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<journal-title>Revista da Abralin</journal-title>
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        <article-title><italic id="italic-c9f12fc41215faa78261c05ab96fea3a">XÍCARA</italic>: DO NÁUATLE AO PORTUGUÊS DO BRASIL</article-title>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">
          <italic id="italic-0d6c34784fecb13004e1e24b61ba29e4">Este artigo tem por objetivo fazer um levantamento das informações disponíveis sobre a palavra xícara, com o intuito de conhecer sua origem e o caminho que o vocábulo percorreu até ser adotado, pelo português do Brasil, para designar o recipiente usado para servir, normalmente, bebidas quentes, como chá ou café. Para tanto, foram consultados dicionários de uso do português e do espanhol, além de dicionários etimológicos nas duas línguas e também em italiano, e textos sobre língua e cultura náuatle. Também foram consultados corpora do português e do espanhol disponíveis em rede e, como resultado, foi possível traçar o percurso e a difusão da palavra xícara. Porém muitas informações importantes ainda não foram encontradas, o que abre precedentes para novas pesquisas sobre o assunto. Apesar de não termos conseguido todos os dados almejados, concluímos que a busca pela origem e pelo étimo da palavra é, sem dúvida, um exercício que aumenta o conhecimento não só das línguas, como também de aspectos culturais de diferentes povos que interagiram entre si.</italic>
        </p>
      </abstract>
      <abstract abstract-type="executive-summary">
        <title>Abstract</title>
        <p id="_paragraph-2"><italic id="italic-1">This article aims to make a brief survey of the available information about the word </italic>xícara <italic id="italic-2">(“cup”) in order to learn its origin and the way that the word has come to be adopted in </italic><italic id="italic-3">Brazilian Portuguese to designate the container used to serve normally hot drinks, like tea or </italic><italic id="italic-4">coffee. Therefore, we consulted Portuguese and Spanish dictionaries, in addition to etymological <italic id="italic-0d373bdb1969c38bf5762856f077066c">ones in both languages and in Italian, and texts about Nahuatl culture and language. We also consulted Portuguese and Spanish corpora available on the Web. As a result, it was possible to learn more about the word </italic>xícara<italic id="italic-120bf236f5a927a7cb1e57972fff1970">, but a lot of important information is still </italic><italic id="italic-aae1d0fc49252bcae16aef531053155c">missing, opening precedent for further research on the subject. Although we have not achieved </italic><italic id="italic-80d1905b6d90b7643125f82b83d7e768">all the desired data, we conclude that the search for the origin and etymology of </italic>xícara <italic id="italic-3e458fbc3fdd4cd8251a207834fcf9da">is certainly an exercise that increases knowledge not only of language but also of cultural </italic><italic id="italic-6">aspects of different people.<italic id="italic-5"/><italic id="italic-7"/></italic></italic></p>
      </abstract>
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          <italic id="italic-240c06170d113f15b0025959f2ddd4a9">Castillianism</italic>
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          <italic id="italic-58f33d7e72e428b2e07249065aa7b6da">Castillianization</italic>
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          <italic id="italic-93fb29f0a56735d3f245de9323726980">Etymology</italic>
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          <italic id="italic-9b1a9cd851c208bacf873d98d5ede7df">Brazilian Portuguese lexicon</italic>
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          <italic id="italic-7b62d47666cc894a74ae502252357111">Nahuatlism</italic>
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        <kwd content-type=""><italic id="italic-b9577f1aecd985955de2efa9bc0c3227">Word </italic>xícara</kwd>
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    <sec id="heading-1">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-2">Malkiel (1996: 155-163) aponta alguns fatores que levam à existência de tão poucos estudos etimológicos: predomínio de estudos sincrônicos, de um modo geral; a ausência de teoria bem embasada; a perda do prestígio desses estudos; o alto grau de subjetividade na área; a consciência da complexidade das inter-relações quando do aparecimento de um lexema; a necessidade de um olhar crítico a toda análise etimológica anterior; entre outros. Ademais, como deixa clara a leitura de Viaro (2013), as informações etimológicas das línguas em geral são importantes para os estudos diacrônicos, e mesmo os sincrônicos. Viaro (2014: 231), ainda, ressalta que a “pesquisa etimológica é particularmente útil na questão dos ‘falsos amigos’, nos quais se revelam mudanças semânticas importantes para o ensino de língua”. Ou seja, a etimologia pode ser de grande ajuda para esclarecer a existência dos diferentes significados de palavras com grafia ou pronúncia semelhantes e proporcionar uma melhor compreensão do léxico. Sentimo-nos, assim, motivados a iniciar nosso estudo.</p>
      <p id="paragraph-15c6cb56aa8816d6c2327117e737a636">Os brasileiros utilizam o vocábulo <italic id="italic-d9a95e77a608f1cd979fa49004d56e09">xícara </italic>que, apesar de ser de origem diversa das palavras correspondentes em outras línguas latinas como o espanhol <italic id="italic-57bbc6c84a498a40528552bb70945362">taza </italic>ou o francês <italic id="italic-ef80dcc8d6d309f08e5b50a8da7d76b7">tasse, </italic>e até mesmo da palavra usada pelos portugueses, <italic id="italic-059f45e47d481b85862271b99485b5d6">chávena</italic>, assemelha-se muito a outro vocábulo, o espanhol <italic id="italic-40f2feb408ae5e7896c145f2bd426e83">jícara</italic>, um tipo de vasilha pequena, de louça, ou uma cabaça, feita com o fruto da árvore <italic id="italic-48bcbeaf2914f8ae831cfbaacf97de67">Crescentia cujete </italic>(<italic id="italic-5ce89a91c8d1c31481b5cb7575cecfe0">DRAE</italic>). O que motivou este trabalho é o desejo de compreender essas semelhanças e diferenças entre o espanhol e o português e como o vocábulo <italic id="italic-8">xícara </italic>veio a ser adotado pelo português do Brasil. Com essa finalidade, decidimos trabalhar com os pares de falsos cognatos português <italic id="italic-9">xícara </italic>e espanhol <italic id="italic-10">jícara</italic>, tendo-se como arcabouço teórico-metodológico Viaro (2104) e Durkin (2009).</p>
      <p id="paragraph-3">A fim de conhecer melhor o caminho percorrido pelo vocábulo xícara do náuatle até o português do Brasil, organizamos o nosso texto da seguinte maneira: após esta breve introdução, discorremos sobre dois processos/fenômenos relacionados ao contato linguístico, os nahuatlismos, os americanismos e a castelhanização em geral. Em seguida, levantamos algumas questões relativas às palavras <italic id="italic-11">xícara </italic>e <italic id="italic-12">jícara</italic>, finalizando com uma sucinta conclusão.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-dbf7a04b0191d6377eb297179f34938f">
      <title>1. Nauatlismos e castelhanização</title>
