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          <subject content-type="">RELATÓRIO DE PESQUISA </subject>
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        <article-title>Linguagem e economia política em ativismos no <italic id="italic-1">twitter </italic>sobre o uso de ‘linguagem neutra’</article-title>
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      <volume>22</volume>
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      <abstract>
        <p id="_paragraph-1">Nas últimas décadas, os ativismos LGBTQIA+ em todo o mundo têm reivindicado uma linguagem mais inclusiva, criando termos não binários inteiramente novos ou reformulando palavras e construções gramaticais já existentes. No Brasil, tal reivindicação adquiriu recentemente papel relevante na agenda política oficial, tendo sido objeto de ações oficiais de repúdio e indignação, através de projetos de lei que têm buscado proibir o uso institucional dessa linguagem alegando falta de legitimidade linguística, moral e política. O foco deste artigo está na abordagem da questão da linguagem neutra numa rede social, o Twitter, em discussões de natureza metapragmática no desenho estratégico do chamado bolsonarismo algorítmico nas redes sociais. Conforme mostramos, a articulação de discursos contemporâneos sobre economia linguística (GAL; IRVINE, 2000) e ativismo político nas redes sociais (MALY, 2018; 2020; CESARINO, 2019a; 2019b) por brasileiros que se posicionam sobre a adequação e legitimidade do conceito de linguagem neutra se dá graças ao grafocentrismo escolar e de senso comum que legitima a divisão e ordenação de formas e sentidos linguísticos, correlacionando-os à divisão e ordenação dos atores sociais entre aqueles que falam/podem falar porque reproduzem convenções institucionais do “bom uso” da língua e os que só fazem ruído, nos termos de Rancière (1995). A base empírica é constituída de tweets produzidos em 2021-2022 e coletados através de buscas por palavras-chave incluindo a expressão “linguagem neutra”. </p>
      </abstract>
      <kwd-group xml:lang="pt">
        <kwd content-type="">Twitter</kwd>
        <kwd content-type="">Ideologias de linguagem</kwd>
        <kwd content-type="">Metapragmática</kwd>
        <kwd content-type="">Bolsonarismo algorítmico</kwd>
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    <sec id="heading-43140c07b6a6ef5c45a741b1dfc858fd">
      <title>Introdução</title>
      <p id="paragraph-bb11aed2c5baff051a91a06f1929c84f">A abordagem da questão da <italic id="italic-90b54af4547a3d8b0488a7a45418788e">linguagem neutra</italic> no Twitter vem sendo pautada por padrões metacomunicativos e metapragmáticos de caráter sistêmico. Não restritos a uma plataforma ou mídia, esses padrões são próprios de configurações contemporâneas de lutas sociopolíticas e ideológicas em que tecnologias digitais têm papel constitutivo, como no caso específico das lutas que têm dado corpo e voz à chamada ‘nova direita’ conservadora e populista (MALY, 2018a<xref id="xref-bfe7bb467e2f35bb59a5c63a0870d3a5" ref-type="bibr" rid="magazine-article-ref-dc29e42ac3d20d93c78510a849f0ca95">[1]</xref>, 2018b<xref id="xref-8a089d58e5eecdcb5fbf086eee956b49" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-033ef7bfec82144eff32e2ceeb0cba1b">[2]</xref>, 2020<xref id="xref-8efb1c6be49b90486eaf8892230305f8" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-d30716e4abf44fe72d27e355872b9e57">[3]</xref>; CESARINO, 2019<xref id="xref-3bcbe18d35d046ba8cf9328cfb043889" ref-type="bibr" rid="magazine-article-ref-8277fdcd6039061d5534df398b8a1830">[4]</xref>; 2020). Segundo Maly (2020<xref id="xref-52bbfb7bdc0474a52a71f458f3f20dfd" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-d30716e4abf44fe72d27e355872b9e57">[3]</xref>), além da agentividade dos atores humanos nessas lutas, há que ser considerada, na comunicação mediada por tecnologias digitais, a agentividade algorítmica, de que se vale, segundo ele, o ‘populismo algoritmo’ da nova direita contemporânea. Como um fenômeno construído e mediatizado por muitos seguidores, o ‘populismo algoritmo’ tem grande capacidade de retroalimentação e garante que postagens obtenham inúmeras curtidas, que sejam retuitadas e comentadas tanto por cidadãos comuns, quanto por ativistas que se tornam responsáveis por dar suporte a postagens (MALY, 2020<xref id="xref-17d02cb3dbc3cac502f5c214a0893e1e" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-d30716e4abf44fe72d27e355872b9e57">[3]</xref>). </p>
      <p id="paragraph-2">Especificamente no caso de mensagens pelo Twitter, conforme demonstrou Blommaert (2018) em estudo sobre tweets do ex-presidente americano Donald Trump, a infraestrutura algorítmica dessa plataforma favorece a expressão escrita de uma retórica oral de natureza performática: através do uso de recursos do discurso escrito (sobretudo recursos de ênfase, como o uso de letras maiúsculas e de sinais de pontuação, por exemplo), tanto é salientada a relevância do que está sendo dito, quanto são sugeridos os fragmentos a serem reproduzidos e como devem ser reproduzidos (tom, modulação, por exemplo). Tal dimensão performática pode ser melhor observada quando potencializada pelo ‘populismo algorítmico’ através de estratégias e táticas de retroalimentação, tanto por influenciadores formadores quanto por usuários comuns, culminando na viralização desses fragmentos, ou reprodução em <italic id="italic-2">looping</italic>. </p>
      <p id="paragraph-3">Conforme pretendemos mostrar na sequência desse artigo, discussões no Twitter sobre o conceito e as implicações da questão do uso de linguagem neutra na comunicação social é um exemplo de exploração dessas potencialidades pelo bolsonarismo algorítmico, com destaque para o principal vetor mobilizado na configuração da discussão e nas táticas de retroalimentação através da rede: ao invés de uma demanda de natureza propriamente sociopolítica e específica de um grupo de falantes/cidadãos, trata-se de uma demanda de natureza linguística e metapragmática de caráter geral, ou generalizante, sobre como são/devem ser os usos das formas linguísticas na interação social, oral ou escrita. Através dessa configuração, puderam ser invocados e atualizados princípios, normas, experiências escolares e de senso comum no uso da língua para se compreender e avaliar como irrelevante, descabida, ou arbitrária e injusta, a demanda de mudança na língua em benefício de um grupo minoritário e marginal em relação ao grupo majoritário dos cidadãos comprometidos com a ‘defesa’ da ‘língua nacional’ ameaçada.</p>
      <p id="paragraph-4568f94a428ad0467764c94d0531a299">A função propriamente política dessa configuração da discussão adquiriu grande visibilidade no desenho estratégico da economia política do bolsonarismo algorítmico<xref id="xref-d7e07e1b7b4094e705e5f5826b9021ae" ref-type="fn" rid="footnote-1a81e6fcb4158bf46b386ff4407ee25e">1</xref> porque passou a indiciar uma luta orquestrada nacionalmente pela manutenção dos parâmetros herdados da tradição grafocêntrica de divisão e ordenação de atores sociais (os que podem falar e os que só fazem ruído, nos termos de Rancière (1995<xref id="xref-354a5797537cefbabbb755945f624ef6" ref-type="bibr" rid="book-ref-e742e431ab7e106f9a5e6c585d748aa7">[5]</xref>) e de diferenciação e ordenação de formas e sentidos (IRVINE; GAL, 2000<xref id="xref-6bc7a90f94c2ada970f48d697a720040" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-bf92c867dc7dc006ba0132c52198513e">[6]</xref>; JOHNSTONE, 2018<xref id="xref-d2ad7f01e3bbe150afb2d7c28a437a1e" ref-type="bibr" rid="article-ref-388007e30d2557d4824cdc295a03899f">[7]</xref>; IRVINE, 2021<xref id="xref-956b6b1e8ab702281ce3e8f3af292d20" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-149a38b2356b807e0b378a96ceeebcdb">[8]</xref>), notadamente as que contam (ou são legítimas) e as que não contam (ou porque são ilegítimas, ou porque não fazem sentido). Os anúncios de projetos orquestrados de proibição do uso institucional da linguagem neutra em nível municipal, estadual e federal<xref id="xref-dc7d767abe5c6dd8081afd55f2a16f50" ref-type="fn" rid="footnote-6712d8d46a497456f4ef27802aa98392">2</xref> alimentaram as trocas na rede em torno do tema no período focalizado.</p>
      <p id="paragraph-b5052315616771647c9920ce018d8579">Pretendemos mostrar, ainda, que os discursos especialistas trazidos para discussão no período focalizado, inclusive os emprestados aos estudos linguísticos, contribuíram para uma redução sistemática da questão da linguagem neutra a uma questão de variação do português a ser tolerada, ou não, conforme o grau de normatização e institucionalização adquirida, ou seja, conforme o grau de assimilação a uma norma parametrizada pela escrita. </p>
      <p id="paragraph-70ebfa1954f15397a473fc3726b4c0aa">A base empírica deste trabalho é constituída por tweets produzidos em 2021 e 2022 em torno dos projetos legislativos de proibição da linguagem neutra em todo o país e coletados através de buscas por palavras-chave que incluíam a expressão ‘linguagem neutra’. A seguir, nas figuras 1, 2 e 3 estão reproduzidos<xref id="xref-df4c8a8f89c6f02760693ea5eaac88b6" ref-type="fn" rid="footnote-cfbe9b49fa7e9e70faa6ed1f50562aa4">3</xref> três exemplos de tweets de divulgação desses projetos de lei em três Estados diferentes<xref id="xref-65d050352a1a9b29cc2b98529dd5515f" ref-type="fn" rid="footnote-e8fda40d57efd5ff048c4cf0daeadc83">4</xref> .</p>
