a7b9db4b84381146d527b8916ecf09">Ø </italic>comprei um IPhone. PB</p>
      <p id="paragraph-302f35ce694bc16a80fd31c11461c62c">.</p>
      <p id="paragraph-ef883d51d638c099b9f9fd8a9ee7e063">(d) No PB, podemos propor que o clítico pode vir redobrado pelo pronome reto. O clítico e o pronome seriam conectados em uma relação de minioração no início da derivação. O clítico sobe e se afixa a T, deixando o pronome para trás. </p>
      <p id="paragraph-2bea57b2bfc46c6d4f65b67c1e968364">.</p>
      <p id="paragraph-35c118d77ea728fc39bf5806fea60b33">(6)</p>
      <p id="paragraph-a2c88f9b95cd0641e9506371c4028bab">(a) O Pedro, eu <italic id="italic-d68c9da1b25edbad6ccceefca8f40570">Ø</italic>-encontrei ele na feira. PB</p>
      <p id="paragraph-1e8d89ce2875595e5ca75dba2e2e053e">(b) Pro meu pai, eu <italic id="italic-6">Ø</italic>-comprei um IPhone (pra ele). PB </p>
      <p id="paragraph-25df5885362bddc187082647c494fe69">(7)</p>
      <p id="paragraph-e1ced8735fbcadda5732e862a501b70d">(a) O Pedro, eu <italic id="italic-7">Ø</italic><italic id="italic-8">i</italic>-encontrei [<italic id="italic-9">t</italic><italic id="italic-10">i </italic>elei] na feira. PB</p>
      <p id="paragraph-6022ed1c009e52934de6a4b0fe38813a">(b) Pro meu pai, eu <italic id="italic-11">Ø</italic><italic id="italic-12">i</italic>-comprei um IPhone pra [<italic id="italic-13">t</italic><italic id="italic-14">i </italic><italic id="italic-15">ele</italic><italic id="italic-16">i</italic>] PB </p>
      <p id="paragraph-66e92e3c944bc71fcbfbc5a67b272cc4">.</p>
      <p id="paragraph-4c13bbdc53347ccceb0e45f03b6a58be">Poderíamos supor que o clítico nulo, uma forma inovadora, estaria ainda ausente na língua escrita, onde imperaria o clítico expresso. Mas não é o que acontece, pois observem-se os exemplos originais de Paulo Coelho em (8) e sua tradução na edição portuguesa em (9) (apud KATO &amp; RAPOSO, 2001).</p>
      <p id="paragraph-868589f83b226d902375dc4e56f60160">.</p>
      <p id="paragraph-e4bccb447382c4c091a62fbdd5831e99">Edição original brasileira </p>
      <p id="paragraph-cb3a0da9f56a6218cb55c325bb524c1d">(8)</p>
      <p id="paragraph-223e3c5d6190f89a164bb79fe2ac3c4d">(a) Se hoje eu me tornasse um monstro e resolvesse matar <italic id="italic-5212b06402c7beef201181d53b759e1e">Ø <italic id="italic-a3fb316b5bea00dfb988e05b2a6675cf"/></italic>uma por uma <italic id="italic-96ee8d576d3c1ae7e7e8b02d040fb46b">Ø</italic>.</p>
      <p id="paragraph-d87cae024bcef24732c12f25d7f8ccdc">(b) ...que contam histórias incríveis sempre nas horas que a gente quer ouvir <italic id="italic-3ac628e426768137397cebe46de77980">Ø</italic>.</p>
      <p id="paragraph-d631e8253d6a19cbb7e03170eb00101d">(c) Estava excitado e ao mesmo tempo inseguro: talvez a menina já <italic id="italic-b005fe5a3f3451b294344d3dc251cae0">Ø </italic>tivesse esquecido.</p>
      <p id="paragraph-1db398ff3b9e28aa3d923cd373c516d3">(d) Achei <italic id="italic-49d7ddd59a3fe7b7a1b6ad6ffcbcbae4">Ø </italic>certo dia no campo.</p>
      <p id="paragraph-660f964ab6a182a2e04ec1d3c60a26e0">(e) Tirou seu dinheiro do bolso e mostrou Ø ao recém- chegado.</p>
      <p id="paragraph-10">(Excertos da edição brasileira de Paulo Coelho (<italic id="italic-5a1610e9cbd1e121ae5c02b8ef4bfc60">O alquimista</italic>, 56ª, 1999))</p>
      <p id="paragraph-11"> .</p>
      <p id="paragraph-12">Edição portuguesa</p>
      <p id="paragraph-88c85a62e5fdcb01924ba20ce280b881">(9)</p>
      <p id="paragraph-13">(a) Se hoje eu me tornasse um monstro e resolvesse matá-<italic id="italic-d3ea0d6c3b3f7a2ad3a21231c120f9dd">las </italic>uma por uma...</p>
      <p id="paragraph-15">(b) ...que contam histórias incríveis sempre nas horas que a gente <italic id="italic-89b697b7c153f1b9a1ad17721bd85327">as </italic>quer ouvir.</p>
      <p id="paragraph-16">(c) Estava excitado e ao mesmo tempo inseguro: talvez a menina já <italic id="italic-3e16d9da02612f9a2134fdc905c44154">o </italic>tivesse esquecido.</p>
      <p id="paragraph-17">(d) Achei-<italic id="italic-9c6c72858e8ea610c8d372c91079bb3a">o </italic>certo dia no campo.</p>
      <p id="paragraph-18">(e) Tirou seu dinheiro do bolso e mostrou-<italic id="italic-5174d684e113ee89215fe1cc2cfb244c">o </italic>ao recém- chegado.</p>
      <p id="paragraph-f81f6502209171b0f2e074c5486ec259">.</p>
      <p id="paragraph-ae08af61410c38770a76adcbd2cf4f37">Verifica-se, pelo exemplo acima, que a hipótese de que o escritor brasileiro simula a gramática do falante português contemporâneo não se sustenta, pois o PE de hoje tem sempre os clíticos expressos de terceira pessoa<xref id="xref-9b5e9f3cdfe825a65de86f8af47b0c65" ref-type="fn" rid="footnote-61747065aa19da47f61f2bfcd9832fbb">6</xref>, com movimentos longos no caso do exemplo (9b-c), enquanto muitos escritores brasileiros modernos, se forem simular a gramática do PE, apresentariam alternância entre o nulo e o clítico ou então entre o clítico e o pronome. Mas o que o brasileiro não faria é simular o movimento longo do clítico. A simulação é, portanto, parcial como no texto anteriormente visto de Mario Prata.</p>
      <p id="paragraph-9b548d256e86b55e9473763e372ed6d1">Outro caso visto no paradigma acima é a perda do clítico <italic id="italic-a58b82835ba56b6d6d2150212f0d4b4e">se </italic>(cf. GALVES, 1986; NUNES, 1991), indefinido ou genérico<xref id="xref-c0b2d843b249a98f91dbcfe73851b942" ref-type="fn" rid="footnote-d5cdb05b4e7a8f382e0cf92e26d32f16">7</xref>. Examinemos o caso do genérico/arbitrário <italic id="italic-602f15af0fa0a1f6e87230d326648484">se</italic>. Vê-se por toda a parte no Brasil a variação nas placas de venda:</p>
      <p id="paragraph-a5b51f590bfee140a637be47e3e95381">(10)</p>
      <p id="paragraph-9e0ca00dcd92c3fd7f1fd15ca9513786">(a) Vendem-<italic id="italic-d942a1a1e4e590556a616aade13d8cb1">se </italic>casas.</p>
      <p id="paragraph-d6f2e6d059adb7c7f7ade0104e3507db">(b) Vende-<italic id="italic-bd1b3afca9ae3dac92155d717f25870f">se </italic>casa(s).</p>
      <p id="paragraph-f7438ebaa8ac22cad2fcc8358e14199d">(c) Vende casa (s).</p>
      <p id="paragraph-b910b9397a922ed02d977433530de4b7">(d) Vendo casa(s).</p>
      <p id="paragraph-b55db9bf5b3141684ddf890ccb0d6368"> .</p>
      <p id="paragraph-a1046bb8746b05ab05c11935db0b7c29">A inutilidade do <italic id="italic-2f0904c5df192ea3bc8c48ed847c611f">se </italic>genérico na nossa gramática para o falante não suficientemente letrado está em placas como (11), encontrada em zona rural paulista. Lembremos que uma das primeiras regras da escola sobre clíticos é a única dada no <italic id="italic-3d0caac4c02886ba64836b96a3ffc2d4">Manual do Estadão</italic>: “não iniciar uma frase com próclise”.</p>
      <p id="paragraph-43653b0e2108c52d5387328865e08446">(11) Vende frango-<italic id="italic-0af8903c2eaa69209dd54805d8a171ef">se</italic>.</p>
      <p id="paragraph-9796be29adeea06f3a70373b1d6778a8"> .</p>
      <p id="paragraph-5d63253805057887272330cf4fbb8a88">Em outros contextos onde tínhamos o <italic id="italic-114e6c3cbc1d7851af82399911fcdf9e">se </italic><italic id="italic-7f0e84a443117bee47970410cd996702">genérico</italic>, hoje temos uma sentença com sujeito nulo ou uma sentença pessoal, com <italic id="italic-745238c83b0649a64c8edf497ef14bb4">a gente </italic>ou <italic id="italic-757a8aea5bb62933e60fb8f0847cd87b">você </italic>(KATO &amp; TARALLO,1986)<xref id="xref-ec09ef77f3abeb9546cfe57a18402524" ref-type="fn" rid="footnote-0366848aedcd5be0c92e3fd2c386b496">8</xref>.</p>
      <p id="paragraph-226f621011f7ba904fa73cd5d4d39732">(12)</p>
      <p id="paragraph-00451e0f89ed9c6e5e3e080478df5ded">(a) Não <italic id="italic-929619f3a289baa15eb8817c48416f68">se </italic>usam mais saias na universidade. PE %PB</p>