      <p id="paragraph-6">Náuatle, também conhecido como asteca, foi uma das línguas usadas no Império Asteca e que ainda é falada no México, entre outros países, nos dias atuais. Estima-se que mais de um milhão de pessoas ainda falem náuatle, principalmente no México, e que haja 28 dialetos da língua (ETHNOLOGUE, 2016). A língua mexicana, como é chamada por seus nativos, é uma das primeiras tradições orais da Antiga América com registro escrito (PROEL, 2016). Embora muitos textos tenham sido queimados por sacerdotes católicos que os consideravam profanos, ainda hoje há documentos náuatles em bibliotecas de todo o México e de outros países, principalmente europeus. Isso se deve ao fato de que eles eram levados para a Europa e oferecidos como presente a reis e nobres por sua beleza e exotismo durante a Idade Média. Muitos textos escritos em náuatle foram transcritos no sistema de escrita europeu trazido pelos espanhóis no século XVI. Entre eles há poesia, prosa, textos políticos e administrativos e discursos para ocasiões importantes, como casamentos e funerais, de acordo com Hernández (2013).</p>
      <p id="paragraph-5359494814dfce085d8487e27724f531">Para Zamora Vicente (1996), haveria mais de 123 famílias de línguas no território controlado pelos espanhóis, existindo, entretanto, poucos casos de substrato morfológico e sintático e maior presença no terreno do léxico, o que não nos surpreende, pois “O vocabulário de uma língua, consideravelmente estruturado de forma mais solta do que sua fonêmica e sua gramática é, sem dúvida alguma, o domínio mais propício para empréstimo” (WEINREICH, 1970: 56, tradução nossa). O náuatle era apenas uma dessas muitas línguas indígenas faladas na região da antiga Mesoamérica, mas foi a que mais deixou marcas linguísticas no espanhol do México. Segundo León-Portilla (1981: 219), isso se deve ao fato de que o náuatle foi usado como língua franca nos últimos séculos do México pré-hispânico e se manteve como tal por mais um século durante o período colonial, além de ter sido o idioma do grupo dominante na região. Conforme o antropólogo mexicano, palavras originárias de outras línguas ameríndias ficaram mais restringidas à região onde a língua correspondente era falada, enquanto o náuatle influenciou, com seus vocábulos, outras línguas da América, o espanhol do México e o da Espanha.</p>
      <p id="paragraph-4aad5c7f5f47f86c3fd2f01a4c89db81">LAPESA (1981) afirma que a maior contribuição vinda das línguas ameríndias está no léxico, reforçando a asserção já citada de WEINREICH (1970), uma vez que os espanhóis encontraram na América uma grande quantidade de elementos da natureza diferentes daqueles da Espanha, assim como os costumes indígenas. Os espanhóis adaptaram nomes náuatles, por exemplo, das coisas para as quais eles não tinham palavras correspondentes em seu idioma e levaram muitas delas para a Europa. Tais empréstimos são numerosos, em especial as que designam realidades mexicanas peculiares. Essas palavras se encontram principalmente dentro do reino vegetal para nomear frutas, flores e plantas, mas também no reino animal. Há ainda nomes indígenas para certos alimentos típicos e determinados objetos associados à cultura mexicana (LOPE BLANCH, 1969a). Nas palavras de Lapesa (1981: 537-539), “as relações históricas e linguísticas entre o espanhol e os idiomas aborígenes da América respondem às mais diversas modalidades que podem apresentar-se no contato entre as línguas ou, com terminologia mais velha, porém mais exata, nos conflitos de línguas e culturas” (Tradução nossa). Abordemos, então, o fenômeno do americanismo, intrínseco às manifestações e problemas de substrato, com influxo de uma língua eliminado sobre a língua eliminadora, como lembra o mesmo autor.</p>
      <p id="paragraph-805115df8c0c2f582148a8e7805380f8"><italic id="italic-75c4568be95c6f65c10e6d62bf81ab87">Americanismo </italic>é um termo controverso e alguns linguistas, inclusive, rejeitam o termo<xref id="xref-1ac4ecca5f0e53cfbdd31809ede2c2bb" ref-type="fn" rid="footnote-15b3672e466524d32773ef7bcd580cd7">1</xref>. Bravo-Garcia (2015: 61) afirma que são “certos elementos léxicos e semânticos que revertem em uma designação peculiar de América e, de forma especial, aquelas palavras que têm sua origem em uma das línguas autóctones do continente” (Tradução nossa). Já Morínigo (1985, Prólogo (Tradução nossa)) apresenta quatro definições, seguidas de exemplos, sendo claro para nós que o termo em estudo se enquadra na primeira definição:</p>
      <p id="paragraph-9b90fd200947b3d1b2eb3de7e3ce5212">(i) Palavras indígenas incorporadas firmemente ao espanhol geral ou regional, tanto em sua forma etimológica adaptada como na fonologia e na morfologia (<italic id="italic-5f28f8859202f649bdcbd973788b935d">tabaco, butaca, cigarro</italic>);</p>
      <p id="paragraph-4">(ii) As palavras criadas na América ou derivadas de outras espanholas, para designar elementos americanos (<italic id="italic-b55b6eb6d4d4a9b7cd84472868a2e016">armadillo, </italic><italic id="italic-b98a15644615c142684d42ff3f61f938">churrasco, chapetón</italic>);</p>
      <p id="paragraph-cffc2bf0708469ec202b70dd665edc44">(iii) Palavras espanholas que têm na América acepções diferentes das palavras da Espanha (<italic id="italic-50d312328fde311b4ef309d9d2da2329">león, laurel, lagarto</italic>);</p>
      <p id="paragraph-da4cbea2694d845dbb4ce330ce8181e6">(iv) Os arcaísmos, marinheirismos e regionalismos espanhóis desconhecidos hoje na língua espanhola peninsular geral ou regional (<italic id="italic-b52a3211eb5e37e81fbefb5182aacbed">garúa, durazno, carozo</italic>);</p>
      <p id="paragraph-1f166f35ef881a2963ce16b791015313">(v) Os latinismos, africanismos, etc que entraram para o léxico americano ou regional.</p>
      <p id="paragraph-784d1189840155d706a9ea8d1e58e990">O nome dado a palavras ou locuções oriundas da língua indígena náuatle que foram, muitas vezes, adaptadas foneticamente ao espanhol é nauatlismo. O <italic id="italic-d9dffe15d4736686a1453cafd1dd39e7">Diccionario de la lengua española </italic>(<italic id="italic-c7a438a17765db18207e8d5e497e1d45">DRAE</italic>) define nauatlismo como: “1. m. Maneira de falar própria e privativa da língua náuatle; 2. m. Vocábulo ou elemento fonético do náuatle empregado em outra língua” (Tradução nossa). O termo é sinônimo de astequismo ou mexicanismo. Línguas europeias como o português e o espanhol sofreram forte influência das línguas indígenas das colônias americanas. Desde o século XV, época do início da colonização da América Latina, houve uma grande movimentação de desbravadores pelas terras do continente. Como citado anteriormente, com eles iam novos costumes, objetos e novas palavras, usadas pelos nativos para nomear sua realidade. A falta de correspondência para os novos vocábulos no espanhol provocou muitos empréstimos e, assim, a língua europeia sofreu um importante enriquecimento nesse período. A dificuldade de pronúncia das novas palavras por parte dos espanhóis levou a adaptações dos vocábulos ao castelhano, a castelhanização, que retomaremos na próxima seção, e assim foram sendo formados os nauatlismos.</p>
      <p id="paragraph-52373d29c697b9d7330267b07f7e9310">Em seu estudo, Léon-Portillo (1981) cita diferentes tipos de nauatlismos que chegaram à Espanha. Divide essas palavras em grupos de acordo com a maneira como foram levadas e absorvidas, ou não, pela cultura espanhola. Um desses grupos e no qual se encontra o termo que, provavelmente, deu origem à palavra <italic id="italic-41f2f89c9d04a9591c149d02dff3451f">xícara </italic>do português é o grupo de “Nauatlismos que acompanharam o princípio da degustação do chocolate” (LEON-PORTILLA, 1981: 224, tradução nossa). Certamente, não faltam trabalhos sobre os nauatlismos, mas León- Portilla (1981) alerta para o fato de muitos deles carecerem de rigor científico. Ele detalha sete tipos de nauhatlismos, que entraram para o castelhano (p. 224),</p>
      <p id="paragraph-160ddceede53a92d9b46acd84cd48fa2">1) No início da Conquista e que caíram em desuso;</p>
