<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Archiving and Interchange DTD v1.2 20190208//EN" "JATS-archivearticle1.dtd">
<article xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" xmlns:ali="http://www.niso.org/schemas/ali/1.0">
  <front>
<journal-meta>
<journal-id journal-id-type="nlm-ta">Revista da Abralin</journal-id>
<journal-title-group>
<journal-title>Revista da Abralin</journal-title>
</journal-title-group>
<issn pub-type="epub">2178-7603</issn>
<publisher>
<publisher-name>Associação Brasileira de Linguística</publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
    <article-meta>
      <article-categories>
        <subj-group>
          <subject content-type="Artigo">Tipo de contribuição</subject>
        </subj-group>
      </article-categories>
      <title-group>
        <article-title>O LÉXICO FURTADO DO PASSADO, NA <italic id="italic-2782d6b3634b2a0cb92bd81bca22dc2c">HISTÓRIA DO FUTURO</italic>, DE ANTÔNIO VIEIRA</article-title>
      </title-group>
      <contrib-group content-type="author">
        <contrib id="person-71c4f6076e03355fef20f58671fe1237" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="yes" deceased="no">
          <name>
            <surname>Machado Filho</surname>
            <given-names>Américo Venâncio Lopes</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-5d318f3ecd1b1301722a42d8047c6f3e" />
        </contrib>
        <contrib id="person-0aa9f7ab7e12502824e2448f9e140d52" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="yes" deceased="no">
          <name>
            <surname>Oliveira</surname>
            <given-names>Ingrid Gonçalves de</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-5d318f3ecd1b1301722a42d8047c6f3e" />
        </contrib>
      </contrib-group>
      <contrib-group content-type="editor">
        <contrib id="person-9286186168f9b4043d6f4fe5b29ac843" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="no" deceased="no">
          <name>
            <surname>Baronas</surname>
            <given-names>Roberto Leiser</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-3e0c4968b8244f8fcb0c42cd55c434dc" />
        </contrib>
        <contrib id="person-b440f499f040def0687b1267bc088549" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="no" deceased="no">
          <name>
            <surname>Wachowicz</surname>
            <given-names>Tereza Cristina</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-77c97da0e4af9ea5661947464e9533ab" />
        </contrib>
        <contrib id="person-996a29d1986e0109fe3d73943039c64b" contrib-type="person" equal-contrib="no" corresp="no" deceased="no">
          <name>
            <surname>Pagani</surname>
            <given-names>Luiz Arthur</given-names>
          </name>
          <xref ref-type="aff" rid="affiliation-77c97da0e4af9ea5661947464e9533ab" />
        </contrib>
      </contrib-group>
      <aff id="affiliation-5d318f3ecd1b1301722a42d8047c6f3e">
        <institution content-type="orgname">Universidade Federal da Bahia (UFBA)</institution>
      </aff>
      <aff id="affiliation-3e0c4968b8244f8fcb0c42cd55c434dc">
        <institution content-type="orgname">Universidade Federal de São Carlos</institution>
      </aff>
      <aff id="affiliation-77c97da0e4af9ea5661947464e9533ab">
        <institution content-type="orgname">Universidade Federal do Paraná</institution>
      </aff>
      <pub-date date-type="pub" iso-8601-date="26/04/2017" />
      <volume>16</volume>
      <issue>2</issue>
      <fpage>87</fpage>
      <lpage>104</lpage>
      <page-range>87-104</page-range>
      <permissions id="permission">
        <license>
          <ali:license_ref>http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/</ali:license_ref>
        </license>
      </permissions>
      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-8eac09756906815f57ab339ec921fe7d">Busca-se, neste trabalho, investigar, do ponto de vista histórico-diacrônico, o léxico empregado por Vieira em sua obra História do Futuro, observando o grau de vitalidade de que se possam ter revestido seus usos lexicais no passar temporal dos quase trezentos anos que separam sua </italic>
          <italic id="italic-5c3fef2bd179b2034262e73b87a8b523">obra do presente-futuro atual. Procura-se identificar que itens lexicais, presentes em sua obra, ter-se-iam obliterado no emprego coloquial da língua portuguesa no futuro inacabado em que se transformou a História que projetou construir, seja do ponto de vista do desuso vocabular, seja sob a ótica de mudança de traços semânticos, isto é, os níveis de conservação e (ou) inovação da carga sêmica da unidade avaliada, em relação à contemporaneidade.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="_paragraph-2">
          <italic id="italic-1">This work aims to investigate, under a </italic>
          <italic id="italic-2">historical and diachronic perspective, the lexicon employed by Vieira in his History of</italic>
          <italic id="italic-3" />
          <italic id="italic-4">the Future, observing the degree of</italic>
          <italic id="italic-5" />
          <italic id="italic-6">vitality that may </italic>
          <italic id="italic-7">have coated his uses after nearly three hundred years that separates his work from the current </italic>
          <italic id="italic-8">present-future. It seeks to identify which lexical items presented in his work may have been </italic>
          <italic id="italic-9">obliterated in colloquial Portuguese language, from the point of</italic>
          <italic id="italic-10" />
          <italic id="italic-11">view of</italic>
          <italic id="italic-12" />
          <italic id="italic-13">vocabulary disuse and </italic>
          <italic id="italic-14">even from the optical of semantic features switchings, i.e. the levels of conservation and (or) </italic>
          <italic id="italic-15">semic load innovation related to contemporaneity.<italic id="italic-16"/></italic>
        </p>
      </abstract>
      <kwd-group>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-643ad763844f492711215408d703f971">Antônio Vieira</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-756415da1862ee3fabcc9c7031baff1d">Archaism</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-ff3f82e19a0a84ca1d09967b7bd34b0a">History of the Future</italic>
        </kwd>
        <kwd content-type="">
          <italic id="italic-c45238b410bdf9c9930c85292405f954">Lexicon</italic>
        </kwd>
      </kwd-group>
    </article-meta>
  </front>
  <body id="body">
    <sec id="heading-1">
      <title>Preâmbulo</title>