      <p id="paragraph-b0e3885bbdf8c094ecc1a4d12670c8b7">(b) Não <italic id="italic-0fdf19f6f14dad03775a5a68b3388822">se </italic>usa mais saia(s) na universidade. %PE PB</p>
      <p id="paragraph-202d88591e637b3e81ff1b4db5e3abde">(c) <italic id="italic-08f7c1e4f1d43af79851622cdbdc221d">Ø </italic>Não usa mais saia na universidade<xref id="xref-d20416377595a494d91bbca389f2743e" ref-type="fn" rid="footnote-9977b16e2a0a028676ab852e800528b3">9</xref>. *PE PB</p>
      <p id="paragraph-fdc052d7cfec093f4495a35f8d974361">(d) (Vo)cê não usa mais saia na universidade. *PE PB</p>
      <p id="paragraph-73fd2d49bae3663a3214d73ee1d2fc9f">(e) A gente não usa mais saia na universidade. *PE PB</p>
      <p id="paragraph-1410b666b2bead4b9acb650ae5d5cb6a"> .</p>
      <p id="paragraph-d84af91f0a08f422fc10927826b47991">Uma outra construção que também parecia estar associada à perda do sujeito nulo era o que se convencionou chamar de “construção tópico-sujeito”, como os exemplos que aparecem abaixo em (b). A explicação de consenso era a de que, na falta da criação de um expletivo lexical como no francês e no espanhol dominicano, o PB preenchia o sujeito por alçamento. Para Kato &amp; Duarte (2008), ao invés de satisfazer o EPP através de “<italic id="italic-03f3fdcdd93a001fa14f317139278de4">merge</italic>” externo através de um expletivo, o PB satisfaria o EPP via “<italic id="italic-df2916d946407fa43a18fc89d358ae39">merge</italic>” interno, isto é, via alçamento.</p>
      <p id="paragraph-7682463531da13701b712c7d6babcd70">(13)</p>
      <p id="paragraph-21c89583778e361605fff18d475edffa">(a) Faltou sorte aos meus times.</p>
      <p id="paragraph-14">(b) Meus times faltaram sorte. Tópico-sujeito</p>
      <p id="paragraph-f6aa5d041be3c336c7460389d7617a38">(14)</p>
      <p id="paragraph-1642a38e781dfac19aeb1e3b7f3cdccd">(a) Ainda falta duas voltas para eles.</p>
      <p id="paragraph-0a3dcdb351de1bd5220d4c069f5db4b1">(b) Eles ainda faltam duas voltas. Tópico-sujeito</p>
      <p id="paragraph-19"> .</p>
      <p id="paragraph-950b54996caf5266e1614e9b1399dc03">A primeiralinguistaquechamou a atençãoparaessas construções foi a funcionalista Eunice Pontes. Para Pontes (1987), essas construções surgiram em função de uma mudança tipológica, de uma língua de <italic id="italic-1a948d57e89ffe1f8bc5bbf35a399e41">proeminência de sujeito </italic>para uma língua de <italic id="italic-bed9be27621363cba72bdb1b9ba48fe1">proeminência de </italic><italic id="italic-30699bea18399dfcf7cfc8715a590ef5">tópico</italic>, na tradição funcionalista de Li &amp; Thompson (1976).</p>
      <p id="paragraph-57dd647a2c7e5affb76277e9f0299623">Kato &amp; Ordoñez (no prelo) mostram, contudo, que as formas em (b) não vieram para substituir as formas em (a), que são téticas ou apresentativas, enquanto as formas em (b) são categóricas, ou predicacionais<xref id="xref-4844820f4c338628d0a5f08e705164da" ref-type="fn" rid="footnote-b9f01ae04fca9c65c591d1ee28f74bca">10</xref>. As construções de tópico-sujeito vieram para substituir as construções de <italic id="italic-c6d60fa9265cd57cd9f1932e53dc2b21">deslocamento clítico à esquerda </italic>ou <italic id="italic-0df9d0d6a0c73eb8c97601b13367f0b9">clitic </italic><italic id="italic-5e8870af78927aa0fe19e03ed50dc858">left dislocation </italic>(CLLD), também categóricas, por ocasião da perda do clítico de 3ª pessoa.</p>
      <p id="paragraph-333c69b2bb89ec9eec2d86296caa85d4">(15)</p>
      <p id="paragraph-ec6355f180894af348418a1e6921732a"> (a) Aos meus times faltou-<italic id="italic-3eda87074f8ab21a59d205e42b91b4a7">lhes </italic>sorte. PCL PE *PB</p>
      <p id="paragraph-9b989779e42fb2ab3ad4c83ffe688192">(b) A eles faltou-<italic id="italic-1144a426c243732902e332f1140dbbe5">lhes </italic>sorte. PCL PE *PB</p>
      <p id="paragraph-384ebe5f5e11a5e18f083317b4522823">Evidência de que Kato &amp; Ordoñez estão no caminho certo está na possibilidade de CLLD ainda existir para a primeira e segunda pessoa, já que o PB não perdeu os clíticos correspondentes. A previsão comprovada, portanto, é que para a primeira e segunda pessoas não seria possível haver a construção de tópico-sujeito.</p>
      <p id="paragraph-bf820761f2b48e5068e414ccff7bf163">(16)</p>
      <p id="paragraph-cf5fdf576a06683abe7bf89d702748c6"> (a) Para mim, <italic id="italic-a1f89f803b65a3985f2d80c8635b788e">me </italic>faltou sorte. PB (CLLD)</p>
      <p id="paragraph-52a4ffa7f5fba8beab72136fcb07a4d4">(b) * <italic id="italic-fe95c8a268028a144ccab95d1d961797">Eu </italic>faltei sorte. PB (Tópico-sujeito)</p>
      <p id="paragraph-d49598e9be023cb919963989c0592079">Vimos nesta seção que não é apenas uma mudança no nível paradigmático – o sistema pronominal e flexional—que afetou o PB. Essa mudança tem efeitos de reanálise, em nível sintagmático, afetando a ordem de constituintes e levando até mesmo a mudanças tipológicas do PB. Na seção seguinte, veremos o que ocorre com a criança quando ela encontra no <italic id="italic-9caf9962bc467630803895c900109f08">input </italic>da escrita a variação entre a gramática inovadora do século XX e as normas da escrita baseadas em textos de séculos anteriores.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-1">
      <title>2. A aprendizagem/aquisição dos clíticos</title>
      <p id="paragraph-ff40dd7b1f5e0983e3e2ff260bf8d2c8">O trabalho de Corrêa (1991), que procura verificar como o aprendiz adquire a competência ou a habilidade de usar clíticos, pode dar uma ideia de quão bem sucedida é essa aprendizagem.</p>
      <p id="paragraph-5a3d610ea41b7c3d70e377860742053d">Em seu trabalho, Corrêa usa, como estratégia motivadora, encenações em que abundam eventos transitivos, eliciando de seus sujeitos narrativas orais e escritas. Os sujeitos vão da 6ª série até o nível universitário. Sua questão básica foi saber o que seus sujeitos usam na posição de objeto direto correferente a um elemento dado no discurso: pronomes tônicos, clíticos, categoria vazia ou NP/DP- anafórico.</p>
      <p id="paragraph-8505ed1d09d5145c282f9327d48d8c54">Os resultados obtidos na fala e na escrita foram os seguintes – adaptados de Corrêa (1991) apud Nunes (1993):</p>
      <table-wrap id="table-figure-783efb97be4f3961ca7650a84208bada">
        <label>Table 2</label>
        <caption>
          <title>Tabela 1: Objetos diretos anafóricos encontrados na fala</title>
          <p id="paragraph-0e0d344e4e8a759044708c9cf17f8601" />
        </caption>
        <table id="table-34ea5ff6f379de9aa744e7692dfbd45e">
          <tbody>
            <tr id="table-row-70b09ad2fd9d2ca4e49470037a4fd4ce">
              <td id="table-cell-7b255d19e197d28dc9b1994bf98f1f0e"> Tipo de objeto </td>
              <td id="table-cell-a61d3a26ec760339669a337762ac2822" colspan="5"> Série </td>
              <td id="table-cell-907bbafe6a976e7762c38f4244ea47ca"> Total % </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-30b57a2e6440fa4e9e7d56695c531eda">
              <td id="table-cell-32c686ec41a201f80598ff1fcbdda44a" />
              <td id="table-cell-2ed76e47ad894fb9d11d7f172f886ffe"> 1ª/2ª </td>
              <td id="table-cell-a5bebd59b070c68adee5fc9f85f4df0d"> 3ª/4ª</td>
              <td id="table-cell-183eb140f0dba6d2359a2b049684db13"> 5ª/6ª</td>
              <td id="table-cell-454dce9da8f0127cbe58378d0d5ae42f"> 7ª/8ª</td>
              <td id="table-cell-470f8b56fea4c704d1500d56aebbfa7b"> universitário </td>
              <td id="table-cell-96a8541b630b6cd80b7205dc32a0f322" />
            </tr>
            <tr id="table-row-93ecd771342afb35a0081d9deaa3eeb8">
              <td id="table-cell-89b19a90f233b2184e2009200e01ba2a"> Objeto nulo </td>
              <td id="table-cell-2287c3460037fa267eb3dc1dd31e139b"> 72,4 </td>