      <p id="paragraph-5">2) Cujo uso foi restrito geograficamente;</p>
      <p id="paragraph-7">3) Nos séculos XVI ou XVII, sofrendo mudanças em seus significados e restrições em sus acepções;</p>
      <p id="paragraph-10">4) Acompanhando a inicial degustação do chocolate na Espanha;</p>
      <p id="paragraph-12">5) Até os séculos XVI ou XVIII e, bem enraizados, florescem até hoje no castelhano da península;</p>
      <p id="paragraph-15">6) Apenas conhecidos por pessoas cultas ou especialistas de certas áreas;</p>
      <p id="paragraph-17">7) Mais recentemente, no século XX.</p>
      <p id="paragraph-19"> Não há dúvida de que a palavra <italic id="italic-c5365ed9c5cb10ed9df4bf661ca396c0">jícara </italic>é um nahuatlismo do tipo 4, conforme a proposta acima. O percurso da palavra se encontra documentado antes de 1535<xref id="xref-7ac6335449f724664f06f5821bc645f6" ref-type="fn" rid="footnote-83f14fa3c119ef81305db775775ac100">2</xref>, por Fernández de Oviedo, e por outros autores do século XVI, como veremos a seguir.</p>
      <p id="paragraph-44968d9e6a5b5128f43fe03b39239836">Encontram-se representados nos achados arqueológicos maias e do mundo mesoamericano, os mais variados tipos de vasilhas para se guardar a bebida espumosa feita de cacau que se tomava ao final da refeição (HERNÁNDEZ, 2013). Na Espanha, a palavra se restringiria a uma vasilha de louça, usada para se tomar chocolate, diferentemente da vasilha original indígena, feita de cabaça. Além do mais, Kiddle (1944 <italic id="italic-966e2c41b68763a02cff6aeaee84632f">apud </italic>LEÓN-PORTILLA, 1981: 234) afirma que na província espanhola de Murcia a palavra significa uma das oito divisões da meia libra de chocolate, em Soria os isolantes de vidro encontrados no topo dos postes de telégrafo, indicando novas conotações em relação à original.</p>
      <p id="paragraph-d5918428e32f4268bf33363d9eba3cba">Anteriormente, o termo “castelhanização” foi usado por Lope Blanch (1969b) para definir a adaptação de palavras indígenas à língua espanhola. Alguns sons eram difíceis ou mesmo impronunciáveis para os espanhóis, como é o caso do som palatal surdo /tl/ que serve como sufixo em muitas palavras náuatles (<italic id="italic-12288bbf5c79f04055af6e8bd843ffa3">tomatl </italic>&gt; <italic id="italic-4e1ce0cfb77bac810ba72fdfe972fba2">tomate</italic>, por exemplo). Por essa razão, algumas adaptações eram feitas nos vocábulos de origem indígena, tendo como base a fonética e a escrita do castelhano. Outro exemplo de adaptação feita pelo castelhano é a substituição do <italic id="italic-636573d2578412bff6281d9c16e3a63f">x </italic>pelo <italic id="italic-53265d1e3513ecfbf25b876d18953197">j</italic>, mudança que até hoje provoca dúvida na escrita do topônimo México e cuja provável explicação pode ser encontrada no <italic id="italic-11d61fb688304c00026daca282c0b5cb">Diccionario panhispánico </italic><italic id="italic-d891dd7c8cac7d7a8f4dd81231d46210">de dudas </italic>(2005):</p>
      <p id="paragraph-0be8f704e13443b41351947517e2a688">na Idade Média, a grafia <italic id="italic-33bca14a68a90373d602b576d3743fc9">x </italic>representava um som palatal fricativo surdo, cuja pronúncia era muito similar ao do <italic id="italic-c4bdf0df8531b8927a831bfe6fc3f8b9">sh </italic>inglês ou ao <italic id="italic-7eb71483b09bcde7207602042a946de9">ch </italic>francês atuais. Assim, palavras como <italic id="italic-f21a64f8a97c5b99d21be1a1c0b8aef3">dixo </italic>(hoje <italic id="italic-72b78da7337d948ef19548484fea2df4">dijo</italic>) ou <italic id="italic-13">traxo </italic>(hoje <italic id="italic-14">trajo</italic>) se pronunciavam [dísho] ou [trásho] (donde [sh] representa um som parecido ao que emitimos quando queremos impor silêncio). Este som arcaico se conserva no espanhol do México e de outras zonas da América em palavras de origem náuatle, como <italic id="italic-15">xola </italic>[shóla] ou <italic id="italic-16">mixiote </italic>[mishióte] (o que não acontece com <italic id="italic-1827a5042bf77917a66063498913367e">xochimilco, </italic>pois o <italic id="italic-3bdd9c55a4dd78f1cf9b7d150aa0a6fa">x </italic>soa como /s/), e na pronúncia arcaizante de certos sobrenomes que conservam sua forma gráfica antiga, como <italic id="italic-73eefb2ce496924396108c88a88e1261">Ximénez </italic>ou <italic id="italic-cbb9598ec70c2ce3061cacd0740c3b1d">Mexía.</italic></p>
      <p id="paragraph-55c379fac89ee0026e1572feee2f90e0">O som medieval descrito anteriormente evoluiu a partir do século XVI ATÉ SE CONVERTER NO SOM velar fricativo surdo /j/, que na escrita moderna é representado com as letras <italic id="italic-4b14da488d187193b072393c4879c8a5">j </italic>o <italic id="italic-946f0aafc03d9d2a3f1e3e80546de9a8">g </italic>(antes de <italic id="italic-35735b0d8b6b134420665a9a6e2faf6c">e, i</italic>). No entanto, a grafia arcaica com <italic id="italic-0f338cb23e1fe24a6724c8dbac44440d">x </italic>se conserva hoje em vários topônimos americanos, como <italic id="italic-3c77bebeaa6fae17a0b699d0de045238">México, Oaxaca, Texas</italic>, com seus respectivos derivados <italic id="italic-a176b5ae7d25fa5498620417c944fee0">mexicano, oaxaqueño, texano, </italic>etc., e em variantes americanas de alguns nomes próprios de pessoa, como <italic id="italic-0f1100489e60ec77eb2f9a2ea2f9f10e">Ximena, </italic>ou sobrenomes como os citados anteriormente. Não se deve esquecer que a pronúncia correta destas palavras é com o som /j/ ([méjiko], [oajáka], [téjas], [jiména]), e não com o som /ks/ ([méksiko], [oaksáka], [téksas], [ksiména]). Também há resquícios deste <italic id="italic-2cad79c6912e5e7ae68f9bf15c3419f2">x </italic>arcaico em alguns topônimos espanhóis que hoje se pronunciam correntemente com o som [k + s], como <italic id="italic-863e84a6a5948416adae32165c858015">Almorox, Borox, Guadix </italic>y <italic id="italic-6dc4f3c27b5302afe39a8dd88ad56e8e">Sax</italic>. Seus respectivos gentilícios (<italic id="italic-704a7441f67f27289b01d4c23b8aa372">almorojano, borojeño, guadijeño </italic>y <italic id="italic-bcbbdc566d1df8486cef0f792e7ecdf7">sajeño</italic>) demonstram que, em sua origem, o <italic id="italic-17">x </italic>que contêm se pronunciava /j/ (Tradução nossa).</p>
      <p id="paragraph-8d223e755e5d034f519eb7d1554ee374">O texto acima explica, com clareza, a transformação de <italic id="italic-9ba6a368bb33fc5f6988e7e58e6ba9e0">xicalli </italic>&gt; <italic id="italic-df8483388e0d327b016fa2c00a4d28e6">jícara</italic>, que retomaremos na próxima seção. Mais abaixo, também aplicaremos os conceitos de americanismo, nahuatlismo e castelhanização ao vocábulo português <italic id="italic-9664074edff955180a4f5ee37edbce93">xícara</italic>, centro de nosso estudo.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-cae21001eed2289e89551d32fb202f4e">
      <title>2<italic id="italic-90bf79fef996b7d29471c1a7ee501ffc">. </italic>Espanhol <italic id="italic-3f28ac461f1c6c087b85d4f4996c02ff">jícara</italic></title>
      <p id="paragraph-7fb9d684ccaa986409d80200b02fe830">León-Portilla (1981: 224) atribui à apropriação do chocolate pelos espanhóis a chegada de determinados nauatlismos à Espanha. Juntamente com o elemento chocolate, foram levados a palavra <italic id="italic-2e8de6dd3343d2939931e704c9cc41f7">chocolate </italic>(<italic id="italic-182e68b2c439e67767fe72e86f6f3d59">chocolatl</italic>), já adaptada ao castelhano em solo mexicano, assim como outros objetos e seus respectivos nomes castelhanizados, que faziam parte do que ele denomina como a “cultura do chocolate”, como <italic id="italic-45553bed3197cda49577cc75e325cb84">el cacao</italic>, <italic id="italic-c4f1cf94b6785a8ffacaccbe2c4fb7ba">el metate </italic>(pedra usada para moer o cacau), <italic id="italic-93b0b6108acf25db3c35dddb1ed2af34">el molinillo </italic>(objeto usado para aerar o chocolate) e, finalmente, <italic id="italic-a743a7b9d7c4082aa00f8066f7488259">la jícara</italic>, recipiente feito, inicialmente, do fruto da cabaceira (“jícaro”) e que era usado para a degustação da bebida. Este último vocábulo teria originado a palavra <italic id="italic-50d57e66e3c68a98c29fafffaf464978">xícara, </italic>usada, correntemente, no português do Brasil.</p>