      <p id="paragraph-2">Um dos expoentes intelectuais de seu tempo, homem de produção bibliográfica intensa, assaz polêmico, o padre Antônio Vieira tem sido constante foco de interesse e de observação por parte de historiadores, biógrafos, linguistas e pesquisadores de várias áreas do conhecimento, que veem a sua <italic id="italic-d769d4c5961c448b61cb51f31b3a279f">opera omnia </italic>como fonte inestimável de estudo sobre aspectos de natureza social, cultural, teológica, filosófica, linguística ou literária, de todo o período que compreende sua longa existência, de 89 anos, que se estendeu, praticamente, por todo o século XVII.</p>
      <p id="paragraph-3">O volume de trabalhos até hoje publicados sobre sua vida e espólio intelectual é, certamente, vastíssimo e qualquer lista que se apresente deve-se ter, sempre, como incompleta, e, consequentemente, como meramente especulativa.</p>
      <p id="paragraph-4">Vieira é um ícone da intelectualidade humana. Estudar seu legado, compreender sua visão de mundo, “ouvir” sua linguagem, são formas de se procurar reconstruir, através de indícios, mesmo os mais parciais, a mentalidade e o entendimento de uma época.</p>
      <p id="paragraph-5">Dentre as obras produzidas por esse grande pensador, a <italic id="italic-ec27f3ec7e3529157d86ea76367179d4">História do </italic><italic id="italic-88db941a9fe993197062868e7ece31d1">Futuro</italic>, de título instigante e de teor profético, foi uma das que mais tempo parece ter consumido de seu autor, tendo sido iniciada no ano de 1649, antes mesmo do período que antecedeu a sua reclusão pela Inquisição, vindo a ser apenas publicada no ano de 1718, constituindo-se em testemunho valioso do ponto de vista histórico-diacrônico.</p>
      <p id="paragraph-6">Na censura introdutória a esse trabalho o frei Joseph de Sousa, um dos dois qualificadores do Santo Ofício designados para avaliação do texto que se iria publicar, propugna, citando Santo Ambrósio, que “a penna, &amp; a lingua daõ a conhecer o entendimento do seu Author” (<italic id="italic-f24d27c35298f64fbe8ee4075229aad3">apud <italic id="italic-c5ab26d5166f4375cc0b85cf906fa7c4"/></italic>VIEIRA, 1718: 3) e ao emitir seu parecer, que autorizaria a impressão da obra em questão, conclui, afirmando que a lingua, &amp; a penna deste admiravel Heroe foraõ taõ elegantes no concerto, &amp; tão fermosas no ornato, que singularmente unicas na idea, na proposição, no discurso, ambas lográraõ inaccessivel fortuna (Id.ib.).</p>
      <p id="paragraph-40df5440f0a78cd6bab29b7fe1780bc0">Essa singularidade, enfaticamente única, de Vieira (1718) se vê logo denunciada no Capítulo I dessa obra, quando propugna que a “sciencia dos futuros (...) he a que distingue os Deoses dos homens” (p. 2) e, por isso, procuraria com seu trabalho “satisfazer poys à maior ancia desse apetite” (p. 8) – que se diga o do homem-deus –, não escrevendo “historias do passado para os futuros” (p. 8), mas a historia “do futuro para os presentes”. Algo ainda bastante inusitado mesmo para as ideias do presente, em que o anterior futuro de Vieira hoje se transformou. Afinal, não teria sido aquele futuro uma sucessão multidimensional de presentes, observados pela distância histórica de quem se veria novamente no presente? Não estariam, ao fim e ao cabo, passado, presente e futuro indissociadamente unidos para quem lê sua <italic id="italic-3071a1486adafa8635d0d3eb1e47ccfa">História </italic>hoje?</p>
      <p id="paragraph-f76989e5ce429463c17611660f732613">Filosofias à parte, para além da força retórica da obra vieiriana, que não seriam, pois, seus usos linguísticos para as referências do século XVII, inícios do XVIII, senão uma representação autêntica do que se elegeria como norma para o português da época? Não seria seu dialeto histórico – comum às classes dominantes que tinham na forma e na obediência aos condicionamentos das “regras da escrita” – o corolário ou “apogeu” da língua e o esteio em que sobrevivem hoje muitas de suas escolhas lexicais?</p>
      <p id="paragraph-7">Nesse sentido, pretende-se, neste trabalho, perscrutar o léxico com que Vieira constrói a rede textual de tão intrigante raciocínio, procurando identificar que itens lexicais, presentes em sua obra, ter-se-iam obliterado no uso coloquial da língua portuguesa no futuro inacabado em que se transformou a <italic id="italic-fa598b5f869b20d3580015ac378012b7">História </italic>que projetou construir.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-ca23418ecd685ebb7b1c9062fa3d2348">
      <title>1. Sobre a noção de arcaísmo</title>
      <p id="paragraph-3a490fcb7c83b1b88a3876bc919c6cd5">A mudança linguística, objeto teórico da Linguística Histórica <italic id="italic-d043fbc2d667d1eba1c64a51b998f2d2">stricto sensu</italic>, pode, certamente, ser melhor observada no âmbito da fonética, da fonologia, da morfologia e da sintaxe, mas ao se considerar o léxico e seu estudo, há de se concordar com Antunes (2012: 49), quando conclui, tomando de empréstimo o verso de Manoel de Barros, que “Só as palavras não foram castigadas com a ordem natural das coisas”. Seria dizer que o léxico, por sua característica volátil, por seu comportamento imprevisível e flutuante, seria conjuntos de elementos linguísticos que “continuam com seus deslimites” na história, (BARROS, 1998 <italic id="italic-a2b04da0517f221284ccc7ab1fca587e">apud </italic>ANTUNES, 2012: 49), ou seja, o léxico reafirma-se no caráter paradoxal que assume</p>
      <p id="paragraph-8">in the process of a language’s identity construction. If, on one hand, it keeps the secular extension of its most distant etymological sources, which have solidified themselves in their historical basis, on the other, it allows <italic id="italic-bd844faa4e9d2676f2bdea237795bc24">the new </italic>to intervene due to cultural or linguistic contacts that this same language in use is exposed to and to neological processes awoken by the expressive necessities of speaking communities (MACHADO FILHO, no prelo).<xref id="xref-71a7f048b7ff7489117fa090384d407b" ref-type="fn" rid="footnote-eefa955493f81cfc560331e9b79b71a3">1</xref></p>
      <p id="paragraph-2de5d30467a4cf9b5c47b14ce2b5fb4d">Do ponto de vista da lexicologia histórica como se poderia medir, então, a mudança lexical, com base nesse axioma?, já que, como se afirmou, seria o léxico “a parte da língua que primeiramente configura a realidade extralinguística” e, ainda, o repositório em que se “arquiva o saber linguístico duma comunidade” (VILELA, 1994: 6).</p>
      <p id="paragraph-4e07a1a40eb162349e1e9825c965d91b">Como assegurar que unidades lexicais estão ou podem ter caído em desuso?, se se acredita que, apenas pelos dicionários ou através do levantamento de documentação remanescente, se pode certificar, no máximo, que um dia pudessem ter sido registradas pela escrita, mas jamais assegurar sua produtividade sincrônica.</p>