              <td id="table-cell-f19beb727a6de37ec83f5ed6dab68a5a"> 77,7 </td>
              <td id="table-cell-70bfec87527732aa7a84e049a6a3aca5"> 71,2 </td>
              <td id="table-cell-dc26b58bf380751503766f04cfee0ae6"> 71,1 </td>
              <td id="table-cell-ce5ed25912efe3ba7472d8c5cb7c838c"> 67,8 </td>
              <td id="table-cell-dccf6738102483614853b15478416ee8"> 72,0 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-c31911149ec1af08ef77c4b2e881c9b2">
              <td id="table-cell-82e99e7b51a849a29f24da6a597680b8"> Pronome Tônico </td>
              <td id="table-cell-983d8e181ac4a93b9b8e4296c1c8eaec"> 24,1 </td>
              <td id="table-cell-71bdfa420cb1351cd582334113ec68d0"> 8,6 </td>
              <td id="table-cell-af414b2807a632b1aeb2cc1f19aae992"> 19,1 </td>
              <td id="table-cell-330e8e3c13126b1a2b1b7458385fe8ab"> 20,1 </td>
              <td id="table-cell-ba98625ca365b82ad3a33f91690d7582"> 7,1 </td>
              <td id="table-cell-e1b3e0a4aa857ee5bcc6fe6915121baa"> 18,2 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-95c97cf4a273ca6189995c9231460b04">
              <td id="table-cell-e0563cce533640e92b22152efe9aac72"> NP- anafórico </td>
              <td id="table-cell-5ea5008a6e699e32e36bda432a197756"> 3,4 </td>
              <td id="table-cell-c54c6a8801441e00b36cb1ebfef471ee"> 13,6 </td>
              <td id="table-cell-0e5e33af0b8140bdf10110d6c0cf9cab"> 7,4 </td>
              <td id="table-cell-d487d4d916a5672e32346b564a7cc9be"> 7,6 </td>
              <td id="table-cell-023cb747a96f38df84ac9938c20cf399"> 14,2 </td>
              <td id="table-cell-0838558a5a38fa39eb1322aab072849c"> 8,3 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-00ee5c15246afdee29a8cfab41135793">
              <td id="table-cell-fd375bad4c9a376f6f6e7b7021299d26"> Clíticos </td>
              <td id="table-cell-bdef73c9440479ea7cdf00af5a7b018c"> - </td>
              <td id="table-cell-7a65ed476604840f29079337ef0e17e9"> - </td>
              <td id="table-cell-4db040c12dc3e0510d91b3fe0861f59e"> 2,1 </td>
              <td id="table-cell-57c7252cc9d5f785479aa896a9ea5d8b"> 0,9 </td>
              <td id="table-cell-0e30938c2b256461e0cfa0612107cf2a"> 10,7 </td>
              <td id="table-cell-a6c83bef2a7a49df7e35d0641802c6eb"> 1,3 </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <table-wrap id="table-figure-f0e9a2012965b5618fed8d0305ee218b">
        <label>Table 3</label>
        <caption>
          <title>Tabela 2: Objetos diretos anafóricos encontrados na escrita</title>
          <p id="paragraph-6cd260093968be5fa949659b0c0e7ea1" />
        </caption>
        <table id="table-3927b57a2f88eef9aa12ea070451cd4e">
          <tbody>
            <tr id="table-row-6e5fbc0a66da3b7db3c900400e89dc3c">
              <td id="table-cell-19757cc89d8f2fa0cc2ebbcb068b3d15"> Tipo de objeto </td>
              <td id="table-cell-12937fd7fe87569a3bbe915dfc26cb0d" colspan="5"> Série </td>
              <td id="table-cell-41630ea6fb2bf437abb776ea4a0fb6ac"> Total % </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-aa00ede7ad194fb99bd2cc231021fa67">
              <td id="table-cell-25a75317520c9a697fea27c9e227682a" />
              <td id="table-cell-5a3e154fe37e3d30fa5febd6d381f868"> 1ª/2ª </td>
              <td id="table-cell-596977455aaabdaba218ddfdbf79e278"> 3ª/4ª</td>
              <td id="table-cell-1da0005106b0fc4d3359cefd9a1eb1a8"> 5ª/6ª</td>
              <td id="table-cell-2de8d16176bb0fa4845249fc303571f4"> 7ª/8ª</td>
              <td id="table-cell-35be2f71a4a679c7f9255366f494e2e7"> universitário </td>
              <td id="table-cell-bb5756561fd3a9be6687d2bae573b128" />
            </tr>
            <tr id="table-row-8659594ca2a27d31c887177ffc682a9b">
              <td id="table-cell-dc9cd063a66cd2063d33af4406db2b92"> Objeto nulo </td>
              <td id="table-cell-026bb647bfa21ed15b8494a8804bb28d"> 57,5 </td>
              <td id="table-cell-b6f9fad8798dfe412427f887d07cfc15"> 65,6 </td>
              <td id="table-cell-e5e0b5ee8931ea2bc15156d609c73dbb"> 52,3 </td>
              <td id="table-cell-79e5bcfc35236cbfe96159ddb2f8098b"> 53,5 </td>
              <td id="table-cell-1ffed1655faf3df5657937fd7f8adf06"> 9,5 </td>
              <td id="table-cell-9bf6dadac0fbaa14954c483fc98859f7"> 51,4 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-1ba0b37b41522a902aa9db7a64b3142d">
              <td id="table-cell-978bb649d5c39d4879f2dc135ab0d407"> Pronome Tônico</td>
              <td id="table-cell-e531631a719c5d81921805b13cbab3e9"> 7,5 </td>
              <td id="table-cell-7687cbe63d35aa04ac21f81b1ef93895"> 6,2 </td>
              <td id="table-cell-c23f89dd638cda8ff2fbefabfbf54c90"> 15,3 </td>
              <td id="table-cell-8733998d84ff97c996566c1d38d7b4d0"> 10,7 </td>
              <td id="table-cell-985f010b4745b59b9e8a9257c311e5eb"> - </td>
              <td id="table-cell-68eae6e8ed689c138e6c2db15f8edb34"> 9,8 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-9c7122699835d9a7dd85fcbe7a50ee67">
              <td id="table-cell-b3a61e14e42b8ebfb1ae9e340981c595"> NP-anafórico</td>
              <td id="table-cell-ed4e1fc09e52c2db2f8e2f688fa71d50"> 35,0 </td>
              <td id="table-cell-6963ffb811302f42821d8b3d9a86e42a"> 18,7 </td>
              <td id="table-cell-1aaf6b8a4a1515567ebc57c73505b61d"> 13,8 </td>
              <td id="table-cell-7c4ffe4d1014f0b9863df62502768b83"> 5,3 </td>
              <td id="table-cell-d333d7b7569c038c1727b2ab4cb6ca84"> 4,7 </td>
              <td id="table-cell-88f8d905b1546a9b3cee6cae9f2d7c6f"> 15,4 </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-83a48feecdbc10b30c9c3140604cc444">
              <td id="table-cell-cc60b75c8622216f305ce1b2969e072d"> Clíticos </td>
              <td id="table-cell-8b5785e96307f3027c3f87e5e57d8716"> - </td>
              <td id="table-cell-deb2868d01181391804d98323e158b27"> 9.3 </td>
              <td id="table-cell-9d28e408d3d4a161bdf9bf2f1c248be7"> 18.4 </td>
              <td id="table-cell-69fb8871b7bfa1f3eb368683e60220f6"> 30.3 </td>
              <td id="table-cell-891afb270f15d20490489b01396a251a"> 85,7 </td>
              <td id="table-cell-78a6f2e75aec639a68f987da34a4ecea"> 23.3 </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-e6222b31928b15ef732af5c7e85ab04b">Corrêa (1991) e Nunes (1993) fazem uma excelente avaliação desses resultados, mostrando que o aparecimento dos clíticos na escrita é anterior ao aparecimento na fala dos mesmos sujeitos<xref id="xref-3ed89dc22a4c37b4d71f824fd4d81b75" ref-type="fn" rid="footnote-3bea40348cda46c8f57df7ff1098fe72">11</xref>. A idade em que esses clíticos aparecem na fala é totalmente anormal comparada à idade em que os clíticos aparecem em crianças cujas línguas têm um sistema produtivo de clíticos. O pronome tônico e o objeto nulo são as opções disponíveis antes da escolarização. Aquele é, porém, totalmente banido na escrita universitária, e evitado mesmo no início da escolarização, na modalidade escrita. Já o objeto nulo é mais resistente e só é significativamente evitado na escrita universitária, na qual aparece com um resíduo de 9,5%.</p>
      <p id="paragraph-548cde650d3a5c2eb319ffca829d5a42"> O que surpreende, contudo, é que, embora, na escrita, o escolarizado recupere o clítico de terceira pessoa em 85,7 %, comparável, e até superior quantitativamente, ao PCL, na fala a recuperação é mínima, da ordem de 10,7%. O efeito da escolarização na fala aparece muito mais na forma de esquiva ao pronome tônico, o qual de 25% baixa para 7,1%.</p>