      <p id="paragraph-13bbb4b00f1ffcc877b8e0b8c80da4e3">Já castelhanizado, o termo <italic id="italic-a22aba15704aa5d90d322466a0d007eb">jícara </italic>foi levado da América para a Espanha pelos espanhóis para denominar o recipiente no qual os astecas tomavam chocolate e é usado até hoje na língua espanhola. Para o <italic id="italic-1b4aca187cdb7d610be19335e0e0fad1">DRAE </italic>(p. 1320), <italic id="italic-1776c955854f5b343cdbd63f6c0d256a">jícara </italic>vem do náuatle <italic id="italic-e0183210952b8a9d27d5cdb01847455a">xicalli</italic>, copo feito da casca do fruto da cabaceira ou ‘güira’. O dicionário traz ainda duas acepções da palavra, a primeira é “vasilha pequena, geralmente de louça, usada para tomar chocolate” e a segunda é “vasilha pequena de madeira, geralmente, feita da casca do fruto da cabaceira e usada como a de louça de mesmo nome na Espanha” (tradução nossa). Menéndez Pidal (1994: 29), também assevera que <italic id="italic-89dfb3ba7a991f9ae8085c194b3d5ded">jícara </italic>é um americanismo.</p>
      <p id="paragraph-eb68517baa44083ecbf7fcf1d6d12616">A cabaceira é uma árvore também conhecida como “jícaro” ou “güira”, cujo fruto é uma espécie de cabaça e dele os mexicanos fazem, ainda hoje, a <italic id="italic-b68e33ecf80f690ebe7f555a506b6716">jícara </italic>usada, desde o período pré-hispânico, para tomar uma bebida feita à base de cacau que deu origem ao chocolate. A planta da <italic id="italic-5aaa47766013226ccccc42d61bc39279">jícara </italic>é conhecida no Brasil como árvore de cuia, cuité ou cabaceira e as primeiras <italic id="italic-761da8e33bf1da998658b0dbd2ea48f8">jícaras </italic>feitas em louça pelos espanhóis não possuíam asa como o objeto que hoje se conhece no Brasil como <italic id="italic-18">xícara</italic>, tendo as <italic id="italic-19">xícaras </italic>com asa aparecidos somente no século XVIII.</p>
      <p id="paragraph-bdfaaf59fcb1a2bfb23a27b984503aa7">Corominas (1954: 1054) também cita, como no <italic id="italic-9280c0ecb1945f2106e6cbb03a9e77ae">DRAE</italic>, que a provável origem da palavra <italic id="italic-85b0ae189bffeb4fd1098dd72434748e">jícara </italic>é o náuatle šikálli. O lexicólogo explica que a palavra significa ‘vasilha de cabaça, vasilha de umbigo’, e que é um composto de šiktli ´umbigo’ e <italic id="italic-33d167f6ad350e84f4f01b8292293efc">kalli </italic>’receptáculo’. Temos também acesso à datação das primeiras documentações do vocábulo que são do século XVI: “<italic id="italic-da6b584bd31f85f4d0f16ee67c2240c5">xícalo</italic>, Fz. de Oviedo, pouco depois de 1535; <italic id="italic-d5ee5c53eeec233ccaeac98917f42176">xícara</italic>, 1540, Fr. Marcos de Niza.”</p>
      <p id="paragraph-3a3daa8ee7f196a93a5027b5e705e138">Ademais, há, assim como no <italic id="italic-69b4328b4bf69ce064c73fb401b2f808">DRAE </italic>(2001: 1320), a referência de que a <italic id="italic-f510ce36317cb757ab6b16f4c46b1f7f">jícara </italic>era uma vasilha feita, primitivamente, do fruto do cabaceiro e que era usada para tomar o chocolate, para lavar as mãos e depositar alimentos. Do castellano a palavra passou para outros idiomas como o italiano <italic id="italic-ee51c8e390bd571865dacf1ead1d89c9">chìcchera </italic>[séc. XVII: Zaccaria] e o catalão <italic id="italic-cc8896c2e2bd921791782f796a9c9e8f">xicra</italic>”. Em Corominas, encontramos também alguma informação sobre a mudança, isto é, a castelhanização, de <italic id="italic-50bfae8428061bf9e2520dc5dddadeb2">xikalli </italic>para <italic id="italic-4de4f724e4efc561736f800a1913e3e1">jícara</italic>. Segundo o lexicógrafo, “A mudança do acento se explica pela explosão gutural que afetava a primeira sílaba do vocábulo e que os espanhóis podem ter entendido como um acento; comp. <italic id="italic-3c5dc28f6e55bc4dbfd90ffa8451cebc">Mexíco </italic>&gt; <italic id="italic-ce1c7fc22b792ba1dbc7881a8307c0b8">Méjico</italic>, šicamatl &gt; <italic id="italic-1f00aba20acdd702b8288be1d5b6596d">jícama</italic>, y <italic id="italic-d9c25775790ada8d8a5aff592b808083">petla-kalli </italic>&gt; <italic id="italic-9c801aacc41e979cf1058945826cf7c4">petaca</italic>.” (COROMINAS, 1954: 1054). Porém, não há nenhuma informação sobre a transformação do <italic id="italic-c5f2d9c296396d23caea97fac692c0c3">x </italic>em <italic id="italic-733ae519e177789a5c6b10cc6726620a">j</italic>, nem tampouco sobre a mudança da letra <italic id="italic-941b0f313ac0fea261456ff7994c3a79">ll </italic>transformada em <italic id="italic-20">-r </italic>na sílaba final da palavra. Quanto à datação da palavra <italic id="italic-21">jícara</italic>, o <italic id="italic-22">Corpus Diacrónico del Español </italic>(CORDE) informa que na Espanha é o ano de 1665 e no México, 1576.</p>
      <p id="paragraph-33a3e1493b0d1cea0591f8c267369453">O <italic id="italic-23">Nuevo tesoro lexicográfico de la lengua española </italic>(<italic id="italic-24">NTLLE</italic>) apresenta apenas seis ocorrências de xícara, a primeira datada de 1705 e a última de 1803. A primeira ocorrência é do <italic id="italic-25">Dicicionario nuevo de las lenguas española e francesa</italic>, de Francisco Sobrino, sendo definida como “taça de talavera<xref id="xref-600dc71ab9fa5f17c366cd1ab93322ed" ref-type="fn" rid="footnote-ef15056ddf9a366ba7b12840866d7723">3</xref> para tomar chocolate” (p. 374, v. 1). As demais ocorrências, até se chegar à última, são todas do próprio DRAE, que definem a palavra assim: “vaso de loza en forma de um cubilete pequeño, en que se toma el chocolate”. Entretanto, a edição de 1739 é a única que informa que “Es voz Americana, que vale coco, ò vaso, de que se hace dél.” A partir da edição de 1780, a informação deixa de existir.</p>
      <p id="paragraph-2bdbdf77a74c091c4259de7b2967ca50">Ao consultarmos o <italic id="italic-be8d8fc65703c37687c577224efd4299">NTLLE</italic>, encontramos 32 verbetes encabeçados por <italic id="italic-4f8b062031d47b635248ab04e954cf72">jícara</italic>. Abaixo, indicamos em que obra o termo se encontra, a datação da obra, a definição dada e eventualmente a etimologia do lema:</p>
      <table-wrap id="table-figure-408979afe9889994fcb9a4f59ee0126a">
        <label>Table 1</label>
        <caption>
          <title>QUADRO 1: O lema <italic id="italic-2e745bcfa9d592624bb51fdaf2edced9">jícara </italic>no <italic id="italic-42313b30fbc0a40266a94ea10fc2b8e0">NTLLE</italic></title>
          <p id="paragraph-cb0f188a58d4f2238776919422dd633e" />
        </caption>
        <table id="table-4ca10b48540f07c5931e574cae2f4b2e">
          <tbody>
            <tr id="table-row-33e61a45547d626537eab7c6c18f066c">
              <td id="table-cell-3eecb61674c12f50fc7c71475c432c11"> Data </td>
              <td id="table-cell-bd455a6270351cc3fe9b9583c76d9be3"> Obra; Autor </td>
              <td id="table-cell-9b0ebf26bdd82e68481050cbe0943f78"> Definição </td>
              <td id="table-cell-db735743d1907d2d7abbf915984eafb3"> Etimologia </td>
              <td id="table-cell-d92468278c3f625c0aab2da6705f54f4"> Verbetes afins </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-db9d52684d20f50d459b276592dfbc19">
              <td id="table-cell-43d0af23411e90779eab5063e5c5bc8d"> 1787 </td>