      <fig id="figure-panel-c01a4c99101f293f5ffbf20246f8a68b">
        <label>Figure 1</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 1 - Tweet de divulgação de projeto de lei estadual (SP) prevendo  pagamento de multa. Último acesso: 22.05.2023.</title>
          <p id="paragraph-d809f5a17efa0b34201dc2bc79705c7f">Fonte: <ext-link id="external-link-88183a76ac0816d48f7d052e85d45da0" ext-link-type="uri" xlink:href="https://twitter.com/DAVILAFREDERICO">https://twitter.com/DAVILAFREDERICO</ext-link>.</p>
        </caption>
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      </fig>
      <fig id="figure-panel-c1f86483304814086fb8ae0a988db779">
        <label>Figure 2</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 2 - Tweet de divulgação de projeto de lei estadual (RJ). Último acesso: 22.05.2023.</title>
          <p id="paragraph-b6b25286b8fda33142b0584a02dd4cd4">Fonte: <ext-link id="external-link-903a86f72844a02fc49209cc853df342" ext-link-type="uri" xlink:href="https://twitter.com/deputadomoraes/status/1554775330778488832">https://twitter.com/deputadomoraes/status/1554775330778488832</ext-link>.</p>
        </caption>
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      </fig>
      <fig id="figure-panel-68cb511a93dc5e71f5b519762fcdb877">
        <label>Figure 3</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 3 – Divulgação de projeto de lei estadual (MS) por jornal conservador. Último acesso: 22.05.2023.</title>
          <p id="paragraph-d5dd4b4685c111e296ef67bc4184fea4">Fonte: <ext-link id="external-link-ee2354289ecd4656ecf66522ed6d611a" ext-link-type="uri" xlink:href="https://twitter.com/msconservador">https://twitter.com/msconservador</ext-link>.</p>
        </caption>
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      </fig>
    </sec>
    <sec id="heading-11462a6e83f02f8816c83b0d05cc105b">
      <title>1. Linguagem neutra e ativismo bolsonarista</title>
      <p id="paragraph-5d96fa93232991cc7c088ce2903eabc9">No caso brasileiro, a reivindicação de uma linguagem neutra pelos ativismos de gênero (feminismo; ativismo <italic id="italic-91ab80806ed662493366f60a857b637c">queer</italic>) e de direitos humanos data do início dos anos 2000. A polêmica, no entanto, foi, de fato, instalada em 2015, especialmente entre políticos conservadores e acadêmicos, quando foi aprovada uma versão do Plano Nacional de Educação (PNE)<xref id="xref-8aa4e01e95ed8a46cc5ebc9c7cce2018" ref-type="fn" rid="footnote-ca571e6e70c6a52103ad29c5fb6ebd41">5</xref> que excluía do texto a palavra ‘gênero’. A partir desse debate, as discussões sobre o uso da linguagem neutra ganharam mais espaço e muitos/as professoras/es e ativistas ligados/as a grupos com pautas progressistas e identitárias passaram a usá-la de modo mais recorrente, demarcando uma postura política em favor de múltiplas identidades de gênero. </p>
      <p id="paragraph-48f2a6d5d86456dce2c0bce0a0b2d8c9"> Mas ao ser capturada pelo ativismo bolsonarista, a discussão ganhou visibilidade transversal nas redes através dos mecanismos e infraestrutura digitais mobilizados pelo “populismo algorítmico” bolsonarista, empenhado não apenas em atrair a atenção das pessoas comuns e da mídia convencional, mas também em envolver essas pessoas na dinâmica de construção de uma voz que, como enfatiza Maly (2020<xref id="xref-30531b1fc88a95785685a66ebf5d4df2" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-d30716e4abf44fe72d27e355872b9e57">[3]</xref>), se quer verdadeiramente popular e autêntica (a voz do povo), e que passa a circular em redes comunicativas híbridas, envolvendo não só políticos, influenciadores e ativistas, mas também “apoiadores voluntários”, simpatizantes de ocasião, bots e gerenciadores humanos e não humanos dos fluxos de informação e dos tipos de envolvimento dos usuários. Conforme explica Fisher:</p>
      <p id="paragraph-8b9c84168f31d002a35ba823098c35f7">A economia política das mídias sociais é única em permitir a integração e a conflação de processos anteriormente distintos de produção, circulação e consumo. Não só estão ocorrendo no mesmo local, mas também estão se alimentando uns aos outros. A produção de informações pelos usuários é monitorada, agregada, analisada e transformada em mercadorias de informação, que são posteriormente consumidas pelos usuários, e assim sucessivamente. (FISHER, 2015, p. 1114<xref id="xref-414b119d9f7270154bfce9911e1910b9" ref-type="bibr" rid="article-ref-6aee72710b9cbc38b902619ceb8f1ad9">[9]</xref>)</p>
      <p id="paragraph-d75b33108237c4780f7e5ad5dbcb1c93">O tweet a seguir (Figura 4), produzido por um dos inúmeros perfis de nomes fictícios da rede ativista pró-Bolsonaro, é um convite a pessoas/cidadãos “de bem” que ainda não participam da rede:</p>
      <fig id="figure-panel-7da38afce69f85edf69f716761f4526e">
        <label>Figure 4</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 4 -Tweet de 03 de julho, 2022. Último acesso: 22.05.2023.</title>
          <p id="paragraph-59f0fd52f4d8e543cdf4e050858e3cdb">Fonte: <ext-link id="external-link-412fc16372f42cb76358aff2c0c6be28" ext-link-type="uri" xlink:href="https://twitter.com/Damadeferroofic/status/1543624968424005632">https://twitter.com/Damadeferroofic/status/1543624968424005632</ext-link>.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-1e8217f5fce5c53780297485a26ac6aa" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figquatro.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-77e5359039116d831d57da024390de34">Em sua maioria, pessoas/cidadãos “de bem” são identificadas por esses ativistas como pessoas que defendem valores relacionados a família, pátria e religião<xref id="xref-c3fcc0afeae4db59f3abd0e2b88f81df" ref-type="fn" rid="footnote-581c15c0ccf72c0fee13618318526ed9">6</xref> Essas classificações simbólicas demarcam eixos diferenciados nos quais, segundo Irvine (2022), "feixes de características contrastam com outros feixes de acordo com um único princípio de contraste" (IRVINE, 2022, p. 231). Tais feixes servem para apontar um eixo como seguro e próximo e o outro, como perigoso e distanciado. No exemplo acima, o perigo está na “Imprensa, Pesquisas, Classe artística, Banqueiros, Metacapitalistas, Bots”, cujos interesses são controlados por Lula, o político de esquerda. Em contraste, a proximidade é estabelecida com Bolsonaro, o político de extrema-direita que, segundo o tweet, é controlado pelos interesses d”O Povo” e que precisa “contar” com o apoio do maior número. </p>
      <p id="paragraph-c183d93fcd68a489c63299bd1a59a917">A “topologia fractal” da dinâmica do “populismo algorítmico”, conforme enfatizado por Cesarino (2019b), é o que garante a organicidade e a capilaridade do sistema como um todo, com destaque para o trabalho voluntário de reprodução da “voz do povo” em miríades de redes pessoais em diferentes plataformas. Uma voz feita de reverberações de falas e imagens, que produzem o efeito das chamadas “câmaras de eco” (TERREN; BORGE, 2021<xref id="xref-89a52defed33bb5c6f65e557f1c76797" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-7222df3078f35556756059a4bed66cf6">[10]</xref>) na veiculação da informação atrelada a valores e estilos específicos, embora não necessariamente convergentes ou complementares. Segundo Cesarino, em manifestações desse tipo, estabelece-se a diferenciação sintagmática (nós-eles) e paradigmática do “líder-povo”, constituindo-se e justificando-se como um modelo eficaz da necessidade de amplificação de uma voz autêntica do povo. </p>
      <p id="paragraph-e092ea00c67f5cbe0b2fbc559b22c09c">A troca de tweets abaixo transcrita (Figura 6) é reveladora da topologia fractal, de que fala Cesarino, na medida em que permite observar como essa dinâmica da diferenciação sintagmática (nós-eles) e paradigmática do “líder-povo” em torno de eixos contrastantes vai sendo reverberada na rede em configurações locais e específicas, ou seja, adaptadas a diferentes contextos e interlocutores, o que garante a organicidade e capilaridade do sistema. Essa troca envolveu, inicialmente, dois políticos (o prefeito de Criciúma e uma deputada federal do PSDB de Santa Catarina - Figura 5), mas na sequência de mensagens transcrita em seguida (Figura 6), os protagonistas são sobretudo um pastor evangélico e um crítico da movimentação dos políticos envolvidos com os projetos de lei para proibir o uso da linguagem neutra<xref id="xref-a44d7e80f67c5cbc84ff8fb9a9a168e2" ref-type="fn" rid="footnote-a76032fdc9a7e56c41d307b503ff2242">7</xref> .</p>
      <fig id="figure-panel-5f67a57c91e0b2b9edaef713c55f6763">
        <label>Figure 5</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 5 – Postagem do Prefeito de Criciúma, que aparece  ao lado da deputada federal Geovania de Sá, ambos do PSDB (SC).</title>
          <p id="paragraph-2a8db2312188323c2e8c6cc163489b8a">Fonte: <ext-link id="external-link-787179d5d4cfbb813cb9fe48d8384623" ext-link-type="uri" xlink:href="https://twitter.com/ClesioSalvaro">https://twitter.com/ClesioSalvaro</ext-link>. Último acesso: 22.05.2023.  </p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-b0a017f43c3b899d49a2d25bb640e0a7" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figcinco.png" />
      </fig>
      <fig id="figure-panel-a710a19d74912f0f546fcb5d0206c2d6">