      <p id="paragraph-057a7359fc5c3f01684ac271213f19fc">Poderíamos dizer que pelo menos na escrita o falante recupera quantitativamente o clítico fóssil. O resíduo de objeto nulo na escrita parece corresponder ao primeiro uso do clítico nulo que se perdeu, segundo Cyrino (1993): o de antecedente proposicional.</p>
      <p id="paragraph-f322bd34b32cf6cbf29260577b2c3045">(17) pediu a elas para se sentar.(...). Não sei dizer ao certo o motivo. Só sei que elas deixaram <italic id="italic-788e48a63c8e3c6d4bd0859f2dbd6c0e">0</italic>... (escrita universitária).</p>
      <p id="paragraph-7b33378489cd9cd77b0b4606ac7ece7a">As primeiras ocorrências do clítico de terceira pessoa são em posição de ênclise ao infinitivo, tanto na fala quanto na escrita, e é esse o contexto em que é consistentemente usado na narrativa oral, mesmo por universitários:</p>
      <p id="paragraph-e3ee3fb7d3d9aa3370c68f116d1f1a22">Oral:</p>
      <p id="paragraph-f863d609fecd60f3afd373d3b1a12581">(18)</p>
      <p id="paragraph-deb829dd2ea9f75853489ed72866006e">(a) O guarda foi buscá-<underline id="underline-1"><italic id="italic-cfea1af0a0f229f2db4c375032da320f">lo</italic></underline>. (5ª série)</p>
      <p id="paragraph-dd1f69877ce480e174a2a373308e1343">(b) Ela olhava pra carteira, tentava agarrá-<underline id="underline-2"><italic id="italic-cb57aacaf69238e7106687733b4182cf">la</italic></underline>. (6ª série)</p>
      <p id="paragraph-d9bbdf9babe518c598e92ef339b468ce">(c) Ela conseguiu pegá-<underline id="underline-3"><italic id="italic-aa12d93617fdf3d1e6098d00b85cd7f6">la</italic></underline><italic id="italic-ad89ff66d0b06dd3ff49430efa101e8e"> </italic>(universitário) </p>
      <p id="paragraph-32a2a0af1e227441ce318854ffaa4b78">Escrita:</p>
      <p id="paragraph-a3890d232655f8d7519a7230333c8867">(19)</p>
      <p id="paragraph-89b4a317572a30741a4d3455775009c0">(a) Até que conseguiu pegá-<underline id="underline-4"><italic id="italic-7a98187f4915541368d27d171c04d5f4">lo</italic></underline>. (5ª série)</p>
      <p id="paragraph-4fe9b3882b648523438d34356358f283">(b) Muitas vezes ela tentou furtá-<underline id="underline-5"><italic id="italic-8a43b5103a85f9320ca0d774d5e34e9f">la</italic></underline>. (6ª série)</p>
      <p id="paragraph-9f81ed1455a9c721cb796dfd87f504de">(c) O garçom, ao servi-<underline id="underline-6"><italic id="italic-79cd1c54b11c8ebc07b5fb6e571b498f">la</italic></underline>... (8ª série)</p>
      <p id="paragraph-0ceffda394bf470251e78e774d6a2866">(d) E qual não foi sua surpresa ao vê-<underline id="underline-7"><italic id="italic-8ff535d97f4d7862a1346cca41b0a6a8">la</italic></underline><italic id="italic-caedf6c1b683af57c2f350f2f388cd4d"> </italic>estender cautelosamente a mão e... (universitário)</p>
      <p id="paragraph-ff57ed57d77c79c5238f0f21d44e0e4d"> .</p>
      <p id="paragraph-fd050c47ed2dca8352aa0feb11beb319">O curioso é que justamente no contexto de infinitivos é que outras línguas românicas mantiveram a ênclise, característica mais geral em suas fases mais antigas. A ênclise em contexto que não é a do infinitivo ocorre muito pouco na narrativa oral:</p>
      <p id="paragraph-1747ff7607823c3f17349dd3fc443cd3">(20)</p>
      <p id="paragraph-ba7fc0e257b2878eae38907709f59870">(a) Aproximou-<italic id="italic-b3c7beafcc41fb9f0b0c25fa97a4557c">se </italic>delas, cumprimentando-<underline id="underline-c195e43a4e5f44741d2e2b85923e45fa"><italic id="italic-a5551993ca6e1dbf92ba66bbb46230dd">as</italic></underline><italic id="italic-987fd5e436ff74114f678c7adfacc79d"> </italic>com um tremendo tapa nas costas. (8ª série)</p>
      <p id="paragraph-70ae99d9feac5fd1ddae236e8666fa43">(b) Trouxeram a moça para dentro da lanchonete e revistaram-<underline id="underline-871ad7b8b57793e72a38395ab797dd1e"><italic id="italic-19ef4a88902bad836e24319711e1e914">na</italic></underline>. (universitário)</p>
      <p id="paragraph-00b06550dd199ccc44c71a3c6f7337f0"> .</p>
      <p id="paragraph-19a0ed65647bd2746ad2ba246f6c72a9">Na escrita, no entanto, ela emerge aos poucos já na quinta série da escolarização:</p>
      <p id="paragraph-fbbb53589692ebab87b64fa3fce94d82">(21)</p>
      <p id="paragraph-da769f5b6e73a23d57ae164275707602">(a) Levou-<italic id="italic-43551babee17fbbb1e72925d9c973027">o </italic>até as moças para... (5ª série)</p>
      <p id="paragraph-dd83fee77db36517cda03fe2a2c4f713">(b) ...agarrou-<italic id="italic-fdf8aae6b3db6b42c4c1bff92dac3ff8">a </italic>pelo colarinho. (6ª série)</p>
      <p id="paragraph-2f34202afdd80c6d33fbd43bb94e17b7">(c) A garçonete serviu-<italic id="italic-acbcda003e2441754fb10f9cb88eb601">as</italic>. (7ª série)</p>
      <p id="paragraph-2cc18abc6e49621360d2c53cff658566">(d) ...e prendeu-<italic id="italic-7ee29e65d8e3564fb8a7e4f1526e4d49">a</italic>. (8ª série)</p>
      <p id="paragraph-897a2eec7511f37273dc694d3ff57a4a">(e) ...e agarraram-<italic id="italic-cc7699f7d8c70cdfe2603c254ef701d0">na</italic>. (8ª série)</p>
      <p id="paragraph-c8e6545a4a9264beeb8b0a48ed0d424c">(f) ...colocou<italic id="italic-0bb13d07d4a473291ef3fad394725e54">-a </italic>no bolso e... (universitário)</p>
      <p id="paragraph-27977541e77a14cce1eeddc39757f0d1">(g) ...escondendo-<italic id="italic-44c15d9605fa88e786b39dfd4fe762ef">a </italic>no bolso. (universitário)</p>
      <p id="paragraph-92b9c907cbac1c3ace5d240e14405b8f"> .</p>
      <p id="paragraph-2fd6ebe49e271bffc795e8edf901bc02">Embora o PB tenha próclise generalizada com a primeira e segunda pessoa, não distinguindo contextos com ou sem atratores, os aprendizes usam, no início (cf. exemplos acima) mais a ênclise do que a próclise com o clítico de terceira pessoa. Exceto dois exemplos iniciais de 3a série, só se encontra próclise depois da 8a série.</p>
      <p id="paragraph-2e0084798438131462d40193cded2afa">(22)</p>
      <p id="paragraph-adcd05b6e2b9f797b8d2c7ab77777a6c">(a) ...elas nem <italic id="italic-9e4ba08112e6c4834df418af69c5f287">a </italic>coqueciam (conheciam) (3ª série)</p>
      <p id="paragraph-376dbaf091f31f3da5fbe6c9f6b9b494">(b) ...ele <italic id="italic-922f1d76de42465f0089e1ea11bf942c">a </italic>pegou e... (3ª série)</p>
      <p id="paragraph-e1bb603dfc6730d3e12ee112ba51ba0b">(c) ...pois as meninas <italic id="italic-1b6b2f2191ace5591db28d1b49a1f4d3">a </italic>reconheceram. (8ª série)</p>
      <p id="paragraph-20">(d) ...pois os guardas <italic id="italic-27f1a4da32990d0b0a5c0ec0750f65a6">a </italic>impedia(m) (8ª série)</p>
      <p id="paragraph-21">(e) Os guardas <italic id="italic-8ee08a35b973f88ef9fd4238651eb021">o </italic>levaram para a lanchonete. (universitário)</p>
      <p id="paragraph-22">(f) ...ou porque já <italic id="italic-17">o </italic>conheciam. (universitário)</p>
      <p id="paragraph-4610253872ed9ab443c084ae90ad7187">.</p>
      <p id="paragraph-8dfd09a9fc5c15a224d5ff51465856ba">Mas nesse caminho da recuperação do clítico, encontramos fenômenos ausentes na história do PB, os quais Corrêa apontou como casos de hipercorreção:</p>
      <p id="paragraph-53feac933d88f50697296b8b9a3bef02">(23)</p>
      <p id="paragraph-abfc2b213b1dd19d506fa56247b32692">(a) Elas <underline id="underline-9c60b222bb3237116511bf3cc80c0c78"><italic id="italic-f7f17b8e2d702ab1db707b85bf12f5f1">o</italic></underline><italic id="italic-7a28e1e3df44f2b44d8df82aeb2887bd"> </italic>reconheceram<underline id="underline-9accde261bd0bc07a0ce311bda8ff0cb"> </underline><underline id="underline-9b129950f804975b73cfe43c98d891cd"><italic id="italic-de791a3567dd52719b0a3c0755d0d5f6">ele</italic></underline>. (5ª série)</p>