      <p id="paragraph-7a0ff8686edc69d34b766847ce47aa40">Discorda-se do que pensa Ferraz, quando afirma que seria “a obsolescência de unidades que caem em desuso” (FERRAZ, 2006: 221) “facilmente observável”. Ao contrário. A possibilidade de se atribuir um caráter inovador ou arcaizante em Linguística não parece nada “facilmente observável”, pois subjaz impositivamente à subjetividade e ao grau de erudição do pesquisador. Como asseverar que um item não seria mais utilizado em uma dada sincronia, se diferentes falares insistem em surpreender o investigador em pesquisas dialetológicas coetâneas, como se pode exemplificar com o conhecido caso de “sarolha”, na Bahia, já tão discutido por Cardoso e Rollemberg (2009)?</p>
      <p id="paragraph-3e67f8c23b56b256cf5731451594cdc1">Inobstante essa dificuldade de ordem metodológica que poderia mesmo inviabilizar qualquer tentativa de observação do arcaísmo léxico na história, o certo é que é este um conceito caro à Lexicologia e tem produzido importantes trabalhos sobre o português, em Portugal e no Brasil.</p>
      <p id="paragraph-82de098978ca611e8d4d78f9d8b51956">Já está em Fernão de Oliveira (1536 [2000]: 49), primeiro gramático da língua portuguesa, a ideia de “dição velha”, “as que já foram usadas, mas agora são esquecidas”, em oposição a “dição nova”.</p>
      <p id="paragraph-553ffee3e0b738ab2ae3ecaf8ac6ba58">Mattos e Silva (2009: 19), confrontando os exemplos apresentados por Oliveira em sua obra, comprova que uma “dição nova”, em algum momento do tempo pode passar a ser um arcaísmo, ou como preferiria Oliveira, uma “dição velha”. Diz a autora que sendo assim</p>
      <p id="paragraph-59360e7d14dec452066b24d6c00e23f0">neologismos e arcaísmos são conceitos relativos em relação ao tempo histórico das línguas e em relação aos seus referentes externos − as coisas/objetos. Desaparecendo e reaparecendo, as palavras continuam suas histórias, a depender da história dos falantes das línguas (MATTOS E SILVA, 2009: 19).</p>
      <p id="paragraph-9f2c3262c8c2f356d2feacd9f54068cc">Essa dinâmica no inventário lexical é entendida por Verkuyl et al. (2003: 301) como se houvesse</p>
      <p id="paragraph-d5bb697a1ec75540e5f45a87950ba224">two ways for a word to lose its firm position in the standard language: (a) the word has been pushed aside by another word; or (b) people no longer speak about its referent.<xref id="xref-7ebf4e8691f20bdcff7ee02329c1d288" ref-type="fn" rid="footnote-da4fb29bc8ba767be3542d6240543fb3">2</xref></p>
      <p id="paragraph-189b9d9d72af25d67327d1a6dc9b73f0">Afinal, Wartburg e Ullmann (1969: 149) já tinham afirmado que o “destino de uma palavra, sua floração e proliferação, seu declínio e sua morte, estão em grande parte condicionados por suas relações com o seu meio”, fazendo com que não seja a coisa em si que muda, “mas sim o sentimento e a atitude dos homens em relação a ela” (p. 150).</p>
      <p id="paragraph-03da0de460359f93b26a1cb82c7add9a">Embora sejam essas possibilidades dois importantes contextos para a obsolescência lexical, não se podem descartar os casos em que o neologismo semântico possa levar uma lexia a se transformar em arcaísmo, pois passaria, na verdade, a impor a uma dada unidade lexical uma obsolescência significativa, mantendo-lhe a forma cristalizada, mas expurgando-lhe parcialmente ou totalmente a sua carga referencial.</p>
      <p id="paragraph-99d0e6493898d521c73c2e29118a92d3">Exemplo disso pode ser o que foi apresentado por Machado Filho (no prelo):</p>
      <p id="paragraph-8b4ee24fd9d3f219a6b5ff0bb201a58e">The history of Portuguese is full of semantic neologisms and any list would be incomplete here. However, a great example is the verb <italic id="italic-5b815483adce9eb6dfbf9d6b763f16c4">falecer</italic>, which was used in Portuguese of the archaic period long before Portugal landed in Brazil, with the etymological sense of ‘missing’, ‘exhausting’, inherited from Latin *<italic id="italic-f3af01920522c7504cd7f8494f0bde77">fallescere</italic>, as shown by the excerpt from a medieval Flos Sanctorum, “entrou no celeiro e vyo que o pã <italic id="italic-13c6901cc6cb01575aabfa245c5a7eff">falecia</italic>” (MACHADO FILHO, 2014: 229), i.e. “vio que <italic id="italic-ca48cba81c1dbc03283e8b527422dd1a">faltava </italic>pão” but that, in our times, restricts its semantic load to ‘die’ in all the language varieties, at least as far as it is known.<xref id="xref-4673624cccdfdbcd20a30bdd6f7e57a3" ref-type="fn" rid="footnote-eed689bb2e29e9e995711741f6dcb997">3</xref></p>
      <p id="paragraph-b5a576e5371b0ddd8990173dae17dec3">Ademais, é importante observar que os “caminhos percorridos por certos vocábulos são muita vez rodeios” (Cf. VASCONCELOS, s/d: 285), isto é, para além de terem sido conformados por processos históricos de mudança, em que regras constantes teriam atuado para sua conformação – como o caso metaplásmico das lexias <italic id="italic-5a9bc50bffab8001c5edb98139cbe40a">chão </italic>ou <italic id="italic-05977a866857cb31b6029a2416d586a8">brinco</italic>, que advieram, pelo uso, ou seja, pela fala, de seus étimos latinos <italic id="italic-b1f5f05c72d84e73561669ecd88b7555">planu- </italic>e <italic id="italic-271623fb83dee6e63a66bce765136d6c">vinculu-</italic>, disputam ambas, atualmente no português, vitalidade com os mais recentes empréstimos <italic id="italic-c6b4b3ae6993bf2c544be33c93f72a5c">plano </italic>e <italic id="italic-8229e531b070b6400d9e269025ec4c43">vínculo</italic>, tardiamente introduzidos na língua, através de contato cultural, com o, já então morto, latim, durante o Renascimento.</p>
      <p id="paragraph-60ae483906fd201a5629e8b5c243c431">Logo, ao se proceder qualquer estudo sobre arcaísmos, convém que, para além da baixa ou falta de frequência, no uso coetâneo, da lexia identificada no <italic id="italic-691e2be641912b5a4258ced9632d0897">corpus </italic>de análise como inusitada (seja por substituição formal por outras unidades, seja pela ausência de referente), se levantem os níveis de conservação e (ou) inovação da carga sêmica da unidade avaliada, em relação à contemporaneidade, não se esquecendo de verificar possíveis “reclusões” dialetais, caracterizadoras do que se convencionou chamar de “léxico das normas” (Cf. MACHADO FILHO, no prelo), como o caso de <italic id="italic-bee574dcdb3bda89077c652b48a1f4ad">sarolha</italic>, antes referido.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-56f2e0bc2cdf32bd2f587e88a12c169d">
      <title>2. O léxico furtado: os caminhos da mudança</title>