        <label>Figure 6</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 6 – Tweets datados de 20 de agosto de 2021. Último acesso: 30.10.2021.</title>
          <p id="paragraph-9ecaa165ab1dcf8153dea4fd2523d242">Fonte: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-14247ab659285e9a8bbcdaf4a9a84ae2" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figseis.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-f546b4fbc178cd327ca422d640e2fbf3">Na sequência acima, é interessante observar um estranhamento, expresso no primeiro tweet, pela captura da questão da linguagem neutra pelo sistema bolsonarista – não há como proibir a língua(gem) das pessoas, portanto trata-se de perda de tempo e dinheiro. É interessante também observar como, no desenvolvimento da sequência, vai se organizando a partilha das designações e (des) qualificações em torno de dois eixos contrastantes, apontados já na primeira reação do pastor ao estranhamento expresso no início: trata-se de contrapor um “pensamento esquerdista” no eixo do negativo e distante (pensamento “inútil, deletério, e destrutivo”; “elite privilegiada xexelenta e preguiçosa”; “anarquistas imorais”) a um pensamento “conservador” no eixo do positivo e próximo (cidade “top, rica, limpa, empreendedora e desesquerdizada”; “quem manda é o povo”, não o político). Como se pode verificar, não há, de fato, espaço de discussão, na medida em que o pastor se coloca na posição daquele que sabe e chama a atenção do outro, que não sabe, que não pode compreender (“Sei que para vc é difícil compreender isso”) e que, para vir a saber, para vir a compreender, deve aderir ao pensamento conservador, ou seja, mudar de posição, não apenas em relação à movimentação política em torno dos projetos de lei, mas também em relação às estruturas e redes socioculturais e políticas de referência (“toda essa bobagem de justiça social”).</p>
    </sec>
    <sec id="heading-dd5067e78f307ec23b203131690f50be">
      <title>2. Apelo aos discursos oficiais, escolares e de senso comum sobre o uso “correto” da língua nacional</title>
      <p id="paragraph-fccc79678806590b89b4ac47cff4cdb1">A abordagem da questão da linguagem neutra em outros países (CARRASCOSA, 2022<xref id="xref-60a982b571d271e6cb565fdc7edcf8a4" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-88e5bf7b4a8565b7d579d0de82a26172">[11]</xref>; FALORNI; OVIEDO, 2022<xref id="xref-686fe21fddf8488df8223dccb6f4add4" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-25748d825eeb9556bc098c9c70e8d532">[12]</xref>; MUÑOZ; ARROYO, 2022<xref id="xref-46d21104c97c1192456db75c0ae0c7fc" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-209d5a6e9fa9d77d1b4507ea6b322320">[13]</xref>; BLANCO, 2022<xref id="xref-cab37ece3575658ea4c6344d82b63f79" ref-type="bibr" rid="conference-paper-ref-24f2755a3ac9c7aca3459639ca4a4f75">[14]</xref>) tem mobilizado esse mesmo modelo dos eixos contrastantes descrito na seção anterior, sendo que no Brasil, a partir de meados de 2019, a discussão adquiriu a dimensão de uma “luta metadiscursiva” (SILVERSTEIN; URBAN, 1996<xref id="xref-c18711fce9130359cc24fa4197389122" ref-type="bibr" rid="book-ref-fd7cc337e8a5b13e1743b1ed87cfce24">[15]</xref>) e metapragmática (SILVERSTEIN, 1993<xref id="xref-de18bd25ac7dcb1e035c8b00a6d693a9" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-b2c93f7811b33182c445b751605e5fbc">[16]</xref>; MEY, 2001<xref id="xref-0a7037a4ca88245a663aea9e114c1882" ref-type="bibr" rid="book-ref-fc6a11302dbaf603da764ba7bb677f4b">[17]</xref>; SIGNORINI, 2008<xref id="xref-b1dad7285cb36e5c4cbce1aa516b380f" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-66020f2fd40c4748a9e1a094510d3a00">[18]</xref>). Essa luta se constitui em uma disputa de natureza política e ideológica sobre usos e regulamentação dos usos linguísticos por grupos e indivíduos diferentemente posicionados em estruturas e redes de poder e autoridade, chamados a exercer suas capacidades metalinguísticas e metacomunicativas no exame da questão. O julgamento, nessa disputa, não ocorre com base em critérios linguístico-discursivos estritos e sim com base nas “posições e identidades dos falantes e de sua língua numa dada ordem sociocultural e política” (SIGNORINI, 2006, p. 170<xref id="xref-c2a65e0988be45dc18c2dc6ac2fdf926" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-3626bad8de4507b3f4d7ff7532af07b2">[19]</xref>). E nessa luta, a linguagem neutra assumiu a função de mais um indexador do rol de inimigos a serem combatidos e eliminados pelo ativismo algorítimico: mais um indexador da chamada “ideologia de gênero” e suas relações com uma esquerda dita corrupta e “relativista”, com o comunismo e o feminismo ditos ateus, globalistas e autoritários. </p>
      <p id="paragraph-4ea8458e39e190b2e0a61199e09eac22">Parte dessas relações estão explicitadas nos tweets abaixo transcritos (Figuras 7, 8 e 9), produzidos nos dois últimos anos em reação a postagens de políticos bolsonaristas anunciando a proibição do uso da linguagem neutra em diferentes localidades. </p>
      <p id="paragraph-32ad7350d8bf447d2fa30355a9f86035">O primeiro (Figura 7) foi produzido por um ativista insatisfeito com as ações do governo federal no combate às ameaças da “doutrinação” e da “engenharia social feminista” nas escolas. É relevante o fato da lei mencionada em sua mensagem para justificar sua insatisfação ser a que inclui a prevenção da violência contra a mulher nos currículos da educação básica e instituir a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher (alteração da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, de Diretrizes e Bases da Educação Nacional):</p>
      <fig id="figure-panel-2d032fd51ba515da9057b680db9beeaf">
        <label>Figure 7</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-1">FIGURA 7</bold> – Tweet datado de 13 de julho de 2021. Último acesso: 22.05.2023.</title>
          <p id="paragraph-e8d8c275c076bdb9825258529e826470"><bold id="bold-c912c2dc7002f184e91e8382fe663c0d">Fonte: </bold>Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-517f04179d78c9e293de3515efe6a2fd" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figsete.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-3fefd777527d9c98d59ea2b955a1a32a">O segundo tweet (Figura 8) foi produzido por um simpatizante à causa da defesa da língua e da soberania nacionais gravemente ameaçadas, segundo ele, pela linguagem neutra:</p>
      <fig id="figure-panel-dfe2db7cb766c943161a21fdbd4f5f83">
        <label>Figure 8</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-20ee28930982c77838dae23c6db67ced">FIGURA 8</bold> – Tweet datado de 06 de julho de 2022. Último acesso: 22.05.2023.</title>
          <p id="paragraph-8828b0f51fafa63b457fc67e3f3b8578"><bold id="bold-a5aff022c72dfec79974c05c992704f4">Fonte: </bold>Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-2ae6fccd80fb5f956f35a32ba5b4d76e" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figoito.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-2716356a4c80be28d5d7e882e5bf912a">O terceiro tweet (Figura 9) manifesta apoio à proibição, em uma escola de Porto Alegre (RS), de uma peça de teatro em linguagem neutra, considerada “uma ofensa gramatical”, e não uma linguagem inclusiva:</p>
      <fig id="figure-panel-7a9e4208dd9ac02a04fedd5fdb94e430">
        <label>Figure 9</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 9 - Tweet datado de 10 de novembro de 2021. Último acesso: 22.05.2023.</title>
          <p id="paragraph-fef729b1b7682ae7ce2f31459329cb1c">Fonte: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-d000eb6e1525c4a5589e0a7080b6edca" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="fignove.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-5ad77146ea541fe0e082a9f59456522f">Mas para a questão da linguagem neutra funcionar como indexador capaz de mobilizar todo o sistema e fazer circular formas e sentidos (des) (re) contextualizáveis e (re) entextualizáveis - os fragmentos de dimensão performática de que fala Blommaert (2018<xref id="xref-95d4e0df94f27efa23813d421ce43b8f" ref-type="bibr" rid="article-ref-50bab076fb5664a700c78676f0d4d0fa">[20]</xref>) -, em cadeias heterogêneas - a fractalização do sistema de que fala Cesarino (2019b<xref id="xref-275f65e07fd5dd25280ab2546d208d16" ref-type="bibr" rid="magazine-article-ref-573bae49a353225a3f0759e985e234e2">[21]</xref>) -, fluidas e dinâmicas - a capacidade de retroalimentação do sistema, de que fala Fisher (2015<xref id="xref-7586ddb229c5830ce27c7fe843e29991" ref-type="bibr" rid="article-ref-6aee72710b9cbc38b902619ceb8f1ad9">[9]</xref>) -, os ativismos bolsonaristas têm se apoiado num conjunto de reduções importantes. São reduções na apreensão e compreensão não só da linguagem neutra enquanto componente de práticas performáticas minoritárias, como também da língua portuguesa enquanto língua nacional, portanto oficial da escola e demais instituições. Os tweets acima (Figuras 7, 8 e 9) aludem, justamente, a um confronto e disputa, sempre presente na rede, entre majoritário institucional, oficial e, portanto, legítimo, e uma ameaça minoritária perturbadora da ordem institucional, portanto ilegítima: “não existe linguagem neutra”. Essa é uma expressão consistentemente replicada na rede, emprestada à retórica oral performática de diferentes perfis públicos em defesa dos projetos legislativos de proibição da linguagem neutra.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-f704dbfb13f792a4721a3cca94030f37">