      <p id="paragraph-26f5114a64ea2c9b7637b72ab7bc7361">(b) ...para <underline id="underline-7b833744a4f276c64b09f253442aa67a"><italic id="italic-09ecff08b5b0fb76470f4c8d756456b4">o</italic></underline><italic id="italic-b9c39482e5bff3afe28c0e08fc2897f3"> </italic>identificá-<underline id="underline-a611c4793062de501e34b0245f58fbd4"><italic id="italic-6cef15b450a24c26b20aa2dcf863984d">lo</italic></underline><italic id="italic-46ee170fca21f757e0a19e8d8e523209"> </italic>(5ª série)</p>
      <p id="paragraph-9686fb15df5a0f9679204882ec0c7e50">(c) Revistaram-<underline id="underline-870a147d7a69234a11a99bd4961739e8"><italic id="italic-aa6852e5df37002ce1b73f315768ff99">lo</italic></underline>. (5ª série)</p>
      <p id="paragraph-ec78f785d33383d6d5cfd08b883a7f98">(d) ...que <italic id="italic-10da8188a061fa8aa3f7e7026ed62ff0">á </italic>(há) muito tempo não havia (a via). (7ª série)</p>
      <p id="paragraph-14772d6874466e06909279761cb46bdb">(e) ...a moça que descreveu-<underline id="underline-d8b08e911e96cd21337985b9f7d728c4"><italic id="italic-b81ed1955ff5498fcc0446fcc02b029d">a</italic></underline><italic id="italic-2602d6a049ee349f456c55cea9bacd22"> </italic>para o garçon... (universitário)</p>
      <p id="paragraph-6beeae62759598bed898b5eb7fe02588"> .</p>
      <p id="paragraph-319f54567b986129398f39a390305436">Os exemplos (a) e (b) mostram que o clítico <italic id="italic-1b75aea8d741d6ec5f2607925b7e62f1">o </italic>é interpretado como um afixo de concordância reduplicando o pronome objeto. Em (c) temos um problema de realização inapropriada no nível de <italic id="italic-ce84559a5886782c0c37fd2fff92140e">spell- out</italic>. O exemplo (d) mostra um problema de aquisição ortográfica e segmentação do pronome, mas compreensível se a criança interpreta o clítico <italic id="italic-8112336b67f091476d9641eeb5484f22">o/a </italic>como uma flexão. O último exemplo, de um universitário, apresenta ênclise em um contexto em que nem o PE a permite. É comum encontrar ênclise com atratores em escrita de universitários e na fala monitorada de políticos.</p>
      <p id="paragraph-81004a147ac89d9a4ac758067448091f">O trabalho de Corrêa (1991), que procura verificar como o aprendiz adquire, ou melhor, aprende a usar clíticos, pode dar uma ideia de quão bem sucedida é essa aprendizagem. O que é importante nessa comparação é pensar que a criança – que enfrenta a tarefa de ler e escrever textos que obedecem a prescrições que pouca coisa tem a ver com a fala que lhe serviu de input na aquisição – precisa refazer o percurso das perdas com a ajuda da escola. </p>
    </sec>
    <sec id="heading-f9dbdb0e9ac8be6a842289be13c9a786">
      <title>3. Questões de aquisição/aprendizagem linguística</title>
      <sec id="heading-2">
        <title>3.1. Gramática nuclear e Língua-I</title>
        <p id="paragraph-ddbf966236a776a3061a846a8e6470a2">A Língua-I, em Chomsky (1981, 1986), se define por propriedades de dois tipos: (i) aquelas que são invariantes e definem as línguas naturais, mas não as distinguem entre si – os Princípios – e (ii) as que dão conta da variação linguística – os Parâmetros – que podem vir definidos pelo valor (+) ou (–), dependendo do input a que a criança é exposta.</p>
        <p id="paragraph-1f23bb1c5ad24e2def4a8862ad4d6fab">Para Chomsky, quando todos os valores dos Parâmetros estão selecionados como (+) ou (–), temos uma gramática nuclear, virtual, uma idealização. Além disso, uma gramática nuclear pode subjazer a muitas Línguas-I, já queoconhecimentolinguístico nãoéexatamente igual para todos os indivíduos de uma mesma comunidade<xref id="xref-b9e1227aaf06e88295b701e66ff1685e" ref-type="fn" rid="footnote-bd1e8258c7348ba93dba4538442c3505">12</xref>. A Língua-I de cada indivíduo, por outro lado, é constituída de uma gramática nuclear e uma periferia marcada. A periferia, para Chomsky (1981) pode abrigar fenômenos de empréstimos, resíduos de mudança, invenções, de forma que indivíduos da mesma comunidade podem ou não apresentar esses fenômenos de forma marginal.</p>
        <p id="paragraph-650eb6c274e1aa0b080100f92448b3b9">.</p>
        <p id="paragraph-379ceb74b5920a85cc3f474d0d2aa4a7">For such reasons as these, it is reasonable to assume that UG determines a set of core grammars and that what is actually represented in the mind of an individual even under the idealization to a homogeneous speech community would be a core grammar with a periphery of marked elements and constructions (CHOMKSY, 1981, p. 8, grifo meu).</p>
        <p id="paragraph-536c63a9b171e1231052f4af38403ba4"> .</p>
        <p id="paragraph-2317f5dc5847571a020e55ce4ad39902"> Em nosso trabalho, o conceito de periferia será explorado para dar conta da aprendizagem de uma segunda “gramática”, a partir do <italic id="italic-3674d00a0f4770944f363d8a0fbaf7fd">input </italic>ordenado escolar ou da imersão em textos escritos.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-49f82f0be80f4ae96eb5ac701a1c9b72">
        <title>3.2. A aquisição versus aprendizagem de uma segunda gramática<xref id="xref-9210564e9ccb04ee81014a2deac1906c" ref-type="fn" rid="footnote-436690d9753cfc46ee985b2b792bbbfb">13</xref></title>
        <p id="paragraph-219a8426fc1423c813d63dd1ebe232cb">Dada a distância entre a gramática da fala e as normas da escrita, aprender a escrever para a criança brasileira é como aprender uma segunda língua. Além disso, as semelhanças entre “aprendizagem” da escrita e “aquisição de L2” não se limitam ao caso da criança brasileira. As seguintes similaridades entre os dois tipos de aprendizagem podem ser observadas:</p>
        <p id="paragraph-58929916832fd3a98da7f9cfe5a14880">(i) as duas aprendizagens são socialmente motivadas e não biologicamente determinadas<xref id="xref-df56684c943dab554e7b28afe6e4c2e5" ref-type="fn" rid="footnote-37dff940eb1ecc430cb0d0af6bed10be">14</xref>;</p>
        <p id="paragraph-faee6a6b49427c81a8fce3f0241433fd">(ii) nos dois casos, o início da aprendizagem começa, em geral, depois da idade crítica para a aquisição da primeira língua<xref id="xref-88c035be6a56970b208f19ab6f1ce7c3" ref-type="fn" rid="footnote-b952c182f1c6fde08499cc321ae4e0bd">15</xref>;</p>
        <p id="paragraph-5cf2445cc634675f23c52ae275c35f92">(iii) o processo, nos dois casos é, essencialmente consciente;</p>
        <p id="paragraph-499768e0be9ed073f389f0def0bd87b0">(iv) acredita-se, nos dois casos, que o sucesso depende de dados <underline id="underline-a6b9b1c2f5908478c99970de33419e20">positivos</underline> e <underline id="underline-6f38ca2a30998c95fa3ac784bfefb375">negativo</underline>s;</p>
        <p id="paragraph-fa00601a0c6c27f2c19d2718230bb790">(v) em geral, o processo nos dois processos é vagaroso e não instantâneo;</p>
        <p id="paragraph-1b42857445ad1ef16707faf2973f883e">(vi) nos dois casos, há mais diferenças individuais.</p>
        <p id="paragraph-6e0b642f4df2f024cf3a688321d3daf3"> .</p>
        <p id="paragraph-34d5b263bd752a5a9a2fe1d62f92f6bf">Para entendermos a aprendizagem da escrita, podemos indagar, então, se teorias sobre a aquisição de L2 podem nos ajudar. A literatura sobre a aquisição da gramática de L2 apresenta duas hipóteses<xref id="xref-c286e18e253c39a5630d88f25c95b3b9" ref-type="fn" rid="footnote-8bd4d78e7081e6bc650394dcbee61d26">16</xref>: (i) a hipótese do não acesso à GU. Segundo essa teoria, enquanto o aprendiz de L1 parte da Gramática Universal (GU) e atinge a Língua-I por seleção dos valores dos Parâmetros, o aprendiz de uma L2, com exceção do bilíngue simultâneo ou quase simultâneo, não tem acesso à GU, nem direto, nem indireto; a aprendizagem se dá através de um mecanismo multifuncional, seja na visão indutiva, como a de Skinner, na visão social-comunicativa como a de Halliday, ou em uma abordagem de resolução de problema, como a de Piaget. Dentro dessa hipótese, passou-se a distinguir o termo “aquisição” para L1 e “aprendizagem” para L2; (ii) a aquisição de L2, para quem já adquiriu plenamente uma L1, se dá por meio do acesso indireto à GU, através da L1.</p>