      <p id="paragraph-263b51c5ddf4d9e9d4cd20c9deeacc83">A ruptura com as delimitações temporais simplistas na <italic id="italic-0b85192a3d5bc2c7477fad7cabe103ca">História do Futuro</italic>, no dizer de Quadros (2012: 182), ultrapassa as noções de tempo passado e futuro em termos puramente lineares. A flexibilidade temporal de Vieira garante ao passado e ao futuro um “certo paralelismo e uma relação complexa de causalidade”, já que “as interpretações construídas do tempo estão baseadas, sempre, no presente” (QUADROS, 2012: 183). Dessa maneira, a obra de Vieira, como já mencionado, não é uma “história do passado para os futuros”, como normalmente escrevem os historiadores, mas uma “história do futuro para os presentes”.</p>
      <p id="paragraph-aac76c6ae6b64ed54c84728950adfaf4">Busca-se, então, do ponto de vista linguístico, lançar um olhar de um outro e renovado presente em direção ao presente-passado de Vieira, com o intuito de verificar a vitalidade das formas lexicais documentadas em sua obra no uso coloquial do português contemporâneo.</p>
      <p id="paragraph-802dba2df7a3510dce1d7c75bb7523c7">Veem-se, assim, os arcaísmos linguísticos como resultados do fluir natural das línguas, cuja causalidade se dá por intermédio de diferentes processos de mudança. Na perspectiva semântica, ou seja, das flutuações significativas de restrição, ampliação ou espessamento dos sentidos, considera-se que</p>
      <p id="paragraph-3a867c7cecf751dfca83af7b435af460">não seria, então, exato tratar as palavras como signos que desaparecem de uma vez. Tal palavra, no seu sentido próprio, pode depois de muito tempo cair no esquecimento e sobreviver, entretanto, em uma acepção desviada (BRÉAL, 1992: 105).</p>
      <p id="paragraph-f989790e20a6914333f2796454ef2a3d">Nessa direção, para classificação dos arcaísmos, considerou-se, sobretudo, a manutenção e (ou) alteração da carga sêmica de cada unidade vocabular, documentada no <italic id="italic-ad6fd88b7d70c8c88eb38b82ef8bfac0">corpus</italic>, assim como a sua vitalidade nas diferentes normas lexicais vigentes na contemporaneidade. Para tal, toma-se como base para a verificação do registro das unidades lexicais o <italic id="italic-39b6fa6a4e0064f39153bce63867f000">Novíssimo Aulete dicionário contemporâneo da língua portuguesa </italic>(AULETE, 2011), sem deixar de recorrer a outras fontes, para melhor controle.</p>
      <p id="paragraph-b6634b2e9e0c30dc0e749cf8c1085144">Ressalta-se, no entanto, que a dicionarização da lexia não constitui fator determinante para a garantia de vitalidade da forma, fato atestado por Ullmann (1964: 83), ao afirmar que “na página escrita ou impressa, ele [o homem] depara com palavras claramente delimitadas como elementos distintos, e, no dicionário, encontra-as no estado <italic id="italic-b87501a2818c8524fb90613fa0d54c41">puro</italic>, libertas de associações contextuais”, ou seja, isola-se o contexto e classificam-se as palavras como entidades independentes, cada uma com seu próprio significado ou significados.</p>
      <sec id="heading-13555dd9ef4cfd3c13a8456c03d0d5be">
        <title>2.1 A lexia não se encontra registrada no dicionário-base da pesquisa</title>
        <p id="paragraph-5fc69eb87c5e2b8c556855391935629c">De acordo com o que se pôde levantar, a partir da <italic id="italic-d1bd4fb740ac2ddb1e4fe14148550f3e">wordlist </italic>gerada após a fragmentação do texto, através do <italic id="italic-d6fb9b62dadcd3b4988606fe47a3da6a">WordSmith 4.0</italic>, dos signos lemáticos considerados passíveis de se constituírem em desusos contemporâneos, apenas três não figuram como entrada no dicionário geral consultado, conquanto mantenham todas registro em outros dicionários de língua. Isso comprova o caráter relativo de que se reveste o conceito de arcaísmo, anteriormente referido.</p>
        <p id="paragraph-7295adfddfeecf9479016526a8fc8c59">A primeira delas é <italic id="italic-8edfd4823a2befd534e3ec4cc2233bd9"><bold id="bold-1">assenso</bold></italic>, do latim <italic id="italic-d8cc8da39754d69e094afb8935260265">assensu-, </italic>empregada por Vieira com o mesmo sentido etimológico de ‘concordância’, ‘assentimento’, no seguinte contexto: <italic id="italic-0f87fb30518c872ad849652f9900ac90">“</italic>E pois pedimos aos leitores o <bold id="bold-2">assenso </bold>da fé, justo é que lhes mostremos primeiro os motivos da credulidade<italic id="italic-29bdcae6688fb6381f75c17975c662ad">”</italic>.</p>
        <p id="paragraph-3e9c720a5032114987f056fc4eb9ebec">O mesmo se pode dizer da forma conservadora <italic id="italic-db3900cc14435e2c9050e399f4d04b73"><bold id="bold-3">sinalado</bold></italic>: <italic id="italic-4ad01ff0fa645c460a038c0fc8d2da91">“</italic>Finalmente, a investigação, desde tão apetecido segredo foi o estudo e disputa dos maiores e mais <bold id="bold-d6829e0363117d345dcc38581443205d">sinalados </bold>filósofos<italic id="italic-ab0f8b9805bea64ecbf7a1f350fa6a18">”</italic>, no sentido de ‘insignes’, ‘ilustres’, variante salvaguardada na história por Vieira, antes da difusão do formato protético <italic id="italic-f5af5e8bb5204d0f2356f5e72d403918"><bold id="bold-72f1aaa94c758b650feaaf15aa1c0c4e">assinalado</bold></italic>, que se venho estabelecer no português, preferencialmente, desde talvez o tão conhecido primeiro verso camoniano, do Canto I, de <italic id="italic-2af4fbbc5c0b573c01ca07d9fbf90242">Os Lusíadas</italic>: “As armas e os barões <bold id="bold-ada5e3a6b82048485ea2d7d53d6785b7">assinalados</bold>” (CAMÕES, 1582: 11).</p>
        <p id="paragraph-049cdd6bc98e53f584b9d049b3012ba5">É essa uma prova da incoerência com que se tem deparado o padrão linguístico na história. Enquanto algumas próteses, epênteses ou paragoges conseguem sua legitimação e, consequentemente, aceitação na norma padrão, outras, decorrentes das mesmas tendências e dos mesmos processos são, hodiernamente, consideradas “erros” linguísticos, especialmente aquelas que advêm da fala de normas populares, como <italic id="italic-b54a8158a6f5d2045dffa6e4e1a6ef45">avoar </italic>ou <italic id="italic-3a81ac6d3ba54fee499f08ae587b6bc9">arrecife</italic>, que, embora dicionarizadas, continuam a sofrer o peso do estigma social, quando utilizadas.</p>
        <p id="paragraph-7e2cde61c7df6e80fd2e3627406b40be">Por fim, o último arcaísmo não encontrado no dicionário de base corresponde à unidade lexical <italic id="italic-e017f951c996c9005cc7699a03a2370c"><bold id="bold-4">baxá</bold></italic>, documentado no <italic id="italic-9ab06a52ced7765b55ce8788e9fdb494">corpus </italic>no seguinte contexto: <italic id="italic-dfd803c761ac86ee3db4511eff83db31">“</italic>Porque eu em Turquia, se defender a Fé, serei mártir; se renegar, far-me-ão <bold id="bold-5">baxá</bold>: e em Castela, Monsieur, nem <bold id="bold-6">baxá </bold>nem mártir<italic id="italic-c5480b4f4c5393b11a00eda3b7edc1d3">”. </italic>Esse item, etimologicamente relacionado ao árabe <italic id="italic-c313feb48ced1020280c42c2142fd4ee">basha</italic>, é uma variante de <italic id="italic-a0849f2c7173e74851ce43f1e25308bd"><bold id="bold-7">paxá</bold></italic>, ‘governador’, ‘vizir’ ou correlato, mas que teve seu sentido estendido figurativamente para ‘homem que tem diversas amantes’. Talvez se possa imaginar a razão.</p>