              <td id="table-cell-02fcb1ed4180a2b9ff23569c88befb21"> Diccionario castellano [...]; Terreros y Pando </td>
              <td id="table-cell-d4c81b0ffd09ffc004f047c29bf5b0e9"> “vaso, que comunmente sirve para tomar chocolate; Fr. tasse á prendre du chocolat; Lat. Scyphus ad cocolátum. It. Tazza” </td>
              <td id="table-cell-1243d7f590cb9a94f0efd27bec2270a0"> Ø </td>
              <td id="table-cell-b92b08a757514044d1c6855ad2e0df46"> Ø </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-aaadce75421fc87b7d571947ec45f275">
              <td id="table-cell-d2a795c87d80c73f546a78b89f6df556"> 1817, 1822, 1832, 1837 </td>
              <td id="table-cell-ade40e436ec5e54c3b1703bd9bc3f620"> DRAE </td>
              <td id="table-cell-af709f4aafa3a2f2e7f574bc216ce923"> “vaso de losa em   forma de um cubilete pequeño, em que   se toma el chocolate. Scyphus fictilis chocolatae potioni sumendae aptus” </td>
              <td id="table-cell-f11157e4fb2685cd9422c4175cf422ec"> Ø </td>
              <td id="table-cell-fc83b5ea79157259ef4b0d8345b226de"> jicarica </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-7a23603d07619e1057c985c451af5969">
              <td id="table-cell-7df8bb401aadbff0eca5c6eb4fe121ad"> 1843 </td>
              <td id="table-cell-c0f75f57ce77e9af85ac9fbd1a941940"> DRAE </td>
              <td id="table-cell-5634f01dffe0212edcfe9b10a2bc2949"> “vasija pequeña de loza, que sirve para vários usos, y principalmente para tomar chocolate. Scyphus fictilis chocolatae potioni sumendae aptus” </td>
              <td id="table-cell-f29278d4629845de02b994f5db177734"> Ø </td>
              <td id="table-cell-2c818fdc109bd04bfdbfe92c0a99db63"> jicarica, jicarón </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-b3ef963453d5e24173197e72bc678dfa">
              <td id="table-cell-ef02901d6ec31d2ddf98d53d344b4504"> 1846 </td>
              <td id="table-cell-caea96a5d19d3eb07e78a3d622a76c5a"> Nuevo diccionario de la lengua castellana; Salvá </td>
              <td id="table-cell-c136f1d8be1713892b74e2f632bb7535"> Idem anterior + “p. Méj. Escudilla hecha del fondo del guaje, pintada y barnizada según   el gusto chinesco.” </td>
              <td id="table-cell-a742994a1144cc13998d28ec9c14b811"> Ø </td>
              <td id="table-cell-3d32c692cbe2a9af1231d0c9fbbc9a34"> Idem anterior </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-09821eb98cba633ebfcbe09214beb0c1">
              <td id="table-cell-6a27303081bbb35ba17a2b710192d56c"> 1852 </td>
              <td id="table-cell-cbdac457b3d695de1e589c6af97b879f"> DRAE </td>
              <td id="table-cell-327bf66982831dba306b66511dba6a1b"> Idem anterior </td>
              <td id="table-cell-dfe4b1732acd113c8b85077bb95969fb"> Ø </td>
              <td id="table-cell-182beda1230cd2fe2a9f8b7f1fe243c2"> Idem anterior </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-f657bfc8f01ff0aed8db6787fec0d557">
              <td id="table-cell-407729bd4aaa41fea46963e6eaea0324"> 1895 </td>
              <td id="table-cell-3237096490151b8f71f419bc5e3afd57"> Diccionario enciclopédico de la lengua castellana; Zerolo </td>
              <td id="table-cell-cca2ee9e2a4b238ebc779577e4744cb3"> Idem anterior + “Cub. Vasija pequeña de calabaza.” </td>
              <td id="table-cell-553274cae7750382f370fc51555dd372"> “Del ár. [... ], cicaya copa.” </td>
              <td id="table-cell-b84b06dd477dad669b7b8074e442141d"> jicarazo, jicarita, jicarón </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-f114fffb325608db9f4c4d7355fa0009">
              <td id="table-cell-609decbe9664e8248a94f66e976f1334"> 1901 </td>
              <td id="table-cell-98828447ed6c3098757484b8abb0d044"> Nuevo diccionario enciclopédico ilustrado de la lengua castellana; Toro y Gómez </td>
              <td id="table-cell-a4b4f6267524f95544609501ffbf6822"> Idem anterior </td>
              <td id="table-cell-72240dd6f22811e4cbdb87dc2cabfb9b"> Ø </td>
              <td id="table-cell-4eeb48bf1634fbef2027e5d4c41ffd8b"> jicarazo, jicarón </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-99f9db5d59e5e18bc8802df4d27a6a09">
              <td id="table-cell-f39b42916641c20c63a0c5eede2512b5"> 1914 </td>
              <td id="table-cell-21a88bcf0302bf9aed4211d7bfa1116c"> Gran diccionario de la lengua española; Pagès </td>
              <td id="table-cell-5ef26aed4890952ff73e6cbe52074c36"> Idem DRAE (1849) </td>
              <td id="table-cell-5c8bf67e03f77c28a55273bdf202018c"> “Del mejic. xicalli, güira” </td>
              <td id="table-cell-5660e57fc42a13e702b8c98cf9af42b0"> Ø </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-a596cc30b252f0b510c2ce41ee6f909d">
              <td id="table-cell-888a480d58eaaed8762b6fa65eeb0427"> 1917 </td>
              <td id="table-cell-c01875dccf6727111c0f7620c2686306"> Diccionario de la Lengua Española; Alemany y Bolufer </td>
              <td id="table-cell-7f01aff77fe52c076254ff99094ff10a"> “Pequeña vasija de loza, en que generalmente se toma el chocolate; Méj. Escudilla pintada según el   gusto chinesco; Hond. y Guatem., calabaza, 2ª acep.; Amér. Pequeña   vasija de calabaza.” </td>
              <td id="table-cell-d90904b54db0a1bfa64cf5095952346f"> “Del mejic. xicalli, vaso hecho del fruto de la güira” </td>
              <td id="table-cell-441c75058a2165c6e94f84f33b821228"> jicarazo, jicarón </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-af4758c1dbd07ab16cd82113eee4fd7c">
              <td id="table-cell-fcffa46c85f0ce6bc8431509ec661bdb"> 1918 </td>
              <td id="table-cell-18e266ff5b59a97680bd1fca67ebb0ae"> Diccionario general y técnico hispano- americano; Rodríguez Navas y Carrasco </td>
              <td id="table-cell-a9d7bf30231acb350787c61cfd1ae18e"> “Tacita; Vaso de loza en forma de cubilete pequeño,   en que se toma el chocolate; Amer. En Cuba, vasija pequeña, hecha de una calabaza; En   Méjico, pintada y barnizada según el gusto chinesco, Los mejicanos llaman xica’lli a una especie de pequeño vaso;   los árabes usaban las dos voces, puchero y [...], copa.” </td>
              <td id="table-cell-bc1cbd0c34518e86f174d5088d2b87bf"> Ø </td>
              <td id="table-cell-83bcff5fed331cae1f578e8b71238894"> jicarazo, jicarilla, jicarón </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-b547f15a23c0ee97800de80fc469c313">
              <td id="table-cell-6e8a668bcddf851ebd83c2dbdcdec6ec"> 1925 </td>
              <td id="table-cell-0f410b69e656458a45b1d570ffa65c26"> DRAE </td>
              <td id="table-cell-d68f6bab6e44998eaceb8d0df57ae0f3"> “Amér. Vasija pequeña de madera, ordinariamente hecha de la corteza del fruto   de la güira, y usada como la de loza del mismo nombre en España;   Vasija pequeña, generalmente de loza, que suele emplearse para tomar chocolate.” </td>
              <td id="table-cell-2e4fb46df8d1d069ea693201b1426235"> “Del mejic. xicalli, vaso hecho de la corteza del fruto de la güira” </td>
              <td id="table-cell-578c714453d75d90b73a67a8d3eb4376"> jicarazo, jícaro, jicarón </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-5facff1170523c25432dd94a707962fb">
              <td id="table-cell-88a3ef56427e8dbec2db3d4d10ee2860"> 1927 </td>
              <td id="table-cell-ff7876c7e72a430c804406a76d260dae"> Diccionario manual e ilustrado de la   lengua española; RAE </td>
              <td id="table-cell-371845ce20e4af5cdcb8a0e60cfa2e4c"> “Vasija pequeña que suele emplearse para tomar chocolate; Amér. Vasija pequeña hecha de la corteza del fruto de la güira; Guat. Fruto del jícaro; Méj. Arquilla en que se llevan   frutas, panecillos, etc.” </td>