        <p id="paragraph-0e7148f182f051ba3d88194bc4395560">Sobre o desenvolvimento do conhecimento da escrita, podemos também levantar duas hipóteses: com relação ao (i) nenhum acesso à GU, como na visão de Lenneberg (1967), adquirir a fala é como desenvolver a capacidade de andar, um fenômeno biológico e aprender a escrever é um fenômeno cultural; (ii) acesso indireto à GU, através da gramática da fala.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-59b6f8764cf9becfe9c9791787eea46a">
        <title>3.3. Defendendo a tese da “aprendizagem” em L2 e em escrita</title>
        <p id="paragraph-737822d2ed7a4948a83c9acf95ab14af">Meisel (1991)<xref id="xref-66d2a09330f415a0f9b0683ab5c36430" ref-type="fn" rid="footnote-c936522684d6a6c3095e98d94c66b387">17</xref> advoga em favor da tese da “aprendizagem” para L2, com base em evidências comportamentais e evidências linguísticas. Do ponto de vista comportamental, a aprendizagem de L2 é mais vagarosa, mais consciente e sensível à correção e a dados negativos. Do ponto de vista linguístico, as propriedades associadas a um único parâmetro não são necessariamente adquiridas juntas como em L1. Sua conclusão é a de que a aprendizagem se dá por regras e não por Parâmetros.</p>
        <p id="paragraph-bca119a4ab172b91a89fd5bad7983beb">Kato (1996) advoga em favor da mesma linha para a “aprendizagem” da escrita; menciona evidências comportamentais – erros de esquiva e hipercorreções – e apresenta evidências linguísticas, a saber, o caso acima descrito, da “aprendizagem” dos clíticos, mas o da “não aprendizagem” do movimento dos clíticos. Sua conclusão é a de que a morfossintaxe aprendida na escola tem <italic id="italic-59adee98770a5ce21d465c8467e17080">estatuto estilístico </italic>e não, gramatical.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-0b51e4319149dbc82c3404eb44a83647">
        <title>3.4. Defendendo a tese do acesso indireto à GU na L2 e em escrita</title>
        <p id="paragraph-300b4b2191e14b1ec46242c43af1c5ae">Mais recentemente, Hershensohn (2000) defende a tese do acesso à GU na aquisição de L2 ao argumentar que (i) os aprendizes adquirem categorias funcionais que não existem na sua L1; (ii) não existe nenhuma gramática intermediária que seja totalmente estranha aos princípios da GU; (iii) os aprendizes exibem conhecimentos que extrapolam o <italic id="italic-16c6f77164b1051cca728e13f2f99c8b">input</italic>; e (iv) em alguns casos, o estágio estabilizado (<italic id="italic-30e514ba1d8886d345535be932fdc79f">steady state</italic>) se assemelha ao do falante nativo.</p>
        <p id="paragraph-2606c8a777b21d50cc8b545bd1527c2c">Herschensohn reconhece que as propriedades paramétricas relacionadas a um mesmo parâmetro não aparecem de forma simultânea na aquisição de L2. Há casos de falantes de espanhol e de francês que aprendem inglês como L2 e que, corretamente, rejeitam sujeitos nulos, mas violam o filtro “<italic id="italic-951409417d0a378a62271c81f4bd171c">that-trace</italic>” (<italic id="italic-1b16805322521ed07737792bffd5445b">who did Bill think that <italic id="italic-58808e4f48186188f82a54abdfd8f218"/></italic><underline id="underline-c4e23a4859709e8e5051331cea33881e"><italic id="italic-8574292c1582905f6131ec54ab38570b"> <underline id="underline-1418387c75c5898af1142082ee7a69b0"/><italic id="italic-fa6b1a1a9b5e0e04a801fade63f25ce3"/><italic id="italic-af993868aeb58cfd4707c1f2cb5deb4b"/></italic></underline><italic id="italic-d6c69cf0474dadf6e1312cad11b0c86d">left?</italic>). Há também casos de falantes de inglês aprendendo espanhol que adquirem a ordem VS e sujeito nulo, mas que têm problema com violações do mesmo filtro “<italic id="italic-a81745422b40dfe78fce77a58b627a18">that-trace</italic>” .A autora invoca as diferenças entreaaquisiçãode L1 e L2 paraexplicaressasdivergências, afirmando que o surgimento do conjunto de propriedades de forma instantânea é característico da aquisição de L1, mas não da aquisição de L2. Esse fato, porém, não significa, para a autora, que os aprendizes de L2 não acessem a GU. Uma vez que o surgimento de um conjunto de propriedades pela marcação de um parâmetro é uma idealização que não está postulada na teoria gerativa, a autora sugere a necessidade de maiores investimentos na pesquisa em aquisição de L2 para que essa controvérsia sobre o surgimento de propriedades paramétricas se esclareça.</p>
        <p id="paragraph-2bc3292ca38702651331fbaecdab2b74">Pensando em uma forma de defender o acesso à GU na escrita, podemos dizer, usando argumentos similares aos de Hershensohn, que a escrita (i) é restrita pelos mesmos Princípios da GU; (ii) faz uso das mesmas categorias e funções (podem ser descritas pela mesma metalinguagem); e (iii) as opções gramaticas nelas presentes são previstas pelos Parâmetros da GU. Podemos dizer, ainda, que a visão “macroparamétrica “– de conjunto de propriedades de um mesmo Parâmetro – vem sendo questionada, sendo a tendência hoje por uma visão “microparamétrica” (Cf. KAYNE, 1996), assentada em subparametrizações ou de tipos parciais dentro de um mesmo parâmetro. Vimos, por exemplo, que o PB deixou de ser um tipo clássico de língua de sujeito nulo, mas em uma perspectiva que admite subparametrizações, as línguas de SN não são uniformes, havendo subtipos bem definidos (Cf. CYRINO, DUARTE &amp; KATO, 2000), em uma relação de subconjuntos, ou ainda a proposta de que existem línguas de sujeito nulo parciais, na visão de Holmberg (2005), caso do Finlandês. Também as nossas crianças aprendendo os clíticos poderiam estar selecionando um subtipo de língua de clítico, sem o movimento longo destes.</p>
        <p id="paragraph-b9f693088187c8d4caa6a7c9fb7d789b">Concluindo, podemos admitir que a mudança no conceito de parâmetro nos leva também a mudar a nossa hipótese em relação ao acesso à GU. A ausência de uma das subpropriedades de um parâmetro pode significar que o aprendiz está operando em um subparâmetro. Quanto às diferenças comportamentais, elas podem ser devidas não ao desenvolvimento da competência, mas ao da proficiência, já que aquela nem sempre se manifesta em termos de comportamento.</p>
        <p id="paragraph-7b7f123f205248d074cd0f8d146e60bc">Além disso, diferenciar a aquisição de L1 e de L2 em função de dados positivos para aquela e positivos e negativos para esta também é um critério problemático. A aquisição de L2 pode se dar por imersão, isto é, por exposição apenas a dados positivos, ou através de instrução, isto é, através de dados ordenados e negativos. A aquisição de L2, por imersão ambiental, e da escrita, via imersão em leitura, certamente apresentarão mais semelhanças.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-3cb98e63c8c047f58ec74212eacf0d5e">
        <title>3.5. Se há acesso à GU, como se dá esse acesso?</title>
        <p id="paragraph-802adb6cff2cd109973939715d40fda6">Admitindoqueasegundagramática, sejaada L2 oudaescrita, érestrita pelos Princípios e Parâmetros da GU, através do conhecimento da L1, ou da gramática da fala em L1, resta-nos compreender como esta serve de base para esse novo conhecimento. Vou utilizar dois autores que apresentam teorias compatíveis para esse entendimento: Roeper (2000) e Silva-Corvalán (1986).</p>