      <title>3.  O papel do grafocentrismo</title>
      <p id="paragraph-b82b16aed296fbd384ef0c3b54b89826">O grafocentrismo escolar, historicamente associado às ideologias linguísticas de sustentação do nacionalismo moderno (a noção de língua nacional) e do letramento escolar (o modelo “autônomo” de letramento, confome Street (1984<xref id="xref-b61ab5b2d6e5df8f2abdb4c9176b7f7c" ref-type="bibr" rid="book-ref-d7bf4a2e57518fe8b3ea4312c91d630a">[22]</xref>), e a noção de correção formal parametrizada pela escrita), foi o enquadramento mais geral dado à luta metadiscursiva e metapragmática apontada na seção anterior. O grafocentrismo, como “a ideologia que privilegia formas alfabéticas de letramento”, como resume Souza (2017, p. 1<xref id="xref-207505f5b023dabf8e3ecd9a3827acad" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-e8a2aabc4ffd8e25a7c93e37135da720">[23]</xref>), tornou “esse corpo de pesquisa cúmplice da reprodução continuada da lógica da colonialidade que universaliza uma epistemologia ocidental relacionada ao letramento.” </p>
      <p id="paragraph-c7b75defee73f9f822ecee8c3bce5c8d">E esse enquadramento grafocêntrico tem sido produtivo no contexto do ativismo algorítimico por dois aspectos interrelacionados. O primeiro é o fato de os discursos institucionais, sobretudo os escolares, sobre o uso “correto” da língua, no sentido gramatical ou ortográfico, serem de senso comum, mesmo que fragmentariamente, para a maior parte dos internautas que se manifestam na rede, inclusive os defensores da adoção da linguagem neutra. Assim, enunciados que vigoram em contextos escolares e em discursos oficiais, como “é preciso ensinar a norma culta na escola”, “não há dúvida de que se deve ensinar a gramática normativa nas aulas de português”, por exemplo, são facilmente reconhecidos, compartilhados e dados como premissas indiscutíveis para toda avaliação de formas e usos linguísticos. São enunciados reproduzidos e legitimados também por professores/as e especialistas, ao justificarem seu repúdio à linguagem neutra pelo contraste com o sistema linguístico descrito pela gramática ou pela linguística variacionista.</p>
      <p id="paragraph-ffe09ec512fbe933828dae73bf83ddb5">Os tweets abaixo (Figuras 10 e 11) ilustram as reverberações mais comuns no período, concernentes a esse primeiro aspecto, com destaque para o tweet postado pelo policial militar que ocupou o cargo de Secretário Especial da Cultura do governo Bolsonaro (Figura 10) e que ilustra, além do apelo à concepção grafocêntrica da língua como sistema (sintaxe), o apelo ao conceito naturalista de uma relação biunívoca entre a ordem do sistema linguístico e a ordem do mundo (realidade), de modo que uma perturbação na ordem do linguístico implicaria numa perturbação na “percepção da realidade” e a consequente instauração de uma espécie de regime do falso, da irrealidade (“não linguagem”):</p>
      <fig id="figure-panel-9eb70ca123a95114b6dfe86a659c874f">
        <label>Figure 10</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 10 - Tweet de ex-Secretário Especial da Cultura do governo Bolsonaro datado de 23 de  julho de 2021.  Último acesso: 12.12.2022.</title>
          <p id="paragraph-0a70e047388a0010199f13b109b4d16e">Fonte: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-53d618a5bbf5b298344312c3209f9bf4" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figdez.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-cefaf17fda70c83595523c38ed4fd8b3">O segundo tweet (Figura 11) ilustra o mesmo apelo à concepção grafocêntrica da língua, mas desta vez para justificar a associação da discussão sobre uso da linguagem neutra na escola a uma “pauta” da direita, à qual é preciso resistir:</p>
      <fig id="figure-panel-e8ec84afb223f5e9cfe9ccb52c5956c7">
        <label>Figure 11</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 11 - Tweet datado de 6 de maio de 2022. Último acesso: 22.05.2023.</title>
          <p id="paragraph-044fb0ca75a72e5d378c1fdc12639d2c">Fonte: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-7aa722f988311173481860ef0e26c0e3" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figonze.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-a2822d2e9f8c3c5ad067dea27f4c6e78">O segundo aspecto relacionado ao papel do enquadramento grafocêntrico na dinâmica do bolsonarismo algorítimico é o fato da normatização e da padronização institucionalizadas como padrões de diferenciação e avaliação dos usos linguísticos e dos falantes na cena pública e em testes institucionais não serem questionadas pela maior parte dos internautas que se manifestam na rede, inclusive os defensores da adoção da linguagem neutra. Os tweets abaixo (Figuras 12 e 13) ilustram como tais padrões de diferenciação estão relacionados com os princípios mais gerais do combate bolsonarista. </p>
      <p id="paragraph-1f2e1416a8b366bd9333ad4f96f35150">No primeiro (Figura 12), a linguagem neutra é associada a um suposto erro de pronúncia por desconhecimento da ortografia do português (“Nóbel” ao invés de Nobel) por um professor universitário, adversário político do bolsonarismo e “seguidor” de um ensino deficiente ou equivocado (“ensino ciclado”; “ensino Paulo Freire”), porque não tem como objetivo “falar ou escrever certo”. E em função isso, é um ensino que quer “impor” a linguagem neutra. O padrão de correção linguística aludido pelos internautas nesse exemplo é o dos testes institucionais de seleção de candidatos:</p>
      <fig id="figure-panel-0a22abf7429b38d4d953d598726e13ba">
        <label>Figure 12</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 12 - Tweet datado de 18 de Novembro de 2022. Último acesso: 12.02.2023.</title>
          <p id="paragraph-4dd698ab07b887b887d12fc583026c78">Fonte: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-bf0606b7415157c245a4e89d50d9d1c3" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figdoze.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-306f9d53c9450194c0486c5f91b9abe5">No caso do segundo tweet (Figura 13), a linguagem neutra deve “ser levada em conta”, mas de forma marginal, segundo o internauta. E a razão apresentada é a falta de legitimação oficial para seu uso:</p>
      <fig id="figure-panel-c4faca0fdf485b4a0bbcfeae1b6e9b88">
        <label>Figure 13</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 13 - Tweet datado de 1 de Julho de 2021. Último acesso: 12.12.2022.</title>
          <p id="paragraph-48775798a1d58fe11fb09864a67c3808">Fonte: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-3cb0dccb5b5d0977c1ae9e46203762cb" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figtreze.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-b5228ef46579857b00115a349688cdb8">Essa ideia de que a linguagem neutra escapa ao âmbito da língua nacional se radicaliza com a associação a uma língua inventada por um poder centralizador e autoritário, uma “novilíngua”, designação emprestada ao livro <italic id="italic-518b7f9bfde124a4a93d49f262d705b8">1984</italic>, de George Orwell, então frequente nas publicações do “canal conservador” <italic id="italic-619e38e170ff866ee8bb8e1d00555d13">Brasil Paralelo </italic>e reverberada exaustivamente nas redes, como no tweet de 11 de julho de 2022: “To relendo 1984 e foi impossível não fazer a associação entre a novilíngua e linguagem neutra”. </p>
      <p id="paragraph-d7afa9bf2f90aaf66fc966b22a78dd09">A radicalização está no argumento de que essa “novilíngua” concorreria com a língua nacional e com a “norma padrão” ou “culta”, isto é, com a língua oficial do país e com a língua de prestígio no ensino, no intuito de substituí-la. E esse intuito é também explicado em termos orwellianos por uma professora influenciadora bolsonarista num podcast divulgado no twitter em 03.11.2021<xref id="xref-1791c031fcedc9523632bc0fbabbdac0" ref-type="fn" rid="footnote-06b6724bec31cac218d53af620554b4a">8</xref>: “Vem muito mais de uma militância que tem o objetivo de modificar como a gente fala, depois como a gente pensa e depois como a gente age". Verifica-se, pois, nesse movimento de radicalização, o que descrevem Gal e Irvine (2019<xref id="xref-dbb80dc579557be212b06dbeb9bd9c27" ref-type="bibr" rid="book-ref-0af063c582181fa2424ebbe1f9a78b2b">[24]</xref>) e Irvine (2021<xref id="xref-56dd0d3aa91495d52091b118b54721d8" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-149a38b2356b807e0b378a96ceeebcdb">[8]</xref>) sobre constructos ideológicos enquanto “formulações que partem de suposições, envolvem processos semióticos e mobilizam projetos sociais” (IRVINE, 2021, p. 230<xref id="xref-40013d18c9e1d8f70a05eb6d73097c25" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-149a38b2356b807e0b378a96ceeebcdb">[8]</xref>).</p>
    </sec>
    <sec id="heading-e407b8f25e4c69561c4cbf206a07e6db">
      <title>4. Implicações do enquadre grafocêntrico</title>
      <p id="paragraph-65c036f64b01e9e1e3972c0a447e520d">Em função do enquadre grafocêntrico dado à questão da linguagem neutra no período aqui focalizado, passaram, então, a compor o tratamento dado ao tema pelos ativismos bolsonaristas, os seguintes processos de redução: redução da noção de linguagem, redução das funções atribuídas à língua, redução do conhecimento especializado sobre língua/linguagem, e redução das metapragmáticas da língua em uso, conforme descrito a seguir:</p>