              <td id="table-cell-1603bc564e11238cb1b1c7294f1b5b25"> Ø </td>
              <td id="table-cell-8699772e16935af812d26ec94ef101dd"> Idem anterior </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-0f22beebab374c38ffd8ee791d5b2f97">
              <td id="table-cell-5f8ea13bcb18c644feee6738784141da"> 1936, 1939, 1947 </td>
              <td id="table-cell-8508cb244c2cced5844d45470763d718"> DRAE </td>
              <td id="table-cell-2faf035ea6bde28ba95c993c24847fca"> Idem DRAE (1925) </td>
              <td id="table-cell-06e9d6972612e288cb8f332369cb4432"> Idem DRAE (1925) </td>
              <td id="table-cell-58e806251baf804efbaf6d40b47acf11"> jicarazo, jícaro, jicaró[n] </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-d6bd6f0272e13b4db70e2f1ac66d6fb5">
              <td id="table-cell-fb20a694c958a75fa2b514e7b9df2795"> 1950 </td>
              <td id="table-cell-26ace5f6254e72addc198eff00b1019d"> Diccionario manual e ilustrado de la   lengua española; RAE </td>
              <td id="table-cell-2263af823df38cc3a0835e76cbf8f28d"> “Vasija pequeña   que suele emplearse para tomar chocolate; Amér. Central y Méj. Vasija pequeña, hecha de la corteza del fruto de la güira; Guat. Fruto del jícaro; Méj. Arquilla en que se llevan   frutas, panecillos, etc.” </td>
              <td id="table-cell-0a646cf28f9e3c15bec7521fa4f6f974"> Ø </td>
              <td id="table-cell-eaddb37ac444c88296370ee8ac594ffd"> jicarazo, jícaro, jicarón </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-617ca19efcf36a4eea7edbe6671f4ece">
              <td id="table-cell-d2c7994fccc922f25fe7de37f629f913"> 1956 </td>
              <td id="table-cell-31a6e1564a0988589970a89ed43e6ebd"> DRAE </td>
              <td id="table-cell-398bc7ee3245f9da2ab9e403980c1550"> Idem DRAE (1925) </td>
              <td id="table-cell-88f745c8519961ef97ba1fa1d297b955"> Idem DRAE (1925) </td>
              <td id="table-cell-67b5bf1e3a3856b3d01ed141b9377263"> Idem anterior </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-54f6e9da3010e5da098578e26da44a4f">
              <td id="table-cell-139ba4c3e5cb9f6bcb8d543f9786d2ff"> 1970 </td>
              <td id="table-cell-36a431f28128b95402949a03fb724c29"> DRAE </td>
              <td id="table-cell-45646fd948a06b7596746727500492c0"> Idem anterior </td>
              <td id="table-cell-e6d8be0ccb75d4b40c0353cdd1a9a2db"> Idem anterior </td>
              <td id="table-cell-d43121d4108ae8f3f3ab995cee6c9074"> Idem anterior </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-ec812c66103043b894e5542591061139">
              <td id="table-cell-d298d141e890ed9fdf1274872a26b70b"> 1984 </td>
              <td id="table-cell-fc9fa978104645b933f4d2c0f25b6054"> DRAE </td>
              <td id="table-cell-2a34e79dac7f126ac1d0f9521b5f7f8e"> Idem anterior </td>
              <td id="table-cell-b7f428a41b2a3a8f3a7a301f310ceb65"> Idem anterior </td>
              <td id="table-cell-dd8aaad291deb3dadb01d3334c9f8004"> Idem anterior </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-83f308e58636cddf45d009a530eacf0f">
              <td id="table-cell-0367fe00f266177639e7c2c95da28bd6"> 1984 </td>
              <td id="table-cell-b1cbca8b6edce6a6f97652edb0100e88"> Diccionario manual e ilustrado de la   lengua española; RAE </td>
              <td id="table-cell-b2be06224e98ed89cdfb4f2051f01956"> Idem DRAE (1925) + And. y Extr. Onza de chocolate; Amér. Fruto del jícaro; Méj. Arquilla en que se llevan fruta, panecillos, etcétera. </td>
              <td id="table-cell-36b457b028e2b41da102949464b40584"> Ø </td>
              <td id="table-cell-4e6b285bb109a076c94610ce7c468d01"> jicarada, jicarazo, jicarazo, jicarón </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-bf26d984596b6c34963be61f9262b4be">
              <td id="table-cell-2cf98152f5fc3480571d3281edb39b59"> 1989 </td>
              <td id="table-cell-82abd5b8076b8862e71b4898b678c047"> Diccionario manual e ilustrado de la   lengua española; RAE </td>
              <td id="table-cell-1868637403454cde42996c91b048cf3a"> Idem anterior </td>
              <td id="table-cell-4d4d3008d50c4ad26da0a878bfe929a0"> Ø </td>
              <td id="table-cell-80314a34f2aa3c1702e6c87ab7792700"> Idem anterior </td>
            </tr>
            <tr id="table-row-3321899c28a96785aa0820908736a4f0">
              <td id="table-cell-8e8c3f7cf6b9c72956b9951de84496e7"> 1992 </td>
              <td id="table-cell-8e8fb86c690f23af6384cb60b6d10bc2"> DRAE </td>
              <td id="table-cell-6c6a46d9e02797239d8c85394da57d41"> Idem DRAE (1925) + Amér. Central y Méj. Fruto del jícaro. </td>
              <td id="table-cell-41fb0d2ab241674628ae8a0f50c2c79c"> “Del nahua xicalli, vaso hecho de la corteza del fruto de la güira.” </td>
              <td id="table-cell-4bc0defcc69402549d1d22a7209837bb"> jicarazo, jicarón, jícaro </td>
            </tr>
          </tbody>
        </table>
      </table-wrap>
      <p id="paragraph-fd1735295573a69ba5678dde96a1b623">Como se pôde perceber, não há grandes diferenças entre os dicionários cotejados, nem quanto à definição de <italic id="italic-6d71e98269ad916ef26474fadc65d9ab">jícara </italic>e nem quanto a sua etimologia. Com exceção do dicionário de Zerolo, o único que afirma que <italic id="italic-5f7374162fd83f5101cf1898e2927fa0">jícara </italic>adviria do árabe <italic id="italic-f7f1408f34651529046ce51ebc4a0e0c">cicaya</italic>, “taça”. Encontramos outro autor que também afirma que o termo seria de origem árabe, EGUILAZ Y YANGUAS (1886,. 432): “De [...] xáccara, “olla, jarra, puchero, marmita llena de vianda”. Mas Corominas (1954, v. 2) alerta: “o argumento decisivo contra o árabe está na abundante documentação americana do s. VXI e a especial fixação da palavra no México e na América Central” (Tradução nossa). Assim, a hipótese de origem árabe do termo fica enfraquecida em relação à origem nahuatle.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-5faf16180065f1cb1a0ce879721eb509">
      <title>3<italic id="italic-cae4590192164b7708de2548012317ac">. </italic>Português <italic id="italic-57d4ebefad8ca307e80ce5c706f63584">xícara</italic></title>
      <p id="paragraph-71ffbfa2f0c0b18d0077a984275b467d">Logo no início de seu esclarecedor artigo, Venâncio (2013) afirma que o contato dos portugueses com a língua vizinha era tão generalizado que se pode pensar que “o aproveitamento de recursos lexicais castelhanos pelo português pôde tornar-se um fenómeno estrutural” (p. 146), ainda alertando para a quase ausência de estudos sobre a história do léxico português e a precariedade das datações lexicais. Apesar de todos esses desafios ainda a encarar, não há dúvida de que há uma sistemática anterioridade das formas castelhanas. Então, <italic id="italic-9f83204191b4769d37075676c398e248">xícara </italic>teria chegado ao português, como tantos outros empréstimos, pela via do espanhol. Esse autor define castelhanismo da seguinte maneira: </p>
      <p id="paragraph-f5ef8ce210117a37df4ffa727961f2f4">Um vocábulo português é um castelhanismo a) quando a forma em causa é de reconhecida fabricagem castelhana, <bold id="bold-3">mesmo se derivada de outro idioma </bold>(grifo nosso); b) quando ela está em clara circulação castelhana antes da primeira atestação portuguesa, c) quando as primeiras atestações portuguesas surgem em “ambiente” castelhanizante (autor bilíngue, tradução do castelhano, texto com significativas marcas do castelhano), e adicionalmente d) quando a distribuição posterior da forma castelhana manifesta uma nitidamente superior concentração de ocorrências (VENÂNCIO, 2013: 151).</p>