        <p id="paragraph-a8841ba3ab33502adb288c54ee13fd2f">Roeper (2000) propõe a teoria do bilinguismo universal, segundo a qual todo falante é potencialmente bilíngue, isto é, tem condições de ter os parâmetros selecionados nos dois valores, resultando em G1 = Pax e G2 = Pax (1). O bilíngue <italic id="italic-4d0b941cae65e8760ab6e0d8ff362013">stricto sensu </italic>seria aquele que mantém G1 e G2, com o mesmo estatuto, isto é, como gramáticas nucleares distintas, até a idade adulta. Mas a ideia mais forte de Roeper é a do bilíngue latente. Para ele, dos valores de um parâmetro um é o <italic id="italic-9d052abbd726220843d663aa86953f91">default</italic>, que ele chama de “<italic id="italic-7168d44cc35bab50092e49712892729e">minimal</italic><italic id="italic-42ad0362174094b54108b0ac676ebbe7"> </italic><italic id="italic-77b10a8a5fa01b8202135a8ae3574ce1">default</italic><italic id="italic-5583edfefb4050d6950aa2052dc32d2e"> </italic><italic id="italic-827614aadf683a0b1da98a8c88b35473">grammar</italic>” (MDG), definida como a mais econômica.</p>
        <p id="paragraph-7bec4c27b610e845bac5d15fb6c1be91">Essa ideia não é nova entre os psicolinguistas trabalhando com aquisição de L1, mas para estes, se a língua meta não se conforma com esse valor inicial, o parâmetro é refixado. Para Roeper, a MDG, mesmo depois de descartada, permanece latente no conhecimento doindivíduo, podendo ser ativada numa situação de aquisição de uma <underline id="underline-3262c51c129325b6c77a3f06ec9e3844">nova gramática</underline>: Língua-I = (G1) &amp; G2<xref id="xref-8280ab0924468a4e48ad143b2f74fe98" ref-type="fn" rid="footnote-c09697a32d17a172e4e700962a09a93e">18</xref>.</p>
        <p id="paragraph-7fa4d20b08cc6791adaeea36fa1d5efc">O interesse pela proposta de Roeper é que ela pode ser interpretada não só como uma hipótese de acesso total, como também de acesso indireto à GU, através da periferia marcada. Ao contrário do bilíngue <italic id="italic-e763febf01441470ef9958ac41733fa0">stricto sensu</italic>, Roeper considera a situação de um bilinguismo em nível desigual, com G1 na gramática nuclear e G2 na periferia marcada. Essa periferia marcada pode se manifestar por conjuntos lexicais marcados, isto é, itens que não se comportam como os demais em relação a um valor do parâmetro selecionado na gramática nuclear, ou ainda por uma minigramática selecionada por gênero, também distinta da gramática nuclear<xref id="xref-11bf6b9703683bd178f5f687e80f1161" ref-type="fn" rid="footnote-cf5bd9a5bc742c4f9dc8d19b929ed652">19</xref>. Sua conclusão é de que a GU é totalmente accessível não só para projetar novas L2, mas também dentro de uma dada língua, para criar ilhas de variação gramatical, provendo o falante com nuances expressivas.</p>
        <p id="paragraph-134a70cb9cb669849ff3636d17a8149a">A proposta de Silva-Corvalán (1986) para a aquisição de L2 é uma proposta interessante para a hipótese do acesso indireto, especialmente para a aquisição de línguas que apresentam semelhanças com a L1, como é o caso da aquisição da escrita. Silva- Corvalán, que estudou o bilinguismo dos hispânicos na Califórnia, observou que o fenômeno do complementador nulo no inglês é um traço da gramática nuclear (<italic id="italic-a69f7aa80ea0aaf2d24fb3164ceef55c">John said Ø he was coming/the man Ø she loves</italic>) e no espanhol, é um fenômeno periférico (<italic id="italic-6f643fe97bb851bf4fa69ee280fdcbed">Te ruego Ø me lo </italic><italic id="italic-3764e39821b16e49fc5755688080d418">envies pronto/ </italic>* <italic id="italic-ea536c465110f0a70159e9eb39dcc618">Te agradezco el regalo Ø me enviaste</italic>).</p>
        <p id="paragraph-a0f8b017300727fcfe66df6829fbbc85">O que ela propõe é que a aquisição de L2 se dá quando uma propriedade gramatical periférica da L1 é aprendida como tendo o estatuto de uma propriedade nuclear na gramática da L2. Podemos pensar, da mesma forma, que a G2 do letrado, antes caracterizada por propriedades periféricas, passa a ter o estatuto de propriedades nucleares.</p>
        <p id="paragraph-76ee56fe4f4811de8968edaf795acd9f">Temos, portanto, duas hipóteses a considerar para a aquisição de uma “segunda gramática”: (i) o falante letrado tem duas gramáticas nucleares, como um bilíngue <italic id="italic-6f7959cd84605dfb7301c5cc592c5344">stricto sensu </italic>tardio, seja a segunda adquirida via a MDG, na concepção de acesso total de Roeper, ou via a permeabilidade das gramáticas , na concepção de acesso indireto de Silva-Corvalán; (ii) o falante letrado é um bilíngue desigual que tem, em sua Língua-I, uma periferia marcada maior do que a dos não letrados. O termo “desigual” não é de Roeper. Estou utilizando esse termo para esse tipo particular de bilinguismo, que faz alternância de código (<italic id="italic-5ba13a5a56bbddda14c2d3e8108503e8">code-switching</italic>) entre a G1 da gramática nuclear e a G2 na periferia marcada, mas também não exclui possíveis empréstimos.</p>
        <p id="paragraph-6d93096556e7788acc0dc6156f7f4cd0">Contudo, essa G2, na minha concepção, não tem a mesma natureza da G1, sendo constituída de propriedades parciais de uma gramática constituída pela fixação de parâmetros. Assim, ao invés de ser constituída pelo parâmetro do SN, em sua variante prototípica, com as suas subpropriedades, a G2 seleciona apenas a omissão do sujeito logofórico, de uma forma não necessariamente idêntica aos portugueses ou ao falante do século XIX<xref id="xref-d36554e29c2061fa02fb916b82d9b8dd" ref-type="fn" rid="footnote-65894e60a9fb53adfab4846bce200b17">20</xref>. Em relação aos clíticos, conquanto a posição inovadora de sua prefixação ao verbo principal seja a mesma na fala e na escrita, uma regra na periferia marcada determina a ênclise em posição inicial de sentença, um empréstimo da gramática portuguesa.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-a83f57d70ea6a79214bd09cbe42a6038">
      <title>Conclusão</title>
      <p id="paragraph-cf702a291623b3c25681d82047f9b22b">Em suma, apesar de ter mostrado as semelhanças entre a aquisição de L2 e a aprendizagem da escrita, a natureza das regularidades e arbitrariedades observadas nesta última, muito diferentes do que se vê em um bilíngue <italic id="italic-eae4660a65679b9066a7303c4b085de3">stricto sensu </italic>tardio, me fez concluir que a hipótese (i) responde mais pelo conhecimento resultante de L2 enquanto a hipótese (ii) espelha melhor o tipo de conhecimento do letrado. As gramáticas nucleares ficam restritas ao conhecimento accessível a qualquer ser humano, enquanto tudo o que nos diferencia se encontra nessa periferia que expande nossa Língua-I. Embora o que constitui a “G2” tenha parcialmente a natureza de “regras estilísticas”, o fato delas serem selecionadas de um acervo de construções originárias da GU, seja da gramática do falante do século XIX, seja do falante português, faz delas um subproduto da nossa GU.</p>
      <p id="paragraph-bc01eca8c6d7e0e2c22decd747336701">A morfologia estilística, pesadamente presente em línguas como o japonês, está presente no PB, mas, em nossa língua, ainda é confundida com a morfologia gramatical. Assim como a mulher japonesa precisa usar uma elaborada morfologia estilística para soar feminina, e o homem também a usa para tornar seu discurso formal, a criança brasileira precisa ser exposta a um <italic id="italic-3fc9d6b648af0668b9d1647cbff7f606">input </italic>diferente do da aquisição para desenvolver os estilos convencionalmente aceitos na escrita e na fala formal. Até que ponto a escrita deve manter os fósseis como parte da morfologia estilística depende muito da sensibilidade dos escritores para a mudança linguística. Mas a que tipo de texto a criança deve ser exposta nos primeiros anos escolares é uma responsabilidade da escola. A experiência escolar de Graciliano Ramos relatada em seu livro <italic id="italic-260f5c1de78384b3aacb26a441c322b9">Infância </italic>mostra que a manutenção por tempo excessivo dos fósseis pode resultar em uma ruptura entre o que a criança lê e o que ela entende:</p>
      <p id="paragraph-e2cfb8d8eb1ae7050826b1e1dcb644e8">(24)</p>