      <p id="paragraph-a30df066a1c01841bc37b089e7914800">1. a redução sistemática da noção de linguagem (performance corporificada; semiose) à de língua (sistema abstrato, gramática; cultura alfabética).</p>
      <p id="paragraph-5">Os dois tweets a seguir são ilustrativos desse tipo de redução. No primeiro (Figura 14), são contrapostos dois sistemas linguísticos considerados diversos – a língua portuguesa e a linguagem neutra:</p>
      <fig id="figure-panel-0bcf9ed2c99ce8e01c2d6aca5363b865">
        <label>Figure 14</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-1f7d6cac06db85beeb500d717e2012df">FIGURA 14</bold> - Tweet datado de 20 de Julho de 2022. Último acesso: 22.05.23</title>
          <p id="paragraph-00b20267c4f594e5086044c7c8bae581"><bold id="bold-5e4c7b5137f6afe7938b8dc6963dd271">Fonte: </bold>Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-5dea24bb5eadae59d3a992dfebb63ea3" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figquatorze.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-84e399b1b22c0e77d4ff5cc989eb3bcd">   No segundo (Figura 15), são contrapostas duas modalidades tidas como legalmente excludentes – a norma culta da língua portuguesa e a linguagem neutra:</p>
      <fig id="figure-panel-483ab696f2c9b3ad14c48356d656b7fe">
        <label>Figure 15</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 15 - Tweet datado de 10 de fevereiro de 2021. Último acesso: 22.05.23.</title>
          <p id="paragraph-d75cfcd7de833335d7f861b56f1ddf93">Fonte: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-3e4d2d708eab15bcea381efefe83d8ad" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figquinze.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-63683b2c231ca22c2b8a7994feae3b24">2. a redução da função de representação (identidades não binárias), cara aos ativismos de gênero, à função de comunicação (transferência de informação) e de avaliação institucional (padronização regulada/promulgada institucionalmente). </p>
      <p id="paragraph-46dad5c1ee3bee6020b6a51e648bcf7e">Os dois tweets a seguir são ilustrativos desse tipo de redução. No primeiro (Figura 16), a regulamentação institucional apontada pelo internauta, e que exclui a linguagem neutra de “dentro” do português, é o “Acordo Ortográfico de 1990”:</p>
      <fig id="figure-panel-e5113e6b79b28424437c4a50a4e47f70">
        <label>Figure 16</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-1c5ee050cb01c30f773d71cbe2f4ed38">FIGURA 16</bold> - Tweet datado de 14 de junho de 2021. Acesso: 22.12. 2022.</title>
          <p id="paragraph-a2ff504b9cbbbc0e9cdde16662199af8"><bold id="bold-d2de60f452f1b269a4f61326aba7c7f2">Fonte: </bold>Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-77fc908fb5ee2728dd4bc0035cde6096" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figdezesseis.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-5a04236fb1b7a5cf8a578c7b2b4d1398">No segundo (Figura 17), são os requisitos da comunicação, vista pelos internautas como uma questão de simplicidade/simplificação, de lógica, de ortografia, de eficiência “sem bobagem e egoísmo”, que tornam a linguagem neutra uma complicação desnecessária, descabida mesmo:</p>
      <fig id="figure-panel-e541667fdb7c997f4e22382234768dd0">
        <label>Figure 17</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-3420d37100b288005ee2747b32e1069a">FIGURA 17</bold> - Tweet datado de 23 de junho de 2022. Acesso: 12.12.2022.</title>
          <p id="paragraph-38ef122c8e95d59e4d5288b4b4b11488"><bold id="bold-ec2fc50aeb39eb12e5b701687ba66d6b">Fonte: </bold>Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-62b12e68064c67758cca6793f6824f97" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figdezessete.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-90d3044e6c35bfe548eeb313ac405af8">3. a redução do conhecimento especializado sobre linguagem e língua ao conhecimento escolar dos manuais de língua portuguesa, exaustivamente reproduzido em diferentes plataformas por professores de português, assumindo o papel de influenciadores experts no assunto. </p>
      <p id="paragraph-5b6f7d980526216cd96e8549782b8bf4">É o que ilustram os dois tweets a seguir. No primeiro (Figura 18), o apelo a uma “base teórica” de sustentação para os projetos de proibição do uso da linguagem neutra por políticos bolsonaristas se traduz por um apelo à reprodução de noções e regras gramaticais articuladas à ideologia grafocêntrica de uma “língua-pátria” unificada e, com frequência, à estratégia de estabelecimento de eixos em contraste que dividem e hierarquizam os falantes de acordo com o uso de formas linguísticas (IRVINE, 2022, p. 231).</p>
      <fig id="figure-panel-332195ae58d8661b42c484a809eb7b78">
        <label>Figure 18</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-f8420e6aa046281b1f5d6553f717ac63">FIGURA 18 </bold>- Tweet datado de 8 de abril de 2022. Acesso: 12.12.2022</title>
          <p id="paragraph-6fb0daa8c6101acf92be9d4ee1086d14"><bold id="bold-a0fb36529481047c741ef29b7d0d5040">Fonte: </bold>Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-dd09b448ae8c31d7dfc536d6fe23750d" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figdezoito.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-ff79afc42303b92276faf59cc538af8f">No segundo tweet (Figura 19), a linguagem de “uma turminha sem noção” é vista como uma “aberração”, sobretudo uma ameaça à expertise que qualifica e legitima a autoridade dos professores de português:</p>
      <fig id="figure-panel-9a7bf38c8c16968c36cd94c4069d5e93">
        <label>Figure 19</label>
        <caption>
          <title>FIGURA 19 - Tweet datado de 18 de novembro de 2021. Acesso: 12.12.2022.</title>
          <p id="paragraph-4631f603d054cf3834c8896889bbc50a">Fonte: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-856450062060f63e36b4047bb8c2b222" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figdezenove.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-a8b69e5e08ad5bd097d3285a49f0a61b">4. a redução da pluralidade das metapragmáticas da língua em uso, articulada à diferenciação das formas e usos em níveis e escalas em relação à língua padrão (variação linguística) e a padrões diferenciadores de ordens sociopragmáticas de poder e autoridade (polarização diglóssica<xref id="xref-4e5a094ac0d2562a7a2b90c4d6240b17" ref-type="fn" rid="footnote-4ac018f586bce8f1b8e5744a9ce9cd7b">9</xref>; hierarquização dos falantes). Assim, a variação linguística (variação de formas a serem, ou não, incorporadas ao sistema linguístico) é reduzida a falar certo e falar errado. No mesmo eixo contrastivo se dá a hierarquização dos falantes: quem tem condições de falar e quem deve ficar calado.</p>
      <p id="paragraph-984c111d26002a9237347b0c381d5fc2">Os dois tweets a seguir são ilustrativos desse tipo de redução. No primeiro (Figura 20), a linguagem neutra é considerada uma não linguagem, ou uma linguagem desautorizada institucionalmente, na medida em que indexa, segundo o internauta, a condição marginal, irrelevante, ou mesmo irreal do grupo que a reivindica (um “nicho queer do twitter”, os professores): </p>
      <fig id="figure-panel-965686d37ea689b6ab71bcc88fabe81a">
        <label>Figure 20</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-40058ca3d8e6c3e6895026fa0f669687">FIGURA 20</bold> - Tweet datado de 4 de Maio de 2021. Último acesso: 12.05.2023.</title>
          <p id="paragraph-47fef6b2c5272a038439c28282794958"><bold id="bold-e6238b7a5dafe11371662b12a7f25a12">Fonte: </bold>Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-406e27316de49f3ec9e17fd8a9e4edd8" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figvinte.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-8f20f8f8eb96411910ac4d04d47d0c15">No segundo tweet (Figura 21), a aprovação do projeto municipal de proibição do uso da linguagem neutra é apresentada como uma vitória sobre os que a reivindicam ou defendem e que devem ser “barrados”, silenciados: um “dialeto não binário” é uma não língua:</p>
      <fig id="figure-panel-2418bbf3dab2f1b11e06586c9cd35898">
        <label>Figure 21</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-27842d785a052e29954df5075cd948da">FIGURA 21 </bold>- Tweet datado de 1 de julho de 2022. Último acesso: 12.05.2023</title>
          <p id="paragraph-0bdad81d45a454e0c91d747377343d90"><bold id="bold-fd4b34d7ebcc19cc90a0f0d1ba1311e2">Fonte</bold>: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-03b1c0fd75ec4f3737f011408ee5f945" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figvinteeum.png" />
      </fig>
    </sec>
    <sec id="heading-2bffd363b9792a6ed9a759d3db1d905d">
      <title>5. As contribuições dos estudos linguísticos incorporados à discussão no Twitter</title>
      <p id="paragraph-14b6145d889248ac6bcabd6d204870c6">No intuito de equacionar e esclarecer o que seria linguagem neutra e porque ela estava sendo criticada e até proibida pelos ditos conservadores nas redes, muitos internautas, sobretudo estudantes e professores/as de Letras e Linguística se valeram da noção de variação e mudança linguísticas associadas à de preconceito linguístico, segundo a tradição sociolinguística variacionista. O que significa compreender a linguagem neutra como uma modalidade “informal” da língua portuguesa e, portanto, sujeita à mesma dinâmica de outras modalidades da língua que, embora “vivas”, no sentido de utilizadas por falantes no país, ainda não integram a norma padrão culta da língua. Sendo assim, a linguagem neutra está sujeita ao mesmo “preconceito linguístico” que as demais modalidades de menor prestígio, e ainda não incorporadas à norma (escrita ou veicular) prestigiada pela escola e demais instituições. Mais raramente, são expandidas as referências aos estudos linguísticos, com alusões às noções de linguagem e discurso, ou seja, não restritas à de língua como sistema ou gramática. </p>