      </sec>
      <sec id="heading-eebcca0d7676b66f14e1d8abea4afc95">
        <title>2.2 A lexia se encontra registrada, mas é preferencialmente substituída por outra, hoje</title>
        <p id="paragraph-59e4fa7cc5f050011df89b7a3ae12a69">Nota-se, no grupo de lexias que a seguir se apresenta, que quase todas as unidades se encontram dicionarizadas com carga sêmica igual ou semelhante àquela empregada por Vieira. No entanto, ao considerar sua vitalidade no vocabulário dos falantes do português contemporâneo, percebe-se que outras unidades lexicais figuram com maior produtividade em substituição às formas mais antigas.</p>
        <p id="paragraph-deb24feda70a75b0d7a6e6e72bdfaa11">Bréal (1992: 107), ao questionar “por que uma locução pode ser mutilada sem nada perder de sua significação?”, afirma que uma</p>
        <p id="paragraph-405367329453f2b3c88eb8bab05f1a6a">causa muito freqüente de polissemia, causa que escapa a todas as previsões e a todas as classificações, é a redução. Ocorre, por exemplo, que de duas palavras primitivamente associadas uma é suprimida (BRÉAL, 1992: 107).</p>
        <p id="paragraph-e2e6323606630138162f09a0bcab522d">De acordo com o autor, tal qual um herdeiro que, instantaneamente, toma posse de um bem até então indiviso, “o último sobrevivente sucede a toda uma locução, e absorve-lhe o sentido” (p. 107). Claro que muitas permanecem no léxico passivo da língua, mesmo porque “a mão do vento pode erguê-la ainda”, como diria Fernando Pessoa (PESSOA, 1977: 83).</p>
        <p id="paragraph-65f140b7c976848b8a566d2b47b56ae0">Os arcaísmos dessa natureza documentados e os seus equivalentes atuais são os seguintes: <italic id="italic-47b094a2fa809a9408a89e994a99c9c1"><bold id="bold-44a4404653d214731b13d723a41679cd">aquentar </bold></italic><italic id="italic-19489642576e6d71bb28ec57ee1f13f5">&gt; aquecer, esquentar</italic>; <bold id="bold-c052ae3b664c035a8c687fa6c4880d94"><italic id="italic-a8337bbb6754514a4c693df952c13098">caliginoso </italic></bold><italic id="italic-9c81b1324efaf200ed411daf3a89cdfd">&gt; </italic><italic id="italic-b8a16383f7d0d8496e7bb880e52b1d85">tenebroso</italic>; <italic id="italic-72714b62fb100c95db9bcfb750869baa"><bold id="bold-6379e343841a242866999e66fe171cc6">defensa </bold></italic><italic id="italic-5a7f6c67aeed466579f3f113e773fcbf">&gt; defesa</italic>; <bold id="bold-f40d38a18d1764e1e949a66dfe690573"><italic id="italic-d7ccc5d020089bf79b69a660d4311bf7">desesperação </italic></bold><italic id="italic-ddca3b90e9dbc58a598e2694c0e9102d">&gt; desespero</italic>; <italic id="italic-61f15ef5d164d2c3c0ee754de5460bb8"><bold id="bold-e749d93b6ab59a351a2e0c8b43c0cb6f">despegar </bold></italic><italic id="italic-45fc48b629d3208b4834165bcd7885cd">&gt; afastar, separar</italic>; <italic id="italic-cf4a375b8514a0d95a49c89e8625b02e"><bold id="bold-258eccc916cc8987b9eaf7d2db5643cd">deprecação </bold></italic><italic id="italic-dac605b59da37e0f76a58bf5516ccadf">&gt; </italic>rogativa; <bold id="bold-1514a24597c91c32a7667d78ea5e3ef2">dilação </bold><italic id="italic-775d97878eab3599f41e090c12996b1e">&gt; adiamento, prorrogação</italic>; <italic id="italic-5ef6e2ee330514ce73788be5c9e8a5fc"><bold id="bold-8">douto </bold></italic><italic id="italic-84783a11401d31a74cb05befb882719d">&gt; culto, erudito</italic>; émulo <italic id="italic-17">&gt; antagonista, competidor, rival / <bold id="bold-9">emulação </bold>&gt; competição, </italic><italic id="italic-18">concorrência; <bold id="bold-10">escuridade </bold>&gt; obscuridade</italic>; <italic id="italic-19"><bold id="bold-11">escusar </bold></italic><italic id="italic-20">&gt; justificar, dispensar, prescindir</italic>; <italic id="italic-21"><bold id="bold-12">fealdade </bold></italic><italic id="italic-22">&gt; feiura, monstruosidade; <bold id="bold-13">grada </bold>&gt; grande, graúdo</italic>; <bold id="bold-14"><italic id="italic-23">granjear </italic></bold><italic id="italic-24">&gt; </italic><italic id="italic-25">conquistar, obter</italic>; <italic id="italic-26"><bold id="bold-15">inchação </bold></italic><italic id="italic-27">&gt; inchamento, inchaço</italic>; <italic id="italic-28"><bold id="bold-16">limada </bold></italic><italic id="italic-29">&gt; corroído, desgastado, </italic><italic id="italic-30">carcomido</italic>; <italic id="italic-31"><bold id="bold-17">mancebo </bold></italic>&gt; <italic id="italic-32">jovem, moço, rapaz</italic>; <italic id="italic-33"><bold id="bold-18">manear </bold></italic><italic id="italic-34">&gt; manejar, manobrar; <bold id="bold-19">menoscabo </bold>&gt; desdém, desprezo; <bold id="bold-20">morgado </bold>&gt; cansado, exausto, adormecido; <bold id="bold-21">penha </bold>&gt; penedo, penhasco</italic>; <italic id="italic-35"><bold id="bold-22">perfídia </bold></italic><italic id="italic-36">&gt; deslealdade, falsidade, traição; <bold id="bold-23">portento <italic id="italic-37"/><bold id="bold-24"/></bold></italic><italic id="italic-38">&gt; maravilha, milagre, prodígio.<italic id="italic-39"/></italic></p>
      </sec>
      <sec id="heading-ed386954e326d65fb399c7ae825c6efe">
        <title>2.3 As pessoas não mais falam sobre seu referente</title>
        <p id="paragraph-11">Quanto ao exame do grupo de arcaísmos relacionados à cultura material em que a ausência dos referentes funciona como possível fator motivador para o desuso das formas linguísticas a eles vinculadas, Ullmann (1964: 106), ao discorrer sobre a importância da recuperação do contexto para a semântica histórica, ressalta que o “significado completo e o tom de certas palavras só podem ser captados se os colocarmos de novo no contexto cultural do período”. No que tange às lexias empregadas como designação para objetos da cultura material, não se pode deixar de considerar o caráter religioso da obra e a constante referência ao contexto das campanhas militares.</p>
        <p id="paragraph-2478fa7c3962c7223b0fc0db400eb6d8">A observação do processo de mudança semântica, na esfera da cultura material, encontra valiosa contribuição na teoria dos campos, pois permite captar não apenas a evolução isolada de cada palavra, mas fornecem também preciosas pistas para interpretação do contexto histórico-cultural como um todo. Como bem aponta Ullmann (1964):</p>
        <p id="paragraph-952ebe1668238035cadd481a954628b8">Um campo semântico não reflecte apenas as ideias, os valores e as perspectivas da sociedade contemporânea; cristaliza-as e perpetua-as também; transmite às gerações vindouras uma análise já elaborada da experiência através da qual será visto o mundo (ULLMANN, 1964: 523).<xref id="xref-f31d6e415ecc4a08992bc9510e196ff7" ref-type="fn" rid="footnote-817d730a3ef5872c936189c77424138c">4</xref></p>