      <p id="paragraph-292fa727cd8e658a77fe29cd211ae9b2">“Eu não lia direito, mas arfando penosamente, conseguia mastigar os conceitos sisudos: “A preguiça é a chave da pobreza.”</p>
      <p id="paragraph-8c3f8654fc5789f93ddfa50ba853c2f0">– Quem não ouve conselhos raras vezes acerta – Fala pouco e bem: ter-te-ão por alguém”.</p>
      <p id="paragraph-5ce0388529bab1ad71e0adb9af87fe34">Esse Terteão para mim era um homem, e não pude saber que fazia ele na página final da carta.</p>
      <p id="paragraph-852b8756dcfd7b65f46b913d890aeff9">As outras folhas se desprendiam, restavam-me as linhas em negrito, resumo da ciência anunciada por meu pai.</p>
      <p id="paragraph-178075a3fe19e252d36b0304f0bb3a08">– Mocinha, quem é o Terteão?</p>
      <p id="paragraph-bfb145b427a7a8ce7a402f5237e0b962">(Leitura, p.108-9)</p>
    </sec>
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    <fn-group>
      <fn id="footnote-598bcf3090dcb02b4a2a3ce918eacfbc">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-4bb7f94f1684dd6f6060de307f39a207">Língua-I = língua interna, individual e intencional (CHOMSKY, 1986) – cf. §2.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-68f49aff4f3d16653c76007282c44114">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-298c4f251586494f4de966c5f7f8f7b2">Usa-se a tradução “alternância de código” para “<italic id="italic-1b4b6d3beff33d59ecc15de425b87264">code-switching</italic>”, mas prefiro usar o termo original pois a tradução portuguesa não é conhecida.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-90f7fd245b23cdb7c6108c58bbbd0da5">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-5c64fdb7b842135474ee082538af059c">Por enquanto, estamos usando “aquisição” e “aprendizagem” como sinônimos.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-994c352cc53f783088d38afe174248b9">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-8bde3a11a2f4567766521191928069a7">Cf. Pagotto (1993) e Cyrino (1993, 1997) sobre a diacronia dos clíticos.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-3d6ac2d7786a7df45f27cbb5d40d35cb">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-010db132059f14a72703ed9c5d393b7d">Para Kato (1994), os pronomes <italic id="italic-9b78a0dd96a65d4a457f71be1c79260d">ele, ela, eles e elas </italic>são redobros do clítico. Os dois nascem juntos e depois o clítico nulo se cliticiza ao verbo.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-61747065aa19da47f61f2bfcd9832fbb">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-e5dbcd7d9c12388d4a05019893c38aca">O PE tem o que se chama “objeto nulo”, mas esta entidade é uma variável sujeita, portanto, a efeito de intervenção. Já no PB, o clítico nulo tem estatuto de concordância (Cf. KATO, 1994; NUNES, 2015), ou seria resultado de elipse de VP (CYRINO &amp; MATOS, 2002).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d5cdb05b4e7a8f382e0cf92e26d32f16">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-e1ceb67626c15b4683fa890bad9766d3">Nunes (1991) mostra que a perda do passivo <italic id="italic-f95194190d83ddf50c03213902bec843">se </italic>vem antes do indeterminador <italic id="italic-f3a135c54cacc39c5007587206fe5415">se</italic>. A perda</p>
        <p id="paragraph-c6007ea027335324ba5d7550091d4826">do reflexivo não é tão generalizada, mas conforme verbo e função podemos ouvir o nulo em várias regiões:</p>
        <p id="paragraph-319771cfa0f3f98ac3da1332dfcebc6c">(i) Eu % (me) banhei.</p>
        <p id="paragraph-01cbc6cea340c5a630529fc822a80949">(ii) Eu (me) machuquei.</p>
        <p id="paragraph-a5ef55d07136bb6bf184a49143474ee5">Para Kato &amp; Tarallo (1986), a perda é mais generalizada, dando origem ao tipo (10c).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-0366848aedcd5be0c92e3fd2c386b496">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-a8e969be611ed768bbab5deea95225cc">O sinal % que precede exemplos sinaliza baixa percentagem.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-9977b16e2a0a028676ab852e800528b3">
        <label>9</label>
        <p id="paragraph-6027ba346d9d9243ef8213b582c999bd">O nome nu é um traço do PB que contribui para a falta de concordância.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-b9f01ae04fca9c65c591d1ee28f74bca">
        <label>10</label>
        <p id="paragraph-582129b8c14823cf085f9e851e0ebbbf">Cf. Kuroda (1972) para a distinção entre “tético” e “categórico” e também Kato &amp; Martins (2016) sobre essa distinção no português.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-3bea40348cda46c8f57df7ff1098fe72">
        <label>11</label>
        <p id="paragraph-ba500aa4d8bd309c5ff06cae98133122">Cf. também Kato, Cyrino &amp; Corrêa (2009).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-bd1e8258c7348ba93dba4538442c3505">
        <label>12</label>
        <p id="paragraph-da232c9a85a04486b7dbfcd9c4892f15">Não estamos nos referindo aqui à <italic id="italic-669cf60e785a08eba3c0e992e76bedc4">proficiência</italic>, que tem a ver com habilidades de uso da língua, riqueza de vocabulário, fluência etc.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-436690d9753cfc46ee985b2b792bbbfb">
        <label>13</label>
        <p id="paragraph-67b57d02aa51b2aa5c59f3f4a3c235d0">As seções seguintes se baseiam em Kato (1995) e (1996).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-37dff940eb1ecc430cb0d0af6bed10be">
        <label>14</label>
        <p id="paragraph-a5d459d3ffa1e467487f21034b4b7b2a">Lenneberg (1967) argumenta que há muitos indivíduos iletrados ou monolíngues no mundo, mas que todos os homens têm a capacidade de falar desde que haja <italic id="italic-426ef3c404a44eb8c74db67aaeb2f6a8">input</italic>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-b952c182f1c6fde08499cc321ae4e0bd">
        <label>15</label>
        <p id="paragraph-df0b540fd7251db36e25b56fba5047d4">Acredita-se que a idade crítica para a aquisição da língua seja por volta dos seis anos, mas Kato (2003) discorda desse ponto de vista.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-8bd4d78e7081e6bc650394dcbee61d26">
        <label>16</label>
        <p id="paragraph-342a61b046acf1f8727145d6442acd26">Uma terceira hipótese, a do acesso total, que não vê diferença entre L1 e L2, pode ser considerada para o bilinguismo precoce, quase simultâneo, que não seria o caso da aquisição da escrita. Veremos também essa hipótese quando discutirmos as ideias de Roeper (2000) mais adiante.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c936522684d6a6c3095e98d94c66b387">
        <label>17</label>
        <p id="paragraph-f224b8450ab0b96f0d05f653e522c778">Em trabalho posterior, todavia, Meisel (2000) passa a advogar em favor da tese do acesso indireto.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c09697a32d17a172e4e700962a09a93e">
        <label>18</label>
        <p id="paragraph-01a84be08e9347deb906c516f9d1cac7">Mas note-se que sua proposta da MDG exclui a aquisição de uma segunda gramática, em uma situação em que a L1 se conforma com a MDG, e a segunda gramática é a menos econômica.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-cf5bd9a5bc742c4f9dc8d19b929ed652">
        <label>19</label>
        <p id="paragraph-256ab4453268e675df20592a7b19951c">O exemplo de Roeper para o falante de língua inglesa é o sujeito nulo em diários, e o objeto nulo em receitas de cozinha (cf HAEGEMAN, 1991)</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-65894e60a9fb53adfab4846bce200b17">
        <label>20</label>
        <p id="paragraph-95b382bc0e665b32d5e7e20ce2eccffa">Cf. o estudo de Barbosa, Duarte &amp; Kato (2001).</p>
      </fn>
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