      <p id="paragraph-d774115d4f2d4fa3812843cd5b776e3e">Os dois tweets abaixo foram extraídos de discussões envolvendo tanto apoiadores quanto contrários ao uso da linguagem neutra. São representativos do equacionamento dado à questão à luz dos estudos sociolinguísticos e em resposta à afirmação reverberada no sistema bolsonarista de que “linguagem neutra não existe”. </p>
      <p id="paragraph-77f858a3e2c3f5f29652bcf9fe0b6cfe">No primeiro tweet (Figura 22), o apelo à teoria linguística visa a sustentar as seguintes afirmações: a de que a linguagem neutra existe, pois é falada; é uma variação linguística e, como tal, deve ser respeitada; e é de natureza oral e não escrita, escapando, portanto, aos parâmetros normativos parametrizados pela escrita:</p>
      <fig id="figure-panel-04266c2da61b86d6537fa28e44838672">
        <label>Figure 22</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-a9cc141c50359c045ddeaf4a5f3169f6">FIGURA 22 </bold>-Tweet datado de 29 de Maio de 2022. Acesso: 12.12.2022.</title>
          <p id="paragraph-4b9c19060eb9f02635d226e4820400fb"><bold id="bold-0b7a7799bb3d6d83b65149f74fec70ac">Fonte</bold>: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-92b5f443fb04a04ee145b8f248ef3719" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figvinteedois.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-6241e5587446ed29fcf4b2dd0dc63b00">No segundo tweet (Figura 23), a mesma noção de variação linguística mobilizada no exemplo anterior vai sustentar a afirmação de que a linguagem neutra não é uma variação linguística porque é uma linguagem artificial (não surgiu naturalmente), o que é refutado pelo segundo internauta:</p>
      <fig id="figure-panel-57dc0814d75c63341aaef2a28b3d08ea">
        <label>Figure 23</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-f94f257c03bc5d08871d438f10bbd11e">FIGURA 23 </bold>- Tweet datado de 12 de Maio de 2021. Acesso: 12.12.2022.</title>
          <p id="paragraph-664cd07a96c809e98409c99fb817a24e"><bold id="bold-a9573937423eac6d0d47fe9f2a1a2c3c">Fonte</bold>: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-a8cbf7ae7d75dd2c3bd78b6bd6c4e8d8" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figvinteetres.png" />
      </fig>
    </sec>
    <sec id="heading-dbcf230448ff21ccc9d17f38fb6526b4">
      <title>6. Discussão e considerações finais</title>
      <p id="paragraph-8e9e58c6bf421ad0fe63b10d7aabe75f">Conforme descrito nas seções anteriores, a questão da linguagem neutra, tal como foi discutida no Twitter no período focalizado, encena uma disputa que, na maior parte das vezes, mantém fora de foco sua razão de ser, que é a demanda de visibilidade e voz por parte de uma comunidade minoritária que tensiona a língua portuguesa em sua capacidade tanto de representá-la (políticas identitárias de gênero), quanto de criar realidades que favoreçam sua emancipação sociopolítica e econômica (políticas de inclusão). Ao concentrar seus recursos em iniciativas orquestradas de afirmação da falta de legitimidade de uma língua dita inventada para concorrer com a língua nacional, o sistema bolsonarista ao mesmo tempo em que mantém a questão em pauta (projetos de lei muito parecidos, quando não com as mesmas palavras<xref id="xref-48037e57f630e29ff79390e9c7cedbf2" ref-type="fn" rid="footnote-90e3bffba579faa281617ca52b6c5f5f">10</xref> que vão se sucedendo em todo o país e que alimentam as conversas na rede), impede que ela se torne, de fato, uma questão real (“linguagem neutra não existe”) e legítima (“linguagem neutra é erro de ortografia”) na cena pública. O fato de grande parte dos projetos de lei e decretos de proibição dos usos da linguagem neutra terem sido considerados inconstitucionais depois de aprovados em plenário aponta justamente para o caráter estratégico dessa movimentação envolvendo políticos da maioria dos Estados brasileiros. </p>
      <p id="paragraph-0c105c19003dc23fd4490dacdec0d2f6">E quem vai mais claramente justificar o apagamento de vozes minoritárias no debate público é a então deputada estadual Ana Campagnolo<xref id="xref-832f5e4c3b0faa6fcca3d57d3701305b" ref-type="fn" rid="footnote-a59e37468fa1ca3136b2d789c7bef231">11</xref> do Partido Liberal (PL) de Santa Catarina, numa entrevista videogravada sobre o projeto de lei de sua autoria que “estabelece medidas protetivas aos estudantes de Santa Catarina ao aprendizado da Língua Portuguesa de acordo com a norma culta e orientações legais”<xref id="xref-2a688705752c4b83f23d89b05a271349" ref-type="fn" rid="footnote-d19572934efa38001602d02f424101a3">12</xref></p>
      <p id="paragraph-15d17389e16d1350afcfd889bf3d3df6">Ao comentar a participação de ativistas pró-linguagem neutra em uma audiência pública realizada na Câmara Municipal de Belo Horizonte por um vereador do mesmo partido e autor de outro projeto de proibição dos usos da linguagem neutra no município, ela assim descreve como vê os jovens “de hoje”:</p>
      <p id="paragraph-1830e0fdd02aa5e149c82eed06f99761">por que hoje, os nossos adolescentes eles estão tão vazios por dentro e tão enfeitados por fora! (...) o excesso de informação exterior, o excesso de performance, inclusive a própria Judith Butler fala isso: como é que nós vamos combater a heteronormatividade? Pra quê combater a heteronormatividade, cara? as pessoas nascem assim, né? Mas é uma bandeira deles (...) então você vê o jovem hoje, ele cria um monte de firula pra falar, ele cria um monte de termos novos pra se comunicar, não se comunica da forma básica (...) a mesma coisa a vestimenta: você vai conversar com o cara, por dentro, ele é extremamente vazio, é deprimido, ele se mutila, ele sofre, não tem objetivo de vida, ele não tem propósito de vida, o cara tá vazio por dentro, mas por fora o cara tá todo enfeitado. Então, assim, é uma era do espetáculo (...) E eles querem fazer isso com o idioma, cara! Isso me revolta muito. (<ext-link id="external-link-1ef3775b5d83c43ac93cfa184b7c4482" ext-link-type="uri" xlink:href="https://youtu.be/zAy1E4Ha8QI">https://youtu.be/zAy1E4Ha8QI</ext-link> Acesso em 20.12.22) </p>
      <p id="paragraph-d3ae0863af010a8cffb266a8537cba41">É interessante observar nessa descrição dos “nossos adolescentes”, dos “jovens de hoje”, uma série de reduções: da performance enquanto linguagem corporificada, enquanto semiose, ao “enfeite”, à “firula”, ao “espetáculo” vazio. Assim, a linguagem neutra torna-se mais um adereço, um “enfeite” para cobrir o “vazio”, o sofrimento, a depressão, a desorientação de quem a usa. A referência a Judith Butler e à “bandeira” de combate à heteronormatividade, assim como à Sociedade do Espetáculo (DEBORD, 2003<xref id="xref-dac383275f6f27858f6c5fa0c4f852a8" ref-type="bibr" rid="book-ref-5f6a19703c0d3fad8fb7c97e5b8a6b93">[25]</xref>) traz para a discussão um ponto de vista de inspiração acadêmica e dá especificidade ao que havia genericamente chamado de adolescentes e jovens “de hoje”: a desqualificação é a da comunidade LGBTQIA+, apesar de não nomeada enquanto tal, como interlocutora válida numa discussão com representantes do Estado.</p>
      <p id="paragraph-6">E essa desqualificação vai se reproduzir também por redução da não binariedade de gênero à homossexualidade (referência a sexo e não a gênero), um tema explorado em vídeos e palestras pela deputada Campagnolo e outros porta-vozes do sistema bolsonarista, e reverberada exaustivamente na rede. </p>
      <p id="paragraph-7">Conforme apontam nossas análises, verifica-se que a ideologização do campo sociolinguístico resultou numa reconfiguração das variedades linguísticas em torno de dois eixos contrastivos (IRVINE, 2021<xref id="xref-4df55171375f3f4f43b6135f08819d12" ref-type="bibr" rid="journal-article-ref-149a38b2356b807e0b378a96ceeebcdb">[8]</xref>), feitos de oposições simplificadas e genéricas, e de processos de iconização, projeção recursiva e apagamento (IRVINE; GAL, 2009<xref id="xref-3000f1e57d6e2474d7c4177bf7e60f5d" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-bf92c867dc7dc006ba0132c52198513e">[6]</xref>). De um lado, o eixo da língua legítima, referendada pelas instituições e que adquire função icônica, ou seja, passa a representar a própria língua nacional e, por extensão, dá legitimidade também aos indivíduos e grupos que reproduzem o metadiscurso de sustentação dessa relação de iconicidade (IRVINE; GAL, 2009<xref id="xref-c04c674e040c61d4e636cf0514fbd7f2" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-bf92c867dc7dc006ba0132c52198513e">[6]</xref>), mas que não necessariamente reproduzem a variedade tida como icônica. É o que observa o internauta no tweet abaixo (Figura 24):</p>
      <fig id="figure-panel-13e4899dd59efb0404cd562ffdd485a0">
        <label>Figure 24</label>
        <caption>
          <title><bold id="bold-9ea770323d040e1a1a5617df2e682d76">FIGURA 24 </bold>- Tweet datado de 8 de julho de 2021. Acesso: 12.12.2022.</title>