        <p id="paragraph-0a4f17d2660d4f59586588b264a012ec">Encontra-se outra valiosa contribuição no método proposto por Matoré (1953 <italic id="italic-7d3ac383fc22b1a1833f7957819ab9b2">apud </italic>ULLMANN, 1964) ao focalizar, com maior ênfase, os aspectos sociais e propor os conceitos de <italic id="italic-2799a35ecfa58663f30e2b7fb58d2f38">palavras-testemunhas </italic>– <italic id="italic-fea6e1b9ed807dac192cef780b258b76">mots- témoins – </italic>e de <italic id="italic-ce0380347f1e2b866b33474d8aeca6de">palavras-chave </italic>– <italic id="italic-df5355c04a7849ad86c5f64a69ea8cf7">mots-clés – </italic>para descrever a estrutura social de um período específico partindo do seu vocabulário:</p>
        <p id="paragraph-61716eae87c6c8ba128d27805c062229"> Nous nous proposons de considérer le mot non plus comme un objet isolé, mais comme un élément à l’intérieur d’ensembles plus importants, que nous classons hiérarchiquement en partant d’une analyse des structures sociales<xref id="xref-e642dc34dfcbd981eacbee17292af4f8" ref-type="fn" rid="footnote-544af26ed7fe9517bf31e9eb2b9435b8">5</xref> (MATORÉ, 1953 <italic id="italic-673a77751003c14fb488cc0f72a7534b">apud </italic>ULLMANN, 1964: 526).</p>
        <p id="paragraph-f85bb6d5a0bbf2441ebcb8395938663a">Nota-se, nessa direção, uma maior produtividade na obra de Vieira das <italic id="italic-8bbe60bb995bcf03befbe61509862f51">palavras-testemunhas</italic>, circunscritas aos objetos pertencentes à esfera religiosa e militar, como se pode depreender a partir dos contextos discursivos originais nos quais estão inseridas as lexias a seguir elencadas e acompanhadas pelas respectivas definições presentes no dicionário geral consultado.</p>
        <p id="paragraph-39963f70551b571599a6b098e4ccb2fd">Ao campo das formas lexicais vinculadas ao contexto militar associam-se as lexias <italic id="italic-6eb3edeb540e72a8b1e5ff1ca9c2707b"><bold id="bold-a2e4ba133062d0d9a1a3ede0862d5f82">acha </bold></italic><italic id="italic-a5148549c24cd9573ccbccf36ee74eff">&gt; </italic>‘arma usada antigamente, com o feitio do machado, também chamada acha de armas’<italic id="italic-dd51ec817f59ab5c4fa2ced53b776c18">; <bold id="bold-6679c6dbda62b9d6341859a33a5b7c7f">aríete </bold>&gt; </italic>‘na antiguidade e na Idade Média, engenho bélico de formato fálico e extremidade anterior de bronze, para arrombar grandes portas e muralhas, em movimentos para frente e para trás’; e <italic id="italic-32e4ad742ab6a282fd82c96e045eab19"><bold id="bold-aedbf3a8d4a3f4d3ad0891411f8df826">estipêndio </bold></italic><italic id="italic-741a14ab47bd93a07c1d8032c2f2d546">&gt; </italic>‘antigamente, remuneração paga a indivíduo que se incorporava ao exército, soldo’.</p>
        <p id="paragraph-18e5762cd78c01e3fc626234b3300f0f">Em relação à esfera religiosa, identificaram-se as lexias <italic id="italic-1001e5ddb3500cdae405e4dbbaee79a1"><bold id="bold-969eb916e6dd8488ac238c19a2f149fd">bago </bold></italic><italic id="italic-9cd020a968b6b3e613e73de0b77af2d7">&gt; </italic>‘antigo eclesiástico, o mesmo que báculo &gt; bastão alto com a extremidade superior curva, usado pelos bispos como símbolo de sua missão pastoral’, e <italic id="italic-76c7d41aaab272565609b6c52044c120"><bold id="bold-9704792b2f7a6088debbcd61230ecc4a">peanha </bold></italic><italic id="italic-f41f2384555c5d83ce926c3a470e52c8">&gt; </italic>‘pequeno pedestal para colocar imagem, busto, estátua, cruz’.</p>
        <p id="paragraph-87c9ae5924915251113640bc258064d1"> Além das formas vinculadas aos campos religioso e militar, aparece a lexia <italic id="italic-aef74595f743567f00b8ebd36fc6b5e0"><bold id="bold-a68ef43ac0ce8b833c4b369f0380227b">paço </bold></italic>&gt; ‘1. Palácio de rei, imperador ou bispo. 2. A corte de um rei ou imperador. 3. Nome dado a certos palácios usados como residência oficial ou como sede oficial’, forma que se fixou na língua como resultado dos processos metaplásmicos próprios que se manifestaram na passagem do latim para o português arcaico, ou seja, a queda do -<italic id="italic-9ad40c151663681d78c424afc903f3ff">L</italic>- intervocálico, resultando em hiato, depois desfeito por crase, a africação e posterior fricatização do -<italic id="italic-a24788b840cb65e4fd84517a12f49511">ti</italic>- latino, que seja <italic id="italic-b7eb6bd961bf9b445a60b544223c4473">palatium &gt; paaço </italic>&gt; paço.</p>
        <p id="paragraph-a2300e820250260619461b451844a49a">Observa-se como o desaparecimento dos referentes conduz ao desuso das formas linguísticas a eles vinculadas, ressaltando, mais uma vez, a necessidade de recuperação do contexto para captação das nuances de significado, tendo em vista que:</p>
        <p id="paragraph-ce1eae61913513b7ef82dc14c798b10b">Cada época tem as suas ideias próprias; é preciso também que tenha as palavras apropriadas a essas ideias. As línguas são como o mar, oscilam incessantemente. [...] Tudo o que as suas ondas assim abandonam, seca e apaga-se do solo. É deste modo que algumas ideias se extinguem, que algumas palavras desaparecem (VITOR HUGO, 1936: 211 <italic id="italic-e359c0e16c3452eeb5a1fb5b9709a6ae">apud </italic>ULLMANN, 1964: 308).</p>
      </sec>
      <sec id="heading-b2ee0981d2d0e762298924676bfbf122">
        <title>2.4 A lexia permanece em uso com sentido diverso</title>
        <p id="paragraph-dad366591ba2617a864463f1dd332b32">Dentre os variados processos de alteração semântica propostos por Bréal (1992), para a categoria dos arcaísmos que permanecem em uso com sentido diverso, localizaram-se, no <italic id="italic-5330e6c046666a8f35e801d5d5a0aac8">corpus, </italic>processos de restrição, ampliação e espessamento de sentido. Buscou-se verificar, seguindo a proposta de Bréal (1992),</p>
        <p id="paragraph-ff7232683d29071419016e5c408fa1ca">por que as palavras, uma vez criadas e providas de um certo sentido, são levadas a restringi-lo, a estendê-lo, a transportá-lo de uma ordem de idéias para outra, a elevá- lo ou rebaixá-lo em dignidade, em resumo, a mudá-lo (BRÉAL, 1992: 77).</p>
        <p id="paragraph-10">Para o processo de ampliação de sentido localizou-se no <italic id="italic-6614a4ec76520d4a0cba40b8e678c2ae">corpus </italic>a forma <italic id="italic-320e77a9b58bd2ab473a311833785cfc"><bold id="bold-65bb2847de82d022897731aad7b9fc08">arraiais</bold></italic>, empregada, na obra de Vieira, para designar antigos acampamentos militares, com uso corrente na atualidade como designação para ‘lugar onde se realizam festas populares, especialmente juninas’, ou ainda, como ‘cidade muito pequena, povoado’, sendo esta última de uso pouco corrente na língua.</p>