      <p id="paragraph-4b8d5a51e0343c8f160ad623b06d3ea4">A detalhada definição acima será aplicada no nosso objeto de estudo:</p>
      <p id="paragraph-c4438ce879b6bcb3b5386a7b938d6f36"><italic id="italic-19f9ea30d367574ef771d44a5a945f7a">xícara </italic>será entendido por nós como um castelhanismo.</p>
      <p id="paragraph-6ada5b0616e2c9a66712a28fd35c27b9">Venâncio (2013: 173) cita alguns fatores que favoreceram os empréstimos do castelhano para o português: “o longo e íntimo contacto dos portugueses com a escrita de Castela, o bilinguismo da corte portuguesa, a duradoura presença em Portugal de agentes culturais castelhanos (no ensino, na espiritualidade, na música vocal, nos divertimentos), o elevado número de estudantes portugueses em universidades do reino vizinho, enfim, o secular fascínio pela sociabilidade descomplexada e mundana de Castela”.</p>
      <p id="paragraph-9690e27e492a74f0d5db780bc1c5ef23">Hoje em dia, usa-se predominantemente em todo o Brasil o vocábulo <italic id="italic-a45d89e08517ed5ff4947ea60b080e57">xícara </italic>quando queremos nos referir ao recipiente usado para servir bebidas quentes, como café ou chá, que apresenta uma asa para se segurar. Outros termos são usados para se referir a objetos semelhantes, como a palavra <italic id="italic-84fc2e72e5a222f7299243e849b019fc">caneca </italic>ou <italic id="italic-558f68c0314433fb5352bde27af83b8c">caneco</italic>, que costuma ser maior do que a xícara. Conforme Houaiss (2009), datado de 1706, português <italic id="italic-298840963a59e458eea3a26292b6deb8">xícara </italic>&lt; espanhol <italic id="italic-36b0a063e8dac20c2f6364b59101ca8b">jícara </italic>“xícara” &lt; náuatle <italic id="italic-b4d9f85e1283a865ef032b078036a898">xicálli </italic>“espécie de vasilha”, opinião que não difere de Cunha (1986). O <italic id="italic-7b17a77e874e3dfee542ad449de0b629">VPM </italic>não o encontrou em seu <italic id="italic-f4fefac59f0d6c2d1dec4c7a73764462">corpus</italic>. BUENO (1974, p. 4312) acrescenta a seguinte informação:</p>
      <p id="paragraph-3a45816a55dba4d56b6951006e6922cf">No Brasil, <italic id="italic-800216aa09bc4c6e9e076b90d761b542">xícara </italic>é o termo vulgar e indica sempre taça pequena, ao passo que <italic id="italic-dd991de6db893d6c0cbc8835cd00d2b4">chávena </italic>é literário e tem o significado de taça grande para chá, café com leite. Em Portugal é justamente ao contrário, <italic id="italic-528e07b5d7a092524302313c4446b34e">chávena </italic>é vulgar e pequena, <italic id="italic-f82e727e33458aa256f21e7e74e61cfb">xícara </italic>é literário e grande.<xref id="xref-0b24daf1bb16ae4bbf2c8a842182ee0e" ref-type="fn" rid="footnote-2cf85673f3fc1e14c01d698513fb32fb">4</xref></p>
      <p id="paragraph-daf9f09a16e041b12cc238cfb3c8a39e">O autor cita ainda que se pode considerar que o termo é um arcaísmo no português do Brasil<xref id="xref-11e66cd788161b51c96917fa5cfc3e8f" ref-type="fn" rid="footnote-afc8b780fcaf6d5d37873acdebc9e45c">5</xref>. Já Houaiss (2009: 2896) traz duas acepções para a palavra. A primeira é “pequeno recipiente usado especialmente para bebidas quentes, com asa para facilitar a manipulação” e a segunda mostra que, <italic id="italic-2952be18b191b68a4cb1169a987cb8b5">xícara </italic>significa também “a quantidade de bebida que comporta”. Estas duas acepções são encontradas também em Ferreira (1986: 1798). Houaiss (2009: 2896) apresenta ainda duas grafias para a palavra, em diferentes períodos: 1706 <italic id="italic-297d6e9a512541aba15ee2c857a76227">chicara</italic>, 1858 <italic id="italic-5874c69f6b3616203b305e0167b855b4">xícara. </italic>Os dicionários apresentam apenas duas derivações para a palavra <italic id="italic-4263f1aa0a0d987b27be415202e922a4">xícara</italic>, o diminutivo <italic id="italic-03cf02b9c7237dd6d595eee0dc45db9c">xicrinha </italic>e a palavra <italic id="italic-8d1262ef319c770bcfa80f7c7e6fa91a">xicarada</italic>. Houaiss (2009: 2896) informa que <italic id="italic-08ff65c2024df0571b72b3160c430e5f">xicarada </italic>designa o conteúdo da xícara, assim como o próprio vocábulo <italic id="italic-f068534ae98d2fe6b25d43c7b593701e">xícara </italic>que, como citado acima, também significa, por metonímia, a medida que cabe nesse recipiente. A palavra não está documentada em Bluteau (1712-1728), Pinto (1832) e tampouco em Silva (1813). Também não foi encontrada em Machado (2015), o que era de se esperar, pois seu <italic id="italic-ace462c67860280c90171eb9a7ddc151">corpus </italic>data de 1488 a 1499, período anterior à presença de <italic id="italic-17c5cfa45fd396421a7ecc0e8a385352">jícara </italic>no espanhol.</p>
      <p id="paragraph-2b8af8ad6341fba7193b58263c9a493f">Assim como no espanhol, poucos autores afirmam a origem asiática do termo. Coelho (s/d) é um deles: “Xícara: Taça, vaso para tomar chá, café, chocolate, etc (<bold id="bold-1">T. asiático</bold>)” (grifo nosso). Já Silva (1951, v. 11: 865) afirma que xícara vem do italiano <italic id="italic-b24ef4d00f3bb785bc56983855c7fa7e">chicchera</italic>. A proposta não é impossível, mas o contato com o espanhol era muito mais intenso do que com o italiano, o que nos leva a descartar a hipótese de um empréstimo do italiano. O <italic id="italic-9c3516d7d74b575736d2b8bca250df53">Dizionario etimológico online </italic>(PIANIGIANI, 1907) assevera que italiano <italic id="italic-86d0407b3b363cb6605bcff790374875">chícchera </italic>&lt; espanhol <italic id="italic-3a74d7026436cc56de37f331d5b94539">jícara</italic>, sendo palavra mexicana, apesar de outros afirmarem ser palavra árabe. Tommaseo (1879) apenas cita o termo em espanhol e em “mexicano”, sem indicar o étimo ou a origem da palavra. Palazzi (1946), Migliorini (1953: 104), Prati (1951: 267) e Battisti; Alessio, 1968: 897) garantem que <italic id="italic-1522657cca42a6260224f99a1bb1e388">chiccera </italic>&lt; espanhol <italic id="italic-7458e32fdddcebbfd4384dabda9826a6">xícara</italic>. O segundo autor listado ainda afirma que a origem é do espanhol do século XVI, e o último autor data o termo em espanhol como do século XVII. Outra questão nos estimula: por que o uso de <italic id="italic-5a02d6bf8238ab44ceb4a78e9718e43f">xícara </italic>no português do Brasil e o de <italic id="italic-25f6fa5cb3a8f18347fad0f7e6c13489">chávena </italic>em Portugal? Houaiss (2009) data <italic id="italic-108f3552e66716d1a7ee4477dd7325d8">chávena </italic>de 1649 e afirma que adviria do malaio <italic id="italic-e7dca757029c8ac2d6bc2fb433b05b76">c</italic><italic id="italic-7380e592976af155dd27688c3a689256">havan</italic>, chinês <italic id="italic-1602e14f1063e41ce33af79573db904f">c</italic><italic id="italic-4bb91a6e9c160fa50537fbb5a30f016c">ha-kvan</italic>. O termo inexiste no VPM e Cunha (1986) indica que se trata de um sinônimo de xícara e que encontrou a forma <italic id="italic-6c06318a9eb85d4a9bc04a36fd365799">xavena </italic>em 1704.</p>
      <p id="paragraph-f51b2b223b0ef26ea429a7ace4913c10">Ao procurarmos os termos <italic id="italic-4aa0a508e27f6106138f91c1dba35060">xícara/xicara/chícara/chicara</italic><italic id="italic-0dd7e5ffd29b6d662d7b54c8577e8322"> </italic>no <italic id="italic-e521d1dbb89d05d98dce256fad37566b">Corpus </italic><italic id="italic-76793ff6920bd00193327fd4d491b5b6">do português </italic>(DAVIES; FERREIRA, 2016), encontramos um total de 314 ocorrências iniciadas por <italic id="italic-7d63d1ed9b724af2242caebffc67db67">x </italic>e apenas quatro por <italic id="italic-70f33812c8fc7aa11739e711d0094eca">ch</italic>. Apenas uma delas é datada do século XVIII e as demais são do século XIX: “As mortificaçoens com que a Madre Elena estragou o estomago, lho reduziras a tanta debillidade, que todas as menhaãs lhe era precizo huma <bold id="bold-d8059d77d4e9270f7b336bc17a464de6">chicara </bold>de choculate” (<italic id="italic-7f4b412e20c12709de5e8729bfef14fe">Rellaçaõ da Vida e Morte da Serva </italic>- Maria do Ceu - 1721).</p>