          <p id="paragraph-2d6c8dd238cbb361949c118e70048020"><bold id="bold-fcb72e75f308e6617ce4795625e37a68">Fonte</bold>: Twitter.</p>
        </caption>
        <graphic id="graphic-4bc691cfe4060c6facb42ac27bbb8ca5" mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="figvinteequatro.png" />
      </fig>
      <p id="paragraph-8cd71019057778aaa32f04471dbc94a0">A essa língua legítima se contrapõe a linguagem neutra enquanto uma língua ilegítima porque inventada por minorias marginais na cena pública. Conforme apontam Irvine e Gal (2009), através de um processo de “recursividade fractal”, as dicotomias e divisões estabelecidas em nível das formas e repertórios linguísticos são reproduzidas em outros níveis, como no caso das divisões e hierarquizações entre os cidadãos “de bem”, respeitosos da língua nacional/norma culta/língua padrão e os que criam “firula pra falar”, que não se comunicam “da forma básica”, que não têm “objetivo de vida”, nos termos da deputada Campagnolo, na citação acima. E esse é um processo importante porque, conforme enfatizam Irvine e Gal (2009<xref id="xref-1685b7af17c856f54ad65ac073ab5681" ref-type="bibr" rid="chapter-ref-bf92c867dc7dc006ba0132c52198513e">[6]</xref>), cria-se um Outro imaginário, simplificado e essencializado, em oposição ao qual se firmam as identidades “genuínas”. Um outro a ser combatido, ou a ser eliminado. A nível do simbólico, é através do processo de apagamento/combate/eliminação da linguagem neutra que vão perdendo visibilidade as reivindicações do grupo minoritário julgadas ilegítimas (“aberração”), inconsistentes (“firula”), irreais (“bobagem” esquerdista, “idiotice” de internet).</p>
    </sec>
    <sec id="heading-7ee2fdf9528b7967fb4e79251da05660">
      <title />
    </sec>
    <sec id="heading-15675f145a7e9616e82d5db42e6e7707">
      <title>Informações complementares</title>
      <p id="paragraph-f3fa35510d3d0e4eb8c67a11c6b9f08d">Avaliação e resposta dos autores</p>
      <p id="paragraph-15b9f20dd09eb6f857558b15efc7a99d">Avaliação: <ext-link id="external-link-d05e441bb67c1d96a4ab5ea6c9c8551e" ext-link-type="uri" xlink:href="https://doi.org/10.25189/rabralin.v22i1.2143.R">https://doi.org/10.25189/rabralin.v22i1.2143.R</ext-link></p>
      <p id="paragraph-fe084ce2557f2d1d7c0a90fd9fed8b85">Editora: Raquel Freitag</p>
      <p id="paragraph-7b30eac2605c856ab1c1f9593dfb1dee">ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4972-4320</p>
      <p id="paragraph-60b434ea37bcbe77efd2e7dea554a6b5">Afiliação: Universidade Federal de Sergipe</p>
      <p id="paragraph-be07b9951364866eefe694fea0630546" />
      <p id="paragraph-50732f2ad30f626a48c7761ccbf2e480">RODADAS DE AVALIAÇÃO</p>
      <p id="paragraph-d4010df52e15cdac4f43003529827c0d">RODADA 1</p>
      <p id="paragraph-df353646b8411cba04972946d6d7eb6c">Avaliadora 1: Julia Lourenço</p>
      <p id="paragraph-5474b6eb98c9b25fd7bc6ad5cc87c0ae">ORCID: <ext-link id="external-link-4b9acebcc4ed8903887eda6a9c1e9955" ext-link-type="uri" xlink:href="https://orcid.org/0000-0001-8571-8879">https://orcid.org/0000-0001-8571-8879</ext-link></p>
      <p id="paragraph-670ecf65ee976791fe8555fa5afcfb41">Afiliação: Universidade de São Paulo</p>
      <p id="paragraph-ad887a74b13ecbd80e0c3dfed44e372b">Tanto a escolha do tema "linguagem neutra", quanto o corpus analisado, extraído da rede social twitter têm relevância de uma perspectiva teórica e também social. O texto é bem redigido e atende ao gênero "relato de pesquisa", apresentando, com base nos dados coletados, uma reflexão, teoricamente embasada, sobre o"populismo algorítmico" bolsonarista e as polêmicas geradas em torno de projetos delei sobre o uso da linguagem neutra, os posicionamentos de especialistas sobre o tema e a consequente redução da visibilidade do grupo minoritário nela representada. Contudo, a apresentação dos dados é inconsistente. A começar pela fonte de algumas das figuras apresentadas, que consta apenaso site "https://twitter.com" (Figura 1) ou apenas "Fonte: Twitter" (figuras 2 a 10, porexemplo), sem indicar o link completo das publicações. A figura 1 (p. 5), ainda,apresenta cinco capturas de tela diferentes, sem especificar essa informação. Muitasdas chamadas "figuras" que compõem o corpus do relato de pesquisa são transcriçõesdo texto verbal publicado na rede social twitter, tal como a "figura 2" e as "figuras 26 e 27". Além disso não há padronização no modo de apresentar os dados, por vezes hátambém uma captura incompleta de tela (como na figura 12).</p>
      <p id="paragraph-8a58bcff5dfc34b1bc73755ac20acb61">Ainda que a argumentação e análises do texto tenham certa consistência, ocorpus deve ser melhor apresentado e sistematizado, para que haja maior coesão. Há um grave problema gerado pela falta de padronização de apresentação do corpus, o que reflete a compreensão das autoras sobre a rede social twitter não como umambiente de produção de textos sincréticos, uma vez que apenas o texto verbal émuitas vezes recortado. A figura 28, na página 18, sintetiza a questão. A seguir duas imagens, umacom o modo como o trecho é recortado da rede e apresentado no texto, e o original do twitter.</p>
      <p id="paragraph-f15dbbee0e7b2bd5a82c6f08f99e03d1">Para além de uma escolha de metodologia de pesquisa, a inconsistência naapresentação dos dados prejudica a leitura, progressão e compreensão do relato depesquisa. Dessa forma, o texto deve ser revisado, padronizando e tambémsistematizando o corpus considerado, para apresentá-lo com menos redundâncias emais articulado à teoria mobilizada. </p>
      <p id="paragraph-3f29668d8775bebf7b16936d6ed5e0d5" />
      <p id="paragraph-16fd86694d551d17a04e2062ad084070">Avaliador 2: Samuel Ponsoni </p>
      <p id="paragraph-440989a92c66b29246fabe1965f7af63">ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9802-3267</p>
      <p id="paragraph-9526f489afa4394d3fe41b08b13f95d5">Afiliação: Universidade Federal de Minas Gerias</p>
      <p id="paragraph-dcd874a9c5d2baf31e8ea51d87664263">O relato de pesquisa em questão faz uma discussão bastante acertada e precisa em relação à chamada linguagem neutra. Partindo de um espaço em que esses discursos habitam e têm bom palco de observação e compreensão, ou seja, a rede social Twitter, as autoras buscam refletir diversos processos de uma pesquisa que empreenderam, sejam pelos aspectos teóricos, sejam pelos aspectos metodológicos, a fim de chamar atenção em como a língua faz-se de um espaço sobretudo político-ideológico, em que diversas disputas ganham formas e conteúdos em sentidos e efeitos de sentidos. Portanto, do ponto de vista da importância política, social, e os trabalhos científico precisam levar em conta tal dimensão, o trabalho traz grande importância.</p>
      <p id="paragraph-b01be96793e2c6eb759c0e0ffe0b37b2"> Diante desses aspectos sociais, as autoras, então, relatam análises de algoritmos que organizam os debates e mesmo os usos de linguagem neutra, como processo discursivo de luta pelas identidades ideológicas. Não à toa, autores e autoras como Fanny Georges, Dominique Cardon, Marie-Anne Paveau, Giuliano da Empoli, entre outros, vão dar grande destaque ao "poder" dos algoritmos, pelos rastros e direcionamentos que eles criam. Isto é, produzem "identidades calculadas", por meio de "controladores que, no limite, nos constroem. "</p>
      <p id="paragraph-db04878a590d8cb089a2286bba8c3023"> Ainda assim, gostaria de ressaltar que, do ponto vista teórico, é difícil julgar um relato de pesquisa com a justiça e discernimento corretos. Neste gênero, sem um acompanhamento mais longo, não se tem considerações mais profundas. Ainda assim, sugeriria às autoras que desenvolvessem melhor os conceitos metadiscursivos/metapramáticos no trabalho a ser publicado, os quais, aparentemente, são conceitos que as autoras mobilizam há algum tempo, mas, como leitor leigo e sem mais acessos, senti falta de uma explicação mais densa sobre. Além disso, faria uma revisão redacional/gramatical: há períodos longos, repetidos; falta de acentuação em algumas palavras; uma revisão da organização do corpus da pesquisa, com as imagens e textos extraídos do Twitter, também seria bem-vinda.</p>
      <p id="paragraph-4">Em suma, sugiro a publicação deste relato.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-2">
      <title>Conflito de Interesse</title>
      <p id="paragraph-f7d1560605733313eabb01aa01ca0275">As autoras não têm conflitos de interesse a declarar.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-5">
      <title>Link para ,[object Object]</title>
      <p id="paragraph-8">
        <ext-link id="external-link-2308f0b483bc4b36f0ed8f0d456dad8e" ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.researchgate.net/publication/371079978_LINGUAGEM_E_ECONOMIA_POLITICA_EM_ATIVISMOS_NO_TWITTER_SOBRE_O_USO_DE_'LINGUAGEM_NEUTRA'_LANGUAGE_AND_POLITICAL_ECONOMY_ON_TWITTER_ATIVISM_ABOUT_NEUTRAL_LANGUAGE_Relatorio_de_Pesquisa">https://www.researchgate.net/publication/371079978_LINGUAGEM_E_ECONOMIA_POLITICA_EM_ATIVISMOS_NO_TWITTER_SOBRE_O_USO_DE_'LINGUAGEM_NEUTRA'_LANGUAGE_AND_POLITICAL_ECONOMY_ON_TWITTER_ATIVISM_ABOUT_NEUTRAL_LANGUAGE_Relatorio_de_Pesquisa</ext-link>
      </p>
    </sec>
    <sec id="heading-6">
      <title>Protocolo e Pré-Registro de Pesquisa</title>