        <p id="paragraph-bb9f6f893873b7477c27ab5eedc537ec">Já as formas <italic id="italic-3cadf268e3929b67962218fe3790e19d"><bold id="bold-305c2ec720314e30ea52cc4fd8535da5">desembaraçada </bold></italic>e <italic id="italic-3b3dc8d866c4bc94a0b2b918a6951745"><bold id="bold-862ddf3a4880c3b0ca0a2bc02ac1eb09">embaraçado </bold></italic>configuram-se como indicativas de prováveis processos de restrição de sentido, uma vez que, na obra vieiriana, a unidade lexical <italic id="italic-f989fc1530ed1d1ac6723c38c5c29963"><bold id="bold-3a5dfced706032a3ab83226850c0254b">embaraçado </bold></italic>é empregada com o sentido geral de ‘portar’, ‘segurar um objeto’, restringindo-se, no uso contemporâneo, ao significado mais específico vinculado à ideia de algo ‘1. Que se embaraçou, se misturou desordenadamente. 2. Que se mostra complicado, difícil. 3. Que está incomodado, constrangido, um tanto envergonhado, acanhado’.</p>
        <p id="paragraph-23552ea883b421845fead438f7b51f46">O mesmo se aplica para a forma oposta <italic id="italic-dce9880bc75191c0beff6bbb8b296189"><bold id="bold-15feb966431683d1cecbcfc7c095af56">desembaraçada</bold></italic>, utilizada, atualmente, de maneira mais específica, para designar aquilo ‘de que se tiraram os nós ou o embaraço’ e empregada por Vieira com significação mais geral, designando o ato de destituir-se, liberar-se das armas.</p>
        <p id="paragraph-ad3a8d3037709e953e2b00ff73383759">A lexia <italic id="italic-067c2835a5396189222abeeabad0f2b1"><bold id="bold-44286736241a82932d351f53b853047d">mezinha</bold></italic>, do lat. <italic id="italic-a2f9e11fddaf29b0b072fbf923d087ab">medicina</italic>, aponta, também, para um provável processo de restrição, utilizada por Vieira para designar qualquer tipo de remédio – “E assim como eles não tinham outra mezinha na sua dor senão a esperança”, figurando, na contemporaneidade, como indicativa da “reclusão” dialetal pertencente ao léxico das normas, ao referir-se, de maneira específica, a ‘remédio caseiro’, preparado, geralmente, por curandeiros.</p>
        <p id="paragraph-80d1a07904559a12c75eb5a266115775">A lexia <italic id="italic-75f5e9a746a4cb58cb9e9040d8bfbd4a"><bold id="bold-f36263052152c24f0c65fcfddcf4acb6">fábrica</bold></italic>, por sua vez, constitui-se como um processo de espessamento do sentido em que se passa do significado mais geral e abstrato – ‘1. Por extensão, local onde algo se origina ou se desenvolve, origem, causa. 2. A composição, índole ou estrutura de qualquer coisa’ – para o emprego mais específico e concreto no uso corrente – ‘1. Ação ou resultado de fabricar. 2. Instalação industrial em que se usam máquinas e mão de obra para transformar matéria-prima em produtos (bens de consumo ou de produção)’.</p>
      </sec>
    </sec>
    <sec id="heading-337ace68fcaf3b544f72668d5d6e2792">
      <title>Considerações finais</title>
      <p id="paragraph-035e179e79aed10b34d11125e9605a8b">Esta investigação sobre léxico e arcaísmo em Vieira demonstrou o caráter inapropriado do léxico para a circunscrição temporal da mudança linguística. Enquanto se possa observar, através do espólio documental remanescente e com uma certa margem de certeza, um momento da história em que possam ter ocorrido determinadas alterações morfológicas, morfossintáticas e sintáticas em uma língua, a avaliação do grau de obsolescência do léxico será sempre imprecisa e conjectural, pois, como bem assinala Piel (1989[1976]: 9), “nunca será possível reconstituir todas as fases por ele percorridas e destrinçar a contribuição das muitas gerações que nele colaboraram”.</p>
      <p id="paragraph-a6e87e3d6b2a4bd1968e5d2ab27a0e02">A <italic id="italic-29d94909453266a62b369c97c62aa3ec">História do futuro </italic>é, como o léxico, uma história atemporal. Uma história sem gênese, com que se furtou o léxico no passado, desterrou-o em um outro presente, disponibilizou-o, na aspereza física da escrita, para o futuro, que em um momento haverá de ser novamente passado.</p>
      <p id="paragraph-d112e02887a5909c86d0d7b20c214d31">Não obstante, serviu este trabalho para registrar um pouco desse movimento no português e, em especial, para rememorar uma parte de uma narrativa tão fantástica que foi a obra do padre Antônio Vieira.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-bbd77571b987a2897c3b633cc33e78c4">
      <title>Referências</title>
      <p id="paragraph-a283c7b82b9582129f1ea9a14043ff19">ANTUNES, Irandé. <bold id="bold-274aee803f0099ec35bab684bf5e31ec">Território das palavras</bold>: estudo do léxico em sala de aula. São Paulo: Parábola, 2012.</p>
      <p id="paragraph-7a11e9340508713e8edcc729ea0d9fa3">AULETE, Caldas. <bold id="bold-46b9bc384e865f0f1725b84f449b92ad">Novissímo Aulete dicionário contemporâneo da língua portuguesa. </bold>GEIGER, Paulo (Org.). Rio de Janeiro: Lexikon, 2011.</p>
      <p id="paragraph-f08499e9ac459fb283f0f9ae462419b8">BRÉAL, Michel. <bold id="bold-31116e309d6ba99266ba6a3439e0bc2d">Ensaio de Semântica</bold>: ciência das significações. Trad. Aída Ferrás et al. São Paulo: EDUC, 1992.</p>
      <p id="paragraph-840e018717ae97440fffcfa12fb82db7">CAMÕES, LUÍS Vaz de. <bold id="bold-1e46c20879a8eb726f074aa44d0618db">Os Lusíadas</bold>. Barcelona: RBA, 1995 [1572].</p>
      <p id="paragraph-9bb07d7c09e4f6294a8b2d696c2d8acc">CARDOSO, Suzana; Rollemberg, Vera. <bold id="bold-29d6c08fc8dd3e646b449874ca195d26">E a (nossa) terra continua sarolha?</bold>. In: RIBEIRO, Silvana et al. (orgs.) <bold id="bold-07d62df47698c2de957d60a5d5f425b1">Dos sons às palavras: nas trilhas da língua portuguesa</bold>. Salvador: Edufba, 2009, p. 263-281.</p>
      <p id="paragraph-d0eb6b4d293e30530527ecbed4ec4cef">FERRAZ, Aderlande Pereira. A inovação lexical e a dimensão social da língua. In: SEABRA, Maria Cândida (org.). <bold id="bold-e57636ce29607f1d5bb801b6c0970891">O léxico em estudo. </bold>Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, 2006, p. 217-234.</p>
      <p id="paragraph-c5f4d028255c0bccf129847fe3972437">MACHADO FILHO, Américo. <bold id="bold-7c97933d657f32576b431c764114c376">The history of the lexicon</bold>. In: KABATEK. Johannes; SIMÕES, José; WALL, Albert (eds.). <bold id="bold-007d6906c5ddd14bb440da879367c30b">Manual </bold><bold id="bold-99eed09d7c383628538d72eb2103b2fb">of Brazilian Portuguese Linguistics. </bold>Berlin, Boston: De Gruyter Mouton, no prelo.</p>
      <p id="paragraph-9">MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. <bold id="bold-966d1462e495a4e25f5f880c39cb5ac3">O conceito relativo de neologismo </bold><bold id="bold-937066b649176914a29c2ae40b130cc8">e arcaísmo: </bold>um estudo pancrônico. In: OLIVEIRA, Klebson et al. (orgs.). <bold id="bold-80dcb449d4b8c8e2c6499bc701232e02">Do português arcaico ao português brasileiro: </bold>outras histórias. Salvador: EDUFBA, 2009, p. 11-20.</p>