      <p id="paragraph-259638619da66bcbe4ce63b602859c4a">Torna-se relevante comentar sobre palavra sinônima a <italic id="italic-b556661e76a453465fb26d625df2bd77">xícara</italic>, a <italic id="italic-aad8849a0710183f9cbbf0109fa976d5">chávena</italic>. Cunha (1986) afirma que <italic id="italic-e11aaf1ce839e57d21a3243785228640">chávena </italic>e <italic id="italic-72c16053d8646b022f0f5f19bded8180">xícara </italic>são sinônimos, havendo como primeira atestação a forma <italic id="italic-8b5b99d726b9ebae1ee9406353f7d4b7">xavena</italic>, em 1704. <italic id="italic-2d26647211b123b9b33b6454b7f91aa4">Ch</italic>ávena &lt; malaio <italic id="italic-1258454e002d015ddb22b755e51e9aae">chavan </italic>&lt; chinês <italic id="italic-2e51c8966e471c58e530026c96f80a05">cha-kvan </italic>seria o percurso do termo, também para Machado (1987) e Nascentes (1955). Machado (1987) afirma ter encontrado atestação no século XVII, na <italic id="italic-a5b189f012c2844f9fd63c61b5b58856">História trágico-marítima</italic>. A busca por <italic id="italic-3de6db61a34bfba54f3ce32041852447">chávena/chavena </italic>no <italic id="italic-26">Corpus do português </italic>(DAVIES; FERREIRA, 2016) nos leva a apenas 78 ocorrências, todas do século XIX (<italic id="italic-27">xávena/xavena </italic>não foram encontradas). Silva (1951) e Bueno (1974) asseveram que se trata de um sinônimo de xícara e o segundo argumenta que “pelos documentos antigos o Brasil é que está certo: Lucena escreve que chávena era o mesmo que escudela<xref id="xref-8d0415ffb3a378bcb74fc35cf50d1306" ref-type="fn" rid="footnote-c8b7d8a1b5929ba50dfd421927f01d64">6</xref> de barro” (p. 694, v. 2). Não encontramos, entretanto, nenhum autor que explique a preferência do uso de <italic id="italic-28">xícara </italic>no Brasil e de <italic id="italic-29">chávena </italic>em Portugal. Mostra-se, aqui, a necessidade de se entender, também o percurso de chávena, o que deve ficar para estudos posteriores.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-66a4fd0337479d5ef1bca6e03bb15060">
      <title>Considerações finais</title>
      <p id="paragraph-dc0726f32d6a2f7012789839e83d7f7d">Como alerta Messner (2006), é comum, na linguística, nunca se chegar a um resultado definitivo, assim como refazer análises já feitas por antecessores. Contudo, o objetivo inicial deste estudo foi alcançado - fazer um levantamento das informações existentes sobre o percurso da palavra <italic id="italic-e4cb1ab3e7ce0176cdaf99b4a25daa38">xícara</italic>, do náuatle até o português do Brasil. Muitas perguntas ainda ficam sem respostas precisas: em que momento a palavra começou a ser usada no português com o sentido que se tem hoje, como chegou ao Brasil e em que data, ou ainda em que momento foi dada a preferência pela palavra <italic id="italic-f3422d7818e7c67a4b0659c7ef35734a">chávena </italic>em detrimento de <italic id="italic-b08339f319886238c97997d5422f070e">xícara</italic>, em Portugal, ou se os dois vocábulos teriam sempre coexistido. Assim, estas questões deixam um espaço aberto para novas pesquisas que precisam ser feitas sobre o assunto.</p>
      <p id="paragraph-a5f3901a79b0a8004103b644bfbf7ed4">É possível, porém, afirmar que a palavra se origina da língua náuatle e a semelhança entre o espanhol <italic id="italic-06be319a1d6d1552d763c21a248da9b4">jícara </italic>e o português <italic id="italic-a2fddb6a01ab0a88e7285ef1a269181e">xícara </italic>não é mera coincidência. Refutou-se as hipóteses de que <italic id="italic-ed23dada64f8a7ce3ab0131aad700d7d">xícara </italic>se originaria do árabe ou do italiano. Foi possível também entender um pouco mais sobre como muitas palavras eram levadas para a Europa e emprestadas para outras línguas, assim como conhecer aspectos históricos e culturais de povos que interagiram entre si.</p>
      <p id="paragraph-e92677d49f95b6f19751d861fd698a0f">É preciso aceitar que fazer um levantamento sobre a etimologia de uma palavra e o caminho feito por ela pode não levar exatamente ao que se espera. No entanto, é inevitável reconhecer que o próprio exercício de busca da palavra promove um enriquecimento linguístico e cultural muito grande. Ao buscar informações sobre a palavra, tem-se uma visão mais abrangente de seu significado, não enquanto designação ou sinônimo de algo, mas de tudo o que um vocábulo pode portar e guardar sobre as características de um povo, ou de povos, seus costumes, tradições e história, o que vem a ressaltar mais uma vez o caráter sócio- histórico e cultural dos estudos etimológicos. Dessa maneira, os estudos etimológicos, não somente beneficiam o estudo de uma língua, mas também, e principalmente, modifica e amplia a visão da importância das palavras na construção da nossa realidade.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-77d347bc7a9586a881f091525ede2a2c">
      <title>Referências</title>
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      <p id="paragraph-832fa2bc2cc3492227eefc8294fa343d" />
      <p id="paragraph-6766ab5e8e776e7a8284b18232982adb">Recebido em 10/10/2016 e aceito em 06/12/2016.</p>
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    <fn-group>
      <fn id="footnote-15b3672e466524d32773ef7bcd580cd7">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-f0d7104042b6ca07d4786889d06e36c7">Não nos ateremos a esta polêmica no momento. Havendo interesse, sugere-se a consulta a Pottier-Navarro (1992).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-83f14fa3c119ef81305db775775ac100">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-295c0dfa1f5fc900b38679a023c1f902">É claro para nós que, como bem alerta Viaro (2014) e Venâncio (2013), quando um autor consultado indica a primeira ocorrência de um vocábulo em dada língua, trata-se, na verdade, da primeira ocorrência atestada, presente em documentos escritos que chegaram até o tempo presente, havendo sempre a possibilidade de um recuo cronológico.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-ef15056ddf9a366ba7b12840866d7723">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-5d4f076f8c07f505af75d89351580378">Prato ou peça de cerâmica de Talavera de la Reina (Espanha), famosos na Europa desde meados do séc. XVI (HOUAISS, 2009).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-2cf85673f3fc1e14c01d698513fb32fb">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-0202f98b6162f81bcc2bd49c4d79bcac">Ouvimos na cidade de Araxá, no interior de Minas Gerais, estado brasileiro, o uso da palavra <italic id="italic-584999183c22a9c1ae980c23e9997689">chávena</italic>.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-afc8b780fcaf6d5d37873acdebc9e45c">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-ca4510fb1d41c86856ccb242ccdd8a87">No texto introdutório de seu dicionário, o autor critica negativamente a maioria dos dicionários etimológicos da língua portuguesa: Eduardo Faria é “fantasista”; Raphael Bluteau apresenta “muitos desacertos”; Caldas Aulete, “se acerta é por acaso”; Francisco Coelho indica “etimologias inaceitáveis”; Augusto Magne apenas “repete o que os outros disseram”.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-c8b7d8a1b5929ba50dfd421927f01d64">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-ce1b9f5e6c92e77a29100ce1a5cbb1d4">“Vasilha de madeira pouco funda, geralmente arredondada, própria para comida” (HOUAISS, 2009).</p>
      </fn>
    </fn-group>
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