      <p id="paragraph-12">Avaliando os roteiros propostos pela <ext-link id="external-link-3" ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.equator-network.org/toolkits/selecting-the-appropriate-reporting-guideline/">Equator Network</ext-link><underline id="underline-1">,</underline> consideramos que nenhum deles se mostra relevante para a pesquisa em tela. Também informamos que a pesquisa desenvolvida não foi pré-registrada em repositório institucional independente. <bold id="bold-2"/></p>
    </sec>
    <sec id="heading-7">
      <title>Declaração de Disponibilidade de Dados</title>
      <p id="paragraph-16">Os dados, códigos e materiais que suportam os resultados deste estudo estão disponíveis para consulta sob demanda em drive institucional de responsabilidade das autoras.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-8">
      <title>Agradecimentos</title>
      <p id="paragraph-20">Agradecemos aos colegas Pedro M. Garcez (UFRGS), Margarete Schlatter (UFRGS), Neiva M. Jung (UEM) e Daniel N. Silva (UFSC) pelas contribuições a uma versão anterior deste artigo.</p>
    </sec>
    <sec id="heading-9">
      <title>Fontes de financiamento</title>
      <p id="paragraph-24">Bolsa PQ CNPq no. 303322/2022-5 e projeto Universal CNPq no. 404390/2021-8</p>
    </sec>
  </body>
  <back>
    <fn-group>
      <fn id="footnote-1a81e6fcb4158bf46b386ff4407ee25e">
        <label>1</label>
        <p id="paragraph-0b908f071c7ccbed6b6f8514f06e2b34">Esse é um aspecto também apontado por alguns usuários da rede no período: “A mamadeira de piroca virou os nao binaries e a linguagem neutra parabens a todos os envolvidos a tirarem esse pauta do twitter” (tweet datado de 28 de junho de 2022).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-6712d8d46a497456f4ef27802aa98392">
        <label>2</label>
        <p id="paragraph-dd6cb9a334a36d0c434f247ff5777289">São projetos semelhantes, pois seguem um mesmo modelo, colocado à disposição para cópia, como explicitado pela então deputada estadual catarinense Ana Campagnolo em entrevista videogravada, disponível em: <ext-link id="external-link-1" ext-link-type="uri" xlink:href="https://youtu.be/zAy1E4Ha8QI">https://youtu.be/zAy1E4Ha8QI</ext-link> . Acesso em 20.12.22.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-cfbe9b49fa7e9e70faa6ed1f50562aa4">
        <label>3</label>
        <p id="paragraph-da0777534a53e50ec61020f6a80fe2f4">Na transcrição, observamos os critérios de anonimização de perfis não públicos previstos no Guia ético para pesquisas em redes sociais da Universidade de Aberdeen. Disponível em: <ext-link id="external-link-7b7982a03dc8ef747599ab67b3a81acb" ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.gla.ac.uk/media/Media_487729_smxx.pdf">https://www.gla.ac.uk/media/Media_487729_smxx.pdf</ext-link>. Acesso: 12.12.2022. Perfis públicos, como no caso de representantes eleitos em nível municipal, estadual e federal, não foram anonimizados.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-e8fda40d57efd5ff048c4cf0daeadc83">
        <label>4</label>
        <p id="paragraph-4cfad08cc552da53eea3c285b6147432">O corpus estudado não abrange, porém, o conjunto de todas as mensagens postadas que circularam no período e que direta, ou indiretamente, trataram do tema. Cumpre salientar ainda que grande número de tweets e de sequências de tweets sobre o tema desapareceram da plataforma após a derrota bolsonarista nas eleições de 2022. </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-ca571e6e70c6a52103ad29c5fb6ebd41">
        <label>5</label>
        <p id="paragraph-f54a24217eda8206b016577e9301df2f">O Plano Nacional de Educação (PNE) foi sancionado em 2015, lei 13.005/2014. (BRASIL. Plano Nacional de Educação 2014-2024: Lei no 13.005, de 25 de junho de 2014).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-581c15c0ccf72c0fee13618318526ed9">
        <label>6</label>
        <p id="paragraph-0fba50b07f09e43dd700266d2ebfd0df">São categorizações identitárias dadas com base em atribuições que evocam e articulam “valores centrais de um grupo ou de um sistema”, contribuindo para processos de homogeneização que reproduzem indexicalidades próprias de atores específicos, o que, por sua vez produz sentimentos de pertencimento a grupos específicos (Blommaert, 2006, p. 520).</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-a76032fdc9a7e56c41d307b503ff2242">
        <label>7</label>
        <p id="paragraph-aa0aa056f5958de86f41c80e781e7572">Segundo informações da plataforma, uma das contas está “suspensa” e a outra “não existe mais”. O último acesso à troca de mensagens citada foi em 30.10.2021.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-06b6724bec31cac218d53af620554b4a">
        <label>8</label>
        <p id="paragraph-673e5b78863119e7372dde172e3c4637">Disponível em: <ext-link id="external-link-9417e39b6dc6a4f687fb56528fe8e60c" ext-link-type="uri" xlink:href="https://twitter.com/opiniaoredetv/status/1455915550190809089">https://twitter.com/opiniaoredetv/status/1455915550190809089</ext-link>. Último acesso: 22.05.23.</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-4ac018f586bce8f1b8e5744a9ce9cd7b">
        <label>9</label>
        <p id="paragraph-d04e17d3a19713b13189477b4143f544"><ext-link id="external-link-2" ext-link-type="uri" xlink:href="#_ftnref1"/> “Trata-se da distinção e contraposição, em campos separados e excludentes, de duas grandes linhas de força orientando os movimentos moleculares da língua em uso: uma, centrípeta, de consolidação do valor regulador e legitimador atribuído à norma unificadora ou “padrão”, e outra, centrífuga, de tensionamento, suspensão e subversão desse valor.” (Signorini, 2006b: 173).  </p>
      </fn>
      <fn id="footnote-90e3bffba579faa281617ca52b6c5f5f">
        <label>10</label>
        <p id="paragraph-9df2bb0ad6810db8e3885dad3c14a610">Numa entrevista bastante divulgada no Twitter e outras plataformas, a já mencionada deputada Ana Campagnolo, do PL de Santa Catarina, colocava à disposição de outros políticos os textos de seus projetos para serem copiados “sem medo nenhum”, “sem precisar dar crédito”, “só adaptar para sua cidade, seu estado” (entrevista videogravada, disponível em: <ext-link id="external-link-34b4873982e5801194c0ca4dbe871bf3" ext-link-type="uri" xlink:href="https://youtu.be/zAy1E4Ha8QI">https://youtu.be/zAy1E4Ha8QI</ext-link> Acesso em 20.12.22)</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-a59e37468fa1ca3136b2d789c7bef231">
        <label>11</label>
        <p id="paragraph-9d166b15f8acfd11e80f2e3f0d2cc452">A deputada reelegeu-se nas eleições de 2022 como a mais votada do Estado (cf. <ext-link id="external-link-94a6a3e4582d65907f1eaf7077f29b94" ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.jdv.com.br/ana-campagnolo-e-a-deputada-estadual-mais-votada-em-sc-nas-eleicoes-2022/">https://www.jdv.com.br/ana-campagnolo-e-a-deputada-estadual-mais-votada-em-sc-nas-eleicoes-2022/</ext-link>)</p>
      </fn>
      <fn id="footnote-d19572934efa38001602d02f424101a3">
        <label>12</label>
        <p id="paragraph-29d7b47cebcfe56bd8f7fc24ca14607a">disponível em: <ext-link id="external-link-9bebdeebb36234c0f76b4b7bbbef574e" ext-link-type="uri" xlink:href="https://youtu.be/zAy1E4Ha8QI">https://youtu.be/zAy1E4Ha8QI</ext-link> Acesso em 20.12.22</p>
      </fn>
    </fn-group>
    <ref-list>
      <ref id="conference-paper-ref-24f2755a3ac9c7aca3459639ca4a4f75">
        <element-citation publication-type="confproc">
          <conf-name>QUINTO CONGRESO LATINOAMERICANO DE GLOTOPOLÍTICA</conf-name>
          <conf-loc>Universidad de la República. Montevideo</conf-loc>
          <fpage>25</fpage>
          <lpage>27</lpage>
          <month>Julho</month>
          <page-range>25-27</page-range>
          <year>2022</year>
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          <article-title>El lenguaje inclusivo en la disputa por la hegemonía discursiva</article-title>
        </element-citation>
      </ref>
      <ref id="article-ref-50bab076fb5664a700c78676f0d4d0fa">
        <element-citation publication-type="article">
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          <year>2018</year>
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          <article-title>Trump’s Tweetopoetics</article-title>
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        <element-citation publication-type="chapter">
          <fpage>510</fpage>
          <lpage>522</lpage>
          <page-range>510-522</page-range>
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          <volume>6</volume>
          <year>2006</year>
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              <named-content content-type="name">BRASIL</named-content>
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          <article-title>Plano Nacional de Educação 2014-2024: Lei no 13.005, de 25 de junho de 2014, que aprova o Plano Nacional de Educação (PNE) e dá outras providências</article-title>
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      </ref>
      <ref id="conference-paper-ref-88e5bf7b4a8565b7d579d0de82a26172">
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          <lpage>55</lpage>
          <month>Julho</month>
          <page-range>55</page-range>
          <year>2022</year>
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          <article-title>El género gramatical femenino como herramienta identitaria en la comunidad de habla LGTBI</article-title>
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