      <p id="paragraph-1fa20bf5306b28e74f704fbb45e7933b">OLIVEIRA, Fernão de. <bold id="bold-54916c84f3f2ac217a6985ea6f5cb814">Gram</bold>á<bold id="bold-f4304721532eeb263ffbb321cb0eb6a0">tica da linguagem portuguesa</bold>: Edição crítica, semidiplomática e anastática de Amadeu Torres e Carlos Assunção. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1536 [2000].</p>
      <p id="paragraph-12">PESSOA, Fernando. <bold id="bold-d084310b9d5d2904e2a65fddc7a47502">Obra poética</bold>. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977. PIEL, Joseph-Maria. Origens e estruturação histórica do léxico português. In: <bold id="bold-a6293e1aaa11a53eb5b2d3816bb75e70">Estudos de Linguística Histórica Galego-Portuguesa</bold>. Lisboa: IN-CM, 1989[1976], p. 9-16.</p>
      <p id="paragraph-16">QUADROS, Eduardo Gusmão de. O tempo messiânico e tempo histórico: uma crítica da neuezeit. <bold id="bold-10614172403b8be192b6e1ce3f23387e">Revista Mosaico</bold>. 2012, v. 5, n. 2, jul./dez. p. 181-189.</p>
      <p id="paragraph-6aa220d0b8658df6faad64b4240c147e">STERKENBURG, Piet van (Ed.). <bold id="bold-edbe1467d4b1857e5c26ee4b8ecfb434">A</bold><bold id="bold-028cca175600a225902c6ebdc5d5c965"> </bold><bold id="bold-de0607d5159c43493b40ac2ad8092e8c">practical</bold><bold id="bold-71ce771bd50cd2327454721af2fc7c65"> </bold><bold id="bold-a700b501f0ada4cf72aefa9dbb087349">guide</bold><bold id="bold-2fcb12c96ccf30fd0f3792a046bffc91"> </bold><bold id="bold-409c8b4e8604ad6774c670cdc92a8906">to</bold><bold id="bold-73b7f00644f5d19d670b94b0d167d4ea"> </bold><bold id="bold-209848ffddc5636dbc69f3860d2615c4">lexicography</bold>. Amsterdam: John Benjamins, 2003, p. 297-311.</p>
      <p id="paragraph-28602c2501d1f46a163c6020aeab0121">ULLMANN, Stephen. <bold id="bold-bad81d7eb8615743c5fb4586557cd85e">Semântica: </bold>uma introdução à ciência do significado. Trad. J. A. Osório Mateus. 4 ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1964.</p>
      <p id="paragraph-474478e2eaaae0878fdb3a78e7e887fc">VASCONCELOS, Carolina M. <bold id="bold-f2085793d3e81870eefb7781b76748af">Lições de filologia portuguesa: </bold>segundo as prelecções feitas aos cursos de 1911/12 e 1912/13, seguidas das lições práticas de português arcaico. Lisboa: Dinalivro, s/d.</p>
      <p id="paragraph-75ca778ddfd2e8a2875f8ba078a553da">VERKUYL, Henk; JANSSEN, Maarten; JANSEN, Frank. The codification of usage by labels. In: Sterkenburg, Piet Von. <bold id="bold-af143d240317536848cd115022fc5635">A practical </bold><bold id="bold-b9f2b92514068c9a6e150c48fe7b033b">guide to lexicography. </bold>Amsterdam: John Benjamins, 2003.</p>
      <p id="paragraph-f17a0c85de3e2332db888e9da218cf90">VIEYRA, ANTONIO. <bold id="bold-25c379acf589785059b97447f3b6fd0c">História do Futuro: </bold>livro anteprimeyro, prologomeno a toda a história do futuro, em que se declara o fim, &amp; se provão os fundamentos della; Materia, verdade, et utilidade da história do futuro. Belém: SECULT/IOE/PRODEPA, 1998 [1718]. 379p.</p>
      <p id="paragraph-3be45d9e4b2c9c13c294c7ff3d5e8736">VILELA, Mário. <bold id="bold-2deaa84ed186c6d674f4d14ab935e518">Estudos de lexicologia do português</bold>. Coimbra: Almedina, 1994.</p>
      <p id="paragraph-c988b3fcd9d598d9a1f4daebdea351ca">WARTBURG, W. VON y ULLMANN, S., <bold id="bold-63f42819a346d123c65366ccb058d179">Problèmes et méthodes de </bold><bold id="bold-9fc1d91898d4bf2694c24cd4fceed3e7">la linguistique</bold>, 3ª ed., Paris: PUF, 1969.</p>
      <p id="paragraph-0d7b6a47cbcfbd9c4babf34963c36f80" />
      <p id="paragraph-c62895e53b69f1fdd009dd6695366be5">Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016.</p>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-eefa955493f81cfc560331e9b79b71a3">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-26deb5cc21ead043f66d7b3a0a3a4d0e">Trad.: no processo de constituição identitária de uma língua. Se, por um lado, mantém a prorrogação secular das mais distantes fontes etimológicas que se solidificaram em seu esteio histórico, por outro, permite que o <italic id="italic-fb1f17722c5e2e3899bd98f89d76db67">novo </italic>se interponha, em função dos contatos culturais ou linguísticos a que essa mesma língua em uso se possa submeter e em razão de processos neológicos, despertados por inusitadas necessidades expressivas das comunidades de fala.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-da4fb29bc8ba767be3542d6240543fb3">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-00082d4855a49ff60416bc3023bd1a4a">Trad.: duas formas para que a palavra perca sua posição na língua padrão: (a) a palavra foi substituída por outra palavra; ou (b) as pessoas não mais falam sobre seu referente.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-eed689bb2e29e9e995711741f6dcb997">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-c2df62d0fc57ef8ec2e6179cf449a0b9">Trad.: A história do português está repleta de neologismos semânticos (...;) é um ótimo exem- plo o verbo <italic id="italic-544b9a3faaf9e2fd3d9616190929123c">falecer</italic>, que era utilizado no período arcaico do português muito antes de Portugal desembarcar nessas margens, com o sentido etimológico de ‘faltar’, ‘esgotar’, herdado do latim *<italic id="italic-13a05c65af6fcb840077c768ce068191">fallescere</italic>, como comprova o excerto de um <italic id="italic-8fc6d9cdb3f2751b287f20e24f0ed09c">Flos Sanctorum </italic>medieval: “entrou no celeiro e vyo que o pã <italic id="italic-d2e0f34ca8ea735089ecdd0ff2363d2a">falecia</italic>” (MACHADO FILHO, 2014: 229), ou seja, “vio que <italic id="italic-9c258af57b74cfdfc717625b9059986a">faltava </italic>pão”, mas que, hodiernamente, restringe sua carga semântica a ‘morrer’ em todas as variedades da língua, pelo menos até aonde se tem notícia.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-817d730a3ef5872c936189c77424138c">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-ea519c67f2a183bdbec156d7cfd13669">Chama-se aqui atenção para o termo campo semântico utilizado por Ullmann, no sentido em que, para a lexicologia contemporânea, seria melhor a utilização do termo campo conceitual, para evitar possíveis confusões com o que se tem entendido por campo semântico, isto é, as diferentes possibilidades significativas que um determinado item lexical pode comportar em relação a seus contextos de uso.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-544af26ed7fe9517bf31e9eb2b9435b8">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-fff2c734833866a1cc6e1df682e82015">Trad.: Propomo-nos considerar a palavra, não já como um objeto isolado, mas como um elemento no interior de conjuntos mais importantes, que classificamos hierarquicamente, partindo de uma análise das estruturas sociais.</p>
      </fn>
    </fn-group>
  </back>
